Monday, 14 May 2012

Qual o problema com a música clássica? Aparentemente, nenhum…

Gustavo Dudamel (foto retirada do blog Fanáticos da Ópera)

Gustavo Dudamel é neste momento o rosto da popularidade da música clássica. Li recentemente que o seu novo álbum está em número 3 do pop chart sueco (à frente da Madonna). Não sei se estarei errada, mas acho que não se via algo assim no mundo da música clássica desde o tempo dos três tenores. É uma sorte, acredito, quando se pode contar com o contributo destes ‘fenómenos’, que com a sua arte e a sua grande capacidade de comunicação conseguem abrir janelas a milhares de pessoas para experiências nunca antes vividas. Graças a eles, este mundo (assim como o da ópera ou do bailado) - visto por muitos como fechado, elitista, incompreensível, desinteressante, ‘abafado’, desmistifica-se, surpreende, entusiasma, toca, ganha um lugar na vida das pessoas. No entanto, há muitos outros profissionais (artistas, mas também programadores, gestores, profissionais dos serviços educativos e da comunicação) que dão o seu contributo, ainda que numa escala diferente, para que cada vez mais pessoas possam entrar em contacto com o mundo da música clássica, descobri-lo, partilhá-lo.

Não se pode negar que a falta de familiaridade com a experiência é uma barreira fundamental. Um estudo realizado recentemente no Reino Unido veio confirmar mais uma vez esta realidade. De acordo com o mesmo, 15% dos inquiridos (o que corresponderia a 7,3 milhões de adultos), quando questionados sobre a experiência cultural que gostariam de ter, manifestaram interesse em ir à ópera (ler a notícia aqui). Quando lhes perguntaram porque é que nunca o tinham feito, 62% disseram que era muito caro. No entanto, 14% (o que corresponde a mais de 4 milhões de pessoas) responderam que não conheciam o suficiente para poderem apreciar esta forma de arte e 7% estavam preocupados porque não conheciam a etiqueta exigida. A familiaridade prende-se com várias questões (tanto práticas – como, realmente, a etiqueta -, como de conhecimentos ou até de relevância para as pessoas), que as instituições e os profissionais da área procuram abordar de várias formas. Uma delas são os chamados flash mobs, que têm vindo a multiplicar-se nos últimos anos. Lembro-me em particular deste, no mercado de Valencia, onde no fim apareceu um cartaz a perguntar: “Vês como gostas de ópera?”. 



Do outro lado do Atlântico, a Knight Foundation financia os Random Acts of Culture em aeroportos, mercados, restaurantes fast food, lojas, e justifica no seu site este investimento da seguinte forma: “Ouvir Händel ou ver tango num lugar inesperado cria um lembrete muito sentido de como os clássicos podem enriquecer as nossas vidas. Como vão ver nos nossos vídeos, as performances fazem as pessoas sorrir, dançar, pegar nas suas câmaras – até chorar de alegria. Por estes breves momentos, as pessoas que levam as suas vidas do dia-a-dia fazem parte de uma experiência partilhada, comunal, que torna a sua comunidade num espaço mais vibrante para se viver.” 


Palavras mais usadas pelos visitantes da instalação Re-Rite para descreverem a experiência.
Nesta linha de acções, e apesar de não ter sido ao vivo (mas quase o era…), penso que deveríamos ainda mencionar a experiência única que foi o Re-rite, apresentado no ano passado pela Fundação Gulbenkian no MUDE (ver aqui e aqui), que nos colocou no meio de uma grande orquestra sinfónica e até nos deu a oportunidade de ocuparmos o lugar do maestro e dos músicos. À saída, perguntava-se aos visitantes como é que descreveriam a experiência com três palavras. “Emocionante”, “vibrante”, “fantástico”, “envolvente” foram algumas das palavras mais usadas. No entanto, quase um terço dos inquiridos admitiu que não teria usado essas mesmas palavras para descrever um concerto antes da visita ao Re-Rite. “Não tinha noção”, “Não conhecia”, “Nunca tinha assistido a um concerto”, Não fazia ideia”, “Não tinha esta percepção”, foram algumas das razões dadas. Resta saber se a experiência levou algumas dessas pessoas aos concertos da Temporada de Música, uma vez que quase 50% dos inquiridos tinha exprimido esta intenção*.

Mas este passo que nos faz sair das nossas instituições para irmos ao encontro das pessoas não responde a todas as suas dúvidas, não é por si suficiente para quebrar a barreira que se prende com questões sobre a etiqueta ou com o que se passa realmente na sala de concertos, no palco e atrás dele. O Grant Park Music Festival
 em Chicago reconhece que estas dúvidas existem e aproveita os seus quase 30 concertos de entrada livre e 50 ensaios abertos, num local extremamente acessível como o Millennium Park, para encorajar os milhares de pessoas que assistem ao festival (25% das quais pela primeira vez) a colocá-las. Tudo desde “o que é que faz o maestro”, “porque é que a orquestra está assim dividida em secções” até ao indispensável “posso aplaudir agora?” tem aqui uma resposta (ler mais em Overcoming cultural barriers: romancing the newcomers in Millennium Park). Em Londres, a Opera Holland Park convida as pessoas a assistirem aos seus espectáculos disponibilizando bilhetes a preços acessíveis, mas, sobretudo, criando um ambiente de informalidade, onde as pessoas, sobretudo aquelas que vêm pela primeira vez, não precisam de se preocupar com a etiqueta. Ainda em Londres, o Royal Ballet apresentou em Março passado em directo no You Tube um dia de trabalho nos seus bastidores (ler aqui), dando a conhecer alguns aspectos que o público raramente ou nunca tem a oportunidade de conhecer ou de acompanhar.

Uma outra forma de aproximação ainda é a imagem que as instituições procuram projectar sobre elas próprias e a natureza da sua oferta através dos seus spots publicitários. O blog
Slipped Disc apresentou vários deles nos últimos dias e é notória a intenção de transmitir a ideia de que a experiência é divertida, descontraída e relevante. São disso exemplo os spots da Orquestra Filarmónica Checa ou da Orquestra Filarmónica de Luxemburgo, mas eu convidava a ver ainda este, sobre o Royal Ballet (“Not what you think”), que, diz-se, foi criado por um bailarino e não foi ‘assumido’ pelo Royal Ballet (e se assim é, que pena…).



Há ainda outras questões, que se prendem com o repertório, os compositores, a sua vida e obra. O anteriormente referido Grant Park Music Festival, para além de disponibilizar ‘explicadores’, proporciona momentos de convívio com maestros e músicos, onde se pode conversar sobre o programa. Entre as minhas experiências pessoais nesta área, destacaria duas. Primeiro, uma conversa fascinante no ano passado entre o musicólogo Rui Leitão e uma dezena de pessoas antes de um concerto da Metropolitana. Não foi apenas a simplicidade do seu discurso que me agradou, totalmente acessível para quem pouco conhecia, mas também o facto de quem conhecia um pouco mais ter descoberto - sim, naquela abordagem tão simples e informal - tantas coisas, pormenores maravilhosos, que desconhecia. Em segundo lugar, o concerto de apresentação da temporada 2011-2012 da National Symphony Orchestra no Kennedy Center, onde foi impossível resistir à energia contagiante do maestro Ankush Kumar Bahl, que com muito entusiasmo, sensibilidade, paixão e sentido de humor contou pequenas histórias e criou lindos contextos a propósito dos destaques da programação aí apresentados. O que caracterizou ambos os discursos era a plena consciência que não se estavam a dirigir aos seus pares, conhecedores profundos, mas sim, ao público ‘geral’ e interessado, com o qual muito gostariam de poder partilhar esta experiência.

Anna Nicole Smith na Royal Opera House (foto retirada do site da ROH)

Mas esse mesmo repertório não estagnou. 
Naturalmente, continua-se a criar, a renovar, a procurar até novas formas de apresentação, para se relacionar com mais pessoas. A Minnesota Opera aposta nas encomendas porque vê a necessidade de evoluir, de avançar, de tornar a arte operática numa forma de arte progressiva, ambiciosa, inovadora. Uma das suas últimas produções é uma ópera para público juvenil, baseada num livro popular, The Giver (ver aqui entrevista com os responsáveis). Deveríamos ainda mencionar exemplos como a controversa aposta da Royal Opera House numa ópera sobre a vida da playmate Anna Nicole Smith (ver o trailer aqui) ou a nova produção do Royal Ballet, que junta bailarinas a cantores pop e rappers (ler aqui). E para além destas experiências de ‘fusão’ (artística e não só), vale a pena ainda conhecer os Alarm Will Sound, um grupo de música contemporânea que procura tocar as pessoas, independentemente do seu background, através de concertos-performance. Dizem-se conscientes de que os concertos de música contemporânea são um pouco frios, porque as pessoas não estão familiarizadas com este género musical. Assim, através da sua música, mas também dos seus corpos, energia e entusiasmo, comunicam o que a música é. E o que é pouco familiar pode ganhar sentido.

  

E depois de tudo isto, vem o chamado
Churn Report (Orchestra Audience Growth Initiative) dizer que afinal o problema não é trazer novas pessoas, é convencê-las a voltar… O estudo mostrou que 90% das pessoas que vêm a um concerto pela primeira vez, não regressam; e 60% dos espectadores ocasionais não compram bilhetes para a temporada seguinte. Algo que chamou em particular a minha atenção neste relatório é que os gostos das pessoas que vêm pela primeira vez e das mais assíduas quanto a compositores e instrumentos favoritos não são tão diferentes quanto se poderia pensar (ver quadros) - afinal, talvez não seja tão complicado programar para ambos. Vale a pena ler os resultados e as propostas deste estudo, que prova, mais uma vez, que não é apenas a arte que determina as opções das pessoas (e por isso, a não participação não indica necessariamente um ‘problema’ com a arte em si), mas sim a experiência como um todo, com a qual é preciso criar familiaridade, não desvalorizando, ao mesmo tempo, aqueles detalhes práticos e logísticos que poderão constituir barreiras, por muita que seja a vontade de assistir. 


*
Dados do inquérito realizado aos visitantes do Re-Rite no MUDE, gentilmente cedidos pelo Serviço de Música da Fundação Calouste Gulbenkian.


Ainda neste blog 

Convite para a festa 
Por falar em ‘novos’ públicos 
A diferença entre ‘mais’ e ‘diversos’  
La crise oblige? (ii) Desafios da programação  

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How Symphonies Grew Strong Audiences By Killing The Myth Of The Average Consumer 
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Sydney Dance Company attendance doubles 
I’m ready for my close-Up, Mr. Puccini 
Streaming ahead 
Minnesota Opera premieres a new opera for youth based on Lois Lowry’s classic novel, “The Giver”
My very first night at the opera 

Monday, 7 May 2012

Blogger convidado: "Eu, tu e os outros", por Eva-Kaia Vabamäe (Estónia)

Conheci a Eva-Kaia Vabamäe numa acção de formação em Setembro passado. Há poucos dias, surpreendeu-me com um texto que escreveu, inspirada num post meu publicado recentemente, sobre os desafios enfrentados pelos museus estónios na apresentação da história do seu país, criado há aproximadamente 20 anos. Pedi permissão para reproduzir o seu texto. Isto fez-me pensar que há sempre tantas realidades que desconhecemos. Assim, nas próximas semanas haverá mais textos, da Espanha, do Brasil, do Egipto, da Ucrânia, dos EUA e da Nigéria. E espero que mais se seguirão. mv

Maqueta do novo edifício do Museu Nacional de Estónia (imagem retirada do site  A10.eu - New European Architecture)

Maria Vlachou, uma museóloga grega que actualmente vive e trabalhe em Portugal, escreve no seu blog Musing on Culture sobre as histórias que se contam em contexto museológico. Concentra-se principalmente sobre o como uma história pode soar totalmente diferente dependendo da nação que a esteja a contar (por exemplo, o conflito sem fim entre os países vizinhos da Grécia e da Turquia). Isto lembrou-me do papel importante dos museus quando se repensa ou se explica a história ao público.

Vindo de um país minúsculo como a Estónia (apesar, naturalmente, de ter um espírito enorme), com uma população de menos de 1,5 milhão, estamos habituados a imaginar que estamos em oposição a outras nações. Esta foi uma estratégia de sobrevivência ao longo de vários períodos, quando os opressores tentaram absorver-nos noutras nações, maiores. A nossa história consiste sobretudo de batalhas para a nossa identidade; batalhas para a oportunidade de termos a nossa república e a nossa cultura. Naturalmente, isto significa que frequentemente houve um outro a quem nos opusemos, alguém que ganhou o jogo apenas por ser mais ‘pesado’. Por isso, as histórias de sucesso na história da Estónia normalmente consistem de relatos sobre uma nação que é esperta como uma raposa, incrivelmente persistente e ganha a luta com truques extremamente simples (quem acreditaria que uma nação pode ganhar a sua liberdade cantando, no entanto, esta é uma história verídica). Conforme disse o antropólogo americano Paul Firnhaber na última masterclass sobre museus organizada pelo Museu Nacional da Estónia, tivemos apenas um herói militar, Lembitu, que viveu no século XIII e, na verdade, não conseguiu muito.

Quando tomamos em consideração este passado, não é de admirar, de facto, que normalmente contamos histórias do nosso próprio ponto de vista, dos Estónios. Ao mesmo tempo, ganhámos a nossa independência há pouco mais de 20 anos e antes disto tivemos a ocupação soviética, conhecida pelo seu hábito de re-escrever a história para servir ambições políticas. Assim, obviamente, os historiadores têm tido muito trabalho em re-escrever a nossa história e há ainda muito por reavaliar. Mas quantas vezes pensamos em como outras nações vêem os mesmos eventos? Quais seriam as histórias das nossas minorias étnicas? Como seriam as histórias dos nossos vizinhos e como é que tudo isto foi visto do outro lado do oceano? Estamos apenas a começar a contar estas histórias e será um grande desafio para uma nação tão pequena que tem estado a lutar sobretudo pela sua própria sobrevivência.

Voluntários que se reúnem no caminho para a Mansão Raadi para limparem o terreno. Raadi é um lugar que poderia contar histórias muito controversas. No meio de campos e prados, construiu-se no século XIX uma mansão alemã báltica; depois, nos anos 20 do século passado, a primeira galeria de exposições do Museu Nacional da Estónia; a seguir, durante a guerra fria, tornou-se num aeródromo militar soviético; por fim, nos anos 2000, foi a área designada para o novo edifício do MNE, cuja construção iniciar-se-á em breve (Foto gentilmente cedida pelo MNE).
Como escreve Maria Vlachou, as pessoas costumavam procurar nos museus a ‘verdade’. Os museus têm a autoridade para decidir o quê e como vai ser exposto. Isto coloca uma responsabilidade enorme nos ombros dos especialistas porque, como teremos todos reparado, raramente existe apenas uma opinião, ‘correcta’ e objectiva, sobre a história do mundo. Hoje a museologia diz-nos que os museus não deveriam ditar a verdade, mas apresentar uma variedade de narrativas diferentes. Posto de uma forma mais simples, esta teoria é parecida ao provérbio que diz: “Não dês ao esfomeado um peixe, mas sim cana e ensina-o a pescar”, o que significa que o museu deve acreditar o suficiente no seu visitante para o deixar decidir por si próprio, com base nestas diferentes narrativas.

O Departamento de Culturas Étnicas do Museu Nacional de Estónia está neste momento a ajudar o Museu Valga no desenvolvimento do projecto para uma exposição inclusiva com e sobre a comunidade Roma. O começo tem sido bastante complicado, sobretudo no que diz respeito à parte ‘inclusiva’. Tivemos que explicar várias vezes que não estamos a fazer dinheiro com isto, porque a comunidade Roma tem tido experiências negativas com outros projectos, onde sentiram que foram simpesmente usados para as estatísticas, sem se esperar deles um verdadeiro contributo.

Como parte do processo de preparação, um colega e eu assistimos a um seminário na semana passada. Era um seminário para professores e foi pedido a uma mulher Roma, que dirige a ONG cultural local, para falar sobre a sua cultura. Desta vez, como dantes, ela perguntou: “Porquê agora? Ninguém se preocupou connosco durante centenas de anos, porquê agora?”. Penso que é porque estamos finalmente preparados para contar mais histórias do que a nossa própria. E, com base na pergunta de um participante (lembro-vos que isto era para professores!) - “Porque é que deveria respeitar-te quando não sei nada sobre ti?” - , diria que é mais que necessário começarmos a contá-las!

[Texto inicialmente publicado no blog do Eesti Rahva Muuseumi (Museu Nacional de Estónia)]


Eva-Kaia Vabamäe trabalha actualmente no Museu Nacional da Estónia, no Departamento de Culturas Étnicas. O seu trabalho é ajudar museus de diferentes tipos a desenvolver estratégias de exposições, educação e comunicação. Isto inclui organizar workshops e cursos de formação, mas também trabalhar em vários outros projectos, como o desenvolvimento de uma sala de exposições para o novo edifício do MNE que envolverá a comunidade; a criação de um programa de verão para crianças sobre culturas étnicas; a organização de workshops para educadores de museus; a exposição mencionada no artigo sobre a comunidade Roma, etc. Nascida e crescida na Estónia, é licenciada em Design e Conservação e recentemente finalizou o seu mestrado em História de Arte com tese sobre os interiores históricos dos Alemães Bálticos, outrora uma minoria muito significativa em termos culturais e económicos.

Monday, 30 April 2012

Barcelona: 1 conferência, 2 museus a pô-la à prova

Na semana passada estive em Barcelona e assisti à conferência Glocal Audiences in Culture: Global Cities, Local Audiences, uma iniciativa da Audiences Europe Network. No programa constavam tanto museus como instituições ligadas às artes performativas, dois mundos que raramente se cruzam e discutem em conjunto questões que lhes são comuns.

Não poucas vezes, nestas conferências tomamos conhecimento de projectos que parecem conseguir dar resposta a todos os nossos desejos e preocupações, mas cuja apresentação resta algo superficial. Ficamos sem saber
como é que foram desenvolvidos e de que forma tem sido avaliado o seu sucesso. Esta conferência não foi excepção, mas, mesmo assim, houve alguns momentos e discussões de particular interesse. O programa era composto por uma sessão introdutória e cinco painéis, dos quais procurarei fazer aqui um brevíssimo resumo.


Sessão introdutória: Tourism vs. local audiences
Foram aqui apresentados os resultados de estudos de público que indicam que a grande maioria dos espanhóis não visita museus no seu país, mas não deixa de o fazer quando viaja no estrangeiro; que mais de metade dos visitantes dos museus de Barcelona são estrangeiros e 27% residentes nesta cidade. A percepção dos visitantes é que “museu” significa “aprender”, “curiosidade”, “paz”, “admiração”, “descoberta”; para os não-visitantes ou visitantes ocasionais significa “aborrecimento”, “esforço”, “incompreensão”, “descoberta”. Os oradores falaram da necessidade de criar um sentimento de pertença nas comunidades locais, de estabelecer ligações emocionais, de criar espaços de encontro. Devemos admitir que nada disto é novo. Fiquei, por isso, a pensar se necessitamos mesmo de continuar a investir neste género de estudos (pontuais e que dizem respeito à relação dos públicos com os museus em geral), em vez de trabalharmos no sentido de mudar estes indicadores. Por outro lado, no caso de museus que têm os meios de fazer estudos de público continuados (ficámos aqui a conhecer o caso do Louvre), que lhes permitem avaliar o seu trabalho ao longo do tempo e registar alterações e novas tendências, encontramos, com certeza, indicadores muito relevantes de mudança.


Painel 1: Big museums for local audiences
Foi aqui reiterada a necessidade de concentrar no indivíduo, de adaptar a oferta às necessidades de cada um. Será mesmo que museus como o Prado e o Louvre, que recebem milhões de visitantes por ano, consigam cumprir este objectivo? É isso que não ficámos a saber neste painel. A simples apresentação de iniciativas não chega para percebermos se o objectivo está a ser atingido. Entretanto, foram aqui referidos alguns pontos que merecem ser reflectidos: a importância de recolher, usar e partilhar dados; de procurar novas parcerias, também com museus mais pequenos, localizados na área de acção dos ‘grandes’; de sair dos limites do próprio museu e ir ao encontro das pessoas; por fim, de considerar como indicador de desempenho não apenas o número de visitantes, mas também o facto do museu ter conseguido (ou não) satisfazer as expectativas dos visitantes.


Painel 2: Pricing strategies in time of crisis

Eis um painel que não satisfez as expectativas. Foram apresentadas políticas de descontos - as habituais, as que sempre existiram - sem a reflexão esperada sobre os desafios colocados pela actual crise económica. Desafios estes que têm essencialmente a ver, na minha opinião, com as pessoas que costumam frequentar espaços culturais (com maior ou menor frequência) e que poderão ter agora um poder de compra mais limitado. Como fazer para continuar a providenciar acesso a quem deseja visitar / assistir, garantindo ao mesmo tempo alguma receita para as nossas instituições? Quanto às entradas gratuitas e à ilusão que trazem, só por si, pessoas que não têm o hábito de visitar / assistir, pareceu-me haver consenso (pelo menos não se ouviram vozes contrárias): esta é mesmo uma ilusão.


Painel 3: From user to client
Foram aqui levantadas questões muito pertinentes sobre a necessidade de colocar a pessoa (visitante / espectador) no centro dos nossos planos estratégicos, de criar novos públicos (eu deixei de usar esta expressão, mas é isto que foi dito) através do marketing relacional, de criar proximidade e um atendimento personalizado, de aproveitar as ferramentas de Customer Relationship Management (em Portugal, parece-me que apenas o CCB tem recorrido a estas ferramentas). Falou-se ainda da importância de saber manter um equilíbrio entre os desejos do público e as necessidades da programação (o que me fez pensar no interessantíssimo debate Lead or Follow, que teve lugar em Janeiro e cuja leitura recomendo).


Painel 4: Tourist cities for local audiences
Este foi para mim o painel mais interessante, onde foram realmente partilhadas e discutidas reflexões e preocupações sobre a tensão criada, em cidades de várias dimensões, entre a comunidade local e os turistas. Há uma necessidade real de se manter relevante para públicos muito diferentes, o que obriga a pensar estratégias muito concretas para nutrir e manter a relação com o público local (desde a programação específica à oferta de café). O caso que mais me chamou a atenção foi o do Hermitage Amsterdam, que ‘teima’ em se posicionar como um destino internacional, quando os turistas não o vêem como tal e a comunidade local, com a qual estabeleceu já uma relação muito forte, aprecia em particular o facto deste museu não atrair os numerosos turistas que invadem outros museus dessa cidade.


Painel 5: Cultural institutions take the street
E foi este último painel que nos reservou uma bonita surpresa. Um projecto inspirador e de grande impacto: The Grand Tour foi uma iniciativa da National Gallery de Londres, em parceria com a Hewlett Packard (HP), que espalhou pelo centro da cidade, em lugares às vezes muito inesperados e escolhidos com muito sentido de humor, cópias (impressões) de alta qualidade dos seus mais conhecidos quadros. Os objectivos eram: tornar o museu mais conhecido; informar o grande público que algumas das pinturas mais conhecidas se encontram nele; informar ainda que a entrada ao mesmo era gratuita; motivar as pessoas para falar de arte. Ao lado de cada cópia, uma legenda dava informações básicas sobre a obra original e um número de telefone para mais informações. Informações podiam também ser lidas ou retiradas do microsite da iniciativa. O museu considera que a missão foi cumprida: o número de visitantes aumentou significativamente, sendo que muitos chegavam ao museu com o mapa criado para esta iniciativa em mão, à procura das obras originais. As fotos falam em muitos casos por si, no entanto, foi também publicado um livro sobre esta experiência e as reacções do público.


Foto retirada do blog The Crossed Cow

Foto retirada do blog The Crossed Cow

Foto retirada do blog The Crossed Cow

Aproveitei os meus dois dias em Barcelona para visitar dois dos meus museus favoritos. Ao chegar ao Museu Marítimo, fiquei a saber que a exposição permanente estava encerrada devido a obras. Não me lembrava de ter visto um aviso no site do museu (que está apenas em catalão e castelhano), mas quis verificar quando regressei ao hotel: não existe aviso. Assim, visitei uma exposição temporária sobre o Titanic. Antes, procurei o bengaleiro para deixar a minha mala que pesava, mas não havia. Ao entrar, recebi um audioguia (este, sim, em mais que duas línguas), que obrigava o visitante a seguir um determinado percurso, sem poder escolher sobre que objectos ou secções gostaria de ouvir mais informações. No caso de vitrines pequenas, acumulavam-se tantas pessoas à frente das mesmas, que era impossível ver os objectos sobre os quais estávamos a receber informação. Desliguei o audioguia e limitei-me à leitura de algumas legendas. Ao atravessar as várias secções da exposição, em vários momentos fiquei sem saber se os objectos à minha frente eram originais ou reproduções (um museu tem a obrigação de assinalar esta diferença). Dirigi-me a três funcionários para obter informações sobre isto, todos muito simpáticos, mas nenhum deles falava inglês.


Museu Marítim de Barcelona, exposição "Titanic" (Foto: mv)
No dia seguinte era a vez do Museu de História da Catalúnia, um dos melhores museus de história que conheço. Fiquei contente por encontrar legendas em inglês desta vez. No passado, não conseguia perceber como é que no museu de história de um povo que reclama a sua diferença e autonomia esta mesma história não era contada aos visitantes estrangeiros, pelo menos em inglês. Por outro lado, o amigo francês que me acompanhou nesta visita, professor de história no Liceu Francês de Barcelona há quatro anos, nunca tinha ouvido falar deste museu, entrava pela primeira vez (e ficou maravilhado). Não seria de esperar que entre os públicos-alvo prioritários deste museu estariam os professores de história da cidade e da região?


Museu d´Història de Catalunia (Foto: mv)
Estes são, sim, dois dos meus museus favoritos nesta cidade, porque sabem contar uma boa história. No entanto, ambos puseram as reflexões e conclusões da conferência à prova e lembraram-me que, em muitos casos e mesmo em situações que poderíamos considerar óbvias e ou de simples resolução, a teoria continua ainda muito distante da prática. Porque será?


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Monday, 16 April 2012

As histórias que contamos a nós próprios

Aos 11 anos, em visita a Constantinopla, fiquei surpreendida quando, devido a uma avaria no nosso carro, várias pessoas procuraram ajudar-nos e não desistiram nem nos atacaram quando souberam que éramos Gregos (era suposto odiarmo-nos mutuamente). Aos 12, fiquei chocada quando ouvi num documentário estrangeiro que Alexandre o Grande era um imperialista e assassino de povos (era suposto todos o admirarem e reconhecerem a sua grandeza). Aos 19, de novo na Turquia, em Smirna, fiquei perplexa quando um velho pescador, ao saber que éramos Gregos, começou a chorar e disse que era de Creta (mas não falava grego, como seria suposto). Nessa mesma viagem, chegando a Afyonkarahisar, senti-me desconcertada ao ver na praça central uma estátua que representava a luta entre um Turco e um Grego, este último caído no chão (era suposto os Gregos estarem sempre de pé). Aos 23, numa visita a um museu de história em Halifax na Inglaterra, fiquei indignada ao ver fotografias de combatentes da resistência cipriota contra os colonos britânicos onde eram referidos como “terroristas” (era suposto serem celebrados por todos como heróis).

Afyonkarahisar, Turkey (Foto: mv)
São estes alguns dos momentos em que ‘a minha história’ foi desafiada. O embate foi marcante, em todos eles. Profícuo também. Porque, à medida que a surpresa, o choque, a perplexidade ou a indignação abrandavam – mas, também, quanto mais viajava, quanto mais gente conhecia -, construía-se uma consciência de que havia mais histórias, para além da minha, mas que me diziam também respeito, que vinham complementar a minha, às vezes contrariando-a. Tem havido mais momentos desses, mas agora são, de alguma forma, ‘esperados’, são bem-vindos, não são sobretudo chocantes, desconcertantes ou indignantes. São mais uma revelação, trazem o prazer da descoberta e do conhecimento, proporcionam uma aproximação, um outro entendimento, sem resultarem necessariamente num acordo.

De uma forma ou de outra, os museus de todos os géneros contam histórias, fazem interpretações. Há quase 20 anos, iniciava os meus estudos em museologia. Nas primeiras leituras, nos primeiros trabalhos que fiz para o curso, várias vezes encontrava referências ao facto das pessoas reconhecerem ‘autoridade’ aos museus, procurarem neles a ‘verdade’, confiarem neles e considerarem-nos importantes, mesmo as que nunca os visitavam. Na altura, parecia-me que assim deveria ser e reconhecia a enorme responsabilidade que esta confiança das pessoas trazia para os profissionais dos museus no trabalho de interpretação das colecções, interpretação essa que deveria ser ‘objectiva’. Quase 20 anos depois, os museus que mais aprecio são aqueles que não se assumem como ‘autoridade’, que não pretendem ser ‘objectivos’, que aceitam a pluralidade de narrativas (vindas também de não especialistas) e que não têm medo de criar espaço para que as mesmas se exprimam e se partilhem. Os museus que mais aprecio são aqueles que se questionam a eles próprios e que me questionam a mim, questionam ‘a minha história’.

Uma recente visita ao Musée do Quai Branly, a minha primeira, fez-me pensar novamente sobre estas questões. Lembrei-me de toda a polémica gerada pela criação deste museu, que veio juntar as colecções do laboratório de etnologia do Musée de l´Homme e do Musée des Arts de l´Afrique et de l´Océanie. Nas palavras do Presidente Jacques Chirac aquando da inauguração, este museu representa a rejeição do etnocentrismo, desta pretensão irrazoável e inaceitável do Ocidente de carregar, apenas nele próprio, o destino da humanidade. Representa a rejeição do falso evolucionismo que alega que alguns povos permanecem numa fase anterior da evolução humana e que as suas culturas, ditas “primitivas”, servem apenas como objectos de estudo dos antropólogos ou, na melhor das hipóteses, como inspiração a artistas ocidentais.

No tempo que antecedeu a abertura do museu foi realizado um estudo com o objectivo de dar a conhecer o ponto de vista dos públicos acerca da sua criação. Os resultados, apresentados no artigo Du MAAO au Musée du Quai-Branly: Le point de vue des publics sur une mutation culturelle, permitem-nos concluir que as preocupações e expectativas dos cidadãos centravam-se em duas questões: Quai Branly deveria ser um museu de arte ou de etnologia; e deveria ser um museu sobre o colonialismo ou deveria ser uma espécie de ponto final numa história incómoda e dolorosa e um novo ponto de partida. Estas mesmas questões foram igualmente objecto de reflexão e de críticas por parte dos especialistas.

Na exposição permanente do Quai Branly encontrei um museu de arte. Um museu que me convidou apenas a contemplar e apreciar objectos bonitos. Não era isso que procurava e não me parece que é com esta abordagem que se consegue “rejeitar o etnocentrismo” e elevar a cultura de outros povos ao estatuto “merecido”. A exposição permanente não conta, na verdade, história nenhuma, muito menos a da formação da própria colecção.

(Imagem retirada do website do Musée du Quai Branly)
No entanto, o Quai Branly oferece muito mais: exposições temporárias (estas, sim, inquisitivas, desconcertantes, surpreendentes, como, actualmente, a Exhibitions: L´invention du sauvage), colóquios, visitas guiadas, ateliers, cinema, teatro, dança, música. Uma riquíssima programação paralela que pretende complementar a exposição permanente, explorá-la, esmiuçá-la, pôr, realmente, as culturas em diálogo (o motto do museu é Là où dialoguent les cultures).

Mas, mesmo assim, senti que aqui pode ainda existir um senão. Senti que o diálogo poderá ser apenas entre a ‘nossa’ cultura e a ‘deles’ (e talvez sobretudo numa espécie de apologia, ‘nossa’ para com ‘eles’). No artigo The Opening of the Musée du Quai Branly: Valuing/Displaying the "Other" in Post-Colonial France, de 2006, lê-se que o museu foi concebido e construído sem procurar o contacto com as minorias, a não ser na semana de inauguração - numa manobra de marketing, na opinião de um entrevistado -, para garantir uma reacção positiva . Por outro lado, em The Public Sphere as Wilderness: Le Musée du Quai Branly (que data de 2009 e apresenta um interessantíssimo balanço dos primeiros anos de existência do museu, assim como uma extensa lista de referências no fim), vemos que apenas um terço dos visitantes eram, na altura, turistas (entende-se ‘turistas estrangeiros’), sendo que, entre os restantes visitantes, 60% eram visitantes frequentes de museus e 40% um novo público de museus, atraído pelas ligações que o museu fornece entre eles e as suas culturas de origem. Estas são as estatísticas. Eu, na sessão (muito divertida) de um contador de histórias Africano num Domingo de manhã vi apenas famílias brancas. Nas fotografias que ilustram a brochura da programação Março-Maio também só se vê público branco. Será esta uma coincidência?

(Foto: mv)
Apesar do desafio da partilha de ‘autoridade’ ser comum a todos os museus, sempre senti que a tarefa fosse particularmente complexa no caso dos museus de história ou de etnologia. Museus que lidam com histórias de vida, com acontecimentos políticos, com traumas, com conflitos, com ódios, com o ‘nós’ e ‘os outros’, com pessoas. Visito-os sempre com a enorme curiosidade de ver se aceitaram o desafio e de que forma lidaram com ele. Por coincidência, umas semanas antes de visitar o Quai Branly, tinha visto este vídeo da escritora Nigeriana Chimamanda Adichie, The stories Europe tells itself about its colonial history. Saber do ‘outro’ é ouvir a sua voz. Na primeira pessoa. Para isto acontecer, tem que se proporcionar um encontro. É isto que os bons museus sabem fazer: criar espaços de encontro. De diálogo também.




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Mais leituras
Jeremy Harding, At Quai Branly

Monday, 2 April 2012

Ministério da Cultura: qual cultura e de quem?

“A protecção dos direitos humanos, em uma sociedade cultural, requer a observância dos direitos culturais, enquanto direitos universalmente aceites. Não há direitos humanos, nem tampouco democracia, sem a justiça cultural, sem a diversidade e pluralismo cultural e, nem tampouco, sem que se assegure o direito de existir, o direito à visibilidade, o direito à diferença e à dignidade cultural.” Flávia Piovesan em Construindo a Democracia: prática cultural, direitos sociais e cidadania


Coreto em Alpalhão, Portalegre (imagem retirada do blog À espera de Godot)
Um rapazinho de 11 anos disse-me um dia destes que só quando vai de férias ao Algarve pode ir ao cinema, porque em Évora, onde reside, não há cinema. Primeiro senti-me incrédula; depois chocada; depois envergonhada; no fim, revoltada. Évora, capital de distrito, cidade universitária, não tem cinema em 2012.

Isto levou-me a pensar novamente na entrevista de António Gomes de Pinho no Câmara Clara (26.02.2012), onde disse que a manutenção de um Ministério da Cultura, que tinha vindo a perder peso político, era um custo exagerado, um consumo auto-fágico; por isso, António Gomes de Pinho tinha vindo a defender a extinção do mesmo, a redução dos serviços e a afectação dos recursos aos criadores, que são quem faz a cultura.

Por muito que concorde com a primeira parte deste raciocínio, não posso concordar com a solução proposta. A existência de um Ministério da Cultura não se justifica, em primeiro lugar, para apoiar os criadores e a sua extinção não afecta (no sentido de beneficiar ou de prejudicar), em primeiro lugar, a criação. Um Ministério da Cultura existe para que o rapazinho de Évora (e muitos outros rapazes e raparigas, homens e mulheres, em todo o país) possa ver cinema; possa ir ao teatro; possa assistir a concertos; possa visitar um museu; possa ter uma biblioteca. Existe também para proteger e salvaguardar, para todos nós, a herança cultural e para criar as condições necessárias para que algumas pessoas possam dar asas à sua criatividade e partilhá-la com todos nós, dando o seu contributo para aquilo que será a herança de gerações futuras. Existe para garantir que o sector seja ‘povoado’ por profissionais adequadamente preparados, do ponto de vista técnico, para as funções que estão a desempenhar. Existe ainda para contribuir para a formação de cidadãos atentos, críticos, sensíveis, tolerantes, intervenientes. Um Ministério da Cultura existe, em primeiro lugar, para garantir o acesso dos cidadãos à dita, sendo este um direito humano que todos os Estados têm a obrigação de defender.

No entanto, a dialéctica da maioria dos profissionais do sector cultural está bastante afastada da defesa deste direito fundamental. Deixando a sociedade de lado (esquecendo-se dela?), parece-me que o nosso discurso está sobretudo concentrado na reivindicação de apoio financeiro por parte do Estado e a nossa voz é normalmente (e, cada vez mais, esporadicamente) ouvida após anúncios de cortes ou de extinções ou, às vezes, de nomeações. Somos um sector bastante egocêntrico (apesar de existirem, sim, ilustres excepções - a começar pelos serviços educativos de muitos museus deste país) e não nos preocupamos o suficiente pelo facto de, quando reclamamos, estarmos a reclamar sozinhos, nós por nós, sem o envolvimento ou o apoio de grande parte da sociedade (ou até de uma pequena parte). Quando confrontados com esta realidade, preferimos pensar que se trata de um desinteresse da sociedade pela “cultura”. Qual cultura? De quem?

O discurso do encenador e director dos Artistas Unidos Jorge Silva Melo foi, por isso, uma agradável excepção. Ao comentar o anúncio do corte de 100% nos apoios anuais e pontuais (SIC, Edição da Manhã, Revisão de imprensa, 17.03.2012), Jorge Silva Melo deu uma orientação diferente a tudo isto, centrando as suas preocupações no espectador: “(…) Eu, como espectador, vou deixar de ter espectáculos em que possa descobrir jovens talentos, jovens afirmações. (…) Os apoios não são para financiar os artistas, os apoios são para financiar o espectador. Porque se eu quiser ir ver um espectáculo do colectivo Truta, se ele não tiver apoio, terei que pagar mais ou menos 100 Euros por bilhete e não tenho esse dinheiro. E tenho direito de ver aquilo que os jovens criadores andam a fazer, a inquietar-se, a pensar. É esse apoio que a mim, enquanto espectador, me é retirado. (…)”.

Se bem que a reflexão de Jorge Silva Melo incida sobre um ponto muito concreto - um dos muitos com os quais um Ministério da Cultura se deveria preocupar (continuemos a falar a esse ‘nível’, de Ministério, mesmo que a nossa realidade seja ‘menor’), é um exemplo sobre a forma como deveríamos estar a construir a nossa argumentação: não esquecendo e não deixando esquecer em momento nenhum ao serviço de quem está o Estado; ao serviço de quem está um Ministério da Cultura; para quem existem os museus públicos; ou com quem pretendem comunicar, partilhar a sua reflexão, os criadores e artistas apoiados; entre muitas outras coisas.

Por outro lado, tanto nós, profissionais do sector, como a tutela, devemos tomar consciência o mais rapidamente possível que é obrigatório, urgente, abrirmos o debate, envolvermos a comunidade, procurarmos - quando apoiamos, quando programamos, quando planeamos, quando divulgamos - uma maior representatividade das várias realidades culturais do país, procurarmos o pluralismo e o respeito pelos anseios, preocupações, necessidades e gostos de muitos cidadãos (criadores e público) e não apenas de uma minoria. Porque a maioria dos cidadãos não tem falta de interesse pela cultura em geral; mas talvez tenha, sim, pela ‘nossa’.


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António Pinto Ribeiro, O Ministério dos Assuntos Culturais

Monday, 19 March 2012

Líderes precisam-se

It's too easy to blame the organization and the system and the bottom line for decisions that a person would never be willing to take responsibility for. Whenever you can, work with people who take it personally.” Seth Godin no seu blog

Wangari Maathai (Foto retirada do site The Green Belt Movement)

Foi com muita curiosidade que comecei a ler no outro dia o artigo Good bosses are the same today as they were in 1992, porque penso muitas vezes naquilo que faz de uma pessoa um bom líder (independentemente da escala). O autor do artigo, Robert Sutton, afirma que muitas coisas podem estar a mudar, podem ter que ser reinventadas, mas não a definição de um grande líder (ou chefe ou gestor ou director). E passo a citar: “(…) Nós, humanos, ansiamos por seguir outros que são competentes o suficiente para trazer recursos, ensinar-nos novas competências e gerar atenção e prestígio perante pessoas influentes (…) Queremos também líderes justos, que nos protejam, que nos façam sentir acarinhados e respeitados, que injectem humanidade (…) Conforme mostra a investigação de mais de cinquenta anos, tratar as pessoas com respeito, encorajá-las a participar e a fazer sugestões, ouvi-las é tão importante como sempre foi. O mesmo é verdade quanto ao estabelecer um caminho claro, tomar decisões e assumir a responsabilidade (…)”.

Encontro nestas palavras muitas das coisas sobre as quais tenho reflectido ao ler as biografias de pessoas que considero que foram bons líderes, ao pensar em pessoas que foram meus superiores, ao avaliar-me a mim própria como chefe de equipas ou ao analisar, ultimamente, os casos de organizações que têm enfrentado grandes desafios e as atitudes e opções tomadas pelas pessoas que as dirigem. Um líder reúne qualidades que lhe permitem traçar e seguir um caminho, mas ao mesmo tempo inspirar, juntar e guiar muitas outras pessoas, que são essenciais para a concretização da sua visão e o cumprimento da missão. E algo em que penso muitas vezes é que, ao longo deste percurso – muitas vezes difícil, complicado, desanimador, esgotante e até solitário - uma das coisas que distinguem um líder é o facto de saber dizer “não”, quando seria muito mais fácil e cómodo dizer “sim”.

Isto leva-me ao caso do Penumbra Theatre, que recentemente uma amiga trouxe à minha atenção. Aberto desde 1976 na cidade de St. Paul (Minnesota, EUA), assume como missão promover o respeito e a tolerância através do diálogo sobre questões de raça e racismo. O teatro é conhecido por assumir riscos, esticar os limites e introduzir novas vozes no teatro americano. No entanto, o Penumbra Theatre passou por um momento particularmente difícil no início dos anos 2000. Um subsídio estatal considerável, que lhes deu segurança para poderem investir na construção de um novo teatro, acabou por ser vetado, deixando-os seriamente endividados. As consequências foram as esperadas: funcionários desmotivados e frustrados, membros do board que deixaram de confiar na missão do teatro, doadores (ou seja, mecenas, patrocinadores e membros) que começaram a questionar a gestão financeira da estrutura e o encerramento a tornar-se quase realidade. Foi criada uma comissão de reestruturação e, com o objectivo de começar por reconstruir a confiança dos doadores, contratou uma gestora experiente e persistente, Chris Widdess, que, por sua vez, destacou três áreas-chave: reassumir o compromisso relativamente à missão do teatro, àquilo que o torna único e essencial; construir relações a longo prazo, interna e externamente; e criar um plano a longo prazo. Vale mesmo a pena ler aqui tudo sobre este estudo de caso, no entanto, aquilo que, de modo particular, chamou a minha atenção foi a afirmação de Widdess que dizer "não" foi fundamental no processo de reestruturação. Acredito que assim tenha sido, e que tenha acontecido porque tanto Widdess como Lou Bellamy, fundador e director artístico do Penumbra Theater, têm uma ideia clara sobre a missão do teatro e o futuro que querem traçar para ele. Foi essa missão, essa visão, que quiseram partilhar tanto com os doadores como com os espectadores. E fizeram o que foi necessário para a defender, incluindo dizer “não”. Quatro anos depois, em 2007, o Penumbra Theatre tinha recuperado.

Foi também no 'saber-dizer-não' que pensei quando vi o programa do Câmara Clara sobre o “Como funcionam os dinheiros para a cultura”, com António Gomes de Pinho e Pedro Gadanho. O programa preparou uma reportagem sobre o modelo de financiamento americano na qual o jornalista responsável afirmava que todos os anos a Metropolitan Opera apresenta as mesmas obras populares, porque é isso que os mecenas querem (terá sido esta uma afirmação baseada em informações dadas por fontes seguras?). No mesmo programa, foi feita referência ao apoio público como garantia essencial para a autonomia na programação. Pedro Gadanho – curador no MOMA – foi rápido em esclarecer que não sente nenhuma pressão no exercício das suas funções por parte dos mecenas e que actua com perfeita autonomia. No entanto, eu diria que esta questão não está propriamente relacionada com o dilema “apoio público ou apoio privado?”. Tanto pode haver governantes como mecenas que se possam sentir no direito de ditar escolhas em troca do seu apoio. E há. A partir daí, tudo depende do interlocutor deles: do seu sentido de missão e responsabilidade; da sua determinação em defendê-las e em agir em conformidade com as mesmas; da sua isenção; da sua capacidade de dizer “não”. Tudo depende do facto de haver do outro lado um líder ou não.

Visão, sentido de missão, perseverança, rigor, sentido de responsabilidade; uma atitude que inspira e motiva outros, tornando-os aliados, companheiros; uma vida dedicada a uma causa; fazer a diferença. Quando o que vemos à nossa volta são sobretudo aquelas pessoas que só sabem dizer "sim" -  aquelas que estão mais que dispostas a passar por cima de questões como a missão e a responsabilidade, que facilmente culpam o sistema e o status quo para justificarem o seu único desejo, que é manterem os seus lugares e os seus pequenos ou grandes poderes - penso novamente numa senhora cuja autobiografia li em Agosto passado. Wangari Maathai foi fundadora do The Green Belt Movement no Quénia. Lutou pelo ambiente e lutou pela democracia no seu país. Sabia dizer “não”. E sabia também dizer “Darei o meu melhor”. Morreu em Setembro de 2011.



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Construindo a confiança

Monday, 5 March 2012

La crise oblige? (iii) Desafios na gestão

Foto © ORF (tirada de http://www.kleinezeitung.at/)
Que grande lição de gestão foi a carta aberta do director musical do Liceu de Barcelona, Michael Boder, em resposta ao anúncio feito pela administração daquele teatro que, devido a dificuldades financeiras, o mesmo ia encerrar por dois períodos de um mês, entre Março e Julho (ler notícia aqui). E não foi apenas uma lição de gestão. Boder demonstrou ainda um grande sentido de missão e de responsabilidade, qualidades essenciais para quem dirige uma instituição e decide o seu rumo.

“Porque é que existimos?”, perguntava o director musical ao gestor geral do Liceu, facultando-lhe imediatamente as respostas: existimos para tocar, tocar mais e não menos; porque, em momentos como este, a música traz uma mensagem muito importante; porque a música mexe connosco; porque em tempos de crise uma instituição cultural pode e deve transmitir uma mensagem social; porque estamos ao serviço da coesão social; porque a cultura traz conforto e dá ideias (ler a carta aberta aqui).

Mas Boder levantava ainda outras questões na sua carta aberta, relativas à necessidade de reavaliar a dimensão dos serviços administrativos, o acordo colectivo e o número de horas de trabalho da orquestra e do coro, que considera insuficiente. Não hesitou em colocar em cima da mesa os custos fixos da instituição em prol da continuidade da programação. Porque sabe, tal como a administração do Liceu devia saber, que sem programação a instituição desaparece do 'mapa', ou seja, sai da cabeça e dos corações das pessoas; perde a sua credibilidade e o prestígio que levou anos a construir; está condenada ao marasmo interno e à desmotivação; e prejudica irremediavelmente a sua imagem, ao transmitir à sociedade, em especial numa altura de crise e de grandes sacrifícios, que a prioridade são os salários e regalias dos funcionários, mesmo que estes tenham sido ‘condenados’ à inércia, e não a oferta cultural, que é a razão principal porque existem (a administração revogou, entretanto, a sua decisão de encerrar o teatro – ler notícia aqui).

Nos últimos dois anos, a situação financeira de muitas orquestras tem sido notícia. Um dos casos mais mediáticos foi o da Orquestra de Filadélfia, uma orquestra de grande renome a nível mundial, que declarou falência há aproximadamente um ano. No entanto, gostaria de me concentrar aqui em particular no caso da Orquestra Sinfónica de Detroit. Detroit é uma cidade que se tornou próspera graças à indústria automóvel, indústria esta que apoiou, entre outras coisas, muitas entidades culturais, incluindo a orquestra. Nos últimos anos, uma série de factores económicos e sociais mudaram radicalmente o ambiente em que a orquestra opera: o declínio da indústria automóvel, o colapso da bolsa, a diminuição da população (quase 50% numa década) e ainda, o envelhecimento do público da orquestra, a diminuição na venda de bilhetes, a dívida contraída para a extensão do auditório. A administração avançou com um anúncio de cortes, incluindo um corte de 23% no salário dos músicos (aceite ao fim de uma greve de meses, que silenciou a orquestra durante a maior parte de uma temporada). No entanto, os cortes não conseguem ser só por si garantia de sustentabilidade. As mudanças socio-demográficas são um desafio muito maior para esta orquestra (e para as instituições culturais em geral) e a sua sustentabilidade depende muito da forma como vai reagir e adaptar-se. Actuando agora numa cidade em 80% afro-americana (na orquestra tocam apenas 4 músicos negros), onde o rendimento médio das famílias tem diminuído drasticamente, em cujas escolas não tem havido educação musical há muitos anos, torna-se urgente procurar envolver públicos novos, diversificados, representativos da população que vive agora em Detroit e em cidades limítrofes. Uma das iniciativas da orquestra é tocar em centros comunitários, igrejas e sinagogas, pontos de encontro com os seus novos públicos-alvo (ver toda a notícia aqui).

Os problemas que as instituições culturais enfrentam hoje em vários pontos do mundo não são apenas financeiros. São de natureza variada e estão interligados. Dizem respeito à gestão, à programação, ao serviço educativo, à comunicação. O mundo em que estamos a actuar é diferente, está em constante mudança e desenvolvimento.

Procurando, desta vez, abordar algumas questões que dizem respeito à gestão, voltaria a citar Michael Kaiser, que diz que, em primeiro lugar, temos um problema de receita (e não de custos, apesar de se começar sempre por aí). E a palavra ‘receita’ refere-se concretamente a: o financiamento estatal ou municipal; o dinheiro proveniente de mecenato e patrocínio (empresas, fundações, contributos – grandes e pequenos - de indivíduos); a receita de alugueres e outros serviços; a receita de bilheteira (quando se aplica). Em Portugal e noutros países, após décadas de dependência (quase absoluta) do muito ou pouco que o Estado estava disposto ou capaz de dar, é urgente começarmos a diversificar as fontes de receita. E apesar da opção óbvia serem as empresas e as fundações, não podemos iludir-nos. Esta não é uma relação que dura para sempre. Essas entidades investem dinheiro porque querem ver o seu nome associado a um determinado projecto; porque isso faz sentido no âmbito do seu plano estratégico. No entanto, os planos estratégicos mudam, são orientados por objectivos concretos e prioridades, que não permanecem inalteráveis. Assim, a terceira fonte de receita torna-se decisiva para um futuro sustentável: as pessoas, os indivíduos, que connosco se relacionam e que nos querem apoiar através de doações, comprando bilhetes ou assinaturas, tornando-se membros (ou pequenos mecenas, tendo a Casa Conveniente e a Cornucópia dado os primeiros passos em Portugal no sentido de criar este género de relação com os seus públicos). Esta relação, se for valorizada e acarinhada, pode, sim, durar para sempre. Até depois da morte… Uma das histórias mais comoventes que ouvi recentemente é a de um senhor que deixou todo o dinheiro que tinha a uma orquestra - tendo descontado apenas o necessário para o seu funeral -, porque durante anos não podia sair de casa devido a problemas de saúde e um dos seus grandes (e poucos) prazeres na vida era ouvir na rádio as transmissões ao vivo da orquestra (por razões legais, devido à vontade expressa do doador, não se pode apresentar dados concretos sobre esta doação).

No entanto, temos problemas de custos também. Quando somos obrigados a fazê-lo (por exemplo, devido a uma crise), somos sempre capazes de identificar aquelas situações onde os nossos recursos financeiros não são geridos da forma mais eficiente e procuramos optimizá-los. Isto passa também por uma gestão eficiente dos recursos humanos. Em geral, não estamos preparados para, ou dispostos a, considerar o desperdício que ocorre não só quando as equipas são inflacionadas, mas, sobretudo, quando os recursos humanos existentes não são devidamente aproveitados. Michael Boder não hesitou em admitir que o número de horas de trabalho da orquestra e do coro era insuficiente. No caso de muitas orquestras a nível mundial (ver links no fim deste post), os músicos e restantes funcionários envolveram-se no processo de ‘reposicionamento’, não consideraram os seus ordenados e regalias ‘sagrados’, não os colocaram à frente da necessidade de continuar a actuar, para não perderem o seu lugar na vida dos seus públicos. Ao mesmo tempo, penso que os funcionários estarão mais dispostos a entrar neste género de negociação e a aceitar sacrifícios se sentirem que existe uma vontade honesta e genuína, uma determinação por parte das administrações a encontrar soluções que permitirão às organizações não só sobreviver por apenas uns tempos, mas criar condições para um futuro saudável e sustentável para todos.

Tempos como estes, casos como estes, exigem ainda mais que a gestão das instituições culturais seja feita por pessoas, gestores, devidamente preparados (do ponto de vista académico e/ou de experiência e formação profissional), profissionais que possam conduzir o barco com competência, conhecimento, rigor e com a devida sensibilidade pelas especificidades deste sector. Porque é possível ter instituições culturais financeiramente saudáveis, elas existem (ler artigo de Michael Kaiser aqui). Talvez quando conseguirmos ultrapassar o discurso da ‘mercantilização da cultura’ (no qual normalmente um gestor cultural é equiparado ao gestor de um supermercado e o seu trabalho especializado é visto como uma série de entraves ao acesso à cultura), possamos ter mais abertura para procurar perceber como e porque é que outros conseguem.

Dizemos que os tempos não são fáceis. Alguma vez o foram? Os tempos agora são ‘simplesmente’ mais difíceis. Deixarmos o nosso lugar de conforto, ultrapassarmos o discurso estéril dos manifestos que só reclamam mas nada propõem, olharmos para a realidade à nossa volta e fazer-lhe frente (de forma responsável, realista, conhecedora, profissional) é uma necessidade permanente. Mais urgente, talvez, em alguns momentos do que noutros. Mas permanente. Como disse Russell Willis Taylor, CEO de National Arts Strategies, num discurso que vale a pena ouvir até ao fim, “Não há crises, apenas decisões difíceis”.



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