Passam este ano 125 anos desde a morte de Vincent Van
Gogh. A partir de 3 de maio e ao longo de 125 dias, o Museu Van Gogh em
Amsterdão irá responder a 125 questões sobre o pintor, a sua vida e a sua obra.
O museu convida todos os interessados a fazer uma pergunta através do seu
website e de uma página especialmente criada para apresentar as perguntas e
respostas (ver vídeo promocional e visitar a página).
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Monday, 11 May 2015
Monday, 27 April 2015
Museum Next começa aqui
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| Christian Lachel, BRC Imagination Arts (Foto: Maria Vlachou) |
Parece-me que as três palavras mais ouvidas na conferência
de 2015 do MuseumNext foram: emoção, histórias, envolvimento. Palavras que registam claramente a
mudança que tem estado a ocorrer na atitude dos museus, com o objectivo de
estabelecer, com a ajuda de suas colecções, uma relação melhor e mais relevante
e significativa com as pessoas - mais pessoas, pessoas diferentes, pessoas
comuns.
Uma apresentação que foi inteiramente dedicada a este tema foi "Emotionalizing the Museum", de Christian Lachel da BRC Imagination Arts. "A experiência estará a transformar os seus visitantes fazendo-os querer partilhá-la com outros?", perguntou Christian. E esta é, provavelmente, a pergunta certa. Embora a transformação que todos nós tanto desejamos fazer acontecer pode levar algum tempo para ser conscientemente reconhecida pelas pessoas (se chegar a ser reconhecida), o desejo irresistível de compartilhar com os outros é um indicador mais imediato da ocorrência de um encontro significativo. E o ponto de partida é o coração das pessoas, afirmou Christian. O processo de criação de uma experiência envolvente acontece do interior para o exterior e não o inverso. Um processo que tem como objectivo envolver as pessoas através de uma história, procurando, de seguida, as ferramentas certas e a criação de um ambiente físico adequado para esse encontro.
Uma apresentação que foi inteiramente dedicada a este tema foi "Emotionalizing the Museum", de Christian Lachel da BRC Imagination Arts. "A experiência estará a transformar os seus visitantes fazendo-os querer partilhá-la com outros?", perguntou Christian. E esta é, provavelmente, a pergunta certa. Embora a transformação que todos nós tanto desejamos fazer acontecer pode levar algum tempo para ser conscientemente reconhecida pelas pessoas (se chegar a ser reconhecida), o desejo irresistível de compartilhar com os outros é um indicador mais imediato da ocorrência de um encontro significativo. E o ponto de partida é o coração das pessoas, afirmou Christian. O processo de criação de uma experiência envolvente acontece do interior para o exterior e não o inverso. Um processo que tem como objectivo envolver as pessoas através de uma história, procurando, de seguida, as ferramentas certas e a criação de um ambiente físico adequado para esse encontro.
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| Christian Lachel, BRC Imagination Arts (Foto: Maria Vlachou) |
Outra questão que surgiu repetidamente foi a do digital vs o
físico. Ao mesmo tempo que os museus estão numa corrida para abraçar as novas
ferramentas e plataformas digitais, a fim de criar experiências mais
envolventes e significativas, muitas vezes parecem dar um passo atrás,
re-avaliando as vantagens e os pontos fortes do encontro físico.
Um projecto inspirador do Museu Brooklyn, a Ask Mobile App,
passou por essas fases de pensamento e avaliação (que são abertamente
partilhadas no blog do museu - um grande exemplo de profissionalismo,
generosidade, transparência e accountability que mais museus devem ter a
coragem de aplicar). Como Shelley Bernstein nos explicou, num momento em que o
Museu de Brooklyn está a reavaliar vários pontos de contacto com os seus
visitantes (o seu foyer austero, a recepção confusa, a falta de assentos),
deseja também melhorar a sua experiência, permitindo-lhes fazer, no local e
em tempo real, qualquer pergunta que possam ter a respeito dos objectos ou das
exposições em geral. O projecto está ainda a ser testado nos seus detalhes e
será lançado em Junho.
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| Shelley Bernstein, Brooklyn Museum (Foto: Maria Vlachou) |
Numa fase anterior, o museu tinha membros do seu pessoal
nas salas e descobriu que os visitantes gostavam muito de conversar com eles.
No entanto, um museu tão grande iria precisar de muitas pessoas para ser capaz
de cobrir todas as salas. A fim de optimizar a ideia do contacto directo e em
tempo real com um membro da equipa, decidiram recorrer à tecnologia. Uma equipa
de seis pessoas está disponível para responder a perguntas de visitantes
enviadas através dos seus telemóveis usando a Ask Mobile App. A avaliação até
agora tem mostrado que as pessoas continuam a considerar este contacto pessoal
e o museu está confiante que esta será mais uma forma de cumprir a sua missão
de ser "um museu dinâmico e atento que promove o diálogo e provoca
conversas". O museu descobriu que as pessoas até passam mais tempo a olhar
para os objectos... à procura de perguntas para fazer!
Existirá, no entanto, algo mais pessoal e físico (e
divertido e inspirador) do que sermos levados para uma visita guiada adaptada
às nossas necessidades e interesses pelo Museum Hack? "Eu odeio
museus!", é assim que Nick Grey começou a sua apresentação. E odiava-os
... no passado. Agora, o que mais quer é partilhar a sua paixão por eles com as
pessoas que ainda os odeiam, com as pessoas que ainda sentem que os museus não
são para elas. Um colega do Museu de Arquitectura e Design de Oslo chamou ao
Museum Hack "nossos aliados naturais". E são, de facto! O objecto
favorito de Nick no Metropolitan Museum é o fragmento do rosto de uma rainha
egípcia. Foi isto que nos disse sobre ela (citando de memória): "Se estes
são os lábios, podem imaginar o resto? Como deve ter sido bela? E, embora não
saibamos quem ela foi e quais as ferramentas que foram usadas para a fazer,
sabemos que ela é feita de jaspe amarelo. O jaspe amarelo era tão caro que o
único outro objecto no Met feito deste material é pequeníssimo. Numa escala de
dureza de 1 a 10, onde o diamante é 10 e o mármore é 3, jaspe é um sólido 6.
Faz o mármore parecer borracha... ". Não são os museus “f *** ing
awesome”?!
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| Nick Grey, Museum Hack (Fotos: Maria Vlachou) |
A minha visita ao recentemente renovado Museu Internacional da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho testou, de alguma forma, todos esses
pensamentos e ideias. É um museu que combina muito bem o físico e o digital,
utilizando a tecnologia de modo a realçar o significado dos objectos, para
partilhar histórias poderosas e para envolver o visitante - tanto emocional
como intelectualmente - na discussão de questões universais e sensíveis. Os
três capítulos principais da história são "A defesa da dignidade
humana", "O restabelecimento de laços familiares" e "A
redução de riscos naturais" e cada espaço / capítulo foi criado por um
arquitecto diferente, propondo ambientes bastante distintos. Um dos momentos
mais tocantes para mim foi na sala onde estão expostos os presentes oferecidos
pelos prisioneiros de diferentes conflitos ao delegado da Cruz Vermelha
encarregue do seu caso. Fizeram-me pensar na beleza, sensibilidade,
criatividade e humanidade que ainda pode emanar depois do horror da barbárie,
breves sinais de uma esperança renovada. Devo dizer, porém, que o momento mais
poderoso foi tocar no ecrã a mão estendida de uma testemunha, um gesto que
iniciaria o seu testemunho. Uma concepção brilhante, que liga o físico ao
digital, criando uma experiência profundamente emocionante e memorável.
Em quase todas as visitas a museus, nas apresentação e
discussões durante a conferência, devo dizer que havia para mim uma questão
subjacente: podem os museus cumprir o seu papel social e educativo, podem ser
relevantes e envolventes, se não assumirem também, e de forma clara, o seu
papel político? Logo no primeiro dia, Gail Dexter Lord introduziu o conceito
de ‘soft power’ como "a capacidade de influenciar o comportamento através
da persuasão, da atracção ou do estabelecimento de uma agenda". Como é que
os museus podem exercer este poder? "Não podemos tomar partido", costumam exclamar alguns colegas. Oh, mas é o que fazemos ... Às vezes com o nosso silêncio ou fingindo sermos neutros; mais frequentemente, com os objectos que optamos por mostrar ou não mostrar, com as histórias que optamos por contar ou não contar.
Mais que tomar partido, porém, assumirmos o nosso papel político é assumirmos que há, na realidade, mais que um lado para cada história e criarmos espaço para estes pontos de vista se tornarem conhecidos, serem discutidos, para que os cidadãos possam ficar melhor informados, ver os seus próprios pontos de vista serem desafiados, conhecer e ouvir o 'outro', desenvolver empatia e compreensão, tomar uma posição. Os museus não são ilhas e, como afirmou Tony Butler (Derby Museums / The Happy Museum Project): "O que se passa lá fora é tão importante como o que se passa cá dentro". Não é urgente, e não faz sentido, que os museus no século XXI assumam o seu papel na promoção da democracia?
Mais que tomar partido, porém, assumirmos o nosso papel político é assumirmos que há, na realidade, mais que um lado para cada história e criarmos espaço para estes pontos de vista se tornarem conhecidos, serem discutidos, para que os cidadãos possam ficar melhor informados, ver os seus próprios pontos de vista serem desafiados, conhecer e ouvir o 'outro', desenvolver empatia e compreensão, tomar uma posição. Os museus não são ilhas e, como afirmou Tony Butler (Derby Museums / The Happy Museum Project): "O que se passa lá fora é tão importante como o que se passa cá dentro". Não é urgente, e não faz sentido, que os museus no século XXI assumam o seu papel na promoção da democracia?
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| Gail Dexter Lord (Foto: Maria Vlachou) |
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Monday, 3 February 2014
As regras do amor
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| Kent Nagano, Director Musical da Montreal Symphony Orchestra (Foto: Körber Foundation) |
Quando o Vice-Presidente da Körber Foundation, Klaus
Wehmeier, abriu o 4th Symposium on the Art of Music Education na semana passada em Hamburgo, citou uma pessoa que numa edição anterior
deste simpósio tinha dito “Quero partilhar o que amo”. Ao ouvi-lo, pensei que é
isto precisamente que traz muitas pessoas, profissionais, de várias áreas
culturais e artísticas a este género de encontros: o seu amor por algo e o seu
desejo de o partilhar.
Estava ainda a pensar nesta partilha do que amamos, quando
Kent Nagano, director musical da Orquestra Sinfónica de Montreal, subiu ao
púlpito. Falou-nos do estado em que encontrou a orquestra quando assumiu a sua
função: uma dívida de 12 milhões de dólares; um público com uma media de idades
65+; uma ocupação de 35%. Nagano disse
que prometeu à cidade apresentar obras excepcionais com a melhor qualidade que
os músicos possam atingir. “Assim”, disse, “temos agora concertos esgotados, a
idade media do nosso público são os 35 anos e a sala de concertos tem o aspecto
das ruas da cidade de Montreal.”
O maestro não me convenceu; no sentido que eu ouvi muito
mais nas suas palavras do que aquilo que ele estava preparado para reconhecer.
Não acho que a Orquestra Sinfónica de Montreal tem concertos esgotados por
causa do seu excepcional repertório e da sua alta qualidade – ou, pelo menos, sobretudo
por causa disso. Estas são as características de muitas outras orquestras que
lutam para sobreviver. Penso que o público de Montreal talvez tenha ouvido a
‘promessa’ do dirigente de uma orquestra que estava preparado para assumir um
compromisso, para se envolver com eles; uma teoria também apoiada pelo facto de
Kent Nagano ter partilhado connosco o seu prazer em ver a sala de concertos ter
o aspecto das ruas da cidade, o que revela uma visão maior e a séria vontade de
assumir um compromisso. Este facto pode ter tido um papel tão importante na
recuperação da orquestra como o excepcional repertório e a qualidade da
interpretação. Nagano desejou partilhar o seu amor com a cidade e tem
trabalhado para isso.
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| Foto: Körber Foundation |
A questão de “Como partilhamos o nosso amor” estava
constantemente na minha cabeça nos dois dias que se seguiram. Quando ouvia, por
exemplo, o discurso inspirador da músico e compositora Kathryn Tickell que
dizia que ensina crianças e jovens a tocar a gaita de foles de Northumbria não
porque quer torná-los virtuosos, mas porque quer dar-lhes a conhecer a sua
herança, sendo a música uma afirmação de quem eles são. O discurso da Kathryn
marcou realmente os participantes. Apesar de estar a lidar com a tradição, foi
precisamente capaz de nos mostrar como a tradição não é algo parado no tempo.
“Precisamos de ir mais a fundo, usar o conhecimento e ir para a frente sem
medo”, disse. E com “ir para a frente” quis dizer experimentar, re-interpretar,
enriquecer, entrar em diálogo com outras formas artísticas, não ’pela
inovação’, mas pela necessidade que uma pessoa tem de se expressar e de…
partilhar o que ama.
E continuei a pensar sobre o que é que amamos e como
partilhamos o nosso amor quando vi a genuína expressão de perplexidade na cara
de um dos participantes quando me ouviu dizer que há qualidade também noutros
géneros musicais e não apenas na música clássica; quando ouvi algumas pessoas
dizer que a educação para a música é da responsabilidade da escola e outras a afirmar
que os músicos devem ser obrigados a envolver-se em actividades educativas
porque sabem fazê-lo melhor; quando alguns participantes tentaram lembrar que
estávamos a afastar-nos do que realmente importa – a música e o nosso público
principal -, enquanto outros defendiam maior acesso e disponibilidade para
ouvir as pessoas e adaptar.
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| Foto: Körber Foundation |
A maioria destas questões foi, de alguma forma, resumida no
último painel de discussão, que envolveu Nick Herrmann (Touch Press), Martinh
Hoffmann (general manager da Berlin Philharmonic) e Karsten Witt (general
manager da karsten witt music management). Foi muito bonito ouvir Karsten Witt
falar do seu amor pela música clássica, da experiência tão especial que é
assistir a um concerto, da concentração, dos detalhes, dos sentimentos. “Ouvir
música através dos media é uma coisa diferente; deveríamos
concentrar-nos no ‘objecto real’”, disse ele.
Será assim? Deveríamos estar preocupados apenas com o
‘objecto real’? E quando o mais próximo que uma pessoa possa chegar do objecto
real é um CD ou um DVD ou o You Tube? Não deveríamos estar também preocupados
em manter essas portas abertas e usá-las para disponibilizar conteúdos? Terão
todas as pessoas que ouvir música clássica com o mesmo grau de concentração
para poderem ter uma experiência que tenha significado (para elas, não para os
outros…)?
Lembrei-me de um artigo que tinha lido uns dias antes no
Guardian sobre o acesso digital a espectáculos. A
jornalista, Lyn Gardner, falava do maestro Thomas Beecham, que viveu no início
do século XX e que acreditava que a rádio manteria as pessoas longe das salas
de concertos, pelo que “censurava as ‘autoridades sem fios’ por estarem a fazer
‘um trabalho diabólico’”. Nos anos 50 o ‘diabo’ era provavelmente a televisão;
nos anos 90 os websites; e no início do século XXI o You Tube, as apps, o
livestreaming de concertos e espectáculos.
Por isso, apesar de partilhar o amor de Karsten Witt pelo
‘objecto real’, estou também preocupada com o que ‘real’ possa significar para
outras pessoas, com o que tem significado para elas, com as formas de
proporcionar o acesso e com os seus meios financeiros. Porque sei que a
tecnologia fornece-nos vários pontos de entrada, diferentes formas de
participação e fruição, e não mantém as pessoas longe do ‘objecto real’. Pelo
contrário, quando têm a oportunidade, as pessoas querem saborear o ‘objecto
real’.
Mas há aqui mais uma questão: mesmo quando as pessoas vêm
usufruir o ‘objecto real’, isto não significa que o vão fazer da forma como uma
outra pessoa quer que o façam. Fá-lo-ão à sua maneira. O amor pode ter muitas,
várias, regras, mas tem, definitivamente, uma regra principal: não pode ser
imposto, pode?
Um agradecimento especial à Körber Foundation, pelo amável
convite e pela hospitalidade.
Ainda neste blog:
Outras
leituras
Monday, 11 November 2013
Auto-barómetro
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| Todas as imagens retiradas do Facebook da Accion Poetica. |
O Eurobarómetro realizou um estudo sobre Acesso e
Participação Cultural (relatório completo e sumário). O
último estudo tinha sido realizado em 2007, antes da crise atingir a Europa,
por isso, este estudo mais recente pode ajudar-nos a compreender os efeitos da
crise nos hábitos e práticas culturais das pessoas.
Falando em termos
muito-muito gerais, e no que diz respeito a Portugal, os resultados mostram que
a participação dos portugueses está abaixo da média europeia em todas as
actividades consideradas no estudo, tanto em termos de visitação / assistência
como em termos de envolvimento em actividades culturais. As maiores diferenças
registam-se na leitura de livros (UE: 68%; PT: 40%), visitas a monumentos e
sítios históricos (UE: 52%; PT: 27%) e idas ao cinema (UE: 52%; PT: 29%).
A principal barreira ao acesso referida
pelos europeus foi a falta de interesse e a falta de tempo. Para os
portugueses, a falta de interesse foi a principal razão de não participação,
registando uma percentagem mais alta que a da média europeia em todas as
actividades consideradas no estudo. As
actividades que menos interessam aos portugueses em relação aos restantes
europeus são a leitura de livros (PT: 49%; UE: 25%), a visita a museus e
galerias (PT: 51%; UE: 35%) e a visita a monumentos e sítios históricos (PT:
44%; EU: 28%).
A razão porque queria
escrever hoje sobre o estudo do Eurobarómetro não é analisar gráficos e
resultados. É questionar como é que vamos interpretá-los e o que vamos fazer a
partir daqui, sendo profissionais da cultura. Os resultados foram sobretudo
recebidos com pessimismo ou algum fatalismo; com afirmações como “Somos um país
de incultos” ou “Os portugueses não querem saber, não se interessam, acham que
não vale a pena” – com uma certa acusação implícita, pensei, do género “Vale a
pena fazer qualquer coisa que seja para esses ignorantes e ingratos?”.
Confesso que fiquei
cheia de perguntas, algumas permanentes, frequentemente discutidas neste blog,
independentemente da existência de estudos formais. Tentando agrupá-las, penso
que se resumem em duas grandes questões:
1ª Questão: Quão larga terá sido a
definição de “participação cultural” no estudo? Terão sido apenas considerados
a visitação / assistência e o envolvimento com o que podemos chamar
“instituições culturais formais”?
Depois de ter acesso ao relatório completo e ao
questionário, fiquei contente em ver que a definição não tinha sido estreita
(considerou a participação através da Internet e actividades como a dança ou a
fotografia ou os trabalhos manuais). No entanto, não tenho a certeza se, da
forma como foi feita a pergunta, ajudou os inquiridos a considerar as suas
actividades numa perspectiva mais ampla (quantas pessoas, por exemplo, terão
pensado que o facto de terem dançado num casamento ou num club constitui
uma forma de participação cultural?). Os estudos “Public Participation in the
Arts” do National Endowment for the Arts, realizados de quatro em quatro anos
nos EUA, disponibilizam-nos este género de detalhes relativamente a “o que
exactamente; onde exactamente; como exactamente” – todos os relatórios estão
disponíveis online, mas vejam,
por exemplo, o último relatório completo de 2008 (alguns
destaques aqui),
ou os
destaques do estudo de 2012,
sendo
que o relatório completo será disponibilizado em 2014.
No que diz concretamente
respeito à participação na Internet, deveríamos destacar o facto dos
portugueses usarem este meio numa percentagem acima da média europeia para
jogar jogos no computador (+11%), para colocar os seus próprios conteúdos
culturais online (+3%), para ouvir música e rádio / fazer o download de
música / ler e consultar blogs culturais (+1%).
2ª Questão: Estarão as pessoas pouco
interessadas na cultura em geral ou no género de cultura que as “instituições
culturais formais” lhes oferecem? Estaremos a programar tomando em consideração
as pessoas - os seus interesses, preocupações, conhecimentos prévios,
perguntas, necessidades, barreiras práticas e psicológicas que as possam manter
afastadas? Iremos alguma vez questionar a forma como fazemos as coisas e a
sinceridade da nossas afirmação “Somos para as pessoas”?
Alguns factos pessoais: por vezes, consulto a agenda de
exposições em museus e, a julgar pelos títulos, nada soa suficientemente
emocionante ou interessante para visitar; um grande número de concertos e
intérpretes, de todos os géneros musicais, é promovido como “o melhor do
mundo”, mas isto simplesmente não chega para tomar a decisão de comprar um
bilhete, uma vez que o mundo está tão cheio de “os melhores” artistas; no que
diz respeito a artistas menos conhecidos, a grande maioria das instituições que
os apresentam comportam-se como se devêssemos todos conhecê-los já, não
acrescentando absolutamente nada ao título e/ou nome.
Portanto, isto pode ser um problema meu como consumidora.
Mas pode também ser um problema das instituições culturais que desejam
comunicar comigo (pelo menos, dizem que o desejam): o problema de escolher
títulos interessantes e inspiradores; o problema de escolher temas (quero
dizer, histórias) que possam atrair um público mais diversificado, menos
especializado; o problema de tentar atrair mais pessoas usando a informação
básica compreendida apenas por poucos; mas também a necessidade (diria, a
obrigação) de perceber o que é que as pessoas optam por fazer nos seus tempos
livres e porquê. Porque, quando eu, como pessoa / consumidora, não vou aos
vossos concertos / exposições / peças de teatro / festivais, não é
“simplesmente” porque sou inculta, desinteressada, ignorante ou ingrata (e,
francamente, não gosto de vos ouvir dizer isso sobre mim…). Pode ser porque
outros tenham sido mais sinceros no seu desejo em comunicar comigo e tenham
feito um trabalho melhor em chamar a minha atenção e ganhar o meu interesse e
tempo precioso.
-------------------------------
Em 1996, os mexicanos
não liam, em média, mais que um livro por ano. O escritor Armando Alanis
Pulido, preocupado com o declínio da literatura e da poesia, e ainda com o
preconceito de que a poesia era opaca, difícil de ler e de entender, virou-se para
as paredes das cidades, numa tentativa de tornar a poesia parte do dia-a-dia
das pessoas. Iniciou um movimento chamado Accion Poetica. Desde aquela altura,
a iniciativa espalhou-se em mais 20 países da América Latina e até atravessou o
Oceano Atlântico. No outro dia, o jornal Le Monde apresentava este título: As paredes da América Latina falam de amor. A assinatura uma, única: Accion
Poetica.
Ainda neste blog
Monday, 18 February 2013
De Thomas P. Campbell para mim
Há algum tempo, vi uma apresentação do jovem especialista em redes sociais
Jasper Visser, intitulada The future of museums is about attitude, not technology (O futuro dos museus tem
a ver com atitude, não com tecnologia). Mesmo antes
de a ver, o título ecoou na minha cabeça. É verdade, que impacto é que a
tecnologia pode ter só por si se não sabe utilizá-la, se não se entende
ou não se está interessado em explorar as possibilidades que oferece e usá-las com
visão e imaginação? Isto requer atitude, realmente; ou melhor, requer a atitude
‘certa’.
Há umas duas semanas, recebi um email de Thomas P. Campbell, director do
Metropolitan Museum of Art. Informava-me de um novo projecto,
chamado 82nd and 5th,uma nova série de vídeos, onde um curador do Met
fala de uma obra específica da colecção do museu que o inspirou ou mudou a sua
vida ou a sua forma de pensar. Thomas P. Campbell informou-me que poderia
inscrever-me para passar a receber todos os vídeos novos por email e sugeriu
que informasse também os meus amigos.
Não é sobre os vídeos que quero falar aqui (a qualidade e interesse dos
quais pode ser verificada no website do museu), mas sim, sobre os detalhes da
comunicação desta nova iniciativa. Como devem imaginar, não foi o próprio
Thomas P. Campbell que me mandou o email e eu recebi-o porque faço parte da mailing
list do museu. O Met poderia ter
feito facilmente aquilo que a maioria dos museus faz: enviar um email a todos
os inscritos na sua mailing list através do seu endereço de email geral. Em vez
de optar por esta forma de comunicação impessoal, criou um endereço de email
específico, onde figura como remetente o director do museu. É ele que se dirige
a nós e apresenta esta nova iniciativa, convidando-nos a usá-la, a abraçá-la, a
ajudar o museu a promovê-la. E este pequeno detalhe faz muita diferença. Demonstra atitude.
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| Indhu Rubasingham, Directora Artística do Tricycle Theatre (Foto: Alastair Muir para The Guardian) |
Tinha tido um outro ‘encontro especial’ com a directora de uma instituição
cultural uns meses antes, quando telefonei para o Tricycle Theatre em Londres para
marcar bilhetes para uma peça. O telefone tocou e, antes da chamada ser
atendida pela bilheteira, ouvi uma resposta automática. Era uma mensagem da
directora artística do teatro, Indhu Rubasingham, que me agradeceu por ter
entrado em contacto para comprar bilhetes e pôs à minha consideração a hipótese
de pagar uma libra extra por bilhete para apoiar o teatro no seu trabalho. Era
uma mensagem simples, directa, simpática à qual não fui capaz de resistir.
Acabei por apoiar um teatro onde não tinha estado nunca, algo que nunca fiz por
aqueles teatros que costumo frequentar. Talvez porque nunca ninguém me pediu
para o fazer. Indhu Rubasingham e o Tricycle Theatre têm atitude.
Nenhum dos exemplos acima envolveu um investimento enorme. Aliás, não
envolveram investimento nenhum. A falta de dinheiro ou de meios sofisticados
não pode servir de desculpa para a falta de atitude. Além disso, a falta de
atitude quando se tem os meios, mas não se aproveita ao máximo o seu potencial,
indica ainda falta de visão.
Uma das preocupações mais comuns dos profissionais da cultura quando dou
formação em diversos pontos do país em comunicação cultural é a impossibilidade de usarem a
tecnologia e os meios disponíveis autonomamente a fim de promoverem os seus
espaços, o seu trabalho, as suas actividades. Refiro-me especificamente a
organizações tuteladas por câmaras municipais ou fundações às quais não é
permitido terem os seus próprios websites (são um item num sub-sub-menu) ou de
gerirem as suas próprias páginas no Facebook. A informação é gerida
centralmente e não por quem tem melhor conhecimento do tema e está mais
interessado que qualquer outra pessoa em promovê-lo. E por quem o faria melhor,
se tivesse formação adequada.
Sejamos os clientes por um momento. Estamos interessados em saber se o Museu
da Electricidade em Lisboa organiza festas de aniversário? Começamos por
pesquisar no Google, como eu fiz. O primeiro link leva-vos ao website da
Fundação EDP, onde o museu figura como um item no menu. Ao chegar à página do
museu, parece que chegámos a um portal com notícias encaixadas. Cada caixa é um
link para uma página com descrições da exposição temporária; da exposição
permanente; das últimas estatísticas ou de outras notícias. O museu em si não
tem um menu próprio (endereço: www.fundacaoedp.pt/museu-da-electricidade).
Desejam visitar o Museu de Cerâmica de Sacavém? Uma pesquisa no Google
leva-vos para (por ordem de aparição): uma inserção no website do antigo IMC
sobre o edifício do museu; o Turismo Lisboa e Vale do Tejo; a Wikipedia;
Lifecooler; ijogo; TSF… Se por intuição optarmos por procurar em Câmara
Municipal de Loures, encontraremos um link para uma página com uma descrição
geral do museu em Câmara Municipal de Loures / Conhecer / Turismo, Cultura, Lazer
/ Museus (endereço:
http://www.cm-loures.pt/Ligacao.aspx?DisplayId=2#topo)
Escolhi dois exemplos de museus que gosto. Porque isto faz-me pensar no
quão diferente e melhor, dadas as ferramentas disponíveis, seria a minha
relação online e a distância com eles (para não falar da relação desses
museus com as pessoas que não os conhecem e que poderiam estar interessadas).
Como estes, há muitos outros. Como é que um museu ou outro equipamento cultural
pode estabelecer uma relação com actuais e potenciais visitantes/utilizadores
quando está tão bem escondido (vejamos só os endereços online)? Ou quando a informação que pode disponibilizar é
tão estática (e aborrecida e incompleta)? Quando não existe um diálogo aberto,
directo, constante, informal?
Um profissional da área da comunicação, como eu, entende perfeitamente a
necessidade de coerência e acredito que é esta a principal preocupação das câmaras
municipais e das fundações que gerem diversos espaços e projectos. Mesmo assim, a solução não é controlá-los ao ponto de os
estrangular. O público desenvolve relações com as organizações que visita, com os projectos dos quais gosta e
não com as entidades que os gerem. Nenhum gabinete central de comunicação de
um município irá alguma vez conversar com as pessoas no Facebook sobre o
dia-a-dia da vida de um museu municipal, os objectos na sua colecção, as
actividades que tem para oferecer da forma como uma pessoa que trabalha nesse
museu o iria fazer. Sem dúvida, há necessidade de directivas, formação,
orientação. Mas as pessoas estão ansiosas para as receber para as poderem usar
da melhor forma, a fim de promover melhor o que fazem e chegar às pessoas com
quem pretendem comunicar. Não é boa
ideia deixar isto com quem sabe menos, quem está – inevitavelmente – menos
apaixonado, quem não tem um envolvimento real – como é o caso da Wikipedia do
Turismo ou do Lifecooler. Isso demonstra falta de visão que condena à falta
de atitude. E nisto não há futuro.
Sempre que penso em todos aqueles profissionais frustrados cujo único
desejo é comunicar (e penso muito neles), oiço na minha cabeça a canção de
Sting:
When you love somebody
Set them free…
Free… free….
Set them free…
(Quando amas alguém, deixa-o livre…)
Monday, 26 November 2012
A indústria das imensas minorias
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| Imagem retirada do site The Long Tail. |
Na manhã de 17 de Novembro mudei
os planos que tinha e fui ao CCB por duas razões: o título curioso do simpósio
internacional organizado pelo Lisbon Estoril Film Festival, Arte vs. Cultura e Indústrias Culturais;
e o facto do escritor Hanif Kureishi fazer parte do primeiro painel.
Acabou por ser uma experiência
frustrante. Fiz um grande esforço para perceber de que forma aquilo que a
maioria dos intervenientes dizia se relacionava, realmente, com o tema do
simpósio, o qual me tinha parecido tão intrigante. No fim, senti-me como se
tivesse assistido a uma conversa privada, que teria acontecido de qualquer
forma, independentemente do título do simpósio. Rancière, Benjamin, Adorno, Horkheimer e outros foram mencionados mais que uma vez e era óbvio que alguns
dos intervenientes estavam mesmo a divertir-se entre eles, enquanto eu tentava
controlar a minha frustração e o sentimento que tinha desperdiçado a minha
manhã.
Acabei por sair sem ter percebido
a afirmação “Arte vs. Cultura”, mas acho que percebi uma outra coisa: alguns
dos intervenientes lamentavam o facto da ‘indústria’ dominar a criatividade,
não deixando espaço para trabalhos menos ‘populares’ ou menos ‘mainstream’
serem conhecidos (e talvez… tornar-se tão ‘populares’ ou tão ‘comerciais’ como
outros?). Houve momentos em que a queixa não parecia ser o facto de terem sido
deixados sem espaço, mas o facto da ‘indústria’ não lhes permitir terem
audiências igualmente grandes. Confuso, não?
Achei estranho que esta pudesse
ser uma questão nos dias que correm. E achei também que, se era este o assunto
que era suposto ser discutido sob o título “Arte vs. Cultura e Indústrias
Culturais”, o painel deveria ter incluído um ou dois oradores que pudessem ter
baixado a idade média dos intervenientes dos 65 anos (Hanif Kureishi tentou, na
verdade, re-centrar o debate, mencionado o que tem estado a observar entre os
seus filhos e os amigos destes, confiante de que hoje em dia há muita
criatividade, graças também às novas tecnologias, mas ninguém seguiu a deixa,
por isso ele desistiu e, visivelmente aborrecido, concentrou-se no seu
telemóvel…).
Eu também acho que estes são
tempos muito criativos, especialmente no que diz respeito aos produtos de
nicho. Uma criatividade sem fronteiras, que pode ser concebida, produzida e
distribuída sem estar dependente das regras da ‘indústria’. Ou… que tem,
realmente, um espaço graças à ‘indústria’. Considerando o caso específico dos
livros (todos os intervenientes eram escritores ou argumentistas), o livro de
Chris Anderson The Long Tail: Why the future of business is selling less of more fala-nos dos inúmeros livros que
nunca teriam vendido um exemplar numa livraria normal (não haveria espaço para
armazenar centenas e centenas de livros que iriam vender pequenas quantidades),
mas que vendem, realmente, graças à Amazon e as suas sugestões (“pessoas que
compraram este livro, compraram também este”…) e graças ao facto de poder
fornecer qualquer livro, uma vez que não tem que o armazenar até ser
encomendado. Hoje em dia, os livros também podem ser impressos a pedido, podem
ficar disponíveis na Internet, podem chegar aos lugares mais distantes (e não
nos esqueçamos dos e-books).
Este é também o tempo em que
jovens talentos em música podem fazer o upload do seu trabalho para quem
estiver interessado, tornando-se mais conhecidos através do “like” e da
“partilha”; este é o tempo em que concertos acontecem na sala de estar das
pessoas; em que festivais de cinema são apresentados no You Tube.
Sei que esta é uma matéria muito
mais vasta e que não seria possível abordar aqui todos os aspectos com ela
relacionados. Mas, pergunto-me, será que é negado espaço a alguém nestes dias?
Não é verdade que aos nichos não é cedido espaço, mas que são eles a criar o
seu próprio? Isto tudo não poderá ser uma questão sobre o quem é que procura
comunicar com quem? Os produtos ‘populares’ (uso o termo no sentido das vendas,
não do conteúdo) precisam provavelmente da ‘indústria’ e das grandes
instituições culturais formais para a sua distribuição, mas os produtos de
nicho (que podem um dia tornar-se ‘populares’) parecem capazes de viver de
forma relativamente independente nestes dias, felizes de serem quem são. Será
assim?
Mais leituras
A década em que todos puderam ser famosos para 15 pessoas (dossier do Jornal Público, 8.10.2010)
Culture and Class (John Holden, 2010)
Ainda neste blog
Monday, 1 October 2012
Nas redes sociais... socializa-se
![]() |
| Imagem retirada da apresentação de Devon Smith The science of social media building. |
Uma suposição comum é que todo e qualquer suporte de
comunicação serve o mesmo propósito: a divulgação. E mais concretamente ainda:
a divulgação de agenda. Não é raro encontrarmos vários suportes a propósito do
mesmo evento (exposição, concerto, peça de teatro, debate), de vários formatos
(MUPI, cartaz, postal, folheto, jornal, anúncio de imprensa, spot TV ou rádio),
todos com a mesma informação (o quê, quando, onde). Penso que por trás do uso
de cada suporte deve existir um objectivo próprio. A escolha de formato, os
conteúdos a inserir em cada um, os timings em que aparecem, tudo
contribui para divulgar um evento, mas, além disto e sobretudo, para construir
algo maior em termos de comunicação: a ideia, o sentimento e o envolvimento que se quer que as
pessoas tenham relativamente à entidade ou à pessoa que o promove.
As redes sociais são ainda um suporte novo, pouco
estudado, pela maioria de nós, em termos de propósitos, possibilidades e
impacto. Estou concretamente a referir-me ao Facebook, que é aquela que mais uso. Acompanhando a
actividade de uma série de entidades (culturais e não só), chego à conclusão
que, enquanto rede social, o Facebook é, em primeiro lugar, isso mesmo: um
espaço para socializar. Como diz uma amiga, devemos encará-lo como um café, um
espaço público de conversa, de partilha – de ideias, opiniões, experiências,
informações. É um espaço onde queremos estar porque… todos ali estão, porque
queremos fazer parte, porque não queremos ficar de fora, porque queremos
conversar também (e, em especial, sobre nós…). Com base na minha experiência
pessoal, as entidades que fazem mesmo isso, que conversam, são aquelas com as
quais me sinto mais envolvida, o que significa que faço like, partilho e
comento (contribuindo, assim, para uma maior visibilidade de um determinado post).
No caso das entidades que se limitam a divulgar a sua agenda (e que, ainda,
exageram no número de posts ou colocam muitos seguidos), passo por cima
ou tiro-as do meu news feed, deixando os meus ‘amigos’ fazerem a triagem
do que for mais relevante ou interessante (e então, sim, presto mais atenção).
Esta tem sido a minha experiência do uso do Facebook a
nível pessoal e profissional. No entanto, e apesar da maioria de nós não ter
propriamente estudado estes meios, esta área de conhecimento tem já os seus
especialistas. Tive a grande oportunidade de ouvir uma deles num seminário no
Kennedy Center em Julho passado. Chama-se Devon Smith, é novíssima, claramente
uma especialista, e ocupa o cargo de Director of Social Media na agência
Threespot,
que desenha estratégias de envolvimento digital para organizações sem fins
lucrativos. Aprendi muitas coisas naquela apresentação (cujo powerpoint está
disponível aqui e é muito elucidativo)
e, ao mesmo tempo, ficou confirmada a minha maior ‘suspeita’: o Facebook não
vende bilhetes...
É por essa razão mesmo que devemos considerar melhor o
porquê da nossa presença neste meio, a melhor forma de a garantir e o que
devemos esperar dela. Entre o que aprendi com a Devon Smith, a minha
experiência como utilizadora e as minhas ideias relativamente ao que significa
“comunicação” numa entidade cultural, as minhas constatações são as seguintes:
Porque estamos no Facebook
- Para conversarmos com os nossos ‘amigos’, pessoas que
gostam de nós, da nossa forma de estar, do que temos a dizer, do nosso
trabalho;
- Para reforçarmos a nossa marca, ou seja, a ideia que
queremos que as pessoas tenham de nós, daquilo que representamos;
- Para multiplicarmos os nossos ‘amigos’, porque através
dos que temos, ganhamos outros, fazendo a nossa palavra chegar cada vez mais
longe e alargando, assim, a nossa base de apoiantes.
Como devemos estar no Facebook
Antes de qualquer outra coisa, diria que é essencial que a
nossa voz nesta conversa possa ser concreta, reconhecível, aquela que os nossos
‘amigos’ procuram ouvir. Há algum tempo, tinha escrito um post chamado Rostos,
onde falava da importância de humanizarmos as nossas
instituições, de lhes darmos um rosto, porque é uma forma de criar uma relação
com as pessoas, de as envolver. Neste caso, trata-se da importância de lhes darmos
também uma voz. E como diz, e muito bem, Marc Sands, o brilhante Director de
Marketing da Tate Modern, as pessoas não o querem ouvir a ele, querem ‘ouvir’ e
‘conversar’ com Nicholas Serota, o director do museu (vale a pena ver o vídeo How to engage with new audiences in the gallery).
O impacto de um post é completamente diferente quando é o director de um
museu, um director artístico, um programador, um chefe de orquestra, um
encenador, um artista, a falar de um evento, a convidar-nos, a dizer porque é
que não o podemos perder, a desvendar segredos, a partilhar as suas
inspirações, emoções, preocupações. E depois, é esta a ‘voz’ que será
‘partilhada’ e levada mais longe pelos nossos ‘amigos’ (quem é ‘amigo’ de Jorge Silva Melo no Facebook entenderá de que estou a falar).
![]() |
| Imagem retirada da página do Rijksmuseum no Facebook |
- Conversar significa abandonar a linguagem seca e
institucional e assumir um tom humano, directo, quotidiano, com sentido de
humor. O melhor exemplo entre as instituições que eu sigo é o Rijksmuseum (vale
a pena ver o vídeo Rembrandt´s timeline,
cujo objectivo era aumentar o número de fãs da página do museu, ou seguir todos
os meses a votação das Misses que farão parte do calendário que o museu
vai produzir).
- Conversar significa falar, mas também ouvir. E responder. Não poucas vezes, comentários e perguntas colocadas pelos ‘amigos’ (sobretudo em páginas de personalidades, geridas ou não pelas próprias) ficam sem resposta, pondo fim à ‘comunicação’ (muito bons exemplos de artistas portuguesas que conversam com os seus fãs em páginas pessoais são, na minha opinião, os da Mísia e da Aldina Duarte). É igualmente importante saber lidar com a controvérsia e com comentários menos simpáticos. Um dos melhores exemplos que vi recentemente foi a forma como o teatro Woolly Mammoth lidou com a controvérsia à volta da reposição da peça de Mike Daisey The Agony and the Ecstasy of Steve Jobs (ler aqui e aqui). O teatro respondeu a todos os comentários do público e não hesitou em colocar na sua página artigos que criticavam severamente a opção de repor a peça, mostrando assim total abertura e alimentando a conversa à volta… dele próprio (estes posts já não aparecem na timeline do teatro, mas vale a pena ser fã do Woolly Mammoth, aprende-se muito).
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| Resposta do Editor de Multimédia do jornal Expresso ao comentário de um leitor no Facebook. Ler mais no blog PiaR |
Por último, algumas práticas comuns que merecem ser revistas:
- Parece-me fazer sentido
considerar o número de posts por dia se queremos realmente garantir a
atenção dos nossos ‘amigos’ (há instituições que nos saturam, sem terem nada
especial a acrescentar à conversa);
- Apesar dos posts com
fotografias serem aqueles que geram mais ‘conversa’ (like´s, partilhas,
comentários), não me parece que faça sentido as fotos de um evento serem
colocadas uma a uma, em posts consecutivos, em vez de arrumadas num
álbum; como também não faz sentido colocar fotos desfocadas, mal tiradas,
várias versões da mesma cena ou do mesmo momento numa conferência ou debate;
- Os posts de agenda são
muito pouco interessantes, têm muito pouco ou nada a ver com a natureza do
Facebook, não estimulam a conversa (muito menos vendem bilhetes). Transmitem
aquela ideia do vendedor que procura impingir algo, algo que… não esteja a
vender (com ou sem razão).
Finalmente, o que podemos
esperar de tudo isto? Uma conversa. Uma boa conversa. Momentos de espanto,
de riso, de surpresa, de descoberta, de deleite, de cumplicidade, que façam com
que os nossos ‘amigos’ procurem cada vez mais a nossa companhia, virtual e…
real.
Mais
Devon Smith, Case studies of theatres using social media (apresentação)
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