"Acho que é responsabilidade de um director artístico,
ou, digamos, do colectivo que é a instituição artística, dizer ‘aqui está a força
que estou a sentir na nossa comunidade. Mas, afinal, não é nossa responsabilidade
ter uma espécie de eloquência ou articulação em torno disto, que talvez a
própria comunidade sinta, mas não manifesta como uma declaração específica de
necessidade? Então, acho que ser sensível a isso é liderança, dizer ‘aqui está
o que sentimos que está no ar e ao qual pensamos que deveremos dar voz.”
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Friday, 10 April 2020
Saturday, 7 March 2020
E se alguém gostar de brócolos?
Algumas semanas atrás, encontrei uma campanha publicitária
da Folkoperan (Estocolmo, Suécia) chamada “Broccoli vs. Opera”. A ideia
por trás é que a única coisa que as crianças detestam mais do que a
ópera são os brócolos. Assim, quando tiverem que escolher entre os dois... irão
optar pelo mal menor.
A campanha irritou-me. As suas suposições preconceituosas irritaram-me.
O modo como vários profissionais no mundo da música clássica evitam abordar as
barreiras reais, muitas das quais criadas pelos próprios, incomoda-me. Lembram-se
de “Classical Cannabis: the high note series”, promovida pela Colorado Symphony Orchestra em 2014? Esse
tipo de coisa... Tudo, menos tentar compreender melhor o que mantém as pessoas,
de todas as idades, afastadas. Talvez porque uma melhor compreensão exija acção;
e mudança.
Saturday, 22 June 2019
Primeiros pensamentos sobre o Plano Nacional das Artes
Houve dois momentos para uma primeira apreciação do Plano
Nacional das Artes (PNA): a sua apresentação pública, no passado dia 18 de
Junho e a leitura do documento. Começarei por partilhar os meus pensamentos sobre
o primeiro.
Sessão esgotada nos estúdios Victor Córdon para ouvir a apresentação
do PNA. Muitos colegas, jornalistas, pessoas que representavam instituições privadas
que apoiam o sector cultural e as artes. Sentia-se a boa disposição e a
expectativa, misturada com alguma desconfiança (“Será desta?). Penso que aquele
momento de encontro e tudo o que se sentia no ar foi um bom sinal de que “o
sector” é constituído por profissionais que continuam interessados e prontos
para se envolver num esforço comum que possa valorizar, apoiar e fortalecer o seu
trabalho e contributo para a sociedade.
Saturday, 14 July 2018
Sunday, 8 July 2018
Profissionais de museus: novas competências
O meu artigo no mais recente Boletim do ICOM Portugal (Série III, Junho 2018, Nº12, pág.25), editado por Ana Carvalho. Ler aqui
Monday, 11 June 2018
Discutindo a descolonização dos museus em Portugal
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| Foto: Maria Vlachou |
Adoro museus. Adoro-os pelo que são; adoro-os pelo que não são, mas podem ser; adoro-os pelo seu potencial. Adoro-os especialmente devido ao trabalho desenvolvido por vários colegas em todo o mundo para que os museus se adaptem a novas realidades, permaneçam ou se tornem relevantes para as pessoas e até se reinventem. Ultimamente, adoro-os particularmente pelas controvérsias que causam ou enfrentam, empurrando o nosso pensamento e prática para a frente.
Sunday, 28 January 2018
TS Elliot, um terrível artista hip-hop
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| Uma imagem do projecto Contratempo no programa do Isto é PARTIS. |
O jornal inglês The Guardian deu recentemente a notícia de uma crítica da poetisa Rebecca Watts, intitulada “O culto do nobre amador”, ao trabalho de um grupo de jovens poetisas que Watts considera que constitui "O óbvio denegrir do envolvimento intelectual e a rejeição do ofício”. A crítica gerou uma discussão muito interessante, e bem-vinda, em relação ao valor da poesia erudita e da poesia popular, sendo que a resposta de Don Paterson (poeta escocês, vencedor do prémio TS Elliot e editor de duas das jovens poetisas) foi cativante: "Não precisa de gostar do que as pessoas fazem, mas penso que deve avaliá-lo em função das suas próprias ambições. Caso contrário, é como dizer que TS Elliot foi um terrível artista de hip-hop. É verdade, e então?”.
Tuesday, 4 April 2017
Cobrar ou não cobrar: os dados
Tanto quanto sei, as decisões de cobrar ou não cobrar entrada nos museus nacionais nunca se baseiam em estudos. Aqueles que defendem a entrada livre fazem-no em nome da "democratização" e da "acessibilidade" e afirmam que a perda de receita não é significativa (nunca mencionando, no entanto, valores concretos). Aqueles que defendem a entrada paga geralmente falam da necessidade de gerar alguma receita.
Embora a pesquisa prévia e a avaliação sumativa não façam
parte da nossa prática em Portugal, tal não é o caso noutros países. E mesmo
que não tenhamos os nossos dados específicos sobre estas matérias, podemos
sempre aprender com a experiência e o conhecimento partilhado dos outros.
Saturday, 4 February 2017
À procura de terreno arenoso
“Menores de 30 têm acesso
gratuito aos museus”, lê-se nos jornais portugueses. A medida foi ontem votada
no parlamento.
“Alguém me explica qual é a lógica dos 30 anos?”, questiona
uma colega brasileira.
“Será para estimular jovens famílias, tipo casais com filhos pequenos?”,
responde outra colega. “Será porque se constatou que o desemprego é maior até
aos 30 anos?”
Valerá a pena procurarmos a lógica? Terá havido lógica? Será que a medida
se baseou em qualquer relatório de gestão? Será que se baseou em algum estudo
de públicos? Os profissionais do sector foram consultados? Existem objectivos
concretos que daqui a um ou dois anos poderão ser avaliados?
Sunday, 30 October 2016
MAAT, gerador de expectativas
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| Imagem retirada do website do MAAT. |
Continuo
admirada com a forma como o recém-inaugurado edifício do MAAT – Museu de Arte,
Arquitectura e Tecnologia, da autoria de Amanda Levete, se integra na paisagem.
Quando me aproximo daquela zona ou quando atravesso a ponte, espero sempre ver
um edifício enorme que se sobreponha ou que esconda a Central Tejo. Mas
não...... A Central Tejo continua majestosa, sendo que o novo edifício surge ao
seu lado como uma nota suave e fluída.
O
meu primeiro contacto com o novo museu foi em Junho. Na verdade, tratou-se da
reabertura do “velho” museu (Museu da Electricidade na Central Tejo), depois
das obras de renovação, e foi lançada a marca MAAT. Acompanhei depois a
campanha para a inauguração do novo edifício e li algumas entrevistas do
director do museu, Pedro Gadanho, tendo, assim, formado uma primeira opinião /
expectativa. As várias críticas que surgiram com a inauguração do edifício e
algumas conversas com colegas trouxeram-me mais “food for thought”. A minha
primeira visita ao novo edifício também.
Sunday, 24 July 2016
Gerir museus
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| Imagem retirada do Facebook do Museu Nacional de Arte Antiga |
A reclamação de um novo estatuto jurídico, de um estatuto especial, por parte do Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA) tem resultado num debate muito saudável no meio dos museus, sobretudo (e infelizmente) depois do anúncio do Ministro da Cultura que este estatuto irá mesmo ser atribuído. Independentemente das críticas, positivas ou negativas, que temos a fazer sobre este caso e sobre este processo, não há dúvida que devemos este debate, muito necessário, ao MNAA, ao seu director, António Filipe Pimentel, e a toda a equipa do museu*.
Wednesday, 22 June 2016
Reflexões governamentais sobre o acesso à cultura
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| "MAPA - O jogo da cartografia", um espectáculo da associação A PELE (imagem retirada do website do Teatro Nacional D. Maria II) |
O Culture White Paper (publicado pelo Departamento de Cultura, Media e Desporto em Março 2016) define
a forma como o governo britânico vai apoiar o sector cultural nos próximos
anos. É o primeiro documento deste tipo em 50 anos e o segundo alguma vez
publicado no Reino Unido.
O documento abre citando o primeiro-ministro britânico,
David Cameron, que afirma: "Se acreditam no financiamento público da arte
e da cultura, como eu apaixonadamente acredito, então devem também acreditar na
igualdade de acesso, atraindo todos e acolhendo todos."
Saturday, 28 May 2016
Primeiro no nosso coração
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| Imagem cedida pelo Museu Nacional Soares dos Reis |
Saturday, 7 May 2016
E então?
"E então?" Uma pergunta / reacção bastante
frequente no que diz respeito ao nosso sector, quer verbalmente expressa ou
secretamente pensada. É uma pergunta legítima, que raramente estamos disponíveis
para discutir.
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| Rembrandt Harmenszoon van Rijn, "Retrato de Marten Soolmans" e "Retrato de Oopjen Coppit" (imagem retirada do jornal Telerama) |
Quando li pela primeira vez a notícia sobre a aquisição conjunta por parte do Louvre e do Rijksmuseum das obras de
Rembrandt Retrato de Marten Soolmans e
Retrato de Oopjen Coppit, por €160
milhões, não pensei propriamente "E então?", mas sim "Porquê?".
Porquê estes dois quadros? Porquê todo esse dinheiro? Quando procurei entender
um pouco melhor a importância dessas duas obras (qualquer que fosse a sua
importância, dentro do contexto da história da arte ou qualquer outra), fui
mais frequentemente confrontada com o adjectivo "raro". Os retratos
são "raros", a sua exposição em público foi extremamente "rara”,
etc. etc. Isto levantou ainda mais perguntas: Raros como? Porque é que devem
ser vistos com mais frequência? Porque é que esses dois museus públicos fizeram
um esforço tão grande (financeiro e colaborativo) para os adquirir?
Sunday, 6 March 2016
Passado recente
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| Exposição Retornar - Traços de Memória, Lisboa |
Há umas semanas, li o texto de Lily Hyde Living Memory II, que questiona a construção de narrativas a partir de
acontecimentos históricos recentes. Neste caso, o conflito armado no leste da
Ucrânia e, especificamente, na cidade de Slavyansk. Um pouco mais de um ano
antes, Hyde tinha falado com a directora do Museu de Slavyansk, Lilya Zander,
que já estava a coleccionar Troféus de uma guerra incompreensível. Naquela altura, a directora do museu tinha dito que "O nosso
trabalho é contar a história da nossa região", acrescentando que "O
museu não está a tentar mostrar que está 'a favor' e 'contra'. Estamos a tentar
mostrar os factos.”
Monday, 19 October 2015
As armadilhas
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| Museu dos Coches, Lisboa (imagem retirada de Boas Notícias) |
No mês passado, foi noticiado por vários jornais que nos quatro primeiros meses do novo Museu dos Coches houve uma série de acidentes devido a deficiências no projecto arquitectónico. ‘Deficiências' no sentido de terem sido adoptadas soluções (ou, se preferem, de terem sido criados elementos arquitectónicos) que se tornam armadilhas para os utilizadores do espaço (sim, eles existem).
Sunday, 20 September 2015
Acesso intelectual e não uma saída fácil
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A promoção do acesso intelectual por algumas pessoas no sector
cultural é muitas vezes descartada por outras como 'emburrecimento' (dumbing
down). Recentemente, li o seguinte no ensaio de Rob Riemen "O eterno
retorno do fascismo":
"Na cultura desta sociedade [a sociedade de massa;
nossa sociedade contemporânea], há uma tendência para o menor, o nível mais
baixo, porque é aqui que se encontra a maioria das coisas que as pessoas podem partilhar.
É exactamente por isso que os indicadores da educação universitária são
nivelados por baixo, de modo que ‘todos’ possam estudar e obter um diploma. E o
mesmo se aplicará às artes, porque elas terão de ser acessíveis a todos, não só
no que diz respeito às propinas, mas também ao nível de compreensão. Afinal, a
mais feroz indignação é dirigida ao que é difícil. Porque o que não é
compreendido imediatamente por todos é difícil, ou seja ‘elitista’ e, portanto,
não-democrático." (tradução minha do grego)
Monday, 11 May 2015
Uma boa ideia, duas respostas, algumas lições
Passam este ano 125 anos desde a morte de Vincent Van
Gogh. A partir de 3 de maio e ao longo de 125 dias, o Museu Van Gogh em
Amsterdão irá responder a 125 questões sobre o pintor, a sua vida e a sua obra.
O museu convida todos os interessados a fazer uma pergunta através do seu
website e de uma página especialmente criada para apresentar as perguntas e
respostas (ver vídeo promocional e visitar a página).
Monday, 27 April 2015
Museum Next começa aqui
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| Christian Lachel, BRC Imagination Arts (Foto: Maria Vlachou) |
Parece-me que as três palavras mais ouvidas na conferência
de 2015 do MuseumNext foram: emoção, histórias, envolvimento. Palavras que registam claramente a
mudança que tem estado a ocorrer na atitude dos museus, com o objectivo de
estabelecer, com a ajuda de suas colecções, uma relação melhor e mais relevante
e significativa com as pessoas - mais pessoas, pessoas diferentes, pessoas
comuns.
Uma apresentação que foi inteiramente dedicada a este tema foi "Emotionalizing the Museum", de Christian Lachel da BRC Imagination Arts. "A experiência estará a transformar os seus visitantes fazendo-os querer partilhá-la com outros?", perguntou Christian. E esta é, provavelmente, a pergunta certa. Embora a transformação que todos nós tanto desejamos fazer acontecer pode levar algum tempo para ser conscientemente reconhecida pelas pessoas (se chegar a ser reconhecida), o desejo irresistível de compartilhar com os outros é um indicador mais imediato da ocorrência de um encontro significativo. E o ponto de partida é o coração das pessoas, afirmou Christian. O processo de criação de uma experiência envolvente acontece do interior para o exterior e não o inverso. Um processo que tem como objectivo envolver as pessoas através de uma história, procurando, de seguida, as ferramentas certas e a criação de um ambiente físico adequado para esse encontro.
Uma apresentação que foi inteiramente dedicada a este tema foi "Emotionalizing the Museum", de Christian Lachel da BRC Imagination Arts. "A experiência estará a transformar os seus visitantes fazendo-os querer partilhá-la com outros?", perguntou Christian. E esta é, provavelmente, a pergunta certa. Embora a transformação que todos nós tanto desejamos fazer acontecer pode levar algum tempo para ser conscientemente reconhecida pelas pessoas (se chegar a ser reconhecida), o desejo irresistível de compartilhar com os outros é um indicador mais imediato da ocorrência de um encontro significativo. E o ponto de partida é o coração das pessoas, afirmou Christian. O processo de criação de uma experiência envolvente acontece do interior para o exterior e não o inverso. Um processo que tem como objectivo envolver as pessoas através de uma história, procurando, de seguida, as ferramentas certas e a criação de um ambiente físico adequado para esse encontro.
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| Christian Lachel, BRC Imagination Arts (Foto: Maria Vlachou) |
Outra questão que surgiu repetidamente foi a do digital vs o
físico. Ao mesmo tempo que os museus estão numa corrida para abraçar as novas
ferramentas e plataformas digitais, a fim de criar experiências mais
envolventes e significativas, muitas vezes parecem dar um passo atrás,
re-avaliando as vantagens e os pontos fortes do encontro físico.
Um projecto inspirador do Museu Brooklyn, a Ask Mobile App,
passou por essas fases de pensamento e avaliação (que são abertamente
partilhadas no blog do museu - um grande exemplo de profissionalismo,
generosidade, transparência e accountability que mais museus devem ter a
coragem de aplicar). Como Shelley Bernstein nos explicou, num momento em que o
Museu de Brooklyn está a reavaliar vários pontos de contacto com os seus
visitantes (o seu foyer austero, a recepção confusa, a falta de assentos),
deseja também melhorar a sua experiência, permitindo-lhes fazer, no local e
em tempo real, qualquer pergunta que possam ter a respeito dos objectos ou das
exposições em geral. O projecto está ainda a ser testado nos seus detalhes e
será lançado em Junho.
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| Shelley Bernstein, Brooklyn Museum (Foto: Maria Vlachou) |
Numa fase anterior, o museu tinha membros do seu pessoal
nas salas e descobriu que os visitantes gostavam muito de conversar com eles.
No entanto, um museu tão grande iria precisar de muitas pessoas para ser capaz
de cobrir todas as salas. A fim de optimizar a ideia do contacto directo e em
tempo real com um membro da equipa, decidiram recorrer à tecnologia. Uma equipa
de seis pessoas está disponível para responder a perguntas de visitantes
enviadas através dos seus telemóveis usando a Ask Mobile App. A avaliação até
agora tem mostrado que as pessoas continuam a considerar este contacto pessoal
e o museu está confiante que esta será mais uma forma de cumprir a sua missão
de ser "um museu dinâmico e atento que promove o diálogo e provoca
conversas". O museu descobriu que as pessoas até passam mais tempo a olhar
para os objectos... à procura de perguntas para fazer!
Existirá, no entanto, algo mais pessoal e físico (e
divertido e inspirador) do que sermos levados para uma visita guiada adaptada
às nossas necessidades e interesses pelo Museum Hack? "Eu odeio
museus!", é assim que Nick Grey começou a sua apresentação. E odiava-os
... no passado. Agora, o que mais quer é partilhar a sua paixão por eles com as
pessoas que ainda os odeiam, com as pessoas que ainda sentem que os museus não
são para elas. Um colega do Museu de Arquitectura e Design de Oslo chamou ao
Museum Hack "nossos aliados naturais". E são, de facto! O objecto
favorito de Nick no Metropolitan Museum é o fragmento do rosto de uma rainha
egípcia. Foi isto que nos disse sobre ela (citando de memória): "Se estes
são os lábios, podem imaginar o resto? Como deve ter sido bela? E, embora não
saibamos quem ela foi e quais as ferramentas que foram usadas para a fazer,
sabemos que ela é feita de jaspe amarelo. O jaspe amarelo era tão caro que o
único outro objecto no Met feito deste material é pequeníssimo. Numa escala de
dureza de 1 a 10, onde o diamante é 10 e o mármore é 3, jaspe é um sólido 6.
Faz o mármore parecer borracha... ". Não são os museus “f *** ing
awesome”?!
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| Nick Grey, Museum Hack (Fotos: Maria Vlachou) |
A minha visita ao recentemente renovado Museu Internacional da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho testou, de alguma forma, todos esses
pensamentos e ideias. É um museu que combina muito bem o físico e o digital,
utilizando a tecnologia de modo a realçar o significado dos objectos, para
partilhar histórias poderosas e para envolver o visitante - tanto emocional
como intelectualmente - na discussão de questões universais e sensíveis. Os
três capítulos principais da história são "A defesa da dignidade
humana", "O restabelecimento de laços familiares" e "A
redução de riscos naturais" e cada espaço / capítulo foi criado por um
arquitecto diferente, propondo ambientes bastante distintos. Um dos momentos
mais tocantes para mim foi na sala onde estão expostos os presentes oferecidos
pelos prisioneiros de diferentes conflitos ao delegado da Cruz Vermelha
encarregue do seu caso. Fizeram-me pensar na beleza, sensibilidade,
criatividade e humanidade que ainda pode emanar depois do horror da barbárie,
breves sinais de uma esperança renovada. Devo dizer, porém, que o momento mais
poderoso foi tocar no ecrã a mão estendida de uma testemunha, um gesto que
iniciaria o seu testemunho. Uma concepção brilhante, que liga o físico ao
digital, criando uma experiência profundamente emocionante e memorável.
Em quase todas as visitas a museus, nas apresentação e
discussões durante a conferência, devo dizer que havia para mim uma questão
subjacente: podem os museus cumprir o seu papel social e educativo, podem ser
relevantes e envolventes, se não assumirem também, e de forma clara, o seu
papel político? Logo no primeiro dia, Gail Dexter Lord introduziu o conceito
de ‘soft power’ como "a capacidade de influenciar o comportamento através
da persuasão, da atracção ou do estabelecimento de uma agenda". Como é que
os museus podem exercer este poder? "Não podemos tomar partido", costumam exclamar alguns colegas. Oh, mas é o que fazemos ... Às vezes com o nosso silêncio ou fingindo sermos neutros; mais frequentemente, com os objectos que optamos por mostrar ou não mostrar, com as histórias que optamos por contar ou não contar.
Mais que tomar partido, porém, assumirmos o nosso papel político é assumirmos que há, na realidade, mais que um lado para cada história e criarmos espaço para estes pontos de vista se tornarem conhecidos, serem discutidos, para que os cidadãos possam ficar melhor informados, ver os seus próprios pontos de vista serem desafiados, conhecer e ouvir o 'outro', desenvolver empatia e compreensão, tomar uma posição. Os museus não são ilhas e, como afirmou Tony Butler (Derby Museums / The Happy Museum Project): "O que se passa lá fora é tão importante como o que se passa cá dentro". Não é urgente, e não faz sentido, que os museus no século XXI assumam o seu papel na promoção da democracia?
Mais que tomar partido, porém, assumirmos o nosso papel político é assumirmos que há, na realidade, mais que um lado para cada história e criarmos espaço para estes pontos de vista se tornarem conhecidos, serem discutidos, para que os cidadãos possam ficar melhor informados, ver os seus próprios pontos de vista serem desafiados, conhecer e ouvir o 'outro', desenvolver empatia e compreensão, tomar uma posição. Os museus não são ilhas e, como afirmou Tony Butler (Derby Museums / The Happy Museum Project): "O que se passa lá fora é tão importante como o que se passa cá dentro". Não é urgente, e não faz sentido, que os museus no século XXI assumam o seu papel na promoção da democracia?
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| Gail Dexter Lord (Foto: Maria Vlachou) |
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Monday, 23 March 2015
Philippe de Montebello revela-se
Vou dizê-lo logo no início para deixar o assunto arrumado:
sim, fiquei irritada com as duas afirmações de Philippe de Montebello no livro "Rendez-vous with art" relativas
à questão da restituição de objectos (p.54 e p.208). Dito isto, o resto do livro é absolutamente
encantador! Uma série bela, inspiradora e surpreendente de conversas entre
Montebello e o crítico de arte Martin Gayford, que revela o homem por trás do
historiador de arte e durante muitos anos director do Metropolitan Museum of Art.
Seguindo estas conversas, sentimos um desejo de olhar e
olhar melhor, mesmo que seja apenas uma foto num livro - na esperança, é claro,
de poder estar à frente do original um dia ... Como o próprio Montebello diz:
"(...) nada pode substituir a experiência, a sensação muito física, de estar cercado e envolto no espaço real." (51 p.)
Provavelmente, um dos momentos mais tocantes vem logo no
início do livro, onde Montebello responde à pergunta de Gayford sobre aquele
momento único, aquela experiência única que pode tê-lo levado a uma vida nas
artes. Montebello partilha connosco esse momento muito especial, quando ele
tinha 15 anos e o seu pai levou para casa o livro "Les Voix du Silence" de
André Malraux. E, de repente, ali estava Uta...
Fiquei a pensar: será que ele teria alguma vez posto isto na legenda num museu? Quantas pessoas teriam olhado, olhado melhor, olhado mais, se tivessem lido algo assim sobre uma estátua?
Mais à frente, Montebello admite algo que raramente ouvimos
da boca de curadores, mas que é verdade para a maioria dos visitantes de
museus: "Descobri que quando me forcei - muitas vezes com a
ajuda de curadores - a olhar para coisas sobre as quais era indiferente ou que
até me repeliam, descobri que, com mais alguns conhecimentos, o que havia sido
escondido de mim tornou-se manifesto." (p.59)
Que tipo de conhecimentos é necessário para esta 'epifania'
ocorrer, podemos questionar. Nem factos sobre a vida do artista, nem uma
descrição detalhada e seca de pormenores estilísticos, quando são consideradas as primeiras necessidades do visitante não-especialista (ou seja, da maioria dos visitantes dos
museus). Parece que podemos encontrar todas as respostas no livro de Freeman
Tilden "Interpreting our Heritage": "O que está por trás do que
o olho vê é muito maior do que aquilo que é visível" (p.20); (...) Mas o objectivo da interpretação é estimular o leitor ou o ouvinte a
desejar ampliar os seus horizontes de interesses e conhecimentos e a procurar
entender as grandes verdades que estão por trás de qualquer afirmação de factos
(p.59); (…) Não com os nomes das coisas, mas expondo a alma das coisas –
aquelas verdades que estão por trás do que estamos a mostrar ao visitante. Nem
pregando; nem sequer dando sermões; não através da instrução, mas através da
provocação (p.67).
Mais alguns exemplos do livro de Montebello poderiam
ilustrar melhor estes pontos:
![]() |
| "Mas estou feliz só de apreciar a expressão no rosto de Adão, tão doce, e da maneira como ele segura o ramo de maçã - não é uma folha de figueira - com dois dedos, bem como a folhagem necessária para cobrir a sua nudez. Dürer dotou de uma forma tão cativante as suas figuras inspiradas na antiguidade clássica com uma terna sensualidade; e adoro Eva, parecida com Vénus, com o seu rosto bonito de fräulein de Nürnberg. Vê? Nada de história da arte, apenas a minha própria reacção muito pessoal "(p124, Albrecht Dürer, Adão e Eva, 1507; imagem retirada de www.pictify.com) |
Não acredito que a maioria das pessoas visita museus à
procura de uma lição em história de arte nos seus painéis e legendas - ou de
física, de música ou de outra disciplina qualquer (algumas o fazem, é claro, e
as suas necessidades são igualmente legítimas, mas os museus geralmente dão
resposta a essas necessidades com vários outros meios). As pessoas também não
visitam museus à procura de alguém que lhes diga o que devem sentir ou pensar,
como defende Alain de Botton em Art is Therapy (Rijksmuseum), onde encontramos
legendas como esta: "Você sofre de fragilidade, de culpa, de dupla
personalidade, de auto-aversão. Você é provavelmente um pouco como esta imagem."
(a respeito da pintura de Jan Steen A Festa de São Nicolau). Penso que a
maioria de nós está, antes de tudo, à procura de algo que possa ter significado
para nós, algo que possa deliciar-nos, surpreender-nos, fazer-nos sentir bem ou
mais ricos ou mais conscientes de nós mesmos e do mundo. Muitos de nós estamos
à procura de histórias, histórias de outras pessoas, seres humanos com os quais
nos possamos relacionar - aqueles representados ou aqueles que procuram
partilhar os seus conhecimentos connosco.
Decidir qual a história a contar não é uma escolha fácil
para um museu; escrevê-la de uma forma clara e concisa é igualmente
difícil. Mas não é impossível, como Montebello nos mostra no seu livro, onde
abandona o seu “eu institucional" e consegue partilhar o seu enorme
conhecimento de historiador de arte de uma maneira simples e humana, que é significativa e relevante para muitas mais pessoas. Não é impossível,
como Paula Moura Pinheiro nos mostra todas as semanas no seu programa
televisivo "Visita Guiada", onde descobrimos que curadores e
especialistas em arte em Portugal também são pessoas fascinantes, capazes de partilhar connosco muito mais do que os habituais
factos geralmente presentes nas legendas, e que nos fazem desejar saber mais,
visitar o museu, ver o objecto - ou voltar para o ver de novo, depois do que
nos foi revelado.
É possível. É uma questão de escolha e de habilidade. Não
lhe falta teor científico e comunica.
![]() |
| "Não tenho certeza se ficaria encantado porque estou tão concentrado, tão absorto e cativado pela perfeição do que lá está; que o meu prazer - e é um prazer intenso - está maravilhado com o que o meu olho vê, não com uma abstracção que, de um modo mais ‘à história de arte’, eu poderia evocar. É como um livro que amamos e simplesmente não queremos ver o filme. Já imaginámos o herói ou a heroína de uma certa maneira. Na verdade, com os lábios de jaspe amarelo, eu nunca tentei, realmente, imaginar as partes que faltam." (p.8, Fragmento do rosto de uma rainha, Período do Império Novo, c. 1353-1336 a.C, Egipto; imagem retirada do website do Metropolitan Museum) |
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Mais leituras
Philippe de Montebello and
Martin Gayford (2014), Rendez-vous with Art. Thames and
Hudson
Maria Isabel Roque, Título, autor e data: o que diz uma tabela?
Maria Isabel Roque, Tanto esplendor e glória para tão pouco contar
Sahil Chinoy, Off the beat: Art apathy, museum misery
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