A notícia da demissão de Warren Kanders do Conselho Directivo
do Whitney Museum deixou-me muito satisfeita. Depois de
meses de protestos, o proprietário da Safariland (uma empresa que fabrica
“produtos para a aplicação da lei" - noutras palavras, armas, incluindo o gás
lacrimogéneo usado contra os imigrantes na fronteira dos EUA) foi forçado a
sair, já que muitas pessoas sentiam que ganhar dinheiro com a produção de armas
e depois investi-lo filantropicamente na cultura e nas artes é, no mínimo, um
oxímoro.
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Wednesday, 7 August 2019
Saturday, 23 March 2019
O grande privilégio da vida pública
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| Imagem do cartaz da peça "O casaco", apresentada em 2018 pelo Grupo de Teatro da Nova. |
O recente episódio de blackface numa escola de Matosinhos e a forma como foi comentado são mais um indicador da falta preocupante de espaços de encontro (não virtuais) para o diálogo. Muitos não perceberam o porquê das críticas de racismo a propósito de uma iniciativa que pretendia celebrar a diversidade cultural (de “países” como África, China e Brasil) e acusaram os próprios críticos de racismo e promoção do ódio. A troca de comentários na página de Facebook Blackface Portugal é reveladora da incompreensão, e mesmo da ignorância, em torno desta matéria. Mas, podemos dizer que ficámos chocados ou surpreendidos? Não será essa uma realidade conhecida que, por muito que nos apeteça dizer “já deviam saber”, não lhe podemos virar as costas? Não podemos mesmo, porque continua a influenciar a educação, o pensamento e as noções que grande parte da nossa sociedade tem sobre esta matéria e várias outras. São estas noções que acabam por condicionar a liberdade de vários cidadãos e de perpetuar todos os tipos de racismo e, em certos casos, também a violência.
Sunday, 2 September 2018
Quem é bem-vindo à sua casa e à sua mesa?
À Lambrina e ao Sam, à Eleni e ao Nikos
Aos bons amigos e às boas discussões
Aos bons amigos e às boas discussões
Em Junho passado, Sarah Huckabee Sanders, a secretária de
imprensa da Casa Branca, foi convidada a sair do restaurante Red Hen. O pedido
foi da dona do restaurante.
Em meados de Agosto, a notícia que Marine Le Pen,
ex-candidata à presidência de França e líder do partido político Rassemblement Nacional,
tinha sido convidada para participar no Web Summit em Lisboa provocou vários protestos
públicos. O convite acabou por ser retirado.
Ambos os incidentes levantaram questões relativas à
liberdade de expressão; se é possível combater visões políticas extremistas e
abordar as raízes da subida da extrema-direita proibindo ou ignorando certos
pontos de vista; e se, ao excluirmos algumas pessoas, não nos tornamos como elas.
Monday, 11 June 2018
Discutindo a descolonização dos museus em Portugal
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| Foto: Maria Vlachou |
Adoro museus. Adoro-os pelo que são; adoro-os pelo que não são, mas podem ser; adoro-os pelo seu potencial. Adoro-os especialmente devido ao trabalho desenvolvido por vários colegas em todo o mundo para que os museus se adaptem a novas realidades, permaneçam ou se tornem relevantes para as pessoas e até se reinventem. Ultimamente, adoro-os particularmente pelas controvérsias que causam ou enfrentam, empurrando o nosso pensamento e prática para a frente.
Sunday, 20 May 2018
Apropriação cultural: menos guardiões, mais pensadores críticos
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| "La Japonaise" de Claude Monet, Museum of Fine Arts Boston. (Imagem retirada de http://japaneseamericaninboston.blogspot.com) |
Para a Nandia
O meu primeiro contacto com o conceito de apropriação cultural aconteceu em Julho de 2015 devido às “Kimono Wednesdays” no Museum of Fine Arts Boston (MFA). Por ocasião da exibição de “La Japonaise” de Claude Monet (uma pintura da esposa do artista, rodeada de leques, usando uma peruca loira e um quimono vermelho), os visitantes eram convidados a vestir um quimono semelhante ao mostrado no quadro e a partilhar as suas fotos nas redes sociais. Segundo o museu, essa era uma maneira para os visitantes se envolverem com a pintura. Para algumas pessoas, no entanto, a actividade carecia de qualquer contexto em relação ao quimono, tornando-se apenas “divertida”; outros criticaram a iniciativa por estar a reforçar estereótipos e exotizar os asiáticos-americanos; para outros, era racismo flagrante (leiam o artigo de Seph Rodney).
Wednesday, 25 April 2018
O Museu das (minhas) Descobertas
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| Exposição "Retornar - Traços de Memória", Padrão dos Descobrimentos, 2015 (Foto: Maria Vlahou) |
Sou portuguesa por adopção. Quando cheguei a Portugal, em 1995, a única coisa que sabia sobre a história do país tinha a ver com os Descobrimentos (dos caminhos marítimos e das especiarias, ensinada no meu país no 7º ou 8º ano). O resto fui/vou “descobrindo” ao longo dos anos (mesmo no que diz respeito aos Descobrimentos e para além dos caminhos marítimos e das especiarias). A história que me ensinaram na escola era, como é habitual, apenas uma parte.
Tuesday, 31 October 2017
A pessoa que precisamos de ouvir
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| Grada Kilomba, The Kosmos 2 (Detail) © Esra Rotthoff, courtesy of Maxim Gorki Theatre. (imagem retirada do website Contemporary And) |
Há umas semanas, apareceu no Público um artigo intitulado Grada Kilomba é a artista que Portugal precisa de ouvir. Até lá, nunca tinha ouvido falar de Grada Kilomba. Na semana que passou, foram inauguradas duas exposições da artista em Lisboa, aparentemente as primeiras na sua terra natal, apesar de Grada Kilomba já ter uma carreira intensa no estrangeiro. Um facto “perversamente coerente”, como dizia o Público, porque “entrar no trabalho de Grada Kilomba – nas suas instalações de vídeo e som, nas suas performances, nas suas leituras encenadas, nos seus textos – é ter de lidar com a história violenta do colonialismo e pós-colonialismo, história na qual Portugal está profundamente entranhado mas que teima em fingir que não é nada com ele.”
Friday, 10 February 2017
E se fosse aqui?
Devo admitir que é com grande emoção e admiração que vejo as
organizações culturais americanas a tomar posição e a criticar as políticas de
seu Presidente. Alguns reagem de forma mais suave, outros assumem um tom bastante
mais afirmativo e franco (vejam aqui). É uma
grande lição para todos nós e, muito provavelmente, a prova de que as
organizações culturais são tudo menos neutras, são, na verdade, inevitavelmente
políticas.
Sunday, 13 November 2016
Silêncios diplomáticos
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| A Primeira-Ministra da Escócia, Nicola Sturgeon. |
À medida que a Web Summit chegava ao fim em Lisboa, um dia depois da divulgação dos resultados das eleições norte-americanas, a Câmara Municipal de Lisboa colocou alguns outdoors onde se lia: "No mundo livre ainda pode encontrar uma cidade para viver, investir e construir o seu futuro, construindo pontes, não muros. Chama-se Lisboa". Os outdoors foram classificados como "anti-Trump" pela oposição, que disse que preferia pensar “que se trata de uma interpretação abusiva e que a intenção de Medina [presidente da Câmara] não foi a de desrespeitar a escolha democrática do povo americano, que não foi uma demonstração de arrogância ideológica, que não foi uma precipitação oportunista em resultado do deslumbramento pela atenção internacional". Resumindo, a oposição pediu explicações (leia o artigo).
Monday, 3 October 2016
Justin Bieber e o combate ao extremismo islâmico
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Um recente artigo do NPR, intitulado Italy's 'Cultural Allowance' For Teens Aims To Educate, Counter Extremism (O subsídio
de cultura para os adolescentes na Itália pretende educar, combater o
extremismo) demonstra a
confusão que existe, a vários níveis e meios, em relação ao acesso à cultura e
à cultura como panaceia para vários males deste mundo.
O título não é um exagero do jornal. Foi o próprio
Primeiro-Ministro italiano que, ao anunciar este subsídio de cultura (€500 para
cada jovem com 18 anos gastar em produtos culturais), pouco depois dos ataques
terroristas em Paris, em Novembro 2015, afirmou: “Destroem estátuas, nós
protegemo-las. Queimam livros, somos o país das
bibliotecas. Concebem o terror, respondemos com cultura."
Tuesday, 23 August 2016
Escolhas
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| Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro, 2016 (imagem retirada do You Tube) |
Tendo seguido a discussão acalorada sobre o uso de fatos de
corpo inteiro por atletas muçulmanas nos Jogos Olímpicos, bem como sobre a
proibição do burkini em algumas praias francesas, penso que alguns factos são -
deliberadamente ou não - deixados de fora da equação.
Tuesday, 19 April 2016
European Culture Forum 2016
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| Andrej Isakovic / AFP / Getty Images |
Sunday, 13 December 2015
Conseguirá a cultura?
Um artigo submetido à Annual Conference on Cultural Diplomacy, que acaba hoje em Berlim. Uma compilação de posts antigos e alguns pensamentos novos. Ler
Monday, 15 December 2014
A dimensão educativa
Em Outubro passado, durante o intervalo da apresentação do
“Requiem” de Brahms pela Saint Louis Symphony, vinte e três manifestantes
sentados em várias partes do auditório levantaram-se e cantaram "Requiem
para Mike Brown" (o jovem negro desarmado que foi baleado por um polícia
em Ferguson). Algumas pessoas ficaram chocadas, outras aplaudiram, o mesmo
aconteceu com os músicos no palco. Ninguém interrompeu os manifestantes,
ninguém chamou a polícia. Talvez porque o que aconteceu fez sentido, naquele
lugar, naquele tempo, naquele contexto específico. Sendo que a música era parte
integrante dos protesto em Ferguson, esta, de acordo com um dos organizadores,
foi uma tentativa de "falar com um segmento da população que tem o luxo de
estar confortável. Temos que fazer uma escolha de apenas ficarmos na nossa zona
de conforto ou falarmos de algo que é importante. Não está certo simplesmente
ignorá-lo" (leia o artigo completo).
As recentes mortes de negros pela polícia em diferentes cidades dos Estados Unidos provocaram uma intensa reflexão entre as instituições culturais no país sobre o seu papel. Num recente comunicado de bloggers de museus e de outros profissionais da cultura em relação a Ferguson e outros eventos relacionados, lê-se:
"Os recentes acontecimentos, desde Ferguson a Cleveland
e Nova Iorque, criaram um momento de transição. As coisas precisam de mudar.
Novas leis e políticas irão ajudar, mas qualquer movimento em direcção a uma
maior compreensão e comunicação cultural e racial deve ser apoiado pela
infra-estrutura cultural e educativa do nosso país. Os museus fazem parte desta
rede educativa e cultural. Qual deve ser o nosso papel (papéis)? (...) Onde é
que os museus se encaixam? Alguns poderiam dizer que só os museus com colecções
específicas afro-americanas têm um papel, ou talvez apenas museus situados nas
comunidades onde estes eventos ocorreram. Como mediadores culturais, todos os
museus devem comprometer-se em identificar de que forma podem relacionar-se com
questões contemporâneas relevantes, independentemente da sua colecção, foco ou
missão. (...) Até agora, apenas a Association of African
American Museums emitiu uma declaração formal sobre as questões mais
amplas relacionadas com Ferguson, Cleveland e Staten Island. Acreditamos que o
silêncio de outros museus envia uma mensagem de que estas questões são uma
preocupação apenas para os afro-americanos e os museus afro-americanos. Sabemos
que este não é o caso."
Em Agosto passado, uma séria controvérsia envolveu a decisão
do Tricycle Theatre de não receber o UK Jewish Film Festival, pela primeira vez
em oito anos. O motivo foi que o festival tinha o apoio da Embaixada de Israel
em Londres e, dado que naquele momento estava em desenvolvimento a ofensiva em
Gaza, o Conselho Consultivo considerou que “não seria apropriado aceitar o
apoio financeiro de qualquer agência governamental envolvida". O Teatro
ofereceu-se para fornecer financiamento alternativo, mas o Festival não aceitou
(leia o artigo completo). O conflito em Gaza foi também a razão pela qual artistas participantes na
Bienal de São Paulo este ano apelaram aos organizadores (apoiados
posteriormente pelos curadores da Bienal) para devolver o financiamento do
Consulado Israelita. As negociações mais tarde resultaram na remoção do
logótipo do Consulado dos principais patrocinadores e na sua associação apenas
aos artistas israelitas que receberam este apoio financeiro específico (leia o
relatório completo).
Podemos
concordar ou discordar com as decisões tomadas por estas organizações. Mas o
questionamento em relação ao papel das instituições culturais na sociedade de
hoje, especialmente o seu papel educativo, deve ser permanente, constante. Tal
como Rebecca Herz, acredito que estas não devem agir independentemente da sua
missão (como é sugerido no acima referido comunicado dos bloggers de museus
norte-americanos), mas qualquer colecção de museu ou temporada de teatro /
orquestra / festival pode ter uma ligação à vida contemporânea e ajudar a
moldar o tipo de sociedade que precisamos ou sonhamos. Como o trabalho de
muitos artistas contemporâneos é uma resposta a assuntos da vida contemporânea, é comum
encontrarmos este género de ligações, assim como uma fértil reflexão à volta deles, na programação de teatros, companhias e galerias (o
Teatro Maria Matos, o Programa Gulbenkian Próximo Futuro ou o alkantara festival são os
primeiros que me ocorrem entre as entidades cuja programação acompanho em Portugal, mas há outros). Os museus ou as orquestras que apresentam obras que não são contemporâneas não estão muito
habituados a procurar ligações entre as suas colecções ou concertos e a vida
contemporânea ou, se o fazem, não se torna perceptível para mim. Muitas vezes
pergunto-me “Qual o propósito desta exposição ou deste concerto?”, “Porque é relevante?”, “Como é
que isto se relaciona com a sociedade portuguesa contemporânea e com a sua
diversidade?” (penso mais uma vez no trabalho inspirador da Orchestra of the Age of the Enlightenment...)
Isto leva-me mais uma vez para uma questão recorrente neste
blog: “accountability” e responsabilidade. Não vejo as instituições culturais
como ilhas, distantes do que está a acontecer no seu redor. Acredito que devem
tornar claro para as pessoas de que forma o que têm a dizer ou mostrar pode ser
relevante para elas; devem partilhar publicamente a sua visão e objectivos e
assumir a responsabilidade pelo seu cumprimento; devem ser um fórum público,
onde as pessoas podem encontrar conforto, mas também o desconforto necessário.
Têm claramente um papel educativo (no sentido de fornecer o que os gregos
antigos chamavam "paideia"), um papel que eu não faria
necessariamente depender do que acontece (ou não acontece) na escola ou em casa
e um papel que não depende, em primeiro lugar, do serviço educativo, mas sim,
do/a director/a.
Dois directores de museus e um curador estarão connosco na
próxima terça-feira, 16 de Dezembro, na conferência da Fundação Gulbenkian
"Que lugares para a educação? A dimensão educativa de instituições
culturais" (mais informações). Charles Esche
(Director do Van Abbemuseum e um dos curadores da Bienal de São Paulo deste
ano), David Fleming (Director dos National Museums Liverpool e Presidente da
Federação Internacional de Museus de Direitos Humanos) e Delfim Sardo (Curador,
Professor Universitário e Ensaísta) irão desafiar-nos a pensar sobre as nossas
responsabilidades e práticas no actual contexto social e político.
Nota: Para
quem não puder estar em Lisboa, a conferência será transmitida em livestreaming. Há uma série de
artigos, posts, textos de opinião e entrevistas na página da conferência (em
“Oradores”, “+Reflexão” e “+Info”).
Mais leituras:
Jean-François Chougnet, Le MuCEM ne doit pas devenir un musée pour touristes
Laura C. Mallonee, A scramble to save protest art, from Ferguson to Hong Kong
Maddy Costa, Can a relationship with theatre change people’s relationship to society?
Maddy Costa, Can a relationship with theatre change people’s relationship to society?
Sunny
Hundal and Nock Cohen, Was the Tricycle Theatre right to ask the UK Jewish Film Festival to ‘reconsider’ its funding?
Mais neste blog:
Monday, 6 October 2014
Preservar para quê?
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| Imperial War Museum |
No meu segundo ano em Londres, em 1994, da janela da minha cozinha via a cúpula do Imperial War Museum (IWM). Era uma vista bonita de um museu bonito. Para a surpresa de muitas pessoas, este é o meu museu favorito em Londres.
No caminho para o primeiro Congresso de Museologia Militar, estava
a pensar que nunca considerei o Imperial War Museum, que ia fazer uma
apresentação nesse dia, um museu militar. Para mim, o IWM é um museu de pessoas (não deveriam todos sê-lo?). Um museu de militares e de civis, de
homens e de mulheres, de adultos e de crianças, de seres humanos e de animais
(estou a lembrar-me de algumas das exposições que lá vi). É muito mais do que
datas, batalhas, tácticas, tipos de armas e tratados. É um museu que conta as
histórias de pessoas que foram afectadas pela guerra.
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| Postal promocional das novas galerias da Grande Guerra no Imperial War Museum |
A apresentação do IWM estava incluída num painel que iria
debater os Museus Militares e o Centenário da Grande Guerra. A primeira oradora
foi Maria Fernanda Rollo, professora universitária e coordenadora do projecto
Portugal 1914. Trata-se de um portal na Internet com conteúdos muito ricos, recolhidos com a
colaboração de várias instituições e profissionais de vários meios, assim como
com a colaboração do público em geral. O objectivo é a promoção de uma cidadania activa e empenhada na promoção da defesa,
preservação e salvaguarda de um património colectivo, assim como sensibilizar a
população em geral para a importância da memória e da sua preservação. “Este é
um museu virtual, que conta histórias, onde aprendemos com as afectividades. É
um museu vivo”, disse Maria Fernanda Rollo.
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| Postal promocional das novas galerias da Grande Guerra no Imperial War Museum |
Sorri quando ouvi esta afirmação. Porque, implicitamente, Maria Fernanda Rollo estava a revelar a sua percepção dos museus: espaços mortos, espaços onde não se contam histórias, espaços onde a afectividade não tem lugar. Esta é uma percepção amplamente partilhada por várias pessoas na nossa sociedade a vários níveis (lembram-se porque é que a Paula Rego quis que o museu que alberga as suas obras em Cascais se chamasse “Casa das Histórias” e não “museu”?). Mas sorri também ao ouvir a minha amiga Gina Koutsika fazer a sua animada e estimulante apresentação sobre as iniciativas do IWM para a comemoração do centenário. A Gina mostrou-nos como um museu pode (e deve) ser vivo, cheio de histórias e de sentimentos, próximo das comunidades que pretende servir. Este não é um museu no mundo virtual, é real, existe.
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| Postal promocional das novas galerias da Grande Guerra no Imperial War Museum |
Quando o debate começou, lembrei-me de uma outra visita, há quase 10 anos, ao In Flanders Fields Museum (Ypres, Bélgica). Mais um museu notável, na cidade que esteve no caminho do exército alemão e que ficou completamente destruída durante a guerra. Um museu cheio de histórias humanas, onde o visitante pode assumir a identidade de um dos habitantes da cidade e seguir a sua história pessoal durante a guerra. O que mais me marcou naquela visita, e que não voltei a encontrar em nenhum outro museu, foi a forma simples como se mostrou que um objecto pode ser muitas histórias. Através da exposição de um monte de lenços brancos, o museu falava-nos dos múltiplos usos daquele objecto: podia ser um sinal de rendição; ou uma forma de alguém se proteger dos gases letais tapando o seu nariz; ou algo para tapar os olhos de quem enfrentava o esquadrão da morte.
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| In Flanders Fields Museum |
Lembrei-me ainda do Musée de la Grande Guerre du Pays de Meaux (França) e do seu maravilhoso projecto “Léon
Vivien”. Os bons museus encontram formas imaginativas de usar as suas
colecções, dando-lhes vida e criando ligações com as pessoas. Léon Vivien é um
personagem fictício, um soldado, cuja história é contada numa página especial
no Facebook através de vários objectos, seguida e comentada por milhares de
pessoas. Os bons museus sabem sê-lo tanto no mundo real como no mundo virtual.
A questão da memória surgiu no debate quando o Tenente-General Mário de Oliveira Cardoso, outro dos oradores neste painel, citou o filósofo, ensaísta e escritor George Santayana: “Quem não se lembra do passado está condenado a repeti-lo”. Lembrar o passado, preservar o conhecimento histórico. Sim, é este o objectivo de várias instituições, incluindo o dos museus. Mas porquê? Com que propósito? Estará a ser alcançado? Estarão essas histórias a ser preservadas e lembradas simplesmente para se criar um repositório ou porque podem criar ligações ao presente, a vidas humanas actuais, não apenas as nossas mas as dos outros também? Poderão as histórias preservadas e lembradas ajudar-me a criar uma ligação ao Outro, fazer a sua história minha?
Na Europa, não faltam
museus militares, de história, da primeira e segunda guerra, do holocausto.
Todos têm como objectivo preservar o passado histórico e mostrar a importância
da memória. “Nunca mais” é o lema que encontramos em muitos deles. Estarão
estes museus conscientes que recentemente, no seguimento das atrocidades
cometidas em Gaza, voltou a ser ouvido em algumas cidades europeias o grito
“Morte aos Judeus”? Terão reagido? Terão aproveitado a oportunidade para dar
bom uso às suas colecções e mostrar para que serve preservar o passado
histórico e ter memória? Não é precisamente num momento como este que um museu
deveria intervir publicamente e contribuir para esclarecer e formar a opinião
pública? Caso, contrário, preservar para quê?
Outros textos
Los jóvenes tienen que conocer esto para saber en que país están viviendo
Entrevista com Ricardo Brodsky, director do Museo de la Memoria (Santiago de Chile)
Le MuCEM ne doit pas devenir un musée pour touristes
Entrevista com Jean-François Chougnet, director do Musée des Civilisations de l´Europe et de la Méditerranée (Marselha)
Who funds the arts and why we should care
Entrevista com Charles Esche, curador da Bienal de São Paulo
Monday, 22 September 2014
Gay, preto, deficiente... podemos parar de falar nisso?
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| Gay Jazz Festival, Filadélfia (Foto: Bruno Bollaert, retirada do Examiner) |
Em Maio passado, o
magazine Philly anunciou que ia ser feita História com a organização do primeiro Gay Jazz Festival
nos EUA. O anúncio intrigou-me. Pareceu-me que a História estava provavelmente
a dar um passo atrás. Visitei o website do William Way LGBT
(Lesbian-Gay-Bisexual-Transgender) Community Center que ia receber este evento – e estou a citar -
“revolucionário” e procurei mais informações. Lia-se: “Filadélfia tem uma
tradição como uma grande cidade da música. Somos também uma cidade que afirma
as vidas das pessoas LGBT. A organização do primeiro LGBT jazz festival na América
do Norte oferece a oportunidade de apresentarmos a rica e vibrante cultura da
nossa cidade. (…) O festival marcará o fim do ciclo anual de música do William
Way LGBT Community Center e irá destacar a intersecção entre a orientação
sexual e a identidade de género dentro da comunidade do jazz.”
Acredito que um
princípio importante no encontro com outras pessoas, outras culturas, é ouvir
primeiro as próprias pessoas, tentar conhecê-las e entendê-las melhor; os seus
pensamentos, as suas experiências de vida, as suas sensibilidades, as suas
necessidades e convicções. Assim, estou certa que o Centro deve ter tido uma
ideia muito clara sobre a necessidade de um gay jazz festival, mas mesmo assim,
mesmo depois de consultar o seu site, não era claro para mim porque é que uma
iniciativa como esta havia de ser considerada “visionária”. Porque é que músicos de jazz gay precisam de um gay
jazz festival para apresentarem o seu trabalho? Isto ajudaria a sensibilização
sobre os direitos das pessoas LGBT? Seria porque não lhes é normalmente dado
espaço nos festivais de jazz organizados nos EUA e no estrangeiro? Porque é que
o objectivo de um festival de música deveria ser destacar “a
intersecção entre a orientação sexual e a identidade de género dentro da
comunidade do jazz” (e como é que isto seria feito?) e não simplesmente os
artistas e a sua música?
Faço muitas vezes estas mesmas
perguntas em relação aos artistas com deficiência. As pessoas que com eles
trabalham e as associações que os representam dizem que normalmente não vêem o
seu trabalho apresentado nos habituais festivais ou como parte da programação
dos espaços culturais em geral. O seu trabalho é considerado de inferior
qualidade e muitas vezes, quando um espaço programa um espectáculo ou uma
exposição, considera que já cumpriu as suas obrigações para com os artistas com
deficiência e não é necessário mais ao longo da temporada. Está é, sem dúvida,
uma realidade. Mas estaremos a avançar e estaremos de alguma forma a resolver o
problema organizando festivais ou exposições “especiais” de artistas com
deficiência?
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| Michelle Ryan, "Intimacy", Unlimited 2014 (imagem retirada do website do Unlimited) |
Entre 2 e 7 de Setembro houve mais uma edição do festival
Unlimited em Londres, um grande evento, com encomendas especialmente feitas para serem aí
apresentadas. Um evento que “celebra a visão artística e a originalidade dos
artistas com deficiência”. Num país como o Reino Unido, que, comparado com
outros, já deu vários passos necessários no sentido do respeito dos direitos
das pessoas com deficiência, qual é o papel de um festival como o Unlimited
hoje em dia?
Entre 13 de Setembro e 15 de Outubro, o Musée de Grenoble
organiza o Mês da Acessibilidade. Lê-se
no website que o museu convida as pessoas com deficiência a descobrir as suas
exposições e actividades ao longo do ano, disponibilizando a ajuda necessária.
Sendo assim, qual o objectivo deste mês “especial”?
Considerando estas e outras iniciativas, pergunto-me quem é
que assiste a estes festivais, exposições, actividades e o que é que acontece
depois? Será que atraem apenas os já “convertidos” ou um público mais amplo?
Serão os artistas gay ou negros ou com deficiência mais reconhecidos como
artistas pelo sector e pelo público? Estaremos a seguir em direcção a uma
representação inclusiva, onde serão vistos em primeiro ligar como artistas, ou
os curadores e o público vão na mesma para assistir a algo “especial”,
circunscrito num tempo e espaço específico, um tempo e um espaço “próprio”?
Ajudam-nos estes festivais a aprender a preocupar-nos mais e mais com a arte e
menos e menos com o “resto”?
Já escrevi no passado sobre a promoção de espectáculos que
envolviam artistas com deficiência onde o público não foi “avisado” deste
facto. As pessoas compraram os seus bilhetes, viram o espectáculo, podem ou não
ter sentido algum desconforto e algumas acabaram agradavelmente surpreendidas
com a qualidade do que tinham acabado de ver. Não terá sido este um passo em
frente? Um passo no sentido de aprender que “o resto” não fazia, realmente,
diferença? E o nosso objectivo – o objectivo dos artistas, programadores,
curadores, profissionais da educação e da comunicação, associações de pessoas
com deficiência – não devia ser trabalhar no sentido de tornar a diferença
“mainstream”?
Quando li o livro “Museums and Migration” (ed. Laurence
Gouriévidis) este verão, gostei de ver que este tinha sido o princípio seguido
em algumas exposições de museus em países como o Canadá, a Austrália ou o Reino
Unido, países com altos níveis de imigração e que conheceram por vezes
estratégias governamentais que tinham como objectivo lidar com “a tensão entre
o reconhecimento de uma sociedade culturalmente diversa e a necessidade de
articular uma identidade nacional que projecta uma nação culturalmente coesa”
(Mary Hutchison and Andrea Witcomb, p.228). Estes museus foram além do festival
étnico, da Semana da China – Índia – Paquistão – Nigéria – Bolívia, etc. (que
normalmente focam a música e a comida), e procuraram formas de tornar as
histórias das comunidades migrantes parte da história nacional e de promover
“sentimentos positivos em relação a pessoas que se sentem em casa entre
culturas diferentes e a ideia que pessoas em várias partes do mundo vivem no
seio de culturas que já são transnacionais, cosmopolitas e que se caracterizam
por um hibridismo cultural” (Kylie Message, p. 60).
Penso que esta é a
forma de ir para a frente; é deixar de chamar a atenção para a diferença e
tornando-a parte da história. Já citei uma vez Morgan Freeman que considera o
Mês da História Negra “ridículo”, recusando-se a ver a sua história reduzida a
um mês, e que, quando lhe perguntaram “Então, como é que nos vamos ver livres
do racismo?”, respondeu simplesmente: “Parem de falar nele!”. Precisamos ainda
de meses-festivais-feiras-espectáculos de gays, negros, deficientes? Talvez,
sim, precisemos ainda, não o nego. Mas temos também um plano para ir um passo
mais além?
Mais neste blog
O começo e ofinal de uma semana a p&b em Viena
Outros textos
Monday, 28 July 2014
Em círculos
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| Nelly´s, Refugiados gregos da Ásia Menor, 1925-27. |
Dois dos meus avós
nasceram súbditos otomanos. A minha cidade, Ioannina, no noroeste da Grécia,
foi conquistada pelo Otomanos mesmo antes de Constantinopla, em 1430. Quase 500
anos mais tarde, em 1913, foi liberada pelo exército grego e tornou-se parte do
Estado Grego. Ao longo dos séculos, tinha havido várias revoltas contra os
Otomanos, mas não tiveram sucesso. Resultaram numa ainda maior repressão, que,
por sua vez, alimentou a determinação dos ocupados.
A minha cidade teve um
forte passado multicultural – cristão, muçulmano e judaico. Eu nasci em 1970,
muito tarde para o presenciar, apesar de se encontrarem vestígios em várias
partes. A minha casa hoje fica a 200 metros dos cemitérios muçulmano e judaico.
A maioria dos muçulmanos que residiam em território grego teve que abandonar as
suas casas e ir para a Turquia, um país que não conhecia, um lugar que não
significava nada para eles, no seguimento do Tratado de Lausanne em 1923. Os Cristãos Ortodoxos que viviam na Turquia
foram forçados em ir para a Grécia. Amigos e vizinhos separaram-se para sempre
e eu passei a minha infância com um medo terrível dos Turcos. O último
muçulmano de Ioannina morreu na década passada, enquanto a comunidade judaica,
quase completamente aniquilada durante a ocupação Nazi na Segunda Guerra
Mundial, conta hoje com aproximadamente 50 indivíduos.
A primeira e última vez
que entrei na Sinagoga da minha cidade – que está quase sempre fechada – foi em
1993, para a comemoração do 50º aniversário da deportação dos Judeus de
Ioannina para Auschwitz. A pessoa que se sentou ao meu lado nesse dia chorou
silenciosamente durante toda a cerimónia. Foi naquele momento, com vinte e
poucos anos, que me apercebi que a História é muito mais que factos e datas nos
meus livros, como é normalmente ensinada nas escolas e até nas universidades. A
História são as pessoas que a fazem e as pessoas que vivem as suas
consequências, tanto as figuras públicas como, especialmente, os indivíduos
anónimos.
Sempre que viajo,
visito os Museus Judaicos ou exposições sobre o Holocausto quando patentes nas
cidades em que me encontro. Visitei alguns muito bons (Imperial War Museum,
Londres; Dachau Concentration Camp Memorial Site, Munique; Jewish Historical Museum, Amsterdão; Jewish Museum, Viena; The United States Holocaust Memorial Museum,
Washington), alguns menos bons, do ponto de vista da
museografia, mas, mesmo assim, interessantes por causa do tema (Jewish Museum Berlin; Jewish Museum of Greece, Atenas), enquanto espero ainda poder conhecer outros,
como o South African Jewish Museum na Cidade do Cabo. Através destas visitas, revisito também a história de
um povo orgulhoso pelas suas origens, que respeita e preserva as suas tradições,
independentemente da parte do mundo onde vive e, sobretudo, apesar de todas as
perseguições que tem vivido… desde sempre. Sinto um respeito e uma admiração
profundos por eles e não me canso de ouvir a história de novo, as partes boas e
as partes más.
Muitas vezes nessas
visitas somos confrontados com a lição “Nunca mais”. Este é, claro, um dos
propósitos do contar a história, o facto desta se repetir, o facto de termos
que aprender com o passado. Na verdade, o United States Holocaust Memorial Museum
dá um passo além da afirmação “Nunca mais”. Investe activamente no estudo, denúncia e prevenção do genocídio em todo o mundo. Foi este museu que me ajudou a
lidar com o meu sentimento de pequenez, impotência e insignificância e
ensinou-me que todos podemos fazer algo para prevenir o genocídio: aprender
mais e partilhar o que sabemos com amigos e familiares. Mas não refere a
Palestina.
E esta é uma lição maior
para mim, a verdadeira lição. Uma lição que mostra que o “Nunca mais” vai
acontecer – mais e mais e mais vezes – porque uma vez confrontados com ele
começamos a fazer cálculos. Calculamos as vantagens e desvantagens para nós
próprios, quem é que deveríamos apoiar abertamente, em que momentos seria
melhor permanecermos silenciosos e neutros, quando deveríamos assumir uma
postura mais reconciliatória. É precisamente isto que têm feito muitos
políticos e cidadãos comuns desde o início de mais um ataque israelita em Gaza,
um ataque que matou até agora muitos civis, que destruiu muitas casas, que
deixou marcas terríveis em muitos seres humanos. Como todos os ataques
anteriores. Quando ocorre uma tal carnificina (ainda por cima, levada a cabo
pelo exército regular de um estado democrático), a primeira coisa que temos que
fazer (nós, o Ocidente democrático e defensor dos direitos humanos) não é
discutir as origens do conflito, o que cada lado faz bem ou mal. A primeira
coisa que temos que fazer é condenar claramente, inequivocamente e em voz alta
o ataque e exigir o fim imediato da carnificina. Depois podemos e devemos
conversar.
Mas não é o que tem
acontecido. Aparentemente, não damos o mesmo valor a todas as vidas humanas e
assim, os países europeus representados no Concelho da Nações Unidas para os
Direitos Humanos podem abster-se (todos!) na votação para a abertura de um
inquérito sobre alegadas violações dos direitos humanos em Gaza; aparentemente,
algumas situações do género “nunca mais” são justificadas, e assim os nossos
governos podem continuar a apoiar e a vender armas ao governo israelita;
aparentemente, cada caso é uma caso e tudo depende, portanto, existem alguns
casos do género “nunca mais” em que nós cidadãos comuns podemos reservar o
direito de sermos mais “equilibrados” ou neutros.
Aparentemente, não
aprendemos com o que a História tem para nos ensinar, basicamente, que a
ocupação, a humilhação e o aterrorizar de um povo nunca mantiveram os autores
no poder para sempre e, sobretudo, nunca trouxeram paz.
Até Setembro.
Monday, 14 April 2014
O Atentado
Li O Atentado de Yasmina Khanda há uns anos. É a
história de um médico árabe, Amin Jaafari, que vive e trabalha em Tel Aviv.
Após um atentado suicida que abala a cidade, Jaafari é chamado para identificar
o corpo da sua mulher, Sihem, uma das vítimas do atentado. Pouco depois, é
confrontado com a informação que a bombista suicida tinha sido a própria Sihem.
Com a sua escrita bonita, sensível, incisiva, Khandra
conduz-nos através das várias fases do estado emocional de Jaafari e da sua
viagem à procura de respostas: desde a dor de ter perdido a sua mulher, à
incredulidade perante a informação que a mulher que amava tinha cometido tal
crime, à confusão e à raiva quando começa a aperceber-se que desconhecia uma
série de acções, pensamentos e sentimentos da sua mulher, à determinação de
encontrar uma explicação que pudesse fazer sentido e ao regresso a uma
realidade que tinha deixado há muito para trás.
Adorei o livro de Yasmina Khandra porque mostra que a
amizade, a tolerância, a compreensão e a coexistência são possíveis, são uma
realidade. E com esta realidade como ponto de partida, leva-nos lentamente,
seguindo a busca de Jaafari, àquela outra realidade, que existe ao lado da
primeira, comprometendo-a, questionando-a, todos os dias: aquela de milhões de
Palestinianos nos territórios ocupados ou no exílio; aquela da humilhação
diária, do desespero, da dor, do abuso, da morte, da revolta; aquela de um
poder arbitrário que faz nascer terroristas, bombistas suicidas, que são
venerados como heróis e mártires.
Khandra faz-nos questionar a primeira realidade. Será o
resultado de silêncios convenientes; da ignorância? Será falsa; incapaz de
sobreviver quando o silêncio é quebrado? Ou será o resultado de força e
determinação, do desejo informado, e por isso consciente, de paz?
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| Ziad Doueri, realizador do filme O Atentado. |
O filme O Atentado de Ziad Doueri abriu este ano a
Judaica – Mostra de Cinema e Cultura em Lisboa. Fui vê-lo sabendo que
raramente ou nunca os filmes são tão bons como os livros. A regra foi mais que
confirmada.
O que mais me impressionou foi a superficialidade com a qual
Doueri lidou com a história. Não foi capaz de dar qualquer profundidade aos
personagens, aos seus sentimentos e ideias, e mais que uma vez tive a sensação
que estava a ver uma telenovela. Além disso, Doueri optou por ignorar a
narrativa de Yasmina Khandra na descrição da busca de Jaafari nos territórios e
praticamente apresentou os Palestinianos como nada mais do que uma máfia.
Levantei-me assim que o filme acabou, perplexa também pelo facto do final ser
totalmente diferente daquele do livro. Mesmo antes de sair da sala, pude ouvir
o realizador explicar ao público que o final do livro não lhe era conveniente,
por isso optou por um final diferente. Porque é que não escreveu a sua história
em vez de arruinar a de Khandra?
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| Cena do filme O Atentado. |
Poucos dias mais tarde, vi uma entrevista de Douari e
apercebi-me que havia mais. Enquanto o ouvia falar da sua infância em Beirut,
dos seus pais liberais, dos tabús dos árabes no que diz respeito a Israel, da
estupidez que é o ramadão, percebi que Doueri, ao querer ser progressista e de
mente aberta e liberal, construiu a sua própria versão d´O Atentado com
a intenção de desafiar o ponto de vista árabe. Desafiá-lo ignorando-o, fazendo
dele uma caricatura. Mais uma vez, porque é que não escreveu a sua história em
vez de se aproveitar do best seller de Khandra?
A coexistência, a reconciliação, a construção de um futuro
comum não é algo fácil. È o que nos diz Yasmina Khandra. É o que sinto quando
tenho que falar ao meu filho do passado e presente greco-turco. É o que me
atormentou enquanto lia The Antelope's Strategy, Living in Rwanda after the Genocide de Jean Hatzfeld. Podem ser
precisos alguns silêncios, mas como resultado de conhecimento e de compreensão
e não de ignorância. É preciso força, a capacidade de perdoar sem esquecer. E
preciso abertura de espírito, a capacidade de ouvir e pesar os argumentos da
outra parte. Não é fácil; é muito difícil e é complexo. É preciso começar por
reconhecer precisamente este facto; e respeitá-lo.
Monday, 3 March 2014
Ser "apenas"
É curioso que a
primeira coisa que li sobre os protestos na Venezuela não foi uma notícia num
jornal, mas a carta aberta da pianista Gabriela Montero ao Gustavo Dudamel. Nessa
carta dizia:
“Mas não posso permanecer em silêncio
por mais tempo. Ontem, quando dezenas de milhares de manifestantes pacíficos
marcharam em toda a Venezuela para expressar a sua frustração, dor e desespero
perante o total colapso cívico, moral, físico, económico e humano da Venezuela,
e enquanto as milícias armadas pelo governo, a Guarda Nacional e a policia
atacavam, matavam, feriam, prendiam e faziam desaparecer muitas vítimas
inocentes, Gustavo e Christian Vazquez dirigiam a orquestra num concerto que
celebrava o Dia da Juventude e os 39 anos da criação do El Sistema. Estavam a
fazer um CONCERTO enquanto o seu povo estava a ser massacrado.”
Foi esta carta que me fez procurar mais
notícias sobre o que se estava a passar nesse país. Alguns dias mais tarde, um
outro músico venezuelano, Carlos Izcaray, ex-aluno no El Sistema, fazia um
apelo online:
“Através deste meio, gostaria de vos
chamar todos para nos juntarmos e, com instrumentos na mão, repudiarmos e demonstrarmos
fortemente contra a excessiva violência e as violações dos direitos humanos que
estão neste momento a ser perpetuados pelo governo venezuelano contra os seus
próprios cidadãos. Prestemos a nossa homenagem de apoio àqueles que deram a sua
vida em defesa da nossa Liberdade. Este direito básico de todas as pessoas
livres foi agora inequivocamente sequestrado por um governo despótico e
tirânico, que deseja governar através do medo, da intimidação e da
violência.”
Estes dois músicos escolheram viver fora
da Venezuela, provavelmente por razões profissionais e talvez também políticas.
Gustavo Dudamel vive e trabalha também no estrangeiro, mas mantém a sua ligação
ao El Sistema e através deste – ou por causa deste – ao governo do seu país.
Assim, li as declarações apaixonadas de Montero e Izcaray considerando que a
posição a partir da qual exprimiam as suas opiniões não precisava de ser tão
diplomática como a de Dudamel, que deve considerar, para além das suas próprias
opiniões, o contexto em que actua o El Sistema e a sua dependência do governo
venezuelano. Devo confessar, no entanto, que não estava preparada para a sua
decepcionante afirmação “diplomática” ao LA Times:
“Sou músico. Se fosse político, estaria a agir pelo
meu próprio interesse. Mas sou artista e um artista deve agir por todos.”
Dudamel espera (e aceita) que os
políticos ajam pelo seu próprio interesse? E os artistas por ‘todos’? Como é
que agem por todos? Quem são estes ‘todos’? Os políticos que agem pelo seu
próprio interesse estão incluídos?
Alguns dias mais tarde, surgiu uma outra
controvérsia, desta vez em Nova Iorque, quando artistas, activistas, professores e
estudantes associados ao Occupy Museums, GULF Labor e outros grupos fizeram um protesto no Guggenheim Museum a propósito das condições laborais em Saadiyat Island nos
Emirados Árabes Unidos, onde o Guggenheim está a construir o seu franchise.
Duas coisas se destacaram para mim enquanto acompanhava o desenvolvimento desta
notícia. Primeiro, o facto do Guggenheim não ter escondido a cabeça na areia,
permanecendo silencioso e esperando que tudo acalmasse. Ao contrário do que é
prática comum aqui entre políticos e instituições culturais, que se comportam
como se fossem intocáveis e imunes à crítica dos cidadãos, o director do
Guggenheim, Richard Armstrong, emitiu os seus comunicados, tornou clara a
posição da instituição e não evitou nenhuma pergunta (mais leituras no final
deste post). As instituições culturais não estão (não deviam estar)
colocadas algures acima dos cidadãos comuns, fingindo estar a operar num vácuo
confortável e protector, livres de responsabilidades sociais.
A outra coisa que se destacou para mim nesta controvérsia foi descobrir que
a arquitecta Zaha Hadid – que desenhou um dos estádios no Qatar – sente que
“não é da minha responsabilidade como arquitecta olhar para isto [“isto” sendo
a morte de centenas de trabalhadores imigrantes no local de construção]… Não
posso fazer nada porque não tenho o poder para fazer nada.” (ler aqui)
Pensei na Ucrânia. Em
Dezembro passado, o meu amigo e colega Ihor Poshyvailo escrevia neste blog:
“(…)o ICOM Ucrânia e uma série de museus ucranianos emitiam declarações
públicas condenando a inesperada repressão de manifestantes pacíficos e a
retirada do pacto de associação à União Europeia. O Conselho de Directores dos
Museus de Lviv coordenou as declarações de protesto de vários museus de Lviv.
Um dos mais antigos museus etnográficos da Europa Oriental-Central, o Museu de
Etnografia e Artesanato de Lviv, exibiu um estandarte na sua varanda que dizia
“Apoiamos as exigências do Euromaidan”. Em Kiev, uma dúzia de museus fizeram
declarações públicas, incluindo o Museu da História de Kiev que é gerido pela
Câmara e tutelado pelo seu Presidente, cuja sede foi ocupada pelos
manifestantes. O Museu-Memorial Pavlo Tychyna (perto de Maidan) abriu as suas
portas aos manifestantes e ofereceu-lhes chá, um espaço para descansarem e
programas culturais. (…)”
Provavelmente, nunca
vamos saber os nomes das pessoas que tomaram estas decisões e agiram naqueles
momentos. Pessoas que não são “apenas um músico” ou “apenas uma arquitecta”,
pessoas que não são “apenas funcionários públicos”, mas que são, em primeiro
lugar e sobretudo, cidadãos. Foram cidadãos de um estado autoritário, que
arriscaram os seus trabalhos, a sua segurança pessoal, talvez as suas vidas,
talvez o financiamento público se as coisas tivessem o resultado contrário –
mas provavelmente não os honorários de Zaha Hadid. Foram cidadãos “anónimos”
que sentiram que tinham o poder e a responsabilidade de fazer algo. E
fizeram-no. Fizeram o que podiam.
Dudamel contradiz-se de
alguma forma quando afirma ao LA Times “(…) no El Sistema criamos não apenas
músicos mas cidadãos melhores”. Se é isto que o El Sistema faz, então as
pessoas mais velhas deveriam mostrar a esses jovens cidadãos que, quando chega
o momento, não se devem esconder por trás da afirmação “Sou apenas um músico”.
Mais neste blog
Mais leituras:
Venezuelan conductor Gustavo Dudamel: 'An artist should act for everybody', The Guardian, 21 Fev 2014
Sistema in the crossfire, by Jonathan Andrew Govias
Guggenheim Responds to Saturday’s G.U.L.F. Protest Action, Hyperallergic, 24 Fev 2014
G.U.L.F. Responds to Guggenheim, Calls on Museum to Open Its Doors to Free Public Assembly, Hyperallergic, 24 Fev 2014
Guggenheim Responds: Guards Paid Competitively, Gugg Abu Dhabi Not Under Construction, No Public Forum, Hyperallergic, 25 Fev 2014
Monday, 20 January 2014
A verdadeira medida
![]() |
| Tomada de posse de Bill De Blasio (imagem retirada do portal Hyperallergic) |
Bill
de Blasio é o 109º Presidente da Câmara de Nova Iorque. É casado com a
activista e poetisa Chirlane McCray. Tomou posse no passado dia 1 de Janeiro.
Dois dias antes, o New York Times (NYT) publicou um artigo intitulado A new mayor brings hope for a populist arts revival.
Fiquei curiosa. O jornal referia que o novo presidente tem uma marca populista
e que, considerando os seus hábitos culturais e artísticos, pode esperar-se que
o seu interesse recaia numa parte da vida cultural da cidade bastante diferente
daquela que mais atraía o seu antecessor, Michael Bloomberg. Mais
concretamente, o NYT dizia que o novo presidente nunca foi visto no Lincoln
Center e que a sua família raramente visita os grandes museus de arte da
cidade. Pelo contrário, são muitas vezes vistos em pequenas galerias e museus
nos bairros. Chirlane McCray frequenta sessões de leitura, foi membro do júri
de concursos de poesia e promoveu, no dia da tomada de posse do seu marido, a
leitura de um poema de um jovem poeta. A comissão de transição de De Blasio (ou
seja, as pessoas que o ajudarão a escolher a sua equipa) inclui peritos ligados
ao Public Theatre, ao Brooklyn Museum, à Brooklyn Academy of Music, assim como
o director do Studio Museum in Harlem.
Poucos dias depois, o portal Hyperallergic publicava um
artigo de Mostafa Heddaya, De Blasio and the mythology of a new arts populism.
Heddaya comentava as considerações do NYT, mas concluía que, no final de
contas, os interesses culturais do novo presidente e da sua esposa são pouco
relevantes, tal como o eram os do seu antecessor. Heddaya partilha com outros
comentadores, que refere no seu texto, a preocupação pela forma como o novo
executivo poderá vir a apoiar as artes, de forma construtiva e justa, e,
também, como poderá conseguir mecenato para compensar o apoio que o anterior
presidente Bloomberg garantia a certas instituições culturais da cidade
investindo os seus próprios milhões.
Problemas
de financiamento e problemas permanentes com a falta de políticas culturais
construtivas e justas. Nova Iorque não parece estar a enfrentar uma situação
muito diferente daquela de outras cidades. No entanto, e para além desta
discussão, fiquei a pensar em dois outros pontos: no facto dos gostos do novo
presidente serem considerados “populistas” pelo NYT (haverá aqui um significado
da palavra que eu desconheça?); mas, sobretudo, o facto destes mesmos gostos e
hábitos serem um assunto discutido publicamente, nos jornais e nos blogs.
Conheço pouco ou nada sobre os hábitos culturais dos homens e das mulheres que
nos governam. Raramente este é um assunto entre nós, antes ou depois das
eleições. E raramente me cruzei com eles, com os que nos governam, quer nos
sítios onde trabalhei quer nos espaços que frequento, a não ser em momentos em
que a sua presença era exigida pelo protocolo. (Há algumas ilustres excepções,
poucas, as mesmas que compram bilhete ao invés de reclamarem convites.)
Fiquei com isto na cabeça, fiquei a pensar se importa saber
que livros é que os nossos políticos lêem, que peças de teatro têm visto, que
música ouvem, quais foram os seus filmes preferidos em 2013. Um outro
acontecimento nos EUA lembrou-me novamente desta questão.
![]() |
| Imagem: Witness Against Torture (retirada do Flickr) |
No dia 11 de Janeiro, dia do 12º aniversário da abertura de
Guantánamo, activistas do grupo Witness Against Torture realizaram um protesto no National Museum of American History em
Washington (ver aqui). Usando os característicos fatos laranja e capuzes pretos, ficaram em posição
de detenção perto da entrada do museu. Outros fizeram um discurso, pedindo a
Barak Obama para libertar os restantes 155 presos e fechar o campo. Mais tarde,
dirigiram-se à sala da exposição “The price of freedom: Americans at war”,
assumiram as mesmas posições de detenção e exibiram cartazes que diziam “Are
these the price of freedom?” ou “Civil liberty?”.
Vi na escolha do local um simbolismo mais favorável para os
museus do que aquele que os organizadores quiseram atribuir. “Viemos aqui hoje
porque queremos ver Guantánamo relegado a um museu”,
escreveram no comunicado de imprensa; mas diziam também: “(…) queremos vê-lo
encerrado e condenado, mas também entendido como um exemplo de onde o medo, o
ódio e a violência nos podem levar.”
Tinha sido no livro de Tzvetan Todorov La
peur des barbares: Au-delà du choc des civilisations que li pela primeira vez
sobre o Torture Memo, um documento
redigido em 2002 pelo gabinete jurídico do Ministério da Justiça dos EUA, que
serviu para apresentar uma “nova definição” do que constitui tortura e defender
a legalidade dos actos cometidos pelo governo americano. Uma linguagem muito
bem trabalhada por quem sabe usar (ou abusar?) das palavras. Um documento
público chocante, que serviu para justificar actos desumanos, humilhantes,
vergonhosos (por isso pensei que a escolha do National Museum of American
History tinha um significado mais profundo do que “ver Guantánamo ‘relegado’ a
um museu”).
Fiquei novamente a pensar que livros lêem,
que peças de teatro vêem, que música ouvem, quais os filmes preferidos desses
políticos, juristas, agentes de segurança, economistas e outros que,
aproveitando-se e alimentando os nossos medos, encontram justificações para a
barbárie e querem tornar-nos seus cúmplices. Desde o torturar presos que nunca
foram formalmente acusados, ao promover referendos sobre direitos fundamentais,
cortar pensões que já eram de miséria, aumentar o número de alunos por turma e
diminuir o número de professores e matérias, pôr em risco o bom funcionamento das
instituições culturais e comprometer o acesso às mesmas, os direitos humanos
são todos os dias violados, ‘por uma boa causa’, nos nossos países
‘civilizados’.
![]() |
| Distribuição de roupa e alimentos, Portugal, Natal 2013 (Foto: Bruno Simões Castanheira para o Projecto Troika) |
Martin Luther Kink disse que “A verdadeira
medida de um homem não é a posição que mantém em momentos de conforto e
conveniência, mas a posição que mantém em momentos de desafio e controvérsia”.
Talvez não importa mesmo saber quais os hábitos e gostos culturais de quem nos governa e de quem os apoia. Os livros, o teatro,
a música não têm super-poderes. É preciso o homem ter força e consciência para
conseguir usar o que neles encontrou contra a sua própria, sempre subjacente,
barbárie.
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