Tanto quanto sei, as decisões de cobrar ou não cobrar entrada nos museus nacionais nunca se baseiam em estudos. Aqueles que defendem a entrada livre fazem-no em nome da "democratização" e da "acessibilidade" e afirmam que a perda de receita não é significativa (nunca mencionando, no entanto, valores concretos). Aqueles que defendem a entrada paga geralmente falam da necessidade de gerar alguma receita.
Tuesday, 4 April 2017
Cobrar ou não cobrar: os dados
Tanto quanto sei, as decisões de cobrar ou não cobrar entrada nos museus nacionais nunca se baseiam em estudos. Aqueles que defendem a entrada livre fazem-no em nome da "democratização" e da "acessibilidade" e afirmam que a perda de receita não é significativa (nunca mencionando, no entanto, valores concretos). Aqueles que defendem a entrada paga geralmente falam da necessidade de gerar alguma receita.
Saturday, 4 February 2017
À procura de terreno arenoso
Monday, 4 February 2013
Discutindo valores (e vales), do Brasil ao Líbano
![]() |
| Imagem retirada de www.cultura.gov.br |
Ainda neste blog
A diferença entre 'mais' e 'diversos'
Mais leituras
Ian David Moss (2009), Free tickets? How about income-sensitive tickets?
McCarthy, K.F. and Jinnett, K. (2007). A new framework for building participation in the arts.
Ostrower, F (2005). Motivations matter: findings and practical implications of a national survey of cultural participation.
Walker, C., Scott-Melnyk, S. and Sherwood, K. (2002) From Reggae to Rachmaninoff, How and why people participate in arts and culture.
Wallace Foundation, The (2009). Engaging audiences.
Monday, 28 November 2011
La crise oblige? (i) Algumas questões
Este post de 'regresso', escrito umas semanas atrás, é muito especialmente dedicado a AL, CF, CR, HH, MP, MS, MT, NS, SA. Com o meu muito sincero obrigado.
Monday, 10 October 2011
Ser ou não ser (gratuito aos Domingos)? Não é essa a questão
1. O Comité Nacional Português do ICOM organiza no dia 7 de Novembro, no Museu Nacional Soares dos Reis (Porto), o encontro Museus e Sustentabilidade Financeira. Todas as informações aqui.
2. Saiu hoje uma notícia no jornal Público com pormenores estatísticos sobre as visitas aos museus (ler aqui). O relatório do IMC sobre o primeiro semestre de 2011 pode ser lido aqui.
Monday, 6 June 2011
A diferença entre "mais" e "diversos"
Monday, 5 April 2010
As entradas gratuitas (II) Teatros
Ainda sobre as entradas gratuitas e passando para a área das artes performativas, a situação torna-se um pouco mais complexa. Lembro que, de acordo com o artigo de Alexandra Prado Coelho no jornal Público (ler aqui), baseado em estatísticas disponibilizadas pelo OAC e o GPEARI – documento disponível no site em Planeamento / Estudos) as entradas pagas nos dois teatros nacionais (D. Maria II e São João) eram em 2008 ligeiramente superiores às entradas gratuitas, enquanto 66% dos espectadores da Companhia Nacional de Bailado assistiram a espectáculos sem pagar bilhete.
No caso dos teatros e das salas de espectáculos em geral, é importante distinguir entre entradas gratuitas (convites) e entradas livres(eventos/actividades/espectáculos para os quais não se paga bilhete). O TNDMII não forneceu dados para se poder fazer esta distinção. No entanto, no caso do TNSJ, entre os 49% dos espectadores que tinham assistido a espectáculos sem pagar bilhete, 85% tinha usufruído de um convite. Passando para a Companhia Nacional de Bailado, entre os espectadores que tinham assistido em 2008 sem pagar, 62% tinha convite para eventos com entrada paga.
Importa aqui esclarecer quem são as pessoas que têm acesso aos convites. Na grande maioria dos casos, não se trata de pessoas desfavorecidas ou de novos públicos; a oferta de convites não faz parte de uma política de marketing que lhes é dirigida. Quem tem acesso às entradas gratuitas são maioritariamente os convidados das estreias, as tutelas, os profissionais do espectáculo e uma vasta gama de colaboradores, amigos e conhecidos dos mesmos. Considerando os convites para a estreia um meio de promoção do espectáculo - através daquele que é o melhor e mais fidedigno meio de promoção, o passar a palavra -, importa reflectir sobre os convites disponibilizados para as restantes sessões de um espectáculo de carreira longa e também, e sobretudo, para espectáculos de carreira curta ou de apenas um dia. Não sendo, nestes casos, o objectivo a promoção, qual a razão de dar convites? É uma questão de hábito, o hábito das borlas. Porque pagar se, através de amigos e conhecidos, podemos arranjar bilhetes de borla? É ainda a preocupação de ter salas cheias ou compostas, um certo medo ou desconforto em admitir que um espectáculo não vende. É ainda, em alguns casos, mas que não são a maioria, a preocupação em facilitar o acesso a pessoas que não tenham meios financeiros que lhes permitam comprar bilhete.
O que acontece é que, para cada convite disponibilizado, a instituição que o concede é obrigada a pagar o IVA correspondente. São milhares de euros pagos em IVA para certas pessoas assistirem a espectáculos já subsidiados, muitos deles, pelo Estado. Ou seja, produz-se e ainda por cima paga-se para as pessoas assistirem. Pessoas essas que, na sua grande maioria, podem comprar bilhete. Faz sentido? Qual o propósito da continuação desta prática? Que objectivo ou estratégia serve? O dinheiro do IVA dos convites não poderia ser investido doutra forma? Ninguém questiona a perda de receita?
Portanto, ao contrário do que se passa nos museus, as entradas gratuitas nos teatros e salas de espectáculos não estão normalmente relacionadas à preocupação de formar novos públicos. Mas as políticas de preços em geral, sim. Na área das artes performativas debate-se frequentemente sobre a necessidade de disponibilizar bilhetes baratos para o público vir. Na maioria das instituições existem os descontos habituais (jovens, seniores, estudantes, etc.) A Culturgest foi a primeira a introduzir o bilhete de €5 para menores de 30 anos e o seu exemplo foi seguido por várias outras entidades. Não tenho conhecimento da existência de estudos de público com o objectivo de entender melhor a eficácia desta medida. No entanto, estaria muito interessada em saber se os jovens criaram o hábito de ver espectáculos graças aos bilhetes a €5; se vêem mais espectáculos do que seria de esperar porque o bilhete é barato e se veriam menos se fosse mais caro (digamos €10); em que outras actividades e eventos esses mesmos jovens investem o seu tempo e dinheiro e quanto pagam por eles; e se a medida contribuiu para o alargamento dos públicos.
Com base naquela que tem sido a minha experiência nesta área, diria que, mais uma vez, o bilhete mais barato só por si não cria novos públicos. Facilita o acesso a quem frequenta com alguma regularidade, mas não é incentivo suficiente para trazer novas pessoas aos teatros e salas de espectáculos. Tal como acontece nos museus, a formação de novos públicos é o resultado de uma direcção artística que programa assumindo este mesmo objectivo, da acção do serviço educativo e de uma estratégia de marketing que produzirá o ‘embrulho’ certo para esta oferta. As pessoas estão dispostas a pagar para assistir a espectáculos que consideram que não podem perder. Mesmo nesta altura de crise, as salas esgotadas não têm sido um fenómeno raro.
Portanto, e para concluir, diria que, por um lado, é preciso conhecer bem o mercado em que estamos a actuar e saber estabelecer o preço certo para cada produto. E o preço certo é aquilo que o público está disposto a pagar. Por outro lado, é necessário questionarmos a eficácia da gratuitidade como meio para a formação de novos públicos. Estudos de público e observações empíricas apontam para um caminho muito diferente para se atingir este fim.
Agradeço especialmente a CF e RC os seus comentários prévios sobre este texto.
Monday, 29 March 2010
As entradas gratuitas (I) Museus
Começando pelos museus, a questão da entrada gratuita é várias vezes levantada nos meios profissionais. A própria Ministra Gabriela Canavilhas afirmou em Janeiro que um dos seus maiores desejos é a instituição de entrada livre em todos os museus do IMC (ler aqui) Normalmente, esta questão é colocada no contexto da democratização do acesso, por se tratar de um ‘serviço público’, ou na perspectiva do aumento do número de visitantes e da formação de novos públicos.
Qual o serviço público para o qual não se paga nada? A educação? A saúde? Porque é que não se devia pagar para se ter acesso a um museu nacional? De acordo com a nova tabela de ingressos, o bilhete custa entre €2 (por exemplo, no Museu da Terra de Miranda) e €5 (nos grandes museus nacionais de Lisboa, Coimbra e Porto). De qualquer forma, menos que um bilhete de cinema. Existem ainda descontos e uma série de situações que dão direito a entradas livres. Porque é que o Estado havia de querer abdicar desta receita? O facto de 61% das entradas terem sido gratuitas em 2008 indica que, entre as pessoas que visitam, a maioria já tem o acesso facilitado. Os dados disponibilizados pelo OAC não entram em pormenores sobre o perfil dos visitantes, mas talvez possamos concluir que grande parte das entradas gratuitas, um número muito próximo do número de visitas nacionais, se refere a grupos escolares; enquanto o número de entradas pagas é bastante próximo do número de visitantes estrangeiros.
Se a intenção é o aumento do número de visitantes associado à formação de novos públicos, tenho sérias dúvidas que o caminho passa pela instituição de entrada gratuita. A ideia que as pessoas não visitam porque não podem pagar e visitarão se a entrada for livre é, na minha opinião, uma falsa questão. As pessoas não visitam porque não têm interesse, porque não acham os museus relevantes, porque não entendem a sua linguagem. Em alguns casos, porque nem sequer sabem que existem. Mas gastam (e gastam muito mais que €5) para participar em ou assistir a actividades e eventos que lhes parecem relevantes, interessantes, divertidos; que valem a pena o dinheiro (e tempo) investido.
A instituição de entrada livre traz, sem dúvida, um aumento no número de visitantes. No entanto, trata-se, na maioria dos casos, de pessoas com o mesmo perfil ou até das mesmas pessoas que passam a visitar mais vezes. O aumento do número de visitantes associado à formação de novos públicos passa por novas abordagens de exposição e interpretação das colecções, e, claro, por novas estratégias de comunicação. Quando o ‘produto’ é apetecível, o ‘cliente’ não hesita em pagar para o adquirir. E, tratando-se aqui de museus nacionais, preocupados, como devem ser, com as questões de acesso, podem, como já o fazem, desenhar políticas de bilheteira acessíveis para a maioria dos bolsos.
E porque normalmente nos limitamos a avaliar tudo de forma empírica, no caso das entradas livres, e em países que já as implementaram, houve estudos de avaliação da medida. Em Janeiro 2001 os museus nacionais do Reino Unido instituíram a entrada gratuita às exposições permanentes, continuando a cobrar bilhetes (e bilhetes caros) para as exposições temporárias. A abolição da entrada paga foi acompanhada por um aumento do apoio financeiro garantido pelo governo de Tony Blair (vinte anos antes, o governo de Margaret Thatcher tinha seguido o caminho inverso, introduzindo as entradas pagas nos museus nacionais, no sentido de cortar o apoio financeiro dado pelo Estado). Sete meses depois, em Julho 2001, os museus registavam um aumento médio de 62% no número de visitas. No caso concreto do Victoria & Albert Museum, o aumento chegou a atingir o 157%, um facto relacionado também com a abertura das British Galleries. Aliás, todos os museus que tinham inaugurado na altura novas alas e novos serviços registaram aumentos significativos no número de visitantes. Em 2003 foi publicado o estudo de públicos da MORI (disponível aqui) que pretendia avaliar o impacto da introdução da entrada livre. O estudo confirmou o aumento significativo do número de visitantes, mas mostrou também que a maioria eram visitas realizadas por pessoas com o mesmo perfil sócio-demográfico, ou eram então visitas repetidas, ou seja, as mesmas pessoas visitavam mais vezes. Um outro relatório da Museums Association (disponível aqui) chegou às mesmas conclusões. A entrada livre por si não forma novos públicos.
Posso ainda dar um exemplo nacional. No tempo que trabalhei no Pavilhão do Conhecimento, faziam-se dois inquéritos aos visitantes por ano. Havia entre os inquiridos pessoas que afirmavam não ser visitantes de museus. A razão invocada era a falta de tempo ou a falta de interesse. Ao longo dos cinco anos que trabalhei nesses inquéritos, foram raras as vezes em que as pessoas responderam que não visitavam porque se pagava ou porque os bilhetes eram caros.
Considerando, portanto, que os visitantes locais, nacionais e estrangeiros não reclamam pelo facto de terem que pagar para entrar nos museus nacionais e que a política de ingressos estabelece preços relativamente baixos (sendo contemplados vários descontos, assim como entrada livre para certos grupos de visitantes e profissionais), parece-me que os museus não deveriam abdicar desta receita. Deveriam continuar a cobrar e ao mesmo tempo começar a investir mais numa melhor estratégia de exposição, interpretação e marketing, que, para além de servir os públicos actuais, contribuiria para a formação de novos públicos. A oferta tornar-se-ia mais relevante, mais acessível intelectualmente, mais ‘apetecível’. E desconfio que o público não se importaria de pagar algo para usufruir da mesma.





