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Tuesday, 4 April 2017

Cobrar ou não cobrar: os dados



Tanto quanto sei, as decisões de cobrar ou não cobrar entrada nos museus nacionais nunca se baseiam em estudos. Aqueles que defendem a entrada livre fazem-no em nome da "democratização" e da "acessibilidade" e afirmam que a perda de receita não é significativa (nunca mencionando, no entanto, valores concretos). Aqueles que defendem a entrada paga geralmente falam da necessidade de gerar alguma receita.

Embora a pesquisa prévia e a avaliação sumativa não façam parte da nossa prática em Portugal, tal não é o caso noutros países. E mesmo que não tenhamos os nossos dados específicos sobre estas matérias, podemos sempre aprender com a experiência e o conhecimento partilhado dos outros.

Saturday, 4 February 2017

À procura de terreno arenoso


“Menores de 30 têm acesso gratuito aos museus”, lê-se nos jornais portugueses. A medida foi ontem votada no parlamento.

Alguém me explica qual é a lógica dos 30 anos?”, questiona uma colega brasileira.

“Será para estimular jovens famílias, tipo casais com filhos pequenos?”, responde outra colega. “Será porque se constatou que o desemprego é maior até aos 30 anos?”

Valerá a pena procurarmos a lógica? Terá havido lógica? Será que a medida se baseou em qualquer relatório de gestão? Será que se baseou em algum estudo de públicos? Os profissionais do sector foram consultados? Existem objectivos concretos que daqui a um ou dois anos poderão ser avaliados?

Monday, 4 February 2013

Discutindo valores (e vales), do Brasil ao Líbano

Imagem retirada de www.cultura.gov.br

Em Junho de 2011 escrevia sobre uma proposta para um decreto-lei do governo brasileiro que visava a criação do Vale Cultura, uma medida através da qual seria concedido um subsídio mensal de R$50 (aproximadamente €22) a trabalhadores que ganham até cinco salários mínimos, a fim de permitir o acesso a produtos e serviços de artes visuais, artes performativas, audiovisual, literatura, música e património cultural.

Tinha sido muito crítica na altura. Não por não acreditar que milhares de pessoas iriam beneficiar, mas, sobretudo, pelos pressupostos anunciados para a criação do vale. O governo, na sua proposta, apresentava a medida como uma forma de “possibilitar o acesso e a fruição dos produtos e serviços culturais; estimular a visitação a estabelecimentos que proporcionem a integração entre os temas de ciência, educação e cultura; e incentivar o acesso a eventos e espetáculos culturais e artísticos”. Por seu lado, Roberto Baungartner, no seu artigo Democratização do Acesso à Cultura , mostrava-se convicto que esta iniciativa, para além de beneficiar propriamente a cultura, criaria mais emprego e receita, reduziria a violência, incrementaria, pelo lado da procura, as cadeias produtivas envolvidas e tornaria as empresas brasileiras mais competitivas no cenário internacional.

Hoje, o Vale Cultura é uma realidade. Dos EUA (aqui e aqui) ao Líbano (aqui), foi recebido como grande fonte de inspiração. E ainda bem, porque não se conhece (eu não conheço) nenhuma outra iniciativa do género e, por isso, é importante ser seguida e avaliada face aos objectivos que se propõe a alcançar. No entanto, as reportagens e opiniões que li agora não vão além das questões de logística: quem paga o quê, como, etc. E assim, as minhas dúvidas e críticas, feitas em 2011, permanecem.

O que significará para um brasileiro (ou português ou grego ou libanês…) receber um vale para gastar em ‘cultura’ quando onde vive, ou nas proximidades, não há cinema, não há teatro, não há museu, não há livraria? O que será suposto fazer com ele? E ao contrário, qual terá sido o estudo que revelou que, nos locais onde estes equipamentos existem, a maioria das pessoas que não os frequenta não o tem feito por não ter o dinheiro necessário?

Não quero com isto dizer que não existem pessoas que têm o gosto e a pré-disposição de participar em actividades culturais e que não podem ter acesso às mesmas devido a limitações financeiras. Sobretudo agora. No entanto, considero que as barreiras mentais e psicológicas existentes entre as pessoas e as instituições culturais ou certas formas de arte, em qualquer lugar do mundo, são muito maiores e determinantes do que a barreira financeira, sobretudo no caso de todos aqueles que não têm o hábito de participar. Quem entre nós está disposto a investir – não só dinheiro, tempo sequer – em algo que à partida não parece interessante ou relevante ou compreensível? E algo que parece distante ou em algo que não existe?

As entrevistas feitas a alguns trabalhadores brasileiros - num programa onde também é entrevistado o Secretário de Políticas Culturais do Ministério da Cultura, Sérgio Mamberti -, merecem ser ouvidas e analisadas no seu pormenor: uma senhora afirma nunca ter tido sequer a coragem de se aproximar do Teatro Municipal e de perguntar quanto é que era, por considerar que, sendo tão bonito e grande, deveria ser muito caro também; um senhor diz não ter o hábito de frequentar, mas que gostaria de ter um incentivo para o fazer; outro senhor ainda afirma o seguinte: “Como a gente é um país de muita miscigenação, a gente tem muito a oferecer ao mundo. Eu acho que isso é pouco aproveitado, porque as pessoas não têm acesso nem para curtir a cultura nem à pessoa que faz a cultura. Então, acho que este incentivo, além de incentivar as pessoas a irem ao teatro, ao cinema, eu acho que vai incentivar as pessoas a estudar teatro, a estudar cinema. Vão passar a conhecer coisas que não conheciam e muitas pessoas vão-se interessar por estes temas e vão passar a fazer parte do outro lado, não só do espectador” [sic].


As entrevistas dos trabalhadores são reveladoras, na minha opinião, dos preconceitos, dos mal-entendidos, do desconhecimento mútuo entre as partes, da falta de hábito, ou seja, da falta de acesso relacionada, em primeiro lugar, com barreiras intelectuais e psicológicas. Penso, por isso, que quem estuda, desenvolve e implementa políticas culturais devia olhar primeiro para essas barreiras, ao mesmo tempo que procura facilitar o acesso do ponto de vista financeiro. Começar ao contrário, insistir em considerar o dinheiro como principal factor de inibição nesta relação, é insistir em esconder a cabeça na areia ou ir pelo caminho mais fácil.

Entretanto, ao mesmo tempo que a notícia do Vale Cultura dá a volta ao mundo, uma outra notícia, também vinda do Brasil, tem tido uma circulação muito mais discreta, pelo menos para quem vive longe desse país. De acordo com essa notícia (ler aqui), na localidade de Santo André, no Estado de São Paulo, um movimento cultural - que reúne Pontos de Cultura, produtores culturais, estudantes, professores, escritores, movimentos sociais e moradores – exigiu e conseguiu uma audiência com o Secretário de Cultura do estado. Quiseram saber quais os planos da secretaria da cultura e exigiram a participação pública na gestão. Não facilitaram as coisas para o Secretário, não aceitaram generalidades e promessas como resposta, insistiram nas perguntas e críticas, irritaram-se, mostraram-se impacientes, não se comoveram com a demonstração de humildade por parte do Secretário - que afirmou muito ter que aprender com eles - e reclamaram sobre sua falta de preparação para ocupar o lugar. Como é que isto aconteceu em Santo André? O que é preciso para acontecer? Como é que se cria este sentimento de pertença, de sentido do que constitui um direito e uma obrigação cívica no que diz respeito aos assuntos culturais? Esta, sim, é uma grande notícia, talvez maior do que a do Vale Cultura, e por isso, merecedora de maior atenção e acompanhamento. Santo André deveria ser um caso de estudo.



Monday, 28 November 2011

La crise oblige? (i) Algumas questões



Em tempos de crise, financeira ou outra, muitas pessoas encontram na arte, e na cultura em geral, um refúgio. Um livro, um filme, uma peça de teatro, uma canção, a dança, a pintura, a escrita abrem-nos janelas, mostram-nos caminhos, ajudam a criar sentido, trazem beleza, serenidade, inspiração, entusiasmo, motivação. Em países como a Argentina ou a Grécia, a afluência das pessoas aos teatros aumentou significativamente nos tempos de crise. Não só porque o público procurou esse ‘abrigo’, mas também porque os próprios teatros e companhias de teatro souberam posicionar-se perante a nova realidade. Yorgos Loukos, director artístico do Festival de Atenas, entrevistado juntamente com vários outros directores de festivais pelo jornal The New York Times no verão passado, referia a venda de mais 35.000 bilhetes em 2011 (uma subida de 24% relativamente ao ano anterior; a lotação do teatro de Epidauros, de 10000 lugares, esgotou na apresentação de Ricardo III com Kevin Spacey) e o compromisso do governo grego em apoiar novamente o Festival no próximo ano. Outros festivais também registaram grande afluência no verão passado, mas os seus directores manifestaram-se conscientes do impacto que a crise financeira terá sobre a cultura e da necessidade de lhe fazer face.

Há um ano, após o primeiro anúncio de cortes, éramos muitos os que dizíamos que a crise podia (devia) ser uma oportunidade. Passados 12 meses, estamos provavelmente no mesmo ponto: a reagir sobre os cortes, a exigir (como devemos) mais e melhor do Estado, mas a não discutir, ao mesmo tempo, alternativas a um modelo que, tal como está, há muito que não funciona. A esperança expressa por alguns responsáveis por instituições culturais portuguesas que os cortes venham a afectar ‘apenas’ a programação, faz pensar: que relação poderão essas instituições manter com o público, com a sociedade, se abdicarem, em primeiro lugar, da sua actividade principal, da sua verdadeira missão, da sua raison-d´-être? E quais as alternativas?

Nestes tempos difíceis, confusos, que trazem alguma desorientação, que obrigam à adaptação para se conseguir a sobrevivência, é bom voltar a ler Michael Kaiser. O seu pensamento estruturado e claro lembra-nos do que é essencial para se manter saudável e relevante.

Michael Kaiser foi responsável pelo ‘resgate’ de várias instituições culturais moribundas, prestes a fechar as portas devido a dificuldades financeiras. No seu livro The art of the turnaround: Creating and maintaining healthy arts organizations (que li pela primeira vez há três anos como se fosse um romance) partilha a sua vasta experiência e apresenta cinco estudos de caso: Kansas City Ballet, Alvin Ailey Dance Theatre Foundation, American Ballet Theater, Royal Opera House e The John F. Kennedy Center for the Performing Arts. Michael Kaiser não conhece apenas as realidades norte-americana e britânica. Tem prestado os seus serviços como consultor em vários países em todo o mundo. Do seu livro, destacaria aqui três lições importantes:

- O problema da maioria das instituições culturais é a receita e não os custos. Aliás, as instituições culturais têm aprendido a fazer muito com pouco. Organizações que se concentram simplesmente na redução dos custos serão cada vez mais pequenas e nunca serão capazes de criar o motor económico necessário para a sua estabilidade e crescimento a longo prazo (pág. 6);

- Quando se corta na iniciativa artística e no marketing, acaba-se com a razão porque as pessoas trazem receita às organizações culturais – frequentando-as, comprando bilhetes e apoiando-as financeiramente. Os membros do público, assim como os mecenas (chamemos assim aos donors), são atraídos por trabalhos entusiasmantes. Quando a arte e o marketing são sacrificados para equilibrar o orçamento, as organizações sofrem quase sempre um decréscimo na receita (pág. xi);

- Muitos executivos de instituições culturais têm sugerido que não faz sentido planear com grande antecedência, uma vez que o futuro parece ser tão incerto. Mas se não se planear com a devida antecedência, é impossível desenvolver aqueles projectos, grandes e entusiasmantes, que irão conseguir revigorar os públicos e os mecenas (pág. 7).

De que forma as lições de Michael Kaiser nos podem servir para enfrentarmos a nossa realidade específica? Penso que algumas das questões sobre as quais deveremos reflectir são as seguintes:

- Tal como aconteceu noutros países, muitas pessoas não vão deixar de querer participar em actividades culturais e, em particular, de ver espectáculos. Aliás, como mostram os exemplos de Argentina e da Grécia, a vontade até poderá crescer e contagiar mais pessoas. No entanto, dada a falta de dinheiro, irão decidir com ainda maior cuidado em que espectáculos vão investir. E em cidades como Lisboa, o público tem muito por onde escolher. Como é que a actual crise vai afectar a forma como se programa? Considerar as necessidades e os interesses das pessoas significa limitar, condicionar, a qualidade da programação? Faz sentido que esta responsabilidade, a de programar, seja partilhada com pessoas que representem os públicos-alvo e que tenham os conhecimentos necessários para poderem contribuir? Correríamos o risco de nos tornarmos populistas, de comprometermos a nossa missão?

- Michael Kaiser considera que o problema principal da maioria das instituições culturais é a receita e não os custos. Ainda mais, diria eu, em países como Portugal, onde as instituições culturais públicas não estão particularmente preocupadas com a mesma (nem com o dinheiro proveniente da venda de bilhetes, nem, muito menos, com a angariação de fundos junto de particulares, para a qual não existe tradição). Irão os cortes forçar-nos a considerar outros modelos de gestão e financiamento? Poderemos fazê-lo sem prejudicar a acessibilidade (financeira) à nossa oferta? O que é que se deve exigir ao Estado?

- Queremos, sim, planear com antecedência. Mas como, se não sabemos com quanto dinheiro podemos contar? Quando, já depois de assumirmos compromissos, somos surpreendidos com cortes? Onde cortar e como cortar? Sacrificamos em primeiro lugar a programação? Terão os próprios funcionários um papel no desenvolvimento de um plano estratégico para o futuro?

Estas são algumas das questões que se me colocaram, novamente, desde que recebemos as notícias dos cortes e da subida do IVA nos espectáculos. Estou a pensar nelas, e elas trazem outras. A missão, o financiamento, a programação e gestão das instituições culturais são assuntos interligados. Existem neles aspectos urgentes, que precisam de ser resolvidos a curto prazo; mas existem também aspectos estruturantes, que se reportam a um futuro mais distante (mas que será ainda o nosso) e que devem começar a ser considerados agora.

Este post de 'regresso', escrito umas semanas atrás, é muito especialmente dedicado a AL, CF, CR, HH, MP, MS, MT, NS, SA. Com o meu muito sincero obrigado.

Monday, 10 October 2011

Ser ou não ser (gratuito aos Domingos)? Não é essa a questão



Mais uma vez, não poderia concordar mais com o Secretário de Estado da Cultura. “A gratuitidade não é um bom princípio”, disse Francisco José Viegas numa entrevista à SIC Notícias ao anunciar o fim das entradas gratuitas nos museus aos Domingos (47´14´´). Mas, mais uma vez, os seus argumentos para a defesa desta posição parecem-me extremamente frágeis.

Concretamente, o Secretário de Estado explicou que a percentagem de entradas pagas nos museus é actualmente de 36% e que o nível ideal para a sustentabilidade destas instituições seria de 80%. Disse ainda que as entradas pagas são necessárias para conservar os museus e permitiriam que estes obtivessem mais receitas para financiar horários mais alargados de abertura ao público.

Não tenho dados concretos neste momento, mas não será verdade que grande parte do 64% de visitas gratuitas aos museus se refere a visitas de grupos escolares (provavelmente o grupo mais significativo de visitantes nos museus portugueses) e não às pessoas que visitam ao Domingo de manhã? Sim, porque não devemos esquecer que a entrada aos Domingos é gratuita apenas até às 14h00. Podemos realmente acreditar que acabar com o meio dia de visitas gratuitas por semana resolverá os problemas de financiamento necessário para a conservação dos museus? E para quê considerar horários alargados de abertura ao público se a grande maioria dos Portugueses não visita museus dentro dos actuais horários de abertura? Terá havido, entretanto, algum estudo que mostrou que as pessoas não visitam porque os horários de abertura não são convenientes?

Nem a receita dos Domingos de manhã vai tornar os museus sustentáveis nem há necessidade, para já, de considerar horários alargados. A grande prioridade, e um objectivo a longo prazo, é criar uma relação com a sociedade portuguesa que se torne forte e duradoura e que sirva de base para a sustentabilidade dos museus em geral, e a sustentabilidade financeira em particular. Museus irrelevantes e incompreensíveis – muitos deles - para a maioria dos cidadãos, que continuam a trabalhar com e para as mesmas pessoas, que não são devidamente divulgados, não têm grande futuro. Por outro lado, museus que se vêem a si próprios como unidades vivas inseridas num determinado meio sócio-cultural, atentos às mudanças que ocorrem à sua volta, às necessidades e inquietações dos seus públicos, museus envolventes, surpreendentes e acessíveis a todos os níveis, são museus capazes de criar a sua própria ‘família’. Uma família composta por todas aquelas pessoas que adoram o que os museus fazem, que se sentem bem neles, que se vêem como co-proprietárias e que estão dispostas a apoiá-los: pagando o bilhete de entrada; tornando-se voluntárias e colocando o seu tempo e conhecimentos ao serviço deles; e, porque não, apoiando-os financeiramente de forma mais significativa do que pagando simplesmente o valor do bilhete de entrada.

A base da sustentabilidade são as pessoas com as quais nos relacionamos e que existimos para servir. O que não significa que o Estado está isento de responsabilidade. A responsabilidade de criar objectivos a longo prazo que não mudem sempre que mude o detentor da pasta; de contribuir para que os museus possam ter os meios – financeiros e humanos – para poderem desempenhar as suas funções; de valorizar o acesso; de premiar as boas práticas e os bons resultados.

Mais uma vez, os dirigentes políticos do sector cultural avançam com anúncios que demonstram uma análise bastante superficial da realidade. Mais uma vez está-se a começar pelo fim. Talvez porque se está a pensar nos próximos quatro anos (e na área da cultura nem costumam ser tantos…) e não nos próximos dez ou vinte. Nos últimos anos não houve nem um Ministro da Cultura que tivesse partilhado uma visão para o sector cultural (museus incluídos), que tivesse enunciado objectivos a longo prazo e que tivesse procurado traduzi-los em acções a curto e médio prazo que pudessem conduzir aos fins desejados. Tem faltado completamente o pensamento estratégico e estruturado. Têm faltado dirigentes visionários, preocupados não apenas com a sua reputação imediata (e, em geral, de curta duração), mas com os sonhos e a forma de os tornar realidade. E faz sempre falta um sector que reivindica, que age e não reage, um sector em alerta permanente.

Notas

1. O Comité Nacional Português do ICOM organiza no dia 7 de Novembro, no Museu Nacional Soares dos Reis (Porto), o encontro Museus e Sustentabilidade Financeira. Todas as informações aqui.

2. Saiu hoje uma notícia no jornal Público com pormenores estatísticos sobre as visitas aos museus (ler aqui). O relatório do IMC sobre o primeiro semestre de 2011 pode ser lido aqui.

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Monday, 6 June 2011

A diferença entre "mais" e "diversos"


Antes de falar da notícia que vem do outro lado do Atlântico, volto a afirmar a minha convicção que as entradas gratuitas podem multiplicar as visitas (o que também é desejável), mas não podem, só por si, diversificar o público das instituições culturais, nomeadamente museus e salas de espectáculos. Não me parece realista continuarmos a usar a gratuitidade como um argumento em prol da democracia e da igualdade. Para a maioria das pessoas que não vai aos museus, não é o preço do bilhete (em Portugal, entre €2 e €5 com descontos nos museus nacionais) que constitui a barreira. Da mesma forma, há espectáculos de excelente qualidade com bilhetes a €5 e com pouco público e outros, muito mais caros, que esgotam. O que faz a diferença? A relevância e importância de uma determinada oferta na vida das pessoas. Também o terem ou não conhecimento dessa oferta.

Dito isto, não podemos ignorar o facto de existirem pessoas que desejam participar em actividades culturais, mas que têm que fazer contas à vida. Considerar esta necessidade é uma obrigação para as instituições culturais, em particular aquelas financiadas com dinheiros públicos. Espectáculos de entrada livre ao longo da temporada, preços especiais para todos em certos dias da semana ou entradas gratuitas aos museus em certos dias da semana e do ano, promoções conjuntas entre instituições – tudo devidamente e amplamente divulgado - são uma possível resposta a esta necessidade. Não significa acesso a toda e qualquer oferta? É verdade, mas tudo tem um preço e cada um de nós faz contas e decide em que é que é importante investir e para que é que vale a pena poupar.

Já quando se fala em diversificar o público, o trabalho que as instituições culturais têm que desenvolver é mais complexo. E o primeiro factor a considerar não é o preço. É necessário desenvolver um programa extenso de outreach. Conhecer melhor os hábitos, necessidades e gostos das pessoas com as quais pretendemos estabelecer uma relação é algo que não passa, em primeiro lugar, por oferecer uma entrada gratuita. E se se considerar que é isto que temos que fazer, entre outras coisas, que seja oferecida entrada gratuita a essas pessoas. Porquê estendê-la a todos, até àqueles dispostos e com capacidade de pagar?

Apresentei os meus argumentos contra a gratuitidade em dois posts no ano passado, um sobre museus e outro sobre teatros, aos quais gostava agora de acrescentar dois pontos. Primeiro, mesmo quando a entrada é gratuita, visitar um museu ou assistir a um espectáculo nunca é totalmente gratuito: os transportes (colectivos ou privados) não são gratuitos, o estacionamento em muitos casos também não, a refeição antes ou depois, a necessidade de contratar uma babysitter… São vários os custos associados e podem ser significativos e determinantes na decisão de ir ao museu / teatro ou não. O segundo ponto é que as instituições culturais deverão ter um cuidado particular na forma como defendem e oferecem a gratuitidade. Quando o ser artista é considerado um hobby e não uma profissão, quando grande parte da sociedade vê os artistas como uns subsídio-dependentes que vivem à custa de todos os outros, que mensagem é que as próprias instituições passam quando oferecem este trabalho (feito por profissionais que, muitas vezes, desenvolvem a sua actividade com grandes sacrifícios) gratuitamente?

Passando agora para a notícia transatlântica: o Mixed Blood Theatre na cidade de Minneapolis nos EUA anunciou no mês passado que nas próximas três temporadas os espectáculos serão gratuitos para todos (ler notícia aqui). A iniciativa intitula-se Radical Hospitality (hospitalidade radical). No entanto, o teatro continuará a cobrar para as assinaturas anuais e a disponibilizar bilhetes no valor de $15 a quem quiser comprar antecipadamente e garantir lugar num determinado espectáculo. O director artístico afirmou que esta é "uma forma de cumprir a missão igualitária do teatro, que é ser totalmente inclusivo”. Uma rádio local colocou a questão ao público: Qual a importância do preço na vossa decisão sobre uma opção de entretenimento? Vale a pena ler as respostas das pessoas (ver aqui). Sobretudo porque, ao lado daqueles que afirmam que o preço dos bilhetes é proibitivo (e existem casos que devem ser considerados com atenção, como, por exemplo, os custos para uma família), há outros tantos a dizer que os custos associados a uma saída de casa são demasiado altos; que não conhecem a programação ou a localização; que a oferta cultural é muito variada e existem opções e preços para todos os bolsos.

Gostava, entretanto, de transcrever uma das respostas: “A prioridade de assistir a teatro e música ao vivo é uma questão de qualidade de vida de grande importância para mim e para o meu marido. (…) As pessoas precisam de escolher com atenção, mas devem estar preparadas a pagar pelo empenho e talento incrível que é preciso para produzir eventos culturais ao vivo de qualidade. Estamos dispostos a ter a nossa caderneta de cheques mais leve, para que as nossas vidas não sejam mais pobres”. Quem deu esta resposta não deve ser uma pessoa pobre. Mas penso tratar-se de uma questão de escala e que a maioria das pessoas, dentro das suas possibilidades económicas, diria o mesmo se achasse que aquilo que as instituições culturais lhes oferecem é relevante e importante para as suas vidas. É este o grande desafio para quem trabalha na área da cultura.

Nesta altura de crise e de cortes, os museus nacionais no Reino Unido estão a reconsiderar a aplicação de entradas pagas (ver relatórios sobre o impacto das entradas gratuitas no meu post sobre museus). O Metropolitan Museum of Art - de entrada livre, mas recomendando aos visitantes uma contribuição de $20 – irá aumentar o preço recomendado para $25 a partir de 1 de Julho (ler a notícia aqui; no fim da mesma, apresenta-se um quadro com os preços de entrada em vários museus de arte americanos). Ao mesmo tempo, e dado o sucesso da exposição de Alexander Mc Queen, o museu irá abrir excepcionalmente às segundas-feiras, para receber visitantes dispostos a pagar $50 para visitar a mesma (ler notícia aqui). Há também teatros nos EUA que convidam o público a pagar o que puder para assistir a um espectáculo.

A necessidade de gerar receitas e de trabalhar para a auto-sustentabilidade é real. A preocupação relativamente ao acesso a uma oferta que todos têm o direito de fruir também. No entanto, quando é do acesso que queremos falar, diria que a entrada gratuita é uma medida fácil. E que, mesmo assim, não produz os resultados desejados de diversificação dos públicos. Para isto acontecer, é preciso um esforço muito maior e, em muitos casos, uma mentalidade bastante diferente na forma de fazer a abordagem. A acessibilidade começa na linguagem que usamos.

Mais algumas sugestões de leitura
Museus gratuitos (textos de Gabriela Canavilhas, Luís Raposo e João Neto, DN, 18.04.2011)

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Monday, 5 April 2010

As entradas gratuitas (II) Teatros

Ainda sobre as entradas gratuitas e passando para a área das artes performativas, a situação torna-se um pouco mais complexa. Lembro que, de acordo com o artigo de Alexandra Prado Coelho no jornal Público (ler aqui), baseado em estatísticas disponibilizadas pelo OAC e o GPEARI – documento disponível no site em Planeamento / Estudos) as entradas pagas nos dois teatros nacionais (D. Maria II e São João) eram em 2008 ligeiramente superiores às entradas gratuitas, enquanto 66% dos espectadores da Companhia Nacional de Bailado assistiram a espectáculos sem pagar bilhete.

No caso dos teatros e das salas de espectáculos em geral, é importante distinguir entre entradas gratuitas (convites) e entradas livres(eventos/actividades/espectáculos para os quais não se paga bilhete). O TNDMII não forneceu dados para se poder fazer esta distinção. No entanto, no caso do TNSJ, entre os 49% dos espectadores que tinham assistido a espectáculos sem pagar bilhete, 85% tinha usufruído de um convite. Passando para a Companhia Nacional de Bailado, entre os espectadores que tinham assistido em 2008 sem pagar, 62% tinha convite para eventos com entrada paga.

Importa aqui esclarecer quem são as pessoas que têm acesso aos convites. Na grande maioria dos casos, não se trata de pessoas desfavorecidas ou de novos públicos; a oferta de convites não faz parte de uma política de marketing que lhes é dirigida. Quem tem acesso às entradas gratuitas são maioritariamente os convidados das estreias, as tutelas, os profissionais do espectáculo e uma vasta gama de colaboradores, amigos e conhecidos dos mesmos. Considerando os convites para a estreia um meio de promoção do espectáculo - através daquele que é o melhor e mais fidedigno meio de promoção, o passar a palavra -, importa reflectir sobre os convites disponibilizados para as restantes sessões de um espectáculo de carreira longa e também, e sobretudo, para espectáculos de carreira curta ou de apenas um dia. Não sendo, nestes casos, o objectivo a promoção, qual a razão de dar convites? É uma questão de hábito, o hábito das borlas. Porque pagar se, através de amigos e conhecidos, podemos arranjar bilhetes de borla? É ainda a preocupação de ter salas cheias ou compostas, um certo medo ou desconforto em admitir que um espectáculo não vende. É ainda, em alguns casos, mas que não são a maioria, a preocupação em facilitar o acesso a pessoas que não tenham meios financeiros que lhes permitam comprar bilhete.

O que acontece é que, para cada convite disponibilizado, a instituição que o concede é obrigada a pagar o IVA correspondente. São milhares de euros pagos em IVA para certas pessoas assistirem a espectáculos já subsidiados, muitos deles, pelo Estado. Ou seja, produz-se e ainda por cima paga-se para as pessoas assistirem. Pessoas essas que, na sua grande maioria, podem comprar bilhete. Faz sentido? Qual o propósito da continuação desta prática? Que objectivo ou estratégia serve? O dinheiro do IVA dos convites não poderia ser investido doutra forma? Ninguém questiona a perda de receita?

Portanto, ao contrário do que se passa nos museus, as entradas gratuitas nos teatros e salas de espectáculos não estão normalmente relacionadas à preocupação de formar novos públicos. Mas as políticas de preços em geral, sim. Na área das artes performativas debate-se frequentemente sobre a necessidade de disponibilizar bilhetes baratos para o público vir. Na maioria das instituições existem os descontos habituais (jovens, seniores, estudantes, etc.) A Culturgest foi a primeira a introduzir o bilhete de €5 para menores de 30 anos e o seu exemplo foi seguido por várias outras entidades. Não tenho conhecimento da existência de estudos de público com o objectivo de entender melhor a eficácia desta medida. No entanto, estaria muito interessada em saber se os jovens criaram o hábito de ver espectáculos graças aos bilhetes a €5; se vêem mais espectáculos do que seria de esperar porque o bilhete é barato e se veriam menos se fosse mais caro (digamos €10); em que outras actividades e eventos esses mesmos jovens investem o seu tempo e dinheiro e quanto pagam por eles; e se a medida contribuiu para o alargamento dos públicos.

Com base naquela que tem sido a minha experiência nesta área, diria que, mais uma vez, o bilhete mais barato só por si não cria novos públicos. Facilita o acesso a quem frequenta com alguma regularidade, mas não é incentivo suficiente para trazer novas pessoas aos teatros e salas de espectáculos. Tal como acontece nos museus, a formação de novos públicos é o resultado de uma direcção artística que programa assumindo este mesmo objectivo, da acção do serviço educativo e de uma estratégia de marketing que produzirá o ‘embrulho’ certo para esta oferta. As pessoas estão dispostas a pagar para assistir a espectáculos que consideram que não podem perder. Mesmo nesta altura de crise, as salas esgotadas não têm sido um fenómeno raro.

Portanto, e para concluir, diria que, por um lado, é preciso conhecer bem o mercado em que estamos a actuar e saber estabelecer o preço certo para cada produto. E o preço certo é aquilo que o público está disposto a pagar. Por outro lado, é necessário questionarmos a eficácia da gratuitidade como meio para a formação de novos públicos. Estudos de público e observações empíricas apontam para um caminho muito diferente para se atingir este fim.

Agradeço especialmente a CF e RC os seus comentários prévios sobre este texto.

Monday, 29 March 2010

As entradas gratuitas (I) Museus

No dia 7 do passado mês de Fevereiro o título do jornal Público que chamou imediatamente a minha atenção foi este: “Nos museus e teatros há cada vez mais acessos gratuitos”. O artigo era da Alexandra Prado Coelho (ler aqui) e dava conta, com base em estatísticas recentemente divulgadas pelo OAC, de que, em 2008, nos museus a percentagem de entradas gratuitas era de 62% e nos monumentos e palácios de 49%. Passando para as artes performativas, o artigo indicava que nos dois teatros nacionais (D.Maria II e São João) as entradas pagas eram ligeiramente superiores às gratuitas, enquanto a percentagem de espectadores da Companhia Nacional de Bailado que tinha assistido a espectáculos sem pagar tinha atingido os 66%.

Começando pelos museus, a questão da entrada gratuita é várias vezes levantada nos meios profissionais. A própria Ministra Gabriela Canavilhas afirmou em Janeiro que um dos seus maiores desejos é a instituição de entrada livre em todos os museus do IMC (ler aqui
) Normalmente, esta questão é colocada no contexto da democratização do acesso, por se tratar de um ‘serviço público’, ou na perspectiva do aumento do número de visitantes e da formação de novos públicos.

Qual o serviço público para o qual não se paga nada? A educação? A saúde? Porque é que não se devia pagar para se ter acesso a um museu nacional? De acordo com a nova tabela de ingressos,
o bilhete custa entre €2 (por exemplo, no Museu da Terra de Miranda) e €5 (nos grandes museus nacionais de Lisboa, Coimbra e Porto). De qualquer forma, menos que um bilhete de cinema. Existem ainda descontos e uma série de situações que dão direito a entradas livres. Porque é que o Estado havia de querer abdicar desta receita? O facto de 61% das entradas terem sido gratuitas em 2008 indica que, entre as pessoas que visitam, a maioria já tem o acesso facilitado. Os dados disponibilizados pelo OAC não entram em pormenores sobre o perfil dos visitantes, mas talvez possamos concluir que grande parte das entradas gratuitas, um número muito próximo do número de visitas nacionais, se refere a grupos escolares; enquanto o número de entradas pagas é bastante próximo do número de visitantes estrangeiros.

Se a intenção é o aumento do número de visitantes associado à formação de novos públicos, tenho sérias dúvidas que o caminho passa pela instituição de entrada gratuita. A ideia que as pessoas não visitam porque não podem pagar e visitarão se a entrada for livre é, na minha opinião, uma falsa questão. As pessoas não visitam porque não têm interesse, porque não acham os museus relevantes, porque não entendem a sua linguagem. Em alguns casos, porque nem sequer sabem que existem. Mas gastam (e gastam muito mais que €5) para participar em ou assistir a actividades e eventos que lhes parecem relevantes, interessantes, divertidos; que valem a pena o dinheiro (e tempo) investido.

A instituição de entrada livre traz, sem dúvida, um aumento no número de visitantes. No entanto, trata-se, na maioria dos casos, de pessoas com o mesmo perfil ou até das mesmas pessoas que passam a visitar mais vezes. O aumento do número de visitantes associado à formação de novos públicos passa por novas abordagens de exposição e interpretação das colecções, e, claro, por novas estratégias de comunicação. Quando o ‘produto’ é apetecível, o ‘cliente’ não hesita em pagar para o adquirir. E, tratando-se aqui de museus nacionais, preocupados, como devem ser, com as questões de acesso, podem, como já o fazem, desenhar políticas de bilheteira acessíveis para a maioria dos bolsos.

E porque normalmente nos limitamos a avaliar tudo de forma empírica, no caso das entradas livres, e em países que já as implementaram, houve estudos de avaliação da medida. Em Janeiro 2001 os museus nacionais do Reino Unido instituíram a entrada gratuita às exposições permanentes, continuando a cobrar bilhetes (e bilhetes caros) para as exposições temporárias. A abolição da entrada paga foi acompanhada por um aumento do apoio financeiro garantido pelo governo de Tony Blair (vinte anos antes, o governo de Margaret Thatcher tinha seguido o caminho inverso, introduzindo as entradas pagas nos museus nacionais, no sentido de cortar o apoio financeiro dado pelo Estado). Sete meses depois, em Julho 2001, os museus registavam um aumento médio de 62% no número de visitas. No caso concreto do Victoria & Albert Museum, o aumento chegou a atingir o 157%, um facto relacionado também com a abertura das British Galleries. Aliás, todos os museus que tinham inaugurado na altura novas alas e novos serviços registaram aumentos significativos no número de visitantes. Em 2003 foi publicado o estudo de públicos da MORI (disponível aqui) que pretendia avaliar o impacto da introdução da entrada livre. O estudo confirmou o aumento significativo do número de visitantes, mas mostrou também que a maioria eram visitas realizadas por pessoas com o mesmo perfil sócio-demográfico, ou eram então visitas repetidas, ou seja, as mesmas pessoas visitavam mais vezes. Um outro relatório da Museums Association (disponível aqui
) chegou às mesmas conclusões. A entrada livre por si não forma novos públicos.

Posso ainda dar um exemplo nacional. No tempo que trabalhei no Pavilhão do Conhecimento, faziam-se dois inquéritos aos visitantes por ano. Havia entre os inquiridos pessoas que afirmavam não ser visitantes de museus. A razão invocada era a falta de tempo ou a falta de interesse. Ao longo dos cinco anos que trabalhei nesses inquéritos, foram raras as vezes em que as pessoas responderam que não visitavam porque se pagava ou porque os bilhetes eram caros.

Considerando, portanto, que os visitantes locais, nacionais e estrangeiros não reclamam pelo facto de terem que pagar para entrar nos museus nacionais e que a política de ingressos estabelece preços relativamente baixos (sendo contemplados vários descontos, assim como entrada livre para certos grupos de visitantes e profissionais), parece-me que os museus não deveriam abdicar desta receita. Deveriam continuar a cobrar e ao mesmo tempo começar a investir mais numa melhor estratégia de exposição, interpretação e marketing, que, para além de servir os públicos actuais, contribuiria para a formação de novos públicos. A oferta tornar-se-ia mais relevante, mais acessível intelectualmente, mais ‘apetecível’. E desconfio que o público não se importaria de pagar algo para usufruir da mesma.