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Monday, 11 November 2013

Auto-barómetro

Todas as imagens retiradas do Facebook da Accion Poetica.
O Eurobarómetro realizou um estudo sobre Acesso e Participação Cultural (relatório completo e sumário). O último estudo tinha sido realizado em 2007, antes da crise atingir a Europa, por isso, este estudo mais recente pode ajudar-nos a compreender os efeitos da crise nos hábitos e práticas culturais das pessoas.

Falando em termos muito-muito gerais, e no que diz respeito a Portugal, os resultados mostram que a participação dos portugueses está abaixo da média europeia em todas as actividades consideradas no estudo, tanto em termos de visitação / assistência como em termos de envolvimento em actividades culturais. As maiores diferenças registam-se na leitura de livros (UE: 68%; PT: 40%), visitas a monumentos e sítios históricos (UE: 52%; PT: 27%) e idas ao cinema (UE: 52%; PT: 29%).



A principal barreira ao acesso referida pelos europeus foi a falta de interesse e a falta de tempo. Para os portugueses, a falta de interesse foi a principal razão de não participação, registando uma percentagem mais alta que a da média europeia em todas as actividades consideradas no estudo. As actividades que menos interessam aos portugueses em relação aos restantes europeus são a leitura de livros (PT: 49%; UE: 25%), a visita a museus e galerias (PT: 51%; UE: 35%) e a visita a monumentos e sítios históricos (PT: 44%; EU: 28%).

A razão porque queria escrever hoje sobre o estudo do Eurobarómetro não é analisar gráficos e resultados. É questionar como é que vamos interpretá-los e o que vamos fazer a partir daqui, sendo profissionais da cultura. Os resultados foram sobretudo recebidos com pessimismo ou algum fatalismo; com afirmações como “Somos um país de incultos” ou “Os portugueses não querem saber, não se interessam, acham que não vale a pena” – com uma certa acusação implícita, pensei, do género “Vale a pena fazer qualquer coisa que seja para esses ignorantes e ingratos?”.


Confesso que fiquei cheia de perguntas, algumas permanentes, frequentemente discutidas neste blog, independentemente da existência de estudos formais. Tentando agrupá-las, penso que se resumem em duas grandes questões:

1ª Questão: Quão larga terá sido a definição de “participação cultural” no estudo? Terão sido apenas considerados a visitação / assistência e o envolvimento com o que podemos chamar “instituições culturais formais”?

Depois de ter acesso ao relatório completo e ao questionário, fiquei contente em ver que a definição não tinha sido estreita (considerou a participação através da Internet e actividades como a dança ou a fotografia ou os trabalhos manuais). No entanto, não tenho a certeza se, da forma como foi feita a pergunta, ajudou os inquiridos a considerar as suas actividades numa perspectiva mais ampla (quantas pessoas, por exemplo, terão pensado que o facto de terem dançado num casamento ou num club constitui uma forma de participação cultural?). Os estudos “Public Participation in the Arts” do National Endowment for the Arts, realizados de quatro em quatro anos nos EUA, disponibilizam-nos este género de detalhes relativamente a “o que exactamente; onde exactamente; como exactamente” – todos os relatórios estão disponíveis online, mas vejam, por exemplo, o último relatório completo de 2008 (alguns destaques aqui), ou os destaques do estudo de 2012, sendo que o relatório completo será disponibilizado em 2014.


No que diz concretamente respeito à participação na Internet, deveríamos destacar o facto dos portugueses usarem este meio numa percentagem acima da média europeia para jogar jogos no computador (+11%), para colocar os seus próprios conteúdos culturais online (+3%), para ouvir música e rádio / fazer o download de música / ler e consultar blogs culturais (+1%).

2ª Questão: Estarão as pessoas pouco interessadas na cultura em geral ou no género de cultura que as “instituições culturais formais” lhes oferecem? Estaremos a programar tomando em consideração as pessoas - os seus interesses, preocupações, conhecimentos prévios, perguntas, necessidades, barreiras práticas e psicológicas que as possam manter afastadas? Iremos alguma vez questionar a forma como fazemos as coisas e a sinceridade da nossas afirmação “Somos para as pessoas”?


Alguns factos pessoais: por vezes, consulto a agenda de exposições em museus e, a julgar pelos títulos, nada soa suficientemente emocionante ou interessante para visitar; um grande número de concertos e intérpretes, de todos os géneros musicais, é promovido como “o melhor do mundo”, mas isto simplesmente não chega para tomar a decisão de comprar um bilhete, uma vez que o mundo está tão cheio de “os melhores” artistas; no que diz respeito a artistas menos conhecidos, a grande maioria das instituições que os apresentam comportam-se como se devêssemos todos conhecê-los já, não acrescentando absolutamente nada ao título e/ou nome.

Portanto, isto pode ser um problema meu como consumidora. Mas pode também ser um problema das instituições culturais que desejam comunicar comigo (pelo menos, dizem que o desejam): o problema de escolher títulos interessantes e inspiradores; o problema de escolher temas (quero dizer, histórias) que possam atrair um público mais diversificado, menos especializado; o problema de tentar atrair mais pessoas usando a informação básica compreendida apenas por poucos; mas também a necessidade (diria, a obrigação) de perceber o que é que as pessoas optam por fazer nos seus tempos livres e porquê. Porque, quando eu, como pessoa / consumidora, não vou aos vossos concertos / exposições / peças de teatro / festivais, não é “simplesmente” porque sou inculta, desinteressada, ignorante ou ingrata (e, francamente, não gosto de vos ouvir dizer isso sobre mim…). Pode ser porque outros tenham sido mais sinceros no seu desejo em comunicar comigo e tenham feito um trabalho melhor em chamar a minha atenção e ganhar o meu interesse e tempo precioso.  

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Em 1996, os mexicanos não liam, em média, mais que um livro por ano. O escritor Armando Alanis Pulido, preocupado com o declínio da literatura e da poesia, e ainda com o preconceito de que a poesia era opaca, difícil de ler e de entender, virou-se para as paredes das cidades, numa tentativa de tornar a poesia parte do dia-a-dia das pessoas. Iniciou um movimento chamado Accion Poetica. Desde aquela altura, a iniciativa espalhou-se em mais 20 países da América Latina e até atravessou o Oceano Atlântico. No outro dia, o jornal Le Monde apresentava este título: As paredes da América Latina falam de amor. A assinatura uma, única: Accion Poetica.

Ainda neste blog











Monday, 7 October 2013

Blogger convidado: "Qual cultura e de quem?", por Farai Mpfunya (Zimbabwe)

Conheci Farai Mpfunya há um ano no Kennedy Center e tive o prazer de partilhar com ele a sala de seminários, e algumas pausas para almoço, em dois verões consecutivos. O que mais gostei nas nossas conversas e ao ouvir os comentários de Farai nas aulas, foi o seu conhecimento sólido do sector cultural no Zimbabwe e no estrangeiro, assim como as suas opiniões ponderadas e equilibradas. Farai fala quando tem mesmo algo a dizer e sinto-me com sorte por o ter conhecido. mv

Cinema Mai Musodzi, Mbare (Foto: Farai Mpfunya)
Mbare, subúrbio de Harare, Zimbabwe.

A maioria dos meninos e das meninas que cresceram neste bairro nos anos 70 estava a cinco minutos de um cinema, de uma biblioteca, de um centro desportivo, de uma igreja e de uma escola. Um ambiente educacional e cultural rico para os pequenos, diriam. Ainda por cima, tratava-se de uma das mais diversas comunidades multi-étnicas. Muitas pessoas de todo o país e além fronteiras queriam viver na próspera capital de um pequeno país rico. Enquanto os residentes locais tinham trazido essas incrivelmente ricas culturas e a sua arte, a infraestrutura da cidade impôs uma cultura urbana e encorajou certo tipo de artes.
Qual Cultura e de quem?

Antes da independência do Zimbabwe do domínio britânico em 1980, Mbare era uma área onde viviam os pretos. Os brancos não viviam aqui, excepto, ocasionalmente, o pároco católico. Os polícias e superintendentes brancos das autoridades locais vinham apenas de manhã e iam-se embora à noite. Viviam nos subúrbios brancos ou em bairros resguardados pelas áreas industriais e comerciais.

Um par de ruas principais ligavam o bairro ao resto do mundo e essas ruas podiam ficar vedadas pela polícia quando os pais do meninos começavam a fazer barulho a propósito dos direitos humanos e das condições de vida na zona. A julgar pela forma como a polícia se comportava, os episódios esporádicos em que perseguiam os pretos com cães, motocicletas e veículos anti-motim, por vezes, para as crianças, parecia ser uma brincadeira de crescidos. Fazia tudo parte da paisagem cultural urbana. Uma pequena comunidade branca de origem europeia tinha governado o Zimbabwe desde 1896 e ‘construído’ uma nova ‘nação’, chamada Rodésia, cultura incluída.
Qual cultura e de quem? 

Nos anos 70, os meninos divertiam-se em Mbare nos cinemas. Viam o James Bond no Gold Finger e o James Coburn em A Man Called Flint e a seguir brincavam aos espiões. Viam cowboys e índios e depois do filme perseguiam índios no bairro. Viam o Bruce Lee em Enter The Dragon e imaginavam-se peritos em artes marciais.

Biblioteca Municipal de Mbare (Foto: Farai Mpfunya)
Na biblioteca local, alguns liam Shakespeare. Na escola falavam-lhes das viagens de descoberta de novos mundos e culturas de Cristóvão Colombo e de David Livingstone. Em casa, era-lhes dito que Livingstone descobriu e deu o nome às poderosas cataratas Victoria em honra da sua própria rainha. Essas mesmas cataratas faziam parte do seu património e eram conhecidas como Mosi-oa-Tunya (Tokaleya Tonga: o Fumo que troveja). Os professores pretos ensinavam nova história e cultura, enquanto os pais e os avós ensinavam a história e cultura antiga.

Nos anos 70, os meninos de Mbare divertiam-se nas piscinas públicas, cujo nome era de um dos primeiros colonos europeus que tinham expulsado os seus antepassados da sua terra. Na piscina clorada, sonhavam e treinavam para se tornarem Mark Spitz, vencedor em 1972 de sete medalhas de ouro e americano..., sem esquecer os fatos de banho Speedo. Jogavam futebol e davam-se uns aos outros novos nomes, como Pele e Sócrates, como os gigantes do futebol brasileiro. Abraçavam a cultura global antes do ‘global’ se tornar moda.
Qual Cultura e de quem?

O Zimbabwe teve eleições harmonizadas em Julho 2013, como acontece, mais ou menos, de cinco em cinco anos. Essas eleições foram declaradas pacíficas por todo o mundo. Muitos zimbabueanos tinham rezado para que prevalecesse a paz, em parte porque, da última vez, as eleições tinham-se tornado violentas em algumas zonas e o desenvolvimento tinha parado. Os zimbabueanos têm também uma genuína cultura de paz. Enquanto o partido no poder, ZANU (FP), estava obviamente eufórico com os resultados das eleições, porque ganharam com grande maioria, alguns ficaram surpreendidos e outros zangados. Mesmo assim, no dia a seguir, a vida no Zimbabwe continuava pacífica como antes das eleições. A vontade dos diversos povos do Zimbabwe tinha sido expressa. Fim da história, certo?

Não para o meu país. Os resultados tinham sido dissecados pela sua justiça e credibilidade. Internamente, o maior partido da oposição contestou tanto a justiça como a credibilidade do processo e dos resultados. Entidades políticas africanas regionais e continentais que tinham enviado observadores para o terreno, foram rápidas em endossar os resultados como uma representação credível da vontade do povo, enquanto alguns poderosos países ocidentais, aos quais não tinha sido permitido enviarem observadores oficiais para o terreno, foram rápidos a pronunciarem-se sobre a credibilidade dos resultados como uma verdadeira representação da vontade do povo… do Zimbabwe.
A cultura do voto no Zimbabwe não os tinha impressionado.

Escola de Artes Visuais da National Gallery, Departamento de Mbare (Foto: Farai Mpfunya)
O actual Presidente do Zimbabwe, um herói da guerra da independência contra o poder colonial, tem tido uma década de confrontos diplomáticos com países do ocidente. Impuseram-lhe sanções, a ele e a uma centena dos seus camaradas, também heróis da guerra de independência contra o poder colonial. Enquanto tudo isto acontecia, os meninos em Mbare tinham novos jogos em espaços não tão bem cuidados. Culpam as sanções. Enquanto uma nova cultura de pobreza penetra o território, reina uma profunda resiliência.

Não se deixando abalar pelos seus críticos, o Presidente declarou vitória nas eleições harmonizadas, tomou posse e avançou para a formação de um novo executivo. Os ministérios foram reduzidos, foi anunciado um novo Ministério do Desporto, das Artes e da Cultura. Muitos no sector cultural e artístico que tinham feito “lobby” durante anos para um ministério separado, ficaram surpreendidos. Tiveram mais do que esperavam, apesar de não saberem muito bem o que fazer com os seus irmãos do Desporto.

Os meninos e as meninas de Mbare estão ansiosos para que os seus equipamentos degradados, no seguimento de anos de sanções direccionadas, sejam renovados, para que o seu bairro seja regenerado. Nova energia irá com certeza aparecer nas suas culturas…. Facebook…. Twitter….
Qual Cultura e de quem?



Farai Mpfunya é fundador e director executivo do Culture Fund of Zimbabwe Trust, a maior entidade financiadora do sector artístico e cultural do Zimbabwe a nível local. Fez parte do Cultural Policy Task Group do Arterial Network que desenvolveu um enquadramento para a criação de políticas culturais pelos governos africanos. Educado no Zimbabwe, na França e na Inglaterra, iniciou a sua carreira profissional na função pública e depois no sector empresarial. Estudou engenharia electrónica e depois gestão de empresas (MBA), antes de se virar para a cinematografia e a gestão cultural. Farai é Chevening Scholar, fellow do Salzburg Global Seminar (Session 490) e do DeVos Institute of Arts Management no Kennedy Center.

Monday, 30 September 2013

Ópera e a Cidade

Percurso musical em 5 actos, homenagem à Maria Callas (Fonte: Lifo)
No início de 2011, a dívida da Ópera Nacional da Grécia (ONG) ultrapassava os 17 milhões de Euros e a organização corria um sério risco de ser encerrada. Quando há duas semanas o director artístico da ONG deu uma conferência de imprensa para apresentar a temporada 2013-2014, o quadro era bastante diferente:

- A dívida é neste momento 4.697.609 Euros (baixou 73%);

- O orçamento para a programação 2012-2013, inicialmente estimado em 3.890.000 Euros, teve que baixar para os 2.580.000; no entanto, a afluência subiu para 90.000 espectadores, e a receita da bilheteira somou 2.220.000 Euros (apenas 360.000 abaixo do valor investido nas produções);

- Todas as produções no teatro principal da ONG, o Olympia, assim como aquelas apresentadas na sala de concertos Megaron e no Teatro Herodes Atticus tiveram uma taxa de ocupação entre 80% e 100% - havendo sempre um número de bilhetes gratuitos para desempregados;

- A ONG chegou a mais 20.000 pessoas fora de portas, tanto em Atenas como na periferia, com o apoio da Fundação Stavros Niarchos, que lhe permitiu desenvolver uma série de actividades de outreach e fazer uma digressão em várias cidades gregas (a Fundação Niarchos está a construir um novo centro cultural, desenhado por Renzo Piano, que será a nova casa da ONG e da Biblioteca Nacional a partir de 2016).

Um milagre? Nem por isso. Decisões difíceis, um forte compromisso, um claro sentido de missão, muito trabalho e, consequentemente, apoio privado/individual. Não podemos ignorar o facto de tudo isto acontecer num momento em que a Grécia está a atravessar uma extrema crise económica e a sofrer severas medidas “correctivas”, que têm destruído a economia do país. O subsídio estatal para a ONG diminuiu 5 milhões de Euros nos últimos dois anos, o que tem causado sérios problemas nas operações da organização.

Gostaria muito de saber de que forma cortaram nos custos operacionais, o maior ‘peso’ na gestão de uma instituição como esta. Infelizmente, este tipo de dados não foi partilhado publicamente, por isso, só podemos imaginar o quanto deve ter sido difícil. Na falta destes dados, gostaria de me concentrar nas iniciativas tomadas – apesar das dificuldades ou, talvez, por causa delas – no sentido de pôr a ONG de volta no mapa e de criar uma ligação com a cidade e as pessoas.

Ter que cortar o orçamento das produções em casa não significou que a ONG tivesse cortado também no todo da sua actividade. Antes pelo contrário. Este momento de crise foi precisamente o momento em que a ONG decidiu ser extrovertida, original e inovadora. Através de uma série de iniciativas, conseguiu estar mais presente que nunca na vida dos Atenienses e, fisicamente ou virtualmente, na vida dos Gregos que vivem longe da capital.

Há dois anos, uma das suas primeiras iniciativas de outreach tinha sido o “autocarro lírico”, que percorria as ruas da capital grega apresentando destaques dos próximos espectáculos. Simples, informal, directo, conseguiu tocar os transeuntes.


Mais tarde, desenvolveu um projecto chamado “Ópera na Mala”. Esta é uma forma ‘flexível’ de apresentar ópera em espaços não-convencionais, apenas com o cenário que cabe numa mala e com um piano em vez de orquestra. A ONG foi a praças, mercados, átrios de museus e encontrou-se com pessoas que de outra forma talvez não tivesse tido contacto com esta arte. Alguns destes concertos reuniram perto de 4000 espectadores.


Concerto no Mercado Varvakios (Fonte: Lifo)
Os ensaios abertos em espaços públicos são uma outra forma de estar próximo das pessoas e partilhar com elas o que normalmente acontece de porta fechada. No verão passado, a ONG apresentou Madama Butterfly no Teatro Herodes Atticus no âmbito do Festival de Atenas. Alguns dias antes da estreia, houve um ensaio aberto próximo do teatro, na rua pedonal que circunda Acrópole e a antiga Ágora. Na passada quinta-feira, uma semana depois da apresentação da nova temporada, houve um ensaio aberto da orquestra no porto de Pireu – um programa de uma hora com destaques da temporada -, assim como um ensaio aberto da companhia de bailado da ONG no porto de Salónica – um ensaio da peça “Viagem à Eternidade”, homenagem ao realizador Theo Angelopoulos.



Por fim, mais de 5000 pessoas seguiram o percurso musical em cinco actos no dia 15 de Setembro, celebrando o 36º aniversário da morte de Maria Kallas. “Esta participação foi uma afirmação clara de todos nós”, disse uma pessoa à revista Lifo. “É necessário criar ligações entre a arte e a vida da cidade, o que se tornou absolutamente essencial nas actuais circunstâncias.”

Tudo isto faz recordar a carta aberta que Michael Boder, director musical do teatro Liceu de Barcelona, enviou à administração no ano passado, quando foi anunciado que, devido às dificuldades financeiras, o teatro ia encerrar por dois períodos de um mês. Tínhamos comentado na altura esta carta, considerando a resposta de Boder uma excelente lição de gestão (ler aqui). Aqui está um excerto: “Nesta situação difícil para Espanha e a sua população, podíamos dar concertos gratuitos para os desempregados. Afinal de contas, temos os recursos necessários! Podíamos organizar concertos e projectos para crianças, jovens e idosos. (…) Mas temos que tocar, ou iremos desaparecer! Devíamos ter que tocar mais, não menos. (...) Ao mesmo tempo, o Liceu podia também transmitir uma mensagem social: ‘Vejam, estamos a tocar para vós e estamos aqui, fazemos música e toda a gente está convidada para ouvir em vez de falar.’ (...) Que objectivo poderia fazer mais sentido numa altura de crise? Afinal de contas, a cultura traz conforto em tempos difíceis e dá também ideias.”


Ensaio aberto de Madama Butterfly (Fonte: página Facebook da ONG) 
Tocar mais, não menos. Mostrar às pessoas que estamos a tocar para elas, que estamos aqui. Esta tem sido a missão e mensagem da Ópera Nacional da Grécia nos últimos dois anos e meio. Julgando pela reacção das pessoas, podemos concluir que esta é mesmo a mensagem que queriam ouvir. Em retorno, mostram o seu afecto e dão o seu apoio.

Monday, 16 September 2013

A reconquista

Wolf Trap National Park for the Performing Arts, Washington DC (Photo: bigbirdz on Flickr)

Na antiguidade, o teatro grego fazia parte do que, hoje em dia, uma pessoa poderia chamar cultura popular ou cultura das massas. Os Gregos Antigos iam ao teatro aos milhares. Traziam comida com eles, porque iam lá passar o dia inteiro. Comiam durante o espectáculo e atiravam comida ou gritavam com os actores quando não estavam a gostar do que estava a ser apresentado. Também intervinham, faziam perguntas e exprimiam opiniões sobre o enredo. 


O público de Shakespeare, bastante heterogéneo na sua composição social, era tão barulhento como o público na Grécia Antiga. As pessoas mais pobres pagavam o equivalente a quase um dia de trabalho para ficarem de pé à frente do palco. E pagavam mesmo. Era importante para elas estarem lá, significava algo, tanto pelo que se estava a passar no palco, como fora dele…


Poucos séculos depois, no final do século XIX, existem registos de pessoas que gritavam ou se metiam em cima das cadeiras durante concertos de música clássica. E... aplaudiam entre os movimentos ou sempre que se entusiasmavam com a interpretação. 

Porque é que estou a  dizer tudo isto? Para que nos lembremos todos que as coisas mudam, os hábitos mudam, os gostos mudam. O que era aceitável antes, já não o é. E o que é hoje, não será amanhã. As coisas estão novamente a mudar. Hoje em dia, há, por exemplo, pessoas que gostam de falar durante os concertos de música clássica ou de partilhar ao vivo uma experiência teatral através do twitter ou de usar todo o género de gadgets enquanto visitam um museu. Isto faz outras pessoas sentirem-se nervosas e está a ser montada resistência.

Os apelos para o regresso a uma experiência de teatro /música / museu mais ‘pura’ estão a multiplicar-se. Pelo menos ‘pura’ da forma como algumas pessoas a vêem, pessoas que gostam de assistir em silêncio absoluto a um concerto de música clássica ou de visitar um museu e simplesmente contemplar uma obra de arte. Esta é, realmente, uma forma de fazer as coisas. Não é a única. E não é necessariamente mais significativa.

A questão foi novamente levantada recentemente por Judith Dobrzynski no New York Times, num artigo intitulado High culture goes hands-on. Lamentando a busca de uma ‘experiência’ que tem tomado proporções gigantescas, Dobrzynski sente claramente saudades dos “tempos passados, [quando] os museus não precisavam de ser activados”; escreve sobre “a emoção de estar de pé diante da arte”, chegando à triste conclusão que “isto não é suficientemente emocionante para a maioria das pessoas”; e, finalmente, avisa: “Tudo isto faz-se em nome da participação e da experiência – também chamado envolvimento do visitante – mas altera a própria natureza dos museus e as expectativas dos visitantes. Altera quem irá aos museus e para quê.”

Dois dias depois, Dennis Kois respondia com Song of experience, lembrando, basicamente, que não existe apenas uma forma, válida e significativa, de fazer as coisas. Podem existir ofertas diferentes para pessoas diferentes com necessidades diferentes; são diferentes e depende das próprias pessoas o que é que vão levar com elas.

É exactamente isto que pensei quando li a seguinte afirmação de Mark Rosen a propósito dos visitantes do Metropolitan Museum: “… quase todos vêm aqui, tentam ver tudo em quatro horas ou menos, tiram imensas fotos no Instagram e vão-se embora, sem se lembrarem de nada.” Rosen está envolvido numa iniciativa chamada Museum Hack, que propõe várias visitas “não-tradicionais” em museus. No caso do Met, levam as pessoas a fazer visitas curtas, apresentando-lhes peças menos conhecidas da colecção. Acho isto muito bem. E, enquanto tenho a certeza que as pessoas que se juntam a estas visitas divertem-se e aprendem muito, tenho quase a certeza que turistas que estão pela única vez na vida em Nova Iorque sentir-se-ão mais satisfeitas e será mais significativo para elas se tentarem ver e fotografar tudo em quatro horas. E irão lembrar-se de algo.

Todas as experiências são necessárias, são diferentes pontos de entrada, significam coisas diferentes para pessoas diferentes. A Nina Simon disse-o maravilhosamente há uns anos num post chamado I am an elitist jerk. Apaixonada por parques naturais, uma visitante com muita experiência, confessou sentir-se incomodada nos parques nacionais que atraem as massas. Admitiu ser uma elitista. O que a fez considerar a sua campanha por museus acessíveis e participatórios. “Nessa viagem, pela primeira vez, compreendi realmente a posição das pessoas que discordam comigo, aquelas que sentem que comer e falar alto nos museus não é apenas indesejável, mas transgressor e doloroso. Para os elitistas, é impossível ignorar a forma como outros degradam o que é para eles uma intensa experiência estética e emocional. Compreendo agora.” No entanto, Simon continua e diz que os parques nacionais não lhe pertencem só a ela e que os mais populares entre eles são um importante ponto de entrada para pessoas que escolheram lá estar, porque significava algo para elas. Um dia, algumas delas poderão experimentar um outro parque, mais remoto e ‘difícil’.

Ou um museu. Ou um teatro. Ou um concerto. Os nossos conhecimentos e a nossa experiência é algo que construímos. De acordo com as nossas necessidades, de acordo com o contexto em que nos encontramos. Assisti a concertos de música clássica em silêncio absoluto, juntamente com pessoas que ‘sabiam exactamente quando aplaudir’ e saboreando a última nota tocada até desaparecer e poder (podermos) começar novamente a respirar. Mas gostei igualmente de concertos de música clássica ao ar livre, juntamente com centenas de pessoas a fazer picnic sentadas na relva e a conversar sobre tudo, relacionado ou não com o que se passava no palco.

Sem dúvida, não é sempre fácil dar resposta a necessidades diferentes no mesmo espaço. Na verdade, foi sempre um desafio. Mas há duas coisas que me parecem importantes: 1. Reconhecer que existem necessidades diferentes; e 2. Não julgar uma forma de experiência mais válida ou significativa do que outra. Isto aplica-se aos profissionais da cultura. Aplica-se a espectadores e visitantes também.


Ainda neste blog

Como toma o seu El Greco?

Elitismo para todos

Qual o problema com a música clássica? Aparentemente nenhum…

Livres de visitar um museu de arte

Museus: as novas igrejas?

Simon Fairclough, Orquestras em apuros: será mesmo?


More readings

James Durston, Why I hate museums

Mark Tapson, Should museums be more entertaining?

Peter Funt, Theatre for Twits

Richard Dare, The Awfulness of Classical Music Explained



Monday, 9 September 2013

Blogger convidado: "Arte sitiada", por Chaymaa Ramzy El Dessouky (Egipto)

Existe um tipo especial de mulher em Alexandria: determinada, teimosa, confiante, cheia de energia, ideias e sonhos, e com uma enorme capacidade de trabalho. Chaymaa Ramzy é esse género de Alexandrina. Dadas todas estas características, não é uma pessoa que cede perante as dificuldades ou quando enfrenta controvérsia. Entre os vários projectos em que está envolvida, aquele que a tem mesmo cativado é o Marsam 301, um projecto com base em Belém, Palestina, que envolve pessoas de vários países árabes e cuja sede ela não pode visitar. Pelo menos por agora… mv

Eventos de rua (Foto: Marsam 301)

“Não me lembro quando li exactamente a minha primeira banda desenhada, mas lembro-me exactamente o quanto me senti libertado e subversivo, como resultado.”
― Edward W. Said, Palestine

Como é que se define o ‘sítio’? Trata-se de um cerco físico ou sobretudo psicológico? Somos capazes, como pessoas simples, de ultrapassar as suas barreiras? Será o sítio uma fronteira? Ou trata-se apenas de uma limitação numa determinada terra ou espaço que deveríamos estar constantemente a sonhar em como voar por cima dela?
Questões que podem ter respostas diferentes, que cada um de nós pode interpretar de acordo com a sua própria situação, local ou estilo de vida.
Palestina: as pessoas, o território, o país e a Terra Santa. A experiência antecipada por todos. Alguns de nós podem, outros não. Podemos sonhar com a beleza dos seus becos, a gentileza das suas pessoas e maravilhar-nos com as histórias sem fim das suas casas e ruas.
Quando Monther Jawabreh, um proeminente artista visual de Belém, começou a pensar em fundar um novo espaço cultural, “Marsam 301” (Estúdio 301), não pensou em promover a arte nos seus espaços tradicionais, mas noutros diferentes, onde uma pessoa pode ser tocada por uma história, ouvir um dialecto local, ouvir a vida em alta voz em espaços como casas, escolas, hospitais e talvez prisões.
Marsam 301 é um espaço cultural independente, localizado na cidade de Belém, Palestina. Um espaço que destaca o artista visual palestiniano e a arte visual palestiniana na região árabe e talvez no mundo! Uma visão partilhada com outros artistas, gestores culturais e apoiantes da Palestina e países árabes vizinhos.
O nome “301” advém do posto de controlo Kabr Rahil (Túmulo de Raquel), que se encontra entre Jerusalém e Belém. Um posto de controlo israelita conhecido como ‘Barrier 300’ (Barreira 300 – “Parar para inspecção”) bloqueia a passagem dos palestinianos para e de Jerusalém. Marsam 301 fica a 2 quilómetros do posto de controlo, mesmo no centro da cidade de Belém. Portanto, Marsam 301 tem esse nome procurando ser a segunda barreira que obrigará os palestinianos a pararem para ver arte. 301 é também o número do edifício.
Marsmam 301, o espaço (Foto: Marsam 301)
“Assaltar casas, raptar pessoas, bombardear cafés” pode soar perigoso! Mas quando ouvimos isso da equipa do Marsam 301, percebemos a sua missão e ansiedade em assaltar casas com Arte, raptar pessoas e mantê-las durante muito tempo em galerias de arte e bombardear todos os cafés do beco com cores. Uma visão que advém do seu contexto social e do seu dialecto diário, de transformar o actual estado de sítio social e político num sentimento de felicidade e apreciação pelas artes. Uma visão que possa libertar as mentes e sensibilizar sobre a verdadeira relação que deveria existir entre o artista e a sua comunidade.    
Os três programas principais do Marsam 301 incluem nesta fase a promoção da arte visual palestiniana e a capacitação de jovens artistas palestinianos. Um outro programa importante pretende trazer as artes para a rua e espaços não-tradicionais, e até de criar arte em formas não-tradicionais. Por fim, uma residência artística que recebe outros artistas dispostos a viver a experiência palestiniana de intercâmbio artístico, provenientes da região árabe ou de qualquer outra parte do mundo.
Através destes três  programas, a equipa do Marsam 301 deseja ter um papel importante na cena artística palestiniana, juntando um grande número de artistas emergentes com outros mais proeminentes e estabelecidos. Mas também, construir uma nova relação entre estes dois tipos de artistas que poderão beneficiar nesta fase da partilha de experiências e do debate de uma série de tópicos. Uma ideia que foi confirmada e apreciada por Tamam Al Akhal, um proeminente artista visual palestiniano, durante o último encontro da equipa em Amã, Jordânia. Al Akhal partilha a visão e objectivos do Marsam 301.
O recente encontro da equipa em Amã, Jordânia (Foto: Marsam 301)

Esta extraordinária experiência, na minha opinião (tendo eu o orgulho de ser um dos seus fundadores, juntamente com Iman Bachir do Líbano e Ahed Izhiman da Palestina), irá contribuir muito para a cena artística palestiniana e ter um impacto muito rico nas pessoas e na comunidade. Irá tornar as artes acessíveis em qualquer lugar e a qualquer hora. Fornecendo um melhor conhecimento das artes que reflectem sobre a realidade do país e apresentam as opiniões e emoções das pessoas aos de fora. Uma experiência que coloca os artistas no coração da sociedade.
O Marsam 301 continuará com a sua estratégia de ajudar no desenvolvimento da sociedade palestiniana, esperando que, um dia, as pessoas ganharão a sua própria liberdade e nunca mais irão parar para inspecção ou sentir-se sitiadas!
Para contactar o Marsam 301, por favor escrevam para marsam301(at)gmail.com ou visitem-nos no Facebook.

Chaymaa Ramzy El Dessouky é Program Officer da Fundação Anna Lindh em Alexandria, Egipto; International Fellow of Arts Management no Kennedy Center for Performing Arts, Washington DC; membro fundador de Marsam 301 em Belém, Palestina. Nascida em Alexandria, licenciou-se em Business Administration and Strategic Marketing na Faculdade de Comércio - Alexandria University. Com a sua experiência como formadora, apoia várias organizações da sociedade civil e outros projectos emergentes na região árabe, ajudando-os a criar estratégias que aumentam a sua capacidade na área do marketing, da publicidade e do planeamento estratégico. Durante o seu fellowship no Kennedy Center, quer concentrar-se no desenvolvimento de um plano de marketing que irá ajudar a envolver a imprensa e de incorporar plataformas de redes sociais para fortalecer a organização de eventos locais no Egipto. Com a Fundação Anna Lindh, organiza anualmente o Festival Intercultural de Alexandria “Farah El Bahr”. Está igualmente envolvida na criação do plano estratégico do Marsam 301 em Belém, Palestina, fazendo parte de uma equipa regional de pessoas de diferentes países árabes.

Contactos:
Chaymaa.ramzy(at)gmail.com
Chaymaa.ramzy(at)bibalex.org

Monday, 2 September 2013

O ano novo


Estou de regresso de Washington, no avião de Paris para Lisboa. Estou no lugar do meio, por isso, peço ao homem que está no lugar de corredor para me deixar passar. Não olho bem para ele; um homem moreno, poderia ser português.

Começo a ler o meu livro. Pouco tempo depois, sinto que o homem ao meu lado está um pouco nervoso. Olho para as suas mãos: tem um boné, o seu telemóvel e algumas páginas enroladas com um texto em inglês. Tento olhar melhor para ele, discretamente. Não é português, é de origem árabe. Olho novamente para as suas mãos. O seu telemóvel está ligado e está constantemente a verificá-lo. O texto nas páginas enroladas é um texto científico, mas não consigo perceber de que área exactamente.

As assistentes de bordo passam e oferecem bebidas. Não aceita. “Ramadão”, penso para mim. Continua a olhar para o seu telemóvel e faz-me sentir nervosa também. Olho novamente para ele, está de olhos fechados e os seus lábios estão a mexer. Está a rezar? Estou ainda mais nervosa. Tento dizer a mim própria que tem ar de um homem perfeitamente normal, mas há uma outra voz interior que me diz “Não têm todos ar de um homem normal?”.

Pouso o meu livro na mesa, é de um autor Árabe (estarei a tentar mandar um recado?). Muitos pensamentos passam pela minha cabeça. Um deles é levantar-me e ir avisar o pessoal de cabine que tenho um Árabe nervoso sentado ao meu lado com o seu telemóvel ligado… Obrigo-me a mim própria a ficar onde estou, sentindo-me ridícula. E então ele diz:

-          O que está a ler?
-          É um autor marroquino.
-          É o que me pareceu.
-          É também marroquino?
-          Sim, sou.

Pede para dar uma vista de olhos. Pega no livro e lê a sinopse. Depois começamos a falar sobre política. Religião também. Pergunta-me sobre a Grécia, falamos muito sobre o Egipto e depois também sobre Marrocos. Está a caminho de Portugal para participar numa conferência sobre matemática aplicada. Estou a gostar muito da nossa conversa, tem uma voz calma e parece um homem meigo, mas não consigo deixar de me sentir nervosa. Sempre que haja um momento de silêncio, olha para o seu telemóvel. “Não têm todos ar de um homem normal?”, insiste a voz interior.

Assim que aterramos em Lisboa, ele diz-me: “Sabe que as probabilidades de um avião se despenhar são muito menores do que de dois comboios colidirem?”. Não está nervoso, não estou nervosa. Sinto-me aliviada. E sinto vergonha.

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Há duas entradas para a exposição do Museum of Tolerance em Los Angeles, uma com a indicação “Preconceituoso”, a outra “Não preconceituoso”. Aqueles que tentam entrar pela segunda porta encontram-na fechada, não conseguem abri-la. O incidente no avião continuou a assombrar os meus pensamentos. Sentia-me realmente envergonhada. Se o homem ao meu lado não parecesse Árabe, teria reagido de outra forma ao seu nervosismo.

Organizações e pessoas que trabalham na área do racismo e da discriminação lembram-nos constantemente que não nascemos racistas, tornamo-nos racistas. E, depois de nos tornarmos, parece ser preciso lutar mesmo muito, conscientemente e com determinação, para evitar discriminar o Outro. Depois de conversar com algumas pessoas sobre o incidente no avião e de ouvir as suas opiniões sobre o que devia ter feito, apercebi-me que esta luta é mesmo difícil. Porque, para lutarmos, é necessário primeiro estarmos conscientes dos nossos actos discriminatórios, estarmos conscientes das nossas próprias atitudes. Muito frequentemente não estamos. Nunca pensamos em nós próprios como racistas e uma série de desculpas servem-nos perfeitamente para justificarmos os nossos pensamentos e acções: a necessidade de sentirmos segurança, a necessidade de protegermos as pessoas que amamos e as nossas comunidades, a necessidade de preservarmos a nossa cultura e tradições, a necessidade de defendermos o nosso território, a necessidade de garantirmos a nossa sobrevivência… Por isso, se necessário e ‘just in case’, o Outro poderá ter que pagar o preço. E “não há mal nisto, é compreensível, somos boas pessoas, preocupadas com os nossos”…

Esse ‘just in case’ tem servido de desculpa para muitas pessoas nas suas decisões do dia-a-dia, assim como para muitas e importantes decisões políticas. A América pós-9/11 vem-me inevitavelmente à cabeça. Mas mesmo aí – como me apercebi lendo o livro de Leila Ahmed A Quiet Revolution – The Veil´s Resurgence, from the Middle East to America -, no meio da destruição, da dor, do medo, da raiva, da violência, houve pessoas de todas as origens e religiões que foram capazes de olhar bem para elas próprias e de ser solidárias para com outras, determinadas em preservar as suas comunidades multiculturais, manter e proteger as suas relações com amigos e vizinhos, continuar a ser e a sentir-se humanas. A linha entre o civilizado e o bárbaro é tão ténue; requer um esforço tão grande para se ser o primeiro e não o segundo.

Setembro assinala um ‘ano novo’ para mim mais que Janeiro; vem do tempo da escola. É o momento em que olho para a frente e penso “E agora?” ou “A seguir?”. Neste preciso momento, tendo o ‘ano novo’ pela frente, a minha cabeça está cheia de perguntas. Penso novamente no meu tempo no Kennedy Center, onde Egípcios falam com Israelitas; Paquistaneses e Indianos trocam piadas sobre os seus países; um Sérvio, uma Croata e um Bósnio tiram fotos juntos; uma Grega e uma Turca partilham uma refeição. Será este um ambiente ‘seguro’, ‘civilizado’? Teria sido diferente se o contexto fosse diferente? Haverá espaços onde as pessoas são civilizadas e outros espaços onde essas mesmas pessoas se tornam bárbaros? Terá mesmo a cultura um papel em manter-nos civilizados ou os seus ‘efeitos’ são facilmente neutralizados por outras forças e factores? Poderá ajudar a criar um espaço comum, onde as pessoas possam coexistir e manter boas relações, não simplesmente tolerando uns os outros, mas ficando a conhecer-se melhor; dispostas a conversar, a entender, a aceitar? Não foi o livro de Fouad Laroui que ajudou a iniciar a conversa naquele avião, que ajudou a controlar o medo? As minhas resoluções para o ‘ano novo’ encontram-se algures entre todas estas questões.

Ler também:

Can Culture make it?

Monday, 8 July 2013

'Apenas' um museu, 'apenas' uma artista?

A artista Ahlam Shibli no Jeu de Paume (Foto LP/Philippe de Poulpiquet, retirada do jornal Le Parisien)
Já tinha escrito aqui sobre a minha experiência de há vinte anos quando visitei um museu de história na cidade de Halifax no Reino Unido. Tinha ficado absolutamente chocada quanto vi, numa das fotografias expostas, combatentes da resistência cipriota contra o poder britânico a serem identificados como “terroristas”. Ao mesmo tempo, penso que me apercebi naquela altura – tinha 23 anos – que havia pessoas que contavam aquela mesma história de uma forma completamente diferente. Os homens na fotografia poderiam ter matado os seus entes queridos, que tinham sido enviados pelo seu país para defender uma autoridade, na sua opinião, legítima.

Mesmo assim, independentemente do meu choque, não ameacei o museu com uma bomba, não iniciei uma petição para fechar a exposição. Que é exactamente o que tem acontecido em Paris nas últimas semanas como resposta a certas fotografias exibidas no âmbito da exposição Foyer Fantôme, no museu Jeu de Paume, pela artista palestiniana Ahlam Shibli. Porquê? Porque certas pessoas sentiram que a exposição de fotografias de bombistas suicidas palestinianos, e o facto de serem referidos como “mártires”, era uma forma de glorificar o terrorismo. Considero, obviamente, as reacções e ameaças dos grupos pró-Israelitas totalmente inaceitáveis. Mas devo também dizer que não me surpreendem. O assunto é sensível, controverso, e aqueles que afirmam estar surpreendidos pelas fortes reacções de certos grupos ou que nos avisam relativamente ao retorno da censura (ler o artigo de Emmanuel Alloa La censure est de retour) ou são ingénuos ou não são honestos com eles próprios e com os outros. Não há nada de novo ou de surpreendente nestas tentativas de censura, aconteceram no passado e voltarão a acontecer. Mas não é sobre isto que quero falar.

Elogio os museus que têm a coragem de tocar em assuntos difíceis e controversos. Os museus devem fazer exactamente isso: desafiar as nossas ‘histórias’, apresentar ‘o outro lado’, provocar debate, criar espaço para isso. No entanto, não tenho a certeza se o propósito do Jeu de Paume era esse.

Lê-se no website do museu relativamente à exposição: “Morte, a última série de Ahlam Shibli, especialmente concebida para esta retrospectiva, mostra como a sociedade palestiniana preserva a presença de ‘mártires’, de acordo com o termo usado pela artista. Esta série testemunha uma vasta representação dos ausentes através de fotos, cartazes, painéis e graffitis expostos como forma de resistência.” O museu parece ter perfeita consciência que o uso do termo ‘mártir’ pode ser controverso e atribui o mesmo à artista. Por outro lado, a artista, citada no artigo de Emmanuel Alloa, afirma que “O meu trabalho é apenas mostrar, não é nem denunciar nem julgar”. 

Na minha opinião, as exposições não mostram ‘apenas’. Nem os artistas. Exposições e artistas fazem afirmações. A Ministra Francesa da Cultura pareceu-me muito mais afirmativa no seu comunicado público e não pareceu querer fugir àquela que é a verdadeira questão: “Esta alegada neutralidade pode também ser chocante”, disse ela, “e causar más interpretações, uma vez que não explica o contexto das fotografias, que não é apenas aquele da perda, mas também o do terrorismo.” (ler o comunicado na íntegra aqui).

Death nr. 37, por Ahlam Shibli (imagem retirada do blog Lunettes Rouges)
O Ministério pediu ao museu para completar a informação disponibilizada aos visitantes para, por um lado, clarificar e explicar melhor o propósito da artista e, por outro, para fazer a distinção entre a proposta da artista e posição da instituição. A Ministra foi atacada de todos os lados, pró e contra a exposição. Pessoalmente, não vejo porque é que um museu deveria manter a distância das suas opções da forma como parece ter sido sugerido pelo Ministério Francês. O que deveria ficar mesmo claro é por que razão o museu escolhe apresentar a exposição A ou B ao público, como é que esta escolha vai ao encontro da sua missão e programação, o que pretende comunicar, que género de reflexão e discussão procura promover.

Não posso dizer que são claros para mim os propósitos do Jeu de Paume e as razões porque optou por apresentar uma artista que ‘quer apenas mostrar’. Procurei várias vezes no website do museu a existência de um programa paralelo que poderia complementar a exposição com comunicações e debates. Nada. Quando foi finalmente anunciado um debate, organizado pelo museu e pelo Observatoire de la Liberté de Création, “reagindo à controvérsia gerida pela exposição”, este iria abordar questões como a liberdade da representação artística, a responsabilidade das instituições que expõem obras que possam causar polémica, a liberdade do visitante de ter acesso às obras e a liberdade de expressão em todas as suas componentes (ler aqui).

Isto é tudo muito bom. Isto é exactamente o que deveria ter sido programado antecipadamente e não como reacção a uma polémica. E deveria ter ido mais longe do que a discussão geral da liberdade de criar, liberdade de expor, liberdade de visitar. Esta exposição levanta outras questões importantes e específicas.

Teria esperado que o Jeu de Paume não fingisse que não estava à espera de uma enorme polémica quando bombistas suicidas palestinianos são referidos como mártires. Teria esperado que a artista não quisesse “apenas mostrar”, como se fosse ‘apenas’ uma repórter, como se não tivesse tirado e exposto estas fotos com a intenção de fazer uma afirmação. Teria esperado que ambos, o museu e a artista, quisessem verdadeiramente provocar um debate, empurrar as fronteiras para a frente, criar espaço para discutir o que é história, identidade, conflito, justiça, resistência, um acto ou um estado terrorista. Esta é a questão palestiniana, aqui não há “apenas”.

Ainda neste blog

As histórias que contamos a nos próprios

Silenciosos e apolíticos?

A longa distância entre Califórnia e Jerusalém


Mais leituras

Marie-José Mondzain, Artiste palestinienne : liberté pour l'art au Jeu de Paume (Le Monde, 21.6.2013)


G.W. Goldnadel, France/Jeu de Paume: double honte (Israël Flash, 21.6.2013)
Marta Gili: Je refuserai toujours lacensure au Jeu de Paume. Entrevista da Directora do Jeu de Paume (Le Figaro, 24.6.2013)

Monday, 1 July 2013

Blogger convidado: "Useo", por Jorge Barco (Colómbia)

Medellín é a segunda maior cidade da Colómbia. Para alguns, continua a ser sinónimo de cartel de drogas. Para outros, é a cidade-exemplo, que através de políticas culturais e sociais, conseguiu baixar o índice de criminalidade e mostrar aos seus habitantes novos caminhos para o seu desenvolvimento pessoal e também comunitário. Recentemente, li uma entrevista de Jorge Barco, Director do Departamento de Educação e Cultura do Museo de Arte Moderno de Medellín. Fiquei muito contente quando aceitou escrever para o Musing on Culture e partilhar a sua reflexão sobre o papel que as instituições culturais, e em particular os museus, podem ter no desenvolvimento de uma nova relação com a criação, o património e a vida em comunidade. mv

Colectivo Imoar (Foto: Andres Sampedro)
“La estabilidad que estamos construyendo ahora es afectivopráctico y no material, un inmenso laboratorio de la imaginación, aprovechando de toda grieta que se puede encontrar para dar cuerpo a lo que sentimos dentro” Las Grietas

O convite de Maria Vlachou para escever no seu blog, assim como do  ICOM para participar no próximo encontro de Museus no Rio de Janeiro, é para mim uma oportunidade para começar a organizar algumas ideias que têm motivado grande parte da minha reflexão como gestor, educador e activista nos museus da região de Antioquia (Colómbia) nos últimos  sete  anos.

Hoje faz sentido pensar o papel que as instituições culturais – e em particular os museus – podem ter como cenários propícios para reconfigurar uma nova relação com a criação, o património e a vida em comunidade. Os museus – num papel que se aproxima decididamente ao dos 'centros culturais', no caso especial de Medellín– têm um papel importante na promoção de programas educativos, culturais, expositivos, que ultrapassam os muros da instituição para chegar a favelas e populações distantes. E do seu interior, reinventam continuadamente as formas de se relacionarem com os seus públicos a partir da educação expandida (Edupunk), os novos enfoques de gestão cultural e o trabalho em rede.

Do seu lado, o Museo de Arte Moderno de Medellín (MAMM) – reinstalado, desde há quatro anos, numa antiga oficina de fundição de metais – tem sido consolidado como um lugar estratégico no país, pela sua programação expositiva, mas sobretudo  educativa e cultural. É um lugar propício para formular as seguintes perguntas:

Quais são as linhas orientadoras deste trabalho? Quais são os elementos para começar a criar uma nova institucionalidade e definição para o que historicamente temos chamado  Museu?

A procura de respostas para estas perguntas leva-me a propor a construção de confiança como um dos princípios orientadores: um exercício fino, perseverante e delicado de tecido e relacionamento comunitário que se  desenvolve a par com o trabalho colaborativo e em rede, o qual  se pode ver  desenhado na  cartografia de uma cena cultural cada vez mais expandida. O projecto  LABSURLAB é apenas um exemplo de como uma iniciativa que surgiu no MAMM se converteu numa rede mundial  de activistas que trabalham em torno das noções de arte, ciência, tecnologia e comunidades com um enfoque biopolítico.

LABSURLAB (Foto: Checho)

Através da construção de mapas dos projectos que se desenvolvem no território, estamos a criar relações de sentido entre os actores da cultura na cidade, na região, no continente e no mundo, procurando vincular cada vez mais grupos sociais, identitários, profissionais, assim como instituições, universidades, empreendimentos, projectos e comunidades, para a mobilização de ideais. A cartografia  dos projectos culturais é um instrumento fundamental nos processos de criação cultural contemporânea.

Uma outra linha de acção é dirigida à exploração de novas definições para o que normalmente chamamos gestão cultural, procurando conferir-lhe todo o poder criativo que alberga, a partir de modelos abertos que permitem reinventar as relações de criação, circulação e apropriação; reconhecendo que – assim como acontece com as práticas artísticas– nos projectos culturais boa parte do trabalho radica na mesma gestão. Necessariamente, esta situação faz-nos também repensar os papéis e as relações – entre quem cria, quem recebe, quem educa, quem exibe e quem gere –, ao mesmo tempo que ocorre uma transformação dos campos disciplinares.

Há mais um elemento que vincula o trabalho como activistas culturais às tecnologias, para além dos aspectos meramente técnicos: as ferramentas que nos proporcionam este momento albergam novos formatos para a criação colaborativa, a educação, a gestão de projectos, o activismo, a reorganização do trabalho e a produção dos bens comuns. Os processos culturais e artísticos ligados à cultura digital são hoje territórios de limite, fronteira e de intercâmbio, e o museu é um lugar estratégico a partir do qual se podem activar estes processos.

Uma linha adicional tem sido orientada para gerar diálogos criativos a partir do museu como instituição com os movimentos e iniciativas independentes, que podem ir desde residências artísticas, circuitos de música e bares a espaços não convencionais de educação não formal, com o objectivo de realizar projectos desde a cooperação e o mutualismo. O propósito tem sido gerar ambientes de diálogo, de co-criação e de oportunidades para ambas as esferas  (instituições e movimentos).

Equipa Educação e Cultura do MAMM (Foto: Clara Botero)
A partir desta perspectiva, a função do museu é global e, ao mesmo tempo, local, proporcionando um lugar de encontro entre as múltiplas camadas e ofícios da criação contemporânea e potenciando o desenvolvimento das subjectividades. Um lugar de encontro, trabalho, produção e investigação, para além de exposição e divulgação, onde todos os elementos se misturam, se alimentam e desde o qual poderia surgir uma nova institucionalidade e espaço que proponho que se chame provisoriamente ‘Useo’.


Jorge Bejarano Barco trabalha no sector dos museus da região de Antioquia (Colómbia) desde 2007. Actualmente, é Director do Departamento de Educação e Cultura do Museo de Arte Moderno de Medellín. No passado, trabalhou no Museo de Antioquia, na Rede de Museus e nos Conselhos Municipal e Departamental de Cultura. Participou na criação de projectos e redes independentes para a confluência entre arte, ciência, tecnologias e comunidades (ver aqui e aqui e aqui). Foi conferencista convidado na Cátedra Medellín-Barcelona, no Encuentro Internacional los Museos en la Educación organizado pelo Museo Thyssen Bornemisza em Madrid, no Master en Gestión Cultural y Economía de la Cultura de la Universidad de Valladolid, na Facultad de Diseño y Arquitectura da Universidad de Buenos Aires, no Festival de Cultura Digital de Rio de Janeiro, no Festival Internacional de la Imagen (Manizales) e nas Universidades de Antioquia e Jorge Tadeo Lozano (Bogotá). Actualmente, os seus interesses concentram-se na investigação sobre produção cultural, filosofia dos media, educação expandida, propondo diálogos entre instituições e movimentos, desde o trabalho colaborativo em rede ou a redefinição de uma série de acções que juntam a arte e o activismo cultural.