Tenho algumas impressões fortes das paredes do metro em
Londres (e de outras cidades), uma plataforma fundamental para uma pessoa se
manter informada sobre a oferta cultural da cidade. Agora, imaginem o que
aconteceria se as organizações culturais, competindo entre si e com outras
entidades para a atenção das pessoas, não considerassem cuidadosamente a sua
identidade visual para poderem destacar-se e fazer uma ligação imediata tanto com os indivíduos interessados como, e especialmente, com os mais
distraídos.
Showing posts with label museus. Show all posts
Showing posts with label museus. Show all posts
Tuesday, 14 July 2015
Thursday, 4 June 2015
Algo está a acontecer em Évora
A lona no exterior do Fórum Fundação Eugénio de Almeida (FEA) em
Évora fez-me sorrir… “Como é o museu com que sonha?” é uma espécie de promessa
ou de convite para reflexão e diálogo.
Parece que é mesmo isso que o FEA e a curadora Filipa Oliveira procuram: “(…)o início de um caminho e de uma nova relação que o FEA quer estabelecer com a cidade de Évora e com o país; (…) uma reflexão programática do FEA em torno do dilema de como articular a singularidade e a especificidade do contexto local com o pensamento e os desafios da criação artística contemporânea internacional.”
Parece que é mesmo isso que o FEA e a curadora Filipa Oliveira procuram: “(…)o início de um caminho e de uma nova relação que o FEA quer estabelecer com a cidade de Évora e com o país; (…) uma reflexão programática do FEA em torno do dilema de como articular a singularidade e a especificidade do contexto local com o pensamento e os desafios da criação artística contemporânea internacional.”
Sunday, 24 May 2015
Post scriptum
Na semana de 11 de Maio, a minha caixa de email encheu-se de
convites para a celebração da Noite e do Dia dos Museus. No Facebook, a
intensidade não foi menor, com os museus e as suas tutelas a lembrar que todos
os caminhos iam levar a um museu. Um ambiente de grande festa, uma oferta
enorme em todo o país, que foi também traduzida em números: de acordo com os
meios de comunicação, houve 140 actividades por ocasião da Noite Europeia dos
Museus (16 de Maio) e 430 actividades no Dia Internacional dos Museus (18 de
Maio), em 70 museus diferentes. A verdade é que poucas das actividades
propostas responderam ao desafio do ICOM para reflectir sobre "Museus para
uma sociedade sustentável" (e fiquei a pensar qual será, realmente, a
percepção que os museus têm deste desafio anual e se este tem qualquer impacto
nas suas práticas - no Dia dos Museus e no resto do ano). Dito isto, a riqueza
e a intensidade da programação apresentada, bem como o ambiente de festa,
poderiam fazer pensar que o sector dos museus em Portugal mostra sinais claros
de prosperidade. Assim, a notícia a 18 de Maio que alguns funcionários de
museus estavam em greve, contestando a redução do pagamento de horas
extraordinárias, bem como o facto de terem sido obrigados a trabalhar numa
segunda-feira (o dia destinado ao descanso semanal), foi uma espécie de nota
marginal (ver reportagem da TV)
Monday, 11 May 2015
Uma boa ideia, duas respostas, algumas lições
Passam este ano 125 anos desde a morte de Vincent Van
Gogh. A partir de 3 de maio e ao longo de 125 dias, o Museu Van Gogh em
Amsterdão irá responder a 125 questões sobre o pintor, a sua vida e a sua obra.
O museu convida todos os interessados a fazer uma pergunta através do seu
website e de uma página especialmente criada para apresentar as perguntas e
respostas (ver vídeo promocional e visitar a página).
Monday, 27 April 2015
Museum Next começa aqui
![]() |
| Christian Lachel, BRC Imagination Arts (Foto: Maria Vlachou) |
Parece-me que as três palavras mais ouvidas na conferência
de 2015 do MuseumNext foram: emoção, histórias, envolvimento. Palavras que registam claramente a
mudança que tem estado a ocorrer na atitude dos museus, com o objectivo de
estabelecer, com a ajuda de suas colecções, uma relação melhor e mais relevante
e significativa com as pessoas - mais pessoas, pessoas diferentes, pessoas
comuns.
Uma apresentação que foi inteiramente dedicada a este tema foi "Emotionalizing the Museum", de Christian Lachel da BRC Imagination Arts. "A experiência estará a transformar os seus visitantes fazendo-os querer partilhá-la com outros?", perguntou Christian. E esta é, provavelmente, a pergunta certa. Embora a transformação que todos nós tanto desejamos fazer acontecer pode levar algum tempo para ser conscientemente reconhecida pelas pessoas (se chegar a ser reconhecida), o desejo irresistível de compartilhar com os outros é um indicador mais imediato da ocorrência de um encontro significativo. E o ponto de partida é o coração das pessoas, afirmou Christian. O processo de criação de uma experiência envolvente acontece do interior para o exterior e não o inverso. Um processo que tem como objectivo envolver as pessoas através de uma história, procurando, de seguida, as ferramentas certas e a criação de um ambiente físico adequado para esse encontro.
Uma apresentação que foi inteiramente dedicada a este tema foi "Emotionalizing the Museum", de Christian Lachel da BRC Imagination Arts. "A experiência estará a transformar os seus visitantes fazendo-os querer partilhá-la com outros?", perguntou Christian. E esta é, provavelmente, a pergunta certa. Embora a transformação que todos nós tanto desejamos fazer acontecer pode levar algum tempo para ser conscientemente reconhecida pelas pessoas (se chegar a ser reconhecida), o desejo irresistível de compartilhar com os outros é um indicador mais imediato da ocorrência de um encontro significativo. E o ponto de partida é o coração das pessoas, afirmou Christian. O processo de criação de uma experiência envolvente acontece do interior para o exterior e não o inverso. Um processo que tem como objectivo envolver as pessoas através de uma história, procurando, de seguida, as ferramentas certas e a criação de um ambiente físico adequado para esse encontro.
![]() |
| Christian Lachel, BRC Imagination Arts (Foto: Maria Vlachou) |
Outra questão que surgiu repetidamente foi a do digital vs o
físico. Ao mesmo tempo que os museus estão numa corrida para abraçar as novas
ferramentas e plataformas digitais, a fim de criar experiências mais
envolventes e significativas, muitas vezes parecem dar um passo atrás,
re-avaliando as vantagens e os pontos fortes do encontro físico.
Um projecto inspirador do Museu Brooklyn, a Ask Mobile App,
passou por essas fases de pensamento e avaliação (que são abertamente
partilhadas no blog do museu - um grande exemplo de profissionalismo,
generosidade, transparência e accountability que mais museus devem ter a
coragem de aplicar). Como Shelley Bernstein nos explicou, num momento em que o
Museu de Brooklyn está a reavaliar vários pontos de contacto com os seus
visitantes (o seu foyer austero, a recepção confusa, a falta de assentos),
deseja também melhorar a sua experiência, permitindo-lhes fazer, no local e
em tempo real, qualquer pergunta que possam ter a respeito dos objectos ou das
exposições em geral. O projecto está ainda a ser testado nos seus detalhes e
será lançado em Junho.
![]() |
| Shelley Bernstein, Brooklyn Museum (Foto: Maria Vlachou) |
Numa fase anterior, o museu tinha membros do seu pessoal
nas salas e descobriu que os visitantes gostavam muito de conversar com eles.
No entanto, um museu tão grande iria precisar de muitas pessoas para ser capaz
de cobrir todas as salas. A fim de optimizar a ideia do contacto directo e em
tempo real com um membro da equipa, decidiram recorrer à tecnologia. Uma equipa
de seis pessoas está disponível para responder a perguntas de visitantes
enviadas através dos seus telemóveis usando a Ask Mobile App. A avaliação até
agora tem mostrado que as pessoas continuam a considerar este contacto pessoal
e o museu está confiante que esta será mais uma forma de cumprir a sua missão
de ser "um museu dinâmico e atento que promove o diálogo e provoca
conversas". O museu descobriu que as pessoas até passam mais tempo a olhar
para os objectos... à procura de perguntas para fazer!
Existirá, no entanto, algo mais pessoal e físico (e
divertido e inspirador) do que sermos levados para uma visita guiada adaptada
às nossas necessidades e interesses pelo Museum Hack? "Eu odeio
museus!", é assim que Nick Grey começou a sua apresentação. E odiava-os
... no passado. Agora, o que mais quer é partilhar a sua paixão por eles com as
pessoas que ainda os odeiam, com as pessoas que ainda sentem que os museus não
são para elas. Um colega do Museu de Arquitectura e Design de Oslo chamou ao
Museum Hack "nossos aliados naturais". E são, de facto! O objecto
favorito de Nick no Metropolitan Museum é o fragmento do rosto de uma rainha
egípcia. Foi isto que nos disse sobre ela (citando de memória): "Se estes
são os lábios, podem imaginar o resto? Como deve ter sido bela? E, embora não
saibamos quem ela foi e quais as ferramentas que foram usadas para a fazer,
sabemos que ela é feita de jaspe amarelo. O jaspe amarelo era tão caro que o
único outro objecto no Met feito deste material é pequeníssimo. Numa escala de
dureza de 1 a 10, onde o diamante é 10 e o mármore é 3, jaspe é um sólido 6.
Faz o mármore parecer borracha... ". Não são os museus “f *** ing
awesome”?!
![]() |
| Nick Grey, Museum Hack (Fotos: Maria Vlachou) |
A minha visita ao recentemente renovado Museu Internacional da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho testou, de alguma forma, todos esses
pensamentos e ideias. É um museu que combina muito bem o físico e o digital,
utilizando a tecnologia de modo a realçar o significado dos objectos, para
partilhar histórias poderosas e para envolver o visitante - tanto emocional
como intelectualmente - na discussão de questões universais e sensíveis. Os
três capítulos principais da história são "A defesa da dignidade
humana", "O restabelecimento de laços familiares" e "A
redução de riscos naturais" e cada espaço / capítulo foi criado por um
arquitecto diferente, propondo ambientes bastante distintos. Um dos momentos
mais tocantes para mim foi na sala onde estão expostos os presentes oferecidos
pelos prisioneiros de diferentes conflitos ao delegado da Cruz Vermelha
encarregue do seu caso. Fizeram-me pensar na beleza, sensibilidade,
criatividade e humanidade que ainda pode emanar depois do horror da barbárie,
breves sinais de uma esperança renovada. Devo dizer, porém, que o momento mais
poderoso foi tocar no ecrã a mão estendida de uma testemunha, um gesto que
iniciaria o seu testemunho. Uma concepção brilhante, que liga o físico ao
digital, criando uma experiência profundamente emocionante e memorável.
Em quase todas as visitas a museus, nas apresentação e
discussões durante a conferência, devo dizer que havia para mim uma questão
subjacente: podem os museus cumprir o seu papel social e educativo, podem ser
relevantes e envolventes, se não assumirem também, e de forma clara, o seu
papel político? Logo no primeiro dia, Gail Dexter Lord introduziu o conceito
de ‘soft power’ como "a capacidade de influenciar o comportamento através
da persuasão, da atracção ou do estabelecimento de uma agenda". Como é que
os museus podem exercer este poder? "Não podemos tomar partido", costumam exclamar alguns colegas. Oh, mas é o que fazemos ... Às vezes com o nosso silêncio ou fingindo sermos neutros; mais frequentemente, com os objectos que optamos por mostrar ou não mostrar, com as histórias que optamos por contar ou não contar.
Mais que tomar partido, porém, assumirmos o nosso papel político é assumirmos que há, na realidade, mais que um lado para cada história e criarmos espaço para estes pontos de vista se tornarem conhecidos, serem discutidos, para que os cidadãos possam ficar melhor informados, ver os seus próprios pontos de vista serem desafiados, conhecer e ouvir o 'outro', desenvolver empatia e compreensão, tomar uma posição. Os museus não são ilhas e, como afirmou Tony Butler (Derby Museums / The Happy Museum Project): "O que se passa lá fora é tão importante como o que se passa cá dentro". Não é urgente, e não faz sentido, que os museus no século XXI assumam o seu papel na promoção da democracia?
Mais que tomar partido, porém, assumirmos o nosso papel político é assumirmos que há, na realidade, mais que um lado para cada história e criarmos espaço para estes pontos de vista se tornarem conhecidos, serem discutidos, para que os cidadãos possam ficar melhor informados, ver os seus próprios pontos de vista serem desafiados, conhecer e ouvir o 'outro', desenvolver empatia e compreensão, tomar uma posição. Os museus não são ilhas e, como afirmou Tony Butler (Derby Museums / The Happy Museum Project): "O que se passa lá fora é tão importante como o que se passa cá dentro". Não é urgente, e não faz sentido, que os museus no século XXI assumam o seu papel na promoção da democracia?
![]() |
| Gail Dexter Lord (Foto: Maria Vlachou) |
Mais neste blog
O que é que temos a ver com isso?
O que é que temos a ver com isso? (ii)
'Apenas' um museu, 'apenas' um artista?
A dimensão educativa
Silenciosos e apolíticos?
A longa distância entre Califórnia e Jerusalém
Links que possam interessar:
O que é que temos a ver com isso?
O que é que temos a ver com isso? (ii)
'Apenas' um museu, 'apenas' um artista?
A dimensão educativa
Silenciosos e apolíticos?
A longa distância entre Califórnia e Jerusalém
Links que possam interessar:
Monday, 13 April 2015
Vamos fazer um re-branding?
Recentemente, devido a alguns artigos e posts que li, a
questão de como os museus são percepcionados pelas pessoas voltou a surgir na
minha cabeça. Senti que há uma necessidade urgente de levar o branding a sério,
como sector.
Para aqueles que não estão muito familiarizados com o conceito de branding, sugiro o brilhante discurso de Peter Economides Rebranding Greece, onde explica as coisas de forma muito clara:
Para aqueles que não estão muito familiarizados com o conceito de branding, sugiro o brilhante discurso de Peter Economides Rebranding Greece, onde explica as coisas de forma muito clara:
- A marca (brand) é um conjunto de impressões na cabeça das
pessoas;
- Branding é o processo de gestão dessas impressões;
- As marcas fortes criam impressões fortes e consistentes.
Os museus têm definitivamente criado impressões fortes e
consistentes. A expressão muito popular "é uma peça de museu" - ou
seja, algo velho, morto, empoeirado, não útil, algo do passado – mostra que
impressões são essas, realmente... A nossa necessidade de promover os museus
dizendo que eles são "espaços vivos" também indica que sabemos
perfeitamente o que as pessoas pensam sobre nós.
Alguns anos atrás, fiz a minha primeira entrevista para o boletim do ICOM Portugal com o Director de Marketing da Xerox. O principal assunto da nossa breve conversa foi a campanha da empresa para a
troca de peças antigas por novas. O senhor tentou ser gentil com os museus
quando eu perguntei sobre a ligação que fizeram: "(...) Muitos dos nossos
clientes mostram muita relutância em trocar equipamentos antigos enquanto estes
ainda funcionam. Esta é uma atitude comum perante algumas das nossas ‘peças de
estimação’, que gostamos de manter independentemente do seu custo real de
manutenção ou de sabermos que a evolução tecnológica já as colocou ‘fora de
moda’. Numa empresa, o ‘fora de moda’ pode ser a diferença entre o sucesso ou a
sobrevivência. Num museu é onde tipicamente podemos ver peças fora da nossa
época e com valor. A campanha pretende comunicar que, apesar do equipamento
estar a funcionar e ser valioso, a sua antiguidade faz com que não tenha as
funcionalidades e características da era tecnológica actual. Ou seja, estará
fora da sua época e o seu lugar é em Museus, onde podemos ver como viviam e
trabalhavam os nossos antepassados.” Foi uma tentativa generosa, mas todos nós
podemos ler nas entrelinhas, não podemos?
Mais recentemente, li dois artigos (aqui e
aqui) sobre o projecto “Futuristic Archaeology”, do artista coreata Daesung Lee. O
fotógrafo explicou que a acção humana sobre o meio ambiente é uma das suas
preocupações e sugeriu que “as paisagens verdejantes se tornarão escassas e que
as recordaremos num espaço onde se apresentarão mortas, intocáveis e
inatingíveis: num museu de história natural.”
Todos podemos ler nas entrelinhas, não podemos?
O terceiro caso que gostaria de discutir é o da campanha de
um museu: o Museu do Holocausto de Buenos Aires. A campanha data de 2011, mas chegou à minha atenção agora, através de um post
no Comunicacion Patrimonio. O slogan do museu é "Un museo, nada de arte", tentando colocar a
ênfase nas pessoas e na sua história. Cada foto da campanha apresenta um
sobrevivente do Holocausto e diz: "Ele / ela e milhões de outras pessoas
não fizeram nada para estar num museu". Percebo o que querem dizer... E,
ainda assim, não percebo... O museu aprovou uma campanha (uma bela campanha,
devo dizer) que reforça uma série de estereótipos: que quando falamos em museus
falamos em museus de arte; que as pessoas não precisam ter medo, porque não vão
encontrar arte neste museu; que os museus são sobre os grandes (grandes
artistas?) e não sobre pessoas comuns. Como disse, acho que esta é uma bela
campanha, uma que coloca as pessoas em primeiro plano. Mas não posso concordar
com o facto de, a fim de passarem a sua mensagem, terem usado uma série de estereótipos
que ajudam a reforçar impressões negativas que as pessoas têm dos museus. E
eles são um museu…
As impressões das pessoas coincidem com o que os museus são
hoje? Não vou negar que alguns museus, em quase todos os países, ainda são
dignos do que as pessoas pensam deles. Mas muitos não o são. Em grande medida,
os museus mudaram as suas atitudes, as suas formas de trabalho, a sua imagem,
por isso precisam de pensar seriamente na forma de mudar essas percepções que
persistem na cabeça das pessoas.
Um dos meus livros favoritos é "Designing Brand
Identity" de Alina Wheeler. Voltei a ler o capítulo “When is it needed?”
(ou seja, quando é que o branding é preciso), onde são identificadas seis
razões para procurar um especialista em “brand identity”: 1. nova empresa, novo
produto; 2. mudança de nome; 3. revitalizar uma marca; 4. revitalizar a
identidade de uma marca; 5. criar um sistema integrado; 6. empresas que se
fundem. O caso dos museus está claramente associado à terceira razão,
considerando que eles precisam de se reposicionar e renovar a sua marca
corporativa; já não fazem o mesmo que faziam quando foram fundados; precisam de
comunicar de forma mais clara quem são; muitas pessoas não sabem quem são;
desejam atrair um novo mercado.
As impressões na cabeça das pessoas são poderosas. Os
estereótipos levam muito tempo para se dissolver. Não admira que muitas pessoas
ainda se mantenham afastadas (facto para o qual contribui também a forma como
os museus comunicam a sua oferta em geral, incapazes, muitos deles, de apelar à
pessoa comum, o visitante não-especialista). Os museus precisam de ter um papel
activo na mudança dessas percepções e precisam de o fazer com cuidado, com
conhecimento de causa, com urgência e ... unidos.
Monday, 30 March 2015
O que há num título?
Escolher o título de uma exposição, actividade ou evento não
é algo fácil. Não quando o que se pretende é que possa transmitir algo sobre o
conteúdo e ser curioso ou engraçado o suficiente para atrair a atenção das
pessoas – e, também, ser eficaz quando aplicado em materiais promocionais. O
que normalmente se encontra ao abrir uma agenda cultural são títulos que
apresentam o óbvio (por exemplo, o nome de um artista que podemos ou não
conhecer) ou que tentam descrever o conteúdo de uma forma algo seca, maçadora
ou repetitiva - palavras como "lugar", "memória",
"olhar", "tesouros" são das mais preferidas por museus.
Outro caso que devemos considerar é o de peças de teatro e performances
contemporâneas, cujos títulos podem ser de 2-3 linhas, para serem depois abreviados
para "uso diário" pela própria equipa artística e pelo público,
levando ao que, provavelmente, deveria ter sido o título em primeiro lugar...
Tentei lembrar-me de títulos que funcionaram bem para mim e
ocorreram-me logo dois:
| "Unter 10" no Wien Museum (Foto: Maria Vlachou) |
"Unter 10 - Wertvolles en miniatura" (Abaixo de 10
- Tesouros em miniatura),
no Wien Museum, foi uma exposição de 2013 que apresentava objectos da colecção do museu
escolhidos com base no critério rígido que nenhum deles podia ter mais de 10 cm
de largura, altura, profundidade ou diâmetro. Desde objectos que procuravam
“simplesmente” responder ao desafio da miniaturização, a utensílios do bébé,
frascos de cheiro ou panfletos políticos ilegais, esta exposição fez-nos olhar
(também com a ajuda de lupas ...), e olhar melhor, de maneira diferente, para a
colecção. O museu não estava na minha lista de visitas, mas não pude resistir
ao título.
![]() |
| Entrada da exposição "Disobedient Objects", V&A (Foto: Maria Vlachou) |
Mais recentemente, "Disobedient Objects” (Objectos
Desobedientes) foi outro título de exposição que chamou a minha atenção.
Apareceu pela primeira vez no meu “feed” de notícias no verão passado, entre
dezenas de diferentes títulos de notícias. Parei e abri o artigo. Citando o
site do Victoria & Albert Museum, "Desde bules das Sufragistas a robots de protesto, esta exposição foi a
primeira a examinar o papel poderoso de objectos em movimentos de mudança
social. Demonstrou como o activismo político impulsiona uma riqueza de engenho
no design e de criatividade colectiva que desafiam definições-padrão de arte e
design." Tive a oportunidade de visitar a exposição em Novembro passado e
correspondeu às minhas expectativas. O objecto que mais me tocou foi uma nota líbia desfigurada (o rosto rabiscado sendo o de Gaddafi). Lembrou-me de um
líbio a ser entrevistado após ter visto o cadáver de Gaddafi: "Nós sempre
pensámos que ele era um homem grande. Ele é pequeno, ele é tão pequeno."
![]() |
| Nota líbia desfigurada na exposição "Disobedient Objects", V&A (Foto: Maria Vlachou) |
Vale a pena falar também de alguns exemplos refrescantes que
surgiram recentemente em Portugal.
"Vivinha a saltar!" é uma exposição no Museu
Bordalo Pinheiro que apresenta dois símbolos da cidade de Lisboa: a varina, uma figura popular na obra de Rafael Bordalo Pinheiro; e a
sardinha, que se tornou num ícone da cidade e numa fonte de inspiração para
artistas contemporâneos. O nome da exposição, "Vivinha a saltar!", um
dos pregões mais famosos das varinas, tinha sido título de uma crónica sobre
política e a sociedade portuguesa publicada no jornal "A Paródia",
fundado por Bordalo Pinheiro.
Na semana passada, o Museu Municipal de Penafiel celebrou o
Dia Mundial da Poesia, a 21 de Março, com "Dois garfos de conversa",
uma conferência sobre os poetas da cidade, seguida de um jantar no museu. Conforme
me explicou a directora do museu, título e cartaz foram criados pela equipa do
Museu.
No mesmo dia, o colectivo de jovens Faz 15-25 celebrou o seu primeiro ano de existência no Museu Arpad Szenes - Vieira da Silva com filmes, poesia, palestras, oficinas e
comida, inspirados na exposição temporária do museu "Sonnabend | Paris -
New York" e dirigidos a públicos jovens. O título da iniciativa:
"Faz-Tá POP!".
Por fim, a Fundação Calouste Gulbenkian surpreendeu-nos em
Dezembro passado com um convite "P'ra Rir", um ciclo de cinema (agora
na sua segunda edição), que dá às pessoas a oportunidade de ver cinema numa
sala grande, o recentemente renovado Grande Auditório da Fundação. De acordo
com João Mário Grilo, responsável pela programação, o riso pareceu-lhe ser um
bom gesto inaugural. "E será errado pensar que se trata de (mais) um 'ciclo de comédias', porque no cinema, como na vida, se ri de muitos modos
diferentes, e até nos dramas."
![]() |
| Retirado da página de Facebook da Fundação Calouste Gulbenkian. |
Tanto nas instituições culturais grandes como nas pequenas,
o processo de escolha de um título pode envolver diferentes pessoas e
departamentos: curadores, directores, assessores de imprensa, as equipas de
educação e de comunicação. Recentemente, a Fundação Gulbenkian decidiu envolver
o público na escolha do título de uma exposição de 2016 no Museu Gulbenkian.
Como mencionado no início do post, o objectivo ao escolher um título é que este
possa transmitir algo sobre o conteúdo, atrair a atenção das pessoas, ser
eficaz quando aplicado nos materiais promocionais (neste caso, um bom design
gráfico é definitivamente uma vantagem). Um último conselho, dos nossos colegas do Australian Museum:
"Assegure-se que os funcionários da recepção / frente-de-casa estão
confortáveis ao dizer o título em voz alta, pois muitas vezes são eles que
vendem a exposição aos visitantes." E têm razão!
Agradecimentos: Elisabete Caramelo, Isabel Aguilar, Maria
José Santos, Rui Belo, Sara Pais.
Mais leituras:
Ann Landi, Title fights: how museums name their shows
Australian Museum, What’s in a name? Evaluation of exhibition titles
Susan Mumford, Exhibition titles: love orhate them, we must create them
Monday, 23 March 2015
Philippe de Montebello revela-se
Vou dizê-lo logo no início para deixar o assunto arrumado:
sim, fiquei irritada com as duas afirmações de Philippe de Montebello no livro "Rendez-vous with art" relativas
à questão da restituição de objectos (p.54 e p.208). Dito isto, o resto do livro é absolutamente
encantador! Uma série bela, inspiradora e surpreendente de conversas entre
Montebello e o crítico de arte Martin Gayford, que revela o homem por trás do
historiador de arte e durante muitos anos director do Metropolitan Museum of Art.
Seguindo estas conversas, sentimos um desejo de olhar e
olhar melhor, mesmo que seja apenas uma foto num livro - na esperança, é claro,
de poder estar à frente do original um dia ... Como o próprio Montebello diz:
"(...) nada pode substituir a experiência, a sensação muito física, de estar cercado e envolto no espaço real." (51 p.)
Provavelmente, um dos momentos mais tocantes vem logo no
início do livro, onde Montebello responde à pergunta de Gayford sobre aquele
momento único, aquela experiência única que pode tê-lo levado a uma vida nas
artes. Montebello partilha connosco esse momento muito especial, quando ele
tinha 15 anos e o seu pai levou para casa o livro "Les Voix du Silence" de
André Malraux. E, de repente, ali estava Uta...
Fiquei a pensar: será que ele teria alguma vez posto isto na legenda num museu? Quantas pessoas teriam olhado, olhado melhor, olhado mais, se tivessem lido algo assim sobre uma estátua?
Mais à frente, Montebello admite algo que raramente ouvimos
da boca de curadores, mas que é verdade para a maioria dos visitantes de
museus: "Descobri que quando me forcei - muitas vezes com a
ajuda de curadores - a olhar para coisas sobre as quais era indiferente ou que
até me repeliam, descobri que, com mais alguns conhecimentos, o que havia sido
escondido de mim tornou-se manifesto." (p.59)
Que tipo de conhecimentos é necessário para esta 'epifania'
ocorrer, podemos questionar. Nem factos sobre a vida do artista, nem uma
descrição detalhada e seca de pormenores estilísticos, quando são consideradas as primeiras necessidades do visitante não-especialista (ou seja, da maioria dos visitantes dos
museus). Parece que podemos encontrar todas as respostas no livro de Freeman
Tilden "Interpreting our Heritage": "O que está por trás do que
o olho vê é muito maior do que aquilo que é visível" (p.20); (...) Mas o objectivo da interpretação é estimular o leitor ou o ouvinte a
desejar ampliar os seus horizontes de interesses e conhecimentos e a procurar
entender as grandes verdades que estão por trás de qualquer afirmação de factos
(p.59); (…) Não com os nomes das coisas, mas expondo a alma das coisas –
aquelas verdades que estão por trás do que estamos a mostrar ao visitante. Nem
pregando; nem sequer dando sermões; não através da instrução, mas através da
provocação (p.67).
Mais alguns exemplos do livro de Montebello poderiam
ilustrar melhor estes pontos:
![]() |
| "Mas estou feliz só de apreciar a expressão no rosto de Adão, tão doce, e da maneira como ele segura o ramo de maçã - não é uma folha de figueira - com dois dedos, bem como a folhagem necessária para cobrir a sua nudez. Dürer dotou de uma forma tão cativante as suas figuras inspiradas na antiguidade clássica com uma terna sensualidade; e adoro Eva, parecida com Vénus, com o seu rosto bonito de fräulein de Nürnberg. Vê? Nada de história da arte, apenas a minha própria reacção muito pessoal "(p124, Albrecht Dürer, Adão e Eva, 1507; imagem retirada de www.pictify.com) |
Não acredito que a maioria das pessoas visita museus à
procura de uma lição em história de arte nos seus painéis e legendas - ou de
física, de música ou de outra disciplina qualquer (algumas o fazem, é claro, e
as suas necessidades são igualmente legítimas, mas os museus geralmente dão
resposta a essas necessidades com vários outros meios). As pessoas também não
visitam museus à procura de alguém que lhes diga o que devem sentir ou pensar,
como defende Alain de Botton em Art is Therapy (Rijksmuseum), onde encontramos
legendas como esta: "Você sofre de fragilidade, de culpa, de dupla
personalidade, de auto-aversão. Você é provavelmente um pouco como esta imagem."
(a respeito da pintura de Jan Steen A Festa de São Nicolau). Penso que a
maioria de nós está, antes de tudo, à procura de algo que possa ter significado
para nós, algo que possa deliciar-nos, surpreender-nos, fazer-nos sentir bem ou
mais ricos ou mais conscientes de nós mesmos e do mundo. Muitos de nós estamos
à procura de histórias, histórias de outras pessoas, seres humanos com os quais
nos possamos relacionar - aqueles representados ou aqueles que procuram
partilhar os seus conhecimentos connosco.
Decidir qual a história a contar não é uma escolha fácil
para um museu; escrevê-la de uma forma clara e concisa é igualmente
difícil. Mas não é impossível, como Montebello nos mostra no seu livro, onde
abandona o seu “eu institucional" e consegue partilhar o seu enorme
conhecimento de historiador de arte de uma maneira simples e humana, que é significativa e relevante para muitas mais pessoas. Não é impossível,
como Paula Moura Pinheiro nos mostra todas as semanas no seu programa
televisivo "Visita Guiada", onde descobrimos que curadores e
especialistas em arte em Portugal também são pessoas fascinantes, capazes de partilhar connosco muito mais do que os habituais
factos geralmente presentes nas legendas, e que nos fazem desejar saber mais,
visitar o museu, ver o objecto - ou voltar para o ver de novo, depois do que
nos foi revelado.
É possível. É uma questão de escolha e de habilidade. Não
lhe falta teor científico e comunica.
![]() |
| "Não tenho certeza se ficaria encantado porque estou tão concentrado, tão absorto e cativado pela perfeição do que lá está; que o meu prazer - e é um prazer intenso - está maravilhado com o que o meu olho vê, não com uma abstracção que, de um modo mais ‘à história de arte’, eu poderia evocar. É como um livro que amamos e simplesmente não queremos ver o filme. Já imaginámos o herói ou a heroína de uma certa maneira. Na verdade, com os lábios de jaspe amarelo, eu nunca tentei, realmente, imaginar as partes que faltam." (p.8, Fragmento do rosto de uma rainha, Período do Império Novo, c. 1353-1336 a.C, Egipto; imagem retirada do website do Metropolitan Museum) |
Mais neste blog
Mais leituras
Philippe de Montebello and
Martin Gayford (2014), Rendez-vous with Art. Thames and
Hudson
Maria Isabel Roque, Título, autor e data: o que diz uma tabela?
Maria Isabel Roque, Tanto esplendor e glória para tão pouco contar
Sahil Chinoy, Off the beat: Art apathy, museum misery
Monday, 16 March 2015
O que é que temos a ver com isso? (ii)
![]() |
| Field Museum, Chicago (fotógrafo desconhecido) |
Em Dezembro passado, houve um intenso debate entre os
profissionais de museus nos EUA a respeito do papel dos museus na sequência da
morte de negros pela da polícia em Ferguson, Cleveland e Nova Iorque. Os nossos
colegas norte-americanos sentiram fortemente que os museus fazem parte da rede
cultural e educacional que trabalha no sentido de uma maior compreensão
cultural e racial. Será que eles se referiam especificamente aos museus com
colecções afro-americanas? Ou a museus situados nas comunidades onde os eventos
ocorreram? Não, não se referiam apenas a estes. "Como mediadores
culturais, todos os museus devem procurar identificar formas criar ligações com
relevantes questões contemporâneas, independentemente da sua colecção, enfoque
ou missão." (ler a declaração na íntegra)
Na altura, concordei com a posição mais cautelosa de Rebecca Herz. Acho arriscado incentivar um museu (ou qualquer outra instituição) a agir
independentemente da sua missão, mas, como Rebecca referiu: "Eu
pessoalmente acredito que os museus devem alinhar todas as suas acções com a
sua missão, que deve estar relacionada com a colecção ou o enfoque. E acho que
se pode encontrar uma ligação entre qualquer colecção e a vida contemporânea,
mas que estas ligações devem ser cuidadosamente consideradas e desenvolvidas.
" (ler post)
Enquanto estava a seguir esta discussão muito interessante
que ocorria no outro lado do Atlântico, no dia 15 de Dezembro, um refugiado
iraniano invadia um café em Sydney fazendo reféns. Dezasseis horas depois, a
polícia interveio, matando o atacante, assim como dois dos reféns. Temendo
represálias contra os membros da comunidade muçulmana que usavam o traje
islâmico, os habitantes de Sydney ofereceram-se para acompanhar nos transportes
públicos os seus vizinhos muçulmanos que se sentiam inseguros. Soube disto no
início da manhã de 16 de Dezembro, através da página de Facebook do Immigration
Museum. O museu partilhou a notícia do Guardian e juntou-se ao resto dos
australianos, numa tomada de posição contra o preconceito e a violência.
Tomar posição não é algo simples, especialmente para uma
instituição (por oposição a um indivíduo). Não é uma decisão que pode ou deve
ser tomada apressadamente, uma reacção ao momento. Deve ser um acto
"natural", o resultado de uma política consciente, estruturada e
sustentada de intervenção cívica / política, de acordo com a missão da
instituição. É também uma grande responsabilidade.
No mês passado, três jovens muçulmanos foram assassinados na
sua casa na Carolina do Norte, EUA. Numa altura em que os jornais noticiavam
que os motivos do atacante ainda não eram conhecidos, o Arab American National
Museum partilhava na sua página no Facebook a sua tristeza pela perda dos três
jovens, insinuando que este tinha sido um crime racial. Pensei que era muito
cedo, que o museu estava a tirar ilações, o que não me pareceu ser nem
responsável nem útil. Perguntei ao museu se fazia uma declaração como aquela para
cada assassinato nos EUA. Outras pessoas (não o museu) responderam que as
vítimas eram americanos-árabes, de modo que o museu fazia bem em reagir.
Reformulei a pergunta e questionei se o museu fazia uma declaração para cada
americano-árabe assassinado, se assumia que o assassinato de qualquer
americano-árabe era um crime racial. Acho que os museus não devem atirar-se e
fazer declarações antes do tempo.
Mais recentemente, em Portugal, o Museu Nacional de Arte
Antiga publicou uma declaração sobre a destruição de tesouros arqueológicos do
Museu de Mosul por militantes do ISIS. Foi uma boa surpresa, uma vez que este
museu, como a maioria dos museus portugueses, não costuma tomar posições
publicamente. Alguém poderia argumentar que isso não foi exactamente uma
declaração política e que se tratava de uma assunto algo "seguro"
para o museu; pode ser. Veio também num momento em que os especialistas ainda
estavam a tentar perceber se os objectos destruídos eram os originais ou
cópias; talvez por isso, pareceu uma reacção um pouco precipitada. Estou mais
interessada, no entanto, em perceber se essa foi uma acção pontual ou o
primeiro acto de uma política concreta e a longo prazo de reconhecer e assumir
as responsabilidades civis-políticas-culturais do museu. Seria óptimo se assim
fosse, o tempo o dirá.
Mais neste blog
Monday, 5 January 2015
Para aceitar o 'não' como resposta
![]() |
| Museu da Acrópole (Foto: Maria Vlachou) |
Da última vez que estive no Museu da Acrópole e enquanto
estava a tirar fotografias na sala das esculturas, fui abordada por um
vigilante que gentilmente me informou que não podia tirar fotos naquela sala e
que rapidamente me informou também das áreas onde podia fotografar. Não me foi
dada nenhuma explicação em relação a essa distinção. Quando um pouco mais tarde
tirei uma fotografia a uma legenda (não um objecto, uma legenda), uma outra
vigilante fez questão de informar os seus colegas que deveria ser vigiada. E
passou a seguir-me de perto…
Sendo tudo isto muito desconfortável para mim - e, tenho a
certeza, para os vigilantes também -, aproveitei a oportunidade para questionar
uma arqueóloga que estava na sala, a fim de responder a perguntas dos
visitantes. Explicou-me que algumas das estátuas preservam as suas cores
originais, que o flash pode ser prejudicial, e que, como não é possível para os
vigilantes controlarem o uso do flash, o museu achou melhor proibir totalmente
a fotografia. Pareceu-me que a apanhei de surpresa quando perguntei por que
razão o museu não assume o seu papel educativo e não explica aos visitantes
porque é que não deve ser utilizado o flash, em vez de proibir totalmente a
fotografia em determinadas salas (a maioria das câmeras digitais não precisa de
flash) e criar uma política tão ambígua em relação à fotografia no museu.
![]() |
| Brooklyn Museum (Foto: Maria Vlachou) |
Não foi algo que inventei naquele momento. Ocorreu-me que,
há um par de anos, na exposição Workt by Hand no Brooklyn Museum - composta
de colchas extremamente frágeis, feitas nos últimos dois séculos - o museu
tinha optado por não mostrar os objectos atrás de vidros ou cercados de cordas
e à distância. Por isso, quando se entrava no quarto, o visitante era convidado
a "Por favor, não tocar. O óleo e os sais nas suas mãos podem danificar
tecidos e pontos. Agradecemos a sua ajuda na preservação destas peças
frágeis". Algumas pessoas podem estar a pensar que estamos a falar de uma
cultura diferente, uma cultura mais respeitosa, mas não é o caso. O Brooklyn
Museum abre as suas portas a todo o tipo de visitantes, com e sem o hábito de
visitar museus, com e sem conhecimentos específicos sobre os objectos e a sua
preservação. O museu assume, no entanto, o seu papel educativo e não espera
simplesmente que os visitantes aceitem o 'não' como resposta, só porque o museu
assim o disse, sem mais explicações.
Pouco depois da minha visita ao Museu da Acrópole, li um artigo no Guardian sobre o papel fundamental dos assistentes de sala nos teatros, principalmente no que diz respeito a públicos disruptivos. No artigo, é-nos dado a conhecer o exemplo de Stratford East Theatre, onde
assistentes de sala e pessoal de frente-de-casa são formados para lidar com
tais situações. E mais: num teatro que tem "um número particularmente
elevado de espectadores que vêm pela primeira vez, que às vezes precisam de ser
ajudados a compreender o efeito que o seu comportamento tem não apenas nos
outros membros do público, mas também nos assistentes de sala e nos
actores", a gestão do teatro opta por convidá-los "a visitar os
bastidores para conhecerem a equipa e o elenco e para que possam entender mais
sobre como funciona um teatro e como os seus comportamentos afectam os
outros".
Acredito que faz parte do papel educativo das instituições
culturais ajudar as pessoas a compreender melhor os detalhes do trabalho que
está a ser feito, mas também o seu próprio papel – o papel dos espectadores e
dos visitantes – para que este trabalho possa ser realizado nas melhores
condições para todos os envolvidos. Acredito que isto pode ser muito mais
eficaz do que simplesmente dizer "não" a um certo comportamento ou
pedir às pessoas para saírem e é também uma maneira de as tornar
co-proprietárias e co-responsáveis por esse trabalho.
Monday, 15 December 2014
A dimensão educativa
Em Outubro passado, durante o intervalo da apresentação do
“Requiem” de Brahms pela Saint Louis Symphony, vinte e três manifestantes
sentados em várias partes do auditório levantaram-se e cantaram "Requiem
para Mike Brown" (o jovem negro desarmado que foi baleado por um polícia
em Ferguson). Algumas pessoas ficaram chocadas, outras aplaudiram, o mesmo
aconteceu com os músicos no palco. Ninguém interrompeu os manifestantes,
ninguém chamou a polícia. Talvez porque o que aconteceu fez sentido, naquele
lugar, naquele tempo, naquele contexto específico. Sendo que a música era parte
integrante dos protesto em Ferguson, esta, de acordo com um dos organizadores,
foi uma tentativa de "falar com um segmento da população que tem o luxo de
estar confortável. Temos que fazer uma escolha de apenas ficarmos na nossa zona
de conforto ou falarmos de algo que é importante. Não está certo simplesmente
ignorá-lo" (leia o artigo completo).
As recentes mortes de negros pela polícia em diferentes cidades dos Estados Unidos provocaram uma intensa reflexão entre as instituições culturais no país sobre o seu papel. Num recente comunicado de bloggers de museus e de outros profissionais da cultura em relação a Ferguson e outros eventos relacionados, lê-se:
"Os recentes acontecimentos, desde Ferguson a Cleveland
e Nova Iorque, criaram um momento de transição. As coisas precisam de mudar.
Novas leis e políticas irão ajudar, mas qualquer movimento em direcção a uma
maior compreensão e comunicação cultural e racial deve ser apoiado pela
infra-estrutura cultural e educativa do nosso país. Os museus fazem parte desta
rede educativa e cultural. Qual deve ser o nosso papel (papéis)? (...) Onde é
que os museus se encaixam? Alguns poderiam dizer que só os museus com colecções
específicas afro-americanas têm um papel, ou talvez apenas museus situados nas
comunidades onde estes eventos ocorreram. Como mediadores culturais, todos os
museus devem comprometer-se em identificar de que forma podem relacionar-se com
questões contemporâneas relevantes, independentemente da sua colecção, foco ou
missão. (...) Até agora, apenas a Association of African
American Museums emitiu uma declaração formal sobre as questões mais
amplas relacionadas com Ferguson, Cleveland e Staten Island. Acreditamos que o
silêncio de outros museus envia uma mensagem de que estas questões são uma
preocupação apenas para os afro-americanos e os museus afro-americanos. Sabemos
que este não é o caso."
Em Agosto passado, uma séria controvérsia envolveu a decisão
do Tricycle Theatre de não receber o UK Jewish Film Festival, pela primeira vez
em oito anos. O motivo foi que o festival tinha o apoio da Embaixada de Israel
em Londres e, dado que naquele momento estava em desenvolvimento a ofensiva em
Gaza, o Conselho Consultivo considerou que “não seria apropriado aceitar o
apoio financeiro de qualquer agência governamental envolvida". O Teatro
ofereceu-se para fornecer financiamento alternativo, mas o Festival não aceitou
(leia o artigo completo). O conflito em Gaza foi também a razão pela qual artistas participantes na
Bienal de São Paulo este ano apelaram aos organizadores (apoiados
posteriormente pelos curadores da Bienal) para devolver o financiamento do
Consulado Israelita. As negociações mais tarde resultaram na remoção do
logótipo do Consulado dos principais patrocinadores e na sua associação apenas
aos artistas israelitas que receberam este apoio financeiro específico (leia o
relatório completo).
Podemos
concordar ou discordar com as decisões tomadas por estas organizações. Mas o
questionamento em relação ao papel das instituições culturais na sociedade de
hoje, especialmente o seu papel educativo, deve ser permanente, constante. Tal
como Rebecca Herz, acredito que estas não devem agir independentemente da sua
missão (como é sugerido no acima referido comunicado dos bloggers de museus
norte-americanos), mas qualquer colecção de museu ou temporada de teatro /
orquestra / festival pode ter uma ligação à vida contemporânea e ajudar a
moldar o tipo de sociedade que precisamos ou sonhamos. Como o trabalho de
muitos artistas contemporâneos é uma resposta a assuntos da vida contemporânea, é comum
encontrarmos este género de ligações, assim como uma fértil reflexão à volta deles, na programação de teatros, companhias e galerias (o
Teatro Maria Matos, o Programa Gulbenkian Próximo Futuro ou o alkantara festival são os
primeiros que me ocorrem entre as entidades cuja programação acompanho em Portugal, mas há outros). Os museus ou as orquestras que apresentam obras que não são contemporâneas não estão muito
habituados a procurar ligações entre as suas colecções ou concertos e a vida
contemporânea ou, se o fazem, não se torna perceptível para mim. Muitas vezes
pergunto-me “Qual o propósito desta exposição ou deste concerto?”, “Porque é relevante?”, “Como é
que isto se relaciona com a sociedade portuguesa contemporânea e com a sua
diversidade?” (penso mais uma vez no trabalho inspirador da Orchestra of the Age of the Enlightenment...)
Isto leva-me mais uma vez para uma questão recorrente neste
blog: “accountability” e responsabilidade. Não vejo as instituições culturais
como ilhas, distantes do que está a acontecer no seu redor. Acredito que devem
tornar claro para as pessoas de que forma o que têm a dizer ou mostrar pode ser
relevante para elas; devem partilhar publicamente a sua visão e objectivos e
assumir a responsabilidade pelo seu cumprimento; devem ser um fórum público,
onde as pessoas podem encontrar conforto, mas também o desconforto necessário.
Têm claramente um papel educativo (no sentido de fornecer o que os gregos
antigos chamavam "paideia"), um papel que eu não faria
necessariamente depender do que acontece (ou não acontece) na escola ou em casa
e um papel que não depende, em primeiro lugar, do serviço educativo, mas sim,
do/a director/a.
Dois directores de museus e um curador estarão connosco na
próxima terça-feira, 16 de Dezembro, na conferência da Fundação Gulbenkian
"Que lugares para a educação? A dimensão educativa de instituições
culturais" (mais informações). Charles Esche
(Director do Van Abbemuseum e um dos curadores da Bienal de São Paulo deste
ano), David Fleming (Director dos National Museums Liverpool e Presidente da
Federação Internacional de Museus de Direitos Humanos) e Delfim Sardo (Curador,
Professor Universitário e Ensaísta) irão desafiar-nos a pensar sobre as nossas
responsabilidades e práticas no actual contexto social e político.
Nota: Para
quem não puder estar em Lisboa, a conferência será transmitida em livestreaming. Há uma série de
artigos, posts, textos de opinião e entrevistas na página da conferência (em
“Oradores”, “+Reflexão” e “+Info”).
Mais leituras:
Jean-François Chougnet, Le MuCEM ne doit pas devenir un musée pour touristes
Laura C. Mallonee, A scramble to save protest art, from Ferguson to Hong Kong
Maddy Costa, Can a relationship with theatre change people’s relationship to society?
Maddy Costa, Can a relationship with theatre change people’s relationship to society?
Sunny
Hundal and Nock Cohen, Was the Tricycle Theatre right to ask the UK Jewish Film Festival to ‘reconsider’ its funding?
Mais neste blog:
Subscribe to:
Posts (Atom)
































