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Monday, 15 October 2012

Homens nus, sexo, preservativos, orgasmos. Interessados?


Grécia. Sem necessidade de avisos prévios. (Foto: mdtili no Instagram)
Tantas 'palavras-chave' num só título... Pergunto-me se este post será mais lido do que outros devido, precisamente, ao título ou às fotografias que o ilustram. É possível, sim. A maioria de nós não resiste a títulos e imagens como estes e à ‘promessa’ detrás dos mesmos. O sexo atrai; a nudez também.

As instituições culturais – enfim, as pessoas que nelas trabalham – são igualmente atraídas por estes temas e às vezes estão mesmo dispostas a trabalhar sobre eles, procurando as associações mais imaginativas. Quem esperaria, por exemplo, encontrar uma exposição sobre “o amor e a paixão na costa” num Museu da Pesca numa pequena aldeia belga? Chamava-se Zeerotica e apresentava histórias sobre sereias, monstros marinhos mitológicos e as suas vidas íntimas; mariscos afrodisíacos e a vida amorosa dos pescadores; imagens eróticas de mais de um século de vida na praia.

A curadora de Zeerotica dizia numa entrevista que, apesar do que as pessoas poderiam pensar, esta não era uma exposição obscena; na verdade, era uma exposição para toda a família. Há diferentes maneiras de lidar com estes temas, como com todos os outros, assim como há também diferentes interpretações do que pode ser considerado obsceno, chocante ou pornográfico. Para além das decisões dos conservadores, devemos ainda considerar as opções em termos de marketing. E os marketeers culturais, tal como todas as outras pessoas, não conseguem resistir à tentação de usar (ou mesmo ‘abusar’) certos temas para atrair mais pessoas e públicos novos.

Aproximam-se dois eventos que fizeram recentemente notícia. Ambos começam esta semana. Ambos lidam com assuntos picantes. Ambos desenharam campanhas de marketing provocadoras. Mas, quanto mais penso neles e leio os comentários das pessoas, mais sinto que existe uma diferença fundamental na sua abordagem. O que provavelmente se reflectirá também nos resultados.


"Mr.Big" by Ilse Haider, at the entrance of the Leopold Museum. (Photo taken from Delirium Clemens:)
A exposição Nude Men (Homens Nus) abre na próxima sexta, dia 19, no Leopold Museum em Viena. Lê-se no website do museu: “Anteriormente, as exposições sobre o tema da nudez limitavam-se sobretudo aos nus femininos. Com a apresentação ‘homens nus’ no Outono de 2012, o Leopold Museum irá mostrar uma exposição há muito devida sobre as diversas representações de homens nus desde 1800 até hoje.”  Na entrada do museu, “Mr. Big”, um modelo gigante de um homem nu criado por Ilse Haider, atrai as atenções e publicita a exposição. Não é uma pintura, é uma foto; por isso, é mais ‘real’, não apenas ‘arte’, se me faço entender… Na cidade de Viena as pessoas podem ver dois cartazes diferentes: um mais ‘tradicional’ – que apresenta “Preacher” de Egon Schiele – e um outro, menos ‘tradicional’, criado pelos artistas Pierre & Gilles, intitulado “Vive la France” (novamente, uma foto…)


Cartazes da exposição Homens Nus (imagens gentilmente cedidas pelo Leopold Museum)
Acompanhei a discussão sobre este segundo cartaz na página do museu no Facebook. As pessoas podiam votar na versão que gostavam mais. Na verdade, o museu foi forçado a apresentar as opções censuradas (devido às regras do Facebook que levaram à eliminação de vários posts), mas prometia aos seus fãs que tanto na rua como na exposição estaria tudo à vista. Não pareceu haver outro género de preocupações, todos pareciam estar bem dispostos e ansiosos pela exposição. Uma vez os cartazes na rua, e de acordo com o responsável de Relações Públicas do Leopold Museum, Klaus Pokorny, começou a haver queixas, especialmente de pais que não gostaram de ver o cartaz ao pé das escolas dos seus filhos. Na semana passada, o museu voltou a colocar o cartaz no Facebook (a versão ‘especial para Facebook’), não tanto para defender a sua opção, mas mais para convidar as pessoas a falar sobre ela: “A propósito da nossa exposição, mostramos homens nus… Nada mais, nada menos. Estamos agora a discutir se deveríamos ter coberto as partes sensíveis, como fizemos aqui no Facebook. A representação de um pénis é algo absurdo para a nossa sociedade?”. As pessoas não demoraram a reagir e, mais uma vez, o diálogo estava bastante aberto e bem-disposto, concentrado no assunto principal, que era: não era correcto mostrar algo assim no espaço público?
Versão censurada do cartaz da exposição para o Facebook.
Dois dias antes da inauguração de Nude Men, no dia 17, estreia Don Giovanni na English National Opera. Soube disto quando recebi no meu news feed, entre centenas de outros artigos, um que se intitulava Opera and orgasms (não pude resistir...). E não era tanto sobre Don Giovanni, como sobre o cartaz: uma embalagem de preservativo aberta ao lado das palavras: “Don Giovanni. Em breve”.


(Imagem retirada do jornal LA Times)
De acordo com uma porta-voz que falou ao jornal Evening Standard, “o teatro queria para esta ópera uma campanha publicitária inteligente e cativante. Surgiu esta ideia, que pensamos que é brilhante, divertida e apanha a essência de Don Giovanni de uma forma espirituosa.” Não me convencem. Considero que a ideia é pobre, até preguiçosa, e procura provavelmente chocar apenas e mais nada. E esta parece ser uma linha geral na forma como a ENO tenta aproximar-se a públicos ‘novos’: tentam fazer as coisas parecer necessariamente sexy. Uma iniciativa que tem como objectivo atrair pessoas novas chama-se Undress for the Opera (Despe-te para a ópera)… Há um vídeo com um discurso apaixonante do encenador Terry Gilliam a dizer porque é que a ópera é fascinante, mas aquele título (enganoso) era mesmo necessário? Quando tudo o que querem dizer é “Isto pode interessar-te. Temos aqui alguns bilhetes baratos para experimentares. A propósito, vem vestido como quiseres” (na verdade, uma senhora comentou num jornal que para as suas filhas adolescentes a ida à ópera tinha sido uma ocasião para se vestirem elegantemente…)

Para voltar à campanha do Don Giovanni, as reacções no Facebook, apesar de não virem daqueles que são o público-alvo da campanha (é verdade, onde estão eles? Sabem disto? Viram o vídeo? Perceberam que é para eles?…), mostram que alguns dos actuais fãs da ENO sentem que isto é só conversa e uma tentativa de parecer forçosamente sexy. Acreditam até que as pessoas já vão à ópera vestidas como quiserem. Outras pessoas parecem achar a campanha divertida. No Facebook, a ENO respondeu aos críticos dizendo que “Em termos gerais, as reacções à campanha publicitária de Don Giovanni têm sido positivas e a maioria das pessoas vê o lado engraçado e concorda connosco que a publicidade apanha a essência de Don Giovanni de uma forma espirituosa.” Soa um pouco como uma resposta ‘oficial’.

Na minha opinião, a diferença entre as duas campanhas é que, apesar de ambas procurarem chegar a uma audiência mais vasta e talvez ‘nova’ através de temas populares e sexy, o Leopold Museum tenta ser rico e criativo na sua abordagem, enquanto a ENO faz a sua parecer e soar banal e preguiçosa. E acredito que isto vai influenciar os resultados. Ou talvez não… Tenho a certeza que a seguir às aberturas haverá mais discussão, tanto na imprensa como no Facebook, incluindo, possivelmente, as opiniões daqueles que são o alvo destas campanhas. No caso de não haver um outro género de avaliação somativa por parte das instituições promotoras, será, com certeza, interessante acompanhar estas conversas informais.

Agradecimentos especiais a:
Klaus Pokorny, Responsável de Relações Públicas no Leopold Museum, pela gentileza de me enviar os cartazes e responder às minhas perguntas;
Inês Fialho Brandão, por me dar a conhecer Zeerotica;
Spyros Gryllakis, pela ajuda com as traduções do alemão.

Monday, 1 October 2012

Nas redes sociais... socializa-se

Imagem retirada da apresentação de Devon Smith The science of social media  building.
Uma suposição comum é que todo e qualquer suporte de comunicação serve o mesmo propósito: a divulgação. E mais concretamente ainda: a divulgação de agenda. Não é raro encontrarmos vários suportes a propósito do mesmo evento (exposição, concerto, peça de teatro, debate), de vários formatos (MUPI, cartaz, postal, folheto, jornal, anúncio de imprensa, spot TV ou rádio), todos com a mesma informação (o quê, quando, onde). Penso que por trás do uso de cada suporte deve existir um objectivo próprio. A escolha de formato, os conteúdos a inserir em cada um, os timings em que aparecem, tudo contribui para divulgar um evento, mas, além disto e sobretudo, para construir algo maior em termos de comunicação: a ideia, o sentimento e o envolvimento que se quer que as pessoas tenham relativamente à entidade ou à pessoa que o promove.

As redes sociais são ainda um suporte novo, pouco estudado, pela maioria de nós, em termos de propósitos, possibilidades e impacto. Estou concretamente a referir-me ao Facebook,  que é aquela que mais uso. Acompanhando a actividade de uma série de entidades (culturais e não só), chego à conclusão que, enquanto rede social, o Facebook é, em primeiro lugar, isso mesmo: um espaço para socializar. Como diz uma amiga, devemos encará-lo como um café, um espaço público de conversa, de partilha – de ideias, opiniões, experiências, informações. É um espaço onde queremos estar porque… todos ali estão, porque queremos fazer parte, porque não queremos ficar de fora, porque queremos conversar também (e, em especial, sobre nós…). Com base na minha experiência pessoal, as entidades que fazem mesmo isso, que conversam, são aquelas com as quais me sinto mais envolvida, o que significa que faço like, partilho e comento (contribuindo, assim, para uma maior visibilidade de um determinado post). No caso das entidades que se limitam a divulgar a sua agenda (e que, ainda, exageram no número de posts ou colocam muitos seguidos), passo por cima ou tiro-as do meu news feed, deixando os meus ‘amigos’ fazerem a triagem do que for mais relevante ou interessante (e então, sim, presto mais atenção).

Esta tem sido a minha experiência do uso do Facebook a nível pessoal e profissional. No entanto, e apesar da maioria de nós não ter propriamente estudado estes meios, esta área de conhecimento tem já os seus especialistas. Tive a grande oportunidade de ouvir uma deles num seminário no Kennedy Center em Julho passado. Chama-se Devon Smith, é novíssima, claramente uma especialista, e ocupa o cargo de Director of Social Media na agência Threespot, que desenha estratégias de envolvimento digital para organizações sem fins lucrativos. Aprendi muitas coisas naquela apresentação (cujo powerpoint está disponível aqui e é muito elucidativo) e, ao mesmo tempo, ficou confirmada a minha maior ‘suspeita’: o Facebook não vende bilhetes...

É por essa razão mesmo que devemos considerar melhor o porquê da nossa presença neste meio, a melhor forma de a garantir e o que devemos esperar dela. Entre o que aprendi com a Devon Smith, a minha experiência como utilizadora e as minhas ideias relativamente ao que significa “comunicação” numa entidade cultural, as minhas constatações são as seguintes:

Porque estamos no Facebook
Para conversarmos com os nossos ‘amigos’, pessoas que gostam de nós, da nossa forma de estar, do que temos a dizer, do nosso trabalho;

- Para reforçarmos a nossa marca, ou seja, a ideia que queremos que as pessoas tenham de nós, daquilo que representamos;

- Para multiplicarmos os nossos ‘amigos’, porque através dos que temos, ganhamos outros, fazendo a nossa palavra chegar cada vez mais longe e alargando, assim, a nossa base de apoiantes.

Como devemos estar no Facebook
Antes de qualquer outra coisa, diria que é essencial que a nossa voz nesta conversa possa ser concreta, reconhecível, aquela que os nossos ‘amigos’ procuram ouvir. Há algum tempo, tinha escrito um post chamado Rostos, onde falava da importância de humanizarmos as nossas instituições, de lhes darmos um rosto, porque é uma forma de criar uma relação com as pessoas, de as envolver. Neste caso, trata-se da importância de lhes darmos também uma voz. E como diz, e muito bem, Marc Sands, o brilhante Director de Marketing da Tate Modern, as pessoas não o querem ouvir a ele, querem ‘ouvir’ e ‘conversar’ com Nicholas Serota, o director do museu (vale a pena ver o vídeo How to engage with new audiences in the gallery). O impacto de um post é completamente diferente quando é o director de um museu, um director artístico, um programador, um chefe de orquestra, um encenador, um artista, a falar de um evento, a convidar-nos, a dizer porque é que não o podemos perder, a desvendar segredos, a partilhar as suas inspirações, emoções, preocupações. E depois, é esta a ‘voz’ que será ‘partilhada’ e levada mais longe pelos nossos ‘amigos’ (quem é ‘amigo’ de Jorge Silva Melo no Facebook entenderá de que estou a falar).

Imagem retirada da página do Rijksmuseum no Facebook
Dito isto, penso que há mais alguns pontos que merecem a nossa atenção:

- Conversar significa abandonar a linguagem seca e institucional e assumir um tom humano, directo, quotidiano, com sentido de humor. O melhor exemplo entre as instituições que eu sigo é o Rijksmuseum (vale a pena ver o vídeo Rembrandt´s timeline, cujo objectivo era aumentar o número de fãs da página do museu, ou seguir todos os meses a votação das Misses que farão parte do calendário que o museu vai produzir).


- Conversar significa falar, mas também ouvir. E responder. Não poucas vezes, comentários e perguntas colocadas pelos ‘amigos’ (sobretudo em páginas de personalidades, geridas ou não pelas próprias) ficam sem resposta, pondo fim à ‘comunicação’ (muito bons exemplos de artistas portuguesas que conversam com os seus fãs em páginas pessoais são, na minha opinião, os da Mísia e da Aldina Duarte). É igualmente importante saber lidar com a controvérsia e com comentários menos simpáticos. Um dos melhores exemplos que vi recentemente foi a forma como o teatro Woolly Mammoth lidou com a controvérsia à volta da reposição da peça de Mike Daisey The Agony and the Ecstasy of Steve Jobs (ler aqui  e aqui). O teatro respondeu a todos os comentários do público e não hesitou em colocar na sua página artigos que criticavam severamente a opção de repor a peça, mostrando assim total abertura e alimentando a conversa à volta… dele próprio (estes posts já não aparecem na timeline do teatro, mas vale a pena ser fã do Woolly Mammoth, aprende-se muito).

Resposta do Editor de Multimédia do jornal Expresso ao comentário de um leitor no Facebook. Ler mais no blog PiaR

Por último, algumas práticas comuns que merecem ser revistas:

- Parece-me fazer sentido considerar o número de posts por dia se queremos realmente garantir a atenção dos nossos ‘amigos’ (há instituições que nos saturam, sem terem nada especial a acrescentar à conversa);

- Apesar dos posts com fotografias serem aqueles que geram mais ‘conversa’ (like´s, partilhas, comentários), não me parece que faça sentido as fotos de um evento serem colocadas uma a uma, em posts consecutivos, em vez de arrumadas num álbum; como também não faz sentido colocar fotos desfocadas, mal tiradas, várias versões da mesma cena ou do mesmo momento numa conferência ou debate;

- Os posts de agenda são muito pouco interessantes, têm muito pouco ou nada a ver com a natureza do Facebook, não estimulam a conversa (muito menos vendem bilhetes). Transmitem aquela ideia do vendedor que procura impingir algo, algo que… não esteja a vender (com ou sem razão).


Finalmente, o que podemos esperar de tudo isto? Uma conversa. Uma boa conversa. Momentos de espanto, de riso, de surpresa, de descoberta, de deleite, de cumplicidade, que façam com que os nossos ‘amigos’ procurem cada vez mais a nossa companhia, virtual e… real.


Mais
Devon Smith, Case studies of theatres using social media (apresentação)

Monday, 25 June 2012

Tal como no futebol

(Foto retirada de Page3Sportz)
Não sou fã do futebol. Não porque acho que é o “ópio do povo” ou porque acho que está a tirar dinheiro à cultura… Simplesmente, não tenho paciência suficiente. E muito frequentemente as enormes quantias de dinheiro para a transferência de jogadores deixam-me profundamente indignada; acho um enorme exagero, uma provocação. Mesmo assim, confesso que em 2004 (e peço desculpa aos meus amigos portugueses por estar a lembrar-lhes desse momento difícil na nossa relação) vi todos os jogos a partir dos quartos de final. Era impossível resistir ao sentimento geral de expectativa e entusiasmo. E ainda me lembro do momento em que gritei “Golo!!!” na final, quando toda a vizinhança ficou de repente num silêncio de morte.

Penso frequentemente naquilo que faz as pessoas em todo o mundo, de diferentes backgrounds, vibrarem com o futebol; naquilo que, em certos momentos, faz com que, até aqueles moderadamente interessados ou totalmente desinteressados, sejam incapazes de o ignorar. Penso que sejam vários factores – tanto intrínsecos como desenvolvidos pelos clubes e as federações – e que o sector cultural poderia descobrir aqui algumas lições.

O futebol é emoção, excitação, entusiasmo, expectativa, prazer, alegria, orgulho, dor, satisfação, desilusão.

O futebol é também identidade, um sentimento de pertença, de fazer parte de uma comunidade que apoia os mesmos objectivos, onde todos os membros juntos celebram vitórias e sofrem pelas derrotas.

O futebol é ainda partilha e tolerância. Não se convive apenas dentro da comunidade, mas o gosto, a alegria e o prazer são celebrados juntamente com membros de outras comunidades, “adversárias”. 

Estas são algumas das características e dos valores intrínsecos do futebol que o tornam importante na vida das pessoas (existem igualmente outras características, totalmente contrárias a estas, mas aqui interessam-nos as boas lições). É precisamente sobre estas características e valores que os clubes e as federações constroem a sua ‘oferta colateral’, procurando fortalecê-los e criar uma extensa família de fãs, um dos pilares da sua sustentabilidade, tanto pelo seu apoio financeiro directo, como porque atraem patrocínios. Gostaria de me concentrar aqui em dois pontos que me parecem relevantes para esta discussão:

- Os clubes de futebol envolvem as pessoas partilhando extensivamente e permanentemente, através dos seus próprios canais e também dos media oficiais, notícias sobre a sua vida do dia-a-dia: treinos e jogos, análises de decisões estratégicas, objectivos, transferências, lesões, questões de gestão, eventos sociais, trabalho comunitário, etc. Partilham ainda os seus sentimentos, medos, esperanças, preocupações, expectativas, desejos e sonhos.

- Os clubes de futebol envolvem ainda as pessoas através das assinaturas, oferecendo benefícios (em geral, alguns descontos), mas também concedendo-lhes o direito de voto, partilhando, assim, com elas a responsabilidade pela gestão e o futuro do clube. Assim, os sócios desenvolvem um sentimento de propriedade, as direcções dos clubes tornam-se accountable (explicam o que andam a fazer, como o fazem, porquê, quanto gastam e o que vão fazer a seguir, dão a conhecer o que se conseguiu e justificam aquilo em que se falhou) e os sócios esperam que o sejam, exercendo frequentemente o seu direito de as questionar e sendo até capazes de forçar demissões.
(Photo taken from FanIQ)
Poderia agora recomeçar e dizer:

A cultura é emoção, excitação, entusiasmo, expectativa, prazer, alegria, orgulho, dor, satisfação, desilusão.

A cultura é também identidade, um sentimento de pertença, de fazer parte de uma comunidade que apoia os mesmos objectivos, onde todos os membros juntos celebram vitórias e sofrem pelas derrotas.

A cultura é ainda partilha e tolerância. Não se convive apenas dentro da comunidade, mas o gosto, a alegria e o prazer são celebrados juntamente com membros de outras comunidades. 

A cultura é tudo isto e muito mais. Estes e muitos outros são os seus valores intrínsecos. Nós sabemo-lo. Outras pessoas (o chamado “público em geral”) também o sabem. Sobretudo quando falamos com todos sobre a cultura em termos que cada um entenda. Porque nesse caso quase todos se apercebem que, de uma forma ou de outra, cada um de nós, quase todos, ou produz ou consome um género de produto cultural, um produto que lhes faria falta se não tivessem mais acesso a ele.

Não pretendo ser simplista, nem ignorar a diferença de escala, nem é minha intenção analisar aqui o lado negro do futebol (que todos conhecemos). Acredito, no entanto, que alguns dos meios usados pelos clubes de futebol para envolver as pessoas e garantir o seu apoio (assim como a sua própria relevância na vida delas) poderiam também ser usados pelas instituições culturais. Imaginemos:

Uma instituição cultural que anuncia publicamente a sua missão e objectivos específicos a curto, médio e longo prazo; que permite aos membros da sua ‘família’ de apoiantes terem uma palavra a dizer; que partilha com todos os interessados momentos da sua vida diária (montagem de exposições, ensaios, momentos do trabalho do dia-a-dia dos seus funcionários ou dos artistas – alegria pelas coisas conseguidas, desilusões pelas coisas que não correram bem, incidentes que tenham piada, pequenos segredos, desejos e esperanças -, as impressões dos visitantes e espectadores sobre a experiência, gestores ou directores ou curadores ou programadores a partilhar as suas ideias sobre futuros projectos, visitas de VIPs, parcerias com outras entidades, etc.); uma instituição cultural que procura formas de tornar a sua oferta de alguma forma acessível também para aqueles que não chegam a ela, fisicamente ou financeiramente. Em suma, imaginemos uma instituição cultural que não tem medo de se desmistificar perante pessoas de todos os backgrounds; e que não tem medo de se tornar mais accountable.

Na verdade, se pensarmos bem, tudo isto não é exactamente novo para todas as instituições culturais. Existem museus, galerias, teatros, companhias, orquestras em todo o mundo, pequenos e grandes, que, cada um de acordo com os seus recursos e à sua escala, implementam algumas destas técnicas. Talvez o impacto não seja comparável ao do futebol (talvez nunca o pudesse ser; estamos, na verdade, a falar de duas áreas diferentes). Mas há um impacto. E torna-se realmente considerável quando esta atitude faz parte do nosso planeamento estratégico; quando entendemos que a partilha (de planos, pensamentos, sentimentos, responsabilidade) é uma forma de construir uma ‘família’ mais forte e conquistar o seu apoio; quando somos sinceros no nosso desejo de comunicar e de envolver. Tal como acontece no futebol.

(Foto retirada de The Hindu)

Monday, 14 May 2012

Qual o problema com a música clássica? Aparentemente, nenhum…

Gustavo Dudamel (foto retirada do blog Fanáticos da Ópera)

Gustavo Dudamel é neste momento o rosto da popularidade da música clássica. Li recentemente que o seu novo álbum está em número 3 do pop chart sueco (à frente da Madonna). Não sei se estarei errada, mas acho que não se via algo assim no mundo da música clássica desde o tempo dos três tenores. É uma sorte, acredito, quando se pode contar com o contributo destes ‘fenómenos’, que com a sua arte e a sua grande capacidade de comunicação conseguem abrir janelas a milhares de pessoas para experiências nunca antes vividas. Graças a eles, este mundo (assim como o da ópera ou do bailado) - visto por muitos como fechado, elitista, incompreensível, desinteressante, ‘abafado’, desmistifica-se, surpreende, entusiasma, toca, ganha um lugar na vida das pessoas. No entanto, há muitos outros profissionais (artistas, mas também programadores, gestores, profissionais dos serviços educativos e da comunicação) que dão o seu contributo, ainda que numa escala diferente, para que cada vez mais pessoas possam entrar em contacto com o mundo da música clássica, descobri-lo, partilhá-lo.

Não se pode negar que a falta de familiaridade com a experiência é uma barreira fundamental. Um estudo realizado recentemente no Reino Unido veio confirmar mais uma vez esta realidade. De acordo com o mesmo, 15% dos inquiridos (o que corresponderia a 7,3 milhões de adultos), quando questionados sobre a experiência cultural que gostariam de ter, manifestaram interesse em ir à ópera (ler a notícia aqui). Quando lhes perguntaram porque é que nunca o tinham feito, 62% disseram que era muito caro. No entanto, 14% (o que corresponde a mais de 4 milhões de pessoas) responderam que não conheciam o suficiente para poderem apreciar esta forma de arte e 7% estavam preocupados porque não conheciam a etiqueta exigida. A familiaridade prende-se com várias questões (tanto práticas – como, realmente, a etiqueta -, como de conhecimentos ou até de relevância para as pessoas), que as instituições e os profissionais da área procuram abordar de várias formas. Uma delas são os chamados flash mobs, que têm vindo a multiplicar-se nos últimos anos. Lembro-me em particular deste, no mercado de Valencia, onde no fim apareceu um cartaz a perguntar: “Vês como gostas de ópera?”. 



Do outro lado do Atlântico, a Knight Foundation financia os Random Acts of Culture em aeroportos, mercados, restaurantes fast food, lojas, e justifica no seu site este investimento da seguinte forma: “Ouvir Händel ou ver tango num lugar inesperado cria um lembrete muito sentido de como os clássicos podem enriquecer as nossas vidas. Como vão ver nos nossos vídeos, as performances fazem as pessoas sorrir, dançar, pegar nas suas câmaras – até chorar de alegria. Por estes breves momentos, as pessoas que levam as suas vidas do dia-a-dia fazem parte de uma experiência partilhada, comunal, que torna a sua comunidade num espaço mais vibrante para se viver.” 


Palavras mais usadas pelos visitantes da instalação Re-Rite para descreverem a experiência.
Nesta linha de acções, e apesar de não ter sido ao vivo (mas quase o era…), penso que deveríamos ainda mencionar a experiência única que foi o Re-rite, apresentado no ano passado pela Fundação Gulbenkian no MUDE (ver aqui e aqui), que nos colocou no meio de uma grande orquestra sinfónica e até nos deu a oportunidade de ocuparmos o lugar do maestro e dos músicos. À saída, perguntava-se aos visitantes como é que descreveriam a experiência com três palavras. “Emocionante”, “vibrante”, “fantástico”, “envolvente” foram algumas das palavras mais usadas. No entanto, quase um terço dos inquiridos admitiu que não teria usado essas mesmas palavras para descrever um concerto antes da visita ao Re-Rite. “Não tinha noção”, “Não conhecia”, “Nunca tinha assistido a um concerto”, Não fazia ideia”, “Não tinha esta percepção”, foram algumas das razões dadas. Resta saber se a experiência levou algumas dessas pessoas aos concertos da Temporada de Música, uma vez que quase 50% dos inquiridos tinha exprimido esta intenção*.

Mas este passo que nos faz sair das nossas instituições para irmos ao encontro das pessoas não responde a todas as suas dúvidas, não é por si suficiente para quebrar a barreira que se prende com questões sobre a etiqueta ou com o que se passa realmente na sala de concertos, no palco e atrás dele. O Grant Park Music Festival
 em Chicago reconhece que estas dúvidas existem e aproveita os seus quase 30 concertos de entrada livre e 50 ensaios abertos, num local extremamente acessível como o Millennium Park, para encorajar os milhares de pessoas que assistem ao festival (25% das quais pela primeira vez) a colocá-las. Tudo desde “o que é que faz o maestro”, “porque é que a orquestra está assim dividida em secções” até ao indispensável “posso aplaudir agora?” tem aqui uma resposta (ler mais em Overcoming cultural barriers: romancing the newcomers in Millennium Park). Em Londres, a Opera Holland Park convida as pessoas a assistirem aos seus espectáculos disponibilizando bilhetes a preços acessíveis, mas, sobretudo, criando um ambiente de informalidade, onde as pessoas, sobretudo aquelas que vêm pela primeira vez, não precisam de se preocupar com a etiqueta. Ainda em Londres, o Royal Ballet apresentou em Março passado em directo no You Tube um dia de trabalho nos seus bastidores (ler aqui), dando a conhecer alguns aspectos que o público raramente ou nunca tem a oportunidade de conhecer ou de acompanhar.

Uma outra forma de aproximação ainda é a imagem que as instituições procuram projectar sobre elas próprias e a natureza da sua oferta através dos seus spots publicitários. O blog
Slipped Disc apresentou vários deles nos últimos dias e é notória a intenção de transmitir a ideia de que a experiência é divertida, descontraída e relevante. São disso exemplo os spots da Orquestra Filarmónica Checa ou da Orquestra Filarmónica de Luxemburgo, mas eu convidava a ver ainda este, sobre o Royal Ballet (“Not what you think”), que, diz-se, foi criado por um bailarino e não foi ‘assumido’ pelo Royal Ballet (e se assim é, que pena…).



Há ainda outras questões, que se prendem com o repertório, os compositores, a sua vida e obra. O anteriormente referido Grant Park Music Festival, para além de disponibilizar ‘explicadores’, proporciona momentos de convívio com maestros e músicos, onde se pode conversar sobre o programa. Entre as minhas experiências pessoais nesta área, destacaria duas. Primeiro, uma conversa fascinante no ano passado entre o musicólogo Rui Leitão e uma dezena de pessoas antes de um concerto da Metropolitana. Não foi apenas a simplicidade do seu discurso que me agradou, totalmente acessível para quem pouco conhecia, mas também o facto de quem conhecia um pouco mais ter descoberto - sim, naquela abordagem tão simples e informal - tantas coisas, pormenores maravilhosos, que desconhecia. Em segundo lugar, o concerto de apresentação da temporada 2011-2012 da National Symphony Orchestra no Kennedy Center, onde foi impossível resistir à energia contagiante do maestro Ankush Kumar Bahl, que com muito entusiasmo, sensibilidade, paixão e sentido de humor contou pequenas histórias e criou lindos contextos a propósito dos destaques da programação aí apresentados. O que caracterizou ambos os discursos era a plena consciência que não se estavam a dirigir aos seus pares, conhecedores profundos, mas sim, ao público ‘geral’ e interessado, com o qual muito gostariam de poder partilhar esta experiência.

Anna Nicole Smith na Royal Opera House (foto retirada do site da ROH)

Mas esse mesmo repertório não estagnou. 
Naturalmente, continua-se a criar, a renovar, a procurar até novas formas de apresentação, para se relacionar com mais pessoas. A Minnesota Opera aposta nas encomendas porque vê a necessidade de evoluir, de avançar, de tornar a arte operática numa forma de arte progressiva, ambiciosa, inovadora. Uma das suas últimas produções é uma ópera para público juvenil, baseada num livro popular, The Giver (ver aqui entrevista com os responsáveis). Deveríamos ainda mencionar exemplos como a controversa aposta da Royal Opera House numa ópera sobre a vida da playmate Anna Nicole Smith (ver o trailer aqui) ou a nova produção do Royal Ballet, que junta bailarinas a cantores pop e rappers (ler aqui). E para além destas experiências de ‘fusão’ (artística e não só), vale a pena ainda conhecer os Alarm Will Sound, um grupo de música contemporânea que procura tocar as pessoas, independentemente do seu background, através de concertos-performance. Dizem-se conscientes de que os concertos de música contemporânea são um pouco frios, porque as pessoas não estão familiarizadas com este género musical. Assim, através da sua música, mas também dos seus corpos, energia e entusiasmo, comunicam o que a música é. E o que é pouco familiar pode ganhar sentido.

  

E depois de tudo isto, vem o chamado
Churn Report (Orchestra Audience Growth Initiative) dizer que afinal o problema não é trazer novas pessoas, é convencê-las a voltar… O estudo mostrou que 90% das pessoas que vêm a um concerto pela primeira vez, não regressam; e 60% dos espectadores ocasionais não compram bilhetes para a temporada seguinte. Algo que chamou em particular a minha atenção neste relatório é que os gostos das pessoas que vêm pela primeira vez e das mais assíduas quanto a compositores e instrumentos favoritos não são tão diferentes quanto se poderia pensar (ver quadros) - afinal, talvez não seja tão complicado programar para ambos. Vale a pena ler os resultados e as propostas deste estudo, que prova, mais uma vez, que não é apenas a arte que determina as opções das pessoas (e por isso, a não participação não indica necessariamente um ‘problema’ com a arte em si), mas sim a experiência como um todo, com a qual é preciso criar familiaridade, não desvalorizando, ao mesmo tempo, aqueles detalhes práticos e logísticos que poderão constituir barreiras, por muita que seja a vontade de assistir. 


*
Dados do inquérito realizado aos visitantes do Re-Rite no MUDE, gentilmente cedidos pelo Serviço de Música da Fundação Calouste Gulbenkian.


Ainda neste blog 

Convite para a festa 
Por falar em ‘novos’ públicos 
A diferença entre ‘mais’ e ‘diversos’  
La crise oblige? (ii) Desafios da programação  

Mais leituras 

How Symphonies Grew Strong Audiences By Killing The Myth Of The Average Consumer 
Audience Growth Initiative 
Music and motion 
Remixing Classical-Music Concerts for the iPod Generation 
Joshua Bell played last night on Dancing with the Stars. Why? 
Sydney Dance Company attendance doubles 
I’m ready for my close-Up, Mr. Puccini 
Streaming ahead 
Minnesota Opera premieres a new opera for youth based on Lois Lowry’s classic novel, “The Giver”
My very first night at the opera 

Monday, 30 April 2012

Barcelona: 1 conferência, 2 museus a pô-la à prova

Na semana passada estive em Barcelona e assisti à conferência Glocal Audiences in Culture: Global Cities, Local Audiences, uma iniciativa da Audiences Europe Network. No programa constavam tanto museus como instituições ligadas às artes performativas, dois mundos que raramente se cruzam e discutem em conjunto questões que lhes são comuns.

Não poucas vezes, nestas conferências tomamos conhecimento de projectos que parecem conseguir dar resposta a todos os nossos desejos e preocupações, mas cuja apresentação resta algo superficial. Ficamos sem saber
como é que foram desenvolvidos e de que forma tem sido avaliado o seu sucesso. Esta conferência não foi excepção, mas, mesmo assim, houve alguns momentos e discussões de particular interesse. O programa era composto por uma sessão introdutória e cinco painéis, dos quais procurarei fazer aqui um brevíssimo resumo.


Sessão introdutória: Tourism vs. local audiences
Foram aqui apresentados os resultados de estudos de público que indicam que a grande maioria dos espanhóis não visita museus no seu país, mas não deixa de o fazer quando viaja no estrangeiro; que mais de metade dos visitantes dos museus de Barcelona são estrangeiros e 27% residentes nesta cidade. A percepção dos visitantes é que “museu” significa “aprender”, “curiosidade”, “paz”, “admiração”, “descoberta”; para os não-visitantes ou visitantes ocasionais significa “aborrecimento”, “esforço”, “incompreensão”, “descoberta”. Os oradores falaram da necessidade de criar um sentimento de pertença nas comunidades locais, de estabelecer ligações emocionais, de criar espaços de encontro. Devemos admitir que nada disto é novo. Fiquei, por isso, a pensar se necessitamos mesmo de continuar a investir neste género de estudos (pontuais e que dizem respeito à relação dos públicos com os museus em geral), em vez de trabalharmos no sentido de mudar estes indicadores. Por outro lado, no caso de museus que têm os meios de fazer estudos de público continuados (ficámos aqui a conhecer o caso do Louvre), que lhes permitem avaliar o seu trabalho ao longo do tempo e registar alterações e novas tendências, encontramos, com certeza, indicadores muito relevantes de mudança.


Painel 1: Big museums for local audiences
Foi aqui reiterada a necessidade de concentrar no indivíduo, de adaptar a oferta às necessidades de cada um. Será mesmo que museus como o Prado e o Louvre, que recebem milhões de visitantes por ano, consigam cumprir este objectivo? É isso que não ficámos a saber neste painel. A simples apresentação de iniciativas não chega para percebermos se o objectivo está a ser atingido. Entretanto, foram aqui referidos alguns pontos que merecem ser reflectidos: a importância de recolher, usar e partilhar dados; de procurar novas parcerias, também com museus mais pequenos, localizados na área de acção dos ‘grandes’; de sair dos limites do próprio museu e ir ao encontro das pessoas; por fim, de considerar como indicador de desempenho não apenas o número de visitantes, mas também o facto do museu ter conseguido (ou não) satisfazer as expectativas dos visitantes.


Painel 2: Pricing strategies in time of crisis

Eis um painel que não satisfez as expectativas. Foram apresentadas políticas de descontos - as habituais, as que sempre existiram - sem a reflexão esperada sobre os desafios colocados pela actual crise económica. Desafios estes que têm essencialmente a ver, na minha opinião, com as pessoas que costumam frequentar espaços culturais (com maior ou menor frequência) e que poderão ter agora um poder de compra mais limitado. Como fazer para continuar a providenciar acesso a quem deseja visitar / assistir, garantindo ao mesmo tempo alguma receita para as nossas instituições? Quanto às entradas gratuitas e à ilusão que trazem, só por si, pessoas que não têm o hábito de visitar / assistir, pareceu-me haver consenso (pelo menos não se ouviram vozes contrárias): esta é mesmo uma ilusão.


Painel 3: From user to client
Foram aqui levantadas questões muito pertinentes sobre a necessidade de colocar a pessoa (visitante / espectador) no centro dos nossos planos estratégicos, de criar novos públicos (eu deixei de usar esta expressão, mas é isto que foi dito) através do marketing relacional, de criar proximidade e um atendimento personalizado, de aproveitar as ferramentas de Customer Relationship Management (em Portugal, parece-me que apenas o CCB tem recorrido a estas ferramentas). Falou-se ainda da importância de saber manter um equilíbrio entre os desejos do público e as necessidades da programação (o que me fez pensar no interessantíssimo debate Lead or Follow, que teve lugar em Janeiro e cuja leitura recomendo).


Painel 4: Tourist cities for local audiences
Este foi para mim o painel mais interessante, onde foram realmente partilhadas e discutidas reflexões e preocupações sobre a tensão criada, em cidades de várias dimensões, entre a comunidade local e os turistas. Há uma necessidade real de se manter relevante para públicos muito diferentes, o que obriga a pensar estratégias muito concretas para nutrir e manter a relação com o público local (desde a programação específica à oferta de café). O caso que mais me chamou a atenção foi o do Hermitage Amsterdam, que ‘teima’ em se posicionar como um destino internacional, quando os turistas não o vêem como tal e a comunidade local, com a qual estabeleceu já uma relação muito forte, aprecia em particular o facto deste museu não atrair os numerosos turistas que invadem outros museus dessa cidade.


Painel 5: Cultural institutions take the street
E foi este último painel que nos reservou uma bonita surpresa. Um projecto inspirador e de grande impacto: The Grand Tour foi uma iniciativa da National Gallery de Londres, em parceria com a Hewlett Packard (HP), que espalhou pelo centro da cidade, em lugares às vezes muito inesperados e escolhidos com muito sentido de humor, cópias (impressões) de alta qualidade dos seus mais conhecidos quadros. Os objectivos eram: tornar o museu mais conhecido; informar o grande público que algumas das pinturas mais conhecidas se encontram nele; informar ainda que a entrada ao mesmo era gratuita; motivar as pessoas para falar de arte. Ao lado de cada cópia, uma legenda dava informações básicas sobre a obra original e um número de telefone para mais informações. Informações podiam também ser lidas ou retiradas do microsite da iniciativa. O museu considera que a missão foi cumprida: o número de visitantes aumentou significativamente, sendo que muitos chegavam ao museu com o mapa criado para esta iniciativa em mão, à procura das obras originais. As fotos falam em muitos casos por si, no entanto, foi também publicado um livro sobre esta experiência e as reacções do público.


Foto retirada do blog The Crossed Cow

Foto retirada do blog The Crossed Cow

Foto retirada do blog The Crossed Cow

Aproveitei os meus dois dias em Barcelona para visitar dois dos meus museus favoritos. Ao chegar ao Museu Marítimo, fiquei a saber que a exposição permanente estava encerrada devido a obras. Não me lembrava de ter visto um aviso no site do museu (que está apenas em catalão e castelhano), mas quis verificar quando regressei ao hotel: não existe aviso. Assim, visitei uma exposição temporária sobre o Titanic. Antes, procurei o bengaleiro para deixar a minha mala que pesava, mas não havia. Ao entrar, recebi um audioguia (este, sim, em mais que duas línguas), que obrigava o visitante a seguir um determinado percurso, sem poder escolher sobre que objectos ou secções gostaria de ouvir mais informações. No caso de vitrines pequenas, acumulavam-se tantas pessoas à frente das mesmas, que era impossível ver os objectos sobre os quais estávamos a receber informação. Desliguei o audioguia e limitei-me à leitura de algumas legendas. Ao atravessar as várias secções da exposição, em vários momentos fiquei sem saber se os objectos à minha frente eram originais ou reproduções (um museu tem a obrigação de assinalar esta diferença). Dirigi-me a três funcionários para obter informações sobre isto, todos muito simpáticos, mas nenhum deles falava inglês.


Museu Marítim de Barcelona, exposição "Titanic" (Foto: mv)
No dia seguinte era a vez do Museu de História da Catalúnia, um dos melhores museus de história que conheço. Fiquei contente por encontrar legendas em inglês desta vez. No passado, não conseguia perceber como é que no museu de história de um povo que reclama a sua diferença e autonomia esta mesma história não era contada aos visitantes estrangeiros, pelo menos em inglês. Por outro lado, o amigo francês que me acompanhou nesta visita, professor de história no Liceu Francês de Barcelona há quatro anos, nunca tinha ouvido falar deste museu, entrava pela primeira vez (e ficou maravilhado). Não seria de esperar que entre os públicos-alvo prioritários deste museu estariam os professores de história da cidade e da região?


Museu d´Història de Catalunia (Foto: mv)
Estes são, sim, dois dos meus museus favoritos nesta cidade, porque sabem contar uma boa história. No entanto, ambos puseram as reflexões e conclusões da conferência à prova e lembraram-me que, em muitos casos e mesmo em situações que poderíamos considerar óbvias e ou de simples resolução, a teoria continua ainda muito distante da prática. Porque será?


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Monday, 23 January 2012

O que pode fazer a diferença?


Foto tirada de http://www.londontheatredirect.com/
War Horse é uma produção do National Theatre (Londres) que estreou em Outubro de 2007. Em 2009 mudou-se para o West End. Em 2011 atravessou o Atlântico para ser apresentada em Broadway. Em 2012 está prevista uma digressão nos EUA. Trata-se de uma produção multi-premiada, adorada pelo público e pelos críticos de teatro, e é um grande sucesso de bilheteira. O lucro anual de 3 milhões de libras das apresentações da peça em West End tornou insignificantes os cortes no subsídio que o National Theatre recebe do Arts Council England (ler notícia aqui).

Em Maio de 2010, o Guardian publicava o artigo Theatre trailers: missing an opportunity. A jornalista incentivava os teatros a serem um pouco mais ambiciosos na divulgação das suas produções, citando como bons exemplos o National Theatre e Sadler´s Wells. Foi neste artigo que encontrei o link para este trailer:



Era a primeira vez que via um trabalho deste género, a fazer lembrar a publicidade dos filmes de cinema, para a divulgação de uma peça de teatro. Lembro-me de ter ficado encantada: toda a edição do trailer (o ritmo, as cenas escolhidas, a música) gerou em mim a vontade de ver a peça, de conhecer a história, de descobrir o que acontece no fim. Será este trailer o segredo do sucesso de War Horse? Provavelmente não. O segredo - que não é segredo - é que as pessoas que assistiram à peça adoraram e passaram a palavra a muitas-muitas outras. Terá este trailer feito a diferença na escolha das pessoas que inicialmente viram a peça? Claro que não tenho dados, mas é provável que tenha influenciado, muito até, no sentido que, no meio de tanta concorrência, entre muitas outras opções na oferta teatral, e não só, de Londres, esta abordagem marcou a diferença, gerou emoções, alimentou o passar-a-palavra, criou a necessidade de não perder (de uma forma muito mais palpável e eficaz do que a afirmação “A não perder!” que muitos produtores, sobretudo na área da música, insistem em colocar em todos os materiais de divulgação, desde os comunicados de imprensa aos cartazes).

A questão dos trailers para as produções de teatro voltou a ser abordada recentemente pelo New York Times, em Trailers to tempt the theatergoer. Um artigo mais técnico, que apresenta alguns exemplos e disponibiliza informações sobre os criadores, os meios e as técnicas, os custos e, sobretudo, os objectivos que se pretendia alcançar através do uso deste meio: desde apresentar a estética de uma companhia ao esclarecer eventuais preconceitos sobre o conteúdo de uma peça e, claro, reforçar na mente das pessoas os pontos fortes de uma produção, as razões porque não a podem perder.

Os trailers fizeram-me pensar novamente nos desafios que os profissionais da Comunicação estão a enfrentar na sua constante busca de novas formas e novos meios para chegarem aos públicos. O ambiente em que estamos a actuar está a mudar rápida e constantemente: a oferta é maior; o poder de compra, nesta fase, menor; os meios tecnológicos ao nosso dispor (e ao dispor do público) estão a afectar profundamente a relação entre ‘produtor’ e ‘consumidor’. O que poderá fazer a diferença na mente e no coração das pessoas? O que é preciso para chamar a atenção delas, despertar o seu interesse, gerar entusiasmo, convencê-las a deslocarem-se até ao nosso teatro, museu, galeria, auditório?

De uma coisa estou certa: não é preciso mais publicidade. ‘Publicidade’ no formato do anúncio de imprensa, espaço pago com publicidade informativa sobre o quê, onde, quando. Penso que este suporte serve ainda, apesar de já não ser o meio principal, para manter informadas as pessoas que normalmente acompanham a oferta cultural na cidade, que assistem a espectáculos, que visitam exposições e que convidam ou recomendam uma determinada actividade a outras pessoas; e serve ainda, e talvez sobretudo, para reforçar a imagem de uma instituição cultural, para ‘marcar posição’. O anúncio de imprensa - assim como o spot de televisão, acrescentaria aqui - é hoje um meio de marketing institucional e não de marketing programático. Aliás, da forma pouco inspirada como o temos usado, alguma vez terá sido?

O que poderá fazer a diferença, então? A imaginação. A inovação. A simplicidade. A intenção de desmistificar, de ser acessível. A vontade de tocar, maravilhar, inspirar as pessoas. De as fazer pensar. E também de as fazer esquecer.

Como é que isto se faz? Pode ser um trailer como o do War Horse; pode ser uma campanha como a “Quer ver a 3D? Venha ao teatro”, promovida há dois anos pelo Teatro Nacional D. Maria II (luminosa excepção, na minha opinião, no que normalmente se entende por ‘campanha publicitária’ pelas instituições culturais portuguesas);



pode ser um vídeo como este, da série Le Louvre invisible, que partilha pequenos momentos do dia-a-dia das nossas instituições; pode ser um programador que faz questão de explicar aos funcionários da bilheteira quais os pontos fortes de cada projecto, porque é que o público não pode perder cada uma das propostas, de forma que eles, os funcionários, e, através deles, o público, se possam sentir mais esclarecidos e informados, curiosos e interessados, e talvez até disponíveis para arriscar algo novo (refiro-me aqui concretamente a uma prática do anterior programador de música no CCB, João Godinho); podem ser os simples emails que cada vez mais artistas, directores de museus, curadores e programadores enviam para o seu ciclo, mais ou menos restrito, de amigos e conhecidos, dando a conhecer pessoalmente o seu trabalho e convidando a assistir/visitar, de uma forma muito mais directa, pessoal, acessível e entusiasmante – tornando inevitavelmente este mesmo ciclo de pessoas em mensageiros; pode ser uma iniciativa tão simples, bem-humorada e envolvente como a It´s Time we Met do Metropolitan Museum of Art, agora na sua quarta edição; pode ser uma forma especial de dizer “Feliz Ano Novo”.


Ler o post de Nina Simon Open thread: How does your institution say happy new year?

Exemplos soltos de coisas que li e vi nos últimos tempos. O que é comum em todos é a vontade de chegar às pessoas, estender o convite, fazer a ligação, evidenciar a relevância, criar envolvimento e cumplicidade.

Monday, 26 September 2011

De volta aos números


Imagem retirada do website do Público
Tem toda a razão o Secretário de Estado da Cultura quando diz “não acho justo que uma companhia, um encenador ou produtor não manifeste preocupação com as questões de público” (ler notícia). Mas é logo aqui que acaba a sua razão. Porque a preocupação não se comprova apenas e em primeiro lugar nos resultados de bilheteira. E porque a ‘criação de públicos’ se tornou nos últimos tempos em mais um conceito politicamente correcto e vazio.

Sinto-me cada vez menos confortável com a expressão ‘criação de públicos’. Porque vem reforçar a postura de ‘deus’, de ‘guardião’, que muitos de nós que trabalhamos no sector cultural assumimos. Somos os donos das instituições, sabemos (nós, e só nós) o que é que ali se deve apresentar, o que tem qualidade, interesse, valor. O que é que os outros, os ‘públicos’ que pretendemos ‘criar’, devem ver e apreciar.

Sabemos muita coisa, é verdade. Não deveríamos estar a trabalhar nesta área se não soubéssemos. Mas existe muito conhecimento, muitas experiências, muitas visões e formas de fruir das artes e da cultura também do ‘outro lado’, no meio desse ‘público’ que está aí fora, que existe e com o qual não estabelecemos ainda um contacto. Por isso, quando penso nestas questões agora, gosto cada vez mais de palavras como ‘participação’ ou ‘envolvimento’.

No seguimento disto, manifestar preocupação com as questões de público não significa, em primeiro lugar, ter em conta os resultados de bilheteira. Porque, em primeiro lugar, uma companhia ou um encenador ou um produtor não manifesta preocupação quando não está consciente ou insiste em ignorar as particularidades do meio sócio-cultural onde se insere; quando não está em contacto com as diferentes realidades ali existentes, com a arte e a cultura que se cria e que se consome nos vários meios; quando faz sempre… aquilo que sempre fez, sem adaptação nenhuma a novas tendências ou necessidades; quando encara a Comunicação como um acessório, por vezes ‘inevitável’; quando está concentrado na criação, como deve, mas sem interesse ou disponibilidade para considerar os timings necessários para se poder comunicar ao mundo exterior (aquele que queremos que venha comprar bilhetes…) qual é o sonho, a aspiração, o que está a ser feito, como e com quem; quando se recusa a dar entrevistas, quando não vai ao programa X ou Y (por considerar que representa a ‘baixa cultura’), quando faz os meios de comunicação esperar, quando não permite que se filme ou se tirem fotografias nos ensaios, quando não colabora na calendarização das entrevistas e dos ensaios de imprensa (tal como se calendarizam outros aspectos, de ordem técnica ou de produção). Uma companhia, um encenador ou um produtor não manifestam preocupação com as questões de público quando não querem entender que não basta criar, é preciso comunicar também. Faz parte do seu trabalho.

Mas porque eu não valorizo apenas os resultados de bilheteira dos teatros e dos cinemas, mas também os dos museus, penso que não se deve deixá-los de fora nesta reflexão. Porque também um director de um museu ou um curador não pode deixar de manifestar preocupação com as questões de público. E não manifesta preocupação quando, tal como outros profissionais da cultura, está concentrado apenas no seu museu sem considerar o meio em que o mesmo se insere; quando desconhece ou ignora as motivações, interesses, preocupações das pessoas que é suposto servir; quando não as envolve na actividade do museu; quando escreve textos (aquele meio de comunicação elementar, do qual todos os museus dispõem) que são entendidos apenas por ele próprio e pelos seus pares; quando se preocupa apenas em expor os objectos - de uma forma bonita, elegante, colocando (ou escondendo…) uma legenda mínima -, mas não disponibiliza simultaneamente aos visitantes os meios para poderem interpretar esses objectos, descobrirem a sua história, ficarem fascinados, comovidos, surpreendidos, rendidos; quando não se abrem canais para também os visitantes poderem contribuir nas escolhas, na interpretação, nas abordagens que se fazem; quando não se põe as pessoas à vontade no espaço (fisicamente, psicologicamente e intelectualmente). Museus místicos, fechados em si próprios, que comunicam apenas com quem já os conhece e os aprecia, que não sabem adaptar a sua linguagem, tornam-se em museus irrelevantes para grande parte da comunidade em que se inserem e não são ‘usados’ por ela, mesmo que a entrada seja livre ou o bilhete muito barato.

A resposta a dar quando a preocupação está relacionada, em primeiro lugar, com os números de bilheteira não é nada complicada, nem para os teatros, nem para os cinemas, nem para os museus: programa-se o que é mais popular; distribui-se mais convites; marca-se mais visitas de grupos escolares. Ou seja, estrangula-se o experimental, põe-se de lado o que for menos conhecido, acaba-se com a qualidade das visitas nos museus. Os números de espectadores e visitantes são importantes, sim. Mas antes de chegarem a ser indicadores de desempenho (e nunca o podem ser isoladamente), há muito por fazer na forma como as instituições culturais se relacionam com as pessoas. Tratemos da relação primeiro, com respeito e honestidade. E não nos esqueçamos das responsabilidades que o próprio Estado tem na construção da mesma, no que diz respeito aos objectivos que deve partilhar com os agentes culturais e aos recursos que deve disponibilizar, humanos e financeiros. Assim como não podemos esquecer que um apoio com dinheiros públicos deveria criar responsabilidades perante ‘os públicos’, nomeadamente de acesso – físico, psicológico, intelectual. A avaliação, números incluídos, é bom que se faça mais à frente e que diga respeito à prestação de todos.


Opiniões sobre recentes anúncios da Secretaria de Estado da Cultura

Pinto Ribeiro qualifica discurso de Francisco José Viegas como "nebulosamente ameaçador" (Público, 22.09.2011)
A nova Direcção-Geral do Património Cultural: recuo ou avanço? (Luís Raposo, Público 20.09.2011)

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