Monday, 23 July 2012

Conforto e perturbação - Parte II


Tive curiosidade em saber de onde veio a citação do meu último post: “As artes devem confortar o perturbado e perturbar quem se sente confortável”. Procurei no Google e o nome que apareceu com maior frequência (apesar de haver mais dois concorrentes) era o de Cesar A.Cruz, poeta mexicano, educador e activista de direitos humanos. Suponho que qualquer que seja o sector que deseje honestamente ter um impacto na vida das pessoas – seja ele o social, o da educação, o da política, o dos media, o das artes/cultura – procure o mesmo: confortar os perturbados e perturbar quem se sente confortável.

É exactamente isto que Washington tem sido para mim nas últimas semanas. Estou sempre algures entre os dois, às vezes mais inclinada para o conforto, outras para a perturbação. Pelas melhores razões, suponho.

Poderia falar de muitas coisas, mas vou apenas falar de duas: duas pessoas, que tivemos o privilégio de conhecer. Aqui estão as suas histórias:

Yvette Campbell, ex-bailarina da companhia Alvin Ailey, é Presidente e CEO de Harlem School of the Arts (HSA). Em Janeiro 2011, aceitou o convite para liderar a HSA, numa altura em que a escola tinha uma dívida enorme e estava prestes a fechar. Para além da existência da dívida, que era do conhecimento de todos, Yvette diagnosticou ainda os seguintes problemas: a escola era conhecida sobretudo entre pessoas mais velhas, que se lembravam dela do seu tempo de auge nos anos 60; o edifício era bastante proibitivo, visualmente inacessível, escondendo os ‘tesouros’ que guardava (Yvette, ela própria uma bailarina, nunca antes tinha lá entrado); havia uma necessidade de re-contar a história, tanto à comunidade mais próxima como àquela mais alargada, e de construir uma ‘família’ que pudesse contribuir (também e sobretudo financeiramente) para a sustentabilidade da escola. Foi à volta destes problemas e necessidades que Yvette Campbell construiu a sua estratégia, concentrando-se fortemente no marketing institucional e estando aberta a qualquer oportunidade que permitisse à escola dar que falar, fazendo-a presente na mente e nos corações das pessoas.

Nos meses a seguir à chegada de Yvette Campbell, Harlem School of the Arts manteve os media regularmente informados sobre a sua actividade e a determinação de manter a escola aberta. Em Abril 2011, apenas três meses depois da tomada de posse de Yvette, surgiu a oportunidade para um grande artigo sobre a nova directora  na revista Essence, o que ajudou a reforçar significativamente a visibilidade da escola. (Foto: Kwaku Alston)
Entre as muitas coisas que Yvette partilhou connosco, gostaria de destacar duas. Primeiro, a sua relação com a equipa da HSA. Yvette não trouxe com ela uma ‘equipa-maravilha’ que iria fazer acontecer um ‘milagre’. Quando assumiu o seu posto, começou por querer saber o que é que cada membro da equipa fazia. A seguir, partilhou com eles a sua visão e objectivos, explicou qual era a meta a atingir e disse-lhes o que é que esperava de cada um deles. As pessoas que não conseguiram corresponder às expectativas, foram convidadas a sair. Tal como Yvette pensa que ela própria deverá ser convidada a sair se não atingir os objectivos. Pretende ter uma equipa concentrada, motivada e empenhada e quer ter à sua volta pessoas mais inteligentes do que ela nas suas respectivas áreas. O segundo ponto que gostaria de destacar é a sua relação com a ‘família’. Yvette assumiu desde o primeiro momento a obrigação de ser accountable* junto de todas as partes interessadas e daquelas pessoas que poderiam ter a capacidade e o interesse em ajudar a escola a cumprir a sua missão (especialmente ao nível financeiro). Por isso, tem estado a partilhar com elas toda a informação sobre a evolução do projecto, enviando pessoalmente relatórios detalhados a algumas dezenas de pessoas (inicialmente todos os dias, depois semanalmente e agora mensalmente). Chama-os “os relatórios da CEO”. Esta é a sua forma de os manter todos informados sobre os progressos que a escola (e ela própria como CEO) está a fazer no sentido de atingir os objectivos estabelecidos e também de os manter todos envolvidos neste esforço colectivo, lembrando-lhes da importância do seu apoio. Quando ouvimos e olhamos para a Yvette Campbell, temos aquele sentimento distinto de que estamos perante um líder nato. A sua energia, entusiasmo, determinação, o seu pensamento estruturado, fazem-nos sentir que ela é a pessoa certa no lugar certo. Graças a ela e à equipa da HSA, ano e meio depois da sua entrada, a escola voltou a estar no bom caminho e a saldar a dívida, tornando-se numa instituição cultural financeiramente saudável.

O segundo encontro marcante foi com Taro Alexander
. Taro, actor e professor, gagueja desde os três anos de idade. Passou anos e anos a tentar ser apenas mais um rapaz ‘fixe’ e a não ser visto como uma aberração; a procurar esconder, com vários truques, que gaguejava (a guaguez que não tinha quando estava no palco). Conhece pessoalmente a luta que está a ser travada por muitas crianças e jovens, que fazem parte de uma comunidade de 60 milhões de pessoas em todo o mundo. Assim, em 2001, fundou Our Time, uma organização que ajuda crianças a melhorar a sua auto-confiança e capacidades de comunicação através do teatro. Ao mesmo tempo, assiste pais e professores, inclusivamente terapeutas da fala em escolas, a maioria dos quais tem muito pouca preparação para lidar com a gaguez. Esta é uma pequena organização de 5 pessoas, que trabalha com aproximadamente 150 crianças, ou seja, dificilmente seria do interesse de potenciais patrocinadores e doadores, que procuram os grandes projectos que proporcionam visibilidade e reconhecimento. Assim, o financiamento tem sido uma preocupação desde o primeiro momento e uma das formas de lidar com ela tem sido a organização de um evento anual, uma gala, para a angariação de fundos. No início, as coisas não foram fáceis e a organização chegou a perder dinheiro. Mas Taro Alexander e a sua equipa mantiveram-se concentrados, continuaram a fazer o seu trabalho e continuaram a organizar um evento de qualidade e entusiasmante, conseguindo assim melhorar os resultados da angariação de fundos, se bem que modestamente. O seu melhor ano foi 2010, quando Carly Simon, uma cantora famosa – que também gagueja -, aceitou ser homenageada no evento desse ano, atraindo um grande número de pessoas e ajudando a angariar mais dinheiro.

O ano de 2010 foi o ponto de viragem por mais uma razão. Foi pedido a Taro Alexander para dar a sua opinião sobre o guião de uma nova peça de Broadway sobre o Rei George, o rei que gaguejava. Mais tarde, soube-se que o guião, afinal, se tornaria num filme de Hollywood, com Colin Firth, Helena Bonham Carter e Geoffrey Rush. Taro foi convidado para a estreia. Ficou profundamente impressionado com o filme e com a interpretação de Colin Firth. Assim que o filme acabou, e ultrapassando a sua timidez, foi dar os parabéns ao guionista, David Seidler (que também gagueja), e perguntou se aceitaria ser o homenageado da gala Our Time em 2011. Ele aceitou, no entanto, o facto de Seidler não ser muito conhecido preocupava algumas das pessoas envolvidas na organização da gala quanto ao impacto que o seu nome poderia ter no esforço para a angariação de fundos. Mas vejam o que aconteceu nos meses que se seguiram: as pessoas falavam cada vez mais sobre o filme;
The King´s Speech ganhou variadíssimos prémios, incluindo o Óscar de Melhor Guião Original para David Seidler; Colin Firth não ia conseguir estar presente na gala, mas aceitou ser o Presidente da Comissão de Honra; Carly Simon também aceitou o convite para cantar na cerimónia daquela noite.



A gala de angariação de fundos foi um grande sucesso, mas também um prémio para uma década de trabalho consistente e empenhado. Taro Alexander e a sua pequena equipa estão agora a tentar construir prudentemente sobre este sucesso, considerando a missão e os recursos da organização. Uma coisa que estão certamente a fazer cada vez melhor é registar e partilhar o seu impacto, uma das formas mais importantes na comunicação com a sua ‘família’, com doadores existentes e potenciais.


Porque é que estes dois encontros foram marcantes? O que é que ficou connosco? Ficou o conforto: pelas coisas que podem ser feitas e estão a ser feitas. Ficou a perturbação: pelas coisas que podem e devem, mas não estão a ser feitas. E ficou ainda o lembrete que é preciso coragem, persistência e determinação: tanto para ultrapassar a timidez, como para lidar com equipas ou para trazer mudanças significativas. Porque bater contra a parede faz parte do processo.


*Accountability significa que quem desempenha funções de importância na sociedade deve regularmente explicar o que anda a fazer, como faz, por que faz, quanto gasta e o que vai fazer a seguir. Não se trata, portanto, apenas de prestar contas em termos quantitativos, mas de auto-avaliar a obra feita, de dar a conhecer o que se conseguiu e de justificar aquilo em que se falhou. (Fonte: Wikipedia)

Monday, 16 July 2012

Blogger convidado: "Bayimba: um catalisador num sector cultural que enfrenta grandes desafios", por Faisal Kiwewa (Uganda)

Faisal Kiwewa é um homem calmo, mas cheio de energia e determinação. Tem estado a trabalhar arduamente para colocar as artes e a cultura no mapa do seu país natal, o Uganda, mas tem expandido o seu impacto em toda a África de Leste e o resto do continente africano. Está constantemente a pensar e a planear o próximo passo para levar a causa mais longe. Neste post conta-nos a história, em forma de conto de fadas, da sua Bayimba Cultural Foundation. Mas a equipa de Bayimba trabalha para que o conto se torne e permaneça uma realidade. mv

Bayimba International Festival of the Arts (Foto: Bayimba Cultural Foundation)

Era uma vez …

… um rapaz (eu) que se interessou por estudar e observar o estado das artes e da cultura no seu país, o Uganda. Não foi difícil notar que havia falta de boas e relevantes oportunidades de formação(informal) e de instituições; falta de criatividade e das capacidades artísticas e profissionais necessárias entre artistas, organizações culturais e outras partes interessadas; falta de produção adequada e de instalações para a realização de espectáculos; e falta de plataformas de exposição e interacção. Ao cavar mais a fundo, apercebi-me que as principais causas eram três: primeiro, a falta de reconhecimento e apreciação do papel das artes e da cultura em moldar a sociedade; segundo, a falta de investimento nas artes e na cultura; e, terceiro, a falta de interacção e colaboração entre as partes que compõem o sector das artes e da cultura.

Como é o caso em muitos países em desenvolvimento, a cultura não é uma prioridade para o governo. É vista como uma questão subsidiária ao combate à pobreza. O apoio financeiro ao sector é, por isso, mínimo e as políticas e estratégias culturais fazem uma abordagem algo estática relativamente à cultura em vez de olharem para ela como uma força dinâmica, inovadora e criativa na construção da sociedade. O apoio do sector privado tem sido também limitado e necessariamente selectivo. Os investidores privados têm focado sub-sectores onde o risco pode ser gerido e o lucro pode ser maximizado. Ao mesmo tempo, outras partes interessadas no sector não se têm organizado no sentido de mudarem o status quo, enquanto a maioria dos projectos e das actividades é implementada em isolamento e sem uma visão a longo prazo, sem falar da visão para o sector cultural e das artes no seu todo.

Cheguei à conclusão que o potencial das artes e da cultura como contribuintes eficazes  ao desenvolvimento social e económico estava a ser altamente negligenciado e subutilizado. Era altura de provocar alguma mudança! Foi, assim, fundada a Bayimba Cultural Foundation, com o objectivo de se tornar num catalisador para essa mudança!

… Bayimba começou a sua viagem …

Confrontado com estes múltiplos desafios e a enorme tabula rasa – a todos os níveis, estava tudo por fazer -, Bayimba, com a experiência que tinha, começou a desenvolver o seu primeiro programa. Apesar de vários obstáculos, o primeiro Bayimba International Festival of the Arts foi organizado em combinação com três workshops de formação para artistas, com o objectivo de reforçar as capacidades e estimular colaborações artísticas. Isto aconteceu em 2008 e ali foram semeadas as primeiras sementes. Nos anos que se seguiram, Bayimba cresceu e conseguiu desenvolver um programa abrangente e ambicioso que procura dar resposta a muitos dos desafios identificados.

Para reforçar o perfil e a posição das artes e do sector cultural como um todo, Bayimba decidiu envolver-se em actividades de lobbying, para além das actividades de formação e da plataforma que criou para apresentar o talento artístico. Em 2009, Bayimba começou com os primeiros debates sobre o papel das artes e da cultura na sociedade e despertou o sector. Um ano depois, teve lugar no Uganda a primeira Conferência sobre Artes e Cultura, como uma plataforma de discussão e acção conjunta. Bayimba tem sido instrumental em juntar as partes interessadas e organizar o sector das artes e da cultura, tudo isto com o objectivo de nos juntarmos para trazermos a mudança.

Para fornecer mais plataformas de exposição do talento artístico, para assegurar que um púbico mais amplo possa usufruir de uma variedade de expressões culturais e para ajudar a desenvolver o sector das artes e da cultura em todo o país, em 2010 acrescentou-se ao programa festivais de um dia, juntamente com actividades de formação para ajudar a desenvolver o talento local e um programa de intercâmbio de artistas entre as regiões. Os festivais Bayimba realizam-se hoje em dia em cinco regiões, fornecendo uma plataforma aos artistas locais e oportunidades de digressão a artistas já estabelecidos, o que culmina no Bayimba International Festival of the Arts, que no próximo mês de Setembro irá celebrar a sua 5ª edição.

Ao mesmo tempo, Bayimba tem continuado a investir no desenvolvimento de talento artístico. Foram realizados workshops de formação para introduzir novas disciplinas artísticas  no Uganda, como a fotografia, o teatro de rua, as instalações ou espectáculos de poesia. Alguns dos seus programas, como a formação em música, estão a tornar-se num programa de formação mais estruturado e duradouro. Paralelamente, Bayimba apercebeu-se da necessidade de formar outros elementos do sector que não artistas e em 2011 começou a oferecer cursos para gestores culturais e jornalistas da cultura, uma vez que eles são igualmente importantes para o sector crescer e prosperar.

Graças à sua crescente relevância e reputação no Uganda, Bayimba tornou-se também num catalisador importante na região da África de Leste e no continente africano. É um membro respeitado de várias redes regionais e continentais. Mais recentemente, em Maio 2011, Bayimba tomou ainda a iniciativa de lançar DOADOA, como uma plataforma profissional de trabalho em rede e de aprendizagem conjunta, que junta as partes interessadas – pessoas, organizações, negócios, conhecimento e tecnologia, com o objectivo de criar demanda e de desenvolver um mercado para as artes performativas, desbloqueando o potencial das indústrias criativas de África de Leste.

Programa de formação em Gestão Cultural que acolhe gestores culturais de todo o continente africano  (Foto: Bayimba Cultural Foundation)

Para ter um impacto duradouro no sector, Bayimba tem ainda procurado desenvolver e estabelecer sistemas e estruturas duradouras. A institucionalização do já mencionado programa de formação em música é apenas um exemplo. Para aumentar o acesso ao financiamento para artistas e aumentar o investimento no sector, Bayimba está ainda a criar uma plataforma inovadora de crowdfunding para projectos artísticos na África de Leste e um pequeno esquema de empréstimos para artistas no Uganda. Bayimba está ainda a planear o estabelecimento de uma infraestrutura multi-funcional para as artes no Uganda que seria um ponto de encontro significativo para as artes no Uganda, na África de Leste e no continente e que viria a coroar tudo o que foi feito até agora.

…. e gradualmente mudou a paisagem….

Atrevo-me a dizer que as intervenções de Bayimba nos últimos 5 anos têm resultado num desenvolvimento gradual do sector. Através da combinação excepcional de programas e actividades, Bayimba tem conseguido dar resposta a vários desafios e tem encorajado outros a fazerem o mesmo. Conseguiu-o sendo um exemplo, com uma equipa jovem, activa e ambiciosa que não evitou tomar riscos para iniciar projectos e programas igualmente ambiciosos; trabalhando com parcerias e desenvolvendo uma ampla rede de parceiros; assegurando o envolvimento de todos; e tornando Bayimba numa marca de propriedade local. Um grupo interessante de empreendedores criativos nas artes – mais especificamente em música, dança, cinema e teatro – tem entretanto surgido, trabalhando arduamente para desenvolver e promover as artes. E Bayimba tem orgulho em ter contribuído para esta nova era de empreendedorismo criativo no Uganda. Continuaremos a servir os nossos artistas, as artes e os nossos públicos para garantir o espaço da criatividade. Assim, não servimos apenas o sector das artes e da cultura, mas a comunidade, a sociedade e o mundo…

...para que as artes e a cultura no Uganda possam viver felizes para sempre.


Faisal Kiwewa
é fundador e director de Bayimba Cultural Foundation e presidente da comissão oganizadora da
Uganda Annual Conference on Arts and Culture (UACAC). 

Monday, 9 July 2012

Conforto e perturbação

Foto: Lalla Essaydi
O regresso a Washington; o reencontro com os colegas do fellowship e com a equipa do Kennedy Center; os novos fellows que se juntam a nós este ano; a primeira semana de seminários, trabalhos, apresentações; os primeiros museus e espectáculos; a celebração do 4 de Julho; as conversas, as intermináveis conversas, sobre a história que se está a escrever nos países de alguns dos nossos colegas… Uma inundação de pensamentos e sentimentos.

Os primeiros seminários lembraram-nos da clareza da missão do Kennedy Center e da forma disciplinada como esta equipa funciona. Disciplinada no sentido de concentrada, focada, organizada, esclarecida quanto ao caminho que está a seguir e o onde pretende chegar. E não pude evitar de me sentir novamente surpreendida pelo facto de todos os seus membros falarem ‘a mesma língua’, algo que nunca tinha visto acontecer na prática antes de chegar ao Kennedy Center e não voltei a ver depois. Não há ‘desvios’ (o que não significa que não haja discordâncias), a missão é concreta e todos sabem o que têm que fazer para contribuir para o seu cumprimento. Não é fácil isto acontecer, mas também não é impossível. É preciso uma liderança forte, consciente e esclarecida sobre a sua visão; é preciso bons técnicos à volta do líder; é preciso perseverança, rigor e disciplina; é preciso trabalho, muito trabalho; e é preciso conversa, muita conversa, como diria Michael Kaiser.

Este ano juntam-se a nós fellows de Oman, Singapura, Austrália, Zimbabwe, Bósnia, Albânia. Irlanda, Inglaterra e Colômbia. Cada um representa um caso particular dentro da área da gestão cultural: instituições financiadas por governos, outras privadas, projectos particulares, instituições que atribuem financiamento a projectos culturais. Cada caso enfrenta desafios muito específicos, mas há outros, comuns quase a todos: a preocupação relativamente ao financiamento e a sustentabilidade; a falta de políticas culturais nos países de origem; a falta de planeamento; os públicos e os seus gostos e necessidades; os desafios sociais e tecnológicos. Ao mesmo tempo que vamos conhecendo estes novos colegas, é com muito prazer e satisfação que descobrimos os progressos que alguns dos colegas antigos fizeram no último ano; as pequenas ou grandes mudanças que conseguiram introduzir nas suas instituições, resultado do que se aprende no Kennedy Center e, igualmente, através dos colegas do fellowship, gestores culturais experientes, empreendedores, inteligentes, informados, preocupados. É um enorme desafio estar na companhia deles.

As preocupações dos nossos colegas egípcios relativamente ao seu novo presidente (membro da Irmandade Muçulmana) e a postura que vai adoptar perante a cultura e as artes têm sido frequentemente objecto de conversas. Olho para estas pessoas: corajosas, determinadas, sensíveis, cheias de sonhos e de vontade de criar e de ter um impacto na sua sociedade (por via da cultura e das artes), pessoas que lutam pela democracia, que valorizam a sua liberdade e que revelam, ao mesmo tempo, alguma ansiedade relativamente ao que poderá vir a ser o resultado desta luta. Penso novamente no texto de Marta Porto Imaginário, um espaço para pensar a democracia, que foi aqui publicado na semana passada. Penso novamente no debate entre Pensadores do Norte de África (em francês) que o Programa Próximo Futuro organizou no fim do mês passado. E penso em todos nós, que assumimos, entre outros, também o papel de guardião dos valores democráticos. E questiono-me: O que aconteceu à nossa democracia? O que nos aconteceu a nós? Que uso damos à nossa liberdade? O que significa o facto de termos abdicado do direito e da obrigação de nos envolvermos nos assuntos do colectivo (os gregos antigos chamavam a quem não se envolvia nos assuntos da cidade “idiota”, que na altura tinha o significado de uma pessoa “privada”)? Ou o facto de lutarmos por ideais e convicções, mas de nos remetermos a um silêncio estratégico quando esses ideais são violados por gente de quem poderemos vir a precisar? Ou o facto de nos considerarmos intocáveis e unaccountable* quando ocupamos lugares de chefia (a qualquer nível)? A cultura alimenta mentes sensíveis e críticas, cultiva valores, mas pouco acontece se não houver um bom fertilizador, ou seja, honestidade intelectual e consciência das responsabilidades, pessoais e colectivas.

“As artes devem confortar o perturbado e perturbar quem se sente confortável”, citou um fellow na sua apresentação. E eu tive momentos lindíssimos de conforto e de perturbação na semana que passou. No Domingo, visitei a exposição Revisions de Lalla Essaydi no National Museum of African Art. Essaydi projecta no corpo feminino as suas reflexões sobre questões de género, cultura e religião. A exposição inclui fotografias, pinturas e instalações; imagens belas, refrescantes, provocadoras, sensuais. Na quinta-feira estreou no Kennedy Center Giselle, com o Ballet de l´Opéra National de Paris, que está em digressão nos EUA. Há muitos anos que não via este bailado. O segundo acto foi de uma beleza indescritível.


*Accountability significa que quem desempenha funções de importância na sociedade deve regularmente explicar o que anda a fazer, como faz, por que faz, quanto gasta e o que vai fazer a seguir. Não se trata, portanto, apenas de prestar contas em termos quantitativos, mas de auto-avaliar a obra feita, de dar a conhecer o que se conseguiu e de justificar aquilo em que se falhou. (Fonte: Wikipedia)

Monday, 2 July 2012

Blogger convidado: "Imaginário, um espaço para pensar a democracia", por Marta Porto (Brasil)

O meu primeiro ‘encontro’ com Marta Porto foi a nota que colocou no Facebook a propósito da sua demissão de Secretária de Cidadania e Diversidade Cultural do Ministério da Cultura do Brasil. Foi claro para mim naquela nota que o Ministério tinha acabado de perder uma excelente profissional, uma pessoa com sentido de missão e de responsabilidade, uma pessoa com ideias claras sobre o lugar da cultura na sociedade. A partir daí comecei a ‘seguí-la’ e tenho lido vários dos seus artigos e entrevistas. É um grande prazer poder publicar aqui um ensaio que vai integrar o novo livro desta “activista cultural”, sobre política cultural. mv

Foto: Bebeto Alves

A democracia é um valor? Essa talvez seja a pergunta mais importante para começar a falar de cultura e democracia. Há na sociedade, a percepção de que igualdade, liberdade e participação no poder são valores válidos? Que definem direitos que devem ser batalhados? O que se entende por igualdade, liberdade e participação no poder em uma sociedade desigual e hierarquizada? Se partirmos do princípio que para sustentar a democracia, não só como regime de governo, mas como regime político reconhecido e legitimado por seus cidadãos, é necessário que ela se construa como valor, como cultura capaz de reconhecer e fazer cumprir os direitos de cidadania, podemos sugerir que a cultura, ou melhor, as políticas que lhe dão corpo, devem priorizar a construção de um imaginário social de entendimento, crítica e luta por fazer valer os ideias democráticos. Estimular mentalidades sensíveis e capazes de estruturar sociedades onde o cumprimento de direitos não é ato de misericórdia, mas ato consciente que responde a um imperativo democrático.

Entrar na rotina dos cidadãos que criam formas de se relacionar nas cidades a partir dos valores e crenças que legitimam. O que um comportamento violento no transito, nas ruas, entre homens, mulheres e crianças nos diz? Ou a falta de controle social que institui uma cidade que é mais a soma de individualidades, com toda a arrogância de impor desejos e necessidades imediatos - como o parar em fila dupla, passar o sinal vermelho porque “afinal eu estou com pressa”, tocar música no último volume ou falar no celular em altos brados quando se está em lugares fechados e cheio de estranhos, ou no sentido mais grave matar porque fomos abandonados por quem um dia nos amou, ou torturar por puro esporte, psicopatia ou desejo de humilhar- formas e jeitos de promover ou não a dita alteridade, essa qualidade necessária para se estabelecer o direito como pilar de uma sociedade. Quando os exemplos são exceções podemos falar de falta ou necessidade de educação, quando são maioria, de cultura social, de um imaginário de como nos manifestamos, percebemos e agimos como corpo social.

Aí entra um dos principais eixos do trabalho da cultura, e sublinho, não das artes em si, mas da política cultural pensada como eixo da democracia, da formação cidadã, da colaboração para fundar um imaginário social que legitime os pilares democráticos, pois sem eles há progresso econômico, melhorias urbanas, consumo maior, mas as cidades, espaço de encontros e convivência, permanece como território de disputas e de quem leva a melhor, a famosa lógica dos vencedores que ainda e infelizmente vigora há muito nesse país. É o campo dos valores de cidadania, onde se aposta que há crenças comuns - respeito a dignidade humana, a solidariedade, resistência pacífica, a não- discriminação - que valem a pena lutar, pois é onde a sociedade pode projetar o seu futuro ao mesmo tempo que ela constrói e tensiona o presente. Esses valores partem da ideia de senso comum, de ethos, algo que todos compartilham se reconhecemos o valor da democracia. Pois, não há democracia sem valores.

Nesse sentido, a cultura nos obriga a sair da lógica pura da vulnerabilidade, implicando o cidadão comum nos problemas do país e do planeta e ajudando a forjar uma mudança para a sociedade como um todo. E é justamente nesse ponto estratégico que está a especificidade do campo cultural: a política de cultura pode contribuir para o impulso a uma agenda de cidadania contemporânea que incorpore as mudanças em curso na sociedade e as exigências das novas gerações de brasileiros.

(escrito em português do Brasil)

Marta Porto é jornalista, especialista em políticas de comunicação, arte e cultura, curadora de espaços, exposições e projetos artísticos, conferencista e ensaísta da cultura com atuação internacional. Lidera, assessora e apoia políticas e programas de organizações internacionais, governos, empresas e instituições como escolas e espaços culturais para atender objetivos que vão da melhoria de processos de gestão, governança, aprendizado e apropriação de conhecimento até a disseminação de valores éticos e humanísticos. Em 2004, foi co-fundadora da primeira empresa brasileira especializada em “comunicação por causas”, a Xbrasil, onde a atualmente lidera o Núcleo de Estratégia. Esteve a frente de instituições e órgãos de governo,  onde se destacam a Secretaria de Cidadania e Diversidade Cultural do Ministério da Cultura (2011), a Coordenação Regional da UNESCO no Rio de Janeiro (1999-2003), a Diretoria de Planejamento e Coordenação da Secretaria Municipal de Cultura de Belo Horizonte (1994-1996). 

Monday, 25 June 2012

Tal como no futebol

(Foto retirada de Page3Sportz)
Não sou fã do futebol. Não porque acho que é o “ópio do povo” ou porque acho que está a tirar dinheiro à cultura… Simplesmente, não tenho paciência suficiente. E muito frequentemente as enormes quantias de dinheiro para a transferência de jogadores deixam-me profundamente indignada; acho um enorme exagero, uma provocação. Mesmo assim, confesso que em 2004 (e peço desculpa aos meus amigos portugueses por estar a lembrar-lhes desse momento difícil na nossa relação) vi todos os jogos a partir dos quartos de final. Era impossível resistir ao sentimento geral de expectativa e entusiasmo. E ainda me lembro do momento em que gritei “Golo!!!” na final, quando toda a vizinhança ficou de repente num silêncio de morte.

Penso frequentemente naquilo que faz as pessoas em todo o mundo, de diferentes backgrounds, vibrarem com o futebol; naquilo que, em certos momentos, faz com que, até aqueles moderadamente interessados ou totalmente desinteressados, sejam incapazes de o ignorar. Penso que sejam vários factores – tanto intrínsecos como desenvolvidos pelos clubes e as federações – e que o sector cultural poderia descobrir aqui algumas lições.

O futebol é emoção, excitação, entusiasmo, expectativa, prazer, alegria, orgulho, dor, satisfação, desilusão.

O futebol é também identidade, um sentimento de pertença, de fazer parte de uma comunidade que apoia os mesmos objectivos, onde todos os membros juntos celebram vitórias e sofrem pelas derrotas.

O futebol é ainda partilha e tolerância. Não se convive apenas dentro da comunidade, mas o gosto, a alegria e o prazer são celebrados juntamente com membros de outras comunidades, “adversárias”. 

Estas são algumas das características e dos valores intrínsecos do futebol que o tornam importante na vida das pessoas (existem igualmente outras características, totalmente contrárias a estas, mas aqui interessam-nos as boas lições). É precisamente sobre estas características e valores que os clubes e as federações constroem a sua ‘oferta colateral’, procurando fortalecê-los e criar uma extensa família de fãs, um dos pilares da sua sustentabilidade, tanto pelo seu apoio financeiro directo, como porque atraem patrocínios. Gostaria de me concentrar aqui em dois pontos que me parecem relevantes para esta discussão:

- Os clubes de futebol envolvem as pessoas partilhando extensivamente e permanentemente, através dos seus próprios canais e também dos media oficiais, notícias sobre a sua vida do dia-a-dia: treinos e jogos, análises de decisões estratégicas, objectivos, transferências, lesões, questões de gestão, eventos sociais, trabalho comunitário, etc. Partilham ainda os seus sentimentos, medos, esperanças, preocupações, expectativas, desejos e sonhos.

- Os clubes de futebol envolvem ainda as pessoas através das assinaturas, oferecendo benefícios (em geral, alguns descontos), mas também concedendo-lhes o direito de voto, partilhando, assim, com elas a responsabilidade pela gestão e o futuro do clube. Assim, os sócios desenvolvem um sentimento de propriedade, as direcções dos clubes tornam-se accountable (explicam o que andam a fazer, como o fazem, porquê, quanto gastam e o que vão fazer a seguir, dão a conhecer o que se conseguiu e justificam aquilo em que se falhou) e os sócios esperam que o sejam, exercendo frequentemente o seu direito de as questionar e sendo até capazes de forçar demissões.
(Photo taken from FanIQ)
Poderia agora recomeçar e dizer:

A cultura é emoção, excitação, entusiasmo, expectativa, prazer, alegria, orgulho, dor, satisfação, desilusão.

A cultura é também identidade, um sentimento de pertença, de fazer parte de uma comunidade que apoia os mesmos objectivos, onde todos os membros juntos celebram vitórias e sofrem pelas derrotas.

A cultura é ainda partilha e tolerância. Não se convive apenas dentro da comunidade, mas o gosto, a alegria e o prazer são celebrados juntamente com membros de outras comunidades. 

A cultura é tudo isto e muito mais. Estes e muitos outros são os seus valores intrínsecos. Nós sabemo-lo. Outras pessoas (o chamado “público em geral”) também o sabem. Sobretudo quando falamos com todos sobre a cultura em termos que cada um entenda. Porque nesse caso quase todos se apercebem que, de uma forma ou de outra, cada um de nós, quase todos, ou produz ou consome um género de produto cultural, um produto que lhes faria falta se não tivessem mais acesso a ele.

Não pretendo ser simplista, nem ignorar a diferença de escala, nem é minha intenção analisar aqui o lado negro do futebol (que todos conhecemos). Acredito, no entanto, que alguns dos meios usados pelos clubes de futebol para envolver as pessoas e garantir o seu apoio (assim como a sua própria relevância na vida delas) poderiam também ser usados pelas instituições culturais. Imaginemos:

Uma instituição cultural que anuncia publicamente a sua missão e objectivos específicos a curto, médio e longo prazo; que permite aos membros da sua ‘família’ de apoiantes terem uma palavra a dizer; que partilha com todos os interessados momentos da sua vida diária (montagem de exposições, ensaios, momentos do trabalho do dia-a-dia dos seus funcionários ou dos artistas – alegria pelas coisas conseguidas, desilusões pelas coisas que não correram bem, incidentes que tenham piada, pequenos segredos, desejos e esperanças -, as impressões dos visitantes e espectadores sobre a experiência, gestores ou directores ou curadores ou programadores a partilhar as suas ideias sobre futuros projectos, visitas de VIPs, parcerias com outras entidades, etc.); uma instituição cultural que procura formas de tornar a sua oferta de alguma forma acessível também para aqueles que não chegam a ela, fisicamente ou financeiramente. Em suma, imaginemos uma instituição cultural que não tem medo de se desmistificar perante pessoas de todos os backgrounds; e que não tem medo de se tornar mais accountable.

Na verdade, se pensarmos bem, tudo isto não é exactamente novo para todas as instituições culturais. Existem museus, galerias, teatros, companhias, orquestras em todo o mundo, pequenos e grandes, que, cada um de acordo com os seus recursos e à sua escala, implementam algumas destas técnicas. Talvez o impacto não seja comparável ao do futebol (talvez nunca o pudesse ser; estamos, na verdade, a falar de duas áreas diferentes). Mas há um impacto. E torna-se realmente considerável quando esta atitude faz parte do nosso planeamento estratégico; quando entendemos que a partilha (de planos, pensamentos, sentimentos, responsabilidade) é uma forma de construir uma ‘família’ mais forte e conquistar o seu apoio; quando somos sinceros no nosso desejo de comunicar e de envolver. Tal como acontece no futebol.

(Foto retirada de The Hindu)

Monday, 18 June 2012

Blogger convidado: “A voz underground”, por Reem Kassem (Egipto)


Reem Kassem é uma jovem mulher muito determinada. Aproximadamente um mês após a revolução do ano passado no Egipto, quando as principais preocupações das autoridares eram paz e ordem nas ruas, Reem convenceu os militares em Alexandria a autorizar um festival de música ao ar livre, que juntou dezenas e dezenas de voluntários, desde as pessoas que pintaram o palco num dos parques abandonados da cidade aos músicas que actuaram. Poderia ouvi-la contar a história das suas negociações com os militares vezes sem conta. Desde então não tem parado e tenho a certeza que o seu papel será determinante para o futuro do sector cultural no Egipto.  mv

No Egipto, sempre pareceu que a única coisa capaz de juntar as pessoas era o futebol. Sempre que a selecção nacional está em acção, todos sentem a mesma coisa. Os jovens reúnem-se nos cafés, outras pessoas em casa e outras ainda montam ecrãs no exterior para as pessoas poderem ver o jogo na rua. A mudança acontece apenas quando as pessoas gritam e quando existe uma necessidade colectiva. Os Egípcios estavam à procura de outras formas que os pudessem juntar, de novas ferramentas através das quais poderia expressar-se e promover um diálogo com significado.

Festival Start with Yourself: Trocar para Mudar (Foto: AGORA)

O sector cultural veio fornecer actividades culturais e artísticas para o público em geral. No Egipto não há centros culturais suficientes e as actividades propostas não conseguiram dar resposta às necessidades da sociedade egípcia. Inevitavelmente, as actividades culturais estão sobretudo centradas no Cairo e depois em Alexandria, e o resto do país é totalmente ignorado. Além disso, as formas tradicionais de actividades culturais apresentadas em salas de concertos e centros de conferências não conseguiram atrair novos púbicos – são sempre as caras do costume.

Existem duas camadas no sector cultural egípcio: aquela gerida pelo governo e a independente. A primeira é representada pelo Ministério da Cultura e entidades a ele associadas; a segunda é a cena underground. Quase em todas as regiões do Egipto existem teatros nacionais, teatros de ópera, palácios culturais e grupos de dança e de música oficiais do Ministério. A cena underground, que surgiu em 2006 e cresceu rapidamente entre 2009 e 2011, é representada por jovens artistas de todas as disciplinas que não são financiados pelo Ministério da Cultura e, portanto, não são controlados pelo Governo. Actuam sobretudo em privado e em centros culturais de outros países e, até um certo ponto, são os ‘homólogos’ das ONGs e das iniciativas não-governamentais no Egipto.

Como os artistas underground conseguiram dar à população aquilo que os artistas oficiais não puderam dar, através das suas actuações em centros culturais não-governamentais ou nas redes sociais, juntaram um grande número de fãs que acreditam nas artes alternativas. Por exemplo, a banda Massar Egbari (que significa “caminho obrigatório”) canta canções sobre problemas sociais, como o desemprego, o caos do trânsito e as más condições de vida. Esta banda, e outras que partilham a mesma missão, criam com o público uma relação que não é apenas a de artista-espectador, mas uma espécie de ligação, onde o público pode usar a banda para descarregar a sua energia negativa e carregar-se com esperança. O público sente-se confortável em comunicar os seus problemas através das canções da banda e da sua música. Foi assim que a camada independente do sector cultural começou a influenciar os jovens deste país; sobretudo através da cena underground. Tornou-se, portanto, numa prioridade urgente dar resposta à necessidade para mais eventos culturais, teatros, espaços e projectos que irão satisfazer esta procura crescente.

Festival Start with Yourself: Mudança social (Foto: AGORA)

Em 2009, os artistas e os operadores culturais aperceberam-se deste desejo crescente da comunidade por eventos públicos e street art. Os gestores culturais começaram a lutar para obter licenças. Houve várias tentativas para organizar eventos em espaços públicos, que foram impedidos por questões de segurança ou parados na fase do planeamento pelos decisores políticos. O processo chegou ao fim com a chamada “Revolução Cultural”. Quando começaram os protestos no dia 25 de Janeiro, uma nova janela se abriu, dando aos artistas o sinal que deveriam assumir a liderança. Em menos de cinco dias, foram compostas canções, foi escrita poesia, foram iniciadas produções teatrais, foram preparadas exposições de fotografia e foram feitos filmes. Foram construídos palcos em espaços públicos e os artistas apresentaram espectáculos revolucionários. Como resultado, a cena underground tornou-se oficialmente na representação ideal da cultura contemporânea e, de uma certa forma, serviu para formar as novas políticas culturais.

No último ano, as estruturas culturais independentes têm sido muito activas. Muitas são novas e têm uma missão orientada para o espaço público e a street art. A criatividade com a qual têm trazido as artes a espaços não-tradicionais tem surpreendido os Egípcios e tem mudado muito a sua percepção das coisas. As entidades financiadoras têm dedicado especial atenção a projectos que trabalham com ou envolvem novos públicos e promover o acesso livre à cultura. A última coisa que queremos neste momento é tratar as pessoas como meros espectadores. A fase actual de transição política é um momento para participação e mudança social e as instituições culturais deveriam seguir a mesma linha.

Festival Start with Yourself:  Sonhar... Alcançar... Mudar (Foto: AGORA)

A arte em espaços públicos pode ser entendida como o reflexo da nossa identidade e cultura colectiva. Tem um alto potencial para celebrar a diversidade da nossa sociedade e fortalecer o sentimento de pertença. No entanto, nos últimos anos não tinha havido nenhum compromisso público ou interesse nisso e, assim, a distância entre o indivíduo e a comunidade aumentou. A realidade cultural no Egipto está a mudar com o uso do espaço público por artistas independentes, com a reinvenção do espaço público através de festivais multi-artes e com a apresentação de novas formas de arte em público.


Reem Kassem começou a trabalhar no Centro de Artes da Biblioteca Alexandrina em 2003. Em 2010 tornou-se Responsável pela Programação de Artes Performativas. Coordena o programa mensal e os festivais de artes performativas, gere as assinaturas do Centro em redes internacionais e promove as suas produções internacionalmente. Em 2011, criou AGORA for Arts and Culture, uma organização independente que liga a prática artística e a educação não-formal ao desenvolvimento social. Em 2012, criou AGORA International, com base em Marselha (França). Tem participado em vários fóruns culturais em países europeus e do norte de África.

Monday, 11 June 2012

Então, qual é o plano?

À Mónica Calle e à Alexandra Gaspar, e também ao Luís Tinoco; que poderão não partilhar estes pontos de vista, mas que, mesmo assim, os inspiram.


Todos os encontros, seminários e conferências a que assisti nos últimos meses tinham as palavras ‘crise’ e ‘desafios’ algures incluídas: no tema, num painel, em algumas comunicações. Poderia ser um sinal positivo. Poderia significar que estamos conscientes da situação crítica com a qual estamos a ser confrontados e queremos lidar com ela, enfrentá-la. Queremos reagir e tomar o futuro nas nossas mãos.

Mas pode também significar… nada. Simplesmente nada. Em todas essas ocasiões foram raras as vezes em que ouvi ideias e propostas concretas. Ouvi críticas (normalmente a decisões do governo); ouvi exigências (normalmente dirigidas ao governo); ouvi as mesmas coisas que temos andado a dizer há anos (normalmente sobre as responsabilidades e obrigações do governo, sobre o quanto somos importantes, quão subfinanciados e negligenciados e subvalorizados pelo governo e pela sociedade, quando ambos deveriam saber melhor…).

O maior desafio não será, afinal, pôr um fim a tudo isto? Às repetições, à nossa miopia, à nossa autocomiseração, à nossa inércia? Porque estamos enganados se pensamos que estamos a agir quando exigimos apenas aos outros, quando nos concentramos apenas nas responsabilidades dos outros, quando procuramos apenas não deixar que as coisas piorem (isto é, que piorem ainda mais, porque, na verdade, nunca estiveram muito bem). Quais as nossas responsabilidades? Qual o nosso papel em tudo isto? Quais as nossas ideias, as nossas prioridades? Em suma, qual o nosso plano?

É nossa responsabilidade, faz parte do nosso papel, controlarmos e criticarmos o governo. Exigir que cumpra as suas obrigações perante os cidadãos (apesar de às vezes parecer que nos esquecemos deles e exigimos apenas por nós e pelas ‘nossas’ instituições). Mas também é fácil, se pretendemos fazer apenas isso. E não leva a lado nenhum. Os governos, os políticos, os ministros poderão não ter necessariamente um plano… Mas nós temos que ter. Não só deveríamos assumir isto como parte do nosso trabalho, como deveria ser esperado de nós.

Em primeiro lugar - de tudo o que vi e ouvi e li nos últimos tempos -, diria que uma das coisas mais preocupantes em que devemos pensar é que estamos ainda muito afastados da sociedade. Confortáveis e altivos e seguros de nós próprios no nosso papel de guardiões, temos ainda dificuldade em entender que as pessoas para as quais é suposto trabalharmos - estou-me a referir aos cidadãos, muitos dos quais, convém que não nos esqueçamos, votaram no partido  que formou o actual governo e que anunciou durante a campanha o fim do Ministério da Cultura -,  essas pessoas, portanto, procuram o diálogo e não sermões; desejam ser nossos parceiros e não receber ordens; querem sentir-se em casa e não em transgressão; querem entender e não lidar com um clube de elites. Ignorar tudo isto significa assinar a nossa sentença de irrelevância.

Um segundo ponto que queria referir é que existe uma necessidade urgente de considerar e começar a trabalhar em fontes alternativas de financiamento. Estarmos dependentes apenas de uma fonte não provou ser boa ideia. Insistirmos que essa fonte continue a fluir sem ao mesmo tempo procurarmos alternativas demonstra, no mínimo, alguma teimosia, pouco produtiva. Ultrapassar a nossa alergia em falar da geração de dinheiro é algo essencial neste processo. As instituições culturais não têm fins lucrativos, mas isto não significa que não devem ter lucro. É esse lucro que poderiam reinvestir na sua actividade e conseguir progredir, fazer mais.

O primeiro e o segundo ponto, intimamente relacionados (isto é, os alicerces da sustentabilidade financeira das instituições culturais têm a sua base também na relação com a sociedade), levam a um terceiro: a necessidade de estes processos serem conduzidos por profissionais adequadamente preparados. Confiaríamos alguma vez a nossa defesa em tribunal a um advogado não-profissional? A nossa saúde a um médico não-profissional? A construção da nossa casa a um engenheiro não-profissional? Com todo o respeito pelos amadores e entusiastas, que são absolutamente fundamentais na nossa área, como é que o sector cultural continua a não procurar os profissionais mais apropriados para cada função? Como é que vamos poder construir confiança e fé nas nossas transacções com outros sectores, essenciais para a nossa sustentabilidade, se não formos adequadamente preparados?

E um último ponto, indispensável: falar a verdade ao poder. O facto de muitos líderes (a maioria?) preferirem ser rodeados de ‘yes-men’ não é um fenómeno exclusivamente português. Há algumas semanas, por ocasião da destituição da Presidente do Arts Council England, Liz Forgan, pelo Secretário de Estado da Cultura, Jeremy Hunt, Dany Louise escrevia no seu blog: “O princípio básico é que se queremos uma boa – ou até excelente – governança, não nos rodeamos de ‘yes-men’ e ‘yes-women’, mas de profissionais capazes e inteligentes e de um ambiente que valoriza e activa estas capacidades. Encorajamo-los a dizer-nos quando estamos equivocados ou quando estamos a tomar uma decisão errada e esperamos que nos apresentem alternativas viáveis. Fazemo-lo porque este é um factor crítico para nos tornarmos em verdadeiramente bons líderes, líderes que tomam as melhores decisões.” (vale a pena ler o texto na íntegra aqui).

“Crise” em grego significa, em primeiro lugar, um ponto decisivo, um ponto crucial, um ponto de viragem. A crise apresenta-nos com desafios e também oportunidades de mudança. Este é o momento de avaliarmos a situação, definir objectivos, estabelecer prioridades. Muito frequentemente, a distância entre as declarações de intenções e o pôr estas intenções em prática é demasiado grande e raramente percorrida. Este sector precisa de identificar aqueles capazes de cobrir esta distância, de levar as coisas para a frente. Este sector precisa também de identificar aqueles que entendem o significado da palavra accountability*. Os bons líderes deverão procurar os melhores consultores. E aos melhores consultores deverá ser dado espaço para darem a sua opinião. Livremente, objectivamente, responsavelmente.


*Accountability significa que quem desempenha funções de importância na sociedade deve regularmente explicar o que anda a fazer, como faz, por que faz, quanto gasta e o que vai fazer a seguir. Não se trata, portanto, apenas de prestar contas em termos quantitativos, mas de auto-avaliar a obra feita, de dar a conhecer o que se conseguiu e de justificar aquilo em que se falhou. (Fonte: Wikipedia)

Ainda neste blog
Ministério da Cultura: Conseguimos manter o debate vivo por uma segunda semana?

A John Hopkins International Fellows in Philanthropy Conference terá lugar nos dias 4 e 5 de Julho em Lisboa, na Fundação Calouste Gulbenkian. O tema da conferência é As artes e a crise económica – Uma oportunidade para o terceiro sector? O programa pode ser consultado aqui.