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Monday, 31 March 2014

O que há numa palavra?


Folheto do World of Discoveries
Quantas vezes visitaram um museu que não era de todo um museu? E quão chateados isto vos fez sentir?

Depois de tantos anos a visitar museus, hoje em dia sou capaz de identificar alguns “sinais” e de evitar ser enganada, mas, mesmo assim, nem sempre. E, ao mesmo tempo, estou a pensar em todos os outros visitantes, não profissionais, que possam não ser capazes de “reconhecer os sinais” e para quem a palavra ‘museu’ possa estar a representar uma determinada  ‘promessa’.

O abuso do termo é algo que encontramos em muitos países; provavelmente, em todos os países. Uma pequena colecção de qualquer coisa em exibição e… lá está, temos um museu e, muito frequentemente, cobramos bilhete por ele… Poderá qualquer pessoa abrir um estabelecimento, de um género qualquer, e simplesmente chamá-lo “farmácia”? E será que as pessoas chamam indistintamente um restaurante “café” e vice-versa (havendo ainda a designação híbrida “café-restaurante”), apesar de ambos os estabelecimentos prestarem serviços na área da restauração? Não terá cada um deles características específicas que são transmitidas (‘prometidas’) aos clientes através do nome com o qual são chamados?

As minhas preocupações relativamente ao uso da palavra ‘museu’ voltaram enquanto estava a ouvir a apresentação de um novo projecto, World of Discoveries – Museu Interactivo e Parque Temático, que irá abrir em breve no Porto. A apresentação estava incluída no seminário “Turismo e Património Cultural: oportunidades e desafios”, organizado pelo Pporto dosMuseus.

O World of Discoveries é um projecto privado que irá procurar contar a história dos descobrimentos portugueses, um capítulo da história do país que atrai muitas pessoas, nacionais e estrangeiras. Se me lembro correctamente, o projecto envolve neste momento 35 pessoas, incluindo pessoas da área da museologia. Ao apresentar o projecto, Helena Pereira, responsável pelo serviço educativo, destacou a intenção da equipa de proporcionar uma experiência divertida e educativa, uma apresentação rigorosa dos factos históricos, um produto de qualidade. A história será contada através de meios multimédia, mas também através de uma viagem no tempo que levará os visitantes a ver uma série de cenários históricos especialmente criados para o efeito. O potencial é enorme, claro, e o projecto está a ser desenvolvido de forma a poder garantir a sua sustentabilidade financeira. Os preços serão €8 (crianças dos 4 aos 12), €14 (adultos dos 13 aos 64 – parece-me sempre curioso quando certas entidades definem a idade adulta a partir dos 13 anos) e €11 (seniores).


Mapa no folheto do World of Discoveries
O World of Discoveries optou por explicar a natureza da sua oferta como “Museu Interactivo e Parque Temático”. Foi, na verdade, apresentado como um novo modelo de museu, o do século XXI, considerando os meios que serão usados para contar a história e que vão além da exposição de objectos. Não concordo que este seja um modelo novo, uma vez que há já muitos anos que os centros de ciência têm estado a usar meios similares, ou seja módulos especificamente criados para contar uma história e não objectos históricos, que é o que encontramos em museus de ciência. E é este o ponto que gostaria de fazer: até agora, nunca vi um centro de ciência chamar-se a si próprio “museu de ciência”. Porque é que um centro de interpretação interactivo iria querer chamar-se “museu interactivo”?

De acordo com a definição do ICOM, “Um museu é uma instituição permanente, sem fins lucrativos, ao serviço da sociedade e do seu desenvolvimento, aberto ao público, e que adquire, conserva, estuda, comunica e expõe testemunhos materiais e imateriais do homem e do seu meio ambiente, tendo em vista o estudo, a educação e a fruição”. A definição do ICOM integra uma série de instituições que não são museus, mas que são consideradas como tal, considerando que assumem algumas funções comuns e partilham preocupações e objectivos. Essas instituições são centros de ciência, planetários, centros de interpretação, jardins zoológicos, aquários, galerias de exposições em arquivos ou bibliotecas, para mencionar algumas. Ora, a maioria destas instituições não muda a forma como se define: um jardim zoológico continua a ser um jardim zoológico, um arquivo continua a ser um arquivo e um centro de interpretação é… precisamente isto.

O World of Discoveries não é o primeiro caso em Portugal que me levanta questões sobre o que é que está a ser exactamente ‘prometido’ às pessoas, potenciais visitantes, e sobre o uso impreciso, e potencialmente enganador, do termo ‘museu’. Há uns anos, tinha questionado num encontro do ICOM a opção de chamar ao Museu do Côa, que na altura não estava ainda aberto, “museu” e não “centro de interpretação”. Existe um centro em Aljubarrota com características similares, em termos de produto/oferta, mas que é chamado Centro de Interpretação da Batalha de Aljubarrota.

“O que há numa palavra?”, podem perguntar. Tudo, diria. Não existe absolutamente nenhuma intenção da minha parte em levantar aqui questões de “qualidade” ou de “validade”. Visitei uma série de centros de interpretação muito interessantes, em Portugal e no estrangeiro, e, apesar de não ser grande fã dos parques temáticos, considero que podem fornecer uma experiência educativa divertida, interessante e válida a muitas pessoas. Mas é na palavra que reside o significado, a promessa, a criação de uma expectativa, o tipo de experiência que uma pessoa pode ter, a decisão de a ter ou não, de pagar por ela ou não. É por isso que considero que as coisas devem ser chamadas pelo seu nome.

Monday, 17 March 2014

Pedaços de cerâmica

"Some use for your broken clay pots", de Christoph Meierhans, apresentado no Teatro Maria Matos. (Foto: Jan Lietaert)
A semana passada, fui ver ao Teatro Maria Matos “Some use for your broken clay pots” com Christoph Meierhans. Inspirado no antigo sistema do ostracismo em Atenas, onde um líder político que assumisse demasiado poder podia ser exilado pelos cidadãos, Meierhans deseja propor-nos um novo sistema democrático, uma nova constituição que, ele acredita, poderá também produzir um novo tipo de cidadão.

Segui a sua teoria com interesse e fiquei a pensar: nós, como cidadãos, precisamos mesmo de um sistema diferente para ‘ostracizarmos” ou 'desqualificarmos' políticos maus ou incompetentes? Não podemos simplesmente, dentro dos direitos que nos são dados pelo actual sistema, não votar neles? Mas votamos neles, uma e outra vez. Porquê? Alguns de nós não estão suficientemente interessados, outros sentem-se impotentes, outros ainda acreditam que tudo isto está fora do seu controlo, outros pensam que podem ter benefícios se se associarem aos que têm o poder. Pensei em particular sobre este último ponto ao ouvir uma das espectadoras falar apaixonadamente sobre a luta das classes. Será mesmo uma questão de classes? Como é que se pode explicar, então, que pessoas de uma determinada classe votem em políticos que representam outra? Não será porque esperam ter algum benefício, para eles e para os seus?

O que é preciso para produzir os cidadãos activos, informados, exigentes dos quais necessita o sistema de Meierhans? Penso que este é o ponto fraco da sua teoria, o ponto relacionado com os cidadãos em si. Penso que ignorou ou subvalorizou o poderoso factor humano, aquele que não é moldado por sistemas, aquele que consegue subverter até o melhor dos sistemas. Até na Grécia Antiga, onde o ostracismo parecia ser um bom sistema, o factor humano acabou por agir contra ele ou, melhor, por usá-lo em seu próprio benefício, acabando por fazer uso do ostracismo para se ver livre de oponentes políticos. O problema era do sistema?

Poderíamos ser um género diferente de cidadão no sistema actual, se quiséssemos, se não tivéssemos medo, se estivéssemos preparados para agir como um colectivo. A consciência e o sentido de responsabilidade individual são provavelmente importantes para cada um de nós poder dormir descansado à noite, mas não trazem revoluções nem verdadeira mudança. O poder, para o bem e para o mal, está no colectivo. Pensei muitas vezes no quão me senti orgulhosa e tocada quando vi os portugueses a saírem para a rua no dia 15 de Setembro de 2012. Era algo novo para mim, que já vivia neste país há 17 anos. Mas, por muito que tenha acarinhado aquele momento, não tinha ilusões. A grande maioria daquelas pessoas voltou para a sua vida ‘normal’, segunda de manhã, aceitando, compactuando, permanecendo silenciosa perante as coisas, aquelas coisas do costume, que os tinham levado à rua dois dias antes. Mas, ao mesmo tempo, quando acontece algo assim, as coisas nunca mais poderão ser as mesmas. Pode não ser muito visível, mas algo mudou e o próximo passo será daí para a frente. Isto é progresso.

Nos últimos três anos testemunhámos momentos de grande agitação social em diferentes partes do mundo. E testemunhámos igualmente a emergência de um novo tipo de cidadão. Dois museus, dois museus de arte, decidiram focar-se nos protestos. “140 caracteres” e “Objectos Desobedientes” são os títulos de duas exposições. A primeira encerrou ontem no Museu de Arte Moderna de São Paulo, a segunda abre no próximo verão no Victoria & Albert Museum em Londres.


Exposição "140 caracteres" no Museu de Arte Moderna de São Paulo (Foto: Karina Bacci)
“140 caracteres” juntou 140 obras da colecção do museu com o objectivo de permitir às pessoas reflectir sobre os protestos que tiveram recentemente lugar no Brasil e a mobilização política através das redes sociais (sendo 140 o limite de caracteres a ser usados num tweet no Twitter). Vejo isto como o resultado do desejo de ser relevante, um desejo que resultou num olhar novo e imaginativo através da colecção permanente do museu, permitindo uma nova leitura dos objectos em si num contexto específico, actual.


Pedra insuflável gigante criada para ser atirada aos polícias e que fará parte da exposição "Disobedient Objects" no V&A. (Imagem retirada de De Zeen magazine) 
“Objectos Desobedientes” abre no V&A a 26 de Julho. Um dos co-curadores, Gavin Grindon, explicou que “As culturas dos movimentos sociais não são normalmente coleccionadas pelos museus, excepto gravuras e cartazes. Queríamos levantar a questão da ausência de outros tipos de objectos desobedientes no museu.”  A exposição irá juntar exemplos de arte e design que foram desenvolvidos por contra-culturas para comunicar mensagens políticas ou para facilitar os protestos. A abordagem aqui é diferente daquela no museu de São Paulo. Neste caso, foi identificada uma lacuna na colecção e o objectivo é preenchê-la, não apenas porque isto faz sentido no âmbito da política de gestão de colecções, mas também porque é a natureza da política de gestão de colecções que torna o museu relevante – ou não – para a actual sociedade. Não deveria ser este o objectivo de qualquer museu?

“140 caracteres” e “Objectos Desobedientes” são mais do que dois títulos que contrariam a tendência para títulos chatos, descritivos, pouco imaginativos das exposições propostas ao público. São duas exposições que afirmam aquele que é realmente o papel dos museus. São as pessoas por trás delas, artistas e curadores, que, juntamente com outras – escritores, músicos, performers, ensaístas, filósofos – nos desafiam, nos intrigam, nos confrontam e nos confortam, fazem-nos pensar no tipo de cidadãos que desejamos ser, no tipo de cidadãos que podemos ainda ser, especialmente quando as paredes parecem muito altas e a batalha totalmente sem esperança, talvez mesmo perdida.


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Monday, 16 December 2013

Blogger convidado: "Museus na Ucrânia: Aprendendo a estar com as pessoas", por Ihor Poshyvailo (Ucrânia)

O Museu Ivan Honchar em Kiev, onde trabalha o meu amigo e colega Ihor Poshyvailo, publicou um post no Facebook no passado dia 20 de Novembro que dizia: “O Museu Ivan Honchar apoia os protestos nacionais contra a política do governo e contra os crimes da polícia para com os estudantes em protesto, e encoraja as pessoas a juntarem-se ao actual movimento popular para a democracia. Não sejam indiferentes – venham à Maidan! Só poderemos ganhar se estivermos juntos!”. Fiquei profundamente impressionada com esta afirmação tão audaz da parte de um museu nacional e pedi ao Ihor para partilhar connosco a sua reflexão sobre o papel que os museus podem desempenhar nas suas sociedades em momentos históricos, como estes que estão a ter lugar actualmente na Ucrânia. Não tenho palavras para agradecer ao Ihor o seu lindíssimo texto. mv

Foto: Bohdan Poshyvailo

No dia 1 de Dezembro, a minha amiga e colega americana Linda Norris publicou o post  If I Ran a Museum in Kyiv Right Now no seu blog The Uncataloged Museum. Foi a resposta imediata desta especialista em museus, muito conhecida na Ucrânia, ao ataque nocturno da polícia de choque a manifestantes pacíficos, sobretudo estudantes, em Kiev. Uma onda de manifestações e de agitação civil surgiu no final de Novembro, resultado de uma reivindicação maciça em Kiev por uma maior integração europeia, que se chamou “Euromaidan”. Guy Verhofstadt, membro do Parlamento Europeu e antigo Primeiro-Ministro da Bélgica, considerou-a a maior manifestação pró-Europa na história da UE. Victoria Nuland, Assistant Secretary no United States Department, declarou que a Euromaidan é um símbolo do poder da sociedade civil: “É sobre justiça, direitos civis e a exigência das pessoas de ter um governo que as ouve, que representa os seus interesses e que as respeita.”

No seu post, Linda coloca-se no lugar do director de um museu ucraniano e apresenta um plano de acção em três áreas: representação dos valores e ética da comunidade, serviço à comunidade, e colecção. Mais especificamente, teria feito uma declaração pública, teria olhado para o comportamento ético e a transparência no seu próprio museu, teria aberto as portas e convidado o público a entrar gratuitamente. Teria mantido o museu aberto cedo de manhã e até tarde à noite, oferecido chávenas de chá, proporcionado um lugar quente para reflexão e contemplação e criado, na exposição, um espaço para as pessoas escreverem ou desenharem sobre as suas esperanças e medos; teria encorajado os participantes a pensar sobre a Ucrânia como uma nação, sobre a beleza, a verdade e as histórias complicadas. Mais do que isso, teria permitido e até encorajado os funcionários do museu a participar nos protestos, se assim desejassem. Se a Linda fosse directora de um museu de história, estaria na rua a coleccionar objectos para a colecção, começando por Tweets e posts no Facebook, histórias orais, bandeiras, estandartes e sinais feitos à mão, e fotografias de barricadas, capacetes e fardas de polícia e até antídotos ao gás lacrimogéneo feitos em casa.

Foto: Bohdan Poshyvailo
Realmente, esta é uma reacção simples, eficaz e aparentemente comum para um típico museu americano ou ocidental. Um museu que é “sobre”, “para” e “com” as pessoas. Tinha sido este o tema da comunicação de uma outra colega e amiga, Maria Vlachou, na European Museum Mediators Conference em Lisboa, no ano passado (aqui). Servir a comunidade é particularmente importante para os museus modernos, que se estão a tornar em agentes de comunicação, operando não apenas explicitamente ao nível dos objectos de história, ciência, cultura, educação e entretenimento, mas também a um nível implícito, abordando as esferas do poder, da ideologia, dos valores e da identidade.

Mas para mim, no contexto dos actuais eventos em Kiev, a combinação das palavras “museus com as pessoas” ganha um novo sentido, um sentido especial. Isto parece bastante óbvio, banal até. Mas será comum para a Ucrânia e outros nações pós-soviéticas? Os nossos museus querem, podem e sabem como estar com as pessoas? Especialmente num período de revoltas sociais e tensões políticas, em situações invulgares, que exigem de um museu um olhar aberto e honesto nos olhos dos seus actuais e potenciais visitantes, das comunidades que representam.

Foto: Bohdan Poshyvailo
Acontece que a maioria dos museus na Ucrânia são estatais e, por isso, dependem ideologicamente, financeiramente e administrativamente do governo. Portanto, como deveriam comportar-se durante um conflito profundo entre o governo e a sociedade? Espero que para muitos museus a resposta seja teoricamente óbvia – o mesmo que para os soldados do exército e da polícia de choque que juraram “estar ao serviço das pessoas”. Serão os museus ucranianos observadores indiferentes dos eventos empolgantes da Praça da Independência, que têm tido cobertura a nível internacional? Como é que podem responder e mostrar-se inclusivos para as necessidades da sociedade e das comunidades que representam e que servem?

Ironicamente, no momento que o Presidente da Ucrânia Yanukonych estava de visita no Museu Qin dos Soldados em Terracotta na China e escrevia no livro dos convidados de honra, o ICOM Ucrânia e uma série de museus ucranianos emitiam declarações públicas condenando a inesperada repressão de manifestantes pacíficos e a retirada do pacto de associação à União Europeia. O Conselho de Directores dos Museus de Lviv coordenou as declarações de protesto de vários museus de Lviv. Um dos mais antigos museus etnográficos da Europa Oriental-Central, o Museu de Etnografia e Artesanato de Lviv, exibiu um estandarte na sua varanda que dizia “Apoiamos as exigências do Euromaidan”. Em Kiev, uma dúzia de museus fizeram declarações públicas, incluindo o Museu da História de Kiev que é gerido pela Câmara e tutelado pelo seu Presidente, cuja sede foi ocupada pelos manifestantes. O Museu-Memorial Pavlo Tychyna (perto de Maidan) abriu as suas portas aos manifestantes e ofereceu-lhes chá, um espaço para descansarem e programas culturais. O Museu-Reserva de História “Tustan” na região de Lviv pediu às pessoas através do Facebook para cozinharem bolos de mel, escreverem uma mensagem e enviarem aos activistas que gelam na rua. O Museu Ivan Honchar, que glorifica as eternas virtudes tradicionais do povo ucraniano – liberdade, fé, honra, democracia e humanismo, levou os seus programas educativos para a Euromaidan. Realizou uma série de flash mobs (como a instalação e decoração do tradicional símbolo ucraniano do Natal – Didukh, “o espírito dos antepassados”, aos pés do monumento da Independência) e organizou celebrações populares, danças e canções no epicentro da área dos protestos.

Praticamente todos os museus na Ucrânia são geridos e financiados pelo estado. Naturalmente, estamos preocupados com eventuais repercussões. Soubemos do director do famoso Museu do Território do Terror em Lviv que foi inquirido pelo Departamento de Investigação do Gabinete do Procurador-Geral como “testemunha” dos eventos na Euromaidan. Ouvimos sobre o condutor do metro de Kiev que foi despedido simplesmente por dizer aos passageiros como encontrar a saída mais próxima das estações centrais que estavam bloqueadas para se juntarem aos manifestantes. Ouvimos sobre os comandantes da polícia de choque que foram dispensados em algumas regiões quando os seus soldados se recusaram a ir a Kiev e atacar os manifestantes.

Foto: Bohdan Poshyvailo
Claro que o síndrome da Praça Tahrir está vivo nas memórias de muitos profissionais de museus, mas penso que a Euromaidan ucraniana é uma grande oportunidade para muitos museus testarem a sua capacidade de estar com as pessoas. Vi esta necessidade nos olhos brilhantes de muitos manifestantes pacíficos nas últimas três semanas. Cheguei à conclusão que, para estarem com as pessoas, os nossos museus não precisam necessariamente de fazer coisas extraordinárias, deveriam sobretudo ouvir com atenção o pulso da nação e abrir as suas portas aos corações gelados.



Ihor Poshyvailo é Etnólogo, doutorado pelo Instituto de Estudos Artísticos, Arte Popular e Etnologia, Academia Nacional das Ciências da Ucrânia (1998). É Director-Adjunto do Centro Nacional de Cultura Popular “Ivan Honchar Museum” (Kiev). Co-moderador e co-organizador de seminários internacionais sobre gestão de museus (desde 2005). Participou no International Visitor Program (EUA, 2004), Global Youth Exchange Program (Japão, 2004) e The World Master’s Festival in Arts and Culture (Coreia do Sul, 2007). Curador de projectos artísticos internacionais, incluindo a exposição itinerária Smithsonian Folklife Festival: Culture  Of, By, and For People” (2011), “Interpreting Cultural Heritage” (2011), “Home to Home: Landscapes of Memory” (2011-2012). Foi Fulbright Scholar no Smithsonian Center of Folklife and Cultural Heritage (2009-2010) e Summer International Fellow no Kennedy Center (2011-2013). Ihor escreveu um outro post para este blog em 2012, intitulado Reinventando e tornando os museus relevantes.

Monday, 2 December 2013

Blogger convidado: "Construindo memórias", por Ricardo Brodsky (Chile)

Ricardo Brodsky, Director do Museo de la Memoria y los Derechos Humanos em Santiago de Chile, abriu a conferência da Museums Association em Liverpool no passado dia 11 de Novembro. A fotografia que o museu colocou no Facebook fez-me logo sentir pena de não ter podido assistir ao seu discurso. Mas contactei o Ricardo e ele teve a amabilidade de me enviar o seu texto e de autorizar a sua publicação neste blog. Apresentamos aqui uma versão editada, mais curta, mas existe um link no fim para os interessados em ler o texto na íntegra. mv


Este é o nosso 11 de Setembro, o início da história à qual irei referir-me e que inspirou o Museo de la Memoria y los Derechos Humanos (MMDH) no Chile.

1. Memória

A memória não é um exercício nostálgico. A memória é a nossa identidade, o que somos. Poderíamos dizer que a memória habita em nós de tal forma que define as nossas ideias sobre o presente, os nossos valores e a nossa percepção do futuro.

No seu texto La Muralla y los Libros, Jorge Luís Borges fala do Emperador Shih Huang Ti, que construiu a muralha da China e ordenou, ao mesmo tempo, que todos os livros produzidos antes dele fossem queimados. Com a muralha pretendia proteger o seu país dos inimigos externos e queimou os livros porque os seus opositores recorriam a eles quando queriam louvar os seus antepassados. O mesmo foi testemunhado nos anos de Pinochet, quando as instituições do país foram destruídas, desapareceram pessoas, foram queimados livros e as pessoas ligadas à cultura e história popular foram banidas porque, de alguma forma, representavam todas uma epopeia que tinha que ser abolida.

Uso a palavra ‘abolida’ e não a palavra ‘esquecida’ de propósito. O género de memória de que estamos a falar não equivale à capacidade de armazenamento de um disco rígido num computador, onde tudo é registado sem hierarquia. O oposto à memória não é o esquecimento mas a abolição, a eliminação. A memória funciona com eventos exemplares, com o que nos permite aprender lições, dar sentido à experiência vivida. A memória é, por isso, um passo mais alto, além do trauma e dos sentimentos de desespero, solidão e depressão que a memória pode causar. A memória é o que permite à vida continuar, com a esperança de voltarmos atrás, de voltarmos a nos apoiar nos nossos próprios pés. Com uma narração sobre o nosso passado e uma aposta sobre o nosso futuro.

2. Ligações

No MMDH trabalhamos com material que é extremamente complexo e sensível: verdade, justiça, vitimização, memória, reconciliação, reparação. Todas estas são ideias que nos questionam permanentemente e que nos obrigam, repetidamente, a reflectir sobre os conceitos que são a base do nosso trabalho. É impossível, no entanto, perceber a nossa instituição se não percebermos o processo do qual resultou, assim como as necessidades sociais e políticas que é suposto serem consideradas.

Em 11 de Setembro de 1973 começou uma das experiências políticas mais traumáticas do Chile. As forças armadas, lideradas por uma junta militar de comandantes-em-chefe, levantou as armas contra o Governo de Unidade Popular de Salvador Allende, instalando uma ditadura cruel que durou 17 anos, suprimindo os direitos legais e cometendo graves violações contra os direitos humanos, que resultaram na morte e desaparecimento de mais de três mil pessoas e a prisão política e tortura de mais quarenta mil, assim como o exílio de quase um milhão de Chilenos.  

Dezassete anos mais tarde, no seguimento da vitória da oposição num referendo realizado em 1988, com o objectivo de prolongar o governação de Pinochet, foi iniciada uma transição complexa e difícil para a democracia, que incluiu enfrentar as dívidas espinhosas deixadas pela ditadura, não apenas na esfera social e política, mas especialmente na área da recomposição moral da nossa sociedade, ou seja, na esfera da verdade, da justiça e dos direitos humanos. As políticas de direitos humanos do governo democrático têm-se centrado em quatro pilares ou exigências básicos: verdade, justiça, reparação e memória.

Museo de la Memoria y los Derechos Humanos (Foto: MMDH)
3. Verdade

Quando a democracia foi recuperada, o primeiro esforço na área dos direitos humanos no Chile foi no sentido de procurar estabelecer a verdade sobre as mais sérias violações dos direitos humanos cometidas durante a ditadura de Pinochet. Foram estabelecidas duas comissões, envolvendo pessoas com altas credenciais, que afirmaram que as violações dos direitos humanos cometidas por agentes do estado eram massivas, sistemáticas e tinham sido aprovadas ao mais alto nível do governo de então. Esta afirmação, apoiada pela existência de provas e testemunhos irrefutáveis, permitiu ao país saber a verdade sobre a existência de mais de 3.000 detidos-desaparecidos e executados e permitiu ainda dar um segundo passo muito relevante, que foi a abertura da possibilidade de estabelecer políticas de reparação para as vítimas e as suas famílias. Em 2003, a segunda comissão, criada para investigar os casos de pessoas que foram presos políticos e que tinham sido torturadas, reconheceu a existência de 38.254 vítimas de tortura.  

4. Justiça

A luta pela justicça no processo de transição tem sido o aspecto mais difícil e polémico. Desde o fim do regime militar e até 1998, a investigação judicial teve, em geral, escassos progressos e era normal os tribunais aplicarem um decreto de amnistia passado pela ditadura militar. Em 1998, com a detenção de Pinochet em Londres, ordenada pelo juiz espanhol Baltazar Garzón, foram criadas novas condições, que produziram, lentamente mas gradualmente, alguns progressos nas investigações judiciais, que permitiram identificar aqueles directamente responsáveis por violações dos direitos humanos. Hoje em dia, existem 1.426 casos abertos, dos quais 1.402 lidam com desaparecimentos ou assassinatos. No entanto, apenas 66 agentes servem penas de prisão, entre eles algumas figuras-chave da DINA (Departamento de Inteligência Nacional) e da CNI (Agência de Inteligência Nacional); 173 agentes foram condenados mas não estão na prisão, por várias razões, e existem ainda 528 agentes cuja acusação foi concluída, mas que ainda não tiveram uma sentença definitiva. 

5. Construindo memória

Neste contexto, o governo de Michelle Bachelet criou em 2010 o Museo de la Memoria y los Derechos Humanos, como um projecto de reparação moral ou simbólica para as vítimas da ditadura e como um projecto educativo, de forma que as novas gerações possam entender o valor do respeito pelos direitos humanos.

Museo de la Memoria y los Derechos Humanos

O MMDH, onde a sociedade chilena cumpre simbolicamente o seu dever de memória, olha directamente para o seu passado e dá resposta ao direito de memória para as vítimas da ditadura. As suas origens podem ser encontradas nas recomendações do relatório de verdade de 1991 e na afirmação em 2004 da UNESCO que os arquivos de varias organizações de direitos humanos do Chile fazem parte da memória do mundo. Além disto, existe uma exigência por parte das organizações de familiares e vítimas de abusos dos direitos humanos. O museu dispõe da maior colecção de documentos, fotografias, testemunhos e filmes sobre a ditadura no país e expõe-los ao público, procurando criar empatia pelas vítimas e fazer reviver os valores e lições das experiências de abusos dos direitos humanos. Os grupos de vítimas estão activamente envolvidos na vida do museu e sentem-se incluídos.

A missão do MMDH é “dar a conhecer as violações sistemáticas dos direitos humanos em nome do estado chileno entre 1973 e 1990, de forma a – reflectindo eticamente sobre a memória, a solidariedade e a importância dos direitos humanos – a vontade da nação seja reforçada, para que não se repitam nunca mais repetidas acções que afectam a dignidade humana”.

Museo de la Memoria e los Derechos Humanos (Foto: MMDH)
Qual o lugar deste museu na sociedade chilena hoje?

Pierre Nora disse que os Lugares de Memória são construções que procuram “fazer parar o tempo, bloquear o trabalho do esquecimento, fixar um estado das coisas, imortalizar a morte, materializar o que é imaterial de forma a cativar o maior número de sentidos no menor número de sinais”. Neste sentido, o MMDH tem como missão recuperar e preservar os vestígios desse passado traumático, dar testemunhos do sofrimento, de forma que o conhecimento do público sobre o que se passou possa quebrar o círculo de silêncio e impunidade e dar ênfase à necessidade de prevenir que algo assim volte a acontecer. Noutras palavras, o Museo de la Memoria, como expressão de uma política pública de reparações, é o principal gesto do Estado de reparação moral para as vítimas da ditadura: é aqui que a história ou a biografia de cada uma das vitimas é encontrada ou construída e onde a sua dignidade, que lhes foi arrancada, lhes é devolvida. O MMDH tornou-se numa referência para o país e a região, estando a ser construídos projectos similares em países como Peru, Brasil, Argentina e Colômbia.

Dito isto, devo também dizer que este é um projecto localizado na terra das controvérsias. Cada museu que lida com histórias traumáticas sabe da tensão entre história e memória, entre a explicação dos acontecimentos organizados cronologicamente e a experiência subjectiva das memórias apoiadas por testemunhos. Os museus de memória enfrentam, precisamente, o desafio de conjugar esta tensão, de forma que os testemunhos possam ser exemplares e representativos, transcendendo a mera experiência pessoal ou aquela dos grupos directamente afectados. Apenas resolvendo esta tensão de uma forma positiva pode a mensagem ser universal e ligar as exigências para verdade e justiça com um imaginário democrático mais amplo.

De acordo com alguns, a museografia do MMDH coincide com o que Pierre Nora chama de transformação da memória em história, ou seja, “depende completamente do que é mais preciso nos rastros deixados, do que é mais natural nos destroços, do que é mais concreto nos registos, o mais visível na imagem”. Certamente, os visitantes enfrentam os vestígios do passado, as caras dos desaparecidos, o bombardeamento de La Moneda, os testemunhos dos que foram torturados, a angústia das famílias. São forçados a viver uma experiência de apreensão, de compaixão, empatia e emoção. Mas encontram também os documentos, os ficheiros legais, os decretos que levam a uma experiência de confronto, de análise, de comparação, de visualização do contexto em que a violência teve lugar. Neste sentido, o museu propõem uma narrativa capaz de transmitir sentido, começando por um sentimento de empatia para com as vítimas.

A criação do MMDH gerou uma grande controvérsia no país desde o primeiro dia. Estes são precisamente os tópicos desta conferência. Como lidamos com questões sensíveis e controversas numa instituição que deve apresentar uma história que é ainda viva na sociedade chilena, uma vez que muitos dos seus actores ocupam ainda lugares públicos e as famílias chilenas vêem ou sofrem ainda as consequências desse período?

As atitudes críticas perante o Museu de la Memoria ou negam a existência de violações dos direitos humanos ou as justificam, invocando a necessidade de travar uma guerra contra uma ameaça representada por partidos marxistas. Há uma crítica mais ligeira da parte de outros grupos, acusando o museu de distorcer a história mostrando apenas um aspecto do período da ditadura (as violações dos direitos humanos) e fragmentando o tempo, não permitindo, assim, às pessoas visualizarem as causas da ditadura militar. Resumindo, os críticos apontam para a parcialidade do museu quando inclui uma visão desse período, aquela das vítimas. Isto significaria que a narrativa não é tão objectiva quanto devia e, sobretudo, que não nos permite saber porque é que teve lugar a crise política de 1973, culminando no golpe de estado e nas violações dos direitos humanos.

Instalação de Alfredo Jaar no Museo de la Memoria y los Derechos Humanos (Foto: Cristóbal Palma para o jornal El País) 
Para nós, a missão do museu é sensibilizar o público em relação à gravidade das violações dos direitos humanos no período Pinochet, e esta sensibilização não tem um propósito político ou eleitoral, mas, sim, um propósito moral, ou seja, transformar o respeito pelos direitos humanos num imperativo categórico na nossa coexistência, independentemente do contexto em que tem lugar.

O Museu não pode fingir estabelecer uma leitura inequívoca do passado. Pelo contrário, a sua perspectiva é abrir múltiplas possibilidades de leitura. É importante dizer que o MMDH é entendido como um museu vivo, aberto à reinterpretação da experiência e, por isso, fornece um espaço importante para a arte contemporânea. Prova disto é a presença de obras de arte na exposição permanente, tal como o poema de Jorge Tacla escrito por Victor Jara na prisão e o trabalho de Alfredo Jaar “A geometria da consciência”, que sugere que o diálogo é um tributo às vítimas.


Leiam o discurso na íntegra aqui.

Ricardo Brodsky Baudet é Director do Museo de la Memoria y los Derechos Humanos em Chile desde Maio 2011. Desenvolveu um projecto no Museo de la Memoria como um espaço de reflexão e de educação pública, dando mais importância à colecção e à exposição permanente e uma posição proeminente às artes visuais e vários eventos culturais relacionados com a memória e os direitos humanos. Foi Secretário-Geral da Federação de Estudantes no tempo da ditadura. Secretário Executivo da Fundação “Chile 21” em 1992, da Fundação “Proyectamérica” em 2006 e fundador e director da Fundação para as Artes Visuais de Santiago; organizador da primeira Trienal do Chile (2009). Foi consultor para a política cultural do Conselho Nacional para a Cultura e as Artes, Chile (2004-2007). Ocupou vários lugares no governo entre 1993 e 2010. Chefe da Divisão de coordenação interdepartamental da Secretaria-Geral do Ministério da Presidência (2007-2010), Embaixador do Chile na Bélgica e no Luxemburgo (2000-2004).


Monday, 25 November 2013

E tudo o vento levou?


No dia 15 de Novembro teve lugar no Convento de Cristo em Tomar o encontro “Museus e Monumentos: comunicar, inovar, sustentar”, organizado pela Direcção-Geral do Património Cultural. Houve quatro painéis: Mass media: mediação ou medianização?; Estratégias de comunicação; Marketing e branding; Fontes de financiamento, modelos de gestão. Foi um encontro interessante para mim, sobretudo pela integração nos painéis de pessoas que não trabalham em museus e monumentos e que possam trazer ao debate pontos de vista muito relevantes para todos nós. Isto é… se estivermos interessados em ouvir, em ser confrontados com as nossas práticas, em actuar no sentido de mudar para melhor.

São dois os momentos do encontro nos quais gostaria de me concentrar. O primeiro é a comunicação da jornalista Paula Moura Pinheiro, integrada no primeiro painel, “Mass media: mediação ou medianização?”. A Paula referiu-se ao trabalho do jornalista e ao seu papel na comunicação para e com o grande público. Para ela, o jornalista tem o papel do tradutor. É alguém com uma boa cultura geral, mas que tem consciência que não sabe tudo e que, por isso, procura os especialistas e as fontes mais variadas, no sentido de reunir informação. Esta informação é depois trabalhada e ‘traduzida’, para ser levada ao grande público de não-especialistas. “Os meus programas não são para os especialistas”, disse Paula Moura Pinheiro, “e os especialistas não precisam dos meus programas. Os meus programas são para quem não sabe.” Lembrou-me, inevitavelmente, do naturalista britânico Edward Forbes que escreveu em 1853: “Os conservadores de museu podem ser prodígios do conhecimento e, mesmo assim, impróprios para o seu lugar, se não conhecem nada sobre pedagogia, se não estão preparados para ensinar pessoas que não sabem nada.” E lembrou-me ainda de algo que tinha lido há uns anos no livro The Manual of Museum Management de Barry Lord & Gail Dexter Lord: que uma exposição é como um programa de televisão, pode sensibilizar, mas não torna ninguém perito.

Uma outra comunicação no primeiro painel da tarde, “Marketing e branding”, veio testar a compreensão e relevância das palavras de Paula Moura Pinheiro. O publicitário Pedro Bidarra, que esteve durante muitos anos à frente da conhecida agência BBDO, falou-nos do “Muro das Palavras”. Mostrou-nos excertos de textos que encontrou em exposições e que não lhe transmitiram absolutamente nada, porque… não os compreendeu. Os seus exemplos provocaram muitos risos na plateia, mas o Pedro insistiu: “Como querem que eu vá ver as vossas exposições se vocês próprios criam barreiras na comunicação? Não me falta interesse, gostaria mesmo de visitar, mas sinto que a vossa oferta não é para mim, não foi produzida a pensar em mim”.

Os textos do Pedro Bidarra foram muito bem escolhidos; o que não significa que são difíceis de encontrar. O discurso dos nossos museus é, em grande parte, uma conversa entre especialistas. Um enorme esforço é feito para se ganhar no fim o aplauso e aprovação dos nossos pares. Onde é que isto deixa o público, as pessoas, a nossa relação com elas?

Escrevia há duas semanas sobre a forma como os resultados do euro-barómetro foram recebidos por muitas pessoas no nosso sector e perguntava se estes mesmos resultados alguma vez nos vão fazer questionar as nossas práticas ou se vamos continuar a culpar as pessoas por falta de cultura, ignorância, desinteresse.

Penso no encontro em Tomar e no impacto que estas duas comunicações, de Paula Moura Pinheiro e de Pedro Bidarra, terão tido (ou não) na forma como os profissionais de museus presentes, e sobretudo aqueles com responsabilidades de direcção, reflectem sobre as suas práticas diárias. Qual terá sido o significado dos tantos risos na plateia enquanto o Pedro apresentava os seus exemplos? Porque naquela plateia encontravam-se, sem dúvida, pessoas que foram as autoras de textos muito parecidos com os que vimos no ecrã. Como dizia a portuguesa Sandra Fisher Martins, fundadora da campanha Português Claro, na sua TEDx Talk “The right to understand”: “Estes documentos (estava-se a referir a documentos da administração pública) não caem do céu, alguém os escreve”.


Para haver mudança, é preciso haver coragem para enfrentar a crítica; abertura para reconhecer o que não está bem; determinação em prestar um serviço melhor. É também necessário termos sentido de humor, sabermos rir dos nossos próprios erros, desde que o riso sirva para atenuar o – provavelmente inevitável – sabor amargo que deixa a crítica negativa e reforçar a vontade de fazer de outra forma, melhor. Se o riso não passar de um riso, sinto que por trás está um Rhett Butler a pensar: “Francamente, minha querida, eu não ligo a mínima”.

Monday, 28 October 2013

É favor definir "perigo"

Musée d' Orsay (Imagem retirada de Louvre pour Tous)
O debate da semana passada sobre fotografia nos museus, organizado pela Acesso Cultura e pelo ICOM Portugal, não correspondeu às minhas expectativas. E considero que, em parte, a culpa seja minha. Entendi o meu papel de moderadora como, sobretudo, o de reguladora da conversa. Tendo partilhado publicamente as minhas posições sobre este assunto – neste blog, no blog Mouseion, no jornal Público e também no portal Louvre pour Tous - considerei que este deveria ser o momento para dar a oportunidade aos oradores convidados e aos colegas que assistiam para trocar opiniões, esclarecer ideias, partilhar a sua visão para os museus no século XXI. Porque o contexto actual em que se discute a fotografia nos museus é um contexto para discutir a relação dos museus com as pessoas no século XXI.

A campanha "It's Time we Met" do Metropolitan Museum usou fotos tiradas pelos visitantes no museu.
O debate tomou um rumo diferente, concentrando-se principalmente em questões de direitos de autor e nos interesses e pressões comerciais por trás da Directiva da EU Relativa à Reutilização de Informações do Sector Público. Pouco foi perguntado ou dito sobre os visitantes – fotógrafos e a forma como a actual legislação portuguesa limita (ou não) a sua contribuição na promoção dos museus. Houve algumas perguntas concretas sobre este assunto – como, por exemplo, “O que é que se entende no despacho (ler aqui) por “divulgação” e os visitantes que tiram fotografias e partilham-nas nas redes sociais são criminosos?”; ou “A actual legislação não é incompatível com o facto de dois museus e dois palácios nacionais estarem neste momento no Google Art Project?” -, mas ficaram sem resposta. A falta de resposta directa pode ser ela mesma um indicador de incapacidade ou falta de vontade em abordar estas questões fundamentais, mas, como moderadora, deveria ter insistido para que houvesse uma resposta clara -  afinal, era esse o propósito do debate - ,no entanto, achei que ia envolver-me num diálogo pessoal com os intervenientes e, por isso, não o fiz (mea culpa).

Imagens amplamente disponíveis na Internet. Autores desconhecidos ou... difíceis de encontrar.
Mais para o fim do debate, houve mais uma pergunta muito relevante: a Direcção-Geral do Património Cultural tem realmente condições para controlar o uso das imagens tiradas pelos visitantes e é esse o propósito do despacho? Qual é hoje a sociedade que é suposto os museus servirem? Nesse momento, fomos informados que é muito difícil controlar e que o despacho tem sobretudo uma função dissuasiva.

Cartazes criados pelo Musée Saint-Raymond, Musée des Antiques de Toulouse.
Assim, e mais uma vez, os visitantes, as pessoas, não estiveram no centro da discussão. Os objectos é que sim. Um outro momento interessante no debate foi uma pergunta relativamente à manipulação de imagens de obras de arte – como a imagem usada para a promoção do debate. As opiniões foram diversas: desde o não haver mal nenhum neste uso criativo de uma obra de arte, uma vez que as obras têm uma vida própria; ao identificar um perigo na disponibilização de imagens de qualidade – como está a fazer neste momento o Rijksmuseum e outros museus – e realçar a responsabilidade dos profissionais dos museus em salvaguardar e proteger.



Gosto de museus que nos fazem sentir bem-vindos, livres, inspirados. Aprecio os museus que têm bom sentido de humor e não têm medo de o mostrar. Admiro os museus que não permanecem afastados do que se passa à sua volta, na sociedade. Respeito os museus que procuram criar ligações com o mundo exterior, debater e não impor. Não vejo nenhum perigo nisto, nem alguma falta de respeito; vejo simplesmente relevância e sentido de missão.

Mas, acima de tudo, sinto-me tão contente quando vejo pessoas a divertirem-se nos museus e a partilharem o seu prazer (mais ou menos criativamente). Haverá melhor sinal de missão cumprida?

Publicidade da KLM. O Rijksmuseum foi o primeiro a partilhá-la no Facebook.

Monday, 14 October 2013

O Louvre, o meu filho e eu

Foto: Thomas Struth

A primeira vez que levei o meu filho a Paris, ele tinha 7 anos. Tínhamos combinado que não íamos visitar mais que um museu por dia (as memórias do meu irmão de 5 anos a fazer birra e a queixar-se constantemente que estava cansado ou que tinha fome, até declarar aos nossos pais “Não mais museus!”, fizeram de mim uma mãe mais ‘calculista’…). Quando chegou o dia de irmos ao Louvre, o acordo tornou-se ainda mais específico: íamos ficar uma hora e íamos ver três peças gregas que eu tinha escolhido para ele e a Mona Lisa, escolha dele, uma vez que tinham falado nela na escola.

Estava a falar dessa visita durante uma aula na semana passada, quando estávamos a discutir se é uma coisa boa ou má que algumas pessoas queiram só dar uma volta num museu. E estarão todas as pessoas que aparentemente estão a dar uma volta a fazer precisamente isso? Se alguém nos tivesse observado no Louvre, teria visto uma mãe a apressar o seu filho de uma sala para a outra, sem prestar atenção à riqueza e à beleza à sua volta. A verdade é que tínhamos um plano, um plano muito pessoal e específico. E quando saímos do museu, estávamos contentes porque tínhamos feito o que tínhamos planeado.

Esta é uma questão recorrente neste blog: a qualidade da visita ao museu, tal como a desejam os curadores e as próprias pessoas. Quando o John Holden definiu os três tipos de guardião no seu ensaio Culture and Class, escreveu sobre os snobs culturais, os neo-mandarins e os neo-cosmopolitas. Definiu os neo-mandarins como aqueles profissionais da cultura que defendem o acesso, mas que querem ser eles a decidir a que é que vale a pena ter acesso. Penso que a maioria de nós pertence a essa categoria. Desejamos o melhor para os visitantes, mas não estamos preparados para admitir que os visitantes também sabem o que é melhor para eles. Queremos impor uma agenda, mas os visitantes têm a sua própria, uma agenda que nem sempre aceitamos como válida ou significativa, a não ser que corresponda de alguma forma aos nossos próprios padrões.

Desejar o melhor para os visitantes e fazer o nosso melhor para o fornecer é a razão porque estamos aqui. Mas há duas maneiras diferentes de o fazer e de o exprimir. Existe a versão neo-mandarim e a versão neo-cosmopolita. Foi no decorrer da aula que referi que me ocorreram dois exemplos concretos.

No início deste ano, pouco depois de assumir a posição de subdirector do Museu Reina Sofia, João Fernandes foi entrevistado pelo jornal espanhol ABC. Houve uma afirmação que chamou a minha atenção: “Queremos que o espectador seja mais lúcido e crítico quando se confronta com a obra de arte, que possa pensar e que não sirva apenas para dizer que esteve lá.”

Percebi, claro, o que quis dizer, mas não gostei da forma como o disse. Não gostei do uso das expressões “queremos que” e “espectador”, senti o desejo do neo-mandarim de ditar, de impor.

Dois meses depois, estava a ler Civilizing the Museum de Elaine Heumann Gurian. E encontrei isto: “ Não somos mais pregadores para os não-iniciados; estamos unidos como parceiros com os nossos públicos e as suas famílias. Devemos ajudar o nosso público, que acredita e confia em nós de uma forma comovente, a tornar-se mais céptico e exigente.”

Parece-me que o desejo é o mesmo expresso por João Fernandes. As palavras, e eventualmente a forma de fazer, são bastante diferentes. Heumann Gurian fala de uma parceria; assume o papel do facilitador e descarta aquele do pregador; sente a responsabilidade que advém da confiança depositada pelas pessoas nos profissionais dos museus.

No que diz respeito à relação entre museus e pessoas, não é como se existisse uma lista de controlo e que os visitantes tenham que fazer e aprender uma série de coisas antes que a sua visita possa ser validada por uma autoridade superior. Mesmo quando os curadores tentam fazer isso, não têm sucesso, simplesmente mantém muitas pessoas afastadas porque não se sentem confortáveis e bem-vindas. O museu é um espaço onde as pessoas vêm para aprender, para se inspirarem, para serem surpreendidas, para serem tocadas, para se divertirem. O pessoal do museu trabalha para garantir as condições para que isto aconteça. Pode ser que tudo isto aconteça de uma vez ou em parte ou que não aconteça de todo e que não aconteça da forma como tinha sido planeado pelo museu. No entanto, penso que a avaliação final só poderá ser feita envolvendo o próprio visitante e considerando igualmente as suas necessidades e expectativas e não apenas aquelas do curador. O museu é um espaço partilhado.

Monday, 16 September 2013

A reconquista

Wolf Trap National Park for the Performing Arts, Washington DC (Photo: bigbirdz on Flickr)

Na antiguidade, o teatro grego fazia parte do que, hoje em dia, uma pessoa poderia chamar cultura popular ou cultura das massas. Os Gregos Antigos iam ao teatro aos milhares. Traziam comida com eles, porque iam lá passar o dia inteiro. Comiam durante o espectáculo e atiravam comida ou gritavam com os actores quando não estavam a gostar do que estava a ser apresentado. Também intervinham, faziam perguntas e exprimiam opiniões sobre o enredo. 


O público de Shakespeare, bastante heterogéneo na sua composição social, era tão barulhento como o público na Grécia Antiga. As pessoas mais pobres pagavam o equivalente a quase um dia de trabalho para ficarem de pé à frente do palco. E pagavam mesmo. Era importante para elas estarem lá, significava algo, tanto pelo que se estava a passar no palco, como fora dele…


Poucos séculos depois, no final do século XIX, existem registos de pessoas que gritavam ou se metiam em cima das cadeiras durante concertos de música clássica. E... aplaudiam entre os movimentos ou sempre que se entusiasmavam com a interpretação. 

Porque é que estou a  dizer tudo isto? Para que nos lembremos todos que as coisas mudam, os hábitos mudam, os gostos mudam. O que era aceitável antes, já não o é. E o que é hoje, não será amanhã. As coisas estão novamente a mudar. Hoje em dia, há, por exemplo, pessoas que gostam de falar durante os concertos de música clássica ou de partilhar ao vivo uma experiência teatral através do twitter ou de usar todo o género de gadgets enquanto visitam um museu. Isto faz outras pessoas sentirem-se nervosas e está a ser montada resistência.

Os apelos para o regresso a uma experiência de teatro /música / museu mais ‘pura’ estão a multiplicar-se. Pelo menos ‘pura’ da forma como algumas pessoas a vêem, pessoas que gostam de assistir em silêncio absoluto a um concerto de música clássica ou de visitar um museu e simplesmente contemplar uma obra de arte. Esta é, realmente, uma forma de fazer as coisas. Não é a única. E não é necessariamente mais significativa.

A questão foi novamente levantada recentemente por Judith Dobrzynski no New York Times, num artigo intitulado High culture goes hands-on. Lamentando a busca de uma ‘experiência’ que tem tomado proporções gigantescas, Dobrzynski sente claramente saudades dos “tempos passados, [quando] os museus não precisavam de ser activados”; escreve sobre “a emoção de estar de pé diante da arte”, chegando à triste conclusão que “isto não é suficientemente emocionante para a maioria das pessoas”; e, finalmente, avisa: “Tudo isto faz-se em nome da participação e da experiência – também chamado envolvimento do visitante – mas altera a própria natureza dos museus e as expectativas dos visitantes. Altera quem irá aos museus e para quê.”

Dois dias depois, Dennis Kois respondia com Song of experience, lembrando, basicamente, que não existe apenas uma forma, válida e significativa, de fazer as coisas. Podem existir ofertas diferentes para pessoas diferentes com necessidades diferentes; são diferentes e depende das próprias pessoas o que é que vão levar com elas.

É exactamente isto que pensei quando li a seguinte afirmação de Mark Rosen a propósito dos visitantes do Metropolitan Museum: “… quase todos vêm aqui, tentam ver tudo em quatro horas ou menos, tiram imensas fotos no Instagram e vão-se embora, sem se lembrarem de nada.” Rosen está envolvido numa iniciativa chamada Museum Hack, que propõe várias visitas “não-tradicionais” em museus. No caso do Met, levam as pessoas a fazer visitas curtas, apresentando-lhes peças menos conhecidas da colecção. Acho isto muito bem. E, enquanto tenho a certeza que as pessoas que se juntam a estas visitas divertem-se e aprendem muito, tenho quase a certeza que turistas que estão pela única vez na vida em Nova Iorque sentir-se-ão mais satisfeitas e será mais significativo para elas se tentarem ver e fotografar tudo em quatro horas. E irão lembrar-se de algo.

Todas as experiências são necessárias, são diferentes pontos de entrada, significam coisas diferentes para pessoas diferentes. A Nina Simon disse-o maravilhosamente há uns anos num post chamado I am an elitist jerk. Apaixonada por parques naturais, uma visitante com muita experiência, confessou sentir-se incomodada nos parques nacionais que atraem as massas. Admitiu ser uma elitista. O que a fez considerar a sua campanha por museus acessíveis e participatórios. “Nessa viagem, pela primeira vez, compreendi realmente a posição das pessoas que discordam comigo, aquelas que sentem que comer e falar alto nos museus não é apenas indesejável, mas transgressor e doloroso. Para os elitistas, é impossível ignorar a forma como outros degradam o que é para eles uma intensa experiência estética e emocional. Compreendo agora.” No entanto, Simon continua e diz que os parques nacionais não lhe pertencem só a ela e que os mais populares entre eles são um importante ponto de entrada para pessoas que escolheram lá estar, porque significava algo para elas. Um dia, algumas delas poderão experimentar um outro parque, mais remoto e ‘difícil’.

Ou um museu. Ou um teatro. Ou um concerto. Os nossos conhecimentos e a nossa experiência é algo que construímos. De acordo com as nossas necessidades, de acordo com o contexto em que nos encontramos. Assisti a concertos de música clássica em silêncio absoluto, juntamente com pessoas que ‘sabiam exactamente quando aplaudir’ e saboreando a última nota tocada até desaparecer e poder (podermos) começar novamente a respirar. Mas gostei igualmente de concertos de música clássica ao ar livre, juntamente com centenas de pessoas a fazer picnic sentadas na relva e a conversar sobre tudo, relacionado ou não com o que se passava no palco.

Sem dúvida, não é sempre fácil dar resposta a necessidades diferentes no mesmo espaço. Na verdade, foi sempre um desafio. Mas há duas coisas que me parecem importantes: 1. Reconhecer que existem necessidades diferentes; e 2. Não julgar uma forma de experiência mais válida ou significativa do que outra. Isto aplica-se aos profissionais da cultura. Aplica-se a espectadores e visitantes também.


Ainda neste blog

Como toma o seu El Greco?

Elitismo para todos

Qual o problema com a música clássica? Aparentemente nenhum…

Livres de visitar um museu de arte

Museus: as novas igrejas?

Simon Fairclough, Orquestras em apuros: será mesmo?


More readings

James Durston, Why I hate museums

Mark Tapson, Should museums be more entertaining?

Peter Funt, Theatre for Twits

Richard Dare, The Awfulness of Classical Music Explained