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Wednesday, 7 August 2019

Por nós e pelos nossos amigos

Da esquerda para a direita: o poeta Odysseas Elytis, o compositor Manos Hadjidakis, o encenador Karolos Koun, Theatro Technis 1957, ensaios de "O Círculo de Giz Caucasiano" de Bertolt Brecht © Manos Hadjudakis Archive


A notícia da demissão de Warren Kanders do Conselho Directivo do Whitney Museum deixou-me muito satisfeita. Depois de meses de protestos, o proprietário da Safariland (uma empresa que fabrica “produtos para a aplicação da lei" - noutras palavras, armas, incluindo o gás lacrimogéneo usado contra os imigrantes na fronteira dos EUA) foi forçado a sair, já que muitas pessoas sentiam que ganhar dinheiro com a produção de armas e depois investi-lo filantropicamente na cultura e nas artes é, no mínimo, um oxímoro.

Saturday, 23 March 2019

O grande privilégio da vida pública

Imagem do cartaz da peça "O casaco", apresentada em 2018 pelo Grupo de Teatro da Nova.

O recente episódio de blackface numa escola de Matosinhos e a forma como foi comentado são mais um indicador da falta preocupante de espaços de encontro (não virtuais) para o diálogo. Muitos não perceberam o porquê das críticas de racismo a propósito de uma iniciativa que pretendia celebrar a diversidade cultural (de “países” como África, China e Brasil) e acusaram os próprios críticos de racismo e promoção do ódio. A troca de comentários na página de Facebook Blackface Portugal é reveladora da incompreensão, e mesmo da ignorância, em torno desta matéria. Mas, podemos dizer que ficámos chocados ou surpreendidos? Não será essa uma realidade conhecida que, por muito que nos apeteça dizer “já deviam saber”, não lhe podemos virar as costas? Não podemos mesmo, porque continua a influenciar a educação, o pensamento e as noções que grande parte da nossa sociedade tem sobre esta matéria e várias outras. São estas noções que acabam por condicionar a liberdade de vários cidadãos e de perpetuar todos os tipos de racismo e, em certos casos, também a violência.

Sunday, 2 September 2018

Quem é bem-vindo à sua casa e à sua mesa?


À Lambrina e ao Sam, à Eleni e ao Nikos
Aos bons amigos e às boas discussões



Em Junho passado, Sarah Huckabee Sanders, a secretária de imprensa da Casa Branca, foi convidada a sair do restaurante Red Hen. O pedido foi da dona do restaurante.

Em meados de Agosto, a notícia que Marine Le Pen, ex-candidata à presidência de França e líder do partido político Rassemblement Nacional, tinha sido convidada para participar no Web Summit em Lisboa provocou vários protestos públicos. O convite acabou por ser retirado.

Ambos os incidentes levantaram questões relativas à liberdade de expressão; se é possível combater visões políticas extremistas e abordar as raízes da subida da extrema-direita proibindo ou ignorando certos pontos de vista; e se, ao excluirmos algumas pessoas, não nos tornamos como elas.

Monday, 11 June 2018

Discutindo a descolonização dos museus em Portugal

Foto: Maria Vlachou

Adoro museus. Adoro-os pelo que são; adoro-os pelo que não são, mas podem ser; adoro-os pelo seu potencial. Adoro-os especialmente devido ao trabalho desenvolvido por vários colegas em todo o mundo para que os museus se adaptem a novas realidades, permaneçam ou se tornem relevantes para as pessoas e até se reinventem. Ultimamente, adoro-os particularmente pelas controvérsias que causam ou enfrentam, empurrando o nosso pensamento e prática para a frente.

Sunday, 20 May 2018

Apropriação cultural: menos guardiões, mais pensadores críticos

"La Japonaise" de Claude Monet, Museum of Fine Arts Boston. (Imagem retirada de http://japaneseamericaninboston.blogspot.com)
Para a Nandia

O meu primeiro contacto com o conceito de apropriação cultural aconteceu em Julho de 2015 devido às “Kimono Wednesdays” no Museum of Fine Arts Boston (MFA). Por ocasião da exibição de “La Japonaise” de Claude Monet (uma pintura da esposa do artista, rodeada de leques, usando uma peruca loira e um quimono vermelho), os visitantes eram convidados a vestir um quimono semelhante ao mostrado no quadro e a partilhar as suas fotos nas redes sociais. Segundo o museu, essa era uma maneira para os visitantes se envolverem com a pintura. Para algumas pessoas, no entanto, a actividade carecia de qualquer contexto em relação ao quimono, tornando-se apenas “divertida”; outros criticaram a iniciativa por estar a reforçar estereótipos e exotizar os asiáticos-americanos; para outros, era racismo flagrante (leiam o artigo de Seph Rodney).

Wednesday, 25 April 2018

O Museu das (minhas) Descobertas

Exposição "Retornar - Traços de Memória", Padrão dos Descobrimentos, 2015 (Foto: Maria Vlahou)

Sou portuguesa por adopção. Quando cheguei a Portugal, em 1995, a única coisa que sabia sobre a história do país tinha a ver com os Descobrimentos (dos caminhos marítimos e das especiarias, ensinada no meu país no 7º ou 8º ano). O resto fui/vou “descobrindo” ao longo dos anos (mesmo no que diz respeito aos Descobrimentos e para além dos caminhos marítimos e das especiarias). A história que me ensinaram na escola era, como é habitual, apenas uma parte.

Tuesday, 31 October 2017

A pessoa que precisamos de ouvir

Grada Kilomba, The Kosmos 2 (Detail) © Esra Rotthoff, courtesy of Maxim Gorki Theatre. (imagem retirada do website Contemporary And)

Há umas semanas, apareceu no Público um artigo intitulado Grada Kilomba é a artista que Portugal precisa de ouvir
. Até lá, nunca tinha ouvido falar de Grada Kilomba. Na semana que passou, foram inauguradas duas exposições da artista em Lisboa, aparentemente as primeiras na sua terra natal, apesar de Grada Kilomba já ter uma carreira intensa no estrangeiro. Um facto “perversamente coerente”, como dizia o Público, porque “entrar no trabalho de Grada Kilomba – nas suas instalações de vídeo e som, nas suas performances, nas suas leituras encenadas, nos seus textos – é ter de lidar com a história violenta do colonialismo e pós-colonialismo, história na qual Portugal está profundamente entranhado mas que teima em fingir que não é nada com ele.”

Friday, 10 February 2017

E se fosse aqui?

A Harvard Books criou uma secção especial nas suas prateleiras em resposta à referência de uma porta-voz do Donald Trump a um massacre que nunca aconteceu (imagem retirada do Instagram da Harvard Books)
Devo admitir que é com grande emoção e admiração que vejo as organizações culturais americanas a tomar posição e a criticar as políticas de seu Presidente. Alguns reagem de forma mais suave, outros assumem um tom bastante mais afirmativo e franco (vejam aqui). É uma grande lição para todos nós e, muito provavelmente, a prova de que as organizações culturais são tudo menos neutras, são, na verdade, inevitavelmente políticas.

Sunday, 13 November 2016

Silêncios diplomáticos

A Primeira-Ministra da Escócia, Nicola Sturgeon.

À medida que a Web Summit chegava ao fim em Lisboa, um dia depois da divulgação dos resultados das eleições norte-americanas, a Câmara Municipal de Lisboa colocou alguns outdoors onde se lia: "No mundo livre ainda pode encontrar uma cidade para viver, investir e construir o seu futuro, construindo pontes, não muros. Chama-se Lisboa". Os outdoors foram classificados como "anti-Trump" pela oposição, que disse que preferia pensar “que se trata de uma interpretação abusiva e que a intenção de Medina [presidente da Câmara] não foi a de desrespeitar a escolha democrática do povo americano, que não foi uma demonstração de arrogância ideológica, que não foi uma precipitação oportunista em resultado do deslumbramento pela atenção internacional". Resumindo, a oposição pediu explicações (leia
artigo).

Monday, 3 October 2016

Justin Bieber e o combate ao extremismo islâmico

O Presidente iraniano, Hassan Rouhani, e o Primeiro-Ministro italiano, Matteo Renzi (Foto: Alessandro Bianchi / Reuters, imagem retirada do jornal The Atlantic)
Um recente artigo do NPR, intitulado Italy's 'Cultural Allowance' For Teens Aims To Educate, Counter Extremism (O subsídio de cultura para os adolescentes na Itália pretende educar, combater o extremismo) demonstra a confusão que existe, a vários níveis e meios, em relação ao acesso à cultura e à cultura como panaceia para vários males deste mundo.

O título não é um exagero do jornal. Foi o próprio Primeiro-Ministro italiano que, ao anunciar este subsídio de cultura (€500 para cada jovem com 18 anos gastar em produtos culturais), pouco depois dos ataques terroristas em Paris, em Novembro 2015, afirmou: “Destroem estátuas, nós protegemo-las. Queimam livros, somos o país das bibliotecas. Concebem o terror, respondemos com cultura."

Tuesday, 23 August 2016

Escolhas

Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro, 2016 (imagem retirada do You Tube)

Tendo seguido a discussão acalorada sobre o uso de fatos de corpo inteiro por atletas muçulmanas nos Jogos Olímpicos, bem como sobre a proibição do burkini em algumas praias francesas, penso que alguns factos são - deliberadamente ou não - deixados de fora da equação.

Tuesday, 19 April 2016

European Culture Forum 2016

Andrej Isakovic / AFP / Getty Images
Breve intervenção hoje no painel "Can culture help to overcome the fragmentation of society?". Ler aqui

Sunday, 13 December 2015

Conseguirá a cultura?


Um artigo submetido à Annual Conference on Cultural Diplomacy, que acaba hoje em Berlim. Uma compilação de posts antigos e alguns pensamentos novos. Ler

Monday, 15 December 2014

A dimensão educativa

Em Outubro passado, durante o intervalo da apresentação do “Requiem” de Brahms pela Saint Louis Symphony, vinte e três manifestantes sentados em várias partes do auditório levantaram-se e cantaram "Requiem para Mike Brown" (o jovem negro desarmado que foi baleado por um polícia em Ferguson). Algumas pessoas ficaram chocadas, outras aplaudiram, o mesmo aconteceu com os músicos no palco. Ninguém interrompeu os manifestantes, ninguém chamou a polícia. Talvez porque o que aconteceu fez sentido, naquele lugar, naquele tempo, naquele contexto específico. Sendo que a música era parte integrante dos protesto em Ferguson, esta, de acordo com um dos organizadores, foi uma tentativa de "falar com um segmento da população que tem o luxo de estar confortável. Temos que fazer uma escolha de apenas ficarmos na nossa zona de conforto ou falarmos de algo que é importante. Não está certo simplesmente ignorá-lo" (leia o artigo completo).


As recentes mortes de negros pela polícia em diferentes cidades dos Estados Unidos provocaram uma intensa reflexão entre as instituições culturais no país sobre o seu papel. Num recente comunicado de bloggers de museus e de outros profissionais da cultura em relação a Ferguson e outros eventos relacionados, lê-se:

"Os recentes acontecimentos, desde Ferguson a Cleveland e Nova Iorque, criaram um momento de transição. As coisas precisam de mudar. Novas leis e políticas irão ajudar, mas qualquer movimento em direcção a uma maior compreensão e comunicação cultural e racial deve ser apoiado pela infra-estrutura cultural e educativa do nosso país. Os museus fazem parte desta rede educativa e cultural. Qual deve ser o nosso papel (papéis)? (...) Onde é que os museus se encaixam? Alguns poderiam dizer que só os museus com colecções específicas afro-americanas têm um papel, ou talvez apenas museus situados nas comunidades onde estes eventos ocorreram. Como mediadores culturais, todos os museus devem comprometer-se em identificar de que forma podem relacionar-se com questões contemporâneas relevantes, independentemente da sua colecção, foco ou missão. (...) Até agora, apenas a Association of African American Museums emitiu uma declaração formal sobre as questões mais amplas relacionadas com Ferguson, Cleveland e Staten Island. Acreditamos que o silêncio de outros museus envia uma mensagem de que estas questões são uma preocupação apenas para os afro-americanos e os museus afro-americanos. Sabemos que este não é o caso."

Em Agosto passado, uma séria controvérsia envolveu a decisão do Tricycle Theatre de não receber o UK Jewish Film Festival, pela primeira vez em oito anos. O motivo foi que o festival tinha o apoio da Embaixada de Israel em Londres e, dado que naquele momento estava em desenvolvimento a ofensiva em Gaza, o Conselho Consultivo considerou que “não seria apropriado aceitar o apoio financeiro de qualquer agência governamental envolvida". O Teatro ofereceu-se para fornecer financiamento alternativo, mas o Festival não aceitou (leia o artigo completo). O conflito em Gaza foi também a razão pela qual artistas participantes na Bienal de São Paulo este ano apelaram aos organizadores (apoiados posteriormente pelos curadores da Bienal) para devolver o financiamento do Consulado Israelita. As negociações mais tarde resultaram na remoção do logótipo do Consulado dos principais patrocinadores e na sua associação apenas aos artistas israelitas que receberam este apoio financeiro específico (leia o relatório completo).

Podemos concordar ou discordar com as decisões tomadas por estas organizações. Mas o questionamento em relação ao papel das instituições culturais na sociedade de hoje, especialmente o seu papel educativo, deve ser permanente, constante. Tal como Rebecca Herz, acredito que estas não devem agir independentemente da sua missão (como é sugerido no acima referido comunicado dos bloggers de museus norte-americanos), mas qualquer colecção de museu ou temporada de teatro / orquestra / festival pode ter uma ligação à vida contemporânea e ajudar a moldar o tipo de sociedade que precisamos ou sonhamos. Como o trabalho de muitos artistas contemporâneos é uma resposta a assuntos da vida contemporânea, é comum encontrarmos este género de ligações, assim como uma fértil reflexão à volta deles, na programação de teatros, companhias e galerias (o Teatro Maria Matos, o Programa Gulbenkian Próximo Futuro ou o alkantara festival são os primeiros que me ocorrem entre as entidades cuja programação acompanho em Portugal, mas há outros). Os museus ou as orquestras que apresentam obras  que não são contemporâneas não estão muito habituados a procurar ligações entre as suas colecções ou concertos e a vida contemporânea ou, se o fazem, não se torna perceptível para mim. Muitas vezes pergunto-me “Qual o propósito desta exposição ou deste concerto?”, “Porque é relevante?”, “Como é que isto se relaciona com a sociedade portuguesa contemporânea e com a sua diversidade?” (penso mais uma vez no trabalho inspirador da Orchestra of the Age of the Enlightenment...)

Isto leva-me mais uma vez para uma questão recorrente neste blog: “accountability” e responsabilidade. Não vejo as instituições culturais como ilhas, distantes do que está a acontecer no seu redor. Acredito que devem tornar claro para as pessoas de que forma o que têm a dizer ou mostrar pode ser relevante para elas; devem partilhar publicamente a sua visão e objectivos e assumir a responsabilidade pelo seu cumprimento; devem ser um fórum público, onde as pessoas podem encontrar conforto, mas também o desconforto necessário. Têm claramente um papel educativo (no sentido de fornecer o que os gregos antigos chamavam "paideia"), um papel que eu não faria necessariamente depender do que acontece (ou não acontece) na escola ou em casa e um papel que não depende, em primeiro lugar, do serviço educativo, mas sim, do/a director/a.

Dois directores de museus e um curador estarão connosco na próxima terça-feira, 16 de Dezembro, na conferência da Fundação Gulbenkian "Que lugares para a educação? A dimensão educativa de instituições culturais" (mais informações). Charles Esche (Director do Van Abbemuseum e um dos curadores da Bienal de São Paulo deste ano), David Fleming (Director dos National Museums Liverpool e Presidente da Federação Internacional de Museus de Direitos Humanos) e Delfim Sardo (Curador, Professor Universitário e Ensaísta) irão desafiar-nos a pensar sobre as nossas responsabilidades e práticas no actual contexto social e político.


Nota: Para quem não puder estar em Lisboa, a conferência será transmitida em livestreaming. Há uma série de artigos, posts, textos de opinião e entrevistas na página da conferência (em “Oradores”, “+Reflexão” e “+Info”).


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Monday, 6 October 2014

Preservar para quê?

Imperial War Museum

No meu segundo ano em Londres, em 1994, da janela da minha cozinha via a cúpula do Imperial War Museum (IWM). Era uma vista bonita de um museu bonito. Para a surpresa de muitas pessoas, este é o meu museu favorito em Londres.

No caminho para o primeiro Congresso de Museologia Militar, estava a pensar que nunca considerei o Imperial War Museum, que ia fazer uma apresentação nesse dia, um museu militar. Para mim, o IWM é um museu de pessoas (não deveriam todos sê-lo?). Um museu de militares e de civis, de homens e de mulheres, de adultos e de crianças, de seres humanos e de animais (estou a lembrar-me de algumas das exposições que lá vi). É muito mais do que datas, batalhas, tácticas, tipos de armas e tratados. É um museu que conta as histórias de pessoas que foram afectadas pela guerra.


Postal promocional das novas galerias da Grande Guerra no Imperial War Museum

A apresentação do IWM estava incluída num painel que iria debater os Museus Militares e o Centenário da Grande Guerra. A primeira oradora foi Maria Fernanda Rollo, professora universitária e coordenadora do projecto Portugal 1914. Trata-se de um portal na Internet com conteúdos muito ricos, recolhidos com a colaboração de várias instituições e profissionais de vários meios, assim como com a colaboração do público em geral. O objectivo é a promoção de uma cidadania activa e empenhada na promoção da defesa, preservação e salvaguarda de um património colectivo, assim como sensibilizar a população em geral para a importância da memória e da sua preservação. “Este é um museu virtual, que conta histórias, onde aprendemos com as afectividades. É um museu vivo”, disse Maria Fernanda Rollo.


Postal promocional das novas galerias da Grande Guerra no Imperial War Museum

Sorri quando ouvi esta afirmação. Porque, implicitamente, Maria Fernanda Rollo estava a revelar a sua percepção dos museus: espaços mortos, espaços onde não se contam histórias, espaços onde a afectividade não tem lugar. Esta é uma percepção amplamente partilhada por várias pessoas na nossa sociedade a vários níveis (lembram-se porque é que a Paula Rego quis que o museu que alberga as suas obras em Cascais se chamasse “Casa das Histórias” e não “museu”?). Mas sorri também ao ouvir a minha amiga Gina Koutsika fazer a sua animada e estimulante apresentação sobre as iniciativas do IWM para a comemoração do centenário. A Gina mostrou-nos como um museu pode (e deve) ser vivo, cheio de histórias e de sentimentos, próximo das comunidades que pretende servir. Este não é um museu no mundo virtual, é real, existe.


Postal promocional das novas galerias da Grande Guerra no Imperial War Museum

Quando o debate começou, lembrei-me de uma outra visita, há quase 10 anos, ao In Flanders Fields Museum (Ypres, Bélgica). Mais um museu notável, na cidade que esteve no caminho do exército alemão e que ficou completamente destruída durante a guerra. Um museu cheio de histórias humanas, onde o visitante pode assumir a identidade de um dos habitantes da cidade e seguir a sua história pessoal durante a guerra. O que mais me marcou naquela visita, e que não voltei a encontrar em nenhum outro museu, foi a forma simples como se mostrou que um objecto pode ser muitas histórias. Através da exposição de um monte de lenços brancos, o museu falava-nos dos múltiplos usos daquele objecto: podia ser um sinal de rendição; ou uma forma de alguém se proteger dos gases letais tapando o seu nariz; ou algo para tapar os olhos de quem enfrentava o esquadrão da morte.


In Flanders Fields Museum

Lembrei-me ainda do Musée de la Grande Guerre du Pays de Meaux (França) e do seu maravilhoso projecto “Léon Vivien”. Os bons museus encontram formas imaginativas de usar as suas colecções, dando-lhes vida e criando ligações com as pessoas. Léon Vivien é um personagem fictício, um soldado, cuja história é contada numa página especial no Facebook através de vários objectos, seguida e comentada por milhares de pessoas. Os bons museus sabem sê-lo tanto no mundo real como no mundo virtual.



A questão da memória surgiu no debate quando o Tenente-General Mário de Oliveira Cardoso, outro dos oradores neste painel, citou o filósofo, ensaísta e escritor George Santayana: “Quem não se lembra do passado está condenado a repeti-lo”. Lembrar o passado, preservar o conhecimento histórico. Sim, é este o objectivo de várias instituições, incluindo o dos museus. Mas porquê? Com que propósito? Estará a ser alcançado? Estarão essas histórias a ser preservadas e lembradas simplesmente para se criar um repositório ou porque podem criar ligações ao presente, a vidas humanas actuais, não apenas as nossas mas as dos outros também? Poderão as histórias preservadas e lembradas ajudar-me a criar uma ligação ao Outro, fazer a sua história minha?

Na Europa, não faltam museus militares, de história, da primeira e segunda guerra, do holocausto. Todos têm como objectivo preservar o passado histórico e mostrar a importância da memória. “Nunca mais” é o lema que encontramos em muitos deles. Estarão estes museus conscientes que recentemente, no seguimento das atrocidades cometidas em Gaza, voltou a ser ouvido em algumas cidades europeias o grito “Morte aos Judeus”? Terão reagido? Terão aproveitado a oportunidade para dar bom uso às suas colecções e mostrar para que serve preservar o passado histórico e ter memória? Não é precisamente num momento como este que um museu deveria intervir publicamente e contribuir para esclarecer e formar a opinião pública? Caso, contrário, preservar para quê?


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Entrevista com Ricardo Brodsky, director do Museo de la Memoria (Santiago de Chile)

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Monday, 22 September 2014

Gay, preto, deficiente... podemos parar de falar nisso?

Gay Jazz Festival, Filadélfia (Foto: Bruno Bollaert, retirada do Examiner)

Em Maio passado, o magazine Philly anunciou que ia ser feita História com a organização do primeiro Gay Jazz Festival nos EUA. O anúncio intrigou-me. Pareceu-me que a História estava provavelmente a dar um passo atrás. Visitei o website do William Way LGBT (Lesbian-Gay-Bisexual-Transgender) Community Center que ia receber este evento – e estou a citar - “revolucionário” e procurei mais informações. Lia-se: “Filadélfia tem uma tradição como uma grande cidade da música. Somos também uma cidade que afirma as vidas das pessoas LGBT. A organização do primeiro LGBT jazz festival na América do Norte oferece a oportunidade de apresentarmos a rica e vibrante cultura da nossa cidade. (…) O festival marcará o fim do ciclo anual de música do William Way LGBT Community Center e irá destacar a intersecção entre a orientação sexual e a identidade de género dentro da comunidade do jazz.”

Acredito que um princípio importante no encontro com outras pessoas, outras culturas, é ouvir primeiro as próprias pessoas, tentar conhecê-las e entendê-las melhor; os seus pensamentos, as suas experiências de vida, as suas sensibilidades, as suas necessidades e convicções. Assim, estou certa que o Centro deve ter tido uma ideia muito clara sobre a necessidade de um gay jazz festival, mas mesmo assim, mesmo depois de consultar o seu site, não era claro para mim porque é que uma iniciativa como esta havia de ser considerada “visionária”. Porque é que músicos de jazz gay precisam de um gay jazz festival para apresentarem o seu trabalho? Isto ajudaria a sensibilização sobre os direitos das pessoas LGBT? Seria porque não lhes é normalmente dado espaço nos festivais de jazz organizados nos EUA e no estrangeiro? Porque é que o objectivo de um festival de música deveria ser destacar “a intersecção entre a orientação sexual e a identidade de género dentro da comunidade do jazz” (e como é que isto seria feito?) e não simplesmente os artistas e a sua música?

Faço muitas vezes estas mesmas perguntas em relação aos artistas com deficiência. As pessoas que com eles trabalham e as associações que os representam dizem que normalmente não vêem o seu trabalho apresentado nos habituais festivais ou como parte da programação dos espaços culturais em geral. O seu trabalho é considerado de inferior qualidade e muitas vezes, quando um espaço programa um espectáculo ou uma exposição, considera que já cumpriu as suas obrigações para com os artistas com deficiência e não é necessário mais ao longo da temporada. Está é, sem dúvida, uma realidade. Mas estaremos a avançar e estaremos de alguma forma a resolver o problema organizando festivais ou exposições “especiais” de artistas com deficiência?

Michelle Ryan, "Intimacy", Unlimited 2014 (imagem retirada do website do Unlimited)

Entre 2 e 7 de Setembro houve mais uma edição do festival Unlimited em Londres, um grande evento, com encomendas especialmente feitas para serem aí apresentadas. Um evento que “celebra a visão artística e a originalidade dos artistas com deficiência”. Num país como o Reino Unido, que, comparado com outros, já deu vários passos necessários no sentido do respeito dos direitos das pessoas com deficiência, qual é o papel de um festival como o Unlimited hoje em dia?

Entre 13 de Setembro e 15 de Outubro, o Musée de Grenoble organiza o Mês da Acessibilidade. Lê-se no website que o museu convida as pessoas com deficiência a descobrir as suas exposições e actividades ao longo do ano, disponibilizando a ajuda necessária. Sendo assim, qual o objectivo deste mês “especial”?

Considerando estas e outras iniciativas, pergunto-me quem é que assiste a estes festivais, exposições, actividades e o que é que acontece depois? Será que atraem apenas os já “convertidos” ou um público mais amplo? Serão os artistas gay ou negros ou com deficiência mais reconhecidos como artistas pelo sector e pelo público? Estaremos a seguir em direcção a uma representação inclusiva, onde serão vistos em primeiro ligar como artistas, ou os curadores e o público vão na mesma para assistir a algo “especial”, circunscrito num tempo e espaço específico, um tempo e um espaço “próprio”? Ajudam-nos estes festivais a aprender a preocupar-nos mais e mais com a arte e menos e menos com o “resto”?

Já escrevi no passado sobre a promoção de espectáculos que envolviam artistas com deficiência onde o público não foi “avisado” deste facto. As pessoas compraram os seus bilhetes, viram o espectáculo, podem ou não ter sentido algum desconforto e algumas acabaram agradavelmente surpreendidas com a qualidade do que tinham acabado de ver. Não terá sido este um passo em frente? Um passo no sentido de aprender que “o resto” não fazia, realmente, diferença? E o nosso objectivo – o objectivo dos artistas, programadores, curadores, profissionais da educação e da comunicação, associações de pessoas com deficiência – não devia ser trabalhar no sentido de tornar a diferença “mainstream”?



Quando li o livro “Museums and Migration” (ed. Laurence Gouriévidis) este verão, gostei de ver que este tinha sido o princípio seguido em algumas exposições de museus em países como o Canadá, a Austrália ou o Reino Unido, países com altos níveis de imigração e que conheceram por vezes estratégias governamentais que tinham como objectivo lidar com “a tensão entre o reconhecimento de uma sociedade culturalmente diversa e a necessidade de articular uma identidade nacional que projecta uma nação culturalmente coesa” (Mary Hutchison and Andrea Witcomb, p.228). Estes museus foram além do festival étnico, da Semana da China – Índia – Paquistão – Nigéria – Bolívia, etc. (que normalmente focam a música e a comida), e procuraram formas de tornar as histórias das comunidades migrantes parte da história nacional e de promover “sentimentos positivos em relação a pessoas que se sentem em casa entre culturas diferentes e a ideia que pessoas em várias partes do mundo vivem no seio de culturas que já são transnacionais, cosmopolitas e que se caracterizam por um hibridismo cultural” (Kylie Message, p. 60).

Penso que esta é a forma de ir para a frente; é deixar de chamar a atenção para a diferença e tornando-a parte da história. Já citei uma vez Morgan Freeman que considera o Mês da História Negra “ridículo”, recusando-se a ver a sua história reduzida a um mês, e que, quando lhe perguntaram “Então, como é que nos vamos ver livres do racismo?”, respondeu simplesmente: “Parem de falar nele!”. Precisamos ainda de meses-festivais-feiras-espectáculos de gays, negros, deficientes? Talvez, sim, precisemos ainda, não o nego. Mas temos também um plano para ir um passo mais além?


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O começo e ofinal de uma semana a p&b em Viena






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Monday, 28 July 2014

Em círculos

Nelly´s, Refugiados gregos da Ásia Menor, 1925-27.

Dois dos meus avós nasceram súbditos otomanos. A minha cidade, Ioannina, no noroeste da Grécia, foi conquistada pelo Otomanos mesmo antes de Constantinopla, em 1430. Quase 500 anos mais tarde, em 1913, foi liberada pelo exército grego e tornou-se parte do Estado Grego. Ao longo dos séculos, tinha havido várias revoltas contra os Otomanos, mas não tiveram sucesso. Resultaram numa ainda maior repressão, que, por sua vez, alimentou a determinação dos ocupados.

A minha cidade teve um forte passado multicultural – cristão, muçulmano e judaico. Eu nasci em 1970, muito tarde para o presenciar, apesar de se encontrarem vestígios em várias partes. A minha casa hoje fica a 200 metros dos cemitérios muçulmano e judaico. A maioria dos muçulmanos que residiam em território grego teve que abandonar as suas casas e ir para a Turquia, um país que não conhecia, um lugar que não significava nada para eles, no seguimento do Tratado de Lausanne em 1923. Os Cristãos Ortodoxos que viviam na Turquia foram forçados em ir para a Grécia. Amigos e vizinhos separaram-se para sempre e eu passei a minha infância com um medo terrível dos Turcos. O último muçulmano de Ioannina morreu na década passada, enquanto a comunidade judaica, quase completamente aniquilada durante a ocupação Nazi na Segunda Guerra Mundial, conta hoje com aproximadamente 50 indivíduos.

A primeira e última vez que entrei na Sinagoga da minha cidade – que está quase sempre fechada – foi em 1993, para a comemoração do 50º aniversário da deportação dos Judeus de Ioannina para Auschwitz. A pessoa que se sentou ao meu lado nesse dia chorou silenciosamente durante toda a cerimónia. Foi naquele momento, com vinte e poucos anos, que me apercebi que a História é muito mais que factos e datas nos meus livros, como é normalmente ensinada nas escolas e até nas universidades. A História são as pessoas que a fazem e as pessoas que vivem as suas consequências, tanto as figuras públicas como, especialmente, os indivíduos anónimos.

Sempre que viajo, visito os Museus Judaicos ou exposições sobre o Holocausto quando patentes nas cidades em que me encontro. Visitei alguns muito bons (Imperial War Museum, Londres; Dachau Concentration Camp Memorial Site, Munique; Jewish Historical Museum, Amsterdão; Jewish Museum, Viena; The United States Holocaust Memorial Museum, Washington), alguns menos bons, do ponto de vista da museografia, mas, mesmo assim, interessantes por causa do tema (Jewish Museum Berlin; Jewish Museum of Greece, Atenas), enquanto espero ainda poder conhecer outros, como o South African Jewish Museum na Cidade do Cabo. Através destas visitas, revisito também a história de um povo orgulhoso pelas suas origens, que respeita e preserva as suas tradições, independentemente da parte do mundo onde vive e, sobretudo, apesar de todas as perseguições que tem vivido… desde sempre. Sinto um respeito e uma admiração profundos por eles e não me canso de ouvir a história de novo, as partes boas e as partes más.

Muitas vezes nessas visitas somos confrontados com a lição “Nunca mais”. Este é, claro, um dos propósitos do contar a história, o facto desta se repetir, o facto de termos que aprender com o passado. Na verdade, o United States Holocaust Memorial Museum dá um passo além da afirmação “Nunca mais”. Investe activamente no estudo, denúncia e prevenção do genocídio em todo o mundo. Foi este museu que me ajudou a lidar com o meu sentimento de pequenez, impotência e insignificância e ensinou-me que todos podemos fazer algo para prevenir o genocídio: aprender mais e partilhar o que sabemos com amigos e familiares. Mas não refere a Palestina.

E esta é uma lição maior para mim, a verdadeira lição. Uma lição que mostra que o “Nunca mais” vai acontecer – mais e mais e mais vezes – porque uma vez confrontados com ele começamos a fazer cálculos. Calculamos as vantagens e desvantagens para nós próprios, quem é que deveríamos apoiar abertamente, em que momentos seria melhor permanecermos silenciosos e neutros, quando deveríamos assumir uma postura mais reconciliatória. É precisamente isto que têm feito muitos políticos e cidadãos comuns desde o início de mais um ataque israelita em Gaza, um ataque que matou até agora muitos civis, que destruiu muitas casas, que deixou marcas terríveis em muitos seres humanos. Como todos os ataques anteriores. Quando ocorre uma tal carnificina (ainda por cima, levada a cabo pelo exército regular de um estado democrático), a primeira coisa que temos que fazer (nós, o Ocidente democrático e defensor dos direitos humanos) não é discutir as origens do conflito, o que cada lado faz bem ou mal. A primeira coisa que temos que fazer é condenar claramente, inequivocamente e em voz alta o ataque e exigir o fim imediato da carnificina. Depois podemos e devemos conversar.  

Mas não é o que tem acontecido. Aparentemente, não damos o mesmo valor a todas as vidas humanas e assim, os países europeus representados no Concelho da Nações Unidas para os Direitos Humanos podem abster-se (todos!) na votação para a abertura de um inquérito sobre alegadas violações dos direitos humanos em Gaza; aparentemente, algumas situações do género “nunca mais” são justificadas, e assim os nossos governos podem continuar a apoiar e a vender armas ao governo israelita; aparentemente, cada caso é uma caso e tudo depende, portanto, existem alguns casos do género “nunca mais” em que nós cidadãos comuns podemos reservar o direito de sermos mais “equilibrados” ou neutros.

Aparentemente, não aprendemos com o que a História tem para nos ensinar, basicamente, que a ocupação, a humilhação e o aterrorizar de um povo nunca mantiveram os autores no poder para sempre e, sobretudo, nunca trouxeram paz.


Até Setembro.

Monday, 14 April 2014

O Atentado



Li O Atentado de Yasmina Khanda há uns anos. É a história de um médico árabe, Amin Jaafari, que vive e trabalha em Tel Aviv. Após um atentado suicida que abala a cidade, Jaafari é chamado para identificar o corpo da sua mulher, Sihem, uma das vítimas do atentado. Pouco depois, é confrontado com a informação que a bombista suicida tinha sido a própria Sihem.

Com a sua escrita bonita, sensível, incisiva, Khandra conduz-nos através das várias fases do estado emocional de Jaafari e da sua viagem à procura de respostas: desde a dor de ter perdido a sua mulher, à incredulidade perante a informação que a mulher que amava tinha cometido tal crime, à confusão e à raiva quando começa a aperceber-se que desconhecia uma série de acções, pensamentos e sentimentos da sua mulher, à determinação de encontrar uma explicação que pudesse fazer sentido e ao regresso a uma realidade que tinha deixado há muito para trás.

Adorei o livro de Yasmina Khandra porque mostra que a amizade, a tolerância, a compreensão e a coexistência são possíveis, são uma realidade. E com esta realidade como ponto de partida, leva-nos lentamente, seguindo a busca de Jaafari, àquela outra realidade, que existe ao lado da primeira, comprometendo-a, questionando-a, todos os dias: aquela de milhões de Palestinianos nos territórios ocupados ou no exílio; aquela da humilhação diária, do desespero, da dor, do abuso, da morte, da revolta; aquela de um poder arbitrário que faz nascer terroristas, bombistas suicidas, que são venerados como heróis e mártires.

Khandra faz-nos questionar a primeira realidade. Será o resultado de silêncios convenientes; da ignorância? Será falsa; incapaz de sobreviver quando o silêncio é quebrado? Ou será o resultado de força e determinação, do desejo informado, e por isso consciente, de paz?

Ziad Doueri, realizador do filme O Atentado.
O filme O Atentado de Ziad Doueri abriu este ano a Judaica – Mostra de Cinema e Cultura em Lisboa. Fui vê-lo sabendo que raramente ou nunca os filmes são tão bons como os livros. A regra foi mais que confirmada.

O que mais me impressionou foi a superficialidade com a qual Doueri lidou com a história. Não foi capaz de dar qualquer profundidade aos personagens, aos seus sentimentos e ideias, e mais que uma vez tive a sensação que estava a ver uma telenovela. Além disso, Doueri optou por ignorar a narrativa de Yasmina Khandra na descrição da busca de Jaafari nos territórios e praticamente apresentou os Palestinianos como nada mais do que uma máfia. Levantei-me assim que o filme acabou, perplexa também pelo facto do final ser totalmente diferente daquele do livro. Mesmo antes de sair da sala, pude ouvir o realizador explicar ao público que o final do livro não lhe era conveniente, por isso optou por um final diferente. Porque é que não escreveu a sua história em vez de arruinar a de Khandra?

Cena do filme O Atentado.
Poucos dias mais tarde, vi uma entrevista de Douari e apercebi-me que havia mais. Enquanto o ouvia falar da sua infância em Beirut, dos seus pais liberais, dos tabús dos árabes no que diz respeito a Israel, da estupidez que é o ramadão, percebi que Doueri, ao querer ser progressista e de mente aberta e liberal, construiu a sua própria versão d´O Atentado com a intenção de desafiar o ponto de vista árabe. Desafiá-lo ignorando-o, fazendo dele uma caricatura. Mais uma vez, porque é que não escreveu a sua história em vez de se aproveitar do best seller de Khandra?


A coexistência, a reconciliação, a construção de um futuro comum não é algo fácil. È o que nos diz Yasmina Khandra. É o que sinto quando tenho que falar ao meu filho do passado e presente greco-turco. É o que me atormentou enquanto lia The Antelope's Strategy, Living in Rwanda after the Genocide de Jean Hatzfeld. Podem ser precisos alguns silêncios, mas como resultado de conhecimento e de compreensão e não de ignorância. É preciso força, a capacidade de perdoar sem esquecer. E preciso abertura de espírito, a capacidade de ouvir e pesar os argumentos da outra parte. Não é fácil; é muito difícil e é complexo. É preciso começar por reconhecer precisamente este facto; e respeitá-lo.

Monday, 3 March 2014

Ser "apenas"


É curioso que a primeira coisa que li sobre os protestos na Venezuela não foi uma notícia num jornal, mas a carta aberta da pianista Gabriela Montero ao Gustavo Dudamel. Nessa carta dizia:

“Mas não posso permanecer em silêncio por mais tempo. Ontem, quando dezenas de milhares de manifestantes pacíficos marcharam em toda a Venezuela para expressar a sua frustração, dor e desespero perante o total colapso cívico, moral, físico, económico e humano da Venezuela, e enquanto as milícias armadas pelo governo, a Guarda Nacional e a policia atacavam, matavam, feriam, prendiam e faziam desaparecer muitas vítimas inocentes, Gustavo e Christian Vazquez dirigiam a orquestra num concerto que celebrava o Dia da Juventude e os 39 anos da criação do El Sistema. Estavam a fazer um CONCERTO enquanto o seu povo estava a ser massacrado.”

Foi esta carta que me fez procurar mais notícias sobre o que se estava a passar nesse país. Alguns dias mais tarde, um outro músico venezuelano, Carlos Izcaray, ex-aluno no El Sistema, fazia um apelo online:

“Através deste meio, gostaria de vos chamar todos para nos juntarmos e, com instrumentos na mão, repudiarmos e demonstrarmos fortemente contra a excessiva violência e as violações dos direitos humanos que estão neste momento a ser perpetuados pelo governo venezuelano contra os seus próprios cidadãos. Prestemos a nossa homenagem de apoio àqueles que deram a sua vida em defesa da nossa Liberdade. Este direito básico de todas as pessoas livres foi agora inequivocamente sequestrado por um governo despótico e tirânico, que deseja governar através do medo, da intimidação e da violência.” 

Estes dois músicos escolheram viver fora da Venezuela, provavelmente por razões profissionais e talvez também políticas. Gustavo Dudamel vive e trabalha também no estrangeiro, mas mantém a sua ligação ao El Sistema e através deste – ou por causa deste – ao governo do seu país. Assim, li as declarações apaixonadas de Montero e Izcaray considerando que a posição a partir da qual exprimiam as suas opiniões não precisava de ser tão diplomática como a de Dudamel, que deve considerar, para além das suas próprias opiniões, o contexto em que actua o El Sistema e a sua dependência do governo venezuelano. Devo confessar, no entanto, que não estava preparada para a sua decepcionante afirmação “diplomática” ao LA Times:

“Sou músico. Se fosse político, estaria a agir pelo meu próprio interesse. Mas sou artista e um artista deve agir por todos.”

Dudamel espera (e aceita) que os políticos ajam pelo seu próprio interesse? E os artistas por ‘todos’? Como é que agem por todos? Quem são estes ‘todos’? Os políticos que agem pelo seu próprio interesse estão incluídos?

Alguns dias mais tarde, surgiu uma outra controvérsia, desta vez em Nova Iorque, quando artistas, activistas, professores e estudantes associados ao Occupy Museums, GULF Labor e outros grupos fizeram um protesto no Guggenheim Museum a propósito das condições laborais em Saadiyat Island nos Emirados Árabes Unidos, onde o Guggenheim está a construir o seu franchise. Duas coisas se destacaram para mim enquanto acompanhava o desenvolvimento desta notícia. Primeiro, o facto do Guggenheim não ter escondido a cabeça na areia, permanecendo silencioso e esperando que tudo acalmasse. Ao contrário do que é prática comum aqui entre políticos e instituições culturais, que se comportam como se fossem intocáveis e imunes à crítica dos cidadãos, o director do Guggenheim, Richard Armstrong, emitiu os seus comunicados, tornou clara a posição da instituição e não evitou nenhuma pergunta (mais leituras no final deste post). As instituições culturais não estão (não deviam estar) colocadas algures acima dos cidadãos comuns, fingindo estar a operar num vácuo confortável e protector, livres de responsabilidades sociais.

A outra coisa que se destacou para mim nesta controvérsia foi descobrir que a arquitecta Zaha Hadid – que desenhou um dos estádios no Qatar – sente que “não é da minha responsabilidade como arquitecta olhar para isto [“isto” sendo a morte de centenas de trabalhadores imigrantes no local de construção]… Não posso fazer nada porque não tenho o poder para fazer nada.” (ler aqui)

Pensei na Ucrânia. Em Dezembro passado, o meu amigo e colega Ihor Poshyvailo escrevia neste blog: “(…)o ICOM Ucrânia e uma série de museus ucranianos emitiam declarações públicas condenando a inesperada repressão de manifestantes pacíficos e a retirada do pacto de associação à União Europeia. O Conselho de Directores dos Museus de Lviv coordenou as declarações de protesto de vários museus de Lviv. Um dos mais antigos museus etnográficos da Europa Oriental-Central, o Museu de Etnografia e Artesanato de Lviv, exibiu um estandarte na sua varanda que dizia “Apoiamos as exigências do Euromaidan”. Em Kiev, uma dúzia de museus fizeram declarações públicas, incluindo o Museu da História de Kiev que é gerido pela Câmara e tutelado pelo seu Presidente, cuja sede foi ocupada pelos manifestantes. O Museu-Memorial Pavlo Tychyna (perto de Maidan) abriu as suas portas aos manifestantes e ofereceu-lhes chá, um espaço para descansarem e programas culturais. (…)”

Provavelmente, nunca vamos saber os nomes das pessoas que tomaram estas decisões e agiram naqueles momentos. Pessoas que não são “apenas um músico” ou “apenas uma arquitecta”, pessoas que não são “apenas funcionários públicos”, mas que são, em primeiro lugar e sobretudo, cidadãos. Foram cidadãos de um estado autoritário, que arriscaram os seus trabalhos, a sua segurança pessoal, talvez as suas vidas, talvez o financiamento público se as coisas tivessem o resultado contrário – mas provavelmente não os honorários de Zaha Hadid. Foram cidadãos “anónimos” que sentiram que tinham o poder e a responsabilidade de fazer algo. E fizeram-no. Fizeram o que podiam.

Dudamel contradiz-se de alguma forma quando afirma ao LA Times “(…) no El Sistema criamos não apenas músicos mas cidadãos melhores”. Se é isto que o El Sistema faz, então as pessoas mais velhas deveriam mostrar a esses jovens cidadãos que, quando chega o momento, não se devem esconder por trás da afirmação “Sou apenas um músico”.


Mais neste blog



Mais leituras:


Sistema in the crossfire, by Jonathan Andrew Govias





Monday, 20 January 2014

A verdadeira medida

Tomada de posse de Bill De Blasio (imagem retirada do portal Hyperallergic)
Bill de Blasio é o 109º Presidente da Câmara de Nova Iorque. É casado com a activista e poetisa Chirlane McCray. Tomou posse no passado dia 1 de Janeiro. Dois dias antes, o New York Times (NYT) publicou um artigo intitulado A new mayor brings hope for a populist arts revival. Fiquei curiosa. O jornal referia que o novo presidente tem uma marca populista e que, considerando os seus hábitos culturais e artísticos, pode esperar-se que o seu interesse recaia numa parte da vida cultural da cidade bastante diferente daquela que mais atraía o seu antecessor, Michael Bloomberg. Mais concretamente, o NYT dizia que o novo presidente nunca foi visto no Lincoln Center e que a sua família raramente visita os grandes museus de arte da cidade. Pelo contrário, são muitas vezes vistos em pequenas galerias e museus nos bairros. Chirlane McCray frequenta sessões de leitura, foi membro do júri de concursos de poesia e promoveu, no dia da tomada de posse do seu marido, a leitura de um poema de um jovem poeta. A comissão de transição de De Blasio (ou seja, as pessoas que o ajudarão a escolher a sua equipa) inclui peritos ligados ao Public Theatre, ao Brooklyn Museum, à Brooklyn Academy of Music, assim como o director do Studio Museum in Harlem.

Poucos dias depois, o portal Hyperallergic publicava um artigo de Mostafa Heddaya, De Blasio and the mythology of a new arts populism. Heddaya comentava as considerações do NYT, mas concluía que, no final de contas, os interesses culturais do novo presidente e da sua esposa são pouco relevantes, tal como o eram os do seu antecessor. Heddaya partilha com outros comentadores, que refere no seu texto, a preocupação pela forma como o novo executivo poderá vir a apoiar as artes, de forma construtiva e justa, e, também, como poderá conseguir mecenato para compensar o apoio que o anterior presidente Bloomberg garantia a certas instituições culturais da cidade investindo os seus próprios milhões. 

Problemas de financiamento e problemas permanentes com a falta de políticas culturais construtivas e justas. Nova Iorque não parece estar a enfrentar uma situação muito diferente daquela de outras cidades. No entanto, e para além desta discussão, fiquei a pensar em dois outros pontos: no facto dos gostos do novo presidente serem considerados “populistas” pelo NYT (haverá aqui um significado da palavra que eu desconheça?); mas, sobretudo, o facto destes mesmos gostos e hábitos serem um assunto discutido publicamente, nos jornais e nos blogs. Conheço pouco ou nada sobre os hábitos culturais dos homens e das mulheres que nos governam. Raramente este é um assunto entre nós, antes ou depois das eleições. E raramente me cruzei com eles, com os que nos governam, quer nos sítios onde trabalhei quer nos espaços que frequento, a não ser em momentos em que a sua presença era exigida pelo protocolo. (Há algumas ilustres excepções, poucas, as mesmas que compram bilhete ao invés de reclamarem convites.)

Fiquei com isto na cabeça, fiquei a pensar se importa saber que livros é que os nossos políticos lêem, que peças de teatro têm visto, que música ouvem, quais foram os seus filmes preferidos em 2013. Um outro acontecimento nos EUA lembrou-me novamente desta questão.

Imagem: Witness Against Torture (retirada do Flickr)
No dia 11 de Janeiro, dia do 12º aniversário da abertura de Guantánamo, activistas do grupo Witness Against Torture realizaram um protesto no National Museum of American History em Washington (ver aqui). Usando os característicos fatos laranja e capuzes pretos, ficaram em posição de detenção perto da entrada do museu. Outros fizeram um discurso, pedindo a Barak Obama para libertar os restantes 155 presos e fechar o campo. Mais tarde, dirigiram-se à sala da exposição “The price of freedom: Americans at war”, assumiram as mesmas posições de detenção e exibiram cartazes que diziam “Are these the price of freedom?” ou “Civil liberty?”.

Vi na escolha do local um simbolismo mais favorável para os museus do que aquele que os organizadores quiseram atribuir. “Viemos aqui hoje porque queremos ver Guantánamo relegado a um museu”, escreveram no comunicado de imprensa; mas diziam também: “(…) queremos vê-lo encerrado e condenado, mas também entendido como um exemplo de onde o medo, o ódio e a violência nos podem levar.”

Tinha sido no livro de Tzvetan Todorov La peur des barbares: Au-delà du choc des civilisations que li pela primeira vez sobre o Torture Memo, um documento redigido em 2002 pelo gabinete jurídico do Ministério da Justiça dos EUA, que serviu para apresentar uma “nova definição” do que constitui tortura e defender a legalidade dos actos cometidos pelo governo americano. Uma linguagem muito bem trabalhada por quem sabe usar (ou abusar?) das palavras. Um documento público chocante, que serviu para justificar actos desumanos, humilhantes, vergonhosos (por isso pensei que a escolha do National Museum of American History tinha um significado mais profundo do que “ver Guantánamo ‘relegado’ a um museu”).

Fiquei novamente a pensar que livros lêem, que peças de teatro vêem, que música ouvem, quais os filmes preferidos desses políticos, juristas, agentes de segurança, economistas e outros que, aproveitando-se e alimentando os nossos medos, encontram justificações para a barbárie e querem tornar-nos seus cúmplices. Desde o torturar presos que nunca foram formalmente acusados, ao promover referendos sobre direitos fundamentais, cortar pensões que já eram de miséria, aumentar o número de alunos por turma e diminuir o número de professores e matérias, pôr em risco o bom funcionamento das instituições culturais e comprometer o acesso às mesmas, os direitos humanos são todos os dias violados, ‘por uma boa causa’, nos nossos países ‘civilizados’.


Distribuição de roupa e alimentos, Portugal, Natal 2013 (Foto: Bruno Simões Castanheira para o Projecto Troika)

Martin Luther Kink disse que “A verdadeira medida de um homem não é a posição que mantém em momentos de conforto e conveniência, mas a posição que mantém em momentos de desafio e controvérsia”. Talvez não importa mesmo saber quais os hábitos e gostos culturais de quem nos governa e de quem os apoia. Os livros, o teatro, a música não têm super-poderes. É preciso o homem ter força e consciência para conseguir usar o que neles encontrou contra a sua própria, sempre subjacente, barbárie.