Monday, 19 September 2011

A longa distância entre Califórnia e Jerusalém

Um dos desenhos da exposição cancelada pelo MOCHA.

MOCHA (Museum of Children´s Art) é um museu em Oakland, Califórnia. Aberto desde 1989, a sua missão é assegurar que as artes sejam uma parte fundamental na vida de todas as crianças através de experiências artísticas, formação artística para educadores e advocacia pelas artes. No dia 12 de Setembro, o portal Hyperallergic noticiou (ler aqui) que o museu, sob pressão de grupos judaicos, tinha decidido cancelar a exposição A Child´s View from Gaza, que reunia desenhos de crianças palestinianas criados durante sessões de arte-terapia (alguns deles podem ser vistos aqui). O presidente do Board of Directors, numa carta aberta publicada no site do MOCHA (ler aqui), esclarecia que o museu tomou esta decisão sensibilizado pelas preocupações expressas por pais e educadores que não queriam que as suas crianças fossem confrontadas durante a sua visita com trabalhos graficamente violentos e sensíveis. O que é que o museu esperava que crianças que viveram os bombardeamentos israelitas de 2008 e 2009 desenhassem? As cenas de violência terão sido uma surpresa? No Hyperallergic comentava-se que não seria a primeira vez que o museu iria exibir desenhos de crianças com cenas de violência. O facto também de a decisão ter sido tomada menos de duas semanas antes de inauguração da exposição, faz acreditar que a razão não foi uma descoberta repentina por parte dos responsáveis que deviam rever a política de exposições no que diz respeito à representação de violência, mas sim, outro género de pressões.

Eyad Baba, Gaza, Palestine, 2009 (fotografia da exposição HomeLessHome no Museum on the Seam)
O Museum on the Seam (Museu na Costura) é um museu em Jerusalém. Está localizado na rua que separa o sector judeu na parte oeste da cidade dos bairros árabes no sector leste. Fundado em 1999, define-se como um museu sócio-político de arte contemporânea que, à sua maneira, apresenta a arte como uma linguagem sem fronteiras a fim de levantar questões sociais controversas. No centro das suas exposições temporárias encontram-se as ‘costuras’ nacionais, étnicas e económicas, no seu contexto local e nacional. Na sua declaração de missão, o museu diz ainda que está empenhado em examinar a realidade social dentro do conflito que se vive na região, em promover o diálogo em face da discórdia e em estimular a responsabilidade social baseada no que se tem em comum e não no que separa. A exposição patente neste momento, West End, explora o conflito entre Islão e o mundo ocidental e é o resultado de anos de esforços intensos para convencer artistas do Médio Oriente a expor nas suas galerias. Dos 28 artistas muçulmanos envolvidos, 7 são originários do Médio Oriente, alguns de países que proíbem qualquer relação com Israel (ler notícia aqui). No passado, o museu tinha apresentado exposições como The Right to Protest, Bare Life ou HomeLessHome, entre outras. Quaisquer que sejam as pressões que este museu possa estar a sofrer (e não devem ser poucas), não parece estar a fazer-lhes face cancelando exposições.

Gosto de pensar nos museus como espaços de confronto de ideias; espaços que nos fazem sair da nossa zona de conforto; espaços que nos confrontam com realidades que desconhecemos; e, também, espaços que geram alguma controvérsia. Não me estou a referir à controvérsia ‘barata’; nem àquela gerada pela cobardia, o silêncio ou um suposto ‘apoliticismo’. Estou-me a referir à controvérsia gerada, com inteligência e honestidade, pela expressão de opinião, pela tomada de posição, pela vontade genuína do museu em constituir um espaço de encontro.

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Lugares de encontro

Monday, 12 September 2011

Construindo uma família: lições do sector social


Nos últimos anos, temos sido testemunhas da solidariedade que se gera a nível mundial quando um desastre se abate sobre um país, mesmo distante do nosso, afectando as vidas de milhares de pessoas. Poderia referir o tsunami na Indochina, o terramoto no Haiti, as cheias no Paquistão e, mais recentemente, a crise humanitária no Corno de África. Pessoas com mais ou menos dinheiro, sensíveis à dor humana, procuram contribuir, dentro das suas possibilidades, para aliviar essa dor, mas, também, para se sentirem elas próprias bem, para se sentirem humanas, úteis, solidárias. Nas últimas semanas tenho acompanhado de perto os esforços do World Food Programme (WFP) das Nações Unidas para a sensibilização da opinião pública relativamente à situação que se vive no Corno de África e para a angariação de fundos. E tenho estado a pensar que o sector cultural tem muito a aprender com o social.

Nos últimos anos, apoiei o WFP em várias ocasiões. Poucos dias depois da minha última contribuição recebi este email. Não se tratava apenas de um email de agradecimento. Era algo mais. O WFP queria informar-me sobre o impacto que a minha contribuição tinha tido no terreno; trazia-me notícias; partilhava comigo histórias pessoais; explicava-me quais os próximos passos. Tudo isto de uma forma muito pessoal, informal, clara, que pretendia, obviamente, dar ao destinatário provas tanto do empenho e eficiência da instituição apoiada, como da importância da própria pessoa que apoia este processo.

Ao mesmo tempo, o WFP comunicava com o público através do seu website e também através de posts regulares no Facebook. Partilhava notícias, boas e más; mostrava fotografias e vídeos das zonas afectadas; lembrava às pessoas de que forma poderiam ajudar (não só com dinheiro); e, em finais de Julho e durante uma semana, tiveram um colaborador em Dadaab, o maior campo de refugiados no Quénia, que fazia reportagens e entrevistas, mas também respondia a perguntas e dúvidas do público enviadas através do Facebook (veja aqui o vídeo do primeiro dia e siga depois os restantes no You Tube). Foi também nessa altura que Josette Sheeran, a responsável pelo WFP, fez uma TED Talk poderosa e profundamente inspiradora, intitulada Ending hunger now, que foi vista por milhares de pessoas.

Durante esta campanha, infelizmente longe de estar terminada, o WFP:

- lembrava constantemente e através de todos os meios e canais que tinha à sua disposição a sua missão (“O World Food Programme combate a fome em todo o mundo, salvando vidas durante emergências, enquanto constrói um futuro melhor para a próxima geração. O WFP é financiado apenas com contribuições voluntárias.”);
- partilhava a sua visão, objectivos, próximos passos;
- contava histórias do terreno;
- apresentava provas do seu trabalho e das suas intervenções;
- tinha um discurso directo, coloquial, compreensível;
- disponibilzava em todos os suportes digitais o botão “Donate” (um dos grandes objectivos), facilitando ao máximo o processo;
- não se esquecia de agradecer e… de pedir mais.

Fotos da série "Uma família chega a Dadaab", retiradas do website do WFP.
A cultura, por várias razões, não apela aos corações e às mentes da maioria das pessoas da mesma forma como a dor humana ou a falta de bens essenciais, como a comida, uma casa ou também a educação. Mas é essencial. “Porquê?”, perguntariam muitas pessoas. Pois, é mesmo esta a questão.

- Quantas instituições culturais em Portugal têm uma missão que seja algo mais emocionante do que “X é uma instituição cultural de âmbito europeu ao serviço da comunidade nacional” ou “Y é gerida por uma Fundação de direito privado e utilidade pública, que tem por fins a promoção da cultura”?
- Quantas instituições culturais usam os meios à sua disposição para, em permanência, afirmarem e partilharem com as pessoas essa missão? Ou a sua visão?
- Quantas instituições culturais comprometem-se partilhando publicamente objectivos concretos e dão feedback sobre o processo para a realização dos mesmos?
- Quantas instituições culturais contam histórias sobre o seu dia-a-dia, as pessoas que nelas trabalham ou que as frequentam, desmistificando o que se passa dentro das suas paredes e demonstrando o seu impacto?
- Quantas instituições culturais têm um rosto humano?
- Quantas instituições culturais falam uma língua compreensível?

Quem conseguiu resumir tudo isto com muita perspicácia e sentido de humor foi Adam Thurman, fundador da organização Mission Paradox e Director de Comunicação do Court Theatre em Chicago, num discurso intitulado Power and the Arts, que tive a oportunidade de ver na semana passada. Na verdade, uma palestra inspiradora sobre o poder da comunicação na forma como nos relacionamos com outras pessoas, com os nossos ‘públicos’. Na forma como criamos a nossa ‘família’ e fazemo-la crescer.

Foi também na semana passada que a Casa Conveniente tomou uma iniciativa que, pelo que sei, é inovadora em Portugal (mas acredito que o futuro das nossas instituições culturais passe mesmo por aqui): lançou no Facebook a campanha Ser mecenas da Casa Conveniente por €12. Os amigos da Casa Conveniente reagiram imediatamente e, como seria de esperar, muito positivamente. Vão apoiar com esta pequena quantia (ou mais até) e vão espalhar a palavra. Porque acreditam no projecto; porque é algo que os move; porque querem que continue a proporcionar-lhes momentos únicos, inesquecíveis; e porque querem fazer parte dele. Penso que o próximo passo para a Casa Conveniente deveria ser comunicar com aqueles que não a conhecem: partilhar a sua visão; mostrar a sua acção; e demonstrar o seu impacto. E para isso, penso que seria uma boa ideia ‘usar’ também os seus amigos, mais e também menos conhecidos, registando e partilhando os seus pensamentos e os seus sentimentos sobre o projecto. Pessoas (e não instituições) a partilhar com outras pessoas aquilo que as move. E assim a família vai crescendo.


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Mais leituras

Monday, 5 September 2011

(I)mobilidade

E.Hopper, People in the sun. Smithsonian Museum of American Art.
Um corpo que não se move está em descanso, estático, imóvel, estacionário, diz-se em física.

I

A maioria dos apoios à mobilidade no sector cultural é normalmente dirigida a artistas e curadores. Muitos outros profissionais da cultura (os que trabalham na área da gestão, comunicação, educação, etc.) - que sentem igual necessidade em investir na formação contínua ao longo da sua vida profissional, conhecer colegas de outros países, promover projectos de cooperação - raramente são contemplados. No início de Agosto fui informada que a Organização dos Estados Ibero-americanos (OEI) tinha lançado a II Convocatória de Ajudas à Mobilidade. Alguns dos objectivos anunciados: ajudar criadores, gestores, promotores e profissionais ibero-americanos da cultura que queiram enriquecer o seu trabalho mediante o conhecimento de outros contextos profissionais que permitam o intercâmbio nos distintos âmbitos culturais do espaço ibero-americano; fortalecer o trabalho desenvolvido pelas instituições públicas; estimular a construção de uma cultura de paz, centrada no intercâmbio, no diálogo intercultural e na cooperação, favorecendo um conhecimento melhor das diferentes realidades culturais ibero-americanas. No entanto, só se podiam candidatar pessoas que tivessem uma nacionalidade ibero-americana. Dados os objectivos anunciados pela OEI, será a nacionalidade dos candidatos relevante? Deveria ser uma condicionante? Num mundo onde as pessoas, os profissionais da cultura, viajam constantemente, desenvolvem cada vez mais a sua actividade em países diferentes dos de origem, colaboram em projectos internacionais, faz sentido, no âmbito de uma iniciativa como a da OEI, excluir candidatos que não tenham uma nacionalidade ibero-americana? É mais relevante o país que emite o passaporte do que o país e as instituições onde um profissional desenvolve durante anos a sua actividade? Coloquei estas questões à OEI por email e através do Facebook. Não obtive resposta. O prazo para a apresentação de candidaturas acabou há poucos dias.

II

Por razões familiares, uma amiga decidiu deixar o seu emprego num dos maiores museus de Londres e regressar à Grécia. Após uma ou duas colaborações de curta duração com museus em Atenas e alguns anos no desemprego, decidiu voltar a Londres e tentar novamente a sua sorte. Dentro de duas semanas tinha sido contratada por outro grande museu. Dois ou três anos depois, mudou-se para outro. Passados mais três anos, estava noutro. Todos esses postos de trabalho tinham sido publicamente anunciados, reunindo várias candidaturas. Em todos os casos tratava-se de museus nacionais.

Pensei várias vezes na minha amiga nos últimos meses, quando, em conversa com várias pessoas que trabalham no sector cultural, me apercebi da quantidade de profissionais e de instituições ‘presos’ em situações já pouco frutíferas. De um lado, pessoas que ocupam há já bastantes anos o mesmo lugar, cansadas da rotina, ansiosas para enfrentar novos desafios; do outro lado, instituições que atravessam também, como é natural, ciclos e que poderiam e gostariam de poder beneficiar de alguma renovação nas suas equipas.

Pensei novamente na minha amiga quando, há umas semanas atrás, soube que um lugar que não de confiança política num organismo cultural público tinha sido ‘discretamente’ ocupado por via de convite. É comum. Mas até quando? É verdade que os lugares no sector cultural são poucos. Mas é também verdade que raramente, muito raramente, as vagas são publicamente anunciadas, de forma a assegurar (e a beneficiar de) uma manifestação mais diversificada de candidaturas e, assim, a desejada movimentação e renovação, promovendo - e defendendo ao mesmo tempo - a igualmente desejada transparência e meritocracia. De qualquer forma, tanto no sector público como no privado, nem os profissionais nem as instituições ganham com esta espécie de estagnação. O que fazer quando acaba a ‘lua de mel’?

“E se houvesse um sistema de trocas de lugar”, disse a brincar a uma pessoa que está há 10 anos no mesmo lugar. E se houvesse? Um sistema público, aberto, transparente, que permitisse a troca de profissionais entre duas instituições por períodos de três anos – aquele que parece ser o tempo máximo de duração da ‘lua de mel’.

Monday, 1 August 2011

4+1 sugestões de leitura e 1 pausa

4

Nobility of Spirit – A forgotten ideal, por Rob Riemen
(Nobreza de espírito – Um ideal esquecido, Ed. Bizâncio)

Rob Riemen é ensaísta e filósofo, fundador do Instituto Nexus na Holanda. Ao ler este livro, senti que me faltavam alguns conhecimentos de base para o poder apreciar a 100%. Mas não foi por isso menos inspirador. Thomas Mann “falou uma vez da nobreza de espírito como o único correctivo para a história humana. Onde quer que o ideal desvaneça, a cultura desvanece-se com ele”. Verdade, justiça, humanismo, liberdade, democracia. Um livro que, na minha opinião, ajuda a pôr em perspectiva acontecimentos como a crise grega ou a revolução egípcia.


Arts, Inc., por Bill Ivey

Bill Ivey foi Presidente do National Endowment for the Arts nos EUA entre 1998 e 2001. Com muita perspicácia, Ivey analisa as políticas culturais (ou a falta delas) ao longo do século XX e até aos nossos dias e lança um alerta relativamente à forma como o desenvolvimento das leis de direito de autor, o controle destes direitos por companhias privadas e a incapacidade (ou falta de vontade) do governo americano em salvaguardar os direitos culturais dos cidadãos têm minado a vida expressiva dos mesmos. Neste livro, Ivey propõe um projecto-lei em defesa de seis direitos culturais fundamentais. Os capítulos, referentes aos direitos, têm os seguintes títulos: Herança; Artistas; Uma vida criativa; América, arte e o mundo; Arte de valor duradouro; Instituições fortes e responsáveis. Existe ainda um sétimo capítulo: O falhanço do governo.


Cognitive surplus, por Clay Shirky

O subtítulo explica bem o tema deste livro: “Como a tecnologia torna os consumidores em colaboradores”. Shirky apresenta os mais variados casos de estudo para mostrar como os novos meios tecnológicos (e o facto de serem baratos e acessíveis) têm permitido aos cidadãos partilharem o seu tempo livre e os seus conhecimentos para promoverem causas, apoiarem projectos, fiscalizarem os seus governos. E não o fazem para ganhar dinheiro. Os motivos são intrínsecos: a necessidade de comunicar e de partilhar, de ser útil, de tornar o mundo num lugar melhor. As implicações (e benefícios) para o sector cultural tornam-se para mim óbvios. O futuro próximo torna-se cada vez mais interessante.


Bicycle diaries, por David Byrne
(Diário da bicicleta, Ed. Quetzal)

Londres, Nova Iorque, Buenos Aires, Berlim, entre outras. Cidades por onde David Byrne andou de bicicleta e um ‘pretexto’ para falar de arte, cultura, política, pessoas. Destaco quatro linhas que falam da Istambul que tenho no meu coração e que não visito há quase vinte anos: “Adoro a sua localização física – delimitada por água, dispersa ao longo de três grandes extensões de terra, sendo que uma delas é onde começa a Ásia. O seu modo de vida, que parece mediterrânico, cosmopolita, e no entanto tingido pela profunda história do Médio oriente, é inebriante”.


+1  


Li este livro muito lentamente, porque não queria que acabasse. E, ao mesmo tempo, não conseguia largá-lo. Por isso, lia cada página mais que uma vez.

1Pausa. Até Setembro. 

Monday, 25 July 2011

Lembretes - Ao fim de quatro semanas no Kennedy Center

Perguntava-me há uns meses atrás Porque é que as coisas não acontecem?. Pois, acontecem. É certo que não existem ambientes de trabalho ideais e o Kennedy Center não é excepção. Mas é, sem dúvida alguma, uma grande escola.


A cara do Kennedy Center na última década tem sido Michael Kaiser. Um líder carismático, que soube traduzir a sua visão numa missão concreta que orienta toda a actividade do Centro. Soube ainda reunir à sua volta uma excelente equipa de profissionais - inteligentes, experientes, empenhados, dedicados -, que abraçam a sua visão e que colaboram com ele para tornarem os sonhos realidade. A coesão desta equipa impressiona profundamente. É o que acontece quando existe clareza na missão, determinação, rigor, sentido de responsabilidade (ver post Da liderança).


Uma outra coisa que impressiona é a clara noção que o tempo de cada pessoa é precioso e por isso não se desperdiça. No Kennedy Center investe-se pouco em reuniões e muito em acções. Mais, a pontualidade é uma regra raramente ignorada. O Presidente reúne com os Vice-Presidentes dos vários departamentos uma vez por semana, durante dez minutos, e este facto não parece prejudicar nem a comunicação interna nem a eficiência na forma como a equipa desempenha as suas funções. Há muito para fazer e... faz-se. É o que acontece quando o trabalho está muito bem planeado, os procedimentos claros e cada membro da equipa sabe o que tem a fazer e assume esta responsabilidade (ver post Do planeamento).


Há ainda o prazer, o entusiasmo, o orgulho e o empenho que sentimos nas pessoas que apoiam o Kennedy Center, financeiramente ou como voluntários. Porque ‘fazem parte’. É o que acontece quando uma instituição sabe o quanto a sua ‘família’ é importante para o seu futuro e sabe cuidar dela (ver post Da família). A maioria dos fellows regressa agora determinada em criar a sua.


O que foi referido até agora são conceitos e práticas que fazem parte da filosofia do Kennedy Center e que nos foram transmitidos durante os seminários e os encontros que tivemos com várias pessoas, membros da equipa do Centro e também convidados especiais. Mas houve mais uma coisa, que tenho a sensação que não fazia propriamente parte do currículo. Entre todas as pessoas que tivemos a oportunidade de ouvir, houve algumas que falaram com tanta paixão pelo que fazem, com tanta energia, com um tal brilho nos olhos, que nos lembraram que é isto que acontece quando uma pessoa, um profissional, está no sítio certo; quando tem a possibilidade de dar, tudo o que sabe e tudo o que pode; quando se sente aproveitado; quando sente que está a aprender e a crescer; quando se sente desafiado; e quando se sente reconhecido.

No International Summer Fellowship aprende-se muito graças à generosidade com a qual a equipa do Kennedy Center partilha as suas ideias e experiência connosco. Mas aprende-se também graças aos contributos dos próprios fellows - pessoas inteligentes, interessadas, empreendedoras. A partilha com eles trouxe prazer, inspiração e enriquecimento. O que mais desejava antes de começar este estágio era que as minhas certezas fossem desafiadas. Não o foram. Diria, antes, que muitas das minhas certezas foram confirmadas. Não houve propriamente descobertas nas quatro semanas que passaram. Houve lembretes que se transformaram em grandes lições e tiveram um grande impacto. É tudo isto que trago de volta comigo; é isto que me vai orientar até regressar ao Kennedy Center para o ano.

Monday, 18 July 2011

Do planeamento - Terceira semana no Kennedy Center

Michael Kaiser (Foto: Raphael Khisa)
Michael Kaiser, Presidente do Kennedy Center, não tem medo de sonhar alto. Porque sabe planear os seus sonhos. Michael Kaiser sonha com cinco anos de antecedência. Pensa nas coisas que gostaria de ver apresentadas no Kennedy Center e, juntamente com toda a equipa, põe-se a trabalhar para as ver concretizadas.

Um dos maiores esforços que a equipa do Kennedy Center tem que desenvolver é angariar os fundos necessários para a concretização dos sonhos. O Estado não é aqui um factor a considerar. Sendo o Kennedy Center o memorial do Presidente John Kennedy, o Governo Federal assume os custos da sua manutenção e segurança. O dinheiro para a programação e os custos operacionais tem que ser gerado, através da angariação de fundos (pela qual é responsável o departamento de development) e das receitas da bilheteira e de outros serviços providenciados pelo Centro (pelas quais é responsável o departamento de marketing). O orçamento anual do Kennedy Center ascende aos $150.000.000, dos quais $75.000.000 são angariados pelo departamento de development.

As instituições culturais não são um negócio como outros. Não só por não terem fins lucrativos, mas, sobretudo, porque não se tornam mais ‘produtivas’ de ano para ano da forma como o termo é entendido noutros meios. Os custos aumentam constantemente. Uma determinada peça de teatro não é hoje em dia apresentada com menos intérpretes do que há 100 anos atrás. Uma peça sinfónica não pode hoje ser tocada com menos músicos do que há 200 anos. O número de intervenientes mantém-se, os custos de produção aumentam. No que diz respeito às receitas, por outro lado, e sendo a fonte principal a venda de bilhetes, também a situação se mantém fixa. Uma sala com 500 lugares, terá o mesmo número de lugares amanhã, depois de amanhã, no próximo ano. Não podemos alargar uma sala para receber mais espectadores e gerar mais dinheiro, e, de qualquer forma, no nosso género de negócio, o preço dos bilhetes nunca poderia ascender ao valor que permitiria recuperar os custos de produção. Portanto, deste ponto de vista, a cultura não é um negócio rentável. Para continuarmos a fazer o que estamos a fazer, é preciso reduzirmos a distância entre despesas e receitas, que está sempre a crescer. É por isso que as instituições culturais precisam de apoio financeiro. Onde é que se vai buscar?

Uma das coisas que se tornam óbvias é que não é inteligente da parte de uma instituição cultural depender apenas de uma fonte de financiamento. Se, por qualquer razão, essa fonte desaparecer ou enfraquecer, o futuro da instituição é posto em causa. É uma necessidade e uma obrigação procurar múltiplas fontes de financiamento, capazes de garantir a sustentabilidade. Os resultados da dependência quase exclusiva do Estado são sentidos por muitas instituições culturais em vários países. O apoio financeiro por parte das empresas também já teve melhores dias. Não só devido à crise financeira, mas também porque os interesses e as prioridades do mundo corporativo mudam e não se pode garantir uma relação permanente ou eterna. O que pode, no entanto, ganhar um carácter permanente é a relação com os indivíduos, mais ou menos endinheirados, que abraçam a nossa missão, partilham a nossa visão, querem fazer parte da nossa família. Sem negligenciar ou desvalorizar a relação com empresas e fundações, o Kennedy Center aposta em grande na desenvolvimento da sua relação com indivíduos (ver post anterior).

Conforme Michael Kaiser explicou num seminário profundamente inspirador que deu na semana passada, um plano não é uma wishlist. Um plano são acções e medidas concretas para os sonhos se tornarem realidade. O planeamento antecipado apresenta aqui várias vantagens: dá tempo suficiente ao Kennedy Center para estimular o interesse e entusiasmo de pessoas e entidades que poderão contribuir financeiramente; permite negociar melhor com eventuais parceiros, uma vez que existe um vasto leque de ‘sonhos’, alguns dos quais poderão ser mais relevantes para eles que outros; permite organizar e produzir tudo com tempo e calma. O pessoal no Kennedy Center anda sempre muito atarefado, mas não anda desesperado nem desorientado.

Para além dos seminários com o pessoal do Kennedy Center, tivemos a oportunidade de ouvir duas senhoras muito inspiradoras: Sandra Gibson, que foi Presidente da Association of Performing Arts Presenters e que falou dos desafios que o sector cultural enfrenta actualmente (independentemente do país, mas é óbvio que alguns países estão mais atentos às mudanças que outros); e Julie Simpson, Directora Executiva de Urban Gateways, uma das referências na área da educação pela arte nos EUA.

Os projectos dos fellows apresentados na semana passada vinham de quatro continentes e foram bastante diversos:

Archa Theatre (República Checa)
Kwani Trust (Quénia)
Eifman Ballet (Rússia)
Evam (Índia)
ARS DOR Association (Moldávia)

Word becomes flesh, por The Living Word Project (Foto: mv)
Sexta-feira à noite, os fellows conheceram um espaço muito especial na cena cultural de Washington. Dance Place foi fundado há trinta anos e, para além de espectáculos todos os fins-de-semana, oferece aulas de dança e vários programas educativos. Assistimos a Word becomes flesh, integrado no Hip-Hop Theatre Festival de Washington, que celebra este ano a sua 10ª edição. O Kennedy Center é parceiro do Festival.

2nd Annual DC African Festival (Foto: mv)
O programa ‘extracurricular’ de fim-de-semana incluiu a segunda edição do Annual DC African Festival, organizado pelo Município (Gabinete de Assuntos Africanos) com o objectivo este ano de celebrar o contributo cultural e económico de África no Distrito de Columbia; a Corcoran Art Gallery, que apresenta neste momento a exposição Washington Colour and Light - que reúne artistas da Washington Colour School -, assim como a exposição Renunciation do fotógrafo Mads Gamdrup, cujos trabalhos exploram o deserto como um “lugar de promessas inesperadas”; as galerias Freer e Sackler de arte asiática, onde está neste momento patente a exposição Family Matters, que apresenta dezasseis retratos de membros da dinastia Qing; e o regresso ao National Museum of African Art para ver mais uma vez o extraordinário vídeo sobre o artista senagalês Ousmane Sow.

E assim entramos na quarta e última semana do estágio. Quarta-feira, dia 20, o Kennedy Center e o DeVos Institute for Arts Management organizam um debate com todos os fellows e treze directores executivos de instituições culturais de Nova Iorque sobre o tema The International Context: The Changing Role of Governments in Arts Funding and Advances in Audience Outreach and Development. A lotação está esgotada.


Agradecimento: Faisal Kiwewa

Monday, 11 July 2011

Da família - Segunda semana no Kennedy Center

Sk(in), de A.Balasubramaniam. Phillips Collection. (Foto: mv)
É muito frequente ouvir as pessoas no Kennedy Center falarem da ‘família’. É assim que se referem a todas aquelas pessoas que apoiam a actividade do Centro, contribuindo com o seu tempo, conhecimentos, perícia e dinheiro.

O núcleo da família do Kennedy Center são os membros do Conselho Consultivo (board). Um grupo de pessoas influentes, bem relacionadas, que acreditam na missão do Centro e que querem contribuir activamente para o seu sucesso e crescimento, usando todos os meios que têm à sua disposição, também os financeiros. Uma outra parte da família é composta pelas centenas de voluntários, que sentem o Centro como sua casa e colocam ao seu serviço o seu tempo, qualificações e experiência. Fazem igualmente parte desta família todas aquelas pessoas que compram bilhetes para assistir a espectáculos ou que se tornam membros e financiadores do Centro (são eles indivíduos, empresas ou fundações), contribuindo com quantias que vão desde os $60 aos milhares de dólares por ano.

O que motiva estas pessoas? O que é que as faz contribuir tão generosamente? As razões são várias, entre elas, prestígio, estatuto, visibilidade, benefícios fiscais, acesso privilegiado a certas ofertas do Kennedy Center, oportunidade de conhecer ou de estar com outras pessoas com interesses comuns. Mas penso que a principal força que faz com que toda esta gente se junte em torno do Centro é a arte que aí se produz e se apresenta: arte que entusiasma, que surpreende, que toca, que inspira. É sobre esta base que tudo se constrói, inclusivamente a família.

O Kennedy Center tem plena consciência da importância que esta família tem para a sua sustentabilidade (o facto do Centro ser o memorial do Presidente John Kennedy faz com que o governo federal assuma as despesas de manutenção e segurança do edifício, mas só isso). Apostando permanentemente na qualidade da experiência que oferece (uma experiência total, que vai além da apresentação do espectáculo em si e engloba todos os serviços prestados ao publico), procura não só manter a família que tem, mas também fazê-la crescer de ano para ano. Como dizia num post anterior, esta relação não pode ser uma relação entre um edifício e as pessoas que o frequentam. Deve ser uma relação entre as pessoas que nele trabalham e as pessoas que o frequentam ou possam vir a frequentá-lo. No Kennedy Center tornamo-nos testemunhas deste empenho que envolve toda a gente, desde o Presidente até ao segurança e o voluntário assistente de sala. Mas tornamo-nos igualmente testemunhas da vontade recíproca dessas pessoas de fazerem parte desta família.

Millenium Stage, The Kennedy Center.
Foi com particular interesse que, entre todos os seminários da semana passada, assisti à apresentação do projecto do Kennedy Center Millennium Stage, que oferece 365 espectáculos de entrada gratuita por ano, ou seja, um por dia, sempre às 18h. Falando de família e de sustentabilidade, e porque considero que a sustentabilidade das instituições culturais passa necessariamente pela diversificação dos públicos, queria perceber melhor se o programa faz justiça ao seu motto, “Performing Arts for Everyone” (Artes Performativas para Todos). Fico sempre um pouco desconfiada quando oiço os responsáveis usar a expressão ‘para todos’, sobretudo quando parece que o ‘para todos’ está principalmente associado ao ‘gratuito’. Foi com alguma surpresa que percebi que o Kennedy Center não tem dados sobre as pessoas que assistem aos espectáculos que fazem parte deste programa. Assim, não se pode saber se são pessoas que vêm pela primeira vez ou se assistem frequentemente; se assistem apenas a espectáculos gratuitos (e porquê) ou se também compram bilhetes para espectáculos pagos (graças à oportunidade de acesso que este programa criou, ou não); se são pessoas com as quais foi estabelecido um contacto graças aos programas de parceria com as comunidades que o Kennedy Center desenvolve ou se não existe ligação. Independentemente do entendimento que o Kennedy Center tem da expressão ‘para todos’ e com base nos objectivos traçados para o programa, penso que este género de dados é fundamental para se poder avaliar o sucesso do mesmo.

Na semana passada houve mais apresentações de projectos nos quais os fellows estão envolvidos nos seus países. Projectos muitos diversos, desde instituições culturais com estatuto nacional a pequenas iniciativas privadas:

Gateway Arts Society (Nigéria)
Agora (Egipto)

Wolf Trap: "Lawn people" à espera que o concerto comece. (Foto: mv)
No Sábado à noite os fellows do primeiro ano tiveram a oportunidade de participar numa experiência realmente americana. Fomos ao Wolf Trap National Park for the Performing Arts e assistimos a um concerto ao ar livre de Debbie Gravitt, Christiane Noll e Jan Hovarth, três ‘divas’ da Broadway, com a National Symphony Orchestra. Pessoas de todas as idades reúnem-se com alguma antecedência, tiram cobertores, cadeirinhas, comida e bebidas e, sentadas na relva, podem assistir aos mais variados espectáculos. O recinto estava cheio. Mesmo para quem não gosta de musicais, a experiência foi muito-muito especial.

Fora do Kennedy Center, um dos planos para o fim-de-semana era visitar o Fondo del Sol Visual Arts Center. Publicitado como o segundo mais velho 'museu de comunidade' latino nos EUA (a seguir ao Museo del Barrio em Nova Iorque), empenhado em representar as diversas culturas das Américas e das Caraíbas, não passa de um casa que cheira a mofo e que contém um aglomerado de obras, mal expostas, mal ou nada interpretadas. Felizmente, ao virar a esquina temos The Phillips Collection, onde podemos respirar e deixarmo-nos maravilhar com o trabalho Sk(in) do artista indiano A. Balasubramaniam; com as fotografias The World Series (2010-11) que Allan deSouza (de origem indiana, nascido no Quénia e criado na Inglaterra) criou em reposta a The Migration Series (1940-41) do artista americano Jacob Lourence, ambos trabalhos que lidam com a migração; com a exposição Kandinsky and the Harmony of Silence, que explora e analisa o processo que levou à criação do quadro Painting with White Border.

Intérprete cultural em Mount Vernon. (Foto: mv)
Outra experiência surpreendente e inesquecível foi a visita a Mount Vernon, a propriedade de George Washington, primeiro Presidente dos EUA. Para além da beleza da casa e dos espaços que a rodeiam, o que, sem dúvida, enriquece esta visita são os relatos dos intérpretes culturais (cultural interpreters), alguns dos quais, vestidos com trajes de época, assumem um papel que interpretam na primeira pessoa. Todos muito-muito bem preparados para responder as mais variadas perguntas que o público lhes coloca. Um outro complemento importante desta visita é o Donald W. Reynolds Museum and Education Center, que através de objectos originais, experiências interactivas e filmes apresenta a história riquíssima que foi a vida de George Washington e da sua mulher Martha.

Foi uma semana cheia. Outra se segue.