Monday, 20 June 2011

Casa com telhado mas sem alicerces?

No portal brasileiro Cultura e Mercado anunciava-se na semana passada que a Câmara de Deputados irá criar uma comissão especial para analisar a Proposta de Emenda à Constituição, que inclui entre os direitos sociais o acesso à cultura. Na mesma notícia falava-se do projecto-lei Vale Cultura, conforme o qual será concedido um subsídio mensal de R$50 (aproximadamente €22) a trabalhadores que ganham até cinco salários mínimos, a fim de permitir o acesso a produtos e serviços de artes visuais, artes cénicas, audiovisual, literatura, música e património cultural.

Fiquei muito curiosa relativamente ao projecto. Pensei em questões práticas (será um cartão do qual se desconta o valor dos produtos, uma caderneta com vales, poderá ser trocado apenas em estabelecimentos que aderem à iniciativa, os trabalhadores deverão apresentar recibos…?), mas pensei sobretudo nos objectivos da iniciativa e nas expectativas.

Encontrei algumas respostas no texto de redacção final do Projecto-Lei:

“Art. 1º Fica instituído, sob a gestão do Ministério da Cultura, o Programa de Cultura do Trabalhador, destinado a fornecer aos trabalhadores meios para o exercício dos direitos culturais e acesso às fontes da cultura.

Art. 2º O Programa de Cultura do Trabalhador tem os seguintes objetivos:

I – possibilitar o acesso e a fruição dos produtos e serviços culturais;

II – estimular a visitação a estabelecimentos que proporcionem a integração entre os temas de ciência, educação e cultura; e

III – incentivar o acesso a eventos e espetáculos culturais e artísticos.”

Num outro artigo no portal Cultura e Mercado, intitulado Democratização do acesso à cultura, fazia-se uma análise desta iniciativa. O autor, Roberto Baungartner, apresentava estatísticas como: apenas 13% dos Brasileiros vão ao cinema pelo menos uma vez por ano; mais de 92% nunca foram a um museu ou exposição de arte; 78% nunca assistiram a um espectáculo de dança. Alguns destes dados são também referidos no vídeo oficial do Vale Cultura.

Roberto Baungartner acredita que esta iniciativa, para além de beneficiar propriamente a cultura, criará mais emprego e receita, reduzirá a violência e incrementará, pelo lado da procura, as cadeias produtivas envolvidas. Acredita ainda que tornará as empresas brasileiras mais competitivas no cenário internacional.

Considero, mais uma vez, os objectivos traçados e as expectativas criadas pouco realistas e pouco estruturados. Tenho sempre sérias dúvidas que a democratização do acesso à cultura passe, em primeiro lugar, por medidas como esta, que parecem continuar a ignorar aquelas que são as principais questões no que diz respeito ao acesso.

No artigo de Baungartner podemos ainda ler que mais de 90% dos municípios brasileiros não têm salas de cinema, teatro, museus, espaços culturais em geral (refere concretamente que as 6000 salas de cinema que Brasil tinha antigamente limitam-se agora a 200). Portanto, as questões que coloco são as seguintes:

- Sem espaços e sem hábitos culturais relacionados com a oferta que estes normalmente apresentam, podemos realmente pensar que o subsídio de R$50 é o que falta para se criar acesso?

- É muito promissor ver que um governo pretende reconhecer o direito social à cultura (que consta, aliás, entre os direitos humanos) e considerá-lo na emenda da Constituição. No entanto, será necessário ao mesmo tempo ficar claro para todos o que é ‘cultura’, como se produz, por quem, onde, o que é necessário para se proporcionar acesso a ela (do ponto de vista da produção e do consumo). Digo isto, porque o vídeo oficial do Vale Cultura, bastante bem feito, apresenta, no entanto, uma visão do que é cultura bastante centrada na chamada ‘alta cultura’, o acesso à qual - para a maioria daquelas pessoas que nunca vão ao cinema, museu, teatro - não passa, em primeiro lugar, pela atribuição de um subsídio mensal de R$50.

Numa altura em que se procura cada vez mais encontrar formas de partilhar a responsabilidade de gestão / programação das instituições culturais com os destinatários da sua oferta - actuais e, sobretudo, potenciais –, através do reconhecimento das várias formas de fruição cultural e da criação das condições que facilitarão o acesso a ela, a iniciativa brasileira parece ignorar os últimos desenvolvimentos e tendências e limitar-se a questões que, do meu ponto de vista, são importantes mas secundárias no âmbito desta discussão. Trata-se no entanto, de uma iniciativa interessante, provavelmente inovadora, que tem gerido grande consenso entre os vários agentes que irá envolver e da qual muitas pessoas irão, com certeza, poder beneficiar. Será bom poder acompanhar o desenvolvimento da mesma e poder comparar os resultados em relação aos objectivos inicialmente traçados.

Monday, 13 June 2011

Silenciosos e apolíticos?


Foto: Maria Vlachou
Cem milhões de sementes de girassol em porcelana, cada uma criada individualmente por mais de 1600 artesãos. Parecem inofensivas? ‘Apolíticas’? Não o são. Foi, aliás, a descoberta progressiva da faceta política desta obra de Ai Weiwei que me deixou mais maravilhada quando a vi na Tate Modern em Outubro passado.

Ai Weiwei, artista e activista chinês, foi detido pelas autoridades chinesas no dia 3 de Abril, quando se preparava para embarcar num avião. Ninguém soube nada dele durante semanas. Não houve acusações formais, a não ser uns rumores sobre crimes económicos. A sua esposa pôde vê-lo passado mais de um mês, na presença de dois guardas. Estava fisicamente bem, mas visivelmente nervoso.

Foto: Reuters
O mundo de Ai Weiwei, artistas e museus de arte contemporânea em vários países, reagiu à sua detenção. Entre outras iniciativas, a Tate Modern projectou na sua fachada a frase “Libertem Ai Weiwei”; o artista Anish Kapoor fez um apelo a museus e galerias de arte em todo o mundo para fecharem um dia em protesto; o artista cubano Geandy Pavon projectou o retrato de Ai Weiwei na parede do consulado chinês em Nova Iorque; o Guggenheim Museum iniciou uma petição online, que já foi assinada por mais de 140.000 pessoas (ler sobre as várias iniciativas aqui). Na semana passada, Philip Bishop escreveu no Guardian que os museus não estão a fazer o suficiente. A assinatura numa petição não chega, dizia Bishop, os museus devem tornar o seu apoio a Ai Weiwei mais visível, concretamente através das suas homepages. E no mesmo jornal, Hari Kunzru questionava o silêncio do Montreal Museum of Fine Arts, que neste momento apresenta a exposição dos famosos soldados de terracota, e fazia votos para que não se perdesse a oportunidade única de chamar a atenção para a detenção do artista chinês.

No meio destas preocupações a nível internacional, as afirmações de certos directores de museus que “não fazem política” (ler a entrevista ao director do Virginia Museum of Fine Arts) ou que os museus “devem ser apolíticos” e que “não fazem protestos” (ler aqui sobre as declarações do director do Milwaukee Art Museum e as reacções de outros profissionais) são, no mínimo, desconcertantes. Claro que os museus fazem política: quando decidem o que vão expor ou não; quando criam espaço para diálogo ou não; quando escolhem os seus parceiros; quando fecham os olhos a questões como os direitos humanos e a liberdade de expressão e se manifestam ‘apolíticos’. Tanto no Virginia Museum of Fine Arts como no Milwaukee Art Museum irão em breve ser inauguradas exposições sobre a China. Claro que ambos os directores estão a fazer política.

Há museus cuja natureza os associa claramente a questões políticas (e sociais): o Canadian Museum for Human Rights em Ottawa ou o Museo de la Memoria y de los Derechos Humanos em Santiago de Chile; o Holocaust Memorial Museum em Washington (profundamente empenhado na prevenção do genocídio, mas onde não encontramos nem uma vez a palavra ‘Palestina’, dita ou escrita); ou o District Six Museum em Cape Town, para mencionar apenas alguns, muito poucos. Em geral, museus de história, que não podem (mas às vezes procuram e tentam…) ‘escapar’ à sua natureza. No entanto, qualquer manifestação de ‘neutralidade’ seria falsa.

Serão os museus de arte ‘isentos’? Mas… podem? Nem a natureza das suas colecções o permite (a arte não é neutra, não é apolítica), nem os seus negócios. Curiosamente, o Guggenheim Museum, que iniciou a petição online a favor de Ai Weiwei, esteve (está) ele próprio envolvido num caso relacionado com os direitos humanos. O New Your Times noticiava em Março, juntamente com muitos outros meios, que mais de 130 artistas iriam boicotar o novo museu que está a ser construído em Abu Dhabi, devido às condições de trabalho dos trabalhadores imigrantes envolvidos na sua construção (condições essas que se tornaram conhecidas há muito tempo, através de um documentário profundamente chocante realizado pelo programa televisivo 60 minutes, mas que estão também registadas no site da Human Rights Watch). Os artistas exigiram que houvesse uma inspecção independente imediata e ameaçaram não participar em eventos nem vender as suas obras ao futuro museu. A situação não é nada fácil para o Guggenheim Museum, que pretende criar uma colecção para este novo museu maioritariamente dedicada a artistas do Médio Oriente (alguns dos mais conhecidos fazem parte do grupo de protesto). A resposta dos responsáveis do museu pode ser lida aqui.

Num post no ano passado, intitulado Lugares de encontro, citava David Fleming, presidente, na altura, do INTERCOM (a comissão internacional do ICOM para a Gestão): “Passaram os tempos em que os museus tinham que se manter afastados, fingindo que não fazem parte da sociedade que supostamente estão a servir, continuando a sua actividade esquecendo o que está à sua volta, como se a cultura que expõem não tivesse relevância política ou social. Os museus não têm que ser lugares neutros – podem ser muito mais”.

A vida não é apolítica. A arte também não. Como é que os museus poderiam sê-lo? Os museus que querem, realmente, fazer parte da sociedade e ser apoiados por ela, não são nem silenciosos, nem neutros, nem apolíticos. Os museus que têm noção da sua missão não se tornam irrelevantes.

Monday, 6 June 2011

A diferença entre "mais" e "diversos"


Antes de falar da notícia que vem do outro lado do Atlântico, volto a afirmar a minha convicção que as entradas gratuitas podem multiplicar as visitas (o que também é desejável), mas não podem, só por si, diversificar o público das instituições culturais, nomeadamente museus e salas de espectáculos. Não me parece realista continuarmos a usar a gratuitidade como um argumento em prol da democracia e da igualdade. Para a maioria das pessoas que não vai aos museus, não é o preço do bilhete (em Portugal, entre €2 e €5 com descontos nos museus nacionais) que constitui a barreira. Da mesma forma, há espectáculos de excelente qualidade com bilhetes a €5 e com pouco público e outros, muito mais caros, que esgotam. O que faz a diferença? A relevância e importância de uma determinada oferta na vida das pessoas. Também o terem ou não conhecimento dessa oferta.

Dito isto, não podemos ignorar o facto de existirem pessoas que desejam participar em actividades culturais, mas que têm que fazer contas à vida. Considerar esta necessidade é uma obrigação para as instituições culturais, em particular aquelas financiadas com dinheiros públicos. Espectáculos de entrada livre ao longo da temporada, preços especiais para todos em certos dias da semana ou entradas gratuitas aos museus em certos dias da semana e do ano, promoções conjuntas entre instituições – tudo devidamente e amplamente divulgado - são uma possível resposta a esta necessidade. Não significa acesso a toda e qualquer oferta? É verdade, mas tudo tem um preço e cada um de nós faz contas e decide em que é que é importante investir e para que é que vale a pena poupar.

Já quando se fala em diversificar o público, o trabalho que as instituições culturais têm que desenvolver é mais complexo. E o primeiro factor a considerar não é o preço. É necessário desenvolver um programa extenso de outreach. Conhecer melhor os hábitos, necessidades e gostos das pessoas com as quais pretendemos estabelecer uma relação é algo que não passa, em primeiro lugar, por oferecer uma entrada gratuita. E se se considerar que é isto que temos que fazer, entre outras coisas, que seja oferecida entrada gratuita a essas pessoas. Porquê estendê-la a todos, até àqueles dispostos e com capacidade de pagar?

Apresentei os meus argumentos contra a gratuitidade em dois posts no ano passado, um sobre museus e outro sobre teatros, aos quais gostava agora de acrescentar dois pontos. Primeiro, mesmo quando a entrada é gratuita, visitar um museu ou assistir a um espectáculo nunca é totalmente gratuito: os transportes (colectivos ou privados) não são gratuitos, o estacionamento em muitos casos também não, a refeição antes ou depois, a necessidade de contratar uma babysitter… São vários os custos associados e podem ser significativos e determinantes na decisão de ir ao museu / teatro ou não. O segundo ponto é que as instituições culturais deverão ter um cuidado particular na forma como defendem e oferecem a gratuitidade. Quando o ser artista é considerado um hobby e não uma profissão, quando grande parte da sociedade vê os artistas como uns subsídio-dependentes que vivem à custa de todos os outros, que mensagem é que as próprias instituições passam quando oferecem este trabalho (feito por profissionais que, muitas vezes, desenvolvem a sua actividade com grandes sacrifícios) gratuitamente?

Passando agora para a notícia transatlântica: o Mixed Blood Theatre na cidade de Minneapolis nos EUA anunciou no mês passado que nas próximas três temporadas os espectáculos serão gratuitos para todos (ler notícia aqui). A iniciativa intitula-se Radical Hospitality (hospitalidade radical). No entanto, o teatro continuará a cobrar para as assinaturas anuais e a disponibilizar bilhetes no valor de $15 a quem quiser comprar antecipadamente e garantir lugar num determinado espectáculo. O director artístico afirmou que esta é "uma forma de cumprir a missão igualitária do teatro, que é ser totalmente inclusivo”. Uma rádio local colocou a questão ao público: Qual a importância do preço na vossa decisão sobre uma opção de entretenimento? Vale a pena ler as respostas das pessoas (ver aqui). Sobretudo porque, ao lado daqueles que afirmam que o preço dos bilhetes é proibitivo (e existem casos que devem ser considerados com atenção, como, por exemplo, os custos para uma família), há outros tantos a dizer que os custos associados a uma saída de casa são demasiado altos; que não conhecem a programação ou a localização; que a oferta cultural é muito variada e existem opções e preços para todos os bolsos.

Gostava, entretanto, de transcrever uma das respostas: “A prioridade de assistir a teatro e música ao vivo é uma questão de qualidade de vida de grande importância para mim e para o meu marido. (…) As pessoas precisam de escolher com atenção, mas devem estar preparadas a pagar pelo empenho e talento incrível que é preciso para produzir eventos culturais ao vivo de qualidade. Estamos dispostos a ter a nossa caderneta de cheques mais leve, para que as nossas vidas não sejam mais pobres”. Quem deu esta resposta não deve ser uma pessoa pobre. Mas penso tratar-se de uma questão de escala e que a maioria das pessoas, dentro das suas possibilidades económicas, diria o mesmo se achasse que aquilo que as instituições culturais lhes oferecem é relevante e importante para as suas vidas. É este o grande desafio para quem trabalha na área da cultura.

Nesta altura de crise e de cortes, os museus nacionais no Reino Unido estão a reconsiderar a aplicação de entradas pagas (ver relatórios sobre o impacto das entradas gratuitas no meu post sobre museus). O Metropolitan Museum of Art - de entrada livre, mas recomendando aos visitantes uma contribuição de $20 – irá aumentar o preço recomendado para $25 a partir de 1 de Julho (ler a notícia aqui; no fim da mesma, apresenta-se um quadro com os preços de entrada em vários museus de arte americanos). Ao mesmo tempo, e dado o sucesso da exposição de Alexander Mc Queen, o museu irá abrir excepcionalmente às segundas-feiras, para receber visitantes dispostos a pagar $50 para visitar a mesma (ler notícia aqui). Há também teatros nos EUA que convidam o público a pagar o que puder para assistir a um espectáculo.

A necessidade de gerar receitas e de trabalhar para a auto-sustentabilidade é real. A preocupação relativamente ao acesso a uma oferta que todos têm o direito de fruir também. No entanto, quando é do acesso que queremos falar, diria que a entrada gratuita é uma medida fácil. E que, mesmo assim, não produz os resultados desejados de diversificação dos públicos. Para isto acontecer, é preciso um esforço muito maior e, em muitos casos, uma mentalidade bastante diferente na forma de fazer a abordagem. A acessibilidade começa na linguagem que usamos.

Mais algumas sugestões de leitura
Museus gratuitos (textos de Gabriela Canavilhas, Luís Raposo e João Neto, DN, 18.04.2011)

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Monday, 30 May 2011

Ministério da Cultura: conseguimos manter o debate vivo por uma segunda semana?


Lux, de Laura Vinci (Foto: Maria Vlachou)

Apesar dos nomes terem uma importância secundária quando se debatem grandes questões, mas porque têm, ainda assim, a sua importância e significado, começo por dizer que é imperativo o país ter um Ministério da Cultura e que não considero de todo convincentes os argumentos de Pedro Passos Coelho relativamente à extinção do mesmo e à colocação da Cultura sob a alçada directa do primeiro-ministro. No entanto, agradeço ao candidato do PSD a provocação que lançou, a qual resultou num interessantíssimo debate ao longo da semana que passou (ver referências no fim do post). Pessoalmente, sinto a necessidade de comentar sobre dois pontos.

O primeiro ponto tem a ver com a urgência em reformular o Ministério e todo o sector. Ou seja, em criar conteúdos para as palavras ganharem, realmente, significado. Alguns aspectos que considero importantes e prioritários:

Visão, missão, estratégia
Por esta ordem e não pela ordem contrária… O que é Cultura no mundo de hoje? Porque é importante para a vida de todos nós? Sendo a sua fruição um direito de todos, como garantir o acesso a ela? Quem produz o quê, onde e como? Quem consome o quê, onde e como? Como ultrapassar a era dos ‘guardiões’ (que insistem em ser eles a definir o quê, como e onde) para chegar à era dos 'cosmopolitas contemporâneos', abertos a várias tendências e gostos? Como criar condições para que a Cultura seja vista como um assunto de todos nós?

Profissionalização e trabalho em rede
O sector não pode continuar a ser gerido com boas intenções e amadorismo. Se se reconhece a sua importância (intrínseca, e também social e económica), é urgente admitir profissionais com sólida formação teórica e excelente experiência, assim como é urgente garantir formação profissional àqueles que querem continuar a trabalhar nele e que não a possuem. Além disso, não podemos continuar a trabalhar isolados, cada um no seu canto. É de extrema importância que os profissionais do sector procurem desenvolver e manter redes de trabalho - locais, nacionais e internacionais -, para ser garantido o indispensável intercâmbio de pessoas e ideias, assim como a partilha de práticas e experiências, que resultam no crescimento profissional e contribuem para o desenvolvimento do sector.

Gestão saudável, emancipação, sustentabilidade
Sem pretender dispensar o Estado das suas responsabilidades perante os cidadãos, produtores e consumidores de cultura, é imperativo termos clara noção da realidade. O dinheiro que o Estado pode investir não chega para tudo e para todos (sempre foi vergonhosamente pouco, mas, ao mesmo tempo, sempre se reclamou mais, sem primeiro procurar avaliar se o que se investia estava bem gasto; e também nunca alguém assumiu responsabilidades por dinheiro mal gasto…). O Estado terá que estabelecer objectivos e prioridades claros. Mas o sector não pode parar. Os modelos de gestão são vários; devemos estudá-los e procurar aquele que melhor se adequa à nossa realidade e necessidades. Há uma especificidade da Cultura, isso é verdade. Mas é igualmente verdade que os gestores culturais existem, entendem e abraçam essa especificidade.

A problemática da reformulação do Ministério e do sector não se esgota, obviamente, nestas três questões, mas são aquelas que neste momento me parecem prioritárias. São aquelas que, se forem levadas para a frente, afectarão todas as outras. E por isso, deveriam ser todas abordadas com base em princípios fundamentais (e quase permanentemente ignorados): honestidade, exigência, transparência, responsabilização, meritocracia.


O segundo ponto sobre o qual gostaria de comentar tem a ver com a necessidade de assumirmos, cada um de nós, as nossas responsabilidades e de mantermos no sector um debate permanente e aberto a todos os níveis. Não podemos continuar a apenas reagir a provocações, anúncios de cortes, nomeações, re-estruturações, etc. Estas reacções são normalmente de curtíssima duração. Passado o efeito da ‘provocação’, voltamos a adormecer ou a ficar conformados. No entanto, todas estas questões são permanentes. Na semana passada, pessoas conhecidas e respeitadas partilharam com todos nós as suas opiniões sobre uma eventual extinção do Ministério da Cultura. Mas o sector não é feito apenas dessas pessoas. É feito de muitas outras, talvez menos conhecidas, mas também inteligentes, preocupadas, informadas, intelectualmente honestas. Onde estão? Porque é que não se ouvem essas vozes (com pouquíssimas excepções)? Porque é que não alimentam o debate, não tomam posição, não exprimem a sua concordância ou discordância? As plataformas de expressão não faltam, sobretudo hoje em dia. Não são apenas os conselhos consultivos dos ‘homens da cultura’ que ajudam nas decisões políticas, todos nós deveríamos contribuir para isso. Estamos à espera de um convite para falar? Poderá nunca chegar e isso não nos desresponsabilizaria. Exprimirmos a nossa opinião é um direito, mas também um dever.


Referências da semana que passou

António Pinto Ribeiro, O Ministério dos Assuntos Culturais (Público, Ípsilon, 27.05.2011)

Cecília Folgado, 0,4% de ideias (blog Musing on Culture, 26.05.2011)

Guta Moura Guedes, Sobre o Ministério da Cultura. Ou não. (Público, 24.05.2011)

Miguel Magalhães, A extinção do ministério da Cultura (blog Rua Direita, 26.05.2011)

Público, Dez personalidades ligadas à cultura falam sobre a importância de um Ministério da Cultura (26.05.2011) - Manuel Maria Carrilho, António-Pedro Vasconcelos, Pedro Burmester, Luís Braga da Cruz, Augusto M. Seabra, Isabel Pires de Lima, Maria João Bustorff, Raquel Henriques da Silva, Miguel Lobo Antunes, Augusto Mateus
 

Ainda neste blog
Onde é que todos se meteram? (7.02.2011) 
Um abraço azul, ou de outra cor qualquer, à crise (13.12.2010) 
Afinal, o que significa estratégico? (12.07.2010)
Sobre a entrevista da Ministra (28.06.2010)
De todos e para todos? (31.1.2011)
O artigo 27 (15.11.2010)

Thursday, 26 May 2011

Blogger convidado: 0,4% de ideias, por Cecília Folgado

Portugal vai a banhos, de Joana Vasconcelos
Em tempo de eleições há que ouvir, pensar, pesar. Uns pesam a dívida, outros os benefícios sociais, eu peso a Cultura. É esse o meu mundo. Assim, resolvi debruçar-me sobre as propostas dos 5 ‘grandes’ partidos, procurando saber o que cada um destes perspectivava para a Cultura em Portugal nos próximos anos.

Para lá do saber se a Cultura se manteria em versão ministerial ou não (aspecto interessantemente debatido por Guta Moura Guedes no Público de 24 de Maio), o que procurava era saber a Cultura que nos espera e a Cultura que podemos esperar. A resposta é curta e taciturna, o futuro pouco iluminado. Nos programas do BE, CDU, PS, PSD e CDS o peso e a importância relativa da questão é equivalente aos 0,4% de OE que lhe cabe. No caso do BE é ainda menos que isso, é 0%. Nos restantes, a Cultura vale entre um parágrafo e pouco mais que uma página A4.

E dir-me-ão que a Cultura não se mede a palmo. Pois não, não mede, mas neste caso os conteúdos coincidem com os palmos medidos, são curtos.

Na acima referida coluna de opinião de Guta Moura Guedes, reclama-se visão de quem nos governe, ministro ou primeiro-ministro. Reclamo o mesmo: visão. Depois, reclamo seriedade. Seriedade para olhar o sector de frente, listar o que está mal e o que está bem e desenhar uma política que nos permita (ao sector e ao país) ser inteiros e que o Ministério da Cultura não seja uma conquista meramente simbólica e sim efectiva*.

Do que li e das ideias arrumadas, não me parece importante falar, são essencialmente vagas (umas) e repetidas (as outras). Importante parece-me regressar a esta lista de 2009, construída no âmbito das legislativas de então pelos colaboradores da OBSCENA. É isto, só isto. Duas páginas A4 (aqui com palmos de conteúdo bem largos).

Nos tempos que vivemos, percebo a importância relativa que a Cultura pode ter. E estar neste sector tem algo de fé e de militância que por vezes, em tempos assim, se quebra; pessoalmente, nestes momentos de quebra, reencontro o sentido da arte e da cultura numa frase de António Pinto Ribeiro: “A arte e a cultura - não necessariamente da mesma maneira, nem com as mesmas possibilidades – servem para que, na vida de cada um de nós , o futuro esteja presente e o tédio ausente, a ludicidade aconteça e a barbárie se afaste.”

Não nos podemos entregar à barbárie.

*No Público de hoje reflecte-se sobre as legislativas sob a perspectiva do sector cultural; vale (muito) a pena ler. Vale também a pena ler no P2 a reportagem sobre os 100 anos do Museu do Chiado onde, como assinala Raquel Henriques da Silva, “O que envergonha em todo este processo é a falta de uma Política de Estado.”

Monday, 23 May 2011

Rostos

Nuno Santos (Frente de Casa), Cidalina Ramos (Assistente de Bilheteira), Sérgio Joaquim (Técnico de Luz), Tiza Gonçalves (Directora de Produção), Rui Lopes (Técnico de Som). Fotos: Steve Stoer
Estes são os rostos de alguns dos meus colegas no São Luiz. Colegas de várias áreas (comunicação, técnica, produção). Uns cruzam-se com o nosso público, e são até seus conhecidos, outros nem por isso. Mas são todas pessoas, estas e muitas outras, que trabalham para que o produto final chegue aos nossos espectadores.

Estas fotografias foram inseridas no livro e no folheto da programação da Temporada 2010-2011, disponíveis ao público, acompanhadas pelas sugestões dos nossos colegas relativamente a essa mesma programação e também por umas palavras sobre aquilo que mais prazer lhes dá no seu trabalho no São Luiz. Encontram-se também nos janelões da fachada do teatro. E assim, a nossa instituição ganha um, ou melhor, vários rostos. Pelo menos era essa a nossa intenção: dar um primeiro passo para tornar o abstracto, concreto; o desconhecido, conhecido; o impessoal, pessoal, ou seja, o institucional, humano. Procurámos uma forma de apresentar ao público uma outra dimensão daquilo que envolve a apresentação de um espectáculo, aquela de que menos se fala. O único indicador que temos para a avaliação desta ideia são os comentários positivos que amigos e conhecidos partilharam connosco, mas, sobretudo, aqueles espectadores que, ao dirigirem-se à bilheteira, reconhecerem a nossa colega cuja fotografia estava no livro. (Quando chego a este ponto, penso sempre que o que deveríamos ter feito era organizar um focus group e procurar obter feedback qualitativo por parte de alguns membros do público. Mas parece que há sempre outras prioridades. Os estudos de público deveriam ser uma delas.)

É um facto que, em geral, as instituições culturais procuram comunicar o objecto (a exposição ou o espectáculo) e os artistas que o criaram ou que o interpretam. No entanto, existe esta outra vertente, a das pessoas que trabalham no teatro ou no museu ou na instituição cultural, que, no meu ver, deveria ser mais ‘explorada’ na relação com o público. Porque é através delas, e graças a elas, que se cria a relação permanente, duradoura. E é importante que esta relação ganhe um rosto, se torne pessoal e concreta.

Risto Nieminen, Director do Serviço de Música da Fundação Calouste Gulbenkian,
durante a apresentação da temporada ao público em 2010. (Foto: Márcia Lessa)
Achei fantástica a opção do director do serviço de música da Gulbenkian, Risto Nieminen, de ter marcado no ano passado um encontro com o público para apresentar a programação da temporada (que, se não me engano, era, na verdade, a sua primeira) e, através dela, a sua visão sobre o caminho que este serviço iria seguir sob a sua direcção. Não consegui estar presente na sessão, mas soube que esteve esgotada. E imagino que tenha sido muito gratificante para as pessoas que estiveram presentes conhecer o novo director - o seu rosto, a sua voz -, saber através dele o que tinha escolhido para lhes apresentar e porquê. Ou seja, aquela relação que normalmente se tem, e que se valoriza muito, com os meios de comunicação, que depois transmitem as notícias ao público, criou-se aqui com esse mesmo público. Uma relação privilegiada, na primeira pessoa. Estou curiosa em saber se houve a seguir outros momentos de encontro entre Risto Nieminen e o público, se se deu continuidade àquele primeiro passo. E, sobretudo, estou curiosa em saber se o novo director se encontrou, no espaço da Gulbenkian ou fora dele, com aqueles públicos que desde o início disse que gostaria que viessem assistir à sua programação. Como terá sido esse encontro? Como estará a correr essa relação?

A presença do director, da pessoa que dirige a equipa e que faz as escolhas, é algo fascinante para muitas das pessoas que frequentam instituições culturais. São encontros relativamente raros (o que é pena), às vezes muito gratificantes, e também fundamentais para a construção de pontes. São, entre outras coisas, uma forma de transmitir às pessoas a importância que têm para a nossa instituição, ou melhor, para as pessoas que nela trabalham. Em algumas ocasiões, poucas, presenciei o encontro de directores de museus com membros do público nas salas de exposições, a conversa informal - como se de amigos se tratasse -, a alegria no rosto dos visitantes por esse encontro inesperado, atreveria-me a dizer o privilégio que o mesmo parece ter sido para essas pessoas. Numa pesquisa que fiz recentemente para uma aula, encontrei fotografias do director do centro de ciência finlandês Heureka, Per-Edvin Persson - que conheci há muitos anos atrás, quando trabalhava nessa área - com membros do público: no primeiro caso, com os voluntários do centro, que completavam 10 anos de serviço nele, e no segundo, na recepção do visitante 6.000.000. Breves encontros que podem fazer toda a diferença numa relação.

Foto: Saila Puranen/Heureka

No entanto, e para voltar ao início, as nossas instituições não são feitas só de artistas nem só de directores. A verdade é que existem muitas outras pessoas, que trabalhar em diferentes áreas nos bastidores, que podem igualmente fascinar o público e contribuir na criação de uma relação diferente, mais pessoal, de maior compreensão e entendimento. Várias vezes, quando o público aplaude os intérpretes de um espectáculo, estes agradecem aos técnicos de som e de luz, apontando na direcção deles e aplaudindo. E eu várias vezes pensei quantas pessoas entre os espectadores entenderão o significado deste gesto, perceberão a quem se dirige e porquê.

É raro promovermos encontros entre os frequentadores dos nossos espaços e as pessoas que neles trabalham, nas mais variadas áreas. Mas nos casos em que presenciei estes encontros - que normalmente acontecem quando um funcionário dá uma visita guiada a um familiar ou amigo -, garanto-vos que senti a existência do mesmo fascínio, do mesmo sentimento de ‘privilégio’, como quando se está perante um artista ou um director. É algo especial, diferente. É uma forma de uma pessoa se sentir como parte daquele espaço, porque fica a conhecer o que se passa por trás, como é que se faz e quem é a pessoa que o faz. Esta é uma relação. Não entre um edifício e o público, mas entre as pessoas que nele trabalham e as pessoas que o frequentam ou possam vir a frequentá-lo. Penso que esta deveria ser uma vertente a explorar.

Agradecimentos: Elisabete Caramelo, Mikko Myllykoski

Monday, 16 May 2011

O museu de história que faz toda a diferença

No meu último post comentei sobre a história contada (ou não contada) pelos museus nacionais de história que tenho visitado. Lembro-me, por alto, de ter visitado museus deste tipo em Atenas, Barcelona, Helsínquia, Berlim, Washington e, mais recentemente, em Buenos Aires (este não tem site próprio).

Há aqueles que se limitam a contar a história da luta pela independência (Atenas, Buenos Aires); que, na verdade, não contam, porque a mera exposição de armas, quadros, documentos não é suficiente para contar essa história. Normalmente, os visitantes nacionais, e mais concretamente, os visitantes nacionais com alguns conhecimentos de história, têm uma certa vantagem nestes museus relativamente aos visitantes nacionais e internacionais que entram no museu com a esperança de adquirir esses conhecimentos básicos.

Há também aqueles museus nacionais de história que avançam mais um pouco (Barcelona, Helsínquia, Berlim), em primeiro lugar no tempo, para contarem também episódios mais recentes, mas também em termos de profundidade e diversidade na abordagem, indo além da história política/militar para tocar em questões de natureza cultural e social (educação, saúde, religião, vida familiar/profissional/social, artes, etc.).

Quando comentei no meu post sobre a incapacidade da muitos destes museus em contar a história da nação, referia-me concretamente à exposição permanente, que é aquela à qual todos os visitantes têm acesso em qualquer altura. Saí da maioria dos museus que referi sentindo ou que não tinha aprendido quase nada ou que a abordagem tinha sido muito limitada, insuficiente para a minha curiosidade, para aquilo que esperava aprender sobre o país ou a região (estou-me a referir à Catalúnia) que estava a visitar.

A tarefa não é fácil, é certo. A história da nação é uma história extensa, multifacetada, sensível, controversa. Exige espaço e meios. Mas exige também visão, porque não é uma história encerrada, mas sim uma história em produção contínua e este facto tem implicações na política de aquisição de objectos para as colecções.

Destaquei no último post o Museu Nacional da História Americana de Washington como uma ilustre excepção. Deveria dizer em primeiro lugar que os meios materiais e humanos que este museu (um dos museus da Smithsonian Institution) tem à sua disposição não se podem comparar aos de outros museus. É verdade que a escala é infinitamente maior. No entanto, passando por cima da questão dos meios, o que distingue, na minha opinião, este museu de história nacional é a sua visão. Uma visão nova, inovadora no meio dos museus, fresca, inspirada sobre o que constitui a história da nação americana. Uma visão que se torna óbvia quando olhamos para os objectos em exposição e quando lemos os textos que os acompanham.

Neste museu encontramos a bandeira que inspirou o hino nacional; o manuscrito do discurso de Abraham Lincoln em Gettysbourg em 1863, um dos mais conhecidos discursos da história americana; a bancada onde em 1960 quatro estudantes negros se sentaram para almoçar na cidade de Greensboro, desafiando a regra “white only”. Encontramos ainda os sapatos vermelhos que Judy Garland usou no filme The Wizard of Oz; o sapo Kermit do Muppet Show; as luvas de box de Muhammad Ali; uma série de cartazes de várias épocas que incentivam a população a votar. Seguem-se imagens de alguns objectos e textos que ilustram a visão deste museu relativamente ao que constitui a história da nação americana (basta clicar nas imagens para as ver em tamanho real e poder ler os textos).


Em Fevereiro passado, Brent Glass, o director do Museu Nacional de História Americana, esteve em Portugal e deu uma palestra no Museu Nacional de Arte Antiga. Ficámos a saber um pouco mais sobre a gestão do museu e, entre outras coisas, sobre a sua política de aquisição. A colecção inclui e é constantemente enriquecida com objectos como carros e instrumentos musicais, materiais das campanhas presidenciais e móveis, fotografias e cartazes, objectos relacionados com áreas como a agricultura, a religião, a ciência, a cultura popular, as várias comunidades que compõe a nação americana, entre muitas outras coisas. Brent Glass esteve em Portugal porque em 2015 o museu vai apresentar uma exposição sobre o património multicultural e multinacional do seu país, onde será também feita referência à presença portuguesa.

Os objectos que noutros países fazem parte de colecções de museus distintos (museus nacionais de história, arqueologia, arte antiga, arte moderna, arte contemporânea, música, cinema, teatro, desporto, ciência, história natural, etc.), estão aqui reunidos por baixo do mesmo ‘tecto’, considerando que todos contribuem para contar a história da nação (o que não impede a existência de museus de ‘especialidade’; aliás a Smithsonian Institution gere vários deles). Conforme já disse, nem todos os museus dispõem dos recursos materiais e humanos do Museu Nacional de História Americana. Mas se partilhassem a sua visão, poderiam talvez procurar articular as suas exposições permanentes, com o objectivo de contar a visitantes nacionais e internacionais os vários capítulos de uma história única. Esta seria também uma forma de dar a entender ao público porque são ‘nacionais’.