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Saturday, 5 May 2018

"Lindonéia, a Gioconda do subúrbio", da minha primeira visita à Pinacoteca de São Paulo

"Lindonéia, a Gioconda do subúrbio", Rubens Gerchman, Pinacoteca de São Paulo  (Foto: Maria Vlachou)

“Na frente do espelho
Sem que ninguém a visse
Miss
Linda,feia
Lindonéia desaparecida
Despedaçados, atropelados
Cachorros mortos nas ruas
Policiais vigiando
O sol batendo nas frutas
Sangrando
Ai, meu amor
A solidão vai me matar de dor (...)”

Caetano Veloso, “Lindonéia”

Uma coisa da qual me apercebi logo nas primeiras visitas aos museus de São Paulo é que se gosta de longas introduções às exposições. A exposição “Vanguarda Brasileira dos anos 1960 – Coleção Roger Wright”, na Pinacoteca de São Paulo, não foi excepção.

Wednesday, 22 June 2016

Reflexões governamentais sobre o acesso à cultura


"MAPA - O jogo da cartografia", um espectáculo da associação A PELE (imagem retirada do website do Teatro Nacional D. Maria II)

O Culture White Paper (publicado pelo Departamento de Cultura, Media e Desporto em Março 2016) define a forma como o governo britânico vai apoiar o sector cultural nos próximos anos. É o primeiro documento deste tipo em 50 anos e o segundo alguma vez publicado no Reino Unido.

O documento abre citando o primeiro-ministro britânico, David Cameron, que afirma: "Se acreditam no financiamento público da arte e da cultura, como eu apaixonadamente acredito, então devem também acreditar na igualdade de acesso, atraindo todos e acolhendo todos."

Saturday, 7 May 2016

E então?

"E então?" Uma pergunta / reacção bastante frequente no que diz respeito ao nosso sector, quer verbalmente expressa ou secretamente pensada. É uma pergunta legítima, que raramente estamos disponíveis para discutir.

Rembrandt Harmenszoon van Rijn, "Retrato de Marten Soolmans" e "Retrato de Oopjen Coppit" (imagem retirada do jornal Telerama)

Quando li pela primeira vez a notícia sobre a aquisição conjunta por parte do Louvre e do Rijksmuseum das obras de Rembrandt Retrato de Marten Soolmans e Retrato de Oopjen Coppit, por €160 milhões, não pensei propriamente "E então?", mas sim "Porquê?". Porquê estes dois quadros? Porquê todo esse dinheiro? Quando procurei entender um pouco melhor a importância dessas duas obras (qualquer que fosse a sua importância, dentro do contexto da história da arte ou qualquer outra), fui mais frequentemente confrontada com o adjectivo "raro". Os retratos são "raros", a sua exposição em público foi extremamente "rara”, etc. etc. Isto levantou ainda mais perguntas: Raros como? Porque é que devem ser vistos com mais frequência? Porque é que esses dois museus públicos fizeram um esforço tão grande (financeiro e colaborativo) para os adquirir?

Sunday, 20 September 2015

Acesso intelectual e não uma saída fácil


A promoção do acesso intelectual por algumas pessoas no sector cultural é muitas vezes descartada por outras como 'emburrecimento' (dumbing down). Recentemente, li o seguinte no ensaio de Rob Riemen "O eterno retorno do fascismo":

"Na cultura desta sociedade [a sociedade de massa; nossa sociedade contemporânea], há uma tendência para o menor, o nível mais baixo, porque é aqui que se encontra a maioria das coisas que as pessoas podem partilhar. É exactamente por isso que os indicadores da educação universitária são nivelados por baixo, de modo que ‘todos’ possam estudar e obter um diploma. E o mesmo se aplicará às artes, porque elas terão de ser acessíveis a todos, não só no que diz respeito às propinas, mas também ao nível de compreensão. Afinal, a mais feroz indignação é dirigida ao que é difícil. Porque o que não é compreendido imediatamente por todos é difícil, ou seja ‘elitista’ e, portanto, não-democrático." (tradução minha do grego)

Friday, 26 June 2015

A mensagem, a linguagem, as opções


Paula Sá Nogueira no programa Inferno.
Mais uma vez, a discussão que se gerou após o anúncio da atribuição dos apoios da Direcção-Geral das Artes (DgArtes) fez-me pensar sobre a forma como este sector comunica com o público, com os cidadãos e contribuintes. Há uma questão maior, claro, a dos apoios em si: do sistema de candidaturas, da avaliação das propostas, do acompanhamento das estruturas, do propósito e da duração dos apoios. Mas hoje, aqui, a minha reflexão centra-se na comunicação.

Thursday, 4 June 2015

Algo está a acontecer em Évora


A lona no exterior do Fórum Fundação Eugénio de Almeida (FEA) em Évora fez-me sorrir… “Como é o museu com que sonha?” é uma espécie de promessa ou de convite para reflexão e diálogo.

Parece que é mesmo isso que o FEA e a curadora Filipa Oliveira procuram: “(…)o início de um caminho e de uma nova relação que o FEA quer estabelecer com a cidade de Évora e com o país; (…) uma reflexão programática do FEA em torno do dilema de como articular a singularidade e a especificidade do contexto local com o pensamento e os desafios da criação artística contemporânea internacional.”

Monday, 23 March 2015

Philippe de Montebello revela-se


Vou dizê-lo logo no início para deixar o assunto arrumado: sim, fiquei irritada com as duas afirmações de Philippe de Montebello no livro "Rendez-vous with art" relativas à questão da restituição de objectos (p.54 e p.208). Dito isto, o resto do livro é absolutamente encantador! Uma série bela, inspiradora e surpreendente de conversas entre Montebello e o crítico de arte Martin Gayford, que revela o homem por trás do historiador de arte e durante muitos anos director do Metropolitan Museum of Art.

Seguindo estas conversas, sentimos um desejo de olhar e olhar melhor, mesmo que seja apenas uma foto num livro - na esperança, é claro, de poder estar à frente do original um dia ... Como o próprio Montebello diz: "(...) nada pode substituir a experiência, a sensação muito física, de estar cercado e envolto no espaço real." (51 p.)

Provavelmente, um dos momentos mais tocantes vem logo no início do livro, onde Montebello responde à pergunta de Gayford sobre aquele momento único, aquela experiência única que pode tê-lo levado a uma vida nas artes. Montebello partilha connosco esse momento muito especial, quando ele tinha 15 anos e o seu pai levou para casa o livro "Les Voix du Silence" de André Malraux. E, de repente, ali estava Uta...

"Ela era a Marquesa Uta na Catedral de Naumburg e eu amei-a como mulher (...) com a sua maravilhosa gola alta e as suas pálpebras inchadas, como se tivesse passado a noite a fazer amor." (p.10; imagem retirada da Wikipedia)

Fiquei a pensar: será que ele teria alguma vez posto isto na legenda num museu? Quantas pessoas teriam olhado, olhado melhor, olhado mais, se tivessem lido algo assim sobre uma estátua?

Mais à frente, Montebello admite algo que raramente ouvimos da boca de curadores, mas que é verdade para a maioria dos visitantes de museus: "Descobri que quando me forcei - muitas vezes com a ajuda de curadores - a olhar para coisas sobre as quais era indiferente ou que até me repeliam, descobri que, com mais alguns conhecimentos, o que havia sido escondido de mim tornou-se manifesto." (p.59)

Que tipo de conhecimentos é necessário para esta 'epifania' ocorrer, podemos questionar. Nem factos sobre a vida do artista, nem uma descrição detalhada e seca de pormenores estilísticos, quando são consideradas as primeiras necessidades do visitante não-especialista (ou seja, da maioria dos visitantes dos museus). Parece que podemos encontrar todas as respostas no livro de Freeman Tilden "Interpreting our Heritage": "O que está por trás do que o olho vê é muito maior do que aquilo que é visível" (p.20); (...) Mas o objectivo da interpretação é estimular o leitor ou o ouvinte a desejar ampliar os seus horizontes de interesses e conhecimentos e a procurar entender as grandes verdades que estão por trás de qualquer afirmação de factos (p.59); (…) Não com os nomes das coisas, mas expondo a alma das coisas – aquelas verdades que estão por trás do que estamos a mostrar ao visitante. Nem pregando; nem sequer dando sermões; não através da instrução, mas através da provocação (p.67).

Mais alguns exemplos do livro de Montebello poderiam ilustrar melhor estes pontos:

"(...) é absolutamente delicioso. O sapato voando para o ar, em direcção à estátua de Cupido ao lado, aquela árvore encantadora, tão espumosa e diferente de uma árvore real: é tudo como um décor de théâtre, um cenário teatral. Esta é uma lindíssima pintura sobre o estarmos a divertir-nos e sobre a qual uma pessoa não precisa de pensar muito, basta abandonar-se ao puro prazer que proporciona: uma pintura com a qual não teria nenhum problema em viver." (p. 81, Jean-Honoré Fragonard, O baloiço, 1767; imagem retirada de www.thebingbanglife.com)

"(...) então, concentrei-me nas profundas marcas de queimaduras na parte inferior do quadro, claramente feitas pelas velas votivas, confirmando que esta foi, realmente, uma imagem devocional. Apenas alguns detalhes adicionais resultaram de uma análise aprofundada, sendo um dos mais importantes que a imagem estava impecável, uma coisa rara quando se trata de imagens com fundo dourado do século XIV, uma vez que a maioria das obras sofreram muito ao longo do tempo, principalmente, receio, nas mãos dos restauradores." (p.65, Duccio di Buoninsegna, Madona e criança, c.1290-1300; imagem retirada de www.theopenacademy.com)

"Mas estou feliz só de apreciar a expressão no rosto de Adão, tão doce, e da maneira como ele segura o ramo de maçã - não é uma folha de figueira - com dois dedos, bem como a folhagem necessária para cobrir a sua nudez. Dürer dotou de uma forma tão cativante as suas figuras inspiradas na antiguidade clássica com uma terna sensualidade; e adoro Eva, parecida com Vénus, com o seu rosto bonito de fräulein de Nürnberg. Vê? Nada de história da arte, apenas a minha própria reacção muito pessoal "(p124, Albrecht Dürer, Adão e Eva, 1507; imagem retirada de www.pictify.com)

Não acredito que a maioria das pessoas visita museus à procura de uma lição em história de arte nos seus painéis e legendas - ou de física, de música ou de outra disciplina qualquer (algumas o fazem, é claro, e as suas necessidades são igualmente legítimas, mas os museus geralmente dão resposta a essas necessidades com vários outros meios). As pessoas também não visitam museus à procura de alguém que lhes diga o que devem sentir ou pensar, como defende Alain de Botton em Art is Therapy (Rijksmuseum), onde encontramos legendas como esta: "Você sofre de fragilidade, de culpa, de dupla personalidade, de auto-aversão. Você é provavelmente um pouco como esta imagem." (a respeito da pintura de Jan Steen A Festa de São Nicolau). Penso que a maioria de nós está, antes de tudo, à procura de algo que possa ter significado para nós, algo que possa deliciar-nos, surpreender-nos, fazer-nos sentir bem ou mais ricos ou mais conscientes de nós mesmos e do mundo. Muitos de nós estamos à procura de histórias, histórias de outras pessoas, seres humanos com os quais nos possamos relacionar - aqueles representados ou aqueles que procuram partilhar os seus conhecimentos connosco.

Decidir qual a história a contar não é uma escolha fácil para um museu; escrevê-la de uma forma clara e concisa é igualmente difícil. Mas não é impossível, como Montebello nos mostra no seu livro, onde abandona o seu “eu institucional" e consegue partilhar o seu enorme conhecimento de historiador de arte de uma maneira simples e humana, que é significativa e relevante para muitas mais pessoas. Não é impossível, como Paula Moura Pinheiro nos mostra todas as semanas no seu programa televisivo "Visita Guiada", onde descobrimos que curadores e especialistas em arte em Portugal também são pessoas fascinantes, capazes de partilhar connosco muito mais do que os habituais factos geralmente presentes nas legendas, e que nos fazem desejar saber mais, visitar o museu, ver o objecto - ou voltar para o ver de novo, depois do que nos foi revelado.

É possível. É uma questão de escolha e de habilidade. Não lhe falta teor científico e comunica.

"Não tenho certeza se ficaria encantado porque estou tão concentrado, tão absorto e cativado pela perfeição do que lá está; que o meu prazer - e é um prazer intenso - está maravilhado com o que o meu olho vê, não com uma abstracção que, de um modo mais ‘à história de arte’, eu poderia evocar. É como um livro que amamos e simplesmente não queremos ver o filme. Já imaginámos o herói ou a heroína de uma certa maneira. Na verdade, com os lábios de jaspe amarelo, eu nunca tentei, realmente, imaginar as partes que faltam." (p.8, Fragmento do rosto de uma rainha, Período do Império Novo, c. 1353-1336 a.C, Egipto; imagem retirada do website do Metropolitan Museum)

Mais neste blog





Mais leituras

Philippe de Montebello and Martin Gayford (2014), Rendez-vous with Art. Thames and Hudson









Monday, 14 July 2014

A curiosidade matou o visitante

Art Museum of Estonia. Lia-se na legenda: "Villu Jaanisoo, 1963 / Chair I - II (2001) Motor Tyres, Art Museum of Estonia". (Foto: Maria Vlachou)

Assisti no passado Sábado a um colóquio intitulado “Os públicos do MNAC” (Museu Nacional de Arte Contemporânea – Museu do Chiado), a propósito dos 20 anos da reabertura do museu após o incêndio do Chiado. Durante as quase três horas de comunicações e debate, ao longo das quais muito pouco se falou de públicos, estava sentada ao pé de uma legenda relacionada com a obra exposta na parede. Lia-se:

“Mockba, 2004
Óleo sobre tela, óleo sobre chapa acrílica
Colecção VPV”

Olhei várias vezes para ela, enquanto ouvia falar da história do museu nos últimos 20 anos contada pelos seus directores (pormenores interessantíssimos, que desconhecia), da sua colecção, do que deveria ser o seu nome, do que deveria ser o seu propósito, de qual deveria ser o edifício a albergá-lo, etc. Olhei para a legenda a pensar que a obra exposta pouco me dizia esteticamente ou conceptualmente, mas que, curiosa em perceber melhor, teria gostado de encontrar algo mais (e mais interessante) que aquelas três linhas. Afinal, a opção de expor aquela obra tinha uma razão por trás e eu gostaria de perceber qual.

Acontece-me muitas vezes nos museus. Sou aquele tipo de visitante a quem não faltam diplomas, mas não é por isso que pretende conhecer e entender todas as linguagens e poder desvendar todos os mistérios. Sou também aquele tipo de visitante seguro de si, que não se sente constrangido (nem estúpido) em admitir que não entende e que gostava de saber mais, de ter informação mais interessante e relevante, numa linguagem compreensível. Tenho tendência em pensar que quem optou por colocar aquela legenda na parede não entende (e talvez não se interesse em entender) quem eu sou e o que procuro. Sou, portanto, aquele tipo de visitante minoritário. Muitos outros sentem-se estúpidos, mas assumem a culpa disso. Não voltam, desistem, desinteressam-se, recolhem-se, não se “atrevem” novamente, nunca levam os seus filhos.

Fui várias vezes confrontada nas últimas semanas com esta questão. Ao visitar a exposição de Vhils no Museu da Electricidade, numa sala encontrei uma legenda que repetia seis vezes “Portas antigas de madeira gravadas a laser”, seguindo-se as dimensões das referidas portas. Qual o propósito que serve uma legenda como esta? Porque é que se faz e para quem?


Uma outra visita recente foi ao Museu Municipal de Aljustrel, que conta a história das minas naquela zona do país. A história é contada assim:


Uma outra ainda exposição que despertou a minha curiosidade foi a de Helen Mirra na Culturgest. Trata-se da exposição de faixas de tecido pintadas monocromaticamente. À partida, não me “dizem” nada, por isso, procurei com muito interesse mais informações. Quando as encontrei na brochura, ficou claro que a minha curiosidade não ia ser satisfeita e que a exposição não era para mim.

Excerto do texto que se encontra na brochura. 

Nas várias formações que dei nos últimos dois meses, falou-se extensivamente sobre a questão da comunicação e da linguagem. Às vezes os formandos, apesar de reconhecerem a ineficácia da linguagem usada ou o pouco interesse da história contada, manifestam incompreensão relativamente à forma como esta comunicação poderia ser feita de outra forma, que cumprisse o objectivo do museu ou da exposição e que fosse ao encontro das necessidades dos visitantes, na sua maioria não-especialistas.

Ocorre-me, assim, o exemplo de dois mosteiros portugueses: o Convento de Tomar e o Mosteiro de Alcobaça. Ambos pretendem contar aos visitantes a história do edifício onde se encontram, no entanto, a abordagem, a opção em relação à história que será contada é claramente distinta. Qual serve melhor as necessidades do museu E dos visitantes?

Textos de painéis no Convento de Tomar.
Textos de painéis no Mosteiro de Alcobaça

Não é impossível comunicarmos de forma diferente, dizer coisas interessantes de forma simples. Por “simples” que não se entenda infantilizando, banalizando, comprometendo a qualidade científica da informação partilhada. O que é mesmo impossível é continuar a ouvir afirmações politicamente correctas que os museus são para todos, que há necessidade de serem relevantes, acolhedores, criarem nas pessoas um sentimento de pertença, e, na prática, continuar a desprezar e desvalorizar as necessidades dessas mesmas pessoas, continuar a ofender a sua inteligência. Acho perfeitamente legítimo uma exposição ser feita para especialistas, um dos vários públicos-alvo que um museu ou uma exposição pode servir. Mas tem que ser assumido e, assim, o restante público fica “avisado”. Continuar a escrever para comunicar com especialistas dizendo que a exposição é para todos indica, cada vez mais para mim, alguma falta de honestidade por parte dos responsáveis. A teoria é boa, é clara, parece que todos a conhecemos. O que falta para a pôr em prática? E ainda, queremos pô-la em prática?


Ainda neste blog:



Monday, 28 April 2014

Mostrem-me as pessoas



Penso frequentemente que os painéis e as legendas nos museus de arte ou de história são incapazes de transmitir paixão, maravilha, alegria, orgulho, tristeza, desespero, entusiasmo; de falar com pessoas sobre outras pessoas; de criar empatia, a necessidade de ler mais, de descobrir mais. A linguagem é normalmente seca, académica, factual, incompreensível – estou certa – para uma série (talvez a maioria?) de visitantes.

Voltei a pensar nisto durante a minha visita ao Museu Benfica. Este é o mais recente museu na cidade de Lisboa, inaugurado em Julho 2013, e recebeu até agora cerca de 43.000 visitantes (a entrada não é gratuita, o bilhete adulto custa €10,00). O seu objectivo é contar a história do clube e das suas diferentes modalidades – sendo que o futebol ofusca, claro, todas as outras.



Haveria muitas coisas a dizer sobre o museu, mas gostaria de me concentrar na mensagem e no sentimento que transmite através da sua comunicação escrita e das ligações que cria com as pessoas.

Este é claramente um museu para e sobre pessoas. Um museu sobre paixões. Procura contar a história de uma forma que as pessoas, todo o género de pessoas, entendam, se sintam relacionadas com ela, envolvidas nela. Pensando nos museus de arte ou de história, diria que a opção aqui não é narrar simplesmente alguns factos ou explicar técnicas. A opção é reforçar a identidade do clube – apresentando os seus valores, os seus objectivos, conquistas, a sua contribuição para o país como um todo e para as vidas dos indivíduos.

(junção de duas fotos)

No que diz respeito às pessoas, encontramos neste museu tanto os ‘artistas’ (jogadores de futebol, outros atletas, treinadores) como também os que desfrutam da ‘arte’ (pessoas famosas e sócios e fãs anónimos). Os pensamentos e sentimentos de todos eles têm um lugar nas paredes deste museu, ninguém é mais importante. Assim, vemos uma instalação com as caras de sócios do clube, mas também um cenário especial com citações de escritores, cantores, actores e de outras figuras públicas que apoiam o clube.




“É diferente, é futebol”, poderão dizer. “Têm dinheiro, isto faz toda a diferença”, poderão dizer.

Começando pelo fim, não é uma questão de dinheiro. É uma questão de atitude. O dinheiro pode permitir a um museu como o Museu Benfica usar uma série de audiovisuais e outros truques caros para abrilhantar a experiência. Mas todos os museus, independentemente do dinheiro que têm, produzem painéis e legendas (e folhetos e websites). A linguagem que usam, a história que optam por contar, as pessoas a quem se dirigem são opções que nada têm a ver com dinheiro.



O futebol atrai mais pessoas do que a arte ou a história ou a arqueologia? À primeira, podemos dizer que sim. Mas, pensando melhor, talvez a arte e a história e a arqueologia atraiam também, mas não quando são representadas em museus…. Talvez quando um amigo nos conta uma história e desperta a nossa curiosidade; quando vemos uma reportagem ou um documentário na televisão; quando lemos uma notícia na Internet ou no Facebook. Ou seja, quando nos encontramos num contexto confortável onde alguém fala connosco numa linguagem que entendemos, partilha os seus conhecimentos e entusiasmo sobre uma temática querendo mesmo comunicar connosco, põe os seus sentimentos na narrativa, torna-a numa conversa normal entre pessoas.



Não podem os museus falar e escrever sobre arte e história e arqueologia e uma série de outras matérias transmitindo paixão, maravilha, alegria, orgulho, tristeza, desespero, entusiasmo? Não podem falar e escrever para as pessoas sobre outras pessoas? Não podem criar empatia, a necessidade de ler mais, de descobrir mais? Acredito que podem, e alguns fazem-no, mas muitos outros optam por não o fazer. A necessidade de impressionarmos e garantirmos a aprovação dos nossos pares torna-se em muitos casos na prioridade quando se toma este género de decisões. Dizemos que “Estamos aqui para todos, os museus são para as pessoas”, mas a prática está longe de confirmar a retórica.



A diferença entre o Museu Benfica e muitos outros museus que visitei é que este permanece fiel à sua missão. É um museu para e sobre pessoas e isto não é apenas retórica, é algo que se confirma em cada opção (mais ou menos bem sucedida; mais ou menos necessária) no desenvolver da história que se pretende contar. No Museu Benfica senti as pessoas, senti as suas paixões, o seu orgulho, a sua angústia, a sua tristeza, a sua alegria. E isto acabou por me fazer ficar mais tempo no museu do que tinha inicialmente pensado.


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