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Sunday, 14 June 2020

A minha responsabilidade por este vandalismo

A estátua de Padre António Vieira (Foot: Nuno Fox para o jornal Expresso)

O vandalismo, a destruição ou a remoção de estátuas não é uma "moda" de hoje. Já sabia disso, mas não sabia quão velha era esta história. Numa entrevista ao New York Times, a historiadora de arte Erin L. Thompson mencionou que há estátuas de reis assírios que trazem gravadas maldições ("Aquele que derrubar a minha estátua, que sofra pelo resto da vida") e que datam de 2700 a.C. Segundo o jornal, Thompson tem dedicado a sua carreira ao estudo do significado da destruição deliberada de ícones do património cultural. Colocar uma estátua no espaço público é uma decisão política, uma declaração pública, uma tentativa de solidificar o reconhecimento dos valores, carácter e contribuição de uma pessoa à sociedade. O espaço público é um lugar de afirmação política; mas também de contestação. Essas afirmações públicas de uma versão oficial da história não são necessariamente imortais e não fazem necessariamente sentido para sempre.

Tuesday, 9 June 2020

Do silêncio para a hashtag para a tomada de posição


A notícia que o director do Toledo Museum of Art, Alan Levine, quis "re-enfatizar" nesta altura que o museu não tem uma posição política soou-me estranha e anacrónica. Não apenas porque me juntei há muito tempo ao grupo de profissionais da cultura que defendem que a cultura não é neutra ou apolítica, mas, principalmente, porque no contexto actual dos EUA, e de outros lugares, as coisas efectivamente mudaram.

Tuesday, 2 June 2020

Não consigo respirar

Joe Raedle / Getty Images, retirado de NPR

O ano de 2014 foi marcado nos EUA pela morte de negros desarmados nas mãos de polícias nas cidades de Ferguson, Cleveland e Nova Iorque. Foi o ano em que Eric Garner morreu, repetindo "Não consigo respirar" ...

Nesse mesmo ano, na sua declaração conjunta sobre Ferguson e eventos relacionados (que ficou conhecida como “Museums Respond to Ferguson”), profissionais dos museus posicionaram-se sobre o papel dos museus perante essas mortes trágicas. Há três pontos dessa declaração que destaquei num post que escrevi na altura.

Saturday, 9 May 2020

Leituras da quarentena #2 e uma primeira versão da minha lista de desejos

Foto: Maria Vlachou

Desde o início do nosso confinamento, tive a oportunidade de ler muitos artigos instigantes e de participar em debates muito dinâmicos. Existe uma preocupação, frequentemente expressa, em relação à oportunidade que esta crise apresenta para repensarmos as nossas práticas, redefinirmos os nossos valores e sistemas de valorização do nosso trabalho, desenvolvermos relações de proximidade, respeito e solidariedade, tanto dentro das nossas organizações como com as nossas comunidades.

Vai acontecer? Conseguiremos desafiar as habituais (e conhecidas) barreiras e promover uma maneira nova e necessária de ser e agir? Seremos capazes de não propriamente ganhar a guerra (de mudar o mundo), mas pelo menos algumas batalhas decisivas? Franco “Bifo” Berardi avisou-nos em Março que, quando a quarentena terminar, os humanos “terão a oportunidade de reescrever as regras e quebrar qualquer automatismo. Mas é bom saber que isso não acontecerá pacificamente. Não podemos prever a forma que o conflito assumirá, mas devemos começar a imaginá-lo. Quem imaginar primeiro, ganha – é uma das leis universais da história.”

Friday, 10 April 2020

Será isto um reagendamento de "business as usual"?



"Acho que é responsabilidade de um director artístico, ou, digamos, do colectivo que é a instituição artística, dizer ‘aqui está a força que estou a sentir na nossa comunidade. Mas, afinal, não é nossa responsabilidade ter uma espécie de eloquência ou articulação em torno disto, que talvez a própria comunidade sinta, mas não manifesta como uma declaração específica de necessidade? Então, acho que ser sensível a isso é liderança, dizer ‘aqui está o que sentimos que está no ar e ao qual pensamos que deveremos dar voz.”

Sunday, 23 February 2020

A beleza há-de vencer



“Hoje o nosso tempo requer leveza, humor, encantamento e poesia. Não é mais a luta do bem contra o mal, representada por Guerra nas Estrelas, mas a utopia da vida bela. Descobrir o instante de beleza que a poesia nos dá, a inspiração que nos lembra que estamos na vida não só para trabalhar, lutar, brigar, mas também para amar, sorrir, dançar, abraçar, sonhar. Vivemos um tempo em que o mais revolucionário é ser poeta.”

Sunday, 9 February 2020

À procura da felicidade: o Trump em nós

Foto: Tasos Katopodis / Getty Images


No verão passado, li o artigo Why science needs the humanities to solve climate change (Porque é que a ciência precisa das humanidades para resolver as mudanças climáticas). Observando o (habitual) ataque às humanidades da parte de vários líderes autoritários e democraticamente eleitos, este artigo lembrava-nos o motivo pelo qual o fazem:

“Os estudiosos das humanidades interpretam a história, a literatura e as imagens humanas para descobrir como as pessoas entendem o seu mundo. Os humanistas desafiam outros a considerar o que faz uma vida boa e colocam perguntas desconfortáveis ​​- por exemplo, 'Boa para quem?' e 'À custa de quem?'”.

Os autores - Steven D. Allison, professor de Ecology & Evolutionary Biology and Earth System Science, e Tyrus Miller, reitor da School of Humanities, ambos da Universidade de Califórnia - afirmavam que “Estudiosos e filósofos culturais podem injectar princípios éticos na formulação de políticas" e que "Os humanistas também podem ajudar os decisores a ver como a história e a cultura afectam as opções políticas ".

Monday, 3 February 2020

Onde estão as oportunidades? A propósito da nova estratégia do Arts Council England

Imagem retirada do website do Arts Council England.

Há uns dias, li no Guardian um artigo sobre o jovem violoncelista Sheku Kanneh-Mason. Kanneh-Mason tem 20 anos, ficou conhecido quando tocou no casamento de Harry e Meghan e, há alguns dias, tornou-se no primeiro violoncelista a chegar ao top 10 de música no Reino Unido. Ele sem dúvida (e felizmente) teve as oportunidades certas, assim como cada jovem deveria ter. Aproveitou-as e fez maravilhas com elas.

Kanneh-Mason está consciente da importância de ter a oportunidade, de ter acesso. "Eu beneficiei de muita educação musical. Pensar que muitas pessoas não terão nem a mais pequena hipótese de algo com o mesmo nível é uma vergonha. A diversidade tem de começar muito antes das pessoas irem às audições. Se a educação não tiver investimento e não for apoiada, nada mudará.”

Monday, 27 January 2020

Sete dias em Nova Iorque

Entrada do MoMA (Foto: Maria Vlachou)


No início deste mês, a caminho do Congresso do ISPA, tinha algumas expectativas concretas: a oportunidade de uma intensa reflexão política sobre o sector cultural em todo o mundo; a visita ao novo MoMA e ao seu People's Studio; o festival “Under the Radar” do Public Theatre e assistir a “Not I” de Beckett com Jess Thom, bem como a “Feos” de Guillermo Calderon. Tive tudo isso e muito mais (oh ... muito mais ...). E ainda assim, voltei com um sentimento agridoce em relação ao nosso sector e à imagem que temos de nós próprios.

Saturday, 4 January 2020

CONFIANÇA radical

The People's Studio: Collective Imagination, no novo MoMA (imagem retirada do website).

Hospitalidade. Coragem. Humildade. CONFIANÇA.

No último encontro do nosso grupo RESHAPE, que reflecte sobre arte e cidadania, escrevi estas quatro palavras, que surgiam com frequência nos nossos debates. Em especial a palavra “CONFIANÇA”, que trazia também de outros encontros e conversas. Surgiu em tantas ocasiões nos últimos meses, que, finalmente, chamou a minha atenção.

A 13 de Dezembro, último dia da reunião do RESHAPE, acordámos com as notícias das eleições britânicas. Um dos primeiros artigos que li naquela manhã intitulava-se Why people vote for politicians they know are liars” (Porque é que as pessoas votam em políticos que sabem que são mentirosos), a pergunta premente na mente de muitas pessoas.

Sunday, 1 December 2019

Peace, Justice, Strong Institutions


Aqui está a minha introdução ao painel “Peace, justice, strong institutions: How can and should museums play a role in an increasingly unbalanced, politically challenged age?” na conferência anual do NEMO em Tartu. Inclui referências a outras apresentações feitas durante a conferência. Ler aqui

Wednesday, 28 August 2019

O desconforto da mudança: será a “fragilidade branca” a nossa principal preocupação?

Imagem reirada de Cyprus Mail.


Num post no ano passado, Nathan “Mudyi” Sentence (Australian Museum) escreveu sobre o seu envolvimento num programa do seu museu para estudantes universitários que discutiu as Gerações Roubadas (a remoção, ao longo do século 20, de crianças de descendência aborígine pelo governo australiano e missões da igreja) e o trauma intergeracional. “Após o programa, um dos alunos comentou anonimamente no formulário de avaliação que sentiu que estava a ser repreendido e que se sentiu mal por ser branco. Achei que essa era uma resposta estranha, quando o assunto era uma realidade e um problema que afecta muitas pessoas das Primeiras Nações, mas ele optou por se afastar porque isso o deixava desconfortável. Achei preocupante, porque a fragilidade dos brancos acabará sempre por se meter no caminho do envolvimento dos colonos em programas que desafiam as estruturas coloniais que os beneficiam. Fiquei preocupado com o facto da fragilidade branca ser mais preocupante para algumas pessoas do que a verdade.”

Wednesday, 7 August 2019

Por nós e pelos nossos amigos

Da esquerda para a direita: o poeta Odysseas Elytis, o compositor Manos Hadjidakis, o encenador Karolos Koun, Theatro Technis 1957, ensaios de "O Círculo de Giz Caucasiano" de Bertolt Brecht © Manos Hadjudakis Archive


A notícia da demissão de Warren Kanders do Conselho Directivo do Whitney Museum deixou-me muito satisfeita. Depois de meses de protestos, o proprietário da Safariland (uma empresa que fabrica “produtos para a aplicação da lei" - noutras palavras, armas, incluindo o gás lacrimogéneo usado contra os imigrantes na fronteira dos EUA) foi forçado a sair, já que muitas pessoas sentiam que ganhar dinheiro com a produção de armas e depois investi-lo filantropicamente na cultura e nas artes é, no mínimo, um oxímoro.

Tuesday, 23 July 2019

Memória que resiste

Uma cena do documentário O Silêncio dos Outros

Há algumas semanas, li num artigo que o impasse nas negociações do Brexit é considerado humilhante para a Grã-Bretanha, tanto por quem votou a favor como por quem votou contra. De acordo com uma pesquisa, 90% dos entrevistados concordaram que a forma como o Reino Unido está a lidar com o Brexit é uma humilhação nacional. O autor do artigo, o Professor de Psicologia Política Barry Richards, referiu-se a uma investigação cada vez mais influente na teoria da psicologia que enfatiza que “a necessidade de dignidade é básica para a nossa constituição psicológica. Sentir que nos foi retirada é muito ameaçador e desestabilizador”. Richards faz a distinção entre o sentimento de humilhação e o sentimento de traição e o seu conselho é evitar endossar e ampliar o sentimento de humilhação. Sugere também que a palavra "humilhação" e outras (como "traidor" ou "traição") não sejam usadas no debate.

Saturday, 23 March 2019

O grande privilégio da vida pública

Imagem do cartaz da peça "O casaco", apresentada em 2018 pelo Grupo de Teatro da Nova.

O recente episódio de blackface numa escola de Matosinhos e a forma como foi comentado são mais um indicador da falta preocupante de espaços de encontro (não virtuais) para o diálogo. Muitos não perceberam o porquê das críticas de racismo a propósito de uma iniciativa que pretendia celebrar a diversidade cultural (de “países” como África, China e Brasil) e acusaram os próprios críticos de racismo e promoção do ódio. A troca de comentários na página de Facebook Blackface Portugal é reveladora da incompreensão, e mesmo da ignorância, em torno desta matéria. Mas, podemos dizer que ficámos chocados ou surpreendidos? Não será essa uma realidade conhecida que, por muito que nos apeteça dizer “já deviam saber”, não lhe podemos virar as costas? Não podemos mesmo, porque continua a influenciar a educação, o pensamento e as noções que grande parte da nossa sociedade tem sobre esta matéria e várias outras. São estas noções que acabam por condicionar a liberdade de vários cidadãos e de perpetuar todos os tipos de racismo e, em certos casos, também a violência.

Sunday, 2 September 2018

Quem é bem-vindo à sua casa e à sua mesa?


À Lambrina e ao Sam, à Eleni e ao Nikos
Aos bons amigos e às boas discussões



Em Junho passado, Sarah Huckabee Sanders, a secretária de imprensa da Casa Branca, foi convidada a sair do restaurante Red Hen. O pedido foi da dona do restaurante.

Em meados de Agosto, a notícia que Marine Le Pen, ex-candidata à presidência de França e líder do partido político Rassemblement Nacional, tinha sido convidada para participar no Web Summit em Lisboa provocou vários protestos públicos. O convite acabou por ser retirado.

Ambos os incidentes levantaram questões relativas à liberdade de expressão; se é possível combater visões políticas extremistas e abordar as raízes da subida da extrema-direita proibindo ou ignorando certos pontos de vista; e se, ao excluirmos algumas pessoas, não nos tornamos como elas.

Saturday, 4 August 2018

Quão fácil é pôr os teus filhos num barco?

Incêndio em Mati (Grécia, 2018; imagem retirada do Facebook)

“Vês como é fácil pôr os teus filhos num barco quando em desespero ou em perigo?”, escreveu alguém no Twitter a 26 de Julho, quando a Grécia se encontrava em estado de choque após o trágico incêndio que causou tantas mortes. No momento em que estavam a emergir as histórias pessoais daqueles que pereceram e daqueles que sobreviveram, que tentaram salvar os seus entes queridos ou pessoas que não conheciam, transformando a tragédia em algo cada vez menos abstrato, alguém fez essa ligação entre as pessoas que colocaram os seus filhos em barcos para ficarem a salvo durante o incêndio e os refugiados que tentam a perigosa, muitas vezes mortal, travessia do mar. Quantas pessoas fizeram essa ligação? Que tipo de pessoas fez essa ligação? Essa ligação ocorreria a alguém com uma atitude negativa em relação aos refugiados e migrantes? Este tweet seria suficiente para fazer alguém reconsiderar?

Sunday, 8 July 2018

Profissionais de museus: novas competências


O meu artigo no mais recente Boletim do ICOM Portugal (Série III, Junho 2018, Nº12, pág.25), editado por Ana Carvalho. Ler aqui

Monday, 11 June 2018

Discutindo a descolonização dos museus em Portugal

Foto: Maria Vlachou

Adoro museus. Adoro-os pelo que são; adoro-os pelo que não são, mas podem ser; adoro-os pelo seu potencial. Adoro-os especialmente devido ao trabalho desenvolvido por vários colegas em todo o mundo para que os museus se adaptem a novas realidades, permaneçam ou se tornem relevantes para as pessoas e até se reinventem. Ultimamente, adoro-os particularmente pelas controvérsias que causam ou enfrentam, empurrando o nosso pensamento e prática para a frente.

Sunday, 20 May 2018

Apropriação cultural: menos guardiões, mais pensadores críticos

"La Japonaise" de Claude Monet, Museum of Fine Arts Boston. (Imagem retirada de http://japaneseamericaninboston.blogspot.com)
Para a Nandia

O meu primeiro contacto com o conceito de apropriação cultural aconteceu em Julho de 2015 devido às “Kimono Wednesdays” no Museum of Fine Arts Boston (MFA). Por ocasião da exibição de “La Japonaise” de Claude Monet (uma pintura da esposa do artista, rodeada de leques, usando uma peruca loira e um quimono vermelho), os visitantes eram convidados a vestir um quimono semelhante ao mostrado no quadro e a partilhar as suas fotos nas redes sociais. Segundo o museu, essa era uma maneira para os visitantes se envolverem com a pintura. Para algumas pessoas, no entanto, a actividade carecia de qualquer contexto em relação ao quimono, tornando-se apenas “divertida”; outros criticaram a iniciativa por estar a reforçar estereótipos e exotizar os asiáticos-americanos; para outros, era racismo flagrante (leiam o artigo de Seph Rodney).