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Monday, 28 January 2013

Blogger convidado: "Um pequeno passo para o homem, um salto gigante para um museu", por Ania Danilewicz (Polónia)

Conheci a Ania Danilewicz em Outubro passado. Estava em Portugal por alguns meses e queria saber mais sobre os museus e, em particular, sobre o GAM – Grupo para a Acessibilidade nos Museus. Houve mais dois encontros depois desse, longas conversas, e em ambas Ania impressionou-me com a sua energia, a sua vontade de aprender, o seu espírito crítico, o seu desejo de poder intervir e fazer mais. Neste post partilha, com muito sentido de humor, os seus pensamentos e sentimentos por regressar ao seu país, cheia de ideias que poderiam parecer inúteis num meio bastante resistente à mudança, só para se aperceber que coisas boas acontecem em todo lado, até no seu próprio museu e ainda que numa escala mais pequena. Não é impossível, mas é uma passo de cada vez. Quem tiver sorte, encontra três velhas senhoras pelo caminho… mv 

Adam Malysz, melhor atleta Polaco de salto de esqui (Foto: Associated Press/East News)
Há algum tempo, três senhoras com muita idade estavam a visitar a nossa exposição. Esta era uma apresentação bastante moderna (interactiva também), mas elas preferiram fazer uma visita mais tradicional: olhando só, não tocando, circulando em silêncio, mantendo alguma distância dos objectos expostos. Mesmo assim, pareciam satisfeitas, porque a exposição mostrava a cidade no tempo da sua juventude. Perto da saída, um dos guias aproximou-se delas:

“-Já experimentaram a nossa nova estação de escuta?”
“- Por amor de Deus, não! Isto não é para nós… demos espaço aos jovens…
“- Mas podem encontrar canções originais do tempo em que eram jovens!”, insistiu o guia. “Vejam, este é um telefone original dos anos 30. Se escolherem os números ímpares, podem ouvir todos estes sucessos!”.

E as três velhas senhoras fizeram-no. Pegaram no telefone, que é uma estação de escuta, e aproximaram-se todas do aparelho. Aproximaram-se, mas ainda com muito cuidado. Um pouco depois começaram a… cantar suavemente, dando risadinhas, como se fossem meninas. Experimentaram também os números pares, que continham as mesmas canções mas num remix contemporâneo. E divertiram-se tanto!

Porque é que estou a falar nisto? Porque me salvou da minha depressão pós-Portugal! Aqui estão alguns dos sintomas desta minha doença recente (se tiverem alguns deles, procurem o mais rapidamente possível três velhas senhoras!).

Regressei recentemente de uma visita prolongada a Portugal, onde uma das minhas ocupações permanentes foi visitar museus e conhecer pessoas deste sector. Durante a minha estadia, descobri com prazer e surpresa, coisas muito atraentes, como o percurso especial no Museu do Azulejo, composto de réplicas de painéis de azulejos especialmente criadas para cegos – para serem tocadas e para uma pessoa poder sentir a sua estrutura, a forma, a superfície e as cores - , mas recebidas com muito interesse também por outros visitantes. Fiquei maravilhada com a minha visita ao Museu da Comunidade Concelhia da Batalha, admirando todos os serviços que tornam esta pequena instituição tão especial para a comunidade local e tão importante para a rede mundial de profissionais de museus. E apreciei muito todas as minhas conversas com a Maria Vlachou no contexto da acessibilidade e do GAM – Grupo para a Acessibildade nos Museus.

Apercebi-me também, claro, que os exemplos maravilhosos são as excepções que confirmam a regra. E a regra é a mesma que em todo o lado – a maioria dos museus não é moderna, aberta e preparada para novas tendências. Mesmo assim, encontrei bons exemplos suficientes para me sentir inspirada e motivada para novos projectos no meu museu.

Trabalho no Museu Militar em Bialystok, um museu de tamanho médio, sem nada de muito especial. É moderno o suficiente (a exposição permanente foi mudada nos últimos três anos, sendo esta a primeira remodelação em… 38 anos) para oferecer aos visitantes visitas guiadas e programas interessantes. Mas trata-se de um museu sub-financiado e conservador e necessita de mais mudanças. Por isso, o meu regresso significou duas coisas: o confronto entre as ideias inspiradoras que trazia comigo e a realidade do museu; a obrigação de escrever este post para a Maria sobre o sector dos museus na minha cidade e no meu país.

E esta foi a génese da minha doença. Estava desesperadamente à procura de algo bom e impressionante que mereceria a pena ser apresentado neste blog internacional. “O que é que poderia alguma vez ficar ao lado do Louvre ou dos National Museum Liverpool?”, pensei. Uma amiga fez-me a pergunta mais simples: “Porque não o teu próprio museu?”. No início, desatei a rir, mas pouco depois encontrei as três velhas senhoras que mencionei e aquela experiência convenceu-me, na realidade, do quanto poderia ser fácil e simples a implementação de ideias como a acessibilidade, a abertura, a participação, mesmo que os resultados não sejam tão espectaculares como noutros casos (Liverpool, Portugal, Louvre).

As três senhoras mostraram-me que a criação de um ambiente acessível e acolhedor pode simplesmente significar dar informação apropriada e estar pronto para adaptar as condições existentes às necessidades de diferentes visitantes. Se tivéssemos proposto às velhas senhoras ouvir remixes modernos de velhas canções, teriam, com certeza, recusado, tal como fizeram quando lhes propus experimentar a ‘estação de escuta’. ‘Remix’ e ‘estação de escuta’ não são palavras do seu mundo. Mas um convite para atender o telefone, que tem um papel de uma estação de escuta, parece ser uma boa maneira para as convencer a interagir com o objecto e também para lhes apresentar música moderna. Ipso facto, saltaram do nível “indivíduo consome conteúdo” para o nível “interacção individual” (apresentados por Nina Simon no seu blog, num dos diagramas de participação cultural), sem nós termos feito nada em especial ou termos preparado um programa especial. Se é tão fácil, porque é que não experimentamos fazê-lo mais vezes? Ao desenharmos aquela exposição, tínhamos planeado fazer uma audio-descrição para cegos e um audio-guia para todos os visitantes. Como não tínhamos dinheiro suficiente para comprar dois aparelhos móveis diferentes, decidimos gravar apenas uma narração, capaz de atrair qualquer visitante, independentemente das suas deficiências ou capacidades. E só nesse momento é que nos apercebemos que este é um exemplo de pensamento e design universal, um dos mais importantes desafios para os museus neste momento. Uau, até podemos fazer isso!

Poderia ainda mencionar um outro exemplo dos meus primeiros dias no museu. Era Março de 2011 e o melhor atleta polaco de salto de esqui, um herói nacional para todos os Polacos, Adam Malysz estava a finalizar a sua carreira profissional. Muitas pessoas participaram numa acção espontânea chamada “Polónia inteira põe um bigode” (Adam Malysz tem um bigode muito característico…), onde todos puseram um bigode postiço (alguns até fizeram crescer pela ocasião!). E nós participámos também! Numa altura em que o museu era sobretudo visto como um espaço antiquado e conservador, colámos bigodes coloridos em todos os manequins da nossa exposição. E foi só isso! Essa acção tão simples mudou a nossa imagem radicalmente, mostrando a nós e a outras pessoas que poderíamos afastar-nos um pouco e olhar para nós próprios com sentido de humor e que, apesar dos sérios acontecimentos históricos relatados na nossa exposição, poderíamos também ter graça e aproximar-nos das pessoas. Foi só um dia, mas deu à equipa uma força incrível para começar a pensar as nossas actividades de uma outra perspectiva, indo além dos modelos pré-definidos.

Foto: Museum Militar em Bialystok
Talvez estes exemplos não sejam grandes, significantes ou impressionantes o suficiente para serem apresentados entre notas sobre os National Museums Liverpool ou o Louvre. Mas mostram, sem dúvida, que as grandes mudanças começam frequentemente com passos pequenos. É fácil dizermos que não podemos mudar nada, por falta de dinheiro ou de pessoas. É muito mais desafiante e importante começarmos por questionar: o que posso mudar ou melhorar neste momento no meu ambiente? Estes pequenos passos podem algumas vezes ter uma influência mais alargada do que as grandes acções. Preparam-nos para nos transformarmos e para nos adaptarmos devido a uma necessidade e não a ocasiões especiais ou esporádicas.

Estou quase a recuperar da minha depressão pós-Portugal. Quase, porque no fundo tenho ainda uma forte necessidade de implementar e desenvolver novos elementos para o nosso programa. Mas agora sei como o fazer – com um passo de cada vez.


Ania Danilewicz é animadora cultural e gestora, Responsável pelo Departamento de Educação e Organização de exposições no Museu Militar em Bialystok. Antes, tinha trabalhado para o Teatro Drama na mesma cidade e foi jornalista para o maior jornal da região de Podlasie, Gazeta Wspolczesna. Tem colaborado com muitas associações e alguns projectos independentes, como a Street Culture Enthusiasts Association ENGRAM, Borderland Summer School, Foundation of the University of Białystok, Marcel Hicter Foundation in Brussels. Recebeu o Diploma Europeu de Gestão de Projectos Culturais em 2012 e frequentou o Seminário Internacional para Operadores Culturais, organizado pelo Centro Nacional de Cultura e a Fundação Marcel Hicter. Terminou os seus estudos na Universidade de Bialystok em 2005.

Monday, 14 January 2013

Blogger convidado: "O museu político", por David Fleming (Reino Unido)


David Fleming é alguém que admiro e respeito muito e que tem influenciado profundamente o meu pensamento sobre o papel dos museus. Há uns anos, Josie Appleton criticou a afirmação de David que tinha entrado no mundo dos museus porque esta era a sua forma de tentar mudar o mundo dizendo: “Um objectivo admirável, com certeza, mas talvez Fleming devesse ter-se tornado um político ou assistente social e não um director de museu.” [in Watson, E. (ed), Museums and their Communities, p116]. Eu pessoalmente estou contente que David tenha entrado para os museus e que se tenha tornado um director de museu. E é com muito prazer que publicamos neste blog uma versão abreviada da sua comunicação O Museu Político, que foi feita na conferência do INTERCOM em Sydney, em Novembro passado. No fim deste texto existe um link onde o seu discurso pode ser lido na íntegra. mv

Imagem retirada do website de National Museums Liverpool.

1.   Introdução – o mito da neutralidade

É tradição dizer que os museus são, ou deveriam ser, apolíticos, e isto significa que os museus não se deveriam envolver nas relações de poder que caracterizam a sociedade. Não nos compete embrulharmo-nos no mundo das pessoas reais, dos eventos reais, da controvérsia e das opiniões. Aquilo que devíamos fazer é usar os nossos conhecimentos e a nossa perícia para criar e tomar conta das nossas colecções e para as apresentar de uma forma neutra para benefício público, flutuando numa nuvem de virtude académica, que paira muito acima das realidades mundanas da vida humana. Na verdade, continuar a fazer aquilo que muitos museus têm tentado fazer a maior parte do tempo, desde que foram criados.

Isto é, claro, o cúmulo da hipocrisia e é, verdadeiramente, uma afirmação de um vazio completo defender que os museus têm alguma vez sido ‘neutros’ relativamente a qualquer coisa que fosse. Todas as tarefas básicas que assumimos – investigar, coleccionar, apresentar, interpretar – estão sobrecarregadas de significado e preconceitos e sempre estiveram; estas tarefas são os métodos que o museu usa para servir ao público aquilo que as pessoas que dirigem o museu querem que o público veja. Os museus são construções sociais e a política é um pilar da actividade social – não se pode ter uma coisa sem a outra. Independentemente do tipo de museu, do que contém, têm sido sempre tomadas decisões por alguém sobre o que investigar, o que preservar, o que coleccionar, o que apresentar, como interpretar; e têm sido tomadas decisões sobre o que não fazer, o que não investigar, o que não preservar, o que não coleccionar, o que não apresentar, o que não interpretar.

Não tenho a certeza sobre a razão porque algumas pessoas que trabalham em museus, e outras, valorizam tanto a imagem de alguém numa busca desinteressada do conhecimento, como se, procedendo assim, evitássemos o risco de nos tornarmos políticos. A questão não é “é certo ou errado os museus serem políticos?” mas “todos os museus são políticos, porque é que alguns pretendem que não o são?”.


2. O museu político em acção

a) O modelo antigo

Depois da conquista da Grécia no século II antes de Cristo, os Romanos usaram a exposição triunfal de objectos para demonstrarem a superioridade de cultura romana sobre a grega. Esta técnica teve continuidade ao longo dos tempos, pela igreja cristã, por Carlos Magno, pela República de Veneza, por Napoleão, pelos Nazis, e por muitos outros – em todas estas instâncias, qualquer apreciação estética dos objectos expostos estava provavelmente subserviente à mensagem do poder político. Alguns dos grandes museus da Europa Ocidental são exemplos particularmente bons do modelo antigo do museu político, com as suas exposições de saque imperial e a sua presunção casual de superioridade europeia sobre outros povos. A natureza política deste género de museus tem sido revelada nas justificações para a existência de museus “universais”, um conceito que voltou a ganhar proeminência em 2003 com a Declaração sobre a Importância e o Valor dos Museus Universais  (Declaration on the Importance and Value of Universal Museums) pelos directores de um grupo auto-seleccionado de grandes museus europeus e norte-americanos. O modelo antigo do museu político é melhor caracterizado pela sua discrição. É político, mas finge não o ser – finge ser meramente ortodoxo e verdadeiro. É um museu que ia prosperar na Oceania de George Orwell.

b) O novo modelo

Imagem retirada do website de Tuol Sleng Genocide Museum.
Hoje em dia, o novo modelo de museu político manifesta-se e está a fazer campanha, em particular nas áreas dos direitos humanos e da identidade nacional: The National Museum of Australia (Canberra), The Museum of New Zealand Te Papa Tongawera (Wellington, New Zealand), District Six Museum (Cape Town, South Africa) , Tuol Sleng Genocide Museum (Phnom Penh, Cambodia), Museum of Genocide Victims (Vilnius, Lithuania), Museumof the Occupation of Latvi (Riga, Latvia), The Museum of the Romanian Peasant (Bucharest, Romania), The Vietnam War Remnants Museum (Ho Chi Minh City, Vietnam), DDR Museum (Berlin, Germany), entre outros. Há muitos mais museus deste tipo que procuram activamente emendar uma situação onde as políticas do poder deixaram algumas pessoas  na melhor das hipóteses desfavorecidas; na pior, oprimidas e vitimizadas.

Há duas semanas, recebi um email do director do Memorial Resistance Museum em Santo Domingo: “Acabo de criar uma nova petição e espero que possa assinar. Chama-se: Estamos a lutar pelo direito à verdade e à justiça pelas vítimas da ditadura de Trujillo.”

Fui ao website e encontrei o seguinte: “Pedimos ao Procurador-Geral da República Dominicana, Sr. Francisco Dominguez Brito, para fazer cumprir as leis e os tratados internacionais sobre os direitos humanos, defender os direitos dos jovens e das crianças da república Dominicana à verdade, defender o direito à justiça para mais de 50.000 vítimas da ditadura de Trujillo, para os sobreviventes e os familiares das vítimas. Exigimos o cumprimento da decisão dos tribunais dominicanos, que nos protegem das reivindicações do regime e da figura do ditador, e a criação de uma Comissão de Verdade.”

Este é o museu político a grande potência.

Em conclusão, existe uma separação entre os museus activos, em campanha, que vimos aqui e aqueles que fazem o seu trabalho político de forma mais discreta, mas esta separação é superficial. Diria que a maioria dos museus são políticos e é ingénuo ou desonesto fingir o contrário. Não deveríamos lamentar este facto, como se houvesse um estado melhor, neutro, ao qual poderíamos aspirar – está na natureza humana ser político, e ainda bem.


O texto completo da comunicação de David Fleming, em inglês, pode ser lido aqui. O Museum of Liverpool, um dos museus sob a direcção de David, recebeu no mês passado o Prémio do Conselho da Europa para 2013, um prémio atribuído pela Comissão de Cultura, Ciência, Educação e Media da Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa (PACE). PACE disse que “O Museum of Liverpool proporciona um reconhecimento exemplar dos direitos humanos na prática museal." (ler aqui)

Mais leituras
Lugares de encontro, por Maria Vlachou
Silenciosos e apolíticos?, por Maria Vlachou

Veja ainda:


David Fleming tornou-se director dos National Museum Liverpool em 2001. Dirigiu um processo de gestão de mudança radical que resultou num aumento no número de visitantes de 700.000 por ano a 3,5 milhões, aumentando ao mesmo tempo, de forma marcante, a sua diversidade. Tem sido consultor de vários governos, museus e autarquias, a nível nacional e internacional, sobre estratégia para museus nacionais, gestão de projectos, design de exposições e governança de museus. Tem muitas publicações sobre museus e tem dado inúmeras palestras sobre gestão de museus e liderança, inclusão social, museus de história de cidades e museus de direitos humanos, em mais de 30 países. É Presidente Fundador da Federation of International Human Rights Museums (FIHRM), Vice-Presidente do European Museum Forum e Presidente da Comissão de Finanças e Recursos do ICOM. Foi Presidente da Museums Association do Reino Unido e tem participado em várias comissões governamentais.

Monday, 17 December 2012

Blogger convidado: "A história do rapaz que adormeceu", por Mohamed El Ghawy (Egipto)

O último blogger convidado este ano é um sonhador, um contador de histórias, é o meu amigo Mohamed El Ghawy. O Mohamed é aquele género de sonhador que nos surpreende pela forma como consegue manter os pés na terra. É cauteloso mas determinado, procura sempre dar passos em frente, sabe o que é preciso fazer para que os sonhos se tornem realidade e... fá-lo. Tivemos longas conversas no verão passado sobre a situação no Egipto e os seus planos para a AFCA, a organização que criou em 2004 com o objectivo de educar as crianças egípcias através das artes e da cultura. Esta é a sua contribuição para o futuro do seu país, um futuro habitado por cidadãos criativos, imaginativos, sensíveis e activos, capazes de aceitarem os outros e de encontrarem o seu caminho sozinhos. mv

Workshop de artes visuais com crianças carenciadas. (Foto: AFCA)

“As crianças enchiam o hall e, como habitualmente, eu estava a contar uma história. Algumas delas abriam as suas boquinhas imitando-me, outras abriam os seus olhinhos fascinadas. A interacção era maravilhosa, divertia-me muito a esticar a minha voz para imitar personagens e vários animais. As crianças estavam a rir-se. Estavam felizes por assistir, tal como eu estava feliz por representar. De repente, reparei num rapaz que estava na última fila, contra a parede. Os seus olhos fecharam-se e cabeceou. Adormeceu e senti-me chocado, era a primeira vez que isto me acontecia. Chateado por não ter conseguido atrair a sua atenção, continuei e no fim apresentei as minhas desculpas à professora. Ela, vendo como isto me tinha afectado, riu-se e disse: «Este rapaz sofre de insónia e estamos a trabalhar com os seus pais para o ajudar. O médico diz que não dorme porque não se sente seguro»”.

Isto não me aconteceu a mim; foi um contador de histórias da Croácia que nos contou numa formação na Irlanda. Há muito tempo que estou interessado na forma como usar as artes na educação dos mais novos. No meu país, o Egipto, o sistema de educação é muito tradicional e as crianças é suposto decorarem tudo sem reflectirem sobre aquilo que estão a memorizar, o que acaba por ser aborrecido. Para mim, a Educação é uma ferramenta e deve continuar a sê-lo.

Quando tinha 25 anos, fiz uma viagem de barco no sul do Egipto com um grupo de amigos, para fugir da vida louca de Cairo. Navegámos ao longo do Nilo num barco pequeno durante 4 noites. Sem tecnologia, sem stress, só a natureza e nós. Uma noite, o céu estava cheio de estrelas e um dos meus amigos, o Damian, abriu um mapa de estrelas e começou a brincar com pedrinhas. Disse que se fizéssemos um desejo naquele momento, tornar-se-ia realidade antes do fim do ano seguinte. Sem hesitar, falei do meu sonho em abrir um espaço onde as crianças pudessem aprender tudo através das artes. Os meus amigos ficaram muito entusiasmados e começámos a procurar um nome. “Deve incluir o francês, tu adoras essas língua”, disse Marwa; e a Yasmine disse: “Irás abri-lo no Cairo, certo?”. O Damian disse que no seu país, a Bélgica, esse género de projectos chamava-se “academia das artes” e naquele momento surgiu o acrónimo francês AFCA - Académie Francophone Cairote des Arts.

Meio ano depois, juntámo-nos todos para a inauguração da minha academia das artes. O Damien estava na Europa e voltou para o natal, vestido de Pai Natal e cantando para as crianças: “Há um ano, brincávamos com as estrelas no céu, agora brincamos convosco aqui na terra…”.

A missão da AFCA é “Educar as crianças e os jovens através das Artes e da Cultura no Egipto”. As actividades que propomos são desenhadas para reforçar o uso das línguas – francês, inglês e árabe – e para estimular a criatividade e talento artístico natural de cada criança, usando-o como um meio para desenvolver capacidades pessoais.

Algumas pessoas acreditaram na nossa missão. Lembro-me da mãe de Aly, que nos apoiou imenso desde o primeiro momento. Tal como nós, acreditava que a sua criança podia aprender e falar uma segunda língua sem ser necessário passar por um sistema académico, apenas através das artes. Conversámos dois anos depois da abertura da AFCA. Disse que Aly estava muito feliz. A sua personalidade tinha mudado e tinha desenvolvido muito as suas capacidades de socialização – mas só falava apenas a língua que lhe ensinavam na escola. Três anos mais tarde, telefonou-me. “Há quatro dias que estamos em França e Aly é o nosso guia, fala em francês. Obrigada!”. Na AFCA, tínhamos brincado juntos com as línguas, tínhamos pintado, até tínhamos cozinhado com elas. Aly tem agora 12 anos e faz parte da equipa que está a planear o nosso décimo aniversário em 2014.

Depois da revolução, tínhamos energia positiva e sentimos que estávamos livres. Decidimos construir pontes com outras culturas e criámos o Hakawy International Arts Festival for Children com o objectivo de trazer ao Egipto espectáculos de todo o mundo. A exposição a outras culturas irá apoiar o desenvolvimento da imaginação e criatividade das crianças e abrir as suas mentes para o mundo e a diversidade cultural. Abrimos o festival a crianças carenciadas, que normalmente têm acesso limitado às artes. Mas têm também o direito de se exprimirem e de se sentirem aceites pelos outros, também a nível internacional. Acreditamos que as artes e a cultura são inestimáveis para as crianças, tão importantes como a comida e a saúde. Comer é uma cultura, conduzir um carro é uma cultura, ouvir enquanto se conversa com outros é uma cultura, limpar é uma cultura. No Egipto, especialmente agora, precisamos destes lados intangíveis da cultura.

Segunda edição do Festival Hakawy, com crianças com necessidades especiais. (Foto: AFCA)
Algumas pessoas pensam que ensinar artes às crianças é um luxo. Não é; é tão importante como qualquer outra coisa. Ensina criatividade, capacidades de socialização e imaginação. A história de um país, contada como conto ou representada numa peça, nunca será esquecida. Quantas pessoas se lembram das datas históricas se as estudaram apenas para responder às perguntas de um exame?

Aprender através das artes enriquece muito a educação de uma criança. A equipa da AFCA ensina línguas estrangeiras através de teatro e de canções, e até disciplinas mais complexas, como a matemática e as ciências, podem ser ensinadas através das artes visuais. É mais importante do que nunca para as gerações mais novas possuírem um amplo leque de capacidades. Considerando algo tão simples como cozer bolos, uma tarte de maçã pode ajudar surpreendentemente uma criança a aprender a comportar-se como membro de uma equipa. As artes não são uma disciplina por si; atravessam todo o currículo.

Devido à situação económica do Egipto, que impede 20 em cada 100 crianças de encontrar um lugar numa escola pública, não podemos deixá-las mais na dependência do governo. Temos que as formar desde muito cedo, de uma forma criativa, para aprenderem a pensar e a investigar. Não só para nos seguirem, mas para estarem no centro, sendo nós aqueles que as seguem.

Nas instalações da AFCA, no dia a seguir à demissão de Hosni Mubarak. (Foto: AFCA) 

Para contribuir para o desenvolvimento do nosso país, e considerando que as organizações independentes devem fazer parte da solução, a AFCA juntou-se ao conselho consultivo das escolas de Heliópolis – Cairo Oriental, para desenvolver a educação através das artes e da cultura nas escolas públicas. Estamos a espalhar o nosso conhecimento, observamos os processos e avaliamos depois da implementação de cada projecto. Dizemos sempre que “A educação através das artes e da cultura não precisa de um PhD; todos podem fazê-lo, em casa, na rua… com as suas crianças ou com as crianças dos seus amigos”. Não posso ainda esquecer-me do papel das artes e da cultura na construção da inclusão social das crianças ou daquelas com necessidades especiais. Podem até substituir um medicamento. Lembro-me ainda do impacto que as nossas actividades tiveram nos refugiados do Iraque e agora da Síria, que se sentiram socialmente incluídos através das artes. Não custa nada, temos apenas que acreditar que, para assegurarmos o futuro das nossas crianças, precisamos de começara  trabalhar com elas desde cedo. O nosso objectivo é ajudar todas as crianças egípcias a serem capazes de aceitar os outros e a encontrarem o seu caminho sozinhas.

Não é fácil trabalhar nas artes, especialmente com a situação política actual, mas estamos a avançar e tentamos ser criativos na resolução dos nossos problemas. Dou sempre coragem a mim próprio e à minha equipa lembrando a todos que o rapaz que adormeceu não estava aborrecido com a história; adormeceu porque se sentiu seguro.


Mohamed ElGhawy é licenciado em Artes, Francês e Literatura pela Universidade de Cairo. Começou a sua carreira como professor de teatro, actor e contador de histórias, em várias escolas e centros culturais. Escreveu várias peças de teatro e encenou muitas produções. Tendo recebido formação pela organização IBO em como usar as artes na educação, fundou no Egipto em 2004 a AFCA, uma organização artística e cultural independente. A fim de promover a cultura árabe e egípcia em todo o mundo, tem viajado a vários países como contador de histórias e formador em educação pela arte. Criou o Hakawy International Arts Festival for Children in Egypt, sob a égide do Ministério da Cultura do Egipto, e com o apoio de várias embaixadas e da UNESCO. É membro do Conselho Consultivo das escolas de Heliópolis – Cairo Oriental. Estudou no DeVos Institute of Arts Management no Kennedy Center for the Performing Arts, em Washington. Colaborou com artistas internacionais em vários projectos que tinham como objectivo usar as artes e a cultura como ferramenta para a aprendizagem intercultural, em França, Alemanha e Argélia. Recentemente, tornou-se representante de Assitej International Network for Theatre for Young Audience and Youth no Egipto e está a trabalhar localmente com outras organizações para a sua reconstrução.

Monday, 19 November 2012

Blogger convidado: "Que género de velho quer ser?", por Rebecca McLaughlin (Irlanda)


A população mundial está a envelhecer. E a ambição do Primeior-Ministro da Irlanda é que o seu país seja o melhor país pequeno do mundo onde envelhecer com dignidade e respeito. Rebecca McLaughlin, minha colega no Kennedy Center, é a coordenadora de Bealtaine, um festival de artes que nos últimos 17 anos tem estado a explorar o papel da criatividade à medida que se envelhece. Bealtaine apresenta todos os anos um programa de mais de 3000 eventos no mês de Maio, convidando as pessoas mais velhas a envolverem-se com as artes e a cultura como público, artistas, críticos ou participantes. E assim, a conversa que a Rebecca e eu não conseguimos ter em Julho passado começa agora neste blog. mv

Mary Russell da orquestra "Blow the Dust" na abertura do Bealtaine Festival em 2010. (Foto: John Ohle)
Que género de velho quer ser? Em que género de sociedade quer envelhecer? Quer continuar a ser criativo e desfrutar as artes e a cultura quando estiver nos seus 50, 70, 90 anos? Acha que a idade é uma barreira à criatividade?

O Bealtaine Festival é o primeiro festival do mundo que celebra a criatividade à medida que vamos envelhecendo. Tem lugar todos os anos em Maio em toda a Irlanda. Ao estar a coordenar Bealtaine, que é hoje o maior festival colaborativo de artes da Irlanda, estas são questões que se levantam com alguma regularidade. Se tivermos sorte, cada um de nós sentirá prazer ao envelhecer e continuará a viver e a experienciar aquelas actividades e oportunidades de afirmação da vida que as artes e a cultura proporcionam às nossas comunidades.

O Bealtaine Festival chega todos os anos a dezenas de milhares de pessoas com 55 anos ou mais, estimulando o seu envolvimento com as artes como artistas, participantes, público e organizadores. Através de parcerias com várias organizações, desde instituições culturais nacionais a bibliotecas, de unidades de cuidados a hospitais, pessoas mais velhas participam em mais de 3000 eventos ao longo do mês de Maio, incluindo música, teatro, artesanato, fotografia, cinema e literatura. ‘Bealtaine’ é a palavra irlandesa para Maio, com todas as suas associações ao crescimento, renascimento e a novos começos.

Não se pode negar que, quer se tenha 5 quer 105 anos, o acesso às artes é uma questão de equidade e cidadania – é um direito, não um privilégio. Da nossa experiência de 17 anos no Bealtaine Festival em que celebramos a criatividade à medida que se vai envelhecendo, sabemos que, entre outras coisas, uma maior participação nas artes é importante para o desenvolvimento de uma auto-imagem e identidade positiva para as pessoas mais velhas. Pode ajudar significativamente a construir ligações e promover o capital social.

A Irlanda está na primeira linha a nível internacional na defesa da criatividade à medida que se envelhece e neste momento cerca de 12% da nossa população tem mais de 65 anos (mais de meio milhão de pessoas). Em 2041 espera-se que o número de pessoas com mais de 65 anos aumente 180% (para 1,3 milhões). O nosso Primeiro-Ministro tem afirmado a ambição de tornar a Irlanda no melhor país pequeno no mundo onde envelhecer com dignidade e respeito.

’Velho’ é uma palavra difícil para muitos. De acordo com a nossa experiência, se perguntarmos às pessoas o que é que consideram ser ‘velho’, falarão invariavelmente de uma idade que ultrapasse a delas por 10 anos! No Festival, estamos mais à vontade para falar sobre o processo de envelhecimento em vez de ‘estar velho’ como uma espécie de destino no fim de uma viagem. É impossível colocar todas as pessoas entre os 55 e os 105 anos numa categoria homogénea de ‘velho’. Um dos objectivos do festival é desafiar esses estereótipos e as percepções negativas sobre o ficar mais velho. Concentramo-nos nas capacidades das pessoas mais velhas e abraçamos o seu valor e contributo para a sociedade.

Trabalhando no projecto "Wandering Methods" durante o Bealtaine Festival de 2012. (Foto: Lian Bell)
Com cada Bealtaine Festival, ficámos inspirados e encantados com os talentos criativos que se redescobrem ou com as novas capacidades adquiridas pelas pessoas que atendem e pela paixão de fazer arte, o que para certas gerações de Irlandeses simplesmente não fazia parte da sua educação formal ou do seu mundo. Para os nossos organizadores do Bealtaine, o mês de Maio está integrado na sua agenda cultural anual como um tempo para se concentrarem naquilo que oferecem às pessoas mais velhas. Para muitos deles, ‘pessoas mais velhas’ tem-se tornado mais num conceito abstracto e ao longo do tempo têm sido desenvolvidas entre as instituições culturais e as pessoas mais velhas actividades sustentáveis e verdadeiras relações a vários níveis; por exemplo,  de um projecto original na edição de 2010 surgiu uma orquestra permanente de pessoas mais velhas, chamada “Blow the Dust off your Trumpet” (sacode o pó do teu trompete), residente hoje no National Concert Hall em Dublin.

As tendências demográficas são claras – mais de um quinto da população mundial (22%) terá mais de 60 anos em 2050 – o dobro da actual população sénior. Nos EUA, daqui a 10 anos as pessoas mais velhas serão mais do que as crianças e um em cada três bebés nascidos hoje pode esperar viver até aos 100 anos. Quando muitos de nós estamos a lutar para atrair públicos novos e a tentar fazer malabarismos para lidar com a actual situação económica, vale a pena considerar que o grupos dos que têm mais de 50 anos detém 80% da riqueza nos EUA e 75% na EU.

Na actual sociedade, é preciso pensar radicalmente todo o leque de políticas públicas em todas as áreas, desde o emprego e a saúde às pensões. Como devemos lidar com este desafio demográfico do envelhecimento? Como podemos dar resposta às necessidades e os requisitos em constante mudança da nossa população mais velha? O envelhecimento da população e especialmente o aumento do número de pessoas no grupo dos ‘velhos mais velhos’ têm muitas implicações relacionadas com a idade (por exemplo, um aumento dos casos de demência) que exigem respostas inovadoras e sensíveis que possam garantir a inclusão desta população. Como gestores culturais e curadores, precisamos de reflectir sobre as vidas da população que está a envelhecer e permanecer relevantes para ela. Se não o fazemos ainda, deveríamos, então, começar a investir no acesso e nas oportunidades de participação para envolvermos os nossos públicos mais velhos e construir relações com eles. Ocupamos um lugar único na construção deste futuro, um dia, eu e você faremos parte desses públicos mais velhos.

Por isso, pensando nisto… “Que género de velho quer ser?!”


Rebecca McLaughlin é a coordenadora de Bealtaine Festival. Previamente, tinha sido Exhibitions Curator para o programa de exposições temporárias da Dublin City Gallery The Hugh Lane, que reúne uma das mais importantes colecções de arte moderna e contemporânea da Irlanda e integra o estúdio remodelado do artista Francis Bacon. No Reino Unido, foi Marketing Manager para o lançamento de The New Art Gallery Walsall, um projecto pioneiro de £21 milhões nos West Midlands, que apresentou a primeira Children's Art Discovery Gallery no Reino Unido. Estudou em University College Dublin e na Universidade de Leicester e é Fellow no DeVos Institute of Arts Management no Kennedy Centre em Washington.


Monday, 5 November 2012

Blogger convidado: "Uma questão de valor", por Rebecca Lamoin (Austrália)


Há umas semanas, no meu post Sobre o nosso valor público, mencionei que Rebecca Lamoin, fellow no Kennedy Center e Directora Associada no Queensland Performing Arts Centre, estava a organizar um fórum de dois dias sobre o valor público das instituições culturais. Durante a preparação deste projecto, Rebecca fez a vários gestores culturais três perguntas cruciais: “Qual é a coisa mais importante que a sua organização fornece à sua comunidade? Porque é que a sua comunidade gosta da sua organização? De que é que as pessoas na sua cidade sentiriam falta se a sua organização deixasse de existir?”. Conforme prometido, Rebecca dá-nos agora feedback sobre o fórum. Não nos podemos esquecer que este é só o início do projecto, teremos, portanto, curiosidade em saber do seu desenvolvimento nos próximos meses e do resultado final. Por isso, tenho a certeza que voltaremos a ter notícias da Rebecca. mv

In Whose Interest?  Debate transmitido pela ABC Radio National. Da esquerda para a direita: Rhonda White (Membro do QPAC Board), Mark Moore (Harvard University), Julianne Schultz (Griffith University) e Paul Barclay (amfitrião, Big Ideas, ABC Radio National). Foto: QPAC

Na introdução do livro On Kissing, Tickling and Being Bored, Adam Phillips refere-se à psicanálise como uma história, ou uma forma de contar histórias, que faz as pessoas sentirem-se melhor. Ao fazer esta afirmação, Phillips demonstra as suas capacidades tanto como psicoterapêuta como também como mestre louvado da língua. Lembra-nos que um dos principais objectivos de contar histórias é fazer as pessoas sentirem-se melhor – com elas próprias, com os outros e com o mundo. De repente, apercebo-me que esta é também uma das principais ambições da arte.

Como gestores culturais, também nós procuramos histórias como uma forma de projectar uma luz ou uma sombra diferente sobre pessoas, lugares e ideias. Ao desenvolver recentemente um projecto, apercebi-me que a capacidade de criar uma narrativa sólida e cativante é-nos solicitada não apenas na curadoria de programas para os nossos públicos, mas também na comunicação do fim principal das organizações para as quais trabalhamos. 

O projecto do valor público

O projecto do valor público, apesar de lhe faltar um título poético, pretende, mesmo assim, iluminar os pontos importantes numa narrativa sobre um grande centro de artes performativas e a sua interligação com as comunidades que está a servir.

O Queensland Performing Arts Centre (QPAC) é uma das principais instituições culturais da Austrália e ao longo dos seus 27 anos de história tem servido as pessoas de Queensland, o segundo maior estado do país. O QPAC atraiu no último ano mais de um milhão de visitantes e apresentou mais de 1400 espectáculos, desde comédia à dança, música, musicais, teatro, entre outros. Tem estabilidade financeira e está a crescer em termos de reputação e capacidade. É um centro de grande sucesso, de todos os pontos de vista. Ao perguntarmos a nós próprios “E agora, o que é que se segue?”, e sabendo que crescimento não significa simplesmente expansão, olhámos colectivamente para trás para reflectirmos sobre a nossa missão, o nosso propósito principal. O que é que queremos ser exactamente, qual é a história, a narrativa mais abrangente do nosso Centro?

Construímos um projecto que se desenvolverá ao longo de um ano com o principal objectivo de moldar uma história partilhada sobre aqueles aspectos do nosso trabalho que nos distinguem pelo que conseguimos fazer no passado e que definem a próxima década. Temo-nos apoiado muito no trabalho de um líder na área da gestão pública, Mark H. Moore, Professor na Universidade de Harvard. O seu livro seminal Creating Public Value: Strategic Management in Government teve, em meados dos anos 90, um grande impacto sobre o discurso de políticas públicas em todo o mundo. O seu conceito de ‘público’ é simultaneamente simples e complexo e não lhe faço justiça ao tentar resumi-lo aqui, mas tento na mesma: as empresas privadas existem para criar valor para os accionistas, as organizações públicas existem para criar valor público. As nuances aparecem quando surgem questões sobre o que é que constitui valor público e quem é que decide o que é. Moore propõe essencialmente que as organizações públicas criam valor quando cumprem as ambições sociais integradas nas suas missões.

Professor Mark H. Moore

Na semana passada, o QPAC teve a sorte de receber o Prof. Mark Moore que durante dois dias debateu connosco o que é este conceito significa para um centro de artes performativas público. Este não é território desconhecido para o Professor. Dedicou vários anos a um trabalho encomendado pela Arts Midwest e a Wallace Foundation que estudou a forma como 13 organizações culturais públicas nos EUA criaram valor público (ver aqui)

O Professor Moore fez uma comunicação pública, participou numa discussão na rádio a nível nacional e moderou workshops com membros do nosso Conselho Consultivo e com os nossos funcionários que procuraram proporcionar uma introdução às questões e às práticas relacionadas com o valor público e também apoiar o QPAC a seguir em frente.  Pormenores das suas sessões podem ser encontrados aqui.

Valor público, uma introdução. Conferência aberta ao público. (Foto: QPAC)
Resultados

Mais de 400 pessoas apareceram para ouvir o prof. Moore. Representantes do governo, do mundo empresarial, do sector da educação, das organizações sem fins lucrativos e de grandes e pequenas instituições culturais. O QPAC quis partilhar a presença deste grande pensador durante a sua breve estadia connosco. Para o resto da cidade, foi uma oportunidade para dar voz e espaço a um assunto que é claramente actual, relevante e que talvez ofereça uma forma de explorar as complexidades da liderança pública contemporânea.

Durante o tempo que passou com o Conselho Consultivo e os funcionários do QPAC, as questões colocadas pelo Prof. Moore foram ao mesmo tempo provocadoras e reconfortantes. Desafiou-nos a considerar o que somos, o que é que aqueles que nos dão autoridade querem que nós sejamos e o que temos a capacidade de fornecer. Como instituição cultural, considerámos o território entre os nossos feitos – excelentes programas, grandes audiências e sucesso financeiro – e a conquista genuína em criar uma cidadania melhor e mais envolvida através da arte.

O que é que se segue?

O projecto de valor público do QPAC continua nos próximos meses com uma discussão mais aprofundada na própria organização, mas que se expandirá para incluir um diálogo rico com os nossos parceiros, colegas e comunidades. A nossa reflexão e aprendizagem será integrada no nosso próximo ciclo de planeamento e será, com certeza, evidente, em tudo o que fizermos ao seguirmos em frente.

Na próxima fase do projecto enfrentamos o desafio de definir exactamente que género de valor procuramos criar e, claro, o desafio inevitável de como vamos medi-lo. É um desafio que estamos prontos a abraçar.

As grandes instituições, criadas para servir o público, beneficiam quase sempre de momentos de reflexão honesta, resultado de um desejo genuíno de serem melhores no que fazem. Se principalmente facilitamos as formas como as pessoas partilham histórias, então talvez o resultado mais significativo da visita do prof. Moore e do nosso trabalho tenha sido que nós também iremos encontrar novas formas, a nossa própria forma para contar a história de como trabalhamos com as comunidades que servimos para criar valor público através da arte. 
 

Rebecca Lamoin é Directora Associada de Estratégia no Queensland Performing Arts Centre em Brisbane, Austrália. Trabalhou em pequenas e grandes organizações culturais, tendo assumido vários papéis relacionados com múltiplas formas artísticas, incluindo as artes performativas, as artes visuais, a literatura e os festivais. É licenciada em jornalismo e Mestre em Políticas Culturais.
É Fellow do DeVos Institute of Arts Management no Kennedy Center for the Performing Arts em Washington.

Monday, 22 October 2012

Blogger convidado: "Festivais, a nova cara do Zimbabwe", por Nicholas Moyo


É sempre um grande prazer ter uma conversa com Nicholas Moyo. Não só pelo seu sentido de humor, mas sobretudo pela sua sabedoria e experiência, pela sua forma calma e equilibrada de analisar as realidades à sua volta, pela sua crença num futuro melhor. Neste post, Nicholas escreve sobre a proliferação de festivais das artes no Zimbabwe e os esforços do National Arts Council para criar algumas directivas no sentido de assegurar que todos os festivais sejam realizados de acordo com as aspirações do país, no que diz respeito ao desenvolvimento das indústrias criativas. mv

Intwasa Arts Festival (Foto retirada de www.intwasa.org)
A criação de festivais das artes no Zimbabwe para a exposição de produtos artísticos e culturais tem sido moda na última década. Por muito que as pessoas possam concordam sobre o que é um festival, no Zimbabwe um festival relacionado com as artes é promovido como uma plataforma para a celebração das artes, onde artistas e outros profissionais ligados à cultura se juntam por um período específico para mostrar os seus produtos num ambiente carnavalesco e de festa.

Esta definição persiste porque os festivais são, em geral, um tempo de celebração e divertimento. Trata-se de um evento normalmente promovido por comunidades que se concentram num aspecto único daquele grupo de pessoas. No que diz respeito ao sector das artes e da cultura, cada festival é moldado à volta de um grupo particular de pessoas, que constituem o núcleo do mercado e do público.

O cenário actual

Há aproximadamente 25 festivais no Zimbabwe: seis internacionais, oito nacionais, seis provinciais e cinco distritais. A maioria destes festivais começou na última década, quando o panorama político estava em colapso, sobretudo a economia.

Nesse período, Zimbabwe testemunhou a proliferação de festivais de arte realizados em todo o país. Sem dúvida, alguns deles foram criados para lidar com questões relacionadas com os direitos humanos. Outros eram acolhidos por organizadores fugazes que procuravam ‘arrancar’ fundos a patrocinadores. Este cenário teve como resultado a intervenção do National Arts Council, que iniciou uma consulta com o sector, criando algumas directivas gerais para todos os festivais que tinham lugar no país. As directivas tinham como objectivo assegurar que todos os festivais de artes seriam realizados de acordo com as aspirações do país no que diz respeito ao desenvolvimento das indústrias criativas.

Harare International Festival for the Arts (Foto retirada de www.hifa.co.zw)
Sucessos

Os festivais são, em geral, uma plataforma enorme criada para o estabelecimento de uma transacção entre públicos e organizadores, que envolve a comercialização de um produto artístico. Em primeiro lugar, todos os festivais têm registado um aumento sustentado de afluência todos os anos. Existe um mercado crescente e uma nova relação entre este mercado e o sector criativo. As pessoas começam a trocar o seu tempo e recursos financeiros por ‘boa arte’.   

Em segundo lugar, os criadores consideram importante e necessário criar ‘boa arte’, nova e excitante, enquanto os produtores, directores e artistas têm estado a subir a fasquia, devido à natureza competitiva da indústria criativa. Os organizadores de festivais contratam novas produções, sobretudo a produtores respeitados, uma vez que estes conseguem atrair mais pessoas a produções específicas.

Harare International Festival for the Arts (Foto retirada de www.hifa.co.zw)
Desafios

As indústrias criativas têm tido bastantes desafios no mercado. No topo da lista está a incapacidade de atrair importantes parcerias que ou trariam apoios financeiros para o festival ou suportariam algumas das suas componentes, mesmo em género. Alguns organizadores não têm a capacidade de estabelecer estas parcerias, sendo impossível marcarem com regularidade datas no calendário. Assim, vemos certos festivais serem obrigados a cancelar datas com as quais poderiam ter avançado apenas se aparecesse um parceiro da última hora.

Os patrocinadores, especialmente aqueles do sector empresarial, não se têm mostrado disponíveis para apoiar as artes. E os festivais não são excepção. Alguns, como o Harare International Festival for the Arts, têm criado sinergias de negócios com empresas. Poderíamos dizer que os desafios económicos que o Zimbabwe enfrenta como nação têm o seu impacto na circulação do dinheiro na área do entretenimento. Os rendimentos dos trabalhadores do Zimbabwe estão abaixo da linha da pobreza e, por isso, este facto por si tem um efeito global nos hábitos de compra das pessoas e na forma como gastam o seu dinheiro.

Intwasa Arts Festival (Foto retirada de www.intwasa.org)
Em conclusão, os festivais no Zimbabwe são necessários para o desenvolvimento das indústrias criativas do país. Com os diferentes impulsos dados por diferentes festivais, é evidente que estes são cuidadosamente preparados no sentido de atrair consumidores específicos a produtos artísticos específicos. No entanto, terão que ser redesenhados como empreendimentos de negócio para os produtos criativos. O crescimento dos festivais irá igualmente garantir que as artes sejam vistas como um contribuinte decisivo para o PIB do país.


Nicholas Moyo é neste momento Director-Adjunto do National Arts Council do Zimbabwe. Tem mais de 20 anos de experiência em gestão cultural – como director, produtor e administrador. Tem participado em várias acções de formação e pequenos cursos, sobre gestão cultural, liderança, e fundraising, entre outros. Fundou o segundo maior festival multi-disciplinar do Zimbabwe, Intwasa Arts Festival koBulawayo, e é neste momento membro do Conselho Consultivo. É igualmente membro do Conselho Consultivo de Tusanani Cover Trust, uma organização que apoia crianças desfavorecidas. Nicholas Moyo foi um dos consultores do primeiro festival de artes e cultura da Zâmbia, o AMAKA Arts Festival, que teve lugar nos dias 8 a 14 de Outubro.

Monday, 8 October 2012

Blogger convidado: "Servindo as artes - Sobrevivendo a crise", por Ira-Iliana Papadopoulou (Grécia)


Quando conhecemos Ira Papadopoulou dificilmente adivinhamos que, por trás de uma personalidade aparentemente calma, reservada e algo silenciosa, esconde-se tanta força e paixão. Ela é tão forte e apaixonada que, quando lhe foi dito que o seu orçamento anual ia ser reduzido a… 0, pensou: “OK, voltemos ao trabalho!”. Mas as coisas não têm sido fáceis. Ira e muitos outros profissionais da cultura na Grécia enfrentam condições extremamente duras, não só pelos cortes na cultura, mas devido a uma série de medidas que têm conduzido à destruição da economia do país. Ira faz aqui um breve relato sobre um sector que permanece vivo, que resiste e que tem ainda a capacidade de proporcionar um antídoto social à amarga realidade económica. mv 

Parte da instalação "OITO" (ΟΚΤΩ), Nº 6, de George Tserionis, 2011 (desenho sobre papel, 120x110). (Foto: George Tserionis)

“Sem a arte, a crueza da realidade tornaria o mundo insuportável.”
George Bernard Shaw


O tópico sugerido era claro: a cultura grega em tempos de crise. Não pude resistir. Era definitivamente algo sobre o qual poderia falar. Há alguma semanas, quando Maria Vlachou me dirigiu o amável convite de escrever para o seu blog, estava mais que disposta a partilhar as minhas opiniões como profissional e a minha sincera angústia pela actual situação das instituições culturais na Grécia. E depois, mesmo antes de começar a escrever, li um dos posts mais antigos da Maria sobre a crise grega e o sector cultural e apercebi-me que não mudou quase nada desde 2010… Ou talvez não? Talvez tenha havido algumas mudanças, mas deixo os leitores fazer o juízo final se se trata de mudanças para melhor ou para pior.

Começando pelo Ministério Grego da Cultura, que já não é um dos mais importantes do país (como tinha sido dito aos Gregos em 2004), mas um sub-ministério de uma combinação mágica: Ministério da Educação e dos Assuntos Religiosos, da Cultura e do Desporto. Sim! Um ultra-ministério onde tudo – educação, religião, cultura e desporto – pode ser combinado e gerido. Algo não muito diferente da famosa salada grega, um pouco de tomate, algumas azeitonas, um pouco de cebola, um pouco de queijo feta…

As pessoas que trabalham em instituições culturais públicas – ou instituições supervisionadas ou financiadas pelo Estado -  estão a fazer um apelo desesperado à ajuda. O dinheiro não é suficiente sequer para pagar as contas de electricidade. Sabem agora que devem procurar recursos alternativos, mas nunca ninguém tentou dar-lhes algumas directivas em como o fazer. Além disto, a estratégia do Estado de incentivos ao patrocínio privado é quase não-existente.

O cinema Attikon, o mais velho cinema no centro de Atenas, quase um ano depois de ter sido incendiado durante os protestos contra as medidas de austeridade. (Foto: Ira Papadopoulou)
Até as instituições culturais privadas se encontram agora no olho da tempestade. Como não existe um vácuo financeiro ou cultural, o sector privado luta para conseguir manter o seu pessoal, a qualidade dos seus serviços, os seus patrocinadores e, ao mesmo tempo, manter uma programação cultural de interesse. Esta é uma equação difícil de resolver. Alguns mantêm-se de pé, outros caem e outros ainda parecem determinados em avançar para um novo género de criatividade e mostrar abertura a “palavras desconhecidas”, como colaboração, voluntariado, esquemas de assinaturas, crowdfunding. Ninguém pode garantir que exista luz no fundo do túnel, mas se não tentarem, nunca o saberão.

E tudo isto está a acontecer numa altura em que os seguidores do partido neo-nazi Chrysi Avgi (Aurora Áurea) ameaçam publicamente encenadores, autores e artistas por estarem a apresentar trabalhos que, na sua opinião, são um insulto aos “ideais nacionais”. Parece que a arte é, mais uma vez, o alibi perfeito para a histeria nacionalista e teorias de conspiração de todo o género. Ao fim ao cabo, todas as crises económicas vão lado a lado com as qualidades básicas e fundamentais dos valores sociais…

No entanto, falar da “crise económica, social e moral dos nossos tempos” tem-se tornado numa repetição enfadonha e aqueles que trabalham para as artes tentaram dar um passo atrás e encontrar uma caminho longe deste discurso deprimente. Sem subestimar os efeitos psicológicos e outros da crise, os artistas parecem ter encontrado a coragem para resistir e reivindicar o seu direito de discutir, criar e sugerir alternativas para a apresentação do seu trabalho ao público. Novas iniciativas culturais, novas produções culturais, novos grupos artísticos (como o espaço cultural about:, o espaço Ommu, o Contemporary Art Meeting Point, a equipa artística Athens Art Network, para mencionar só alguns), mas, sobretudo, um novo espírito para juntar as pessoas e tentar desviar a atenção do público da miséria do dia-a-dia.

Celebração do festival anual de banda desenhada Comicdom Con Athens. Entrada principal da Hellenic American Union, Março 2012. (Foto: Antonia Houvarda) 
Não quero dizer com isto que a crise e a privação são benéficas para a arte. Não se trata de um florescimento das artes. Não há nada de mágico aqui. Mas se acreditarmos nas artes e continuarmos a servi-las da melhor forma que soubermos, talvez exista uma oportunidade de sobreviver e até florescer.

Devemos muito aos artistas Gregos. É graças à sua coragem e à persistência dos gestores culturais que o pulso cultural do país continua a bater. E por mais difícil que seja de acreditar, há mais de uma dúzia de exposições de artes visuais a inaugurar todos os meses, mais espectadores nos teatros do que nos anos anteriores e mais eventos públicos (e gratuitos) do que nunca. Conferências, concertos, festivais, espectáculos, happenings, etc. etc. Uma saída à noite em Atenas prova que há uma intensa vida cultural lá fora e que, no mínimo, a cultura pode ainda ser um antídoto social à nossa amarga realidade económica.


Ira – Iliana Papadopoulou estudou Sociologia, Políticas de Comunicação e Gestão Cultural no Reino Unido. Desde 2004, ela é Directora de Assuntos Culturais na Hellenic American Union, uma instituição cultural e de educação ao serviço da sociedade, com sede em Atenas, Grécia. Antes de chegar à HAU, trabalhou como Directora de Relações Públicas e Comunicação noutras organizações culturais e de educação na Grécia, como o British Hellenic College e o Centro de Estudos Neo-Helénicos (casa oficial do Arquivo Cavafy). Entre 2010 e 2012 foi International Fellow do DeVos Institute of Arts Management no Kennedy Center em Washington.