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Monday, 30 November 2015

O museu é uma pessoa: alguns pensamentos pós-NEMO



Como podemos envolver-nos mais? Como podemos tomar uma posição? Não estaríamos a alienar algumas pessoas se classificarem o museu como "de esquerda" ou "de direita", como fazem com os jornais? Até onde podemos ir? Quais são os limites? Estas são algumas das perguntas que tive a oportunidade de discutir com os colegas que estiveram na conferência anual da NEMO – Network of European Museums Organizations, no seguimento da minha comuicação Are we failing?

Wednesday, 29 July 2015

Praticante, não católico

Fotografia retirada do website do jornal Expresso

Para mim, uma pessoa culta não é alguém com um conhecimento profundo sobre várias matérias, que lê muitos livros, que vai muitas vezes a museus e ao teatro, que viaja e conhece o mundo. Uma pessoa culta para mim é alguém que faz tudo isso e mais coisas ainda e que tenta colocar o seu conhecimento e experiências em prática procurando reconstruir o mundo, um mundo melhor. Ser uma pessoa culta não é algo inato para nós, seres humanos. É um exercício mental e prático diário contra a nossa barbárie interior, contra a nossa ignorância.

Monday, 27 April 2015

Museum Next começa aqui

Christian Lachel, BRC Imagination Arts (Foto: Maria Vlachou)
Parece-me que as três palavras mais ouvidas na conferência de 2015 do MuseumNext foram: emoção, histórias, envolvimento. Palavras que registam claramente a mudança que tem estado a ocorrer na atitude dos museus, com o objectivo de estabelecer, com a ajuda de suas colecções, uma relação melhor e mais relevante e significativa com as pessoas - mais pessoas, pessoas diferentes, pessoas comuns.

Uma apresentação que foi inteiramente dedicada a este tema foi "Emotionalizing the Museum", de Christian Lachel da BRC Imagination Arts. "A experiência estará a transformar os seus visitantes fazendo-os querer partilhá-la com outros?", perguntou Christian. E esta é, provavelmente, a pergunta certa. Embora a transformação que todos nós tanto desejamos fazer acontecer pode levar algum tempo para ser conscientemente reconhecida pelas pessoas (se chegar a ser reconhecida), o desejo irresistível de compartilhar com os outros é um indicador mais imediato da ocorrência de um encontro significativo. E o ponto de partida é o coração das pessoas, afirmou Christian. O processo de criação de uma experiência envolvente acontece do interior para o exterior e não o inverso. Um processo que tem como objectivo envolver as pessoas através de uma história, procurando, de seguida, as ferramentas certas e a criação de um ambiente físico adequado para esse encontro.

Christian Lachel, BRC Imagination Arts (Foto: Maria Vlachou)
Outra questão que surgiu repetidamente foi a do digital vs o físico. Ao mesmo tempo que os museus estão numa corrida para abraçar as novas ferramentas e plataformas digitais, a fim de criar experiências mais envolventes e significativas, muitas vezes parecem dar um passo atrás, re-avaliando as vantagens e os pontos fortes do encontro físico.

Um projecto inspirador do Museu Brooklyn, a Ask Mobile App, passou por essas fases de pensamento e avaliação (que são abertamente partilhadas no blog do museu - um grande exemplo de profissionalismo, generosidade, transparência e accountability que mais museus devem ter a coragem de aplicar). Como Shelley Bernstein nos explicou, num momento em que o Museu de Brooklyn está a reavaliar vários pontos de contacto com os seus visitantes (o seu foyer austero, a recepção confusa, a falta de assentos), deseja também melhorar a sua experiência, permitindo-lhes fazer, no local e em tempo real, qualquer pergunta que possam ter a respeito dos objectos ou das exposições em geral. O projecto está ainda a ser testado nos seus detalhes e será lançado em Junho. 

Shelley Bernstein, Brooklyn Museum (Foto: Maria Vlachou)
Numa fase anterior, o museu tinha membros do seu pessoal nas salas e descobriu que os visitantes gostavam muito de conversar com eles. No entanto, um museu tão grande iria precisar de muitas pessoas para ser capaz de cobrir todas as salas. A fim de optimizar a ideia do contacto directo e em tempo real com um membro da equipa, decidiram recorrer à tecnologia. Uma equipa de seis pessoas está disponível para responder a perguntas de visitantes enviadas através dos seus telemóveis usando a Ask Mobile App. A avaliação até agora tem mostrado que as pessoas continuam a considerar este contacto pessoal e o museu está confiante que esta será mais uma forma de cumprir a sua missão de ser "um museu dinâmico e atento que promove o diálogo e provoca conversas". O museu descobriu que as pessoas até passam mais tempo a olhar para os objectos... à procura de perguntas para fazer!

Existirá, no entanto, algo mais pessoal e físico (e divertido e inspirador) do que sermos levados para uma visita guiada adaptada às nossas necessidades e interesses pelo Museum Hack? "Eu odeio museus!", é assim que Nick Grey começou a sua apresentação. E odiava-os ... no passado. Agora, o que mais quer é partilhar a sua paixão por eles com as pessoas que ainda os odeiam, com as pessoas que ainda sentem que os museus não são para elas. Um colega do Museu de Arquitectura e Design de Oslo chamou ao Museum Hack "nossos aliados naturais". E são, de facto! O objecto favorito de Nick no Metropolitan Museum é o fragmento do rosto de uma rainha egípcia. Foi isto que nos disse sobre ela (citando de memória): "Se estes são os lábios, podem imaginar o resto? Como deve ter sido bela? E, embora não saibamos quem ela foi e quais as ferramentas que foram usadas para a fazer, sabemos que ela é feita de jaspe amarelo. O jaspe amarelo era tão caro que o único outro objecto no Met feito deste material é pequeníssimo. Numa escala de dureza de 1 a 10, onde o diamante é 10 e o mármore é 3, jaspe é um sólido 6. Faz o mármore parecer borracha... ". Não são os museus “f *** ing awesome”?!

Nick Grey, Museum Hack (Fotos: Maria Vlachou)
A minha visita ao recentemente renovado Museu Internacional da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho testou, de alguma forma, todos esses pensamentos e ideias. É um museu que combina muito bem o físico e o digital, utilizando a tecnologia de modo a realçar o significado dos objectos, para partilhar histórias poderosas e para envolver o visitante - tanto emocional como intelectualmente - na discussão de questões universais e sensíveis. Os três capítulos principais da história são "A defesa da dignidade humana", "O restabelecimento de laços familiares" e "A redução de riscos naturais" e cada espaço / capítulo foi criado por um arquitecto diferente, propondo ambientes bastante distintos. Um dos momentos mais tocantes para mim foi na sala onde estão expostos os presentes oferecidos pelos prisioneiros de diferentes conflitos ao delegado da Cruz Vermelha encarregue do seu caso. Fizeram-me pensar na beleza, sensibilidade, criatividade e humanidade que ainda pode emanar depois do horror da barbárie, breves sinais de uma esperança renovada. Devo dizer, porém, que o momento mais poderoso foi tocar no ecrã a mão estendida de uma testemunha, um gesto que iniciaria o seu testemunho. Uma concepção brilhante, que liga o físico ao digital, criando uma experiência profundamente emocionante e memorável.


Em quase todas as visitas a museus, nas apresentação e discussões durante a conferência, devo dizer que havia para mim uma questão subjacente: podem os museus cumprir o seu papel social e educativo, podem ser relevantes e envolventes, se não assumirem também, e de forma clara, o seu papel político? Logo no primeiro dia, Gail Dexter Lord introduziu o conceito de ‘soft power’ como "a capacidade de influenciar o comportamento através da persuasão, da atracção ou do estabelecimento de uma agenda". Como é que os museus podem exercer este poder? "Não podemos tomar partido", costumam exclamar alguns colegas. Oh, mas é o que fazemos ... Às vezes com o nosso silêncio ou fingindo sermos neutros; mais frequentemente, com os objectos que optamos por mostrar ou não mostrar, com as histórias que optamos por contar ou não contar.

Mais que tomar partido, porém, assumirmos o nosso papel político é assumirmos que há, na realidade, mais que um lado para cada história e criarmos espaço para estes pontos de vista se tornarem conhecidos, serem discutidos, para que os cidadãos possam ficar melhor informados, ver os seus próprios pontos de vista serem desafiados, conhecer e ouvir o 'outro', desenvolver empatia e compreensão, tomar uma posição. Os museus não são ilhas e, como afirmou Tony Butler (Derby Museums / The Happy Museum Project): "O que se passa lá fora é tão importante como o que se passa cá dentro". Não é urgente, e não faz sentido, que os museus no século XXI assumam o seu papel na promoção da democracia?


Gail Dexter Lord (Foto: Maria Vlachou)












Monday, 16 March 2015

O que é que temos a ver com isso? (ii)

Field Museum, Chicago (fotógrafo desconhecido)
Em Dezembro passado, houve um intenso debate entre os profissionais de museus nos EUA a respeito do papel dos museus na sequência da morte de negros pela da polícia em Ferguson, Cleveland e Nova Iorque. Os nossos colegas norte-americanos sentiram fortemente que os museus fazem parte da rede cultural e educacional que trabalha no sentido de uma maior compreensão cultural e racial. Será que eles se referiam especificamente aos museus com colecções afro-americanas? Ou a museus situados nas comunidades onde os eventos ocorreram? Não, não se referiam apenas a estes. "Como mediadores culturais, todos os museus devem procurar identificar formas criar ligações com relevantes questões contemporâneas, independentemente da sua colecção, enfoque ou missão." (ler a declaração na íntegra)

Na altura, concordei com a posição mais cautelosa de Rebecca Herz. Acho arriscado incentivar um museu (ou qualquer outra instituição) a agir independentemente da sua missão, mas, como Rebecca referiu: "Eu pessoalmente acredito que os museus devem alinhar todas as suas acções com a sua missão, que deve estar relacionada com a colecção ou o enfoque. E acho que se pode encontrar uma ligação entre qualquer colecção e a vida contemporânea, mas que estas ligações devem ser cuidadosamente consideradas e desenvolvidas. " (ler post)

Enquanto estava a seguir esta discussão muito interessante que ocorria no outro lado do Atlântico, no dia 15 de Dezembro, um refugiado iraniano invadia um café em Sydney fazendo reféns. Dezasseis horas depois, a polícia interveio, matando o atacante, assim como dois dos reféns. Temendo represálias contra os membros da comunidade muçulmana que usavam o traje islâmico, os habitantes de Sydney ofereceram-se para acompanhar nos transportes públicos os seus vizinhos muçulmanos que se sentiam inseguros. Soube disto no início da manhã de 16 de Dezembro, através da página de Facebook do Immigration Museum. O museu partilhou a notícia do Guardian e juntou-se ao resto dos australianos, numa tomada de posição contra o preconceito e a violência.



Tomar posição não é algo simples, especialmente para uma instituição (por oposição a um indivíduo). Não é uma decisão que pode ou deve ser tomada apressadamente, uma reacção ao momento. Deve ser um acto "natural", o resultado de uma política consciente, estruturada e sustentada de intervenção cívica / política, de acordo com a missão da instituição. É também uma grande responsabilidade.



No mês passado, três jovens muçulmanos foram assassinados na sua casa na Carolina do Norte, EUA. Numa altura em que os jornais noticiavam que os motivos do atacante ainda não eram conhecidos, o Arab American National Museum partilhava na sua página no Facebook a sua tristeza pela perda dos três jovens, insinuando que este tinha sido um crime racial. Pensei que era muito cedo, que o museu estava a tirar ilações, o que não me pareceu ser nem responsável nem útil. Perguntei ao museu se fazia uma declaração como aquela para cada assassinato nos EUA. Outras pessoas (não o museu) responderam que as vítimas eram americanos-árabes, de modo que o museu fazia bem em reagir. Reformulei a pergunta e questionei se o museu fazia uma declaração para cada americano-árabe assassinado, se assumia que o assassinato de qualquer americano-árabe era um crime racial. Acho que os museus não devem atirar-se e fazer declarações antes do tempo.


Mais recentemente, em Portugal, o Museu Nacional de Arte Antiga publicou uma declaração sobre a destruição de tesouros arqueológicos do Museu de Mosul por militantes do ISIS. Foi uma boa surpresa, uma vez que este museu, como a maioria dos museus portugueses, não costuma tomar posições publicamente. Alguém poderia argumentar que isso não foi exactamente uma declaração política e que se tratava de uma assunto algo "seguro" para o museu; pode ser. Veio também num momento em que os especialistas ainda estavam a tentar perceber se os objectos destruídos eram os originais ou cópias; talvez por isso, pareceu uma reacção um pouco precipitada. Estou mais interessada, no entanto, em perceber se essa foi uma acção pontual ou o primeiro acto de uma política concreta e a longo prazo de reconhecer e assumir as responsabilidades civis-políticas-culturais do museu. Seria óptimo se assim fosse, o tempo o dirá.



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Monday, 6 October 2014

Preservar para quê?

Imperial War Museum

No meu segundo ano em Londres, em 1994, da janela da minha cozinha via a cúpula do Imperial War Museum (IWM). Era uma vista bonita de um museu bonito. Para a surpresa de muitas pessoas, este é o meu museu favorito em Londres.

No caminho para o primeiro Congresso de Museologia Militar, estava a pensar que nunca considerei o Imperial War Museum, que ia fazer uma apresentação nesse dia, um museu militar. Para mim, o IWM é um museu de pessoas (não deveriam todos sê-lo?). Um museu de militares e de civis, de homens e de mulheres, de adultos e de crianças, de seres humanos e de animais (estou a lembrar-me de algumas das exposições que lá vi). É muito mais do que datas, batalhas, tácticas, tipos de armas e tratados. É um museu que conta as histórias de pessoas que foram afectadas pela guerra.


Postal promocional das novas galerias da Grande Guerra no Imperial War Museum

A apresentação do IWM estava incluída num painel que iria debater os Museus Militares e o Centenário da Grande Guerra. A primeira oradora foi Maria Fernanda Rollo, professora universitária e coordenadora do projecto Portugal 1914. Trata-se de um portal na Internet com conteúdos muito ricos, recolhidos com a colaboração de várias instituições e profissionais de vários meios, assim como com a colaboração do público em geral. O objectivo é a promoção de uma cidadania activa e empenhada na promoção da defesa, preservação e salvaguarda de um património colectivo, assim como sensibilizar a população em geral para a importância da memória e da sua preservação. “Este é um museu virtual, que conta histórias, onde aprendemos com as afectividades. É um museu vivo”, disse Maria Fernanda Rollo.


Postal promocional das novas galerias da Grande Guerra no Imperial War Museum

Sorri quando ouvi esta afirmação. Porque, implicitamente, Maria Fernanda Rollo estava a revelar a sua percepção dos museus: espaços mortos, espaços onde não se contam histórias, espaços onde a afectividade não tem lugar. Esta é uma percepção amplamente partilhada por várias pessoas na nossa sociedade a vários níveis (lembram-se porque é que a Paula Rego quis que o museu que alberga as suas obras em Cascais se chamasse “Casa das Histórias” e não “museu”?). Mas sorri também ao ouvir a minha amiga Gina Koutsika fazer a sua animada e estimulante apresentação sobre as iniciativas do IWM para a comemoração do centenário. A Gina mostrou-nos como um museu pode (e deve) ser vivo, cheio de histórias e de sentimentos, próximo das comunidades que pretende servir. Este não é um museu no mundo virtual, é real, existe.


Postal promocional das novas galerias da Grande Guerra no Imperial War Museum

Quando o debate começou, lembrei-me de uma outra visita, há quase 10 anos, ao In Flanders Fields Museum (Ypres, Bélgica). Mais um museu notável, na cidade que esteve no caminho do exército alemão e que ficou completamente destruída durante a guerra. Um museu cheio de histórias humanas, onde o visitante pode assumir a identidade de um dos habitantes da cidade e seguir a sua história pessoal durante a guerra. O que mais me marcou naquela visita, e que não voltei a encontrar em nenhum outro museu, foi a forma simples como se mostrou que um objecto pode ser muitas histórias. Através da exposição de um monte de lenços brancos, o museu falava-nos dos múltiplos usos daquele objecto: podia ser um sinal de rendição; ou uma forma de alguém se proteger dos gases letais tapando o seu nariz; ou algo para tapar os olhos de quem enfrentava o esquadrão da morte.


In Flanders Fields Museum

Lembrei-me ainda do Musée de la Grande Guerre du Pays de Meaux (França) e do seu maravilhoso projecto “Léon Vivien”. Os bons museus encontram formas imaginativas de usar as suas colecções, dando-lhes vida e criando ligações com as pessoas. Léon Vivien é um personagem fictício, um soldado, cuja história é contada numa página especial no Facebook através de vários objectos, seguida e comentada por milhares de pessoas. Os bons museus sabem sê-lo tanto no mundo real como no mundo virtual.



A questão da memória surgiu no debate quando o Tenente-General Mário de Oliveira Cardoso, outro dos oradores neste painel, citou o filósofo, ensaísta e escritor George Santayana: “Quem não se lembra do passado está condenado a repeti-lo”. Lembrar o passado, preservar o conhecimento histórico. Sim, é este o objectivo de várias instituições, incluindo o dos museus. Mas porquê? Com que propósito? Estará a ser alcançado? Estarão essas histórias a ser preservadas e lembradas simplesmente para se criar um repositório ou porque podem criar ligações ao presente, a vidas humanas actuais, não apenas as nossas mas as dos outros também? Poderão as histórias preservadas e lembradas ajudar-me a criar uma ligação ao Outro, fazer a sua história minha?

Na Europa, não faltam museus militares, de história, da primeira e segunda guerra, do holocausto. Todos têm como objectivo preservar o passado histórico e mostrar a importância da memória. “Nunca mais” é o lema que encontramos em muitos deles. Estarão estes museus conscientes que recentemente, no seguimento das atrocidades cometidas em Gaza, voltou a ser ouvido em algumas cidades europeias o grito “Morte aos Judeus”? Terão reagido? Terão aproveitado a oportunidade para dar bom uso às suas colecções e mostrar para que serve preservar o passado histórico e ter memória? Não é precisamente num momento como este que um museu deveria intervir publicamente e contribuir para esclarecer e formar a opinião pública? Caso, contrário, preservar para quê?


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Monday, 28 July 2014

Em círculos

Nelly´s, Refugiados gregos da Ásia Menor, 1925-27.

Dois dos meus avós nasceram súbditos otomanos. A minha cidade, Ioannina, no noroeste da Grécia, foi conquistada pelo Otomanos mesmo antes de Constantinopla, em 1430. Quase 500 anos mais tarde, em 1913, foi liberada pelo exército grego e tornou-se parte do Estado Grego. Ao longo dos séculos, tinha havido várias revoltas contra os Otomanos, mas não tiveram sucesso. Resultaram numa ainda maior repressão, que, por sua vez, alimentou a determinação dos ocupados.

A minha cidade teve um forte passado multicultural – cristão, muçulmano e judaico. Eu nasci em 1970, muito tarde para o presenciar, apesar de se encontrarem vestígios em várias partes. A minha casa hoje fica a 200 metros dos cemitérios muçulmano e judaico. A maioria dos muçulmanos que residiam em território grego teve que abandonar as suas casas e ir para a Turquia, um país que não conhecia, um lugar que não significava nada para eles, no seguimento do Tratado de Lausanne em 1923. Os Cristãos Ortodoxos que viviam na Turquia foram forçados em ir para a Grécia. Amigos e vizinhos separaram-se para sempre e eu passei a minha infância com um medo terrível dos Turcos. O último muçulmano de Ioannina morreu na década passada, enquanto a comunidade judaica, quase completamente aniquilada durante a ocupação Nazi na Segunda Guerra Mundial, conta hoje com aproximadamente 50 indivíduos.

A primeira e última vez que entrei na Sinagoga da minha cidade – que está quase sempre fechada – foi em 1993, para a comemoração do 50º aniversário da deportação dos Judeus de Ioannina para Auschwitz. A pessoa que se sentou ao meu lado nesse dia chorou silenciosamente durante toda a cerimónia. Foi naquele momento, com vinte e poucos anos, que me apercebi que a História é muito mais que factos e datas nos meus livros, como é normalmente ensinada nas escolas e até nas universidades. A História são as pessoas que a fazem e as pessoas que vivem as suas consequências, tanto as figuras públicas como, especialmente, os indivíduos anónimos.

Sempre que viajo, visito os Museus Judaicos ou exposições sobre o Holocausto quando patentes nas cidades em que me encontro. Visitei alguns muito bons (Imperial War Museum, Londres; Dachau Concentration Camp Memorial Site, Munique; Jewish Historical Museum, Amsterdão; Jewish Museum, Viena; The United States Holocaust Memorial Museum, Washington), alguns menos bons, do ponto de vista da museografia, mas, mesmo assim, interessantes por causa do tema (Jewish Museum Berlin; Jewish Museum of Greece, Atenas), enquanto espero ainda poder conhecer outros, como o South African Jewish Museum na Cidade do Cabo. Através destas visitas, revisito também a história de um povo orgulhoso pelas suas origens, que respeita e preserva as suas tradições, independentemente da parte do mundo onde vive e, sobretudo, apesar de todas as perseguições que tem vivido… desde sempre. Sinto um respeito e uma admiração profundos por eles e não me canso de ouvir a história de novo, as partes boas e as partes más.

Muitas vezes nessas visitas somos confrontados com a lição “Nunca mais”. Este é, claro, um dos propósitos do contar a história, o facto desta se repetir, o facto de termos que aprender com o passado. Na verdade, o United States Holocaust Memorial Museum dá um passo além da afirmação “Nunca mais”. Investe activamente no estudo, denúncia e prevenção do genocídio em todo o mundo. Foi este museu que me ajudou a lidar com o meu sentimento de pequenez, impotência e insignificância e ensinou-me que todos podemos fazer algo para prevenir o genocídio: aprender mais e partilhar o que sabemos com amigos e familiares. Mas não refere a Palestina.

E esta é uma lição maior para mim, a verdadeira lição. Uma lição que mostra que o “Nunca mais” vai acontecer – mais e mais e mais vezes – porque uma vez confrontados com ele começamos a fazer cálculos. Calculamos as vantagens e desvantagens para nós próprios, quem é que deveríamos apoiar abertamente, em que momentos seria melhor permanecermos silenciosos e neutros, quando deveríamos assumir uma postura mais reconciliatória. É precisamente isto que têm feito muitos políticos e cidadãos comuns desde o início de mais um ataque israelita em Gaza, um ataque que matou até agora muitos civis, que destruiu muitas casas, que deixou marcas terríveis em muitos seres humanos. Como todos os ataques anteriores. Quando ocorre uma tal carnificina (ainda por cima, levada a cabo pelo exército regular de um estado democrático), a primeira coisa que temos que fazer (nós, o Ocidente democrático e defensor dos direitos humanos) não é discutir as origens do conflito, o que cada lado faz bem ou mal. A primeira coisa que temos que fazer é condenar claramente, inequivocamente e em voz alta o ataque e exigir o fim imediato da carnificina. Depois podemos e devemos conversar.  

Mas não é o que tem acontecido. Aparentemente, não damos o mesmo valor a todas as vidas humanas e assim, os países europeus representados no Concelho da Nações Unidas para os Direitos Humanos podem abster-se (todos!) na votação para a abertura de um inquérito sobre alegadas violações dos direitos humanos em Gaza; aparentemente, algumas situações do género “nunca mais” são justificadas, e assim os nossos governos podem continuar a apoiar e a vender armas ao governo israelita; aparentemente, cada caso é uma caso e tudo depende, portanto, existem alguns casos do género “nunca mais” em que nós cidadãos comuns podemos reservar o direito de sermos mais “equilibrados” ou neutros.

Aparentemente, não aprendemos com o que a História tem para nos ensinar, basicamente, que a ocupação, a humilhação e o aterrorizar de um povo nunca mantiveram os autores no poder para sempre e, sobretudo, nunca trouxeram paz.


Até Setembro.

Monday, 14 April 2014

O Atentado



Li O Atentado de Yasmina Khanda há uns anos. É a história de um médico árabe, Amin Jaafari, que vive e trabalha em Tel Aviv. Após um atentado suicida que abala a cidade, Jaafari é chamado para identificar o corpo da sua mulher, Sihem, uma das vítimas do atentado. Pouco depois, é confrontado com a informação que a bombista suicida tinha sido a própria Sihem.

Com a sua escrita bonita, sensível, incisiva, Khandra conduz-nos através das várias fases do estado emocional de Jaafari e da sua viagem à procura de respostas: desde a dor de ter perdido a sua mulher, à incredulidade perante a informação que a mulher que amava tinha cometido tal crime, à confusão e à raiva quando começa a aperceber-se que desconhecia uma série de acções, pensamentos e sentimentos da sua mulher, à determinação de encontrar uma explicação que pudesse fazer sentido e ao regresso a uma realidade que tinha deixado há muito para trás.

Adorei o livro de Yasmina Khandra porque mostra que a amizade, a tolerância, a compreensão e a coexistência são possíveis, são uma realidade. E com esta realidade como ponto de partida, leva-nos lentamente, seguindo a busca de Jaafari, àquela outra realidade, que existe ao lado da primeira, comprometendo-a, questionando-a, todos os dias: aquela de milhões de Palestinianos nos territórios ocupados ou no exílio; aquela da humilhação diária, do desespero, da dor, do abuso, da morte, da revolta; aquela de um poder arbitrário que faz nascer terroristas, bombistas suicidas, que são venerados como heróis e mártires.

Khandra faz-nos questionar a primeira realidade. Será o resultado de silêncios convenientes; da ignorância? Será falsa; incapaz de sobreviver quando o silêncio é quebrado? Ou será o resultado de força e determinação, do desejo informado, e por isso consciente, de paz?

Ziad Doueri, realizador do filme O Atentado.
O filme O Atentado de Ziad Doueri abriu este ano a Judaica – Mostra de Cinema e Cultura em Lisboa. Fui vê-lo sabendo que raramente ou nunca os filmes são tão bons como os livros. A regra foi mais que confirmada.

O que mais me impressionou foi a superficialidade com a qual Doueri lidou com a história. Não foi capaz de dar qualquer profundidade aos personagens, aos seus sentimentos e ideias, e mais que uma vez tive a sensação que estava a ver uma telenovela. Além disso, Doueri optou por ignorar a narrativa de Yasmina Khandra na descrição da busca de Jaafari nos territórios e praticamente apresentou os Palestinianos como nada mais do que uma máfia. Levantei-me assim que o filme acabou, perplexa também pelo facto do final ser totalmente diferente daquele do livro. Mesmo antes de sair da sala, pude ouvir o realizador explicar ao público que o final do livro não lhe era conveniente, por isso optou por um final diferente. Porque é que não escreveu a sua história em vez de arruinar a de Khandra?

Cena do filme O Atentado.
Poucos dias mais tarde, vi uma entrevista de Douari e apercebi-me que havia mais. Enquanto o ouvia falar da sua infância em Beirut, dos seus pais liberais, dos tabús dos árabes no que diz respeito a Israel, da estupidez que é o ramadão, percebi que Doueri, ao querer ser progressista e de mente aberta e liberal, construiu a sua própria versão d´O Atentado com a intenção de desafiar o ponto de vista árabe. Desafiá-lo ignorando-o, fazendo dele uma caricatura. Mais uma vez, porque é que não escreveu a sua história em vez de se aproveitar do best seller de Khandra?


A coexistência, a reconciliação, a construção de um futuro comum não é algo fácil. È o que nos diz Yasmina Khandra. É o que sinto quando tenho que falar ao meu filho do passado e presente greco-turco. É o que me atormentou enquanto lia The Antelope's Strategy, Living in Rwanda after the Genocide de Jean Hatzfeld. Podem ser precisos alguns silêncios, mas como resultado de conhecimento e de compreensão e não de ignorância. É preciso força, a capacidade de perdoar sem esquecer. E preciso abertura de espírito, a capacidade de ouvir e pesar os argumentos da outra parte. Não é fácil; é muito difícil e é complexo. É preciso começar por reconhecer precisamente este facto; e respeitá-lo.

Monday, 17 March 2014

Pedaços de cerâmica

"Some use for your broken clay pots", de Christoph Meierhans, apresentado no Teatro Maria Matos. (Foto: Jan Lietaert)
A semana passada, fui ver ao Teatro Maria Matos “Some use for your broken clay pots” com Christoph Meierhans. Inspirado no antigo sistema do ostracismo em Atenas, onde um líder político que assumisse demasiado poder podia ser exilado pelos cidadãos, Meierhans deseja propor-nos um novo sistema democrático, uma nova constituição que, ele acredita, poderá também produzir um novo tipo de cidadão.

Segui a sua teoria com interesse e fiquei a pensar: nós, como cidadãos, precisamos mesmo de um sistema diferente para ‘ostracizarmos” ou 'desqualificarmos' políticos maus ou incompetentes? Não podemos simplesmente, dentro dos direitos que nos são dados pelo actual sistema, não votar neles? Mas votamos neles, uma e outra vez. Porquê? Alguns de nós não estão suficientemente interessados, outros sentem-se impotentes, outros ainda acreditam que tudo isto está fora do seu controlo, outros pensam que podem ter benefícios se se associarem aos que têm o poder. Pensei em particular sobre este último ponto ao ouvir uma das espectadoras falar apaixonadamente sobre a luta das classes. Será mesmo uma questão de classes? Como é que se pode explicar, então, que pessoas de uma determinada classe votem em políticos que representam outra? Não será porque esperam ter algum benefício, para eles e para os seus?

O que é preciso para produzir os cidadãos activos, informados, exigentes dos quais necessita o sistema de Meierhans? Penso que este é o ponto fraco da sua teoria, o ponto relacionado com os cidadãos em si. Penso que ignorou ou subvalorizou o poderoso factor humano, aquele que não é moldado por sistemas, aquele que consegue subverter até o melhor dos sistemas. Até na Grécia Antiga, onde o ostracismo parecia ser um bom sistema, o factor humano acabou por agir contra ele ou, melhor, por usá-lo em seu próprio benefício, acabando por fazer uso do ostracismo para se ver livre de oponentes políticos. O problema era do sistema?

Poderíamos ser um género diferente de cidadão no sistema actual, se quiséssemos, se não tivéssemos medo, se estivéssemos preparados para agir como um colectivo. A consciência e o sentido de responsabilidade individual são provavelmente importantes para cada um de nós poder dormir descansado à noite, mas não trazem revoluções nem verdadeira mudança. O poder, para o bem e para o mal, está no colectivo. Pensei muitas vezes no quão me senti orgulhosa e tocada quando vi os portugueses a saírem para a rua no dia 15 de Setembro de 2012. Era algo novo para mim, que já vivia neste país há 17 anos. Mas, por muito que tenha acarinhado aquele momento, não tinha ilusões. A grande maioria daquelas pessoas voltou para a sua vida ‘normal’, segunda de manhã, aceitando, compactuando, permanecendo silenciosa perante as coisas, aquelas coisas do costume, que os tinham levado à rua dois dias antes. Mas, ao mesmo tempo, quando acontece algo assim, as coisas nunca mais poderão ser as mesmas. Pode não ser muito visível, mas algo mudou e o próximo passo será daí para a frente. Isto é progresso.

Nos últimos três anos testemunhámos momentos de grande agitação social em diferentes partes do mundo. E testemunhámos igualmente a emergência de um novo tipo de cidadão. Dois museus, dois museus de arte, decidiram focar-se nos protestos. “140 caracteres” e “Objectos Desobedientes” são os títulos de duas exposições. A primeira encerrou ontem no Museu de Arte Moderna de São Paulo, a segunda abre no próximo verão no Victoria & Albert Museum em Londres.


Exposição "140 caracteres" no Museu de Arte Moderna de São Paulo (Foto: Karina Bacci)
“140 caracteres” juntou 140 obras da colecção do museu com o objectivo de permitir às pessoas reflectir sobre os protestos que tiveram recentemente lugar no Brasil e a mobilização política através das redes sociais (sendo 140 o limite de caracteres a ser usados num tweet no Twitter). Vejo isto como o resultado do desejo de ser relevante, um desejo que resultou num olhar novo e imaginativo através da colecção permanente do museu, permitindo uma nova leitura dos objectos em si num contexto específico, actual.


Pedra insuflável gigante criada para ser atirada aos polícias e que fará parte da exposição "Disobedient Objects" no V&A. (Imagem retirada de De Zeen magazine) 
“Objectos Desobedientes” abre no V&A a 26 de Julho. Um dos co-curadores, Gavin Grindon, explicou que “As culturas dos movimentos sociais não são normalmente coleccionadas pelos museus, excepto gravuras e cartazes. Queríamos levantar a questão da ausência de outros tipos de objectos desobedientes no museu.”  A exposição irá juntar exemplos de arte e design que foram desenvolvidos por contra-culturas para comunicar mensagens políticas ou para facilitar os protestos. A abordagem aqui é diferente daquela no museu de São Paulo. Neste caso, foi identificada uma lacuna na colecção e o objectivo é preenchê-la, não apenas porque isto faz sentido no âmbito da política de gestão de colecções, mas também porque é a natureza da política de gestão de colecções que torna o museu relevante – ou não – para a actual sociedade. Não deveria ser este o objectivo de qualquer museu?

“140 caracteres” e “Objectos Desobedientes” são mais do que dois títulos que contrariam a tendência para títulos chatos, descritivos, pouco imaginativos das exposições propostas ao público. São duas exposições que afirmam aquele que é realmente o papel dos museus. São as pessoas por trás delas, artistas e curadores, que, juntamente com outras – escritores, músicos, performers, ensaístas, filósofos – nos desafiam, nos intrigam, nos confrontam e nos confortam, fazem-nos pensar no tipo de cidadãos que desejamos ser, no tipo de cidadãos que podemos ainda ser, especialmente quando as paredes parecem muito altas e a batalha totalmente sem esperança, talvez mesmo perdida.


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Monday, 3 March 2014

Ser "apenas"


É curioso que a primeira coisa que li sobre os protestos na Venezuela não foi uma notícia num jornal, mas a carta aberta da pianista Gabriela Montero ao Gustavo Dudamel. Nessa carta dizia:

“Mas não posso permanecer em silêncio por mais tempo. Ontem, quando dezenas de milhares de manifestantes pacíficos marcharam em toda a Venezuela para expressar a sua frustração, dor e desespero perante o total colapso cívico, moral, físico, económico e humano da Venezuela, e enquanto as milícias armadas pelo governo, a Guarda Nacional e a policia atacavam, matavam, feriam, prendiam e faziam desaparecer muitas vítimas inocentes, Gustavo e Christian Vazquez dirigiam a orquestra num concerto que celebrava o Dia da Juventude e os 39 anos da criação do El Sistema. Estavam a fazer um CONCERTO enquanto o seu povo estava a ser massacrado.”

Foi esta carta que me fez procurar mais notícias sobre o que se estava a passar nesse país. Alguns dias mais tarde, um outro músico venezuelano, Carlos Izcaray, ex-aluno no El Sistema, fazia um apelo online:

“Através deste meio, gostaria de vos chamar todos para nos juntarmos e, com instrumentos na mão, repudiarmos e demonstrarmos fortemente contra a excessiva violência e as violações dos direitos humanos que estão neste momento a ser perpetuados pelo governo venezuelano contra os seus próprios cidadãos. Prestemos a nossa homenagem de apoio àqueles que deram a sua vida em defesa da nossa Liberdade. Este direito básico de todas as pessoas livres foi agora inequivocamente sequestrado por um governo despótico e tirânico, que deseja governar através do medo, da intimidação e da violência.” 

Estes dois músicos escolheram viver fora da Venezuela, provavelmente por razões profissionais e talvez também políticas. Gustavo Dudamel vive e trabalha também no estrangeiro, mas mantém a sua ligação ao El Sistema e através deste – ou por causa deste – ao governo do seu país. Assim, li as declarações apaixonadas de Montero e Izcaray considerando que a posição a partir da qual exprimiam as suas opiniões não precisava de ser tão diplomática como a de Dudamel, que deve considerar, para além das suas próprias opiniões, o contexto em que actua o El Sistema e a sua dependência do governo venezuelano. Devo confessar, no entanto, que não estava preparada para a sua decepcionante afirmação “diplomática” ao LA Times:

“Sou músico. Se fosse político, estaria a agir pelo meu próprio interesse. Mas sou artista e um artista deve agir por todos.”

Dudamel espera (e aceita) que os políticos ajam pelo seu próprio interesse? E os artistas por ‘todos’? Como é que agem por todos? Quem são estes ‘todos’? Os políticos que agem pelo seu próprio interesse estão incluídos?

Alguns dias mais tarde, surgiu uma outra controvérsia, desta vez em Nova Iorque, quando artistas, activistas, professores e estudantes associados ao Occupy Museums, GULF Labor e outros grupos fizeram um protesto no Guggenheim Museum a propósito das condições laborais em Saadiyat Island nos Emirados Árabes Unidos, onde o Guggenheim está a construir o seu franchise. Duas coisas se destacaram para mim enquanto acompanhava o desenvolvimento desta notícia. Primeiro, o facto do Guggenheim não ter escondido a cabeça na areia, permanecendo silencioso e esperando que tudo acalmasse. Ao contrário do que é prática comum aqui entre políticos e instituições culturais, que se comportam como se fossem intocáveis e imunes à crítica dos cidadãos, o director do Guggenheim, Richard Armstrong, emitiu os seus comunicados, tornou clara a posição da instituição e não evitou nenhuma pergunta (mais leituras no final deste post). As instituições culturais não estão (não deviam estar) colocadas algures acima dos cidadãos comuns, fingindo estar a operar num vácuo confortável e protector, livres de responsabilidades sociais.

A outra coisa que se destacou para mim nesta controvérsia foi descobrir que a arquitecta Zaha Hadid – que desenhou um dos estádios no Qatar – sente que “não é da minha responsabilidade como arquitecta olhar para isto [“isto” sendo a morte de centenas de trabalhadores imigrantes no local de construção]… Não posso fazer nada porque não tenho o poder para fazer nada.” (ler aqui)

Pensei na Ucrânia. Em Dezembro passado, o meu amigo e colega Ihor Poshyvailo escrevia neste blog: “(…)o ICOM Ucrânia e uma série de museus ucranianos emitiam declarações públicas condenando a inesperada repressão de manifestantes pacíficos e a retirada do pacto de associação à União Europeia. O Conselho de Directores dos Museus de Lviv coordenou as declarações de protesto de vários museus de Lviv. Um dos mais antigos museus etnográficos da Europa Oriental-Central, o Museu de Etnografia e Artesanato de Lviv, exibiu um estandarte na sua varanda que dizia “Apoiamos as exigências do Euromaidan”. Em Kiev, uma dúzia de museus fizeram declarações públicas, incluindo o Museu da História de Kiev que é gerido pela Câmara e tutelado pelo seu Presidente, cuja sede foi ocupada pelos manifestantes. O Museu-Memorial Pavlo Tychyna (perto de Maidan) abriu as suas portas aos manifestantes e ofereceu-lhes chá, um espaço para descansarem e programas culturais. (…)”

Provavelmente, nunca vamos saber os nomes das pessoas que tomaram estas decisões e agiram naqueles momentos. Pessoas que não são “apenas um músico” ou “apenas uma arquitecta”, pessoas que não são “apenas funcionários públicos”, mas que são, em primeiro lugar e sobretudo, cidadãos. Foram cidadãos de um estado autoritário, que arriscaram os seus trabalhos, a sua segurança pessoal, talvez as suas vidas, talvez o financiamento público se as coisas tivessem o resultado contrário – mas provavelmente não os honorários de Zaha Hadid. Foram cidadãos “anónimos” que sentiram que tinham o poder e a responsabilidade de fazer algo. E fizeram-no. Fizeram o que podiam.

Dudamel contradiz-se de alguma forma quando afirma ao LA Times “(…) no El Sistema criamos não apenas músicos mas cidadãos melhores”. Se é isto que o El Sistema faz, então as pessoas mais velhas deveriam mostrar a esses jovens cidadãos que, quando chega o momento, não se devem esconder por trás da afirmação “Sou apenas um músico”.


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Mais leituras:


Sistema in the crossfire, by Jonathan Andrew Govias





Monday, 2 December 2013

Blogger convidado: "Construindo memórias", por Ricardo Brodsky (Chile)

Ricardo Brodsky, Director do Museo de la Memoria y los Derechos Humanos em Santiago de Chile, abriu a conferência da Museums Association em Liverpool no passado dia 11 de Novembro. A fotografia que o museu colocou no Facebook fez-me logo sentir pena de não ter podido assistir ao seu discurso. Mas contactei o Ricardo e ele teve a amabilidade de me enviar o seu texto e de autorizar a sua publicação neste blog. Apresentamos aqui uma versão editada, mais curta, mas existe um link no fim para os interessados em ler o texto na íntegra. mv


Este é o nosso 11 de Setembro, o início da história à qual irei referir-me e que inspirou o Museo de la Memoria y los Derechos Humanos (MMDH) no Chile.

1. Memória

A memória não é um exercício nostálgico. A memória é a nossa identidade, o que somos. Poderíamos dizer que a memória habita em nós de tal forma que define as nossas ideias sobre o presente, os nossos valores e a nossa percepção do futuro.

No seu texto La Muralla y los Libros, Jorge Luís Borges fala do Emperador Shih Huang Ti, que construiu a muralha da China e ordenou, ao mesmo tempo, que todos os livros produzidos antes dele fossem queimados. Com a muralha pretendia proteger o seu país dos inimigos externos e queimou os livros porque os seus opositores recorriam a eles quando queriam louvar os seus antepassados. O mesmo foi testemunhado nos anos de Pinochet, quando as instituições do país foram destruídas, desapareceram pessoas, foram queimados livros e as pessoas ligadas à cultura e história popular foram banidas porque, de alguma forma, representavam todas uma epopeia que tinha que ser abolida.

Uso a palavra ‘abolida’ e não a palavra ‘esquecida’ de propósito. O género de memória de que estamos a falar não equivale à capacidade de armazenamento de um disco rígido num computador, onde tudo é registado sem hierarquia. O oposto à memória não é o esquecimento mas a abolição, a eliminação. A memória funciona com eventos exemplares, com o que nos permite aprender lições, dar sentido à experiência vivida. A memória é, por isso, um passo mais alto, além do trauma e dos sentimentos de desespero, solidão e depressão que a memória pode causar. A memória é o que permite à vida continuar, com a esperança de voltarmos atrás, de voltarmos a nos apoiar nos nossos próprios pés. Com uma narração sobre o nosso passado e uma aposta sobre o nosso futuro.

2. Ligações

No MMDH trabalhamos com material que é extremamente complexo e sensível: verdade, justiça, vitimização, memória, reconciliação, reparação. Todas estas são ideias que nos questionam permanentemente e que nos obrigam, repetidamente, a reflectir sobre os conceitos que são a base do nosso trabalho. É impossível, no entanto, perceber a nossa instituição se não percebermos o processo do qual resultou, assim como as necessidades sociais e políticas que é suposto serem consideradas.

Em 11 de Setembro de 1973 começou uma das experiências políticas mais traumáticas do Chile. As forças armadas, lideradas por uma junta militar de comandantes-em-chefe, levantou as armas contra o Governo de Unidade Popular de Salvador Allende, instalando uma ditadura cruel que durou 17 anos, suprimindo os direitos legais e cometendo graves violações contra os direitos humanos, que resultaram na morte e desaparecimento de mais de três mil pessoas e a prisão política e tortura de mais quarenta mil, assim como o exílio de quase um milhão de Chilenos.  

Dezassete anos mais tarde, no seguimento da vitória da oposição num referendo realizado em 1988, com o objectivo de prolongar o governação de Pinochet, foi iniciada uma transição complexa e difícil para a democracia, que incluiu enfrentar as dívidas espinhosas deixadas pela ditadura, não apenas na esfera social e política, mas especialmente na área da recomposição moral da nossa sociedade, ou seja, na esfera da verdade, da justiça e dos direitos humanos. As políticas de direitos humanos do governo democrático têm-se centrado em quatro pilares ou exigências básicos: verdade, justiça, reparação e memória.

Museo de la Memoria y los Derechos Humanos (Foto: MMDH)
3. Verdade

Quando a democracia foi recuperada, o primeiro esforço na área dos direitos humanos no Chile foi no sentido de procurar estabelecer a verdade sobre as mais sérias violações dos direitos humanos cometidas durante a ditadura de Pinochet. Foram estabelecidas duas comissões, envolvendo pessoas com altas credenciais, que afirmaram que as violações dos direitos humanos cometidas por agentes do estado eram massivas, sistemáticas e tinham sido aprovadas ao mais alto nível do governo de então. Esta afirmação, apoiada pela existência de provas e testemunhos irrefutáveis, permitiu ao país saber a verdade sobre a existência de mais de 3.000 detidos-desaparecidos e executados e permitiu ainda dar um segundo passo muito relevante, que foi a abertura da possibilidade de estabelecer políticas de reparação para as vítimas e as suas famílias. Em 2003, a segunda comissão, criada para investigar os casos de pessoas que foram presos políticos e que tinham sido torturadas, reconheceu a existência de 38.254 vítimas de tortura.  

4. Justiça

A luta pela justicça no processo de transição tem sido o aspecto mais difícil e polémico. Desde o fim do regime militar e até 1998, a investigação judicial teve, em geral, escassos progressos e era normal os tribunais aplicarem um decreto de amnistia passado pela ditadura militar. Em 1998, com a detenção de Pinochet em Londres, ordenada pelo juiz espanhol Baltazar Garzón, foram criadas novas condições, que produziram, lentamente mas gradualmente, alguns progressos nas investigações judiciais, que permitiram identificar aqueles directamente responsáveis por violações dos direitos humanos. Hoje em dia, existem 1.426 casos abertos, dos quais 1.402 lidam com desaparecimentos ou assassinatos. No entanto, apenas 66 agentes servem penas de prisão, entre eles algumas figuras-chave da DINA (Departamento de Inteligência Nacional) e da CNI (Agência de Inteligência Nacional); 173 agentes foram condenados mas não estão na prisão, por várias razões, e existem ainda 528 agentes cuja acusação foi concluída, mas que ainda não tiveram uma sentença definitiva. 

5. Construindo memória

Neste contexto, o governo de Michelle Bachelet criou em 2010 o Museo de la Memoria y los Derechos Humanos, como um projecto de reparação moral ou simbólica para as vítimas da ditadura e como um projecto educativo, de forma que as novas gerações possam entender o valor do respeito pelos direitos humanos.

Museo de la Memoria y los Derechos Humanos

O MMDH, onde a sociedade chilena cumpre simbolicamente o seu dever de memória, olha directamente para o seu passado e dá resposta ao direito de memória para as vítimas da ditadura. As suas origens podem ser encontradas nas recomendações do relatório de verdade de 1991 e na afirmação em 2004 da UNESCO que os arquivos de varias organizações de direitos humanos do Chile fazem parte da memória do mundo. Além disto, existe uma exigência por parte das organizações de familiares e vítimas de abusos dos direitos humanos. O museu dispõe da maior colecção de documentos, fotografias, testemunhos e filmes sobre a ditadura no país e expõe-los ao público, procurando criar empatia pelas vítimas e fazer reviver os valores e lições das experiências de abusos dos direitos humanos. Os grupos de vítimas estão activamente envolvidos na vida do museu e sentem-se incluídos.

A missão do MMDH é “dar a conhecer as violações sistemáticas dos direitos humanos em nome do estado chileno entre 1973 e 1990, de forma a – reflectindo eticamente sobre a memória, a solidariedade e a importância dos direitos humanos – a vontade da nação seja reforçada, para que não se repitam nunca mais repetidas acções que afectam a dignidade humana”.

Museo de la Memoria e los Derechos Humanos (Foto: MMDH)
Qual o lugar deste museu na sociedade chilena hoje?

Pierre Nora disse que os Lugares de Memória são construções que procuram “fazer parar o tempo, bloquear o trabalho do esquecimento, fixar um estado das coisas, imortalizar a morte, materializar o que é imaterial de forma a cativar o maior número de sentidos no menor número de sinais”. Neste sentido, o MMDH tem como missão recuperar e preservar os vestígios desse passado traumático, dar testemunhos do sofrimento, de forma que o conhecimento do público sobre o que se passou possa quebrar o círculo de silêncio e impunidade e dar ênfase à necessidade de prevenir que algo assim volte a acontecer. Noutras palavras, o Museo de la Memoria, como expressão de uma política pública de reparações, é o principal gesto do Estado de reparação moral para as vítimas da ditadura: é aqui que a história ou a biografia de cada uma das vitimas é encontrada ou construída e onde a sua dignidade, que lhes foi arrancada, lhes é devolvida. O MMDH tornou-se numa referência para o país e a região, estando a ser construídos projectos similares em países como Peru, Brasil, Argentina e Colômbia.

Dito isto, devo também dizer que este é um projecto localizado na terra das controvérsias. Cada museu que lida com histórias traumáticas sabe da tensão entre história e memória, entre a explicação dos acontecimentos organizados cronologicamente e a experiência subjectiva das memórias apoiadas por testemunhos. Os museus de memória enfrentam, precisamente, o desafio de conjugar esta tensão, de forma que os testemunhos possam ser exemplares e representativos, transcendendo a mera experiência pessoal ou aquela dos grupos directamente afectados. Apenas resolvendo esta tensão de uma forma positiva pode a mensagem ser universal e ligar as exigências para verdade e justiça com um imaginário democrático mais amplo.

De acordo com alguns, a museografia do MMDH coincide com o que Pierre Nora chama de transformação da memória em história, ou seja, “depende completamente do que é mais preciso nos rastros deixados, do que é mais natural nos destroços, do que é mais concreto nos registos, o mais visível na imagem”. Certamente, os visitantes enfrentam os vestígios do passado, as caras dos desaparecidos, o bombardeamento de La Moneda, os testemunhos dos que foram torturados, a angústia das famílias. São forçados a viver uma experiência de apreensão, de compaixão, empatia e emoção. Mas encontram também os documentos, os ficheiros legais, os decretos que levam a uma experiência de confronto, de análise, de comparação, de visualização do contexto em que a violência teve lugar. Neste sentido, o museu propõem uma narrativa capaz de transmitir sentido, começando por um sentimento de empatia para com as vítimas.

A criação do MMDH gerou uma grande controvérsia no país desde o primeiro dia. Estes são precisamente os tópicos desta conferência. Como lidamos com questões sensíveis e controversas numa instituição que deve apresentar uma história que é ainda viva na sociedade chilena, uma vez que muitos dos seus actores ocupam ainda lugares públicos e as famílias chilenas vêem ou sofrem ainda as consequências desse período?

As atitudes críticas perante o Museu de la Memoria ou negam a existência de violações dos direitos humanos ou as justificam, invocando a necessidade de travar uma guerra contra uma ameaça representada por partidos marxistas. Há uma crítica mais ligeira da parte de outros grupos, acusando o museu de distorcer a história mostrando apenas um aspecto do período da ditadura (as violações dos direitos humanos) e fragmentando o tempo, não permitindo, assim, às pessoas visualizarem as causas da ditadura militar. Resumindo, os críticos apontam para a parcialidade do museu quando inclui uma visão desse período, aquela das vítimas. Isto significaria que a narrativa não é tão objectiva quanto devia e, sobretudo, que não nos permite saber porque é que teve lugar a crise política de 1973, culminando no golpe de estado e nas violações dos direitos humanos.

Instalação de Alfredo Jaar no Museo de la Memoria y los Derechos Humanos (Foto: Cristóbal Palma para o jornal El País) 
Para nós, a missão do museu é sensibilizar o público em relação à gravidade das violações dos direitos humanos no período Pinochet, e esta sensibilização não tem um propósito político ou eleitoral, mas, sim, um propósito moral, ou seja, transformar o respeito pelos direitos humanos num imperativo categórico na nossa coexistência, independentemente do contexto em que tem lugar.

O Museu não pode fingir estabelecer uma leitura inequívoca do passado. Pelo contrário, a sua perspectiva é abrir múltiplas possibilidades de leitura. É importante dizer que o MMDH é entendido como um museu vivo, aberto à reinterpretação da experiência e, por isso, fornece um espaço importante para a arte contemporânea. Prova disto é a presença de obras de arte na exposição permanente, tal como o poema de Jorge Tacla escrito por Victor Jara na prisão e o trabalho de Alfredo Jaar “A geometria da consciência”, que sugere que o diálogo é um tributo às vítimas.


Leiam o discurso na íntegra aqui.

Ricardo Brodsky Baudet é Director do Museo de la Memoria y los Derechos Humanos em Chile desde Maio 2011. Desenvolveu um projecto no Museo de la Memoria como um espaço de reflexão e de educação pública, dando mais importância à colecção e à exposição permanente e uma posição proeminente às artes visuais e vários eventos culturais relacionados com a memória e os direitos humanos. Foi Secretário-Geral da Federação de Estudantes no tempo da ditadura. Secretário Executivo da Fundação “Chile 21” em 1992, da Fundação “Proyectamérica” em 2006 e fundador e director da Fundação para as Artes Visuais de Santiago; organizador da primeira Trienal do Chile (2009). Foi consultor para a política cultural do Conselho Nacional para a Cultura e as Artes, Chile (2004-2007). Ocupou vários lugares no governo entre 1993 e 2010. Chefe da Divisão de coordenação interdepartamental da Secretaria-Geral do Ministério da Presidência (2007-2010), Embaixador do Chile na Bélgica e no Luxemburgo (2000-2004).