Monday, 19 April 2010

Lugares de encontro



No sábado passado assisti ao espectáculo da coreógrafa brasileira Lia Rodrigues Pororoca, apresentado na Culturgest. A Lia Rodrigues Companhia de Danças conta já com 20 anos de existência. Em 2007 iniciou um novo projecto, o Centro de Artes da Maré, na favela da Maré no Rio de Janeiro, um lugar onde não havia nenhum equipamento cultural. Foi ali que foi criado Pororoca (palavra índia para o fenómeno natural provocado pelo confronto das águas dos rios com as águas do mar) e é alí que se realiza o programa Dança para Todos, que envolve aulas gratuitas de expressão corporal e dança contemporânea. A companhia desenvolve esta sua actividade em parceria com uma ONG que tem como objectivo preparar os jovens da favela para a universidade e promover projectos de arte e educação. Os habitantes de Rio de Janeiro que vivem fora da favela fazem as suas reservas por email e são levados à favela de mini-bus, onde assistem gratuitamente aos espectáculos, juntamente com os habitantes locais. E assim, acontece um 'pororoca'… “Não estamos ali a pensar que estamos a resolver problemas e a criar um futuro melhor para todos… O que pretendemos é construir lugares ‘entre’, onde se possa encontrar, conhecer e conviver com o ‘outro’”, explicou Lia Rodrigues na conversa que se seguiu ao espectáculo.


Esta afirmação da coreógrafa brasileira lembrou-me outra, de Daniel Barenboim, um dos fundadores da West-Eastern Divan Orchestra, um projecto que reúne músicos israelitas e palestinianos, assim como músicos provenientes de outros países árabes e do Irão (um país não-árabe, mas em conflito com Israel). Dizia, então, Barenboim: “A Divan não é uma história de amor e não é uma história de paz. Sentimo-nos muito lisonjeados quando foi descrita como um projecto de paz. Não é. Não vai trazer paz, quer se toque bem quer menos bem. A Divan foi concebida como um projecto contra a ignorância. Um projecto sobre o facto que é absolutamente essencial para as pessoas que venham a conhecer o ‘outro’, que percebam o que o outro pensa e sente, sem concordar necessariamente com ele”. Um dos momentos altos na actividade da orquestra, criada em 1999, foi o concerto em Ramallah, a 21 de Agosto de 2005.

Também os museus são lugares de encontro, criam espaços para conhecer o outro e debater realidades diferentes, apesar de muitas vezes serem vistos idealmente como lugares ‘neutros’. Pensei nisso quando visitei o Holocaust Memorial Museum em Washington. Para além de apresentar uma das melhores exposições/narrativas sobre o Holocausto, o museu está muito activamente envolvido na prevenção do genocídio, através de exposições temporárias (na altura da minha visita tinham uma exposição sobre Darfur), através do projecto World is Witness, que testemunha de várias formas actos de genocídio em todo o mundo (excepto na Palestina…), através de publicações e de várias outras iniciativas.


Mais um lugar de encontro é criado num outro museu ligado ao Holocausto, o Anne Frank House Museum em Amsterdão. A exposição free2choose questiona os limites de direitos humanos considerados básicos, como o da liberdade de expressão, e confronta os visitantes com situações onde direitos fundamentais entram em conflito, ameaçando, em certos casos, a segurança de uma sociedade democrática.

Há muitos outros exemplos. O International Slavery Museum em Livrepool, os District Six Museum e Robben Island Museum na África do Sul, o recentemente inaugurado Museo de la Memoria y de los Derechos Humanos em Santiago de Chile, os National Museum of the American Indian e Japanese American National Museum nos EUA, o Te Papa na Nova Zelândia, para referir apenas alguns, poucos. Vejo-os todos eles como espaços de encontro, de celebração da diversidade, da diferença, da tolerância.

No fim do ano passado, durante o encontro anual do INTERCOM (Comité Internacional do ICOM para a Gestão) foi apresentada a declaração de Torréon, na cidade homónima de México: “O INTERCOM acredita que os museus têm a responsabilidade fundamental de, sempre que possível, serem activos na promoção da diversidade e dos direitos humanos, respeito por e igualdade para pessoas de todas as origens, crenças e proveniências”. David Fleming, presidente do INTERCOM, dizia num artigo de opinião na revista Museum Practice (nº 49, Primavera 2010) a propósito desta declaração: “Passaram os tempos em que os museus tinham que se manter afastados, fingindo que não fazem parte da sociedade que supostamente estão a servir, continuando a sua actividade esquecendo o que está à sua volta, como se a cultura que expõem não tivesse relevância política ou social. Os museus não têm que ser lugares neutros – podem ser muito mais”.

As pessoas que assistiram ao espectáculo de Lia Rodrigues na Culturgest encheram a sala onde a seguir ia ter lugar a conversa. Muita gente ficou de pé ou sentada no chão; várias perguntas tinham a ver com a presença da companhia na favela, o convívio com a comunidade local, a violência, a esperança, o futuro. Senti mais uma vez que é a criação desses lugares de encontro, juntamente com a descoberta, aquilo que dá mais sentido ao nosso trabalho. Nem os museus, nem os teatros, nem as orquestras, nem as companhias de dança são assistentes sociais, terapeutas, forças de paz, políticos, advogados, padres... Mas são (podem ser) lugares de encontro. E quando isto acontece, o momento é especial, para quem trabalhou para que o encontro tivesse lugar e para quem nele participa. É aquilo que fica, que nos completa, que nos faz crescer mais um pouco.

Monday, 12 April 2010

Convite para a festa

“Imagine que ouviu falar de uma festa que tem lugar todas as semanas, mas não foi convidado. A julgar pelo alarido na cidade, esta festa é o evento mais in, por isso, mesmo que não tenha recebido um convite formal, decide ir. Quando chega, apesar de ser muito emocionante, sente-se estranho, embaraçado. Pergunta-se se os anfitriões falam entre eles sobre o porque é que você está lá. Pergunta-se se os outros hóspedes sabem que não foi convidado. Ninguém fala consigo ou reconhece a sua presença. Finalmente, recebe o recado. Vai-se embora. Decide que nunca mais voltará. Aos poucos perde o interesse e finalmente nem sequer se lembra que a festa tem lugar todas as semanas.”
Esta é uma das minhas passagens favoritas no livro de Donna Walker-Kuhne Invitation to the Party
. A autora tem larga experiência em projectos de desenvolvimento de públicos e descreve aqui muito eloquentemente a forma como as pessoas que não estão habituadas a frequentar museus, teatros, etc., se devem sentir no meio dos ‘entendidos’ e daqueles ‘anfitriões’ que não assumem como sua função convidar pessoas novas à ‘festa’ e fazê-las sentirem-se bem-vindas.

A propósito do ‘convite’, lembrei-me de duas acções muito distintas, levadas a cabo por entidades diferentes, com objectivos diferentes e com meios diferentes. A primeira, foi a campanha da Royal Opera House em 2008, que através do jornal populista The Sun ofereceu bilhetes a preços muito baixos (atenção, não eram convites…) para a estreia do primeiro espectáculo da temporada, Don Giovanni. A campanha do The Sun foi muito grande, a cobertura editorial, com fotografias e títulos muito sugestivos, também (ler aqui
). A procura foi enorme e entre as pessoas que assistiram muitas iam à ópera e à Royal Opera House pela primeira vez. Charlotte Higgins, jornalista de cultura do jornal Guardian, falou com os responsáveis e também com o público que assistiu à estreia (ler artigo aqui). Primeiro indicador do impacto da experiência? O facto de não ter havido um êxodo durante o intervalo… Segundo indicador? As impressões dos espectadores à saída. “O cabelo da minha nuca ficou de pé”, dizia uma senhora de 50 anos. “Queria ver como era. Agora fiquei apanhado”, dizia um jovem de 25. Alguns dos bilhetes do The Sun, que tinham custado entre 7,50 e 30 libras, tinham sido aproveitados por pessoas que costumavam ir à ópera, mas que quiseram ‘iniciar’ amigos que nunca tinham ido. Falta saber quantas dessas pessoas quiseram voltar. E também quantas conseguiram voltar. Porque os preços habitualmente praticados são proibitivos para um grande número de pessoas. Campanhas como esta, que conseguem cativar a atenção e despertar a curiosidade do público, devem igualmente pensar na forma de dar continuidade à iniciativa e fidelizar os novos públicos.


A segunda acção da qual me lembrei é bastante diferente, mais discreta, mas, à sua escala, igualmente eficiente. É levada a cabo pelo Museu Vale,
um museu de arte contemporânea na cidade brasileira de Vitória. O Projecto Aprendiz, no âmbito do programa Arte Educação, envolve jovens desfavorecidos das comunidades vizinhas ao museu na montagem das exposições temporárias, proporcionando-lhes formação profissional nas áreas da carpintaria, iluminação, pintura, etc.; permitindo um contacto directo com os artistas; e despertando também alguma curiosidade e gosto pela arte ali exposta. Cria-se assim uma ligação com a comunidade local em geral e com estes jovens em particular, um sentimento de pertença por parte das pessoas envolvidas e das suas famílias e amigos e, muito provavelmente, com alguns deles, uma relação duradoura.

Estava a preparar este texto quando li na Revista L+Arte deste mês a entrevista com João Carlos Brigola, Director do IMC, que dizia: “…A missão fulcral do museu é ser um repositório de memórias e trabalhar o seu património, mas esta identidade está a ser preterida por funções de maior visibilidade comunicacional, onde o que conta é o número de visitantes, o alarido público…”. Senti mais uma vez que quando somos confrontados com as questões de visibilidade e aumento do número de visitantes, sentimos que devemos defender “a missão fulcral do museu”. São cinco as funções que um museu deve desempenhar para cumprir a sua missão e nenhuma devia ser considerada mais fulcral que as outras. São mutuamente exclusivas as funções relacionadas com a colecção e as relacionadas com o público? Porque é que nos sentimos na obrigação de defender uma em detrimento da outra? Porque é que sentimos que devemos optar por uma ou pela outra? Porque é que parecemos ficar incomodados quando são consideradas ou nos são sugeridas acções mediáticas (adjectivo que parece que consideramos sinónimo de populista e de baixa qualidade)?

João Carlos Brigola lembra ainda, no mesmo parágrafo, que no Plano Estratégico não existe nenhum objectivo que tenha a ver com o número de visitantes. Porque será? Para justificar essa opção? Aumentar o número de visitantes, diversificar o perfil dos mesmos deve ser um objectivo permanente de todos os museus. Tal como os museus não existem sem colecções, também não existem sem visitantes. Aliás, os museus existem para as pessoas (ver discussão sobre a missão no meu segundo post aqui
). Nesse sentido, o número de visitantes é um indicador de desempenho, não podemos ignorá-lo. Não pode é ser o único. Nem pode ser apresentado sem uma análise daquilo que realmente representa, sobretudo no que diz respeito ao perfil dos visitantes.

Colocar esta questão em segundo lugar significa para mim que estamos satisfeitos com o que já temos. Que estamos contentes, como se diz às vezes, por ter “poucos [visitantes] mas bons”, o que Richard Sandell chama, no seu livro Museums, Society, Inequality
, “the good enough visitor”. Será uma pena se, mais uma vez, os ‘convites para a festa’ não forem uma prioridade.

Monday, 5 April 2010

As entradas gratuitas (II) Teatros

Ainda sobre as entradas gratuitas e passando para a área das artes performativas, a situação torna-se um pouco mais complexa. Lembro que, de acordo com o artigo de Alexandra Prado Coelho no jornal Público (ler aqui), baseado em estatísticas disponibilizadas pelo OAC e o GPEARI – documento disponível no site em Planeamento / Estudos) as entradas pagas nos dois teatros nacionais (D. Maria II e São João) eram em 2008 ligeiramente superiores às entradas gratuitas, enquanto 66% dos espectadores da Companhia Nacional de Bailado assistiram a espectáculos sem pagar bilhete.

No caso dos teatros e das salas de espectáculos em geral, é importante distinguir entre entradas gratuitas (convites) e entradas livres(eventos/actividades/espectáculos para os quais não se paga bilhete). O TNDMII não forneceu dados para se poder fazer esta distinção. No entanto, no caso do TNSJ, entre os 49% dos espectadores que tinham assistido a espectáculos sem pagar bilhete, 85% tinha usufruído de um convite. Passando para a Companhia Nacional de Bailado, entre os espectadores que tinham assistido em 2008 sem pagar, 62% tinha convite para eventos com entrada paga.

Importa aqui esclarecer quem são as pessoas que têm acesso aos convites. Na grande maioria dos casos, não se trata de pessoas desfavorecidas ou de novos públicos; a oferta de convites não faz parte de uma política de marketing que lhes é dirigida. Quem tem acesso às entradas gratuitas são maioritariamente os convidados das estreias, as tutelas, os profissionais do espectáculo e uma vasta gama de colaboradores, amigos e conhecidos dos mesmos. Considerando os convites para a estreia um meio de promoção do espectáculo - através daquele que é o melhor e mais fidedigno meio de promoção, o passar a palavra -, importa reflectir sobre os convites disponibilizados para as restantes sessões de um espectáculo de carreira longa e também, e sobretudo, para espectáculos de carreira curta ou de apenas um dia. Não sendo, nestes casos, o objectivo a promoção, qual a razão de dar convites? É uma questão de hábito, o hábito das borlas. Porque pagar se, através de amigos e conhecidos, podemos arranjar bilhetes de borla? É ainda a preocupação de ter salas cheias ou compostas, um certo medo ou desconforto em admitir que um espectáculo não vende. É ainda, em alguns casos, mas que não são a maioria, a preocupação em facilitar o acesso a pessoas que não tenham meios financeiros que lhes permitam comprar bilhete.

O que acontece é que, para cada convite disponibilizado, a instituição que o concede é obrigada a pagar o IVA correspondente. São milhares de euros pagos em IVA para certas pessoas assistirem a espectáculos já subsidiados, muitos deles, pelo Estado. Ou seja, produz-se e ainda por cima paga-se para as pessoas assistirem. Pessoas essas que, na sua grande maioria, podem comprar bilhete. Faz sentido? Qual o propósito da continuação desta prática? Que objectivo ou estratégia serve? O dinheiro do IVA dos convites não poderia ser investido doutra forma? Ninguém questiona a perda de receita?

Portanto, ao contrário do que se passa nos museus, as entradas gratuitas nos teatros e salas de espectáculos não estão normalmente relacionadas à preocupação de formar novos públicos. Mas as políticas de preços em geral, sim. Na área das artes performativas debate-se frequentemente sobre a necessidade de disponibilizar bilhetes baratos para o público vir. Na maioria das instituições existem os descontos habituais (jovens, seniores, estudantes, etc.) A Culturgest foi a primeira a introduzir o bilhete de €5 para menores de 30 anos e o seu exemplo foi seguido por várias outras entidades. Não tenho conhecimento da existência de estudos de público com o objectivo de entender melhor a eficácia desta medida. No entanto, estaria muito interessada em saber se os jovens criaram o hábito de ver espectáculos graças aos bilhetes a €5; se vêem mais espectáculos do que seria de esperar porque o bilhete é barato e se veriam menos se fosse mais caro (digamos €10); em que outras actividades e eventos esses mesmos jovens investem o seu tempo e dinheiro e quanto pagam por eles; e se a medida contribuiu para o alargamento dos públicos.

Com base naquela que tem sido a minha experiência nesta área, diria que, mais uma vez, o bilhete mais barato só por si não cria novos públicos. Facilita o acesso a quem frequenta com alguma regularidade, mas não é incentivo suficiente para trazer novas pessoas aos teatros e salas de espectáculos. Tal como acontece nos museus, a formação de novos públicos é o resultado de uma direcção artística que programa assumindo este mesmo objectivo, da acção do serviço educativo e de uma estratégia de marketing que produzirá o ‘embrulho’ certo para esta oferta. As pessoas estão dispostas a pagar para assistir a espectáculos que consideram que não podem perder. Mesmo nesta altura de crise, as salas esgotadas não têm sido um fenómeno raro.

Portanto, e para concluir, diria que, por um lado, é preciso conhecer bem o mercado em que estamos a actuar e saber estabelecer o preço certo para cada produto. E o preço certo é aquilo que o público está disposto a pagar. Por outro lado, é necessário questionarmos a eficácia da gratuitidade como meio para a formação de novos públicos. Estudos de público e observações empíricas apontam para um caminho muito diferente para se atingir este fim.

Agradeço especialmente a CF e RC os seus comentários prévios sobre este texto.

Monday, 29 March 2010

As entradas gratuitas (I) Museus

No dia 7 do passado mês de Fevereiro o título do jornal Público que chamou imediatamente a minha atenção foi este: “Nos museus e teatros há cada vez mais acessos gratuitos”. O artigo era da Alexandra Prado Coelho (ler aqui) e dava conta, com base em estatísticas recentemente divulgadas pelo OAC, de que, em 2008, nos museus a percentagem de entradas gratuitas era de 62% e nos monumentos e palácios de 49%. Passando para as artes performativas, o artigo indicava que nos dois teatros nacionais (D.Maria II e São João) as entradas pagas eram ligeiramente superiores às gratuitas, enquanto a percentagem de espectadores da Companhia Nacional de Bailado que tinha assistido a espectáculos sem pagar tinha atingido os 66%.

Começando pelos museus, a questão da entrada gratuita é várias vezes levantada nos meios profissionais. A própria Ministra Gabriela Canavilhas afirmou em Janeiro que um dos seus maiores desejos é a instituição de entrada livre em todos os museus do IMC (ler aqui
) Normalmente, esta questão é colocada no contexto da democratização do acesso, por se tratar de um ‘serviço público’, ou na perspectiva do aumento do número de visitantes e da formação de novos públicos.

Qual o serviço público para o qual não se paga nada? A educação? A saúde? Porque é que não se devia pagar para se ter acesso a um museu nacional? De acordo com a nova tabela de ingressos,
o bilhete custa entre €2 (por exemplo, no Museu da Terra de Miranda) e €5 (nos grandes museus nacionais de Lisboa, Coimbra e Porto). De qualquer forma, menos que um bilhete de cinema. Existem ainda descontos e uma série de situações que dão direito a entradas livres. Porque é que o Estado havia de querer abdicar desta receita? O facto de 61% das entradas terem sido gratuitas em 2008 indica que, entre as pessoas que visitam, a maioria já tem o acesso facilitado. Os dados disponibilizados pelo OAC não entram em pormenores sobre o perfil dos visitantes, mas talvez possamos concluir que grande parte das entradas gratuitas, um número muito próximo do número de visitas nacionais, se refere a grupos escolares; enquanto o número de entradas pagas é bastante próximo do número de visitantes estrangeiros.

Se a intenção é o aumento do número de visitantes associado à formação de novos públicos, tenho sérias dúvidas que o caminho passa pela instituição de entrada gratuita. A ideia que as pessoas não visitam porque não podem pagar e visitarão se a entrada for livre é, na minha opinião, uma falsa questão. As pessoas não visitam porque não têm interesse, porque não acham os museus relevantes, porque não entendem a sua linguagem. Em alguns casos, porque nem sequer sabem que existem. Mas gastam (e gastam muito mais que €5) para participar em ou assistir a actividades e eventos que lhes parecem relevantes, interessantes, divertidos; que valem a pena o dinheiro (e tempo) investido.

A instituição de entrada livre traz, sem dúvida, um aumento no número de visitantes. No entanto, trata-se, na maioria dos casos, de pessoas com o mesmo perfil ou até das mesmas pessoas que passam a visitar mais vezes. O aumento do número de visitantes associado à formação de novos públicos passa por novas abordagens de exposição e interpretação das colecções, e, claro, por novas estratégias de comunicação. Quando o ‘produto’ é apetecível, o ‘cliente’ não hesita em pagar para o adquirir. E, tratando-se aqui de museus nacionais, preocupados, como devem ser, com as questões de acesso, podem, como já o fazem, desenhar políticas de bilheteira acessíveis para a maioria dos bolsos.

E porque normalmente nos limitamos a avaliar tudo de forma empírica, no caso das entradas livres, e em países que já as implementaram, houve estudos de avaliação da medida. Em Janeiro 2001 os museus nacionais do Reino Unido instituíram a entrada gratuita às exposições permanentes, continuando a cobrar bilhetes (e bilhetes caros) para as exposições temporárias. A abolição da entrada paga foi acompanhada por um aumento do apoio financeiro garantido pelo governo de Tony Blair (vinte anos antes, o governo de Margaret Thatcher tinha seguido o caminho inverso, introduzindo as entradas pagas nos museus nacionais, no sentido de cortar o apoio financeiro dado pelo Estado). Sete meses depois, em Julho 2001, os museus registavam um aumento médio de 62% no número de visitas. No caso concreto do Victoria & Albert Museum, o aumento chegou a atingir o 157%, um facto relacionado também com a abertura das British Galleries. Aliás, todos os museus que tinham inaugurado na altura novas alas e novos serviços registaram aumentos significativos no número de visitantes. Em 2003 foi publicado o estudo de públicos da MORI (disponível aqui) que pretendia avaliar o impacto da introdução da entrada livre. O estudo confirmou o aumento significativo do número de visitantes, mas mostrou também que a maioria eram visitas realizadas por pessoas com o mesmo perfil sócio-demográfico, ou eram então visitas repetidas, ou seja, as mesmas pessoas visitavam mais vezes. Um outro relatório da Museums Association (disponível aqui
) chegou às mesmas conclusões. A entrada livre por si não forma novos públicos.

Posso ainda dar um exemplo nacional. No tempo que trabalhei no Pavilhão do Conhecimento, faziam-se dois inquéritos aos visitantes por ano. Havia entre os inquiridos pessoas que afirmavam não ser visitantes de museus. A razão invocada era a falta de tempo ou a falta de interesse. Ao longo dos cinco anos que trabalhei nesses inquéritos, foram raras as vezes em que as pessoas responderam que não visitavam porque se pagava ou porque os bilhetes eram caros.

Considerando, portanto, que os visitantes locais, nacionais e estrangeiros não reclamam pelo facto de terem que pagar para entrar nos museus nacionais e que a política de ingressos estabelece preços relativamente baixos (sendo contemplados vários descontos, assim como entrada livre para certos grupos de visitantes e profissionais), parece-me que os museus não deveriam abdicar desta receita. Deveriam continuar a cobrar e ao mesmo tempo começar a investir mais numa melhor estratégia de exposição, interpretação e marketing, que, para além de servir os públicos actuais, contribuiria para a formação de novos públicos. A oferta tornar-se-ia mais relevante, mais acessível intelectualmente, mais ‘apetecível’. E desconfio que o público não se importaria de pagar algo para usufruir da mesma.

Monday, 22 March 2010

Visão, missão, estratégia

Alexandre Pomar teve a amabilidade de comentar sobre o post anterior e de me indicar o link de acesso ao discurso que a Ministra Gabriela Canavilhas proferiu no dia da apresentação da estratégia para os museus do século XXI (disponível aqui). Agradeço muito, não o tinha ainda lido e, realmente, aqui parece haver uma tentativa de criar um contexto para as medidas anunciadas. Na minha opinião, o texto deste discurso deveria estar integrado no documento estratégico.

Apesar desta tentativa de criar um contexto, confesso que, quando procurei associar as linhas gerais do discurso às medidas concretas da estratégia, senti que havia algumas discrepâncias, que as medidas nem sempre procuram concretizar as aspirações. Mas aquilo sobre o que gostava sobretudo de comentar é o ponto que a Ministra quis frisar:

“(…) todos estes objectivos em nada alteram o cerne fundamental da missão museológica: a preservação, estudo e enriquecimento das colecções e acervos (…)”.

E para quem é que se faz tudo isso, pergunto eu.

O museu, de acordo com a definição do ICOM, é uma instituição que adquire, conserva, estuda, expõe e interpreta testemunhos materiais do homem e do seu meio ambiente, tendo em vista o estudo, a educação e a fruição. O ICOM não define de forma alguma que as três primeiras funções são mais importantes que as duas últimas. É através destas duas últimas que se estabelece sobretudo a relação e comunicação com o público em geral. É nestas últimas que normalmente se falha.

Se perdermos de vista os destinatários finais da nossa acção, continuaremos a montar exposições que comunicam apenas com os especialistas e entendidos, colocando objectos atrás do vidro, com legendas que se limitam a identificar os mesmos usando terminologia científica, indicando apenas a data de produção e, nalguns casos, também os materiais e as dimensões. Continuaremos a escrever textos para os painéis que, para além do conservador ou comissário, poucas pessoas entenderão. Continuaremos incapazes de contar histórias às pessoas comuns, histórias que possam inspirar e maravilhar, ou simplesmente divertir (custou-me tanto ouvir a Paula Rego, na altura da abertura da Casa das Histórias, dizer que o espaço para a sua colecção não ia ser chamado ‘museu’, porque num museu não se contam histórias…). Continuaremos irrelevantes e incompreensíveis para uma grande parte da sociedade. Estou a pensar no visitante individual, nacional ou estrangeiro,
e não nos públicos-alvo da riquíssima acção dos serviços educativos dos nossos museus, que contribuem significativamente para uma interpretação intelectualmente acessível e inspiradora das colecções. Esses públicos são sobretudo pessoas, na sua grande maioria crianças, que se integram num grupo inscrito numa actividade ou visita guiada. Grande parte do público em geral não visita os museus nessas condições.
A minha definição preferida de museu é a da Museums Association (Reino Unido): “Os museus permitem às pessoas explorar colecções para se inspirarem, para aprenderem e para se divertirem. São instituições que coleccionam, salvaguardam e tornam acessíveis objectos e espécimes, que gerem em nome da sociedade”. Aqui eu pessoalmente encontro uma visão.

É preciso uma visão para se definir de seguida uma missão. Gosto particularmente da ‘declaração de missão’ (e de visão) do programa Descobrir da Fundação Calouste Gulbenkian. Considero-a clara, inspirada e inspiradora. Aqui está:

“O Descobrir – Programa Gulbenkian Educação para a Cultura oferece a públicos de todas as idades, um conjunto vasto de eventos que transforma o património artístico e natural da Fundação Calouste Gulbenkian num percurso de prazer, descoberta e pensamento criativo.


Através de abordagens e metodologias diversas de estímulo à curiosidade e à imaginação, o Programa associa experiências do mundo sensível à leitura interpretativa e crítica das várias artes.

O Descobrir acredita que a Educação para a Cultura contribui para a formação de cidadãos abertos à criação e à fruição crítica das Artes, mas também, por inerência do trabalho de mediação que desenvolve, para a formação de pessoas capazes de questionar as rotinas e de assumir uma postura de inovação na esfera da sua actividade social e profissional.”

Proponho-vos ainda a leitura da missão (que reflecte igualmente uma visão) do Serviço Educativo da Casa da Música: "O Serviço Educativo da Casa da Música propõe a entrada no universo infinito da música através de uma variedade de experiências de ouvir, fazer, criar e saber. Independentemente da sua idade ou condição, todos podem encontrar nesta Casa caminhos de descoberta, participação e plena fruição". O documento apresenta a seguir as propostas do serviço no sentido de concretizar esta missão-promessa.


Visão, missão, e no fim estratégia e medidas concretas. Para fazer sentido, a ordem deve ser esta. E quando se chega às medidas, essas devem claramente derivar de ou corresponder à visão e à missão anunciadas. Assim, temos um quadro completo e um caminho mais bem traçado.

Depois, avalia-se.

Monday, 15 March 2010

Museus e estratégias para o século XXI

É natural que a apresentação de um plano estratégico gera discussão. E o Planeamento Estratégico do IMC – Museus para o Século XXI (consultar aqui), não podia ser diferente. Foi já bastante debatido e comentado na comunicação social e em vários fóruns de profissionais de museus e de pessoas em geral que acompanham e participam na vida cultural do país.

Não quero repetir ou comentar sobre o que já foi dito. Gostaria de dar a minha opinião sobre alguns aspectos do plano que, parece-me, não foram ainda objecto de discussão.

Em primeiro lugar, gostaria de assinalar a ausência da declaração de uma visão. Qualquer plano estratégico, antes de apresentar objectivos e medidas concretas, deveria criar um contexto para os mesmos, dar a entender qual é a grande ideia e qual poderá ser a expectativa. Que lugar é que o Ministério da Cultura gostaria que os museus ocupassem na sociedade portuguesa do século XXI? Porque é que continua a investir o dinheiro dos contribuintes nos mesmos? O que é que a sociedade pode esperar e exigir? Que desafios se apresentam, a nível local, nacional e internacional? Quais os factores que irão determinar as prioridades?

Uma outra omissão que me preocupou bastante desde a primeira leitura do documento foi a total falta de referência ao(s) público(s). Se as pessoas são a raison d´être dos museus, os destinatários finais de toda a sua actividade - sejam eles profissionais de museus, investigadores, público 'iniciado' ou, e sobretudo, público 'não iniciado' -, como é possível que nunca sejam claramente e directamente mencionadas no documento estratégico? Quando o desempenho dos museus nacionais se mede sobretudo, pelo menos publicamente, pelo número de visitantes, quando em alguns museus existe uma preocupação permanente em atrair mais pessoas, em diversificar a oferta e melhorar a qualidade da mesma, é decepcionante que uma estratégia para os museus do século XXI ignore por completo um dos factores que definem, ou deveriam definir, as prioridades na sua acção. Enquanto o(s) público(s) não forem claramente identificados como um factor determinante no planeamento estratégico, os museus continuarão a ser visitados e desfrutados por uma minoria; as pessoas continuarão a pensar que os museus são, sim, importantes, mas não se dirigem a elas, não lhes são relevantes; continuará a faltar um envolvimento afectivo e intelectual, que em alguns países faz com que a sociedade (a sociedade local e não os turistas estrangeiros…) se movimenta sempre que necessário em defesa dos seus museus e não se abstém e deixa esta luta apenas aos profissionais e aos ‘entendidos’. Se não olharmos para fora, é inevitável que continuemos a olhar para o umbigo, atitude da qual a redacção do Eixo 5 é mais um sinal. Aqui, na introdução, aparece pela primeira, mas também pela última, vez a palavra “comunicação”. Nas linhas que se seguem entende-se claramente que é de “comunicação interna” que se fala.

Para não falar apenas das omissões, foi com muito agrado que li no documento estratégico que se pretende monitorizar e avaliar a estratégia (Eixo 2). No entanto, não se especifica aqui a forma como esta tarefa será realizada. A definição de indicadores, para a avaliação da estratégia, mas também do desempenho dos museus em geral, é uma necessidade e uma obrigação, que vai muito além da contagem do número de visitantes e que é específica para cada museu, com base nos objectivos que se propõe a atingir. Alguns, como é normal, são comuns, outros dizem respeito à realidade muito específica de cada instituição. Deveremos procurar consultar e aprender com os países que já testaram e implementaram modelos de avaliação e não cair na tentação de começar do zero.

Deixei para o fim os modelos de gestão. Nos vários comentários que já li sobre este ponto da estratégia parece que a questão se resume na escolha entre uma visão mais comercial e outra mais virada para o estudo das colecções. Como se devêssemos escolher. Como se pudéssemos escolher… Mais uma vez, não será necessário começarmos do zero. Vários modelos – alguns melhores, outros piores – foram já testados e implementados noutros países. Na minha opinião, é a própria profissão, a do museólogo, que pode e deve formar os seus gestores. Pessoas que, se não a têm já, ganharão a sensibilidade necessária para gerir e dirigir espaços culturais e, concretamente, museus. Poderão ser pessoas vindas da área da história de arte, da arqueologia, da história, da sociologia, da animação cultural, etc; são cada vez mais pessoas vindas da área da economia. A gestão de museus é, em alguns países, um módulo essencial e imprescindível nos curricula dos cursos de museologia. Os cursos de leadership dirigidos aos profissionais de museus multiplicam-se no Reino Unido, nos Estados Unidos, na Austrália (se bem que não devemos confundir leadership com managment). Tanto o ICTOP (Comité Internacional do ICOM para a Formação do Pessoal), como o INTERCOM (Comité Internacional do ICOM para a Gestão) poderão orientar as nossas decisões e apoiar as nossas acções.