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Monday, 22 July 2013

Apresento-vos a Rosa Shaw

Rosa Shaw (Foto: Maria Vlachou)
Apresento-vos a Rosa Shaw. É a primeira pessoa que nos cumprimenta quando entramos no Kennedy Center for the Performing Arts. É um dos guardas do memorial e uma das caras da instituição. É bem educada, tem sentido de humor, é prestável. Quando alguém parece estar perdido ou confuso, não espera que lhe peçam ajuda, aproxima-se e tenta ver se pode ajudar. A farda poderia causar alguma inibição nos visitantes – uma preocupação permanente entre os que trabalham na área da comunicação – mas, olhando para a Rosa e a forma como faz o seu trabalho, torna-se claro que, mais do que uma questão de aparência, é uma questão de atitude.  

A Rosa faz-me pensar em vários guardas que tenho encontrado em museus. Pessoas que parecem extremamente aborrecidas e cansadas; ou pessoas que evitam o contacto visual e depois seguem-nos de perto, apesar de sermos o único visitante na sala; ou pessoas que estão a discutir em voz alta os seus problemas familiares ou laborais, não dando nenhuma atenção aos visitantes. Guardas deste género fazem-me pensar o quão mais interessante seria o seu trabalho, e qual seria o benefício para o museu ou a instituição cultural em que trabalham, se lhes fosse dada formação adequada e responsabilidades diferentes – mais responsabilidades – do que simplesmente estarem sentados numa cadeira ou de pé num canto, sisudos e aborrecidos, interagindo o menos possível com os visitantes.

Guardas no Brooklyn Museum (Foto: Maria Vlachou)
Digo isso porque tive também outras experiências. Há três anos, juntei-me a uma visita guiada à exposição das Tapeçarias de Pastrana no Museu Nacional de Arte Antiga em Lisboa. Quando a visita acabou, dirigindo-me à saída, ouvi um guarda a falar com duas senhoras, explicando tudo o que uma pessoa precisava de saber sobre aquelas obras, mas com um entusiasmo e empenho que igualava aquele do pessoal do Serviço Educativo. E numa linguagem muito mais acessível do que aquela dos textos nos painéis. Mais recentemente, numa visita à exposição de El Anatsui no Brooklyn Museum, ouvi duas guardas a falar sobre uma das obras. Adorei ouvir a sua conversa. Mais tarde, uma delas cumprimentou um pequeno grupo de visitantes e ofereceu-se para tirar-lhes uma fotografia à frente de uma das obras, para poderem ficar todos nela. Todo o ambiente estava descontraído e amigável e informal, senti que fazia toda a diferença.

Os guardas dos museus podem parecer silenciosos e sisudos, até ameaçadores às vezes, mas têm olhos e sentimentos e opiniões sobre as obras que os rodeiam. Há umas semanas, a Washington Post publicou um artigo muito interessante sobre os guardas dos museus da capital americana (ler aqui), onde falavam das suas obras favoritas e o porquê de serem as suas favoritas. Uma delas dizia que o facto de trabalhar num museu despertou o seu interesse pela arte e, consequentemente, fê-la olhar para todas as coisas de uma forma diferente. Ao ler as suas entrevistas, pensei como gostaria de ter tido uma conversa directa com eles, como visitante e como profissional.



Numa instituição cultural, o pessoal da Frente de Casa (sejam eles guardas ou assistentes de sala ou bilheteiros) são algumas das pessoas mais importantes na equipa no que diz respeito ao marketing institucional. São a cara, são a voz, são a atitude. São também os ouvidos, uma vez que estão mais próximos dos visitantes ou espectadores do que a Gestão. O pessoal da Frente de Casa tem um papel decisivo na qualidade de toda a experiência de visitar uma instituição cultural. Uma exposição que nos desiludiu ou um espectáculo que provou ser um desastre não nos vai manter afastados para sempre; assumimos um risco e sabemos que poderá não vir a corresponder à expectativa. Por outro lado, se não formos bem tratados, se nos depararmos com funcionários que são mal educados ou de mau humor, que não têm a informação que precisamos, que não são prestáveis ou que mostram não se preocupar, isto poderá fazer toda a diferença e determinar se vamos voltar ou não. Mesmo quando temos que escolher entre duas exposições ou dois espectáculos interessantes, é muito provável que o atendimento ao público, o lugar onde nos sentimos mais bem tratados, faça toda a diferença na nossa decisão.

No entanto, apesar da sua posição e papel estratégicos, o pessoal da Frente de Casa é normalmente negligenciado pela Gestão; menosprezado também. Não lhes é dada formação adequada em relações públicas e atendimento ao público; não lhes é dada informação sobre o que estão a guardar ou a vender ou o que vão ver as pessoas que encaminham aos respectivos lugares; muito frequentemente, não lhes é dada sequer informação importante sobre o que se passa na instituição na qual trabalham em termos de programação ou horários ou preços / descontos ou outras informações práticas que o público procura (já alguma vez presenciaram o desconforto e constrangimento de um membro da Frente de Casa quando não pode responder a uma pergunta lógica ou, pior, quando é informado pelo público sobre o que se passa na instituição onde trabalha?); sentem-se frustrados pelo facto da sua opinião não ser tida em conta, até quando se trata de opiniões e comentários do público que eles simplesmente transmitem superiormente, porque os ouviram ou porque os receberam.

Os funcionários da Frente de Casa não são o pessoal que ‘apenas’ guarda ou ‘apenas’ vende ou ‘apenas’ responde ao telefone ou ‘apenas’ leva as pessoas ao seu lugar. São uma parte valiosa da equipa, a parte mais visível. São aqueles que dão as boas vindas ao público, que falam com ele, que promovem a instituição – não apenas os seus conteúdos, mas também a sua visão e os seus princípios. Parece óbvio e natural que lhes sejam dadas as ferramentas para poderem fazer o seu trabalho e fazê-lo bem. A Rosa parece ter prazer em fazer o seu trabalho. E é um prazer vê-la fazê-lo.

Monday, 8 July 2013

'Apenas' um museu, 'apenas' uma artista?

A artista Ahlam Shibli no Jeu de Paume (Foto LP/Philippe de Poulpiquet, retirada do jornal Le Parisien)
Já tinha escrito aqui sobre a minha experiência de há vinte anos quando visitei um museu de história na cidade de Halifax no Reino Unido. Tinha ficado absolutamente chocada quanto vi, numa das fotografias expostas, combatentes da resistência cipriota contra o poder britânico a serem identificados como “terroristas”. Ao mesmo tempo, penso que me apercebi naquela altura – tinha 23 anos – que havia pessoas que contavam aquela mesma história de uma forma completamente diferente. Os homens na fotografia poderiam ter matado os seus entes queridos, que tinham sido enviados pelo seu país para defender uma autoridade, na sua opinião, legítima.

Mesmo assim, independentemente do meu choque, não ameacei o museu com uma bomba, não iniciei uma petição para fechar a exposição. Que é exactamente o que tem acontecido em Paris nas últimas semanas como resposta a certas fotografias exibidas no âmbito da exposição Foyer Fantôme, no museu Jeu de Paume, pela artista palestiniana Ahlam Shibli. Porquê? Porque certas pessoas sentiram que a exposição de fotografias de bombistas suicidas palestinianos, e o facto de serem referidos como “mártires”, era uma forma de glorificar o terrorismo. Considero, obviamente, as reacções e ameaças dos grupos pró-Israelitas totalmente inaceitáveis. Mas devo também dizer que não me surpreendem. O assunto é sensível, controverso, e aqueles que afirmam estar surpreendidos pelas fortes reacções de certos grupos ou que nos avisam relativamente ao retorno da censura (ler o artigo de Emmanuel Alloa La censure est de retour) ou são ingénuos ou não são honestos com eles próprios e com os outros. Não há nada de novo ou de surpreendente nestas tentativas de censura, aconteceram no passado e voltarão a acontecer. Mas não é sobre isto que quero falar.

Elogio os museus que têm a coragem de tocar em assuntos difíceis e controversos. Os museus devem fazer exactamente isso: desafiar as nossas ‘histórias’, apresentar ‘o outro lado’, provocar debate, criar espaço para isso. No entanto, não tenho a certeza se o propósito do Jeu de Paume era esse.

Lê-se no website do museu relativamente à exposição: “Morte, a última série de Ahlam Shibli, especialmente concebida para esta retrospectiva, mostra como a sociedade palestiniana preserva a presença de ‘mártires’, de acordo com o termo usado pela artista. Esta série testemunha uma vasta representação dos ausentes através de fotos, cartazes, painéis e graffitis expostos como forma de resistência.” O museu parece ter perfeita consciência que o uso do termo ‘mártir’ pode ser controverso e atribui o mesmo à artista. Por outro lado, a artista, citada no artigo de Emmanuel Alloa, afirma que “O meu trabalho é apenas mostrar, não é nem denunciar nem julgar”. 

Na minha opinião, as exposições não mostram ‘apenas’. Nem os artistas. Exposições e artistas fazem afirmações. A Ministra Francesa da Cultura pareceu-me muito mais afirmativa no seu comunicado público e não pareceu querer fugir àquela que é a verdadeira questão: “Esta alegada neutralidade pode também ser chocante”, disse ela, “e causar más interpretações, uma vez que não explica o contexto das fotografias, que não é apenas aquele da perda, mas também o do terrorismo.” (ler o comunicado na íntegra aqui).

Death nr. 37, por Ahlam Shibli (imagem retirada do blog Lunettes Rouges)
O Ministério pediu ao museu para completar a informação disponibilizada aos visitantes para, por um lado, clarificar e explicar melhor o propósito da artista e, por outro, para fazer a distinção entre a proposta da artista e posição da instituição. A Ministra foi atacada de todos os lados, pró e contra a exposição. Pessoalmente, não vejo porque é que um museu deveria manter a distância das suas opções da forma como parece ter sido sugerido pelo Ministério Francês. O que deveria ficar mesmo claro é por que razão o museu escolhe apresentar a exposição A ou B ao público, como é que esta escolha vai ao encontro da sua missão e programação, o que pretende comunicar, que género de reflexão e discussão procura promover.

Não posso dizer que são claros para mim os propósitos do Jeu de Paume e as razões porque optou por apresentar uma artista que ‘quer apenas mostrar’. Procurei várias vezes no website do museu a existência de um programa paralelo que poderia complementar a exposição com comunicações e debates. Nada. Quando foi finalmente anunciado um debate, organizado pelo museu e pelo Observatoire de la Liberté de Création, “reagindo à controvérsia gerida pela exposição”, este iria abordar questões como a liberdade da representação artística, a responsabilidade das instituições que expõem obras que possam causar polémica, a liberdade do visitante de ter acesso às obras e a liberdade de expressão em todas as suas componentes (ler aqui).

Isto é tudo muito bom. Isto é exactamente o que deveria ter sido programado antecipadamente e não como reacção a uma polémica. E deveria ter ido mais longe do que a discussão geral da liberdade de criar, liberdade de expor, liberdade de visitar. Esta exposição levanta outras questões importantes e específicas.

Teria esperado que o Jeu de Paume não fingisse que não estava à espera de uma enorme polémica quando bombistas suicidas palestinianos são referidos como mártires. Teria esperado que a artista não quisesse “apenas mostrar”, como se fosse ‘apenas’ uma repórter, como se não tivesse tirado e exposto estas fotos com a intenção de fazer uma afirmação. Teria esperado que ambos, o museu e a artista, quisessem verdadeiramente provocar um debate, empurrar as fronteiras para a frente, criar espaço para discutir o que é história, identidade, conflito, justiça, resistência, um acto ou um estado terrorista. Esta é a questão palestiniana, aqui não há “apenas”.

Ainda neste blog

As histórias que contamos a nos próprios

Silenciosos e apolíticos?

A longa distância entre Califórnia e Jerusalém


Mais leituras

Marie-José Mondzain, Artiste palestinienne : liberté pour l'art au Jeu de Paume (Le Monde, 21.6.2013)


G.W. Goldnadel, France/Jeu de Paume: double honte (Israël Flash, 21.6.2013)
Marta Gili: Je refuserai toujours lacensure au Jeu de Paume. Entrevista da Directora do Jeu de Paume (Le Figaro, 24.6.2013)

Monday, 1 July 2013

Blogger convidado: "Useo", por Jorge Barco (Colómbia)

Medellín é a segunda maior cidade da Colómbia. Para alguns, continua a ser sinónimo de cartel de drogas. Para outros, é a cidade-exemplo, que através de políticas culturais e sociais, conseguiu baixar o índice de criminalidade e mostrar aos seus habitantes novos caminhos para o seu desenvolvimento pessoal e também comunitário. Recentemente, li uma entrevista de Jorge Barco, Director do Departamento de Educação e Cultura do Museo de Arte Moderno de Medellín. Fiquei muito contente quando aceitou escrever para o Musing on Culture e partilhar a sua reflexão sobre o papel que as instituições culturais, e em particular os museus, podem ter no desenvolvimento de uma nova relação com a criação, o património e a vida em comunidade. mv

Colectivo Imoar (Foto: Andres Sampedro)
“La estabilidad que estamos construyendo ahora es afectivopráctico y no material, un inmenso laboratorio de la imaginación, aprovechando de toda grieta que se puede encontrar para dar cuerpo a lo que sentimos dentro” Las Grietas

O convite de Maria Vlachou para escever no seu blog, assim como do  ICOM para participar no próximo encontro de Museus no Rio de Janeiro, é para mim uma oportunidade para começar a organizar algumas ideias que têm motivado grande parte da minha reflexão como gestor, educador e activista nos museus da região de Antioquia (Colómbia) nos últimos  sete  anos.

Hoje faz sentido pensar o papel que as instituições culturais – e em particular os museus – podem ter como cenários propícios para reconfigurar uma nova relação com a criação, o património e a vida em comunidade. Os museus – num papel que se aproxima decididamente ao dos 'centros culturais', no caso especial de Medellín– têm um papel importante na promoção de programas educativos, culturais, expositivos, que ultrapassam os muros da instituição para chegar a favelas e populações distantes. E do seu interior, reinventam continuadamente as formas de se relacionarem com os seus públicos a partir da educação expandida (Edupunk), os novos enfoques de gestão cultural e o trabalho em rede.

Do seu lado, o Museo de Arte Moderno de Medellín (MAMM) – reinstalado, desde há quatro anos, numa antiga oficina de fundição de metais – tem sido consolidado como um lugar estratégico no país, pela sua programação expositiva, mas sobretudo  educativa e cultural. É um lugar propício para formular as seguintes perguntas:

Quais são as linhas orientadoras deste trabalho? Quais são os elementos para começar a criar uma nova institucionalidade e definição para o que historicamente temos chamado  Museu?

A procura de respostas para estas perguntas leva-me a propor a construção de confiança como um dos princípios orientadores: um exercício fino, perseverante e delicado de tecido e relacionamento comunitário que se  desenvolve a par com o trabalho colaborativo e em rede, o qual  se pode ver  desenhado na  cartografia de uma cena cultural cada vez mais expandida. O projecto  LABSURLAB é apenas um exemplo de como uma iniciativa que surgiu no MAMM se converteu numa rede mundial  de activistas que trabalham em torno das noções de arte, ciência, tecnologia e comunidades com um enfoque biopolítico.

LABSURLAB (Foto: Checho)

Através da construção de mapas dos projectos que se desenvolvem no território, estamos a criar relações de sentido entre os actores da cultura na cidade, na região, no continente e no mundo, procurando vincular cada vez mais grupos sociais, identitários, profissionais, assim como instituições, universidades, empreendimentos, projectos e comunidades, para a mobilização de ideais. A cartografia  dos projectos culturais é um instrumento fundamental nos processos de criação cultural contemporânea.

Uma outra linha de acção é dirigida à exploração de novas definições para o que normalmente chamamos gestão cultural, procurando conferir-lhe todo o poder criativo que alberga, a partir de modelos abertos que permitem reinventar as relações de criação, circulação e apropriação; reconhecendo que – assim como acontece com as práticas artísticas– nos projectos culturais boa parte do trabalho radica na mesma gestão. Necessariamente, esta situação faz-nos também repensar os papéis e as relações – entre quem cria, quem recebe, quem educa, quem exibe e quem gere –, ao mesmo tempo que ocorre uma transformação dos campos disciplinares.

Há mais um elemento que vincula o trabalho como activistas culturais às tecnologias, para além dos aspectos meramente técnicos: as ferramentas que nos proporcionam este momento albergam novos formatos para a criação colaborativa, a educação, a gestão de projectos, o activismo, a reorganização do trabalho e a produção dos bens comuns. Os processos culturais e artísticos ligados à cultura digital são hoje territórios de limite, fronteira e de intercâmbio, e o museu é um lugar estratégico a partir do qual se podem activar estes processos.

Uma linha adicional tem sido orientada para gerar diálogos criativos a partir do museu como instituição com os movimentos e iniciativas independentes, que podem ir desde residências artísticas, circuitos de música e bares a espaços não convencionais de educação não formal, com o objectivo de realizar projectos desde a cooperação e o mutualismo. O propósito tem sido gerar ambientes de diálogo, de co-criação e de oportunidades para ambas as esferas  (instituições e movimentos).

Equipa Educação e Cultura do MAMM (Foto: Clara Botero)
A partir desta perspectiva, a função do museu é global e, ao mesmo tempo, local, proporcionando um lugar de encontro entre as múltiplas camadas e ofícios da criação contemporânea e potenciando o desenvolvimento das subjectividades. Um lugar de encontro, trabalho, produção e investigação, para além de exposição e divulgação, onde todos os elementos se misturam, se alimentam e desde o qual poderia surgir uma nova institucionalidade e espaço que proponho que se chame provisoriamente ‘Useo’.


Jorge Bejarano Barco trabalha no sector dos museus da região de Antioquia (Colómbia) desde 2007. Actualmente, é Director do Departamento de Educação e Cultura do Museo de Arte Moderno de Medellín. No passado, trabalhou no Museo de Antioquia, na Rede de Museus e nos Conselhos Municipal e Departamental de Cultura. Participou na criação de projectos e redes independentes para a confluência entre arte, ciência, tecnologias e comunidades (ver aqui e aqui e aqui). Foi conferencista convidado na Cátedra Medellín-Barcelona, no Encuentro Internacional los Museos en la Educación organizado pelo Museo Thyssen Bornemisza em Madrid, no Master en Gestión Cultural y Economía de la Cultura de la Universidad de Valladolid, na Facultad de Diseño y Arquitectura da Universidad de Buenos Aires, no Festival de Cultura Digital de Rio de Janeiro, no Festival Internacional de la Imagen (Manizales) e nas Universidades de Antioquia e Jorge Tadeo Lozano (Bogotá). Actualmente, os seus interesses concentram-se na investigação sobre produção cultural, filosofia dos media, educação expandida, propondo diálogos entre instituições e movimentos, desde o trabalho colaborativo em rede ou a redefinição de uma série de acções que juntam a arte e o activismo cultural.

Monday, 10 June 2013

Como toma o seu El Greco?

Museu de Belas-Artes, Budapeste (Foto: Maria Vlachou)
Quando entro numa sala de museu que tem um El Greco pendurado na parede, tudo pára à minha volta. Não há barulho, não há movimento, apenas eu, ele e silêncio. Em alguns casos em que fui apanhada de surpresa, porque não sabia que tinham um El Greco na suas colecções, houve mais ainda: pareceu que de repente deixei de respirar, senti uma fraqueza nas pernas. Ele é um dos meus pintores favoritos. E é também um homem de Creta, que levou Bizâncio com ele para qualquer lugar onde fosse e que nunca assinou as suas obras numa língua que não fosse a dele.

Vi El Greco em várias ocasiões e em diferentes circunstâncias: exposições blockbuster nas Pinacotecas de Atenas e Londres, salas muito movimentadas no Louvre ou no Metropolitan ou em Toledo, um canto sossegado na Phillips Collection em Washington ou, mais recentemente, numa sala grande quase só para mim, no Museu de Belas-Artes de Budapeste. Qual foi a melhor experiência? Todas elas.

Várias vezes nos últimos tempos li e ouvi comentários de profissionais de museus e de visitantes que se queixam que os museus não são o que eram. Sentem que não podem ter o que chamam “uma verdadeira experiência” porque estão cheios de gente. Anseiam para poder estar sozinhos com a arte e são muito críticos deste museu novo onde toda a gente é bem-vinda, mesmo que não estejam lá pelas “razões certas”. Compreendo as pessoas que procuram um ambiente específico de calma e intimidade quando visitam. Mas preocupa-me quando parece que acham que os museus foram feitos só para eles (e assim deveriam ficar) e quando os profissionais apoiam estas opiniões.

Os museus têm que dar resposta a todo o tipo de pessoas e necessidades. Quando se procura diversificar a audiência, levanta-se sempre a questão de como o fazer sem afastar os públicos existentes. Não é fácil de qualquer forma e torna-se ainda mais difícil no caso de museus movimentados e populares. Há visitantes que sabem mais e visitantes que sabem menos; visitantes que procuram intimidade e visitantes preparados para fazer a fila durante horas e para visitar na companhia de centenas de outras pessoas. Necessidades diferentes, perspectivas diferentes, mas nenhuma mais legítima que as outras, diria eu.

Uma amiga enviou-me na semana passada o artigo de Brian Cohen How to visit a museum. Apesar de não concordar com as suas opiniões sobre o que os museus representam (ou deveriam representar) na vida cultural de quem os visita, vejo que é um visitante que sabe muito bem o que procura e gostei muito de ler os seus conselhos para as pessoas que desejam adaptar a visita às suas necessidades e interesses. Os museus talvez pudessem adoptar esta ideia e aconselhar os seus visitantes no que diz respeito a horários e dias mais calmos, percursos sugeridos ou alternativos etc. (alguns já o fazem). Deveriam estar abertos e ser corajosos, deveriam reconhecer que os seus visitantes têm agendas diferentes e tentar orientá-los nos seus propósitos. E acima de tudo, deveriam deixar claro que um visitante não é mais bem-vindo do que outro.

Voltando a mim, uma visitante como tantos outros, tomo o meu El Greco como estiver. Adoro os encontros íntimos, aqueles momentos preciosos em que o tenho só para mim e posso parar, olhar e sentir o tempo que quiser. Mas já mais que uma vez tive que o partilhar com muitas-muitas outras pessoas, tive que ficar na fila e esperar pacientemente até ser a minha vez de ficar em frente a um quadro, sentindo-me um pouco pressionada pela pessoa atrás de mim. Faz tudo parte do ritual. Sabia que ia ser assim e gostei daquele sentimento de comunidade, de prazer e alegria partilhados. Gosto de museus calmos e gosto de museus movimentados. Gosto de museus.


Ainda neste blog

Mais leituras
Are blockbuster exhibitions worth queueing for?Entrevistas com Miranda Sawyer e Charles Saumarez Smith no Observer (12.11.2011)
Blockbuster art: good or bad?. Entrevistas por Emine Saner no Guardian (25.1.2013)




Monday, 8 April 2013

Digam "clik"!


Quando visitei o Museu de Viena há umas semanas, o que mais chamou a minha atenção foi Unter 10, uma exposição temporária com objectos da colecção do museu que medissem até 10 centímetros. Achei que este era um tema original para uma exposição temporária num museu de cidade. Quando cheguei à entrada da exposição, fiquei contente por ler um texto introdutório muito bem escrito e de contemplar um design gráfico excelente, assim como um painel visualmente impressionante com lupas em linha, prontas para serem usadas pelos visitantes que iriam explorar a exposição de miniaturas.  

Perguntei a dois guardas se poderia tirar uma fotografia destes painéis de entrada. Olharam um para o outro não sabendo muito bem o que responder. O mais novo disse “Suponho que sim, porque não. Mas… eu sou novo aqui.” O outro guarda entrou na exposição para perguntar a um colega e voltou com o veredicto: ‘não’. Os visitantes não podiam tirar fotografias da exposição, mas, se eu quisesse, poderia comprar o catálogo… Expliquei que não queria fotos dos objectos, queria apenas uma foto dos painéis de entrada para as minhas aulas. Pareceram ter pena, mas… ‘não’. No dia seguinte escrevi ao director do museu. Expliquei o que tinha acontecido, disse que era uma pena o museu não permitir a fotografia e perguntei se poderia, então, ter uma foto dos painéis de entrada do arquivo do museu para usar nas minhas aulas. Nem isso, questões de direitos de autor… (?)

É muito bom poder tirar fotografias em museus. No meu caso particular, porque estou sempre à procura de exemplos (bons e maus) para ilustrar as minhas aulas. Suponho que muitas outras pessoas tirem fotos por razões profissionais (e não, comprar o catálogo não é resposta para as nossas necessidades…). Na maioria dos museus que visitei nos últimos tempos a fotografia era permitida e foi um grande alívio. Senti-me imediatamente mais à vontade. No entanto, em alguns casos, quando expliquei que queria as fotos para as aulas, tive que assinar um papel a dizer que não ia usá-las com fins comerciais. Noutros casos, os funcionários do museu não conseguiam decidir-se, pediram-me para esperar para perguntarem a outra pessoa e quando eu já estava a acabar a visita, eles ainda não tinham uma resposta…

Mas gosto também de ver outros visitantes tirar fotografias nos museus: de uma obra de arte famosa, de uma obra de arte favorita, de um objecto que chamou em particular a sua atenção ou que os tocou de uma forma especial ou despertou a sua curiosidade ou será uma lembrança da sua experiência (e não, comprar postais não é a mesma coisa…).



Quando se fala em fotografia nos museus, lembro-me imediatamente de It´s Time we Met, a iniciativa brilhante do Metropolitan Museum of Art, onde fotografias tiradas pelos visitantes no museu entram numa competição e são depois seleccionadas para os materiais promocionais do museu. Que forma maravilhosa de envolver os visitantes, partilhar o seu entusiasmo e promover o próprio museu (sem custos…).  Aqui em Portugal, a nossa colega Inês Fialho Brandão também organizou um concurso no Flickr em 2010, chamado Museus de Portas Abertas  para os museus municipais de Cascais. Depois do sucesso da iniciativa, a Câmara Municipal decidiu permitir a fotografia sem flash nos seus museus. Não parecem ter-se arrependido… Ao mesmo tempo, o Powerhouse Museum parece ser bastante compreensivo com a necessidade dos visitantes de tirarem fotografias, por razões pessoais ou profissionais, e até incentiva-os a partilharem-nas com o museu... (ver aquiÉ uma questão de atitude.

Alguns museus adaptaram-se rapidamente às novas realidades criadas pela tecnologia digital e pelas redes sociais na forma como pessoas de todas as idades visitam os museus. Outros estão agora num processo de adaptação, tendo sentido a necessidade de se manterem actualizados e de se envolver com os seus visitantes através de novos meios. Outros remam obstinadamente contra a maré e, em alguns casos, se perguntarmos “porquê”, os guardas não nos sabem dizer. Parece que é por ter sempre sido assim e ninguém lhes ter dado instruções ao contrário. Um dos momentos mais engraçados para mim ultimamente foi no Museum Nacional de Arte Ucraniana, onde à entrada de cada sala havia sinalética (o ícone habitual da máquina fotográfica) a indicar que não era permitido fotografar. Assim, um jovem visitante tirava fotos de todos os quadros com o seu telemóvel e os guardas olhavam para ele, mas não interferiam… Quererá isto dizer que nem pensar em fotografar com uma máquina, mas está tudo bem se for usado um telemóvel? Nem me atrevi a tirar a minha máquina do bolso…

O caso que mais me intrigou no que diz respeito à fotografia nos museus foi o de França. Por um lado, porque os profissionais do sector tiveram que se dirigir ao Ministério da Cultura e propor a criação de um grupo de trabalho para reflectir sobre este assunto (ler aqui e aqui). Fiquei surpreendida que fosse preciso tanto… Por outro lado, considerando a atitude algo fundamentalista do Musée d´Orsay – que em 2010 proibiu fotografar tanto as obras como o próprio edifício do museu – talvez se percebam a necessidade de discutir esta questão ao mais alto nível. A proibição no Musée d´Orsay é oficialmente justificada pelo facto de ser extremamente complicado para os guardas controlarem o uso do flash, porque os visitantes que tiravam fotografias abrandavam o ritmo de todos e porque havia perigo para as obras de arte. A tudo isto, o Presidente do museu, Guy Cogeval, acrescentou mais uma razão, altamente questionável: o facto dos visitantes não olharem mais para as obras e não permitirem a outros fazê-lo. “Meu Deus”, lê-se numa entrevista publicada no catálogo de uma exposição, “estamos a regredir para uma época de barbaridade.” (ler aqui).

Fotografia tirada 'ilegalmente' pela autora no Musée d´Orsay. Não resisti...
A fotografia nos museus pode, realmente, criar alguns problemas práticos, mas muitos museus (a até os próprios visitantes) parecem ter encontrado formas de os resolver. Pode ainda levantar questões de direitos de autor no que diz respeito à arte contemporânea – se bem que é muito engraçado ver que uma determinada obra não pode ser fotografada num museu, mas pode ser noutro…Mas é um facto que o permitir tirar fotografias nos museus trouxe vários benefícios para a relação museu-visitante e, além disso, para a promoção do museu em si, através do canal de publicidade que sempre funcionou melhor do que qualquer outro: o passar a palavra. Não vejo nenhum acto de barbárie nisso… Vejo pessoas que queiram ficar com o registo de uma experiência (esperemos que de uma boa experiência), que queiram partilhá-la com outros. A forma como cada pessoa vive esta experiência pode não ter nada a ver com a forma como a mesma foi idealizada pelo curador, mas esta foi sempre a questão nos museus, não foi?


Leituras

Visiteurs Photographes au Musée, editado por Serge Chaumier, Anne Krebs e Mélanie Roustan, foi publicado em Fevereiro e reúne artigos muitos interessante, agrupados em três partes: I. Interdire / autoriser. Le juridique au centre de la controverse?; II. Du côté des visiteurs. Pratiques photographiques et usages des photographies; III. La photographie comme instrument des politiques des publics. Mélanie Roustan apresenta o livro aqui.


Orsay Commons, entrevista com Julien Dorra (também disponível em português em Reprograme, pág. 130)

Monday, 28 January 2013

Blogger convidado: "Um pequeno passo para o homem, um salto gigante para um museu", por Ania Danilewicz (Polónia)

Conheci a Ania Danilewicz em Outubro passado. Estava em Portugal por alguns meses e queria saber mais sobre os museus e, em particular, sobre o GAM – Grupo para a Acessibilidade nos Museus. Houve mais dois encontros depois desse, longas conversas, e em ambas Ania impressionou-me com a sua energia, a sua vontade de aprender, o seu espírito crítico, o seu desejo de poder intervir e fazer mais. Neste post partilha, com muito sentido de humor, os seus pensamentos e sentimentos por regressar ao seu país, cheia de ideias que poderiam parecer inúteis num meio bastante resistente à mudança, só para se aperceber que coisas boas acontecem em todo lado, até no seu próprio museu e ainda que numa escala mais pequena. Não é impossível, mas é uma passo de cada vez. Quem tiver sorte, encontra três velhas senhoras pelo caminho… mv 

Adam Malysz, melhor atleta Polaco de salto de esqui (Foto: Associated Press/East News)
Há algum tempo, três senhoras com muita idade estavam a visitar a nossa exposição. Esta era uma apresentação bastante moderna (interactiva também), mas elas preferiram fazer uma visita mais tradicional: olhando só, não tocando, circulando em silêncio, mantendo alguma distância dos objectos expostos. Mesmo assim, pareciam satisfeitas, porque a exposição mostrava a cidade no tempo da sua juventude. Perto da saída, um dos guias aproximou-se delas:

“-Já experimentaram a nossa nova estação de escuta?”
“- Por amor de Deus, não! Isto não é para nós… demos espaço aos jovens…
“- Mas podem encontrar canções originais do tempo em que eram jovens!”, insistiu o guia. “Vejam, este é um telefone original dos anos 30. Se escolherem os números ímpares, podem ouvir todos estes sucessos!”.

E as três velhas senhoras fizeram-no. Pegaram no telefone, que é uma estação de escuta, e aproximaram-se todas do aparelho. Aproximaram-se, mas ainda com muito cuidado. Um pouco depois começaram a… cantar suavemente, dando risadinhas, como se fossem meninas. Experimentaram também os números pares, que continham as mesmas canções mas num remix contemporâneo. E divertiram-se tanto!

Porque é que estou a falar nisto? Porque me salvou da minha depressão pós-Portugal! Aqui estão alguns dos sintomas desta minha doença recente (se tiverem alguns deles, procurem o mais rapidamente possível três velhas senhoras!).

Regressei recentemente de uma visita prolongada a Portugal, onde uma das minhas ocupações permanentes foi visitar museus e conhecer pessoas deste sector. Durante a minha estadia, descobri com prazer e surpresa, coisas muito atraentes, como o percurso especial no Museu do Azulejo, composto de réplicas de painéis de azulejos especialmente criadas para cegos – para serem tocadas e para uma pessoa poder sentir a sua estrutura, a forma, a superfície e as cores - , mas recebidas com muito interesse também por outros visitantes. Fiquei maravilhada com a minha visita ao Museu da Comunidade Concelhia da Batalha, admirando todos os serviços que tornam esta pequena instituição tão especial para a comunidade local e tão importante para a rede mundial de profissionais de museus. E apreciei muito todas as minhas conversas com a Maria Vlachou no contexto da acessibilidade e do GAM – Grupo para a Acessibildade nos Museus.

Apercebi-me também, claro, que os exemplos maravilhosos são as excepções que confirmam a regra. E a regra é a mesma que em todo o lado – a maioria dos museus não é moderna, aberta e preparada para novas tendências. Mesmo assim, encontrei bons exemplos suficientes para me sentir inspirada e motivada para novos projectos no meu museu.

Trabalho no Museu Militar em Bialystok, um museu de tamanho médio, sem nada de muito especial. É moderno o suficiente (a exposição permanente foi mudada nos últimos três anos, sendo esta a primeira remodelação em… 38 anos) para oferecer aos visitantes visitas guiadas e programas interessantes. Mas trata-se de um museu sub-financiado e conservador e necessita de mais mudanças. Por isso, o meu regresso significou duas coisas: o confronto entre as ideias inspiradoras que trazia comigo e a realidade do museu; a obrigação de escrever este post para a Maria sobre o sector dos museus na minha cidade e no meu país.

E esta foi a génese da minha doença. Estava desesperadamente à procura de algo bom e impressionante que mereceria a pena ser apresentado neste blog internacional. “O que é que poderia alguma vez ficar ao lado do Louvre ou dos National Museum Liverpool?”, pensei. Uma amiga fez-me a pergunta mais simples: “Porque não o teu próprio museu?”. No início, desatei a rir, mas pouco depois encontrei as três velhas senhoras que mencionei e aquela experiência convenceu-me, na realidade, do quanto poderia ser fácil e simples a implementação de ideias como a acessibilidade, a abertura, a participação, mesmo que os resultados não sejam tão espectaculares como noutros casos (Liverpool, Portugal, Louvre).

As três senhoras mostraram-me que a criação de um ambiente acessível e acolhedor pode simplesmente significar dar informação apropriada e estar pronto para adaptar as condições existentes às necessidades de diferentes visitantes. Se tivéssemos proposto às velhas senhoras ouvir remixes modernos de velhas canções, teriam, com certeza, recusado, tal como fizeram quando lhes propus experimentar a ‘estação de escuta’. ‘Remix’ e ‘estação de escuta’ não são palavras do seu mundo. Mas um convite para atender o telefone, que tem um papel de uma estação de escuta, parece ser uma boa maneira para as convencer a interagir com o objecto e também para lhes apresentar música moderna. Ipso facto, saltaram do nível “indivíduo consome conteúdo” para o nível “interacção individual” (apresentados por Nina Simon no seu blog, num dos diagramas de participação cultural), sem nós termos feito nada em especial ou termos preparado um programa especial. Se é tão fácil, porque é que não experimentamos fazê-lo mais vezes? Ao desenharmos aquela exposição, tínhamos planeado fazer uma audio-descrição para cegos e um audio-guia para todos os visitantes. Como não tínhamos dinheiro suficiente para comprar dois aparelhos móveis diferentes, decidimos gravar apenas uma narração, capaz de atrair qualquer visitante, independentemente das suas deficiências ou capacidades. E só nesse momento é que nos apercebemos que este é um exemplo de pensamento e design universal, um dos mais importantes desafios para os museus neste momento. Uau, até podemos fazer isso!

Poderia ainda mencionar um outro exemplo dos meus primeiros dias no museu. Era Março de 2011 e o melhor atleta polaco de salto de esqui, um herói nacional para todos os Polacos, Adam Malysz estava a finalizar a sua carreira profissional. Muitas pessoas participaram numa acção espontânea chamada “Polónia inteira põe um bigode” (Adam Malysz tem um bigode muito característico…), onde todos puseram um bigode postiço (alguns até fizeram crescer pela ocasião!). E nós participámos também! Numa altura em que o museu era sobretudo visto como um espaço antiquado e conservador, colámos bigodes coloridos em todos os manequins da nossa exposição. E foi só isso! Essa acção tão simples mudou a nossa imagem radicalmente, mostrando a nós e a outras pessoas que poderíamos afastar-nos um pouco e olhar para nós próprios com sentido de humor e que, apesar dos sérios acontecimentos históricos relatados na nossa exposição, poderíamos também ter graça e aproximar-nos das pessoas. Foi só um dia, mas deu à equipa uma força incrível para começar a pensar as nossas actividades de uma outra perspectiva, indo além dos modelos pré-definidos.

Foto: Museum Militar em Bialystok
Talvez estes exemplos não sejam grandes, significantes ou impressionantes o suficiente para serem apresentados entre notas sobre os National Museums Liverpool ou o Louvre. Mas mostram, sem dúvida, que as grandes mudanças começam frequentemente com passos pequenos. É fácil dizermos que não podemos mudar nada, por falta de dinheiro ou de pessoas. É muito mais desafiante e importante começarmos por questionar: o que posso mudar ou melhorar neste momento no meu ambiente? Estes pequenos passos podem algumas vezes ter uma influência mais alargada do que as grandes acções. Preparam-nos para nos transformarmos e para nos adaptarmos devido a uma necessidade e não a ocasiões especiais ou esporádicas.

Estou quase a recuperar da minha depressão pós-Portugal. Quase, porque no fundo tenho ainda uma forte necessidade de implementar e desenvolver novos elementos para o nosso programa. Mas agora sei como o fazer – com um passo de cada vez.


Ania Danilewicz é animadora cultural e gestora, Responsável pelo Departamento de Educação e Organização de exposições no Museu Militar em Bialystok. Antes, tinha trabalhado para o Teatro Drama na mesma cidade e foi jornalista para o maior jornal da região de Podlasie, Gazeta Wspolczesna. Tem colaborado com muitas associações e alguns projectos independentes, como a Street Culture Enthusiasts Association ENGRAM, Borderland Summer School, Foundation of the University of Białystok, Marcel Hicter Foundation in Brussels. Recebeu o Diploma Europeu de Gestão de Projectos Culturais em 2012 e frequentou o Seminário Internacional para Operadores Culturais, organizado pelo Centro Nacional de Cultura e a Fundação Marcel Hicter. Terminou os seus estudos na Universidade de Bialystok em 2005.

Monday, 21 January 2013

Não me mandem calar!

Foto retirada de Culture 24 (© Cedida pela Wallace Collection)

Em 2003, a Royal Academy teve uma exposição sobre os Astecas. River, uma criança de dois anos, exclamou “Monstro! Monstro!” quando viu a estátua do Homem Águia. O segurança pediu imediatamente à família da criança para sair, considerando que a criança se estava a portar mal. A mãe, Dea Birkett, era jornalista e alguns dias depois escrevia um artigo para o Guardian intitulado Travelling with kids, questionando: “Se restringirmos a sua atracção não filtrada pela arte quando são crianças, como é que podemos exigir que a apreciem quando têm 20 anos? Espero que os meus filhos não se portem mal. Mas gritar de alegria ao ver uma estátua não me parece ser algo reprovável. Ter-me-ia sentido muito mais perturbada se não tiveste reagido de todo. Mas talvez vocês tenham estado nos Astecas também e tenham ficado contentes quando a criança que fazia barulho se foi embora. Talvez eu tenha passado demasiado tempo entre crianças a gritar para perceber o quanto podem ser irritantes? O que acham? O River deveria ficar ou sair…?”. O incidente tinha sido amplamente discutido naquela altura e Dea Birkett fundou Kids in Museums, uma associação que procura tornar os museus mais acolhedores para crianças e famílias. Kids in Museums acaba de celebrar o seu décimo aniversário na… Royal Academy! A responsável pelo serviço educativo do museu. Beth Schneider, aproveitou a oportunidade e escreveu um longo artigo para o Guardian descrevendo todos os passos dados nos últimos dez anos no sentido de tornar o museu mais acolhedor para as famílias e especialmente para visitantes mais novos.

A Tate Modern esteve sob fogo por não pôr fim ao patrocínio da BP depois do desastre ambiental no Golfo do México em 2010 (leiam aqui e aqui). Iniciativas como Liberate Tate, Art not Oil e Platform não deixaram este assunto ficar esquecido, não só em relação à Tate, mas a todas as instituições culturais britânicas patrocinadas pela petrolífera, entre elas a National Portrait Gallery, a Royal Opera House  e o British Museum. No ano passado, estas instituições renovaram os seus acordos de patrocínio, considerando que o apoio da BP para a cultura e as artes tem sido consistente e substancial e não há razão para ser renunciado devido a apenas um incidente grave. Mesmo assim, o British Museum demonstrou uma grande abertura à crítica e abriu o seu próprio espaço para esse efeito. Em Novembro passado, teve lugar na Great Court do Museu uma flashmob teatral, organizada pela Reclaim Shakespeare Company, um protesto contra o patrocínio da BP à exposição de Shakespeare, patente no museu. Um assessor de imprensa do museu reafirmou a gratidão da instituição pelo compromisso continuado da BP e, ao mesmo tempo, reconheceu o direito da Reclaim Shakespeare Company´s de protestar, afirmando não haver rancor (ler aqui).


Quando o teatro Woolly Mammoth anunciou a reposição da peça de Mike Daisey The Agony and the Ecstasy of Steve Jobs, foi severamente criticado por muitos. O monólogo lidava com e denunciava as práticas corporativas da Apple e da Foxconn, o fornecedor da Apple na China, mas algum tempo depois da estreia, Mike Daisey foi acusado de ter fabricado alguns factos. Admitiu a sua culpa, pediu desculpa publicamente e retirou da peça todos os pontos contestados. O Woolly Mammoth permaneceu firme na sua decisão de repor a peça e na sua colaboração de longa data com Mike Daisey. No entanto, em vez de ignorar a controvérsia, na verdade usou-a para promover o espectáculo como “a peça mais notória e controversa da década”. Promoveu um diálogo muito saudável tanto com os opositores como com os apoiantes da decisão na sua página no Facebook e chegou a alimentar a conversa publicando críticas negativas dos jornais. No último dia da carreira do espectáculo, o co-fundador da Apple Steve Wozniac, que não escapou à crítica de Mike Daisey na peça, esteve no teatro para uma conversa após o espectáculo com o autor e o público.

Mike Daisey em The Agony and Ecstasy of Steve Jobs (Foto: Sara Krulwich/The New York Times)

Qual o fio condutor destas três histórias? As instituições culturais envolvidas não esconderam a cabeça na areia, não fingiram não reparar, não ignoraram as vozes das pessoas. As pessoas foram ouvidas. Não no sentido de “o cliente tem sempre razão”. Na verdade, em dois dos três casos aqui apresentados não houve mudança na decisão.  Mas entendeu-se que havia um outro lado, pessoas com convicções, expectativas e necessidades. Não estão aqui para nos adorar incondicionalmente – ‘nós’, instituições culturais. Estão aqui para nos questionar, para nos criticar, para exigir e também para nos guiar. Porque se preocupam. E porque nós nos preocupamos também, não nos escondemos. Entramos no diálogo, promovemo-lo, alimentamo-lo. Convidamo-los a envolver-se no que fazemos. Tornamo-nos parte da sua vida. E ganhamos o seu apoio.


Mais leituras:

Monday, 14 January 2013

Blogger convidado: "O museu político", por David Fleming (Reino Unido)


David Fleming é alguém que admiro e respeito muito e que tem influenciado profundamente o meu pensamento sobre o papel dos museus. Há uns anos, Josie Appleton criticou a afirmação de David que tinha entrado no mundo dos museus porque esta era a sua forma de tentar mudar o mundo dizendo: “Um objectivo admirável, com certeza, mas talvez Fleming devesse ter-se tornado um político ou assistente social e não um director de museu.” [in Watson, E. (ed), Museums and their Communities, p116]. Eu pessoalmente estou contente que David tenha entrado para os museus e que se tenha tornado um director de museu. E é com muito prazer que publicamos neste blog uma versão abreviada da sua comunicação O Museu Político, que foi feita na conferência do INTERCOM em Sydney, em Novembro passado. No fim deste texto existe um link onde o seu discurso pode ser lido na íntegra. mv

Imagem retirada do website de National Museums Liverpool.

1.   Introdução – o mito da neutralidade

É tradição dizer que os museus são, ou deveriam ser, apolíticos, e isto significa que os museus não se deveriam envolver nas relações de poder que caracterizam a sociedade. Não nos compete embrulharmo-nos no mundo das pessoas reais, dos eventos reais, da controvérsia e das opiniões. Aquilo que devíamos fazer é usar os nossos conhecimentos e a nossa perícia para criar e tomar conta das nossas colecções e para as apresentar de uma forma neutra para benefício público, flutuando numa nuvem de virtude académica, que paira muito acima das realidades mundanas da vida humana. Na verdade, continuar a fazer aquilo que muitos museus têm tentado fazer a maior parte do tempo, desde que foram criados.

Isto é, claro, o cúmulo da hipocrisia e é, verdadeiramente, uma afirmação de um vazio completo defender que os museus têm alguma vez sido ‘neutros’ relativamente a qualquer coisa que fosse. Todas as tarefas básicas que assumimos – investigar, coleccionar, apresentar, interpretar – estão sobrecarregadas de significado e preconceitos e sempre estiveram; estas tarefas são os métodos que o museu usa para servir ao público aquilo que as pessoas que dirigem o museu querem que o público veja. Os museus são construções sociais e a política é um pilar da actividade social – não se pode ter uma coisa sem a outra. Independentemente do tipo de museu, do que contém, têm sido sempre tomadas decisões por alguém sobre o que investigar, o que preservar, o que coleccionar, o que apresentar, como interpretar; e têm sido tomadas decisões sobre o que não fazer, o que não investigar, o que não preservar, o que não coleccionar, o que não apresentar, o que não interpretar.

Não tenho a certeza sobre a razão porque algumas pessoas que trabalham em museus, e outras, valorizam tanto a imagem de alguém numa busca desinteressada do conhecimento, como se, procedendo assim, evitássemos o risco de nos tornarmos políticos. A questão não é “é certo ou errado os museus serem políticos?” mas “todos os museus são políticos, porque é que alguns pretendem que não o são?”.


2. O museu político em acção

a) O modelo antigo

Depois da conquista da Grécia no século II antes de Cristo, os Romanos usaram a exposição triunfal de objectos para demonstrarem a superioridade de cultura romana sobre a grega. Esta técnica teve continuidade ao longo dos tempos, pela igreja cristã, por Carlos Magno, pela República de Veneza, por Napoleão, pelos Nazis, e por muitos outros – em todas estas instâncias, qualquer apreciação estética dos objectos expostos estava provavelmente subserviente à mensagem do poder político. Alguns dos grandes museus da Europa Ocidental são exemplos particularmente bons do modelo antigo do museu político, com as suas exposições de saque imperial e a sua presunção casual de superioridade europeia sobre outros povos. A natureza política deste género de museus tem sido revelada nas justificações para a existência de museus “universais”, um conceito que voltou a ganhar proeminência em 2003 com a Declaração sobre a Importância e o Valor dos Museus Universais  (Declaration on the Importance and Value of Universal Museums) pelos directores de um grupo auto-seleccionado de grandes museus europeus e norte-americanos. O modelo antigo do museu político é melhor caracterizado pela sua discrição. É político, mas finge não o ser – finge ser meramente ortodoxo e verdadeiro. É um museu que ia prosperar na Oceania de George Orwell.

b) O novo modelo

Imagem retirada do website de Tuol Sleng Genocide Museum.
Hoje em dia, o novo modelo de museu político manifesta-se e está a fazer campanha, em particular nas áreas dos direitos humanos e da identidade nacional: The National Museum of Australia (Canberra), The Museum of New Zealand Te Papa Tongawera (Wellington, New Zealand), District Six Museum (Cape Town, South Africa) , Tuol Sleng Genocide Museum (Phnom Penh, Cambodia), Museum of Genocide Victims (Vilnius, Lithuania), Museumof the Occupation of Latvi (Riga, Latvia), The Museum of the Romanian Peasant (Bucharest, Romania), The Vietnam War Remnants Museum (Ho Chi Minh City, Vietnam), DDR Museum (Berlin, Germany), entre outros. Há muitos mais museus deste tipo que procuram activamente emendar uma situação onde as políticas do poder deixaram algumas pessoas  na melhor das hipóteses desfavorecidas; na pior, oprimidas e vitimizadas.

Há duas semanas, recebi um email do director do Memorial Resistance Museum em Santo Domingo: “Acabo de criar uma nova petição e espero que possa assinar. Chama-se: Estamos a lutar pelo direito à verdade e à justiça pelas vítimas da ditadura de Trujillo.”

Fui ao website e encontrei o seguinte: “Pedimos ao Procurador-Geral da República Dominicana, Sr. Francisco Dominguez Brito, para fazer cumprir as leis e os tratados internacionais sobre os direitos humanos, defender os direitos dos jovens e das crianças da república Dominicana à verdade, defender o direito à justiça para mais de 50.000 vítimas da ditadura de Trujillo, para os sobreviventes e os familiares das vítimas. Exigimos o cumprimento da decisão dos tribunais dominicanos, que nos protegem das reivindicações do regime e da figura do ditador, e a criação de uma Comissão de Verdade.”

Este é o museu político a grande potência.

Em conclusão, existe uma separação entre os museus activos, em campanha, que vimos aqui e aqueles que fazem o seu trabalho político de forma mais discreta, mas esta separação é superficial. Diria que a maioria dos museus são políticos e é ingénuo ou desonesto fingir o contrário. Não deveríamos lamentar este facto, como se houvesse um estado melhor, neutro, ao qual poderíamos aspirar – está na natureza humana ser político, e ainda bem.


O texto completo da comunicação de David Fleming, em inglês, pode ser lido aqui. O Museum of Liverpool, um dos museus sob a direcção de David, recebeu no mês passado o Prémio do Conselho da Europa para 2013, um prémio atribuído pela Comissão de Cultura, Ciência, Educação e Media da Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa (PACE). PACE disse que “O Museum of Liverpool proporciona um reconhecimento exemplar dos direitos humanos na prática museal." (ler aqui)

Mais leituras
Lugares de encontro, por Maria Vlachou
Silenciosos e apolíticos?, por Maria Vlachou

Veja ainda:


David Fleming tornou-se director dos National Museum Liverpool em 2001. Dirigiu um processo de gestão de mudança radical que resultou num aumento no número de visitantes de 700.000 por ano a 3,5 milhões, aumentando ao mesmo tempo, de forma marcante, a sua diversidade. Tem sido consultor de vários governos, museus e autarquias, a nível nacional e internacional, sobre estratégia para museus nacionais, gestão de projectos, design de exposições e governança de museus. Tem muitas publicações sobre museus e tem dado inúmeras palestras sobre gestão de museus e liderança, inclusão social, museus de história de cidades e museus de direitos humanos, em mais de 30 países. É Presidente Fundador da Federation of International Human Rights Museums (FIHRM), Vice-Presidente do European Museum Forum e Presidente da Comissão de Finanças e Recursos do ICOM. Foi Presidente da Museums Association do Reino Unido e tem participado em várias comissões governamentais.