Devo admitir que é com grande emoção e admiração que vejo as
organizações culturais americanas a tomar posição e a criticar as políticas de
seu Presidente. Alguns reagem de forma mais suave, outros assumem um tom bastante
mais afirmativo e franco (vejam aqui). É uma
grande lição para todos nós e, muito provavelmente, a prova de que as
organizações culturais são tudo menos neutras, são, na verdade, inevitavelmente
políticas.
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Friday, 10 February 2017
Saturday, 4 February 2017
À procura de terreno arenoso
“Menores de 30 têm acesso
gratuito aos museus”, lê-se nos jornais portugueses. A medida foi ontem votada
no parlamento.
“Alguém me explica qual é a lógica dos 30 anos?”, questiona
uma colega brasileira.
“Será para estimular jovens famílias, tipo casais com filhos pequenos?”,
responde outra colega. “Será porque se constatou que o desemprego é maior até
aos 30 anos?”
Valerá a pena procurarmos a lógica? Terá havido lógica? Será que a medida
se baseou em qualquer relatório de gestão? Será que se baseou em algum estudo
de públicos? Os profissionais do sector foram consultados? Existem objectivos
concretos que daqui a um ou dois anos poderão ser avaliados?
Thursday, 8 December 2016
Actores relutantes no centro do palco
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| The New Americans Museum. Painel vandalizado (imagem retirada da página de Facebook do museu) |
Não surpreendentemente, após as eleições, o Tenement Museum
em Nova Iorque, um museu que conta a história da migração urbana na América, viu
“um número sem precedentes" de comentários negativos sobre imigrantes vindos
de visitantes (ler aqui). Não se trata de um incidente isolado. Outros museus, como o Idaho Museum ofBlack History ou The New Americans Museum tiveram recentemente actos racistas de vandalismo
nas suas instalações.
Cuidado com os políticos que fazem emergir o pior em nós,
pode-se pensar. Mas pode-se também acrescentar, cuidado com os museus que não
conseguem ver a política no que fazem. Foi o que pensei ao ler o primeiro
parágrafo da resposta de Zach Aaron (membro do conselho de administração do
Tenement Museum) aos comentários negativos dos visitantes:
Sunday, 13 November 2016
Silêncios diplomáticos
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| A Primeira-Ministra da Escócia, Nicola Sturgeon. |
À medida que a Web Summit chegava ao fim em Lisboa, um dia depois da divulgação dos resultados das eleições norte-americanas, a Câmara Municipal de Lisboa colocou alguns outdoors onde se lia: "No mundo livre ainda pode encontrar uma cidade para viver, investir e construir o seu futuro, construindo pontes, não muros. Chama-se Lisboa". Os outdoors foram classificados como "anti-Trump" pela oposição, que disse que preferia pensar “que se trata de uma interpretação abusiva e que a intenção de Medina [presidente da Câmara] não foi a de desrespeitar a escolha democrática do povo americano, que não foi uma demonstração de arrogância ideológica, que não foi uma precipitação oportunista em resultado do deslumbramento pela atenção internacional". Resumindo, a oposição pediu explicações (leia o artigo).
Saturday, 22 October 2016
Ilimitado (Unlimited)
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| "Uma menina perdida no seu século à procura do pai", Teatro Crinabel (Foto: Paulo Pimenta; imagem gentilmente cedida pelo Teatro Nacional D. Maria II) |
Há dois anos, questionava
aqui o propósito dos festivais que apresentam a arte de grupos específicos de
pessoas (gays, negros, pessoas com deficiência, etc). Era Setembro de 2014, e estava
a decorrer a segunda edição do festival Unlimited no Southbank em Londres. “Pergunto-me”, escrevia na altura, "quem é que assiste a
estes festivais, exposições, actividades e o que é que acontece depois? Será
que atraem apenas os já ‘convertidos’ ou um público mais amplo? Serão os
artistas gay ou negros ou com deficiência mais reconhecidos como artistas pelo
sector e pelo público? Estaremos a seguir em direcção a uma representação
inclusiva, onde serão vistos em primeiro ligar como artistas, ou os curadores e
o público vão, na mesma, para assistir a algo “especial”, circunscrito num
tempo e espaço específico, um tempo e um espaço ‘próprio’? Ajudam-nos estes
festivais a aprender a preocupar-nos mais e mais com a arte e menos e menos com
o ‘resto’?
Monday, 3 October 2016
Justin Bieber e o combate ao extremismo islâmico
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Um recente artigo do NPR, intitulado Italy's 'Cultural Allowance' For Teens Aims To Educate, Counter Extremism (O subsídio
de cultura para os adolescentes na Itália pretende educar, combater o
extremismo) demonstra a
confusão que existe, a vários níveis e meios, em relação ao acesso à cultura e
à cultura como panaceia para vários males deste mundo.
O título não é um exagero do jornal. Foi o próprio
Primeiro-Ministro italiano que, ao anunciar este subsídio de cultura (€500 para
cada jovem com 18 anos gastar em produtos culturais), pouco depois dos ataques
terroristas em Paris, em Novembro 2015, afirmou: “Destroem estátuas, nós
protegemo-las. Queimam livros, somos o país das
bibliotecas. Concebem o terror, respondemos com cultura."
Sunday, 25 September 2016
O impacto tem nome: pode ser Telmo ou Rafael ou Gustavo...
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| Telmo Martins, membro da Orquestra Geração (Foto: Maria Vlachou) |
Há uns anos, vi o documentário Waste Land (Lixo Extraordinário). Era sobre o trabalho do artista plástico brasileiro Vic Moniz com os catadores de lixo no maior aterro do mundo, o Jardim Gramacho, na periferia do Rio de Janeiro. Moniz disse que queria mudar a vida de um grupo de pessoas com os mesmos materiais com que elas lidam todos os dias. Juntos, usaram lixo para criar grandes retratos dos próprios catadores, que foram depois vendidos em leilão e o dinheiro distribuído entre os catadores. Os trabalhos foram apresentados em exposições em vários museus de arte contemporânea.
Tuesday, 23 August 2016
Escolhas
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| Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro, 2016 (imagem retirada do You Tube) |
Tendo seguido a discussão acalorada sobre o uso de fatos de
corpo inteiro por atletas muçulmanas nos Jogos Olímpicos, bem como sobre a
proibição do burkini em algumas praias francesas, penso que alguns factos são -
deliberadamente ou não - deixados de fora da equação.
Sunday, 24 July 2016
Gerir museus
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| Imagem retirada do Facebook do Museu Nacional de Arte Antiga |
A reclamação de um novo estatuto jurídico, de um estatuto especial, por parte do Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA) tem resultado num debate muito saudável no meio dos museus, sobretudo (e infelizmente) depois do anúncio do Ministro da Cultura que este estatuto irá mesmo ser atribuído. Independentemente das críticas, positivas ou negativas, que temos a fazer sobre este caso e sobre este processo, não há dúvida que devemos este debate, muito necessário, ao MNAA, ao seu director, António Filipe Pimentel, e a toda a equipa do museu*.
Wednesday, 22 June 2016
Reflexões governamentais sobre o acesso à cultura
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| "MAPA - O jogo da cartografia", um espectáculo da associação A PELE (imagem retirada do website do Teatro Nacional D. Maria II) |
O Culture White Paper (publicado pelo Departamento de Cultura, Media e Desporto em Março 2016) define
a forma como o governo britânico vai apoiar o sector cultural nos próximos
anos. É o primeiro documento deste tipo em 50 anos e o segundo alguma vez
publicado no Reino Unido.
O documento abre citando o primeiro-ministro britânico,
David Cameron, que afirma: "Se acreditam no financiamento público da arte
e da cultura, como eu apaixonadamente acredito, então devem também acreditar na
igualdade de acesso, atraindo todos e acolhendo todos."
Saturday, 7 May 2016
E então?
"E então?" Uma pergunta / reacção bastante
frequente no que diz respeito ao nosso sector, quer verbalmente expressa ou
secretamente pensada. É uma pergunta legítima, que raramente estamos disponíveis
para discutir.
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| Rembrandt Harmenszoon van Rijn, "Retrato de Marten Soolmans" e "Retrato de Oopjen Coppit" (imagem retirada do jornal Telerama) |
Quando li pela primeira vez a notícia sobre a aquisição conjunta por parte do Louvre e do Rijksmuseum das obras de
Rembrandt Retrato de Marten Soolmans e
Retrato de Oopjen Coppit, por €160
milhões, não pensei propriamente "E então?", mas sim "Porquê?".
Porquê estes dois quadros? Porquê todo esse dinheiro? Quando procurei entender
um pouco melhor a importância dessas duas obras (qualquer que fosse a sua
importância, dentro do contexto da história da arte ou qualquer outra), fui
mais frequentemente confrontada com o adjectivo "raro". Os retratos
são "raros", a sua exposição em público foi extremamente "rara”,
etc. etc. Isto levantou ainda mais perguntas: Raros como? Porque é que devem
ser vistos com mais frequência? Porque é que esses dois museus públicos fizeram
um esforço tão grande (financeiro e colaborativo) para os adquirir?
Tuesday, 19 April 2016
European Culture Forum 2016
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| Andrej Isakovic / AFP / Getty Images |
Sunday, 13 December 2015
Conseguirá a cultura?
Um artigo submetido à Annual Conference on Cultural Diplomacy, que acaba hoje em Berlim. Uma compilação de posts antigos e alguns pensamentos novos. Ler
Wednesday, 29 July 2015
Praticante, não católico
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| Fotografia retirada do website do jornal Expresso |
Para mim, uma pessoa culta não é alguém com um conhecimento profundo sobre várias matérias, que lê muitos livros, que vai muitas vezes a museus e ao teatro, que viaja e conhece o mundo. Uma pessoa culta para mim é alguém que faz tudo isso e mais coisas ainda e que tenta colocar o seu conhecimento e experiências em prática procurando reconstruir o mundo, um mundo melhor. Ser uma pessoa culta não é algo inato para nós, seres humanos. É um exercício mental e prático diário contra a nossa barbárie interior, contra a nossa ignorância.
Sunday, 24 May 2015
Post scriptum
Na semana de 11 de Maio, a minha caixa de email encheu-se de
convites para a celebração da Noite e do Dia dos Museus. No Facebook, a
intensidade não foi menor, com os museus e as suas tutelas a lembrar que todos
os caminhos iam levar a um museu. Um ambiente de grande festa, uma oferta
enorme em todo o país, que foi também traduzida em números: de acordo com os
meios de comunicação, houve 140 actividades por ocasião da Noite Europeia dos
Museus (16 de Maio) e 430 actividades no Dia Internacional dos Museus (18 de
Maio), em 70 museus diferentes. A verdade é que poucas das actividades
propostas responderam ao desafio do ICOM para reflectir sobre "Museus para
uma sociedade sustentável" (e fiquei a pensar qual será, realmente, a
percepção que os museus têm deste desafio anual e se este tem qualquer impacto
nas suas práticas - no Dia dos Museus e no resto do ano). Dito isto, a riqueza
e a intensidade da programação apresentada, bem como o ambiente de festa,
poderiam fazer pensar que o sector dos museus em Portugal mostra sinais claros
de prosperidade. Assim, a notícia a 18 de Maio que alguns funcionários de
museus estavam em greve, contestando a redução do pagamento de horas
extraordinárias, bem como o facto de terem sido obrigados a trabalhar numa
segunda-feira (o dia destinado ao descanso semanal), foi uma espécie de nota
marginal (ver reportagem da TV)
Monday, 16 March 2015
O que é que temos a ver com isso? (ii)
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| Field Museum, Chicago (fotógrafo desconhecido) |
Em Dezembro passado, houve um intenso debate entre os
profissionais de museus nos EUA a respeito do papel dos museus na sequência da
morte de negros pela da polícia em Ferguson, Cleveland e Nova Iorque. Os nossos
colegas norte-americanos sentiram fortemente que os museus fazem parte da rede
cultural e educacional que trabalha no sentido de uma maior compreensão
cultural e racial. Será que eles se referiam especificamente aos museus com
colecções afro-americanas? Ou a museus situados nas comunidades onde os eventos
ocorreram? Não, não se referiam apenas a estes. "Como mediadores
culturais, todos os museus devem procurar identificar formas criar ligações com
relevantes questões contemporâneas, independentemente da sua colecção, enfoque
ou missão." (ler a declaração na íntegra)
Na altura, concordei com a posição mais cautelosa de Rebecca Herz. Acho arriscado incentivar um museu (ou qualquer outra instituição) a agir
independentemente da sua missão, mas, como Rebecca referiu: "Eu
pessoalmente acredito que os museus devem alinhar todas as suas acções com a
sua missão, que deve estar relacionada com a colecção ou o enfoque. E acho que
se pode encontrar uma ligação entre qualquer colecção e a vida contemporânea,
mas que estas ligações devem ser cuidadosamente consideradas e desenvolvidas.
" (ler post)
Enquanto estava a seguir esta discussão muito interessante
que ocorria no outro lado do Atlântico, no dia 15 de Dezembro, um refugiado
iraniano invadia um café em Sydney fazendo reféns. Dezasseis horas depois, a
polícia interveio, matando o atacante, assim como dois dos reféns. Temendo
represálias contra os membros da comunidade muçulmana que usavam o traje
islâmico, os habitantes de Sydney ofereceram-se para acompanhar nos transportes
públicos os seus vizinhos muçulmanos que se sentiam inseguros. Soube disto no
início da manhã de 16 de Dezembro, através da página de Facebook do Immigration
Museum. O museu partilhou a notícia do Guardian e juntou-se ao resto dos
australianos, numa tomada de posição contra o preconceito e a violência.
Tomar posição não é algo simples, especialmente para uma
instituição (por oposição a um indivíduo). Não é uma decisão que pode ou deve
ser tomada apressadamente, uma reacção ao momento. Deve ser um acto
"natural", o resultado de uma política consciente, estruturada e
sustentada de intervenção cívica / política, de acordo com a missão da
instituição. É também uma grande responsabilidade.
No mês passado, três jovens muçulmanos foram assassinados na
sua casa na Carolina do Norte, EUA. Numa altura em que os jornais noticiavam
que os motivos do atacante ainda não eram conhecidos, o Arab American National
Museum partilhava na sua página no Facebook a sua tristeza pela perda dos três
jovens, insinuando que este tinha sido um crime racial. Pensei que era muito
cedo, que o museu estava a tirar ilações, o que não me pareceu ser nem
responsável nem útil. Perguntei ao museu se fazia uma declaração como aquela para
cada assassinato nos EUA. Outras pessoas (não o museu) responderam que as
vítimas eram americanos-árabes, de modo que o museu fazia bem em reagir.
Reformulei a pergunta e questionei se o museu fazia uma declaração para cada
americano-árabe assassinado, se assumia que o assassinato de qualquer
americano-árabe era um crime racial. Acho que os museus não devem atirar-se e
fazer declarações antes do tempo.
Mais recentemente, em Portugal, o Museu Nacional de Arte
Antiga publicou uma declaração sobre a destruição de tesouros arqueológicos do
Museu de Mosul por militantes do ISIS. Foi uma boa surpresa, uma vez que este
museu, como a maioria dos museus portugueses, não costuma tomar posições
publicamente. Alguém poderia argumentar que isso não foi exactamente uma
declaração política e que se tratava de uma assunto algo "seguro"
para o museu; pode ser. Veio também num momento em que os especialistas ainda
estavam a tentar perceber se os objectos destruídos eram os originais ou
cópias; talvez por isso, pareceu uma reacção um pouco precipitada. Estou mais
interessada, no entanto, em perceber se essa foi uma acção pontual ou o
primeiro acto de uma política concreta e a longo prazo de reconhecer e assumir
as responsabilidades civis-políticas-culturais do museu. Seria óptimo se assim
fosse, o tempo o dirá.
Mais neste blog
Monday, 2 March 2015
O que é que temos a ver com isso?
Nos últimos 2-3 anos, tem sido um prazer ver a forma como os
museus têm assinalado o Dia de São Valentim nas suas páginas no Facebook. Desde
objectos nas suas colecções, a elementos arquitectónicos e flores nos seus
jardins, eles já me fizeram sorrir, rir às gargalhadas, olhar melhor, aprender algo novo. De
uma forma simples, imaginativa, bem-humorada, e à distância, algumas
instituições culturais têm marcado no meu calendário um dia que eu, de resto,
acho algo desinteressante.
Nem todas as instituições culturais assinalam esse dia.
Algumas podem estar a pensar que isso não é uma coisa séria, que é algo
frívola, comercial, não se relaciona directamente com a sua exposição ou peça
de teatro ou programa de concerto. Relaciona-se com uma outra coisa, porém: a vida.
Quando o furacão Sandy atingiu Nova Iorque em 2012, o
director do MoMA PS1 publicou isto na página de Facebook do museu:
Como é que isso se relaciona com o seu museu? Com a
exposição temporária? Não se relaciona. Relaciona-se com uma outra coisa, porém: a vida.
Em 2014, o ano do Mundial no Brasil, algumas instituições
culturais apresentaram exposições, organizaram eventos, fizeram várias
referências ao futebol. Algumas podem ter tido a esperança de atrair seguidores
entre os fãs de futebol. Outras podem simplesmente ter pensado: isto também é a
vida, vamos celebrá-la!
O ataque ao Charlie Hebdo fez-me mais uma vez pensar no
papel que as instituições culturais têm na sociedade e na capacidade que têm de
se relacionar com ela. E também para colocar a sua teoria em prática. A teoria
diz que a cultura ajuda-nos a sermos humanos, tolerantes para com o
"Outro", a vivermos juntos, a aprendermos uns com os outros, a
partilharmos e a defendermos valores, a pensar de forma crítica. Quando o
sector cultural está sob "ataque", usamos estes mesmos argumentos para o defender
e para defender a importância do que fazemos. Para a sociedade. Mas quando essa
mesma sociedade ri, chora, apaixona-se, desespera, comemora, está de luto...
levamos algum tempo (muito tempo, mesmo) para considerar se é apropriado para
nós reconhecê-lo, relacionarmo-nos. Não poucas vezes, permanecemos calados.
Assim, na manhã seguinte ao ataque ao Charlie Hebdo,
expressei a minha consternação com o facto de nenhuma instituição cultural
grega ou portuguesa (entre aquelas que sigo no Facebook e no Twitter) ter reagido à tragédia. Uma tragédia relacionada
directamente com tudo o que a cultura defende. Segundos depois de eu ter
publicado o meu post, o Centro Cultural Onassis publicava o deles. Mais tarde,
o Museu Benaki. Alívio... Depois disso, alguns colegas avisaram-me de atitudes
semelhantes da parte do Museu Nacional da Imprensa ou do Museu Bordalo
Pinheiro. Seguiram-se mais algumas instituições culturais. No dia 9 de Janeiro,
o Museu Arqueológico do Carmo convidava-nos para um debate com cartoonistas e
académicos. Alívio... Ainda assim, não tenho conhecimento de alguma das grandes
instituições culturais (nacionais) portuguesas ter reagido aos acontecimentos.
Um amigo escreveu-me naquela altura e perguntou: "Mas
quais as instituições culturais que tu queres que reajam? Todas elas? As que,
de alguma forma, se relacionam com o que aconteceu? (que seria, por exemplo, o
Museo de la Memoria e de los Derechos Humanos no Chile ou o Museu Nacional da
Imprensa em Portugal, é isso?). As instituições culturais francesas?". Não quero parecer ingénua, mas teria gostado de ver reagir
todas as instituições culturais que dizem querer ter um papel na criação de uma
sociedade melhor; que dizem pretender abraçar e promover determinados valores;
que dizem querer ser relevantes para as pessoas; que dizem querer ser parte da
sociedade e ajudar a formar cidadãos responsáveis e críticos.
Gostaria de esclarecer aqui que por "reacção" não quero
dizer uma resposta precipitada a um incidente ou uma associação superficial a
uma celebração, sem ter em conta o que a instituição representa e com a
intenção de usá-la para relações públicas baratas ou simplesmente para não "ficar de fora". As pessoas sabem distinguir o oportunismo e não o apreciam...
Por "reacção" quero dizer uma resposta pensada, responsável, honesta
e coerente de uma instituição cultural que tem clara a sua missão e o papel que
pretende desempenhar na vida das pessoas. E isso não envolve apenas de programação
ou actividades educativas. É preciso estar permanentemente ciente do que está a acontecer à nossa volta e da forma como afecta a
vida das pessoas, para que, como resultado de uma política definida e coerente de intervenção, a instituição possa dar prontamente o seu contributo para o
tipo de mundo que pretende ajudar a construir.
O que é relevante e o que não é relevante para uma
instituição cultural? Bem, provavelmente não é esta a questão. A questão é: o
que torna uma instituição cultural relevante? Recentemente, dei um curso onde
discutimos o lugar e o papel das instituições culturais na sociedade
contemporânea. Na última parte da sessão, fizemos um exercício prático:
Por favor, considere:
- O ataque Charlie Hebdo
- O dia de São Valentim
- O desastre natural na Madeira em 2010
- A grande manifestação anti-austeridade a 15 de Setembro de
2013 em Portugal
A sua instituição reagiria?
Se sim, como?
Se não, por que não?
Anyone?
Mais leituras
Rebecca
Herz, What is an ethical museum?
Gretchen Jennings, We can’t outsource empathy, Part II: Qualities of the empathetic museum
Ed Rodley, Museums and social change
Monday, 16 February 2015
Bem-vindos, neo-cosmopolitas!
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| Foto: Adriano Vizoni/Folhapress (retirada da Folha de S. Paulo) |
“Presença
Negra” é uma acção promovida em São Paulo por artistas, escritores e activistas
negros que visitam em grupo inaugurações de exposições em galerias de arte.
Chegam um a um, tornam-se numerosos e atraem os olhares desconfortáveis dos
restantes visitantes. Porque a presença de negros (como artistas e como
público) não é habitual nesses contextos. Nem todos concordam com estas acções
(como se pode ver nos comentários na Folha de S. Paulo),
mas a mim, este acto de reivindicação por parte de cidadãos chamou-me a
atenção.
E veio
lembrar-me um outro. Numa conferência no ano passado ouvi Sylvain Denoncin, da
empresa francesa EO Guidage, contar a história do museu Louvre – Lens. O museu
foi projectado pelo atelier de arquitectura japonês SANAA. Os habitantes da
cidade ameaçaram levar o projecto a tribunal se o novo museu não fosse
acessível. Aí, foi chamada a EO Guidage, para intervir e remediar algo que
deveria ter sido pensado desde o primeiro momento. Numa troca de opiniões com
um colega no Facebook, partilhámos a mesma inquietação: quantas gerações até os
cidadãos deste país se tornarem mais exigentes, mais reivindicativos em relação
ao acesso à oferta cultural em instituições culturais públicas?
Estes são
dois casos que levantam novamente à questão do que se entende por “acesso à
cultura”; do que os profissionais do sector querem dizer quando afirmam que
“estamos de portas abertas” ou que “estamos aqui para todos”; da diferença que
existe entre os conceitos da “democratização da cultura” e da “cultura
democrática”.
John
Holden tem sido mais que uma vez citado neste blog, mais concretamente a sua
identificação dos guardiões da cultura no ensaio “Culture and Class” – os
“cultural snobs” e os neo-mandarins (ver referências no final do texto).
Primeiro
ponto: sofremos ainda muito da mentalidade do “cultural snob”, que considera
que a oferta cultural – certa oferta cultural – é apenas para os entendidos. Em
relação aos outros – os não entendidos, os não cultos – a opção (cada vez menos
assumida publicamente, mas presente na forma como se programa e se comunica) é
a da exclusão, não havendo nada a fazer, uma vez que nem o meio familiar destas
pessoas nem a escola tiveram a capacidade de as educar, de as preparar para tal
experiência.
Segundo
ponto: os neo-mandarins vieram alterar o contexto criado e defendido pelos
“cultural snobs”, vieram promover o acesso, a democratização da cultura. Apesar
de se tratar de uma postura diferente, mais aberta e inclusiva, na prática
revela também um outro tipo de guardião. Os neo-mandarins defendem o acesso,
mas querem ser eles a definir a que é que vale a pena ter acesso e como.
Ultimamente, em mais que uma reunião, quando levantada a questão da “inclusão”,
quando levantada a necessidade dos espaços culturais serem mais representativos
das sociedades em que estão inseridos e mais acolhedores para as diversas pessoas que as compõem, a resposta variou
pouco: passa normalmente pelas acções do serviço educativo, visitas guiadas ou
idas a espectáculos aos quais as pessoas assistem fazendo parte de grupos
específicos (pessoas com deficiência, séniores, imigrantes, crianças e adultos
institucionalizados, pessoas vindas de meios “desfavorecidos”, etc.).
Terceiro
ponto: o aparecimento dos neo-cosmopolitas no sector cultural, dispostos a
abdicar do seu papel de guardião, de abrir verdadeiramente as portas para uma
maior colaboração e envolvimento das pessoas “de fora”, no sentido de tornar a
oferta cultural mais representativa e relevante, vem alterar também esta mesma relação
com as pessoas e a forma como vêem e se apropriam das instituições culturais. O
objectivo dos neo-cosmopolitas é caminhar para uma cultura mais democrática.
Para haver
mudança, é necessário o contributo de vários agentes. Irei concentrar-me em
dois deles: as associações que representam os grupos de pessoas anteriormente
referidos; e os profissionais do sector cultural.
Sem
dúvida, é preciso haver cidadãos mais participativos, conhecedores dos seus
direitos, mais reivindicativos, que queiram ter uma palavra sobre as
instituições culturais e o acesso à oferta cultural. O papel das associações
que representam certos grupos de cidadãos é aqui fundamental, por se tratar de
organizações formadas com uma voz, às vezes, mais forte e respeitada. Estas
associações devem promover e defender os direitos dos seus associados, devem
intervir sempre que necessário, devem ponderar muito bem que soluções propõem e
que soluções aceitam. Há poucos meses, um actor que ia representar num teatro
municipal reagiu negativamente à presença dos intérpretes de língua gestual à
frente do palco. O teatro procurou alternativas e sondou a Federação das
Associações de Surdos em relação à hipótese de transmissão ao vivo da peça numa
outra sala, a partir da qual os espectadores surdos poderiam seguir o
espectáculo. A Federação considerou a solução aceitável. Não o era. Nenhuma
solução que discrimine os cidadãos e o seu direito de acesso à cultura é
aceitável e as associações devem ser as primeiras a defendê-lo.
No
entanto, é preciso haver também um movimento por dentro, no próprio sector. Um
movimento que permita contrariar as atitudes “snob”; um movimento que permita
aos neo-mandarins evoluírem e tornarem-se neo-cosmopolitas. Acredito que não
teremos cidadãos mais reivindicativos enquanto tivermos profissionais da
cultura “snob”, conformados, preparados apenas para repetir receitas do
passado, sem as questionar, sem pensar no passo seguinte, na promoção da
inclusão a médio e longo prazo.
Os
cidadãos precisam de sentir e de ver na prática que existe uma outra
mentalidade da parte dos profissionais do sector, uma mentalidade que procura
fomentar a relação com as pessoas, diversas pessoas e não apenas os entendidos,
e criar espaço para que esta relação exista e cresça, seja real e duradoura.
Seremos mais inclusivos quando os cidadãos, na sua diversidade, sentirem que a
programação das instituições culturais públicas é relevante para eles; quando
se sentirem representados e se a representação pressupor um maior envolvimento;
quando a comunicação for desenvolvida com a preocupação de chegar mesmo a elas,
de entrar em diálogo numa língua partilhada por todos; quando a nossa acção
deixar de promover o acesso à oferta cultural através da manutenção de grupos
segregados, mas dando passos todos os dias para que as pessoas possam
co-existir no mesmo espaço, usufruir da mesma oferta. Se os profissionais da
cultura não conseguirem convencer as pessoas das suas intenções honestas em
fomentar esta relação e em trabalhar para uma cultura democrática, a oferta
(não a cultura) continuará irrelevante, e consequentemente inexistente, para
elas.
Mais leituras:
Entrevista com Martha Lavey, directora artística do Steppenwolf Theater
Entrevista com Eva Bornstein, directora do Lehman Center
Mais neste
blog:
Ensaios de John Holden:
Monday, 19 January 2015
Da lealdade
Soube recentemente da
Chefe de um Serviço Regional de Antiguidades na Grécia, cujo trabalho foi
positivamente avaliado por muitos dos seus colegas e membros do público, mas
que foi ameaçada com processos disciplinares e mais tarde foi ainda transferida,
algo que foi visto como uma espécie de "punição" discreta. Porque é
que se tornou em “persona non grata”? Talvez porque, tendo repetidamente
informado os seus superiores da vigilância inadequada de um dos sítios
arqueológicos mais importantes da sua região, que se tornou realmente num pasto
para rebanhos de ovelhas e cabras, e, não tendo recebido nenhuma resposta,
informou o público em geral da situação e disponibilizou fotografias do sítio.
Talvez porque, tendo também repetidamente informado os seus superiores da falta
de vigilantes num determinado museu, alertando para a possibilidade de
encerramento a partir de uma determinada data se nenhuma solução fosse
encontrada, e tendo os seus relatórios sido recebidos com silêncio, avançou e
fechou o museu, pedindo desculpa ao público e dando a conhecer as razões do
encerramento.
Acredito que esta é
precisamente a atitude que devemos esperar de uma pessoa que tem a
responsabilidade de gerir uma instituição pública (e, neste caso, cultural):
esforçar-se para uma gestão adequada; adoptar medidas necessárias,
responsáveis, a fim de salvaguardar o que é um bem comum, público; manter os
seus superiores informados sobre quaisquer questões que possam pôr em causa o
bom funcionamento da instituição e impedi-la de cumprir a sua missão; e, quando
necessário, partilhar essa responsabilidade, informando todas as partes
interessadas, incluindo o público em geral, os cidadãos.
Não fiquei
surpreendida, porém, ao saber das ameaças de processos disciplinares contra essa pessoa. O
que, de facto, se espera dos gestores de instituições públicas - e isso não é
apenas o caso da Grécia - é mostrarem-se leais aos seus superiores e à tutela.
O que se entende por 'leal', no entanto, é abraçar todas e quaisquer decisões e
práticas que vêm de cima e, em caso de desacordo, não as questionar em público
ou, então, manter a discussão dentro da ‘família’, onde pode ser facilmente
ignorada. Uma partilha mais ampla, com a sociedade, raramente é tolerada e o
‘castigo’ é visto por todos nós, mesmo que não se concorde, como algo esperado,
inevitável, natural de acontecer. Não apoiamos os nossos colegas, não
questionamos abertamente o castigo, não nos juntamos a eles, para nos
tornarmos, juntos, mais fortes. Assim, somos hoje todos testemunhas de uma
gestão das instituições culturais públicas que revela pouca transparência, onde
os planos e acções não são discutidos, onde o diálogo público não é incentivado
e onde os próprios profissionais do sector se mantém em silêncio ou criticam de
forma muito cautelosa e discreta. Neste contexto, de medo e de auto-censura,
não é fácil ser-se crítico, muito menos quando se age sozinho. Não é fácil nem
é muito eficaz.
Quando se vive numa
sociedade democrática, deve-se esperar que a lealdade dos gestores de serviços
públicos esteja em primeiro lugar e acima de tudo com o seu serviço e com os
cidadãos. Eles têm a obrigação de contestar ou opor-se a qualquer decisão ou
omissão que ponha em causa esse serviço. Quando necessário, têm a obrigação de
partilhar a informação e de ajudar a moldar a opinião pública sobre assuntos
que são do interesse público. No Reino Unido, existe o Conselho de Directores de Museus Nacionais, que representa os
directores das colecções nacionais do país e os principais museus regionais. O
Conselho actua em prol dos seus membros; representa-os perante o governo e
outras entidades; é pró-activo na definição e execução da agenda política dos
museus; é um fórum onde os seus membros podem discutir questões de interesse
comum. Embora esses membros sejam museus nacionais – ou seja, financiados pelo
Estado -, o Conselho é uma organização independente. Como é que conseguem fazer isso? Teremos algo a aprender com eles?
Recentemente, David Fleming, Director dos National Museums Liverpool, partilhou no Twitter o desejo que os museus possam encontrar a sua voz em 2015 e alertar o público em relação ao impacto da austeridade sobre o que os museus são capazes hoje de fazer comparando com o passado. Fiquei a pensar: o que é que a sociedade grega ou portuguesa sabe, realmente, da situação vivida por várias instituições culturais públicas? Da falta de dinheiro para a realização de tarefas básicas e essenciais, do “multitasking”, das horas extraordinárias (não pagas), do trabalho aos fins-de-semana, para que o barco possa continuar a andar? E estarão interessadas em saber? Consideram essas instituições como suas? Faria alguma diferença se fechassem amanhã?
Recentemente, David Fleming, Director dos National Museums Liverpool, partilhou no Twitter o desejo que os museus possam encontrar a sua voz em 2015 e alertar o público em relação ao impacto da austeridade sobre o que os museus são capazes hoje de fazer comparando com o passado. Fiquei a pensar: o que é que a sociedade grega ou portuguesa sabe, realmente, da situação vivida por várias instituições culturais públicas? Da falta de dinheiro para a realização de tarefas básicas e essenciais, do “multitasking”, das horas extraordinárias (não pagas), do trabalho aos fins-de-semana, para que o barco possa continuar a andar? E estarão interessadas em saber? Consideram essas instituições como suas? Faria alguma diferença se fechassem amanhã?
Qual é o nosso papel,
como profissionais, neste contexto? Podemos esperar que os cidadãos sejam
críticos e exigentes, se os próprios profissionais do sector não o são
abertamente? De que forma ajudamos a formar cidadãos esclarecidos e
responsáveis? Há democracia sem pensamento crítico e diálogo público? De que
forma defendemos a transparência, a meritocracia, a honestidade intelectual?
Onde está o nosso fórum público? Com quem está a nossa lealdade e porquê?
Mais neste blog:
Monday, 15 December 2014
A dimensão educativa
Em Outubro passado, durante o intervalo da apresentação do
“Requiem” de Brahms pela Saint Louis Symphony, vinte e três manifestantes
sentados em várias partes do auditório levantaram-se e cantaram "Requiem
para Mike Brown" (o jovem negro desarmado que foi baleado por um polícia
em Ferguson). Algumas pessoas ficaram chocadas, outras aplaudiram, o mesmo
aconteceu com os músicos no palco. Ninguém interrompeu os manifestantes,
ninguém chamou a polícia. Talvez porque o que aconteceu fez sentido, naquele
lugar, naquele tempo, naquele contexto específico. Sendo que a música era parte
integrante dos protesto em Ferguson, esta, de acordo com um dos organizadores,
foi uma tentativa de "falar com um segmento da população que tem o luxo de
estar confortável. Temos que fazer uma escolha de apenas ficarmos na nossa zona
de conforto ou falarmos de algo que é importante. Não está certo simplesmente
ignorá-lo" (leia o artigo completo).
As recentes mortes de negros pela polícia em diferentes cidades dos Estados Unidos provocaram uma intensa reflexão entre as instituições culturais no país sobre o seu papel. Num recente comunicado de bloggers de museus e de outros profissionais da cultura em relação a Ferguson e outros eventos relacionados, lê-se:
"Os recentes acontecimentos, desde Ferguson a Cleveland
e Nova Iorque, criaram um momento de transição. As coisas precisam de mudar.
Novas leis e políticas irão ajudar, mas qualquer movimento em direcção a uma
maior compreensão e comunicação cultural e racial deve ser apoiado pela
infra-estrutura cultural e educativa do nosso país. Os museus fazem parte desta
rede educativa e cultural. Qual deve ser o nosso papel (papéis)? (...) Onde é
que os museus se encaixam? Alguns poderiam dizer que só os museus com colecções
específicas afro-americanas têm um papel, ou talvez apenas museus situados nas
comunidades onde estes eventos ocorreram. Como mediadores culturais, todos os
museus devem comprometer-se em identificar de que forma podem relacionar-se com
questões contemporâneas relevantes, independentemente da sua colecção, foco ou
missão. (...) Até agora, apenas a Association of African
American Museums emitiu uma declaração formal sobre as questões mais
amplas relacionadas com Ferguson, Cleveland e Staten Island. Acreditamos que o
silêncio de outros museus envia uma mensagem de que estas questões são uma
preocupação apenas para os afro-americanos e os museus afro-americanos. Sabemos
que este não é o caso."
Em Agosto passado, uma séria controvérsia envolveu a decisão
do Tricycle Theatre de não receber o UK Jewish Film Festival, pela primeira vez
em oito anos. O motivo foi que o festival tinha o apoio da Embaixada de Israel
em Londres e, dado que naquele momento estava em desenvolvimento a ofensiva em
Gaza, o Conselho Consultivo considerou que “não seria apropriado aceitar o
apoio financeiro de qualquer agência governamental envolvida". O Teatro
ofereceu-se para fornecer financiamento alternativo, mas o Festival não aceitou
(leia o artigo completo). O conflito em Gaza foi também a razão pela qual artistas participantes na
Bienal de São Paulo este ano apelaram aos organizadores (apoiados
posteriormente pelos curadores da Bienal) para devolver o financiamento do
Consulado Israelita. As negociações mais tarde resultaram na remoção do
logótipo do Consulado dos principais patrocinadores e na sua associação apenas
aos artistas israelitas que receberam este apoio financeiro específico (leia o
relatório completo).
Podemos
concordar ou discordar com as decisões tomadas por estas organizações. Mas o
questionamento em relação ao papel das instituições culturais na sociedade de
hoje, especialmente o seu papel educativo, deve ser permanente, constante. Tal
como Rebecca Herz, acredito que estas não devem agir independentemente da sua
missão (como é sugerido no acima referido comunicado dos bloggers de museus
norte-americanos), mas qualquer colecção de museu ou temporada de teatro /
orquestra / festival pode ter uma ligação à vida contemporânea e ajudar a
moldar o tipo de sociedade que precisamos ou sonhamos. Como o trabalho de
muitos artistas contemporâneos é uma resposta a assuntos da vida contemporânea, é comum
encontrarmos este género de ligações, assim como uma fértil reflexão à volta deles, na programação de teatros, companhias e galerias (o
Teatro Maria Matos, o Programa Gulbenkian Próximo Futuro ou o alkantara festival são os
primeiros que me ocorrem entre as entidades cuja programação acompanho em Portugal, mas há outros). Os museus ou as orquestras que apresentam obras que não são contemporâneas não estão muito
habituados a procurar ligações entre as suas colecções ou concertos e a vida
contemporânea ou, se o fazem, não se torna perceptível para mim. Muitas vezes
pergunto-me “Qual o propósito desta exposição ou deste concerto?”, “Porque é relevante?”, “Como é
que isto se relaciona com a sociedade portuguesa contemporânea e com a sua
diversidade?” (penso mais uma vez no trabalho inspirador da Orchestra of the Age of the Enlightenment...)
Isto leva-me mais uma vez para uma questão recorrente neste
blog: “accountability” e responsabilidade. Não vejo as instituições culturais
como ilhas, distantes do que está a acontecer no seu redor. Acredito que devem
tornar claro para as pessoas de que forma o que têm a dizer ou mostrar pode ser
relevante para elas; devem partilhar publicamente a sua visão e objectivos e
assumir a responsabilidade pelo seu cumprimento; devem ser um fórum público,
onde as pessoas podem encontrar conforto, mas também o desconforto necessário.
Têm claramente um papel educativo (no sentido de fornecer o que os gregos
antigos chamavam "paideia"), um papel que eu não faria
necessariamente depender do que acontece (ou não acontece) na escola ou em casa
e um papel que não depende, em primeiro lugar, do serviço educativo, mas sim,
do/a director/a.
Dois directores de museus e um curador estarão connosco na
próxima terça-feira, 16 de Dezembro, na conferência da Fundação Gulbenkian
"Que lugares para a educação? A dimensão educativa de instituições
culturais" (mais informações). Charles Esche
(Director do Van Abbemuseum e um dos curadores da Bienal de São Paulo deste
ano), David Fleming (Director dos National Museums Liverpool e Presidente da
Federação Internacional de Museus de Direitos Humanos) e Delfim Sardo (Curador,
Professor Universitário e Ensaísta) irão desafiar-nos a pensar sobre as nossas
responsabilidades e práticas no actual contexto social e político.
Nota: Para
quem não puder estar em Lisboa, a conferência será transmitida em livestreaming. Há uma série de
artigos, posts, textos de opinião e entrevistas na página da conferência (em
“Oradores”, “+Reflexão” e “+Info”).
Mais leituras:
Jean-François Chougnet, Le MuCEM ne doit pas devenir un musée pour touristes
Laura C. Mallonee, A scramble to save protest art, from Ferguson to Hong Kong
Maddy Costa, Can a relationship with theatre change people’s relationship to society?
Maddy Costa, Can a relationship with theatre change people’s relationship to society?
Sunny
Hundal and Nock Cohen, Was the Tricycle Theatre right to ask the UK Jewish Film Festival to ‘reconsider’ its funding?
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