Monday, 10 September 2012

Blogger convidado: "Reinventando e tornando os museus relevantes", por Ihor Poshyvailo (Ucrânia)


Ihor Poshyvailo é um homem muito discreto, mas, quando começamos a falar com ele, descobrimos alguém rico em conhecimentos e experiências. Nestas conversas, tornam-se evidentes as suas preocupações relativamente à abertura do seu país, da Ucrânia, para o mundo e ao papel que os museus podem ter durante este período, que é ainda um período de transição, especialmente no que diz respeito ao encontro entre a cultura popular e a expressão artística contemporânea. Neste post, partilha as suas opiniões sobre o presente e o futuro dos museus no seu país. mv

Desfile de "vyshyvankas" no Dia da Independência em Kiev. (Foto: Bohdan Poshyvailo)

Cresci num ambiente onde as artes e a cultura eram muito apreciadas. Os meus avós eram proeminentes ceramistas populares que fundaram a primeira casa-museu na Ucrânia, aquela que foi o antecessor do Museu Nacional de Cerâmica Ucraniana em Opishne, uma pequena aldeia que ostenta o título de “Capital da Cerâmica”.

Tenho estado a trabalhar no sector cultural há mais de vinte anos, mas devo dizer que os últimos três têm sido especialmente favoráveis para mim. Fui um Fulbright Scholar na Smithsonian Institution e neste momento sou um Summer International Fellow do DeVos Institute of Arts Management no Kennedy Center. Estas generosas oportunidades deram-me novos conhecimentos, ideias e visões.

O nosso mundo está-se a tornar mais pequeno e globalizado. Mesmo assim, permanece instável. A cultivação do respeito multicultural e da compreensão mútua entre diferentes comunidades pode ser uma das soluções para enfrentar os maiores desafios e ameaças do século XXI. Neste processo, as instituições culturais e artísticas têm um papel especial, em particular os museus, que hoje em dia não são apenas as clássicas instituições de preservação e apresentação de valores históricos, culturais e naturais, mas importantes espaços de comunicação. Têm a capacidade de mudar profundamente os nossos conhecimentos e a ideia que temos de nós próprios e do mundo à nossa volta, transmitindo informações através da apresentação de objectos e conceitos, e da sua interpretação. Conforme foi sugerido por vários investigadores, os museus transmitem também, implicitamente, mensagens sobre a autoridade, o poder e os valores da cultura dominante. Os museus ajudam-nos a reconstruir o passado, assim como fornecem conhecimentos essenciais para entender o presente.

Nas últimas décadas, os museus nos Estados Unidos têm estado a interagir com públicos mais diversos, mudando o foco da apresentação para a interpretação de objectos e para a produção de experiências, enquanto as exposições têm-se tornado mais orientadas para as pessoas e as ideias e mais contextualizadas. De acordo com a visão de Stephen E. Weil, “O museu do futuro próximo, como instrumento de comunicação complexo e potencialmente poderoso… irá disponibilizar à comunidade… a sua profunda perícia em contar histórias, extrair emoções, despertar memórias, agitar a imaginação e incentivar a descoberta.”

Actuação de um famoso grupo etno-caos, DakhaBrakha, no Museu Ivan Honchar. (Foto: Bohdan Poshyvailo)
A expansão das fronteiras da herança cultural na segunda metade do século XX forneceu novas respostas no que diz respeito às relações entre os objectos patrimoniais e os seus consumidores. A “herancização” (heritagization) do espaço – um processo de reinterpretação do nosso ambiente – coloca os objectos patrimoniais e as instituições culturais na mesma linha com outros espaços populares de lazer, incluindo circos e casinos, restaurantes e resorts, até a televisão e a Internet. Este fenómeno tem tido um impacto sobre os conteúdos e os métodos de apresentação e interpretação da herança cultural e tem inspirado a transformação dos museus em espaços especiais e importantes para um diálogo sobre o papel da herança cultural no desenvolvimento da democracia e da sociedade civil. De acordo com o famoso futurologista Rolf Jensen, a actual sociedade, caracterizada pela abordagem científica e o racionalismo, regressará inevitavelmente às emoções, à história e aos valores.

Neste contexto, deveríamos mencionar que o papel social e a popularidade de um museu na Ucrânia são bastante pequenos em relação aos Estados Unidos e outros países desenvolvidos. Existem várias razões para isso. A política de genocídio dos comunistas na Ucrânia e a opressão cultural dos últimos 80 anos resultaram, claro, numa perda considerável da memória histórica dos Ucranianos. Durante os anos de repressão da cultura soviética, grande parte da distinta herança cultural ucraniana ficou dormente, escondida. Isto foi lamentável por várias razões, no entanto, o nosso isolamento cultural preservou a nossa cultura tradicional como numa cápsula do tempo. Desde 1991, foram introduzidas novas liberdades, proporcionando acesso a novos mercados e culturas. Juntamente com este acesso, houve uma inundação de culturas globais. Apesar de poder haver várias vantagens económicas, na Ucrânia, este fluxo de culturas globais encontra um vácuo de memória cultural. Para a nossa nação, a criação de um caminho distinto para o futuro e uma sociedade aberta e democrática requer alguma memória do que fomos.

O Museu Ivan Honchar, assim como muitos outros museus, pode fornecer de uma forma única esta bagagem cultural. O único problema é como evoluir do ainda dominante modelo soviético de museu – que servia apenas como repositório de tesouros culturais e étnicos aprisionados e para propósitos ideológicos, para a criação de uma nova nação, o povo soviético. Hoje em dia, centenas de museus na Ucrânia podem orgulhar-se de colecções únicas e ricas, mas não se apresentam inspirados para a transição, para se reinventarem e para se tornarem relevantes. A área dos museus na Ucrânia encontra-se numa conjuntura crítica, enfrentando desafios diários. Isto acontece devido à falta de conhecimentos profissionais e de cooperação internacional, métodos de operação, políticas e programas antiquados, que os impedem de tornar-se em centros importantes de aprendizagem e educação, formando, criando e interpretando valores. As suas colecções, bibliotecas, arquivos e outros recursos de documentação ainda não estão abertos ao grande público. Na Ucrânia, estão a emergir novas formas de expressão artística e novos segmentos do sector cultural. No entanto, não existe uma gestão profissional e eficiente nesta área nem uma política cultural eficaz. E a Família – um elemento importante no modelo do Ciclo, desenhado por Michael Kaiser, o Presidente do Kennedy Center – não foi ainda construída.

Desfile de moda no Lion Fest, nas salas do Museu Ivan Honchar. (Foto: Bohdan Poshyvailo)
Mas acredito na diplomacia cultural e concordo em absoluto com a minha colega no Fellowship, Caroline Miller, que, no seu post para este blog, sugeriu que um grande evento cultural ou desportivo pode comunicar eficazmente para as massas mais sobre o país organizador “apenas num único espectáculo do que os políticos têm conseguido em décadas”. Numa viagem recente à Tunísia fiquei tão surpreendido ao ver muitas pessoas (até na região do sul, a porta de entrada para o Sara) sorrirem amigavelmente ao saberem que era da Ucrânia e exclamarem com admiração “Ukrajna. Shevchenko!”. Teria preferido, claro, que tivessem a referir-se ao nosso ícone nacional – o lendário poeta, filósofo e artista Taras Shevchenko, que viveu no século XIX -, não apenas ao nosso famoso jogador de futebol Andriy Shevchenko. Uma bela ilustração de como este Campeonato de Futebol Euro 2012 serviu para a Ucrânia como um grande diplomata cultural.

E acredito ainda que a experiência de profissionais estrangeiros no sector cultural pode ser de grande importância e valor para a Ucrânia. Ajudar-nos-á a encontramos uma forma de compreender e avançar com o uso da nossa herança cultural e das novas formas de expressão artística num ambiente que está a mudar rapidamente, concentrando-nos sobre o porque é que os museus são importantes para a nossa cultura, qual pode ser o seu contributo para a qualidade da experiência e o bem-estar humano, como podem enriquecer as vidas das pessoas envolvendo as emoções, melhorando as experiências e aprofundando a compreensão de pessoas, lugares, eventos, ideias, conceitos e objectos do passado e do presente.


Ihor Poshyvailo é Etnólogo, doutorado pelo Instituto de Estudos Artísticos, Arte Popular e Etnologia, Academia Nacional das Ciências da Ucrânia (1998). É Director-Adjunto do Centro Nacional de Cultura Popular “Ivan Honchar Museum” (Kiev); Presidente da Delegação Regional de Kiev da União Nacional de Mestres de Arte Popular; membro fundador do Conselho da Fundação Ivan Honchar. Foi um dos peritos da Comissão Estatal de Arte do Ministério da Cultura da Ucrânia, assim como da Comissão Intergovernamental da UNESCO para a Preservação do Património Cultural Imaterial (2009). É o autor do livro premiado Phenomenology of Pottery (semiotic and ethnological aspects). Co-moderador e co-organizador de seminários internacionais sobre gestão de museus (desde 2005). Participou no International Visitor Program (EUA, 2004), Global Youth Exchange Program (Japão, 2004) e The World Master’s Festival in Arts and Culture (Coreia do Sul, 2007). Curador de projectos artísticos internacionais, incluindo a exposição itineráriaSmithsonian Folklife Festival: Culture Of, By, and For People” (2011), “Interpreting Cultural Heritage” (2011), “Home to Home: Landscapes of Memory” (2011-2012). Foi bolseiro do International Charitable Fund “Ukraine-3000” (2005–2006). Foi Fulbright Scholar no Smithsonian Center of Folklife and Cultural Heritage (2009-2010) e actualmente é Summer International Fellow no Kennedy Center (2011-2013). 

Monday, 3 September 2012

Choque de culturas

Aung San Suu Kyi no parlamento birmanês no dia 2 de Maio de 2012. (Foto retirada de  http://photoblog.nbcnews.com)

Tenho estado a pensar sobre o medo e a forma como nos aprisiona, como nos limita, como nos leva a aceitar constantes compromissos, como nos impede de sonhar, como nos mantém no lugar onde estamos, tornando-nos medíocres, pequenos; a forma como e as razões porque se cultiva. A cultura do medo.

Li recentemente o livro Freedom from Fear, uma compilação de textos e discursos públicos de Aung San Suu Kyi, a activista birmanesa, Prémio Nobel da Paz, que passou vários anos em prisão domiciliária, mas que, há poucos meses, entrou no parlamento do seu país como deputada. Isto significou muito para mim. A primeira petição que alguma vez assinei, tinha uns 19-20 anos, era da Amnistia Internacional e pedia a libertação de Suu. Um dos discursos que agora li no livro começava assim: “Não é o poder que corrompe, mas o medo. O medo de perder o poder corrompe aqueles que o detém e o medo de serem castigados por ele corrompe aqueles que lhe estão sujeitos.”

Com esta frase, o meu pensamento voou da Birmânia novamente para os países da Primavera Árabe. Confesso que, desde que tudo isto começou, nunca olhei para eles como países que vêm agora, ‘finalmente’, juntar-se a nós - os ‘países-guardiões da democracia’, o ocidente ‘livre’. Pelo contrário, ao acompanhar o desenvolvimento da Primavera Árabe e o que se lhe seguiu, senti que teríamos que estar muito atentos porque há aqui várias lições para nós. O que eu vi nesta revolução foram povos que se juntaram para vencer o medo, que agiram como um corpo pelo bem de todos, que lutaram pela democracia - pelos direitos que ela traz, mas assumindo igualmente as obrigações. Tenho lido artigos em jornais, textos em blogs, tenho trocado opiniões com algumas pessoas provenientes desses países, e o que encontro são cidadãos que se sentem responsáveis pela manutenção dos ideais que guiaram esta acção, que têm perfeita noção que a luta não acabou e que terão que estar em alerta permanente para não voltarem atrás. Conhecendo o nosso percurso, será uma utopia desejar que eles possam permanecer assim? E que isto funcione mesmo? Porque confesso que houve momentos em que me senti envergonhada: pelas coisas que nós tomamos por certas; por fazermos parte do ciclo vicioso da cultura do medo - ora no lugar de quem detém o poder ora no lugar de quem lhe é sujeito -, inconscientes dos ideais e dos valores que sacrificámos pelo caminho ou, então, conscientes, mas absolvendo-nos a nós próprios com desculpas como “são as regras do jogo”, “é algo que me ultrapassa” ou “estou a seguir ordens”. As palavras de Wassyla Tamzali, escritora e activista argelina que participou num debate em Lisboa sobre a Primavera Árabe, tornam-se extremamente relevantes, para todos nós. Tamzali citou Michel Foucault, que tinha dito que “Revolução é dizer ‘não’ ao rei”, e acrescentou: “Na Argélia não houve essa junção mágica [como na Tunísia] entre todos os elementos da sociedade. [Na Tunísia] tinha sempre havido resistência, a resistência ao poder existiu desde sempre e dentro de várias categorias sociais (os artistas, os intelectuais, as mulheres, os juizes, os mineiros…), mas nunca tinha havido esta junção de todas as categorias. Apenas há revolução quando todas as categorias sociais se encontram e se posicionam.”

Neste contexto, a entrevista do Secretário de Estado da Cultura ao jornal Le Monde no mês passado causou-me alguma consternação. Apesar da mesma não ter sido dada na qualidade de SEC, não é possível separar o homem do cargo, sobretudo porque as suas declarações estão intimamente relacionadas com questões que têm a ver com a cultura de um povo.

Francisco José Viegas disse: “(…) Pertenço a uma geração que a um determinado momento deve responder ‘sim’. E aceitar compromissos. Quando o nosso país atravessa uma crise terrível, escrever em jornais ou em blogues o que deve ser a cultura ou a sociedade, como fazer o cinema sair do marasmo ou salvar as bibliotecas, já não basta..(…).”  E disse ainda: “Vivemos numa sociedade que perdeu os seus sonhos. Os portugueses têm medo do futuro, de falar. E isto acontece depois da Inquisição, que foi há 300 anos, e de 50 anos de regime fascista de Salazar. Hoje, com a crise, continua. É terrível.” (ler aqui um resumo no jornal Público e aqui a entrevista na íntegra no Le Monde).

É verdade, a Inquisição foi há 300 anos e o país viveu ainda 50 anos de regime fascista. Mas têm sido também quase 40 de regime ‘democrático’. O que têm produzido? Uma cultura de medo; uma cultura de yes men; uma cultura de compromisso, que faz até algumas cabeças mais erguidas baixarem-se, alinharem com a mediocridade, para sobreviverem (vale muito a pena ler a crónica do jornalista grego Nikos Demou The alliance of the lesser; o regime ‘democrático’ tem alimentado comportamentos semelhantes em países como a Grécia, com um percurso histórico e político diferente do de Portugal, o que leva a pensar que provavelmente nem a Inquisição nem o Salazar serão os únicos responsáveis).

Talvez não baste escrever em jornais e blogs sobre o que deve ser a cultura e a sociedade. Mas basta, sem dúvida, sermos governados ou manipulados, a todos os níveis e em vários meios, por quem pertence à ‘geração’ do SEC, a ‘geração’ (que, na verdade, abrange várias gerações, inclusivamente as mais novas) que alimenta a cultura do medo, que acha que deve dizer ‘sim’ e aceitar compromissos. Não terá chegado também aqui, nos nossos ‘países-guardiões da democracia’, o momento de entrarmos em confronto com a cultura do medo recuperando a nossa cultura de pensamento e de prática democrática? Não terá chegado o momento de dizermos ‘não’ aos reis e às suas cortes e de declararmos que há compromissos que são inaceitáveis, intoleráveis? Não terá chegado o momento de sonharmos com algo mais do que a mediocridade? De formarmos cidadãos atentos, sensíveis, tolerantes, exigentes e críticos, envolvidos nos assuntos da polis, que possam exprimir a sua opinião livremente e com sentido de responsabilidade, sem medo de serem castigados por isso? De alimentarmos a imaginação, de apoiarmos a criatividade, de premiarmos o empenho e o mérito? De esperarmos de quem confiamos com um poder executivo a obrigação de accountability* e de assumirmos todos, como cidadãos, o direito e o dever de a exigir? Sobretudo porque, como lembra o SEC, este país (como outros) atravessa uma crise terrível, uma crise que não apenas financeira. E esta é também uma questão de Cultura.

*Accountability significa que quem desempenha funções de importância na sociedade deve regularmente explicar o que anda a fazer, como faz, por que faz, quanto gasta e o que vai fazer a seguir. Não se trata, portanto, apenas de prestar contas em termos quantitativos, mas de auto-avaliar a obra feita, de dar a conhecer o que se conseguiu e de justificar aquilo em que se falhou. (Fonte: Wikipedia)

Monday, 6 August 2012

Até Setembro

"It is not power that corrupts but fear. Fear of losing power corrupts those who wield it and fear of the scourge of power corrupts those who are subject to it." Aung San Suu Kyi








Monday, 30 July 2012

Guest post: "Brindemos à diplomacia cultural", por Caroline Miller (Reino Unido)


Caroline Miller é a dinâmica e visionária directora de Dance UK. É uma daquelas pessoas que têm a capacidade de pensar em grande e trabalha muito para que as coisas realmente aconteçam, inspirando outras pessoas a juntar-se e a trabalhar com ela. Uma das maiores conquistas de Dance UK foi a inauguração, em Abril passado, da primeira clínica para bailarinos lesionados, integrada no Sistema Nacional de Saúde britânico. Este ano, durante o fellowship em gestão cultural no Kennedy Center, Caroline apercebeu-se que tem mais um papel: o de diplomata cultural. Neste post, partilha connosco as suas reflexões sobre o verdadeiro papel que a diplomacia cultural pode ter na promoção do entendimento mútuo. Não poderia ter desejado um texto mais bonito para a celebração da conclusão do nosso segundo ano no Kennedy Center. mv

DESH, por Akram Khan Company. Coreógrafo/Performer: Akram Khan. (Foto:  © Richard Haughton) 

Tenho estado a pensar muito na diplomacia cultural nesta última semana. Como Directora de Dance UK, a principal organização para apoiar o sector da dança profissional no Reino Unido, estou empenhada na promoção da dança na sociedade, ao mesmo tempo que luto pela sua valorização. Passo muito menos tempo a pensar sobre o papel da dança na promoção e representação da cultura e da sociedade britânicas.

Isto mudou quando me encontrei com um grupo de adidos culturais no âmbito do Summer International Arts Management Fellowship no Kennedy Center em Washington. Sendo todos funcionários públicos americanos com experiência, estavam a preparar-se para assumir novos postos em todo o mundo e queriam muito encontrar-se com os gestores culturais internacionais que aqui se encontram. Apesar de ter trabalhado com vários adidos culturais em Londres e de ter beneficiado do seu apoio em projectos artísticos específicos, esta foi a primeira vez que parei para, realmente, pensar no propósito estratégico desses postos governamentais e naquilo que procuram fazer no âmbito de um plano maior.

De acordo com o Institute of Cultural Diplomacy, Dr. Milton C. Cummings, especialista americano em ciências políticas e escritor, define a diplomacia cultural como “o intercâmbio de ideias, informações, valores, sistemas, tradições, crenças e outros aspectos culturais, com a intenção de promover o entendimento mútuo”. Esta definição poderia ter sido usada para descrever a minha experiência como fellow no Kennedy Center. Isto significa que sou um diplomata cultural?

Aquilo que pensava ser uma excelente oportunidade pessoal para o meu desenvolvimento profissional e para levar novas competências e ideias de gestão para a minha organização, ia igualmente fazer de mim, na verdade, uma embaixadora na promoção de ideias, de valores e da cultura britânica.

Após a conclusão do meu primeiro ano como fellow em 2011, tinha falado aos meus amigos da minha surpresa em descobrir que a globalização e homogeneização da cultura não era tão comum como pensava. Tinha passado um mês intenso convivendo e trabalhando com gestores culturais de 28 países, que tinham falado dos seus mundos de trabalho muito diversos, em países como Zimbabwe, Egipto, Paquistão, Moldávia e Cambodja, entre outros. Ao longo do tempo, íamos trocando ideias, tradições e sistemas de valores dos nossos países. “No meu país” tornou-se no nosso slogan colectivo.

As nossas experiências eram muito diferentes. Desde as regiões onde não existe uma cultura de compra de bilhetes para eventos culturais aos países onde a corrupção política e as revoluções eram o cenário e influenciavam a produção artística.

Ao trabalhar ao lado de gestores culturais dos cinco continentes, tinha sido promovida de gestora de uma organização de dança a “a bife”, a representante de uma história colonial inteira! Apesar de ser uma brincadeira, o estereótipo do Império Britânico Colonial era real e ainda vigente.

No entanto, aquilo que não estava estereotipado era o interesse e entusiasmo à volta da cultura britânica – teatro, musicais, artes visuais, museus, música ou dança. Esta era a área da ‘condição de ser britânico’ que captava o interesse e a imaginação dos meus colegas internacionais. Era através das artes que as pessoas tinham obtido um entendimento mais sofisticado da sociedade, dos valores e das crenças britânicas. Isto era para mim suficiente para provar o valor da diplomacia cultural e o papel das artes como comunicador eficaz dos melhores atributos de cada nação.

Entity, by Wayne McGregor/Random Dance, 2008. (Foto:  ©  Ravi Deepres)

Tive que pensar novamente na forma como falo sobre o valor da dança no Reino Unido, por exemplo, sobre Akram Khan – de nacionalidade britânica/bangladeshi -, cujo espectáculo Desh explora uma relação ficcionada com o seu pai (ver aqui; sobre a dança contemporânea abstracta de Wayne McGregor/Random Dance, misturada com novas tecnologias (ver aqui); sobre a dança/performance de Rosie Kay Five Soldiers, que fez a sua pesquisa treinando com o exército e passando tempo no hospital de Birmingham, que cuida dos soldados lesionados que regressam do Afeganistão (ver aqui); ou sobre a peça dos DV8 Can We Talk About This, que explorava temas como a liberdade de expressão, a censura e a ofensa na sociedade britânica (ver aqui). Todos juntos, dizem mais sobre o verdadeiro Reino Unido de hoje - rico em tensões entre a tradição e a modernidade, a religião e a espiritualidade – do que qualquer ensaio.

Na altura que estarão a ler este post, terão começado os Jogos Olímpicos de Londres e mais de um bilião de pessoas em todo o mundo terão visto a espectacular cerimónia de abertura. Neste momento que estou a escrever, não tenho a mais pequena ideia sobre os detalhes deste evento. Sabemos que vai incluir alguns dos melhores artistas e talentos britânicos e que o seu tema são “As ilhas das maravilhas”. A equipa criativa, que inclui Danny Boyle (conhecido mundialmente como realizador do filme Slumdog Millionaire), prometeu um espectáculo singularmente britânico. O jornal Daily Telegraph diz que o espectáculo começa numa “terra verde e agradável”, passa pela revolução industrial e uma celebração do direito de protestar, o serviço público das enfermeiras do Sistema Nacional de Saúde britânico e talvez ainda por um outro elemento-chave da vida britânica… as saídas no Sábado à noite. Promete ainda ser aquela coisa rara numa cerimónia de abertura – divertido! A seguir ao ensaio geral, um participante escreveu no Tweeter que a cerimónia é “Esplendidamente britânica e magnificamente louca“!

Seja o que for que esteja incluído na cerimónia de abertura do Jogos Olímpicos de Londres, tenho a certeza que irá comunicar eficazmente mais, num único espectáculo para uma audiência enorme, sobre o Reino Unido moderno do que os políticos têm conseguido em décadas. E uma última coisa: não devemos esquecer que, quaisquer que sejam (ou não) as dificuldades financeiras dos nossos países, as artes têm um papel em desafiar a ideia do que é e do que representa um país… Por isso, brindemos à diplomacia cultural.


Caroline Miller é directora de Dance UK, a voz nacional para o sector profissional da dança no reino Unido. Começou a sua carreira como assistente de bilheteira e continuou como marketing manager e assessora de imprensa em grandes instituições culturais de Londres, incluindo o Institute of Contemporary Arts, Southbank Centre e Sadler’s Wells Theatre. Foi Responsável de Publicidade para a editora internacional de arte Phaidon Press. Ganhou uma bolsa da União Europeia que distingue líderes culturais emergentes femininos, a qual lhe deu a oportunidade de participar no primeiro mestrado em Liderança Cultural da City University (2007). No Dance UK criou o Manifesto para a Dança, que foi apresentado ao governo britânico e inspirou documentos similares em todo o mundo, e estabeleceu e dirige o All Party Parliamentary Dance Group, um grupo de políticos que defende a dança junto do governo.

Monday, 23 July 2012

Conforto e perturbação - Parte II


Tive curiosidade em saber de onde veio a citação do meu último post: “As artes devem confortar o perturbado e perturbar quem se sente confortável”. Procurei no Google e o nome que apareceu com maior frequência (apesar de haver mais dois concorrentes) era o de Cesar A.Cruz, poeta mexicano, educador e activista de direitos humanos. Suponho que qualquer que seja o sector que deseje honestamente ter um impacto na vida das pessoas – seja ele o social, o da educação, o da política, o dos media, o das artes/cultura – procure o mesmo: confortar os perturbados e perturbar quem se sente confortável.

É exactamente isto que Washington tem sido para mim nas últimas semanas. Estou sempre algures entre os dois, às vezes mais inclinada para o conforto, outras para a perturbação. Pelas melhores razões, suponho.

Poderia falar de muitas coisas, mas vou apenas falar de duas: duas pessoas, que tivemos o privilégio de conhecer. Aqui estão as suas histórias:

Yvette Campbell, ex-bailarina da companhia Alvin Ailey, é Presidente e CEO de Harlem School of the Arts (HSA). Em Janeiro 2011, aceitou o convite para liderar a HSA, numa altura em que a escola tinha uma dívida enorme e estava prestes a fechar. Para além da existência da dívida, que era do conhecimento de todos, Yvette diagnosticou ainda os seguintes problemas: a escola era conhecida sobretudo entre pessoas mais velhas, que se lembravam dela do seu tempo de auge nos anos 60; o edifício era bastante proibitivo, visualmente inacessível, escondendo os ‘tesouros’ que guardava (Yvette, ela própria uma bailarina, nunca antes tinha lá entrado); havia uma necessidade de re-contar a história, tanto à comunidade mais próxima como àquela mais alargada, e de construir uma ‘família’ que pudesse contribuir (também e sobretudo financeiramente) para a sustentabilidade da escola. Foi à volta destes problemas e necessidades que Yvette Campbell construiu a sua estratégia, concentrando-se fortemente no marketing institucional e estando aberta a qualquer oportunidade que permitisse à escola dar que falar, fazendo-a presente na mente e nos corações das pessoas.

Nos meses a seguir à chegada de Yvette Campbell, Harlem School of the Arts manteve os media regularmente informados sobre a sua actividade e a determinação de manter a escola aberta. Em Abril 2011, apenas três meses depois da tomada de posse de Yvette, surgiu a oportunidade para um grande artigo sobre a nova directora  na revista Essence, o que ajudou a reforçar significativamente a visibilidade da escola. (Foto: Kwaku Alston)
Entre as muitas coisas que Yvette partilhou connosco, gostaria de destacar duas. Primeiro, a sua relação com a equipa da HSA. Yvette não trouxe com ela uma ‘equipa-maravilha’ que iria fazer acontecer um ‘milagre’. Quando assumiu o seu posto, começou por querer saber o que é que cada membro da equipa fazia. A seguir, partilhou com eles a sua visão e objectivos, explicou qual era a meta a atingir e disse-lhes o que é que esperava de cada um deles. As pessoas que não conseguiram corresponder às expectativas, foram convidadas a sair. Tal como Yvette pensa que ela própria deverá ser convidada a sair se não atingir os objectivos. Pretende ter uma equipa concentrada, motivada e empenhada e quer ter à sua volta pessoas mais inteligentes do que ela nas suas respectivas áreas. O segundo ponto que gostaria de destacar é a sua relação com a ‘família’. Yvette assumiu desde o primeiro momento a obrigação de ser accountable* junto de todas as partes interessadas e daquelas pessoas que poderiam ter a capacidade e o interesse em ajudar a escola a cumprir a sua missão (especialmente ao nível financeiro). Por isso, tem estado a partilhar com elas toda a informação sobre a evolução do projecto, enviando pessoalmente relatórios detalhados a algumas dezenas de pessoas (inicialmente todos os dias, depois semanalmente e agora mensalmente). Chama-os “os relatórios da CEO”. Esta é a sua forma de os manter todos informados sobre os progressos que a escola (e ela própria como CEO) está a fazer no sentido de atingir os objectivos estabelecidos e também de os manter todos envolvidos neste esforço colectivo, lembrando-lhes da importância do seu apoio. Quando ouvimos e olhamos para a Yvette Campbell, temos aquele sentimento distinto de que estamos perante um líder nato. A sua energia, entusiasmo, determinação, o seu pensamento estruturado, fazem-nos sentir que ela é a pessoa certa no lugar certo. Graças a ela e à equipa da HSA, ano e meio depois da sua entrada, a escola voltou a estar no bom caminho e a saldar a dívida, tornando-se numa instituição cultural financeiramente saudável.

O segundo encontro marcante foi com Taro Alexander
. Taro, actor e professor, gagueja desde os três anos de idade. Passou anos e anos a tentar ser apenas mais um rapaz ‘fixe’ e a não ser visto como uma aberração; a procurar esconder, com vários truques, que gaguejava (a guaguez que não tinha quando estava no palco). Conhece pessoalmente a luta que está a ser travada por muitas crianças e jovens, que fazem parte de uma comunidade de 60 milhões de pessoas em todo o mundo. Assim, em 2001, fundou Our Time, uma organização que ajuda crianças a melhorar a sua auto-confiança e capacidades de comunicação através do teatro. Ao mesmo tempo, assiste pais e professores, inclusivamente terapeutas da fala em escolas, a maioria dos quais tem muito pouca preparação para lidar com a gaguez. Esta é uma pequena organização de 5 pessoas, que trabalha com aproximadamente 150 crianças, ou seja, dificilmente seria do interesse de potenciais patrocinadores e doadores, que procuram os grandes projectos que proporcionam visibilidade e reconhecimento. Assim, o financiamento tem sido uma preocupação desde o primeiro momento e uma das formas de lidar com ela tem sido a organização de um evento anual, uma gala, para a angariação de fundos. No início, as coisas não foram fáceis e a organização chegou a perder dinheiro. Mas Taro Alexander e a sua equipa mantiveram-se concentrados, continuaram a fazer o seu trabalho e continuaram a organizar um evento de qualidade e entusiasmante, conseguindo assim melhorar os resultados da angariação de fundos, se bem que modestamente. O seu melhor ano foi 2010, quando Carly Simon, uma cantora famosa – que também gagueja -, aceitou ser homenageada no evento desse ano, atraindo um grande número de pessoas e ajudando a angariar mais dinheiro.

O ano de 2010 foi o ponto de viragem por mais uma razão. Foi pedido a Taro Alexander para dar a sua opinião sobre o guião de uma nova peça de Broadway sobre o Rei George, o rei que gaguejava. Mais tarde, soube-se que o guião, afinal, se tornaria num filme de Hollywood, com Colin Firth, Helena Bonham Carter e Geoffrey Rush. Taro foi convidado para a estreia. Ficou profundamente impressionado com o filme e com a interpretação de Colin Firth. Assim que o filme acabou, e ultrapassando a sua timidez, foi dar os parabéns ao guionista, David Seidler (que também gagueja), e perguntou se aceitaria ser o homenageado da gala Our Time em 2011. Ele aceitou, no entanto, o facto de Seidler não ser muito conhecido preocupava algumas das pessoas envolvidas na organização da gala quanto ao impacto que o seu nome poderia ter no esforço para a angariação de fundos. Mas vejam o que aconteceu nos meses que se seguiram: as pessoas falavam cada vez mais sobre o filme;
The King´s Speech ganhou variadíssimos prémios, incluindo o Óscar de Melhor Guião Original para David Seidler; Colin Firth não ia conseguir estar presente na gala, mas aceitou ser o Presidente da Comissão de Honra; Carly Simon também aceitou o convite para cantar na cerimónia daquela noite.



A gala de angariação de fundos foi um grande sucesso, mas também um prémio para uma década de trabalho consistente e empenhado. Taro Alexander e a sua pequena equipa estão agora a tentar construir prudentemente sobre este sucesso, considerando a missão e os recursos da organização. Uma coisa que estão certamente a fazer cada vez melhor é registar e partilhar o seu impacto, uma das formas mais importantes na comunicação com a sua ‘família’, com doadores existentes e potenciais.


Porque é que estes dois encontros foram marcantes? O que é que ficou connosco? Ficou o conforto: pelas coisas que podem ser feitas e estão a ser feitas. Ficou a perturbação: pelas coisas que podem e devem, mas não estão a ser feitas. E ficou ainda o lembrete que é preciso coragem, persistência e determinação: tanto para ultrapassar a timidez, como para lidar com equipas ou para trazer mudanças significativas. Porque bater contra a parede faz parte do processo.


*Accountability significa que quem desempenha funções de importância na sociedade deve regularmente explicar o que anda a fazer, como faz, por que faz, quanto gasta e o que vai fazer a seguir. Não se trata, portanto, apenas de prestar contas em termos quantitativos, mas de auto-avaliar a obra feita, de dar a conhecer o que se conseguiu e de justificar aquilo em que se falhou. (Fonte: Wikipedia)

Monday, 16 July 2012

Blogger convidado: "Bayimba: um catalisador num sector cultural que enfrenta grandes desafios", por Faisal Kiwewa (Uganda)

Faisal Kiwewa é um homem calmo, mas cheio de energia e determinação. Tem estado a trabalhar arduamente para colocar as artes e a cultura no mapa do seu país natal, o Uganda, mas tem expandido o seu impacto em toda a África de Leste e o resto do continente africano. Está constantemente a pensar e a planear o próximo passo para levar a causa mais longe. Neste post conta-nos a história, em forma de conto de fadas, da sua Bayimba Cultural Foundation. Mas a equipa de Bayimba trabalha para que o conto se torne e permaneça uma realidade. mv

Bayimba International Festival of the Arts (Foto: Bayimba Cultural Foundation)

Era uma vez …

… um rapaz (eu) que se interessou por estudar e observar o estado das artes e da cultura no seu país, o Uganda. Não foi difícil notar que havia falta de boas e relevantes oportunidades de formação(informal) e de instituições; falta de criatividade e das capacidades artísticas e profissionais necessárias entre artistas, organizações culturais e outras partes interessadas; falta de produção adequada e de instalações para a realização de espectáculos; e falta de plataformas de exposição e interacção. Ao cavar mais a fundo, apercebi-me que as principais causas eram três: primeiro, a falta de reconhecimento e apreciação do papel das artes e da cultura em moldar a sociedade; segundo, a falta de investimento nas artes e na cultura; e, terceiro, a falta de interacção e colaboração entre as partes que compõem o sector das artes e da cultura.

Como é o caso em muitos países em desenvolvimento, a cultura não é uma prioridade para o governo. É vista como uma questão subsidiária ao combate à pobreza. O apoio financeiro ao sector é, por isso, mínimo e as políticas e estratégias culturais fazem uma abordagem algo estática relativamente à cultura em vez de olharem para ela como uma força dinâmica, inovadora e criativa na construção da sociedade. O apoio do sector privado tem sido também limitado e necessariamente selectivo. Os investidores privados têm focado sub-sectores onde o risco pode ser gerido e o lucro pode ser maximizado. Ao mesmo tempo, outras partes interessadas no sector não se têm organizado no sentido de mudarem o status quo, enquanto a maioria dos projectos e das actividades é implementada em isolamento e sem uma visão a longo prazo, sem falar da visão para o sector cultural e das artes no seu todo.

Cheguei à conclusão que o potencial das artes e da cultura como contribuintes eficazes  ao desenvolvimento social e económico estava a ser altamente negligenciado e subutilizado. Era altura de provocar alguma mudança! Foi, assim, fundada a Bayimba Cultural Foundation, com o objectivo de se tornar num catalisador para essa mudança!

… Bayimba começou a sua viagem …

Confrontado com estes múltiplos desafios e a enorme tabula rasa – a todos os níveis, estava tudo por fazer -, Bayimba, com a experiência que tinha, começou a desenvolver o seu primeiro programa. Apesar de vários obstáculos, o primeiro Bayimba International Festival of the Arts foi organizado em combinação com três workshops de formação para artistas, com o objectivo de reforçar as capacidades e estimular colaborações artísticas. Isto aconteceu em 2008 e ali foram semeadas as primeiras sementes. Nos anos que se seguiram, Bayimba cresceu e conseguiu desenvolver um programa abrangente e ambicioso que procura dar resposta a muitos dos desafios identificados.

Para reforçar o perfil e a posição das artes e do sector cultural como um todo, Bayimba decidiu envolver-se em actividades de lobbying, para além das actividades de formação e da plataforma que criou para apresentar o talento artístico. Em 2009, Bayimba começou com os primeiros debates sobre o papel das artes e da cultura na sociedade e despertou o sector. Um ano depois, teve lugar no Uganda a primeira Conferência sobre Artes e Cultura, como uma plataforma de discussão e acção conjunta. Bayimba tem sido instrumental em juntar as partes interessadas e organizar o sector das artes e da cultura, tudo isto com o objectivo de nos juntarmos para trazermos a mudança.

Para fornecer mais plataformas de exposição do talento artístico, para assegurar que um púbico mais amplo possa usufruir de uma variedade de expressões culturais e para ajudar a desenvolver o sector das artes e da cultura em todo o país, em 2010 acrescentou-se ao programa festivais de um dia, juntamente com actividades de formação para ajudar a desenvolver o talento local e um programa de intercâmbio de artistas entre as regiões. Os festivais Bayimba realizam-se hoje em dia em cinco regiões, fornecendo uma plataforma aos artistas locais e oportunidades de digressão a artistas já estabelecidos, o que culmina no Bayimba International Festival of the Arts, que no próximo mês de Setembro irá celebrar a sua 5ª edição.

Ao mesmo tempo, Bayimba tem continuado a investir no desenvolvimento de talento artístico. Foram realizados workshops de formação para introduzir novas disciplinas artísticas  no Uganda, como a fotografia, o teatro de rua, as instalações ou espectáculos de poesia. Alguns dos seus programas, como a formação em música, estão a tornar-se num programa de formação mais estruturado e duradouro. Paralelamente, Bayimba apercebeu-se da necessidade de formar outros elementos do sector que não artistas e em 2011 começou a oferecer cursos para gestores culturais e jornalistas da cultura, uma vez que eles são igualmente importantes para o sector crescer e prosperar.

Graças à sua crescente relevância e reputação no Uganda, Bayimba tornou-se também num catalisador importante na região da África de Leste e no continente africano. É um membro respeitado de várias redes regionais e continentais. Mais recentemente, em Maio 2011, Bayimba tomou ainda a iniciativa de lançar DOADOA, como uma plataforma profissional de trabalho em rede e de aprendizagem conjunta, que junta as partes interessadas – pessoas, organizações, negócios, conhecimento e tecnologia, com o objectivo de criar demanda e de desenvolver um mercado para as artes performativas, desbloqueando o potencial das indústrias criativas de África de Leste.

Programa de formação em Gestão Cultural que acolhe gestores culturais de todo o continente africano  (Foto: Bayimba Cultural Foundation)

Para ter um impacto duradouro no sector, Bayimba tem ainda procurado desenvolver e estabelecer sistemas e estruturas duradouras. A institucionalização do já mencionado programa de formação em música é apenas um exemplo. Para aumentar o acesso ao financiamento para artistas e aumentar o investimento no sector, Bayimba está ainda a criar uma plataforma inovadora de crowdfunding para projectos artísticos na África de Leste e um pequeno esquema de empréstimos para artistas no Uganda. Bayimba está ainda a planear o estabelecimento de uma infraestrutura multi-funcional para as artes no Uganda que seria um ponto de encontro significativo para as artes no Uganda, na África de Leste e no continente e que viria a coroar tudo o que foi feito até agora.

…. e gradualmente mudou a paisagem….

Atrevo-me a dizer que as intervenções de Bayimba nos últimos 5 anos têm resultado num desenvolvimento gradual do sector. Através da combinação excepcional de programas e actividades, Bayimba tem conseguido dar resposta a vários desafios e tem encorajado outros a fazerem o mesmo. Conseguiu-o sendo um exemplo, com uma equipa jovem, activa e ambiciosa que não evitou tomar riscos para iniciar projectos e programas igualmente ambiciosos; trabalhando com parcerias e desenvolvendo uma ampla rede de parceiros; assegurando o envolvimento de todos; e tornando Bayimba numa marca de propriedade local. Um grupo interessante de empreendedores criativos nas artes – mais especificamente em música, dança, cinema e teatro – tem entretanto surgido, trabalhando arduamente para desenvolver e promover as artes. E Bayimba tem orgulho em ter contribuído para esta nova era de empreendedorismo criativo no Uganda. Continuaremos a servir os nossos artistas, as artes e os nossos públicos para garantir o espaço da criatividade. Assim, não servimos apenas o sector das artes e da cultura, mas a comunidade, a sociedade e o mundo…

...para que as artes e a cultura no Uganda possam viver felizes para sempre.


Faisal Kiwewa
é fundador e director de Bayimba Cultural Foundation e presidente da comissão oganizadora da
Uganda Annual Conference on Arts and Culture (UACAC). 

Monday, 9 July 2012

Conforto e perturbação

Foto: Lalla Essaydi
O regresso a Washington; o reencontro com os colegas do fellowship e com a equipa do Kennedy Center; os novos fellows que se juntam a nós este ano; a primeira semana de seminários, trabalhos, apresentações; os primeiros museus e espectáculos; a celebração do 4 de Julho; as conversas, as intermináveis conversas, sobre a história que se está a escrever nos países de alguns dos nossos colegas… Uma inundação de pensamentos e sentimentos.

Os primeiros seminários lembraram-nos da clareza da missão do Kennedy Center e da forma disciplinada como esta equipa funciona. Disciplinada no sentido de concentrada, focada, organizada, esclarecida quanto ao caminho que está a seguir e o onde pretende chegar. E não pude evitar de me sentir novamente surpreendida pelo facto de todos os seus membros falarem ‘a mesma língua’, algo que nunca tinha visto acontecer na prática antes de chegar ao Kennedy Center e não voltei a ver depois. Não há ‘desvios’ (o que não significa que não haja discordâncias), a missão é concreta e todos sabem o que têm que fazer para contribuir para o seu cumprimento. Não é fácil isto acontecer, mas também não é impossível. É preciso uma liderança forte, consciente e esclarecida sobre a sua visão; é preciso bons técnicos à volta do líder; é preciso perseverança, rigor e disciplina; é preciso trabalho, muito trabalho; e é preciso conversa, muita conversa, como diria Michael Kaiser.

Este ano juntam-se a nós fellows de Oman, Singapura, Austrália, Zimbabwe, Bósnia, Albânia. Irlanda, Inglaterra e Colômbia. Cada um representa um caso particular dentro da área da gestão cultural: instituições financiadas por governos, outras privadas, projectos particulares, instituições que atribuem financiamento a projectos culturais. Cada caso enfrenta desafios muito específicos, mas há outros, comuns quase a todos: a preocupação relativamente ao financiamento e a sustentabilidade; a falta de políticas culturais nos países de origem; a falta de planeamento; os públicos e os seus gostos e necessidades; os desafios sociais e tecnológicos. Ao mesmo tempo que vamos conhecendo estes novos colegas, é com muito prazer e satisfação que descobrimos os progressos que alguns dos colegas antigos fizeram no último ano; as pequenas ou grandes mudanças que conseguiram introduzir nas suas instituições, resultado do que se aprende no Kennedy Center e, igualmente, através dos colegas do fellowship, gestores culturais experientes, empreendedores, inteligentes, informados, preocupados. É um enorme desafio estar na companhia deles.

As preocupações dos nossos colegas egípcios relativamente ao seu novo presidente (membro da Irmandade Muçulmana) e a postura que vai adoptar perante a cultura e as artes têm sido frequentemente objecto de conversas. Olho para estas pessoas: corajosas, determinadas, sensíveis, cheias de sonhos e de vontade de criar e de ter um impacto na sua sociedade (por via da cultura e das artes), pessoas que lutam pela democracia, que valorizam a sua liberdade e que revelam, ao mesmo tempo, alguma ansiedade relativamente ao que poderá vir a ser o resultado desta luta. Penso novamente no texto de Marta Porto Imaginário, um espaço para pensar a democracia, que foi aqui publicado na semana passada. Penso novamente no debate entre Pensadores do Norte de África (em francês) que o Programa Próximo Futuro organizou no fim do mês passado. E penso em todos nós, que assumimos, entre outros, também o papel de guardião dos valores democráticos. E questiono-me: O que aconteceu à nossa democracia? O que nos aconteceu a nós? Que uso damos à nossa liberdade? O que significa o facto de termos abdicado do direito e da obrigação de nos envolvermos nos assuntos do colectivo (os gregos antigos chamavam a quem não se envolvia nos assuntos da cidade “idiota”, que na altura tinha o significado de uma pessoa “privada”)? Ou o facto de lutarmos por ideais e convicções, mas de nos remetermos a um silêncio estratégico quando esses ideais são violados por gente de quem poderemos vir a precisar? Ou o facto de nos considerarmos intocáveis e unaccountable* quando ocupamos lugares de chefia (a qualquer nível)? A cultura alimenta mentes sensíveis e críticas, cultiva valores, mas pouco acontece se não houver um bom fertilizador, ou seja, honestidade intelectual e consciência das responsabilidades, pessoais e colectivas.

“As artes devem confortar o perturbado e perturbar quem se sente confortável”, citou um fellow na sua apresentação. E eu tive momentos lindíssimos de conforto e de perturbação na semana que passou. No Domingo, visitei a exposição Revisions de Lalla Essaydi no National Museum of African Art. Essaydi projecta no corpo feminino as suas reflexões sobre questões de género, cultura e religião. A exposição inclui fotografias, pinturas e instalações; imagens belas, refrescantes, provocadoras, sensuais. Na quinta-feira estreou no Kennedy Center Giselle, com o Ballet de l´Opéra National de Paris, que está em digressão nos EUA. Há muitos anos que não via este bailado. O segundo acto foi de uma beleza indescritível.


*Accountability significa que quem desempenha funções de importância na sociedade deve regularmente explicar o que anda a fazer, como faz, por que faz, quanto gasta e o que vai fazer a seguir. Não se trata, portanto, apenas de prestar contas em termos quantitativos, mas de auto-avaliar a obra feita, de dar a conhecer o que se conseguiu e de justificar aquilo em que se falhou. (Fonte: Wikipedia)