Showing posts with label avaliação. Show all posts
Showing posts with label avaliação. Show all posts

Sunday, 25 September 2016

O impacto tem nome: pode ser Telmo ou Rafael ou Gustavo...

Telmo Martins, membro da Orquestra Geração (Foto: Maria Vlachou)

Há uns anos, vi o documentário Waste Land (Lixo Extraordinário)
. Era sobre o trabalho do artista plástico brasileiro Vic Moniz com os catadores de lixo no maior aterro do mundo, o Jardim Gramacho, na periferia do Rio de Janeiro. Moniz disse que queria mudar a vida de um grupo de pessoas com os mesmos materiais com que elas lidam todos os dias. Juntos, usaram lixo para criar grandes retratos dos próprios catadores, que foram depois vendidos em leilão e o dinheiro distribuído entre os catadores. Os trabalhos foram apresentados em exposições em vários museus de arte contemporânea.

Sunday, 24 July 2016

Gerir museus

Imagem retirada do Facebook do Museu Nacional de Arte Antiga

A reclamação de um novo estatuto jurídico, de um estatuto especial, por parte do Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA) tem resultado num debate muito saudável no meio dos museus, sobretudo (e infelizmente) depois do anúncio do Ministro da Cultura que este estatuto irá mesmo ser atribuído. Independentemente das críticas, positivas ou negativas, que temos a fazer sobre este caso e sobre este processo, não há dúvida que devemos este debate, muito necessário, ao MNAA, ao seu director, António Filipe Pimentel, e a toda a equipa do museu*.

Saturday, 28 May 2016

Primeiro no nosso coração

Imagem cedida pelo Museu Nacional Soares dos Reis
De que forma poderíamos definir o ‘primeiro’ museu? Será aquele que melhor cumpre a sua missão? Ou aquele em que pensamos primeiro quando ouvimos a palavra ‘museu’ (o sonho de qualquer marketeer)? Será aquele que tem a maior colecção ou aquele que tem a melhor colecção? Será aquele que faz mais exposições? Será o ‘primeiro’ museu aquele que produz muitas notícias para os media, mas continua a trabalhar para a mesma elite? Ou será aquele que raramente é notícia, mas que trabalha para diversificar as suas ‘elites’? Qual deles merece ser considerado ‘primeiro’? E quem atribui a ‘primacia’, o museu a si próprio ou os destinatários, reais e potenciais, da sua acção?

Monday, 2 February 2015

O que sabemos e o que não fazemos


Nas últimas semanas, tive a oportunidade de conversar com alguns colegas em relação a certas questões de acessibilidade nas suas exposições. Coisas como legendas mal iluminadas, mau contraste entre letras e fundo, legendas colocadas demasiado baixo, objectos expostos a um nível elevado e sem inclinação, textos longos e complicados. Acredito que estas são questões que podem ser facilmente resolvidas, sem qualquer investimento adicional, apenas com um algum planeamento prévio e a preocupação de não excluir. Na verdade, quando as exposições são projectadas para ser inclusivas, não só não custam mais, como podem, realmente, trazer mais receita, uma vez que mais pessoas terão acesso às mesmas.

Senti-me um pouco confusa quando as pessoas que abordei me disseram que sabiam tudo sobre as questões que levantei. Porque é que as coisas aconteceram dessa maneira, então? É possível que nós estejamos a criar conscientemente barreiras ao conteúdo das nossas exposições? Porque é que as fazemos, então, se não para as pessoas as poderem apreciar?

Sinto a mesma perplexidade em conferências ou cursos de formação, quando discutimos questões de gestão, comunicação, marketing, serviços ao visitante, educação, etc. Às vezes, alguns colegas aproximam-se e dizem: "Temos estado a dizer aos nossos superiores o que acabaste de dizer há anos e anos. "

Assim, parece que não faltam profissionais de museus (incluindo os vigilantes) que estão conscientes de uma série de pequenos e grandes problemas de gestão ou de comunicação. Temos ainda feedback dos próprios visitantes, através de livros de visitas, cartões de comentários, estudos de público, etc. Por fim, existe ainda o contributo de académicos, pensadores, bloggers, como Maria Isabel Roque - que recentemente nos lembrou algumas das coisas que ainda estão por acontecer, no seu post Acerca do que (ainda) falta ao património - ou Luís Raposo - um dos poucos profissionais de museus em Portugal que partilha regularmente e publicamente as suas opiniões, sendo o seu mais recente artigo de opinião sobre a abertura do novo Museu dos Coches e os planos para o eixo Belém - Ajuda em Lisboa.

Assim, não podemos reclamar que não temos já feedback realmente valioso - tanto de “insiders” como de “outsiders” - que pode ajudar a construir estratégias, corrigir erros, tomar decisões, registar tendências, compreender mudanças e desenvolvimentos. Porque é que os decisores e os responsáveis directos pela gestão dos museus não agem sobre isso? O que é que nos impede de avançar, com que tipo de barreiras estamos a lidar? Porque é que procuramos mais estudos, estudos novos, se não fizemos nada ainda sobre as coisas que já sabemos? Porque é que o conhecimento existente parece não ter qualquer impacto sobre práticas de gestão?

Aqui está a minha tentativa de identificar algumas razões:

Talvez seja porque, apesar das declarações politicamente correctas que os museus estão ao serviço da sociedade, eles estão sobretudo ao serviço de quem as gere. As pessoas - aquelas que vêm e as que não vêm - e os seus interesses e necessidades não são, na verdade, a nossa principal preocupação. Os objectos é que o são e basta que fiquem bonitos para aqueles que sabem apreciá-los.

Talvez seja porque neste sector trabalhamos com planos de curto prazo, que seguem os ciclos eleitorais e que podem facilmente ser abandonados, sem explicações de maior e sem assumir responsabilidades. Assim, grandes e pequenas questões permanecem e a sua discussão perpetua-se, sem trazer desenvolvimentos.

Por fim, talvez seja porque temos a tendência de ficar pelo que é “bom o suficiente”. Sabemos quais são os problemas, mas chega um momento em que não podemos insistir mais: ou porque não conseguimos convencer com os nossos argumentos ou porque sentimos que não podemos esperar ou exigir mais dos outros. Só que “bom o suficiente” não é bom o suficiente e o argumento “um passo de cada vez” não nos leva tão longe quanto devia. Na verdade, muito frequentemente nos mantém no mesmo lugar.


Ainda neste blog




Monday, 4 October 2010

Quem ‘merece’ ser financiado? (II) Algumas conclusões

A relação de muitas pessoas com o sector cultural, talvez da maioria, é aquela que John Holden descreve, na página 32 do seu texto Capturing Cultural Value, como non-use values (valores de não-utilização). Ou seja, apreciam o facto dele existir (existence value), independentemente de usufruírem ou não; mantêm em aberto a possibilidade de o utilizar no futuro, apesar de não o usufruírem no presente (option value); acham importante legar algo a gerações futuras (bequest value).

Assim, enquanto estava a ler uma série de
textos sobre o valor da cultura e o seu financiamento, perguntava-me cada vez mais: fará sentido continuarmos a centrar o debate no como provar o valor da cultura? É disso que precisamos de convencer as pessoas – públicos, não-públicos, políticos, patrocinadores -, do ‘valor da cultura’? Alguém o contesta?

A cultura tem um valor próprio, em grande parte intangível, imensurável. A cultura toca-nos, maravilha-nos, faz-nos crescer como pessoas, torna-nos mais tolerantes e exigentes, menos ignorantes e arrogantes. Faz-nos pensar em nós e no mundo. A forma como cada um de nós vive esta relação é muito pessoal; e cada um de nós pode falar por si. Esses testemunhos, muitas vezes registados, não constituem propriamente ‘provas’, mas ajudam-nos a percebermos, e a mostrarmos a outros, como é que a oferta cultural é recebida, entendida e sentida.

Quando debatemos o financiamento para o sector cultural, raramente usamos, então, este género de argumentos. Porque não são fáceis de ‘provar’ e porque parece-nos que não são suficientes. Não são esses os indicadores esperados. No entanto, na nossa ‘apologia’ recorremos frequentemente aos resultados dos ‘efeitos colaterais’ da cultura, ou seja, aos relacionados com a economia, a regeneração de centros urbanos, os problemas sociais, de saúde etc. Estes existem e já foram provados em variadíssimos relatórios.

Parece-me, no entanto, que não é com base neles que se deveria avaliar a cultura em geral e as artes em particular. A monitorização desses resultados compete aos agentes que representam cada uma dessas áreas, que interagem com o sector cultural por considerarem a interacção benéfica. Penso que ao sector cultural compete provar que procura e consegue criar pontes com estes outros sectores, para que a oferta possa ser mais divulgada, mais acessível e mais usufruída, de modo a que cada vez mais pessoas possam ser ‘confrontadas’ com o seu valor intrínseco – aquele que é difícil de provar e de medir, mas que cada pessoa sente, à sua maneira, quando vive a experiência. É nestes termos, na minha opinião, que deverá ser debatido e avaliado o valor do sector cultural. E é também com base neles que deveriam ser pensados os critérios para financiamento.

Quando se pensa na distribuição dos apoios, parece-me que, grosso modo, poderíamos identificar três tipos de beneficiários: os artistas que trabalham individualmente, que produzem; os artistas que têm uma estrutura à sua volta; as instituições culturais.

Aos artistas compete criar. Criar arte de excelência. E o Estado deve garantir as condições para isso. O artista não cria para o bem da sociedade. Cria porque esta é a sua forma de respirar, de comunicar. Não lhe compete provar que a sua arte ajuda a resolver problemas de saúde ou sociais ou outros. A decisão de atribuir financiamento ou não deveria ser baseada na qualidade do seu trabalho. No entanto, parece-me legítimo esperar que um artista financiado pelo Estado esteja aberto para colaborar com os mediadores (educação, outreach, comunicação) que procuram abrir o caminho para o público chegar à sua arte. Os públicos, os políticos, os patrocinadores dificilmente atribuem valor a algo cuja existência ignoram ou a algo que lhes é estranho, incompreensível, por isso aparentemente inútil e às vezes assustador.

Neste contexto, deveríamos dar particular atenção ao medo e ao desconforto que as palavras ‘criação contemporânea’ exercem sobre as pessoas. Ninguém protesta pelo financiamento aos museus, às companhias com repertório clássico, a artistas plásticos cujo trabalho não contraria os cânones… Estas são propostas que o público em geral aceita como importantes, mesmo que nunca usufrua delas. Já a relação das pessoas com a arte contemporânea experimental, a arte que procura questionar os cânones, criar novas formas de olharmos para nós próprios e para o mundo, é menos pacífica. Porquê? Porque a maioria das pessoas não tem as ferramentas necessárias para lhes poder atribuir valor e importância. Para além da obrigação de criar condições para que esta arte possa ser criada, existe uma outra obrigação: a de ‘educar’ o público para aprender a apreciá-la (e depois aceitá-la ou rejeitá-la), dar-lhe as ferramentas para a poder descobrir e explorar. E isto não se faz sem a colaboração do artista.

Quanto às estruturas à volta de um artista ou às companhias e às entidades culturais em geral (museus, galerias, centros culturais, salas de espectáculos), não me incomoda de todo a ideia do estabelecimento de objectivos (alguns comuns a todos e outros específicos, decididos entre o financiador e a entidade cultural de acordo com a missão desta última – ver
post sobre estabelecimento de objectivos nos acordos de financiamento entre os museus ingleses e o estado). E parece-me legítimo que a decisão de financiar dê prioridade àqueles interessados em assumir os mesmos. Se se valoriza a criação de serviços educativos ou a criação de relações com públicos-alvo com menor representação, não deveria ser dada prioridade àqueles que pretendem avançar nesse sentido? Se se valoriza a eliminação de barreiras físicas, para que os cidadãos com necessidades especiais possam usufruir da oferta cultural, não será legítimo esperar que as estruturas financiadas com dinheiros públicos providenciem acesso às pessoas com deficiência? São apenas dois exemplos.

Penso que só assim, criando objectivos concretos e mesuráveis a médio e longo prazo, conseguimos evoluir. Conseguimos quebrar pouco a pouco as barreiras de acesso à cultura, sejam elas mentais, físicas ou financeiras. Não se trata do valor da cultura, mas sim do acesso a ela.

Estas e outras questões serão discutidas no dia 6 de Outubro, num debate que se quer provocador e que se intitula
“Afinal, para que serve a arte?”, organizado pelo Institute of Ideas em parceria com a Culturgest.
Notas a 7 de Outubro:Vítor Belanciano escreveu sobre a organização deste debate num artigo intitulado A poesia não contribui para o PIB, logo, não deve ser subsidiada?, publicado a 6 de Outubro no jornal Público. No dia 7 de Outubro, Cláudia Carvalho fez, também no Público, um breve relato a propósito de algumas das coisas que foram ditas, no artigo Batalha de Ideias na Culturgest sobre o papel económico da arte.
Sendo este um assunto muito actual e relevante para o sector cultural, está a ser discutido em vários fóruns e países. Também hoje foi publicado no blog Artsblog um post intitulado Proving what we know is true, que nos informa sobre um estudo que o Theatre Bay Area irá desenvolver no sentido de poder criar um serviço que permitirá quantificar o impacto intrínseco do seu trabalho. Mais informações aqui.
Por fim, vale ainda a pena ler o artigo de Nicholas Serota, director da Tate e uma das pessoas mais influentes no meio cultural britânico, publicado no dia 5 de Outubro no jornal Guardian e intitulado A blitzkrieg on the arts. Aqui está um excerto que me parece que pode servir de base se quisermos, realmente, mudar os termos do debate: "Com um ataque cruel, a coligação ameaça a estabilidade de um sistema inteiro de oferta cultural que tem sido construído por sucessivos governos conservadores e trabalhistas: uma economia mista, com apoios públicos e privados, que tem feito do Reino Unido um país civilizado para se viver, onde todos têm a oportunidade de desfrutar as artes ou celebrar o nosso património, e têm-no feito em números cada vez maiores."

Monday, 28 June 2010

Sobre a entrevista da Ministra

A entrevista da Ministra da Cultura, Gabriela Canavilhas, ao jornal Público (ler aqui), no passado dia 25 de Junho, dá notícia de cortes muito significativos na área da cultura, que irão afectar todos os sectores, alguns de forma preocupante (como é o caso da Direcção-Geral das Artes).

Considero que há vários pontos que mereciam ser melhor explicados. Aliás, as reacções de vários agentes culturais, que obrigaram o Ministério a emitir um comunicado no mesmo dia da publicação da entrevista (ler notícia
aqui), indicam que tem, aparentemente, havido pouco diálogo e partilha de informações. Todos se mostram solidários, mas não gostam de ser apanhados de surpresa e sentem que deveriam estar mais envolvidos na procura de soluções. Faz sentido.

Na minha opinião, a Ministra da Cultura tem mostrado ser uma pessoa que sabe o que quer, confiante, corajosa e concentrada. Procurou rapidamente informar-se sobre a situação dos vários sectores da área da cultura e tomou iniciativas que iriam dar início a processos que procuram dar respostas a questões pendentes há muito.

Por isso, fico sempre desiludida quando sinto que a Ministra foge às questões que lhe são colocadas e chega até a dar informações pouco precisas ao público em geral. Utiliza, digamos assim, ‘truques’ de político, mas que não funcionam com as pessoas que têm um conhecimento mais profundo do sector e, repito, mantém desinformado o cidadão comum.

Foram dois os pontos na entrevista do passado dia 25 que me causaram este sentimento, ambos relacionados com os museus. Primeiro, quando questionada sobre o processo polémico da transferência do Museu Nacional de Arqueologia, a Ministra respondeu:

“… A visibilidade pública da polémica, se virmos com atenção, tem sido motivada por apenas duas ou três pessoas. Não tem uma dimensão grande. É o movimento restrito de um grupo restrito. O facto de ter muita visibilidade nos jornais não significa que seja emanado de uma força civil com significado.”

“Raramente na cultura as movimentações vêm de grandes forças civis”, insistiu a jornalista Vanessa Rato.

”Olhe que não”, respondeu a Ministra. “Veja o caso do Museu de Arte Popular. Foi um movimento, esse sim, com uma força muito interessante. No caso da Arqueologia é o director e duas ou três pessoas mais...”.

Não quero acreditar que a Ministra não tenha conhecimento da discordância de grande parte dos profissionais dos museus, da actividade intensa do Grupo de Amigos do Museu de Arqueologia, da discussão acesa no blogue desse mesmo grupo, da declaração da Assembleia-Geral da Comissão Nacional do ICOM (International Council of Museums) que deu origem a uma petição. Todas essas pessoas não se manifestam simplesmente contra a transferência do museu. Manifestam-se contra a transferência enquanto não houver um estudo que garanta que a Cordoaria tenha as condições necessárias para receber uma colecção de extrema importância nacional.

Mas diria mais. Mesmo que fossem apenas duas ou três as pessoas que se manifestam contra a transferência do museu, mesmo que fosse apenas uma, o Director, o facto de se tratar de profissionais da área deveria ser suficiente para a Ministra prestar mais atenção e não procurar minimizar ou ignorar a validade das suas opiniões e acções. Porque o Luís Raposo é um excelente profissional. Porque é uma pessoa de diálogo, que procura o consenso. E porque não está a fazer uma birra. Está a cumprir as suas funções, procurando garantir, em nome de todos nós, as condições para a salvaguarda da colecção do Museu Nacional de Arqueologia.

O segundo ponto que me incomodou na entrevista da Ministra foi quando foi questionada sobre articulação do Ministério da Cultura com o Ministério da Economia, dando como exemplo o caso da exposição “Encompassing the Globe”.

“Não acompanhei esse processo, estava nos Açores”, respondeu Gabriela Canavilhas.

Ora, já todos sabemos que os objectivos dessa exposição não foram minimamente cumpridos e que os custos para o Estado, para os contribuintes, foram significativos. Os pormenores foram publicados no Público no dia 21 de Abril (ler
aqui), já Gabriela Canavilhas era Ministra da Cultura. No meu post de 26 de Abril, intitulado O MNAA é notícia, comentava sobre o facto do ex-Ministro da Cultura, José António Pinto Ribeiro, Ministro responsável pela vinda da exposição a Portugal, ter-se mostrado indisponível para comentar as notícias. Considerava ser uma obrigação perante os cidadãos o ex-Ministro assumir as suas responsabilidades e responder às perguntas que lhe eram colocadas. De igual modo, acho que não foi correcto a actual titular da pasta ter evitado responder quando questionada sobre a eficácia das parcerias entre o seu Ministério e o Ministério da Economia. Mesmo que continuasse nos Açores, teria, concerteza, tomado conhecimento das notícias. A questão colocada é muito pertinente e esperava que uma Ministra que sabe o que quer, confiante, corajosa e concentrada, teria respondido de forma clara, garantindo que casos de má gestão de dinheiros públicos, como o da exposição “Encompassing the Clobe”, não voltarão a repetir-se.

Monday, 10 May 2010

Para avaliar é preciso haver objectivos

“O que é qualidade num teatro nacional?” foi o título de um artigo de opinião de Christoph Dammann, ex-director artístico do Teatro São Carlos, publicado no Público no dia 3 de Maio. Achei o artigo muito interessante. Por um lado, porque Dammann apresentava uma série de indicadores que podem servir para avaliar o seu desempenho à frente do teatro nacional de ópera nos últimos três anos. Entre eles, o valor investido pelo estado em cada espectador, algo raramente discutido entre nós e por isso também raramente considerado como um indicador de desempenho nas avaliações que fazemos. Mas também, o aumento no número de espectadores, as actuações de cantores portugueses, o número de co-produções com outros países. Por outro lado, porque nesse artigo Dammann levantava a questão dos objectivos, que devem ser traçados pela tutela juntamente com os directores dos equipamentos culturais. “O proprietário do Teatro – o Estado – tem de discutir as seguintes questões com a direcção: quantas produções deviam ser apresentadas numa temporada, com quantas récitas, com que custos para o Estado por cada bilhete vendido? Quantos espectáculos, concertos, ensaios deviam ser feitos por cada elemento da orquestra e do coro?”. Os números apresentados pelo ex-director artístico do São Carlos parecem válidos. Falta saber o que é que lhe tinha sido pedido pela tutela aquando do convite para dirigir o teatro. Na verdade, só assim saberemos se conseguiu cumprir ou não. Antes de chegarmos à avaliação, devemos saber quais os objectivos iniciais.


Há uns meses atrás, soube do caso de um director de museu que foi de repente confrontado com um aviso da sua tutela de que o número de visitantes estava aquém das expectativas. O que é que se faz quando se é surpreendido com uma aviso desses? Fácil: aceita-se mais marcações de escolas e os números melhoram rapidamente. Mas a qualidade da visita será a mesma? O serviço educativo irá receber com a mesma eficiência e atenção os numerosos alunos?

Não é difícil arranjar números quando necessário. No entanto, se a questão da avaliação é para ser levada a sério, é óbvio que para haver avaliação é preciso haver objectivos. Objectivos esses que deverão ser discutidos pela tutela e pelos directores das várias instituições, assumidos por ambas as partes e, a seguir, comunicados às equipas. Desta forma, fica toda a gente esclarecida sobre os fins a que se pretende chegar e o papel de cada um neste esforço que se quer colectivo. O passo seguinte será definir os indicadores de desempenho para a avaliação final. E assim, poderemos dizer que estamos todos a falar a mesma língua.

Existem dois documentos muito úteis para a reflexão sobre esta temática, ambos publicados pelo Department for Culture, Media and Sports (DCMS, o equivalente do Ministério da Cultura no Reino Unido). O primeiro data de 2006 e intitula-se Understanding the Future: Priorities for England´s Museums (disponível aqui
) O segundo é o Balancing the Scorecard: a review of DCMS Performance Indicator Framework (disponível aqui). Um outro elemento interessante é que no Reino Unido existem acordos de financiamento entre o Estado e, por exemplo, os Museus Nacionais, disponíveis no site do DCMS (ver como exemplo o do British Museum) Neste documento, ficam claramente definidos os objectivos traçados pelo museu para o triénio referente ao acordo de financiamento e a forma como se propõe monitorizar o seu desempenho em relação a esses objectivos. E estão disponíveis, para quem quiser consultá-los.

Monday, 26 April 2010

O MNAA é notícia

O Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA) foi notícia por três vezes na semana que passou. Primeiro, foi a entrevista do seu novo director, António Filipe Pimentel, ao jornal Público (ler aqui). Dois dias depois, veio a notícia sobre os custos da exposição Encompassing the Globe (ler aqui), complementada por um novo artigo no dia seguinte (ler aqui)

Começando pelas notícias sobre a exposição, mereceram os comentários de vários leitores do Público online. Alguns dos defensores do investimento que houve para a apresentação da exposição em Portugal voltam a fazer a ‘inevitável’ comparação ao dinheiro que se investe no futebol (sinceramente, acho que deveríamos abandonar este argumento, que não serve nenhum propósito; de qualquer forma, o futebol, para além se ser rentável, mobiliza, emociona e entretém milhares de pessoas, e não apenas alguns “analfabetos que nunca visitaram um museu”). Outros comentários a favor referem-se ao benefício que foi para o país a exposição ter sido apresentada no MNAA, ao facto de ter atraído mais de 70000 visitantes, às obras que beneficiaram o museu, à oportunidade que foi para os técnicos do museu contactarem com museus internacionais e para o museu de se abrir para a realidade museográfica internacional.

É tudo uma questão de opções, prioridades, objectivos. Haverá por isso várias formas de avaliar o impacto da exposição. Os meus comentários acerca de Encompassing the Globe são os seguintes:

Não gostei. Porque deixei há muito de gostar de exposições que se limitam a apresentar objectos bonitos, mas que não nos ajudam a apreciá-los, que não contam nenhuma história. O Encompassing the Globe foi uma exposição tradicional do ponto de vista museológico e por isso vazia de sentido para muitas das pessoas que a visitaram. Fui uma delas, confesso-o. Atrevo-me a dizer, porque não disponho de dados concretos, que, se a exposição conseguiu atrair tantos visitantes, foi porque foi muito divulgada e apresentada como uma exposição “a não perder”. Porque a temática tinha a ver com Portugal e os Portugueses, um tema que chama a atenção tanto da população nacional, como dos turistas estrangeiros. Porque “Smithsonian” é um nome sonante que foi, e muito bem, usado na divulgação. Estas são as minhas explicações empíricas. Teria, no entanto, muito interesse em saber se o grande número de visitas se deve ainda ao passar-a-palavra, sinal de que os visitantes teriam gostado e recomendado a visita a amigos e familiares. Eu não a recomendei a ninguém nem alguém ma recomendou a mim.

Quanto ao investimento, diria que, apesar de nos faltar alguma experiência e também tradição no que diz respeito ao mecenato cultural, deveríamos no mínimo saber que, se seis meses antes da inauguração da exposição não temos o financiamento garantido (segundo declarações do ex-Ministro da Cultura José António Pinto Ribeiro ao jornal Público em Fevereiro de 2009), é muito provável que não o venhamos a conseguir. Estes negócios fazem-se com muita antecedência. Também é difícil entender porque é que entidades que financiaram a exposição aquando da sua apresentação em Washington não chegaram a ser contactadas a propósito da sua apresentação no MNAA. E se as obras no museu ou o contacto do pessoal com a museografia internacional são tão valorizados, e devem sê-lo, que se assuma a importância dos mesmos e que se invista neles directamente e não com o pretexto de uma exposição caríssima e, na verdade, pouco marcante.

Entretanto, pergunto-me mais uma vez porque é que nunca se prevê uma avaliação somativa do impacto destas iniciativas – que nos custam tão caro - e um inquérito ao público, em vez de cada um de nós estar a dar o seu palpite sobre o mesmo. Por outro lado, fico sempre desiludida pelo facto de, em momentos como este, os dirigentes responsáveis pelas decisões tomadas reclamarem o direito de se mostrarem indisponíveis para comentar, em vez de considerarem uma obrigação perante os cidadãos pronunciarem-se sobre as questões que lhes são colocadas.

Passando agora para a primeira notícia, gostei da entrevista do novo director do MNAA, António Filipe Pimentel. Porque afirma acreditar na ‘via intermédia’. Aquela que não privilegia nenhuma das funções fundamentais do museu (coleccionar, preservar, estudar, expor e comunicar), colocando-as em oposição, mas que procura o equilíbrio entre elas (ver também artigo de opinião no boletim Informação ICOM.PT, disponível aqui
). E passo a citar: “É preciso harmonizar as duas leituras: ter da preservação e do estudo uma visão estratégica e instrumental que não se esgota em si mesma. Deve ser mobilizada ao serviço dessa comunicação, que, contudo, não pode nunca sacrificá-la, nem pôr em causa os limites da sua segurança e salvaguarda.” A harmonização não é fácil e depende muito dos recursos disponíveis, humanos e financeiros. Muitas vezes, a falta deles obriga a fazer opções e criar prioridades. Mas parece-me também ser uma questão de mentalidade. Na sua entrevista, António Filpe Pimentel refere-se ainda ao museu como um palco, “o espaço de mobilização de uma comunidade a partir das obras que são expostas e por trás das quais há sempre narrativas”. E continua: “Um museu não é a Torre do Tombo do património. Num arquivo, o que existe é um tesouro de informação que ali está guardado, conservado e é consultado. O nosso tem que ser exibido e permanentemente mostrado em relatos e narrativas”. Foi com muito agrado que li estas palavras. Vejo por trás delas aquela que considero ser a mentalidade certa. Desejo que o novo director do MNAA e a equipa do museu as possam pôr em prática, que consigam transformá-las em acções concretas. Estamos atentos e expectantes.