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Saturday, 9 May 2020

Leituras da quarentena #2 e uma primeira versão da minha lista de desejos

Foto: Maria Vlachou

Desde o início do nosso confinamento, tive a oportunidade de ler muitos artigos instigantes e de participar em debates muito dinâmicos. Existe uma preocupação, frequentemente expressa, em relação à oportunidade que esta crise apresenta para repensarmos as nossas práticas, redefinirmos os nossos valores e sistemas de valorização do nosso trabalho, desenvolvermos relações de proximidade, respeito e solidariedade, tanto dentro das nossas organizações como com as nossas comunidades.

Vai acontecer? Conseguiremos desafiar as habituais (e conhecidas) barreiras e promover uma maneira nova e necessária de ser e agir? Seremos capazes de não propriamente ganhar a guerra (de mudar o mundo), mas pelo menos algumas batalhas decisivas? Franco “Bifo” Berardi avisou-nos em Março que, quando a quarentena terminar, os humanos “terão a oportunidade de reescrever as regras e quebrar qualquer automatismo. Mas é bom saber que isso não acontecerá pacificamente. Não podemos prever a forma que o conflito assumirá, mas devemos começar a imaginá-lo. Quem imaginar primeiro, ganha – é uma das leis universais da história.”

Sunday, 23 February 2020

A beleza há-de vencer



“Hoje o nosso tempo requer leveza, humor, encantamento e poesia. Não é mais a luta do bem contra o mal, representada por Guerra nas Estrelas, mas a utopia da vida bela. Descobrir o instante de beleza que a poesia nos dá, a inspiração que nos lembra que estamos na vida não só para trabalhar, lutar, brigar, mas também para amar, sorrir, dançar, abraçar, sonhar. Vivemos um tempo em que o mais revolucionário é ser poeta.”

Monday, 3 February 2020

Onde estão as oportunidades? A propósito da nova estratégia do Arts Council England

Imagem retirada do website do Arts Council England.

Há uns dias, li no Guardian um artigo sobre o jovem violoncelista Sheku Kanneh-Mason. Kanneh-Mason tem 20 anos, ficou conhecido quando tocou no casamento de Harry e Meghan e, há alguns dias, tornou-se no primeiro violoncelista a chegar ao top 10 de música no Reino Unido. Ele sem dúvida (e felizmente) teve as oportunidades certas, assim como cada jovem deveria ter. Aproveitou-as e fez maravilhas com elas.

Kanneh-Mason está consciente da importância de ter a oportunidade, de ter acesso. "Eu beneficiei de muita educação musical. Pensar que muitas pessoas não terão nem a mais pequena hipótese de algo com o mesmo nível é uma vergonha. A diversidade tem de começar muito antes das pessoas irem às audições. Se a educação não tiver investimento e não for apoiada, nada mudará.”

Saturday, 22 June 2019

Primeiros pensamentos sobre o Plano Nacional das Artes



Houve dois momentos para uma primeira apreciação do Plano Nacional das Artes (PNA): a sua apresentação pública, no passado dia 18 de Junho e a leitura do documento. Começarei por partilhar os meus pensamentos sobre o primeiro.

Sessão esgotada nos estúdios Victor Córdon para ouvir a apresentação do PNA. Muitos colegas, jornalistas, pessoas que representavam instituições privadas que apoiam o sector cultural e as artes. Sentia-se a boa disposição e a expectativa, misturada com alguma desconfiança (“Será desta?). Penso que aquele momento de encontro e tudo o que se sentia no ar foi um bom sinal de que “o sector” é constituído por profissionais que continuam interessados e prontos para se envolver num esforço comum que possa valorizar, apoiar e fortalecer o seu trabalho e contributo para a sociedade.

Sunday, 2 September 2018

Quem é bem-vindo à sua casa e à sua mesa?


À Lambrina e ao Sam, à Eleni e ao Nikos
Aos bons amigos e às boas discussões



Em Junho passado, Sarah Huckabee Sanders, a secretária de imprensa da Casa Branca, foi convidada a sair do restaurante Red Hen. O pedido foi da dona do restaurante.

Em meados de Agosto, a notícia que Marine Le Pen, ex-candidata à presidência de França e líder do partido político Rassemblement Nacional, tinha sido convidada para participar no Web Summit em Lisboa provocou vários protestos públicos. O convite acabou por ser retirado.

Ambos os incidentes levantaram questões relativas à liberdade de expressão; se é possível combater visões políticas extremistas e abordar as raízes da subida da extrema-direita proibindo ou ignorando certos pontos de vista; e se, ao excluirmos algumas pessoas, não nos tornamos como elas.

Saturday, 14 July 2018

"Somente brancos": entraria?



Há dois incidentes recentes que me fizeram pensar. São lições aprendidas e têm influenciado a minha maneira de avaliar situações e de tomar decisões profissionais e pessoais.

Monday, 11 June 2018

Discutindo a descolonização dos museus em Portugal

Foto: Maria Vlachou

Adoro museus. Adoro-os pelo que são; adoro-os pelo que não são, mas podem ser; adoro-os pelo seu potencial. Adoro-os especialmente devido ao trabalho desenvolvido por vários colegas em todo o mundo para que os museus se adaptem a novas realidades, permaneçam ou se tornem relevantes para as pessoas e até se reinventem. Ultimamente, adoro-os particularmente pelas controvérsias que causam ou enfrentam, empurrando o nosso pensamento e prática para a frente.

Wednesday, 25 April 2018

O Museu das (minhas) Descobertas

Exposição "Retornar - Traços de Memória", Padrão dos Descobrimentos, 2015 (Foto: Maria Vlahou)

Sou portuguesa por adopção. Quando cheguei a Portugal, em 1995, a única coisa que sabia sobre a história do país tinha a ver com os Descobrimentos (dos caminhos marítimos e das especiarias, ensinada no meu país no 7º ou 8º ano). O resto fui/vou “descobrindo” ao longo dos anos (mesmo no que diz respeito aos Descobrimentos e para além dos caminhos marítimos e das especiarias). A história que me ensinaram na escola era, como é habitual, apenas uma parte.

Thursday, 15 February 2018

Libertemos o Mark Deputter

Imagem retirada do jornal Público. Foto: Nuno Ferreira Santos

Foi um bom exercício para todos nós a conversa com a Vereadora da Cultura, Catarina Vaz Pinto (CVP), ontem no Teatro Maria Matos (MM). Como tem sido um bom exercício toda a conversa gerada após o anúncio da sua decisão de arrendar o MM e de o tornar num espaço para o grande público, que possa ser rentável.

Monday, 29 January 2018

Ainda sobre o Maria Matos: o etos de um teatro

"Have a Good Day!", de Vaiva Grainytė, Lina Lapelytė, Rugilė Barzdžiukaitė (Foto: Simonas Svitra). Teatro Maria Matos, 2017

Etos: (grego éthos-ouscostumehábito), substantivo masculino
Conjunto
 de características ou valores de determinado grupo ou movimento.
Fonte: Dicionário Priberam

Anne Pasternak assumiu a direcção do Brooklyn Museum em Nova Iorque em 2015, sucedendo a Arnold L. Lehman, que tinha ocupado o lugar durante 18 anos. A Anne impressionou-me pela positiva na sua primeira entrevista ao New York Times quando afirmou: “I am excited to build on that ethos of welcome” (numa tradução livre minha: Estou entusiasmada por poder construir sobre esse etos de bom acolhimento).

Na altura da nomeação de Pasternak houve várias vozes a criticar a escolha de alguém que nunca tinha trabalhado num museu. No entanto, a mim bastou-me esta frase, mesmo-mesmo no final do artigo no New York Times, para pensar: Ela percebeu! Ela percebeu “quem” é o museu para o qual vai trabalhar.

Sunday, 28 January 2018

TS Elliot, um terrível artista hip-hop

Uma imagem do projecto Contratempo no programa do Isto é PARTIS.

O jornal inglês The Guardian deu recentemente a notícia de uma crítica da poetisa Rebecca Watts, intitulada “O culto do nobre amador”, ao trabalho de um grupo de jovens poetisas que Watts considera que constitui "O óbvio denegrir do envolvimento intelectual e a rejeição do ofício”. A crítica gerou uma discussão muito interessante, e bem-vinda, em relação ao valor da poesia erudita e da poesia popular, sendo que a resposta de Don Paterson (poeta escocês, vencedor do prémio TS Elliot e editor de duas das jovens poetisas) foi cativante: "Não precisa de gostar do que as pessoas fazem, mas penso que deve avaliá-lo em função das suas próprias ambições. Caso contrário, é como dizer que TS Elliot foi um terrível artista de hip-hop. É verdade, e então?”.

Saturday, 13 January 2018

O que o Maria Matos significa para mim (ou: porque é que assinei o abaixo assinado)


No dia 17 de Dezembro de 2017, o jornal Público publicava uma entrevista da Vereadora da Cultura de Lisboa, Catarina Vaz Pinto, onde se anunciava que “o [Teatro] Maria Matos (MM) terá um modelo de programação bastante diferente, com carreiras mais longas e uma maior preocupação de captação de público, para ser rentável”. A notícia foi, no mínimo, surpreendente para mim. Diria mais, lembro-me que, ao ler, senti uma espécie de dor física.

Saturday, 4 February 2017

À procura de terreno arenoso


“Menores de 30 têm acesso gratuito aos museus”, lê-se nos jornais portugueses. A medida foi ontem votada no parlamento.

Alguém me explica qual é a lógica dos 30 anos?”, questiona uma colega brasileira.

“Será para estimular jovens famílias, tipo casais com filhos pequenos?”, responde outra colega. “Será porque se constatou que o desemprego é maior até aos 30 anos?”

Valerá a pena procurarmos a lógica? Terá havido lógica? Será que a medida se baseou em qualquer relatório de gestão? Será que se baseou em algum estudo de públicos? Os profissionais do sector foram consultados? Existem objectivos concretos que daqui a um ou dois anos poderão ser avaliados?

Sunday, 30 October 2016

MAAT, gerador de expectativas

Imagem retirada do website do MAAT.
Continuo admirada com a forma como o recém-inaugurado edifício do MAAT – Museu de Arte, Arquitectura e Tecnologia, da autoria de Amanda Levete, se integra na paisagem. Quando me aproximo daquela zona ou quando atravesso a ponte, espero sempre ver um edifício enorme que se sobreponha ou que esconda a Central Tejo. Mas não...... A Central Tejo continua majestosa, sendo que o novo edifício surge ao seu lado como uma nota suave e fluída.
O meu primeiro contacto com o novo museu foi em Junho. Na verdade, tratou-se da reabertura do “velho” museu (Museu da Electricidade na Central Tejo), depois das obras de renovação, e foi lançada a marca MAAT. Acompanhei depois a campanha para a inauguração do novo edifício e li algumas entrevistas do director do museu, Pedro Gadanho, tendo, assim, formado uma primeira opinião / expectativa. As várias críticas que surgiram com a inauguração do edifício e algumas conversas com colegas trouxeram-me mais “food for thought”. A minha primeira visita ao novo edifício também.

Monday, 3 October 2016

Justin Bieber e o combate ao extremismo islâmico

O Presidente iraniano, Hassan Rouhani, e o Primeiro-Ministro italiano, Matteo Renzi (Foto: Alessandro Bianchi / Reuters, imagem retirada do jornal The Atlantic)
Um recente artigo do NPR, intitulado Italy's 'Cultural Allowance' For Teens Aims To Educate, Counter Extremism (O subsídio de cultura para os adolescentes na Itália pretende educar, combater o extremismo) demonstra a confusão que existe, a vários níveis e meios, em relação ao acesso à cultura e à cultura como panaceia para vários males deste mundo.

O título não é um exagero do jornal. Foi o próprio Primeiro-Ministro italiano que, ao anunciar este subsídio de cultura (€500 para cada jovem com 18 anos gastar em produtos culturais), pouco depois dos ataques terroristas em Paris, em Novembro 2015, afirmou: “Destroem estátuas, nós protegemo-las. Queimam livros, somos o país das bibliotecas. Concebem o terror, respondemos com cultura."

Sunday, 25 September 2016

O impacto tem nome: pode ser Telmo ou Rafael ou Gustavo...

Telmo Martins, membro da Orquestra Geração (Foto: Maria Vlachou)

Há uns anos, vi o documentário Waste Land (Lixo Extraordinário)
. Era sobre o trabalho do artista plástico brasileiro Vic Moniz com os catadores de lixo no maior aterro do mundo, o Jardim Gramacho, na periferia do Rio de Janeiro. Moniz disse que queria mudar a vida de um grupo de pessoas com os mesmos materiais com que elas lidam todos os dias. Juntos, usaram lixo para criar grandes retratos dos próprios catadores, que foram depois vendidos em leilão e o dinheiro distribuído entre os catadores. Os trabalhos foram apresentados em exposições em vários museus de arte contemporânea.

Sunday, 24 July 2016

Gerir museus

Imagem retirada do Facebook do Museu Nacional de Arte Antiga

A reclamação de um novo estatuto jurídico, de um estatuto especial, por parte do Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA) tem resultado num debate muito saudável no meio dos museus, sobretudo (e infelizmente) depois do anúncio do Ministro da Cultura que este estatuto irá mesmo ser atribuído. Independentemente das críticas, positivas ou negativas, que temos a fazer sobre este caso e sobre este processo, não há dúvida que devemos este debate, muito necessário, ao MNAA, ao seu director, António Filipe Pimentel, e a toda a equipa do museu*.

Wednesday, 22 June 2016

Reflexões governamentais sobre o acesso à cultura


"MAPA - O jogo da cartografia", um espectáculo da associação A PELE (imagem retirada do website do Teatro Nacional D. Maria II)

O Culture White Paper (publicado pelo Departamento de Cultura, Media e Desporto em Março 2016) define a forma como o governo britânico vai apoiar o sector cultural nos próximos anos. É o primeiro documento deste tipo em 50 anos e o segundo alguma vez publicado no Reino Unido.

O documento abre citando o primeiro-ministro britânico, David Cameron, que afirma: "Se acreditam no financiamento público da arte e da cultura, como eu apaixonadamente acredito, então devem também acreditar na igualdade de acesso, atraindo todos e acolhendo todos."

Saturday, 7 May 2016

E então?

"E então?" Uma pergunta / reacção bastante frequente no que diz respeito ao nosso sector, quer verbalmente expressa ou secretamente pensada. É uma pergunta legítima, que raramente estamos disponíveis para discutir.

Rembrandt Harmenszoon van Rijn, "Retrato de Marten Soolmans" e "Retrato de Oopjen Coppit" (imagem retirada do jornal Telerama)

Quando li pela primeira vez a notícia sobre a aquisição conjunta por parte do Louvre e do Rijksmuseum das obras de Rembrandt Retrato de Marten Soolmans e Retrato de Oopjen Coppit, por €160 milhões, não pensei propriamente "E então?", mas sim "Porquê?". Porquê estes dois quadros? Porquê todo esse dinheiro? Quando procurei entender um pouco melhor a importância dessas duas obras (qualquer que fosse a sua importância, dentro do contexto da história da arte ou qualquer outra), fui mais frequentemente confrontada com o adjectivo "raro". Os retratos são "raros", a sua exposição em público foi extremamente "rara”, etc. etc. Isto levantou ainda mais perguntas: Raros como? Porque é que devem ser vistos com mais frequência? Porque é que esses dois museus públicos fizeram um esforço tão grande (financeiro e colaborativo) para os adquirir?

Sunday, 24 May 2015

Post scriptum

Na semana de 11 de Maio, a minha caixa de email encheu-se de convites para a celebração da Noite e do Dia dos Museus. No Facebook, a intensidade não foi menor, com os museus e as suas tutelas a lembrar que todos os caminhos iam levar a um museu. Um ambiente de grande festa, uma oferta enorme em todo o país, que foi também traduzida em números: de acordo com os meios de comunicação, houve 140 actividades por ocasião da Noite Europeia dos Museus (16 de Maio) e 430 actividades no Dia Internacional dos Museus (18 de Maio), em 70 museus diferentes. A verdade é que poucas das actividades propostas responderam ao desafio do ICOM para reflectir sobre "Museus para uma sociedade sustentável" (e fiquei a pensar qual será, realmente, a percepção que os museus têm deste desafio anual e se este tem qualquer impacto nas suas práticas - no Dia dos Museus e no resto do ano). Dito isto, a riqueza e a intensidade da programação apresentada, bem como o ambiente de festa, poderiam fazer pensar que o sector dos museus em Portugal mostra sinais claros de prosperidade. Assim, a notícia a 18 de Maio que alguns funcionários de museus estavam em greve, contestando a redução do pagamento de horas extraordinárias, bem como o facto de terem sido obrigados a trabalhar numa segunda-feira (o dia destinado ao descanso semanal), foi uma espécie de nota marginal (ver reportagem da TV)