Monday, 8 October 2012

Blogger convidado: "Servindo as artes - Sobrevivendo a crise", por Ira-Iliana Papadopoulou (Grécia)


Quando conhecemos Ira Papadopoulou dificilmente adivinhamos que, por trás de uma personalidade aparentemente calma, reservada e algo silenciosa, esconde-se tanta força e paixão. Ela é tão forte e apaixonada que, quando lhe foi dito que o seu orçamento anual ia ser reduzido a… 0, pensou: “OK, voltemos ao trabalho!”. Mas as coisas não têm sido fáceis. Ira e muitos outros profissionais da cultura na Grécia enfrentam condições extremamente duras, não só pelos cortes na cultura, mas devido a uma série de medidas que têm conduzido à destruição da economia do país. Ira faz aqui um breve relato sobre um sector que permanece vivo, que resiste e que tem ainda a capacidade de proporcionar um antídoto social à amarga realidade económica. mv 

Parte da instalação "OITO" (ΟΚΤΩ), Nº 6, de George Tserionis, 2011 (desenho sobre papel, 120x110). (Foto: George Tserionis)

“Sem a arte, a crueza da realidade tornaria o mundo insuportável.”
George Bernard Shaw


O tópico sugerido era claro: a cultura grega em tempos de crise. Não pude resistir. Era definitivamente algo sobre o qual poderia falar. Há alguma semanas, quando Maria Vlachou me dirigiu o amável convite de escrever para o seu blog, estava mais que disposta a partilhar as minhas opiniões como profissional e a minha sincera angústia pela actual situação das instituições culturais na Grécia. E depois, mesmo antes de começar a escrever, li um dos posts mais antigos da Maria sobre a crise grega e o sector cultural e apercebi-me que não mudou quase nada desde 2010… Ou talvez não? Talvez tenha havido algumas mudanças, mas deixo os leitores fazer o juízo final se se trata de mudanças para melhor ou para pior.

Começando pelo Ministério Grego da Cultura, que já não é um dos mais importantes do país (como tinha sido dito aos Gregos em 2004), mas um sub-ministério de uma combinação mágica: Ministério da Educação e dos Assuntos Religiosos, da Cultura e do Desporto. Sim! Um ultra-ministério onde tudo – educação, religião, cultura e desporto – pode ser combinado e gerido. Algo não muito diferente da famosa salada grega, um pouco de tomate, algumas azeitonas, um pouco de cebola, um pouco de queijo feta…

As pessoas que trabalham em instituições culturais públicas – ou instituições supervisionadas ou financiadas pelo Estado -  estão a fazer um apelo desesperado à ajuda. O dinheiro não é suficiente sequer para pagar as contas de electricidade. Sabem agora que devem procurar recursos alternativos, mas nunca ninguém tentou dar-lhes algumas directivas em como o fazer. Além disto, a estratégia do Estado de incentivos ao patrocínio privado é quase não-existente.

O cinema Attikon, o mais velho cinema no centro de Atenas, quase um ano depois de ter sido incendiado durante os protestos contra as medidas de austeridade. (Foto: Ira Papadopoulou)
Até as instituições culturais privadas se encontram agora no olho da tempestade. Como não existe um vácuo financeiro ou cultural, o sector privado luta para conseguir manter o seu pessoal, a qualidade dos seus serviços, os seus patrocinadores e, ao mesmo tempo, manter uma programação cultural de interesse. Esta é uma equação difícil de resolver. Alguns mantêm-se de pé, outros caem e outros ainda parecem determinados em avançar para um novo género de criatividade e mostrar abertura a “palavras desconhecidas”, como colaboração, voluntariado, esquemas de assinaturas, crowdfunding. Ninguém pode garantir que exista luz no fundo do túnel, mas se não tentarem, nunca o saberão.

E tudo isto está a acontecer numa altura em que os seguidores do partido neo-nazi Chrysi Avgi (Aurora Áurea) ameaçam publicamente encenadores, autores e artistas por estarem a apresentar trabalhos que, na sua opinião, são um insulto aos “ideais nacionais”. Parece que a arte é, mais uma vez, o alibi perfeito para a histeria nacionalista e teorias de conspiração de todo o género. Ao fim ao cabo, todas as crises económicas vão lado a lado com as qualidades básicas e fundamentais dos valores sociais…

No entanto, falar da “crise económica, social e moral dos nossos tempos” tem-se tornado numa repetição enfadonha e aqueles que trabalham para as artes tentaram dar um passo atrás e encontrar uma caminho longe deste discurso deprimente. Sem subestimar os efeitos psicológicos e outros da crise, os artistas parecem ter encontrado a coragem para resistir e reivindicar o seu direito de discutir, criar e sugerir alternativas para a apresentação do seu trabalho ao público. Novas iniciativas culturais, novas produções culturais, novos grupos artísticos (como o espaço cultural about:, o espaço Ommu, o Contemporary Art Meeting Point, a equipa artística Athens Art Network, para mencionar só alguns), mas, sobretudo, um novo espírito para juntar as pessoas e tentar desviar a atenção do público da miséria do dia-a-dia.

Celebração do festival anual de banda desenhada Comicdom Con Athens. Entrada principal da Hellenic American Union, Março 2012. (Foto: Antonia Houvarda) 
Não quero dizer com isto que a crise e a privação são benéficas para a arte. Não se trata de um florescimento das artes. Não há nada de mágico aqui. Mas se acreditarmos nas artes e continuarmos a servi-las da melhor forma que soubermos, talvez exista uma oportunidade de sobreviver e até florescer.

Devemos muito aos artistas Gregos. É graças à sua coragem e à persistência dos gestores culturais que o pulso cultural do país continua a bater. E por mais difícil que seja de acreditar, há mais de uma dúzia de exposições de artes visuais a inaugurar todos os meses, mais espectadores nos teatros do que nos anos anteriores e mais eventos públicos (e gratuitos) do que nunca. Conferências, concertos, festivais, espectáculos, happenings, etc. etc. Uma saída à noite em Atenas prova que há uma intensa vida cultural lá fora e que, no mínimo, a cultura pode ainda ser um antídoto social à nossa amarga realidade económica.


Ira – Iliana Papadopoulou estudou Sociologia, Políticas de Comunicação e Gestão Cultural no Reino Unido. Desde 2004, ela é Directora de Assuntos Culturais na Hellenic American Union, uma instituição cultural e de educação ao serviço da sociedade, com sede em Atenas, Grécia. Antes de chegar à HAU, trabalhou como Directora de Relações Públicas e Comunicação noutras organizações culturais e de educação na Grécia, como o British Hellenic College e o Centro de Estudos Neo-Helénicos (casa oficial do Arquivo Cavafy). Entre 2010 e 2012 foi International Fellow do DeVos Institute of Arts Management no Kennedy Center em Washington.

Monday, 1 October 2012

Nas redes sociais... socializa-se

Imagem retirada da apresentação de Devon Smith The science of social media  building.
Uma suposição comum é que todo e qualquer suporte de comunicação serve o mesmo propósito: a divulgação. E mais concretamente ainda: a divulgação de agenda. Não é raro encontrarmos vários suportes a propósito do mesmo evento (exposição, concerto, peça de teatro, debate), de vários formatos (MUPI, cartaz, postal, folheto, jornal, anúncio de imprensa, spot TV ou rádio), todos com a mesma informação (o quê, quando, onde). Penso que por trás do uso de cada suporte deve existir um objectivo próprio. A escolha de formato, os conteúdos a inserir em cada um, os timings em que aparecem, tudo contribui para divulgar um evento, mas, além disto e sobretudo, para construir algo maior em termos de comunicação: a ideia, o sentimento e o envolvimento que se quer que as pessoas tenham relativamente à entidade ou à pessoa que o promove.

As redes sociais são ainda um suporte novo, pouco estudado, pela maioria de nós, em termos de propósitos, possibilidades e impacto. Estou concretamente a referir-me ao Facebook,  que é aquela que mais uso. Acompanhando a actividade de uma série de entidades (culturais e não só), chego à conclusão que, enquanto rede social, o Facebook é, em primeiro lugar, isso mesmo: um espaço para socializar. Como diz uma amiga, devemos encará-lo como um café, um espaço público de conversa, de partilha – de ideias, opiniões, experiências, informações. É um espaço onde queremos estar porque… todos ali estão, porque queremos fazer parte, porque não queremos ficar de fora, porque queremos conversar também (e, em especial, sobre nós…). Com base na minha experiência pessoal, as entidades que fazem mesmo isso, que conversam, são aquelas com as quais me sinto mais envolvida, o que significa que faço like, partilho e comento (contribuindo, assim, para uma maior visibilidade de um determinado post). No caso das entidades que se limitam a divulgar a sua agenda (e que, ainda, exageram no número de posts ou colocam muitos seguidos), passo por cima ou tiro-as do meu news feed, deixando os meus ‘amigos’ fazerem a triagem do que for mais relevante ou interessante (e então, sim, presto mais atenção).

Esta tem sido a minha experiência do uso do Facebook a nível pessoal e profissional. No entanto, e apesar da maioria de nós não ter propriamente estudado estes meios, esta área de conhecimento tem já os seus especialistas. Tive a grande oportunidade de ouvir uma deles num seminário no Kennedy Center em Julho passado. Chama-se Devon Smith, é novíssima, claramente uma especialista, e ocupa o cargo de Director of Social Media na agência Threespot, que desenha estratégias de envolvimento digital para organizações sem fins lucrativos. Aprendi muitas coisas naquela apresentação (cujo powerpoint está disponível aqui e é muito elucidativo) e, ao mesmo tempo, ficou confirmada a minha maior ‘suspeita’: o Facebook não vende bilhetes...

É por essa razão mesmo que devemos considerar melhor o porquê da nossa presença neste meio, a melhor forma de a garantir e o que devemos esperar dela. Entre o que aprendi com a Devon Smith, a minha experiência como utilizadora e as minhas ideias relativamente ao que significa “comunicação” numa entidade cultural, as minhas constatações são as seguintes:

Porque estamos no Facebook
Para conversarmos com os nossos ‘amigos’, pessoas que gostam de nós, da nossa forma de estar, do que temos a dizer, do nosso trabalho;

- Para reforçarmos a nossa marca, ou seja, a ideia que queremos que as pessoas tenham de nós, daquilo que representamos;

- Para multiplicarmos os nossos ‘amigos’, porque através dos que temos, ganhamos outros, fazendo a nossa palavra chegar cada vez mais longe e alargando, assim, a nossa base de apoiantes.

Como devemos estar no Facebook
Antes de qualquer outra coisa, diria que é essencial que a nossa voz nesta conversa possa ser concreta, reconhecível, aquela que os nossos ‘amigos’ procuram ouvir. Há algum tempo, tinha escrito um post chamado Rostos, onde falava da importância de humanizarmos as nossas instituições, de lhes darmos um rosto, porque é uma forma de criar uma relação com as pessoas, de as envolver. Neste caso, trata-se da importância de lhes darmos também uma voz. E como diz, e muito bem, Marc Sands, o brilhante Director de Marketing da Tate Modern, as pessoas não o querem ouvir a ele, querem ‘ouvir’ e ‘conversar’ com Nicholas Serota, o director do museu (vale a pena ver o vídeo How to engage with new audiences in the gallery). O impacto de um post é completamente diferente quando é o director de um museu, um director artístico, um programador, um chefe de orquestra, um encenador, um artista, a falar de um evento, a convidar-nos, a dizer porque é que não o podemos perder, a desvendar segredos, a partilhar as suas inspirações, emoções, preocupações. E depois, é esta a ‘voz’ que será ‘partilhada’ e levada mais longe pelos nossos ‘amigos’ (quem é ‘amigo’ de Jorge Silva Melo no Facebook entenderá de que estou a falar).

Imagem retirada da página do Rijksmuseum no Facebook
Dito isto, penso que há mais alguns pontos que merecem a nossa atenção:

- Conversar significa abandonar a linguagem seca e institucional e assumir um tom humano, directo, quotidiano, com sentido de humor. O melhor exemplo entre as instituições que eu sigo é o Rijksmuseum (vale a pena ver o vídeo Rembrandt´s timeline, cujo objectivo era aumentar o número de fãs da página do museu, ou seguir todos os meses a votação das Misses que farão parte do calendário que o museu vai produzir).


- Conversar significa falar, mas também ouvir. E responder. Não poucas vezes, comentários e perguntas colocadas pelos ‘amigos’ (sobretudo em páginas de personalidades, geridas ou não pelas próprias) ficam sem resposta, pondo fim à ‘comunicação’ (muito bons exemplos de artistas portuguesas que conversam com os seus fãs em páginas pessoais são, na minha opinião, os da Mísia e da Aldina Duarte). É igualmente importante saber lidar com a controvérsia e com comentários menos simpáticos. Um dos melhores exemplos que vi recentemente foi a forma como o teatro Woolly Mammoth lidou com a controvérsia à volta da reposição da peça de Mike Daisey The Agony and the Ecstasy of Steve Jobs (ler aqui  e aqui). O teatro respondeu a todos os comentários do público e não hesitou em colocar na sua página artigos que criticavam severamente a opção de repor a peça, mostrando assim total abertura e alimentando a conversa à volta… dele próprio (estes posts já não aparecem na timeline do teatro, mas vale a pena ser fã do Woolly Mammoth, aprende-se muito).

Resposta do Editor de Multimédia do jornal Expresso ao comentário de um leitor no Facebook. Ler mais no blog PiaR

Por último, algumas práticas comuns que merecem ser revistas:

- Parece-me fazer sentido considerar o número de posts por dia se queremos realmente garantir a atenção dos nossos ‘amigos’ (há instituições que nos saturam, sem terem nada especial a acrescentar à conversa);

- Apesar dos posts com fotografias serem aqueles que geram mais ‘conversa’ (like´s, partilhas, comentários), não me parece que faça sentido as fotos de um evento serem colocadas uma a uma, em posts consecutivos, em vez de arrumadas num álbum; como também não faz sentido colocar fotos desfocadas, mal tiradas, várias versões da mesma cena ou do mesmo momento numa conferência ou debate;

- Os posts de agenda são muito pouco interessantes, têm muito pouco ou nada a ver com a natureza do Facebook, não estimulam a conversa (muito menos vendem bilhetes). Transmitem aquela ideia do vendedor que procura impingir algo, algo que… não esteja a vender (com ou sem razão).


Finalmente, o que podemos esperar de tudo isto? Uma conversa. Uma boa conversa. Momentos de espanto, de riso, de surpresa, de descoberta, de deleite, de cumplicidade, que façam com que os nossos ‘amigos’ procurem cada vez mais a nossa companhia, virtual e… real.


Mais
Devon Smith, Case studies of theatres using social media (apresentação)

Monday, 24 September 2012

Blogger convidado: "Inspirar o amor pelas artes em públicos mais novos", por Consuelo Hidalgo (Equador)


Consuelo Hidalgo é uma mulher cheia de energia e entusiasmo que nos faz sentir que tudo é possível. E que trabalha muito para que as coisas realmente aconteçam. Neste momento, é a pessoa certa no lugar certo. Como Directora Executiva da Fundacion Niños com Futuro pode juntar o seu amor pelas artes ao seu amor pelas crianças. Neste texto, partilha connosco a história do seu contributo para o futuro de Equador. Sonha com e trabalha para que o seu país seja habitado por cidadãos sensíveis, criativos e genuínos pensadores críticos. mv

Uma aluna do ensino pré-escolar num concerto para crianças da Orquestra Sinfónica de  Guayaquil. (Foto: Consuelo Hidalgo)
Lembro-me da primeira vez que ouvi a minha avó contar-me com grande entusiasmo a história de La Traviatta. Tinha cinco anos e fiquei muito impressionada com o enredo e o como aquela música e aquelas vozes apaixonantes narravam o drama de uma forma tão mágica, e também tão incompreensível. Foi assim que fui apresentada à ópera: um jogo de contar histórias de uma avó que se tornou num novo modo de percepcionar e entender essa forma de arte.

Todas as formas de arte têm uma história para contar. Eu, tendo trabalhado durante muitos anos em projectos de desenvolvimento de públicos mais novos em museus, orquestras sinfónicas e fundações para crianças, aprendi a importância da forma, qualidade e frequência das histórias que contamos às crianças para as envolver nas artes.

No Equador, a maioria das actividades na área das artes performativas é gratuita para as crianças. Portanto, porque é que a maioria dos jovens equatorianos está tão afastada do ambiente artístico? Penso que o problema começa com a ‘vontade’ das instituições de ensino e dos pais de os levar a espectáculos e ensaios (que, em certos dias, são quase todos abertos ao público). Sendo assim, a minha questão é: qual é a história que estamos a contar aos professores e aos pais sobre os benefícios de assistir a um espectáculo e como é que as instituições artísticas locais planeiam as suas actividades para servir os públicos mais novos? E, ainda, quão sustentáveis serão as instituições artísticas nos próximos anos, uma vez que as artes e a música já não são uma disciplina obrigatória nas escolas e a população consome outros géneros de entretenimento?

Um concerto do Maestro Ivan Fabre (primeiro violino da Orquestra Sinfónica de Guayaquil) para crianças da Fundacion Niños con Futuro. (Foto: Consuelo Hidalgo) 
Não dispomos ainda  de estudos formais sobre o impacto de programas de educação artística nos públicos mais novos no Equador. O nosso parâmetro para medir os resultados é o feedback que recebemos dos pais e dos professores. Lembro-me muito bem quando estava a desenhar o meu primeiro programa ‘formal’ de educação artística, “Cultura para todos”. Estava a trabalhar no Museu de Arte Colonial Nahim Isaias e, como podem imaginar, despertar o interesse das crianças pelas artes coloniais não era propriamente fácil. Por isso, comecei a brincar com conceitos usados pelos nossos conservadores nas exposições que poderiam ser apresentados como uma história paralela numa linguagem familiar para os alunos. Por exemplo, com base numa exposição permanente inspirada na iconografia, criámos um programa especial de acordo com padrões académicos estabelecidos a nível nacional e local. Cada professor recebeu um caderno de actividades para poder guiar os alunos e era suposto implementar o programa na sala de aulas, enquanto os conceitos específicos de arte e iconografia eram ensinados durante a visita ao museu. O programa tinha sido feito para apoiar a aprendizagem na sala de aulas. O objectivo de tudo isto, e também dos programas para o desenvolvimento de públicos mais novos que se seguiram na Orquestra Sinfónica de Guayaquil, era envolver os alunos através de uma abordagem criativa ao ensino, proporcionar experiências artísticas às crianças e fornecer aos estudantes instrumentos de auto-expressão. Esta experiência incluía visitas ao museu, onde as crianças recebiam um caderno de actividades, como palavras cruzadas, adivinhas, e pistas para jogar um jogo de mistério conduzido pelo pessoal do museu; incluía ainda visitas à orquestra sinfónica, concertos do quarteto de cordas nas suas escolas, acompanhados também de um caderno de actividades realizadas após o concerto. A reacção dos professores e dos pais foi muito positiva, uma vez que podiam ver claramente que os alunos se envolviam mais nas aulas e demonstravam uma apreciação pelas artes mais activa e mais sustentada. A experiência mais recompensadora era ver as crianças regressarem com os seus pais no fim-de-semana (e darem-nos conhecimento que tinham regressado), assim como saber que as escolas que tinham participado nos nossos programas incluíam agora feiras de artes e cultura no seu calendário escolar (fomos convidados a inaugurar oito dessas feiras).

Foi assim que, há oito anos, comecei a desenvolver parcerias com a comunidade para garantir uma educação artística de alta qualidade para os mais novos, e estabeleci o objectivo de melhorar a capacidade das escolas e da comunidade para abraçar as artes, o que, espero, irá criar no futuro uma procura sistémica de educação artística.

Então, qual é a história que deveríamos estar a contar à sociedade sobre a importância das artes na vida das crianças? A arte é uma estratégia relevante para a educação em todas as áreas. Nos primeiros anos da infância, aumenta o pensamento criativo, reflectivo e crítico. É um instrumento de aprendizagem que estimula a habilidade de criar e inovar. Podemos, por isso, dizer que, através da arte, as crianças podem expressar os seus sentimentos e criatividade à medida que desenvolvem a sua capacidade de pensamento crítico.

Crianças da Fundacion Niños con Futuro visitam o teatro em Guayaquil. (Foto: Consuelo Hidalgo)
A questão com a qual estamos a ser confrontados neste momento não é “educação menos arte” versus “educação mais arte”, mas, sim, qual é a qualidade das capacidades essenciais com as quais esperamos – e devemos – equipar as futuras gerações? Será um kit de ferramentas para o desempenho de simples tarefas práticas? Ou, em vez disto, iremos promover aquele pensamento flexível, imaginativo e crítico que é necessário para lidar com os desafios, complexos e em constante mudança, com os quais somos confrontados no mundo contemporâneo? Será limitado à sala de aulas? Ou, em vez disto, irá tornar-se num recurso ao longo da vida para o crescimento e enriquecimento pessoal? Irá tornar-nos mais conscientes dos detalhes subtis da vida?

O meu envolvimento nas artes quando era criança mudou a minha vida para sempre. Não seria hoje tão activa neste campo se assim não fosse. Esta é a história que vos quero contar e espero poder ouvir histórias parecidas no futuro contadas pelas gerações seguintes.


Consuelo M. Hidalgo é jornalista. Actualmente, é Directora Executiva da Fundacion Niños con Futuro. Antes, tinha sido promotora cultural da Orquestra Sinfónica de Guayaquil, onde foi responsável pelos programas de desenvolvimento de públicos, relações internacionais e programas educativos. Iniciou a sua carreira profissional como Directora de Relações Públicas do Museu de Arte Colonial Nahim Isaias, em Guayaquil. Durante o seu tempo no museu, desenvolveu vários projectos culturais com o objectivo de integrar pessoas com menos recursos. O projecto foi chamado “Cultura para Todos” e estendeu-se a outras cidades do país. Em 2006 foi convidada pelo MAAC, um museu de antropologia e arte contemporânea, para gerir o projecto “Vivir la Cultura”, um projecto que proporcionava espectáculos gratuitos tendo como palco zonas regeneradas da cidade. Em 2008, entrou no Bureau of Education and Cultural Affairs do U.S Department of State e no John F. Kennedy Center for the Performing Arts International Cultural Exchange Fellows Mentoring Program for Performing Arts Managers. Acabou recentemente o seu fellowship em Arts Management no DeVos Arts Management Institute at the John F. Kennedy Center for the Performing Arts.

Monday, 17 September 2012

Sobre o nosso valor público

Imagem retirada de detroitfunk.com

A discussão à volta do valor das artes e da cultura conta já com bastante literatura. As questões relativamente à sua instrumentalização pelos governos ou ao seu carácter intrínseco têm estado na ordem do dia desde há muitos anos, sobretudo em países como os EUA, o Reino Unido ou a Austrália. Num determinado momento, considerando todas as ‘provas’ que se tem que dar, pensei que os profissionais da cultura são mesmo e apenas isso: profissionais da cultura. Não são nem professores, nem terapeutas, nem médicos, nem padres, nem polícias… Se o seu trabalho tem um impacto positivo noutras áreas, este impacto deve ser registado e os profissionais dessas outras áreas, assim como os ‘utentes’ das mesmas, deverão ser os nossos embaixadores. Mais do que qualquer estudo sobre, por exemplo, o impacto da cultura na economia de um país (existem vários, os governos usam-nos ou ignoram-nos), mais do que qualquer argumento que nós possamos apresentar em defesa do nosso contributo à sociedade, fazem falta os testemunhos dos ‘beneficiários’ directos - mesmo que de benefícios ‘colaterais’ - do nosso trabalho. E não nos esqueçamos, são essas as pessoas que votam nas eleições.

No entanto, mais que uma vez partilhei aqui a minha preocupação pelo facto dos profissionais do sector cultural estarem afastados da sociedade, das pessoas. Sempre que se debate a importância da cultura, as razões porque deve ser financiada pelo Estado, apresentamos argumentos que servem sobretudo para consumo interno. Somos nós a falar para os nossos pares em defesa do nosso ‘cantinho’. Passamos mesmo a ideia de que estamos a defender questões pessoais e não o bem comum.

As pessoas defendem e apoiam com os seus impostos a existência de hospitais públicos (esperando até que nunca venham a pôr pé neles, mas porque reconhecem na sua existência um bem comum). Como fazer para que se pense e se fale dessa mesma forma sobre a cultura? Para que todos, utilizadores e não utilizadores, a encarem como um bem comum e indispensável?

Há aproximadamente dois anos, deparei-me pela primeira vez nas minhas leituras com o termo ‘valor público’ (public value), num texto de John Holden de 2004 que se chamava Capturing Cultural Value: How culture has become a tool for government policy. Neste texto, o ‘valor público’ é definido como o valor acrescentado por um governo e pelo sector público no sentido mais amplo. Trata-se da diferença entre aquilo que os cidadãos dão às entidades públicas e aquilo que recebem. Os cidadãos reconhecem valor quando abdicam de algo para receber esse valor (na cultura seria, por exemplo,  dinheiro – para a compra de bilhetes, donativos… -, tempo, energia, trabalho voluntário, etc.).

No mês passado, o Detroit Institute of Arts (DIA) tornou-se notícia porque conseguiu convencer os habitantes de três distritos de Michigan a votar num novo imposto de propriedade que reverterá para o museu. Assim, o DIA terá $23 milhões por ano nos próximos 10 anos (91% do seu orçamento), ao mesmo tempo que tentará angariar mais fundos para, findos os 10 anos, poder continuar a funcionar. Após a votação do imposto, o museu ofereceu entrada gratuita a todos os habitantes dos três distritos.

A propósito deste acontecimento, Diane Ragsdale, autora do blog Jumper, fez uma excelente análise (ler aqui), com links também para outros textos, onde coloca questões que me parecem extremamente pertinentes: terá sido calculado o impacto (no sentido da redução) nas contribuições habituais dos cidadãos (donativos, compra de bilhetes, assinaturas, etc.); teria sido uma solução mais inteligente e mais ética procurar beneficiar com esta taxa várias instituições da área; estará o DIA a colocar-se numa posição desconfortável perante a comunidade ao ter que renegociar a sua relação com ela findos os 10 anos; o que motivou as pessoas a votarem o imposto e como se estarão a sentir o que votaram ‘não’; como deverá ser interpretada a triplicação do número de visitantes na semana a seguir à votação; e, por fim, qual será o impacto deste acordo quid pro quo no que diz respeito aos benefícios que uma comunidade poderá (e quererá) receber pelo seu apoio à uma instituição cultural?

Esta última questão leva-me a um outro excelente texto, de Nina Simon, autora do blog Museum 2.0, que se concentrou na discussão pública que se gerou durante a campanha do museu (ler aqui). Nina analisou os mais de 300 comentários no Detroit Free Press Online e voltou a colocar questões relativamente à forma como é entendido pelas pessoas o valor público da cultura e a forma como estes debates podem e devem ser conduzidos pelas próprias instituições culturais. Nina citou um interessantíssimo estudo, The Arts Ripple Effect: A research-based strategy to build shared responsibility for the arts, que, entre outros, identifica três principais ‘pré-conceitos’ no que diz respeito às artes: as artes são uma questão privada (uma questão de gostos, experiências e enriquecimento pessoais e também uma questão de expressão pessoal); as artes são um bem que pode ser adquirido (e por isso, deveriam funcionar como qualquer outro produto no mercado); as artes não são uma prioridade (até entre as pessoas que as valorizam). Portanto, o estudo sugere que, conhecendo estas e outras suposições, é possível construir argumentos em prol da cultura que a maioria das pessoas possa entender, reconhecendo o seu impacto na sua própria vida e naquela da sua comunidade. Um bem comum precisa de uma linguagem e de um quadro comum, partilhado por todos.

Rebecca Lamoin, Directora Associada de Estratégia no Queensland Performing Arts Centre e minha colega no Kennedy Center, está actualmente a trabalhar num projecto sobre o valor público das instituições culturais. No âmbito do projecto, irá promover um programa de rádio a nível nacional, aberto ao público. Nesta fase preparatória, está a convidar profissionais da cultura de todo o mundo a fazer breves depoimentos, respondendo às seguintes perguntas:
Qual é a coisa mais importante que a sua organização fornece à sua comunidade?
Porque é que a sua comunidade gosta da sua organização? 
De que é que as pessoas na sua cidade sentiriam falta se a sua organização deixasse de existir?

Penso que tentar responder a essas perguntas, e em especial à última, seria um bom exercício para todos nós. E seria ainda interessante saber quantas instituições culturais em Portugal têm já as respostas, porque procuram activamente recolher esses dados e registos. Rebecca Lamoin irá dar-nos conta neste blog de como as coisas correram na Austrália no início de Novembro.


Ainda neste blog

Mais leituras
Public Value and the Arts in England: Discussion and conclusions of the arts debate

Sobre outros esquemas de impostos que beneficiam instituições culturais em cidades americanas, vale a pena ler este post de Ian David Moss no blog Createquity.

Monday, 10 September 2012

Blogger convidado: "Reinventando e tornando os museus relevantes", por Ihor Poshyvailo (Ucrânia)


Ihor Poshyvailo é um homem muito discreto, mas, quando começamos a falar com ele, descobrimos alguém rico em conhecimentos e experiências. Nestas conversas, tornam-se evidentes as suas preocupações relativamente à abertura do seu país, da Ucrânia, para o mundo e ao papel que os museus podem ter durante este período, que é ainda um período de transição, especialmente no que diz respeito ao encontro entre a cultura popular e a expressão artística contemporânea. Neste post, partilha as suas opiniões sobre o presente e o futuro dos museus no seu país. mv

Desfile de "vyshyvankas" no Dia da Independência em Kiev. (Foto: Bohdan Poshyvailo)

Cresci num ambiente onde as artes e a cultura eram muito apreciadas. Os meus avós eram proeminentes ceramistas populares que fundaram a primeira casa-museu na Ucrânia, aquela que foi o antecessor do Museu Nacional de Cerâmica Ucraniana em Opishne, uma pequena aldeia que ostenta o título de “Capital da Cerâmica”.

Tenho estado a trabalhar no sector cultural há mais de vinte anos, mas devo dizer que os últimos três têm sido especialmente favoráveis para mim. Fui um Fulbright Scholar na Smithsonian Institution e neste momento sou um Summer International Fellow do DeVos Institute of Arts Management no Kennedy Center. Estas generosas oportunidades deram-me novos conhecimentos, ideias e visões.

O nosso mundo está-se a tornar mais pequeno e globalizado. Mesmo assim, permanece instável. A cultivação do respeito multicultural e da compreensão mútua entre diferentes comunidades pode ser uma das soluções para enfrentar os maiores desafios e ameaças do século XXI. Neste processo, as instituições culturais e artísticas têm um papel especial, em particular os museus, que hoje em dia não são apenas as clássicas instituições de preservação e apresentação de valores históricos, culturais e naturais, mas importantes espaços de comunicação. Têm a capacidade de mudar profundamente os nossos conhecimentos e a ideia que temos de nós próprios e do mundo à nossa volta, transmitindo informações através da apresentação de objectos e conceitos, e da sua interpretação. Conforme foi sugerido por vários investigadores, os museus transmitem também, implicitamente, mensagens sobre a autoridade, o poder e os valores da cultura dominante. Os museus ajudam-nos a reconstruir o passado, assim como fornecem conhecimentos essenciais para entender o presente.

Nas últimas décadas, os museus nos Estados Unidos têm estado a interagir com públicos mais diversos, mudando o foco da apresentação para a interpretação de objectos e para a produção de experiências, enquanto as exposições têm-se tornado mais orientadas para as pessoas e as ideias e mais contextualizadas. De acordo com a visão de Stephen E. Weil, “O museu do futuro próximo, como instrumento de comunicação complexo e potencialmente poderoso… irá disponibilizar à comunidade… a sua profunda perícia em contar histórias, extrair emoções, despertar memórias, agitar a imaginação e incentivar a descoberta.”

Actuação de um famoso grupo etno-caos, DakhaBrakha, no Museu Ivan Honchar. (Foto: Bohdan Poshyvailo)
A expansão das fronteiras da herança cultural na segunda metade do século XX forneceu novas respostas no que diz respeito às relações entre os objectos patrimoniais e os seus consumidores. A “herancização” (heritagization) do espaço – um processo de reinterpretação do nosso ambiente – coloca os objectos patrimoniais e as instituições culturais na mesma linha com outros espaços populares de lazer, incluindo circos e casinos, restaurantes e resorts, até a televisão e a Internet. Este fenómeno tem tido um impacto sobre os conteúdos e os métodos de apresentação e interpretação da herança cultural e tem inspirado a transformação dos museus em espaços especiais e importantes para um diálogo sobre o papel da herança cultural no desenvolvimento da democracia e da sociedade civil. De acordo com o famoso futurologista Rolf Jensen, a actual sociedade, caracterizada pela abordagem científica e o racionalismo, regressará inevitavelmente às emoções, à história e aos valores.

Neste contexto, deveríamos mencionar que o papel social e a popularidade de um museu na Ucrânia são bastante pequenos em relação aos Estados Unidos e outros países desenvolvidos. Existem várias razões para isso. A política de genocídio dos comunistas na Ucrânia e a opressão cultural dos últimos 80 anos resultaram, claro, numa perda considerável da memória histórica dos Ucranianos. Durante os anos de repressão da cultura soviética, grande parte da distinta herança cultural ucraniana ficou dormente, escondida. Isto foi lamentável por várias razões, no entanto, o nosso isolamento cultural preservou a nossa cultura tradicional como numa cápsula do tempo. Desde 1991, foram introduzidas novas liberdades, proporcionando acesso a novos mercados e culturas. Juntamente com este acesso, houve uma inundação de culturas globais. Apesar de poder haver várias vantagens económicas, na Ucrânia, este fluxo de culturas globais encontra um vácuo de memória cultural. Para a nossa nação, a criação de um caminho distinto para o futuro e uma sociedade aberta e democrática requer alguma memória do que fomos.

O Museu Ivan Honchar, assim como muitos outros museus, pode fornecer de uma forma única esta bagagem cultural. O único problema é como evoluir do ainda dominante modelo soviético de museu – que servia apenas como repositório de tesouros culturais e étnicos aprisionados e para propósitos ideológicos, para a criação de uma nova nação, o povo soviético. Hoje em dia, centenas de museus na Ucrânia podem orgulhar-se de colecções únicas e ricas, mas não se apresentam inspirados para a transição, para se reinventarem e para se tornarem relevantes. A área dos museus na Ucrânia encontra-se numa conjuntura crítica, enfrentando desafios diários. Isto acontece devido à falta de conhecimentos profissionais e de cooperação internacional, métodos de operação, políticas e programas antiquados, que os impedem de tornar-se em centros importantes de aprendizagem e educação, formando, criando e interpretando valores. As suas colecções, bibliotecas, arquivos e outros recursos de documentação ainda não estão abertos ao grande público. Na Ucrânia, estão a emergir novas formas de expressão artística e novos segmentos do sector cultural. No entanto, não existe uma gestão profissional e eficiente nesta área nem uma política cultural eficaz. E a Família – um elemento importante no modelo do Ciclo, desenhado por Michael Kaiser, o Presidente do Kennedy Center – não foi ainda construída.

Desfile de moda no Lion Fest, nas salas do Museu Ivan Honchar. (Foto: Bohdan Poshyvailo)
Mas acredito na diplomacia cultural e concordo em absoluto com a minha colega no Fellowship, Caroline Miller, que, no seu post para este blog, sugeriu que um grande evento cultural ou desportivo pode comunicar eficazmente para as massas mais sobre o país organizador “apenas num único espectáculo do que os políticos têm conseguido em décadas”. Numa viagem recente à Tunísia fiquei tão surpreendido ao ver muitas pessoas (até na região do sul, a porta de entrada para o Sara) sorrirem amigavelmente ao saberem que era da Ucrânia e exclamarem com admiração “Ukrajna. Shevchenko!”. Teria preferido, claro, que tivessem a referir-se ao nosso ícone nacional – o lendário poeta, filósofo e artista Taras Shevchenko, que viveu no século XIX -, não apenas ao nosso famoso jogador de futebol Andriy Shevchenko. Uma bela ilustração de como este Campeonato de Futebol Euro 2012 serviu para a Ucrânia como um grande diplomata cultural.

E acredito ainda que a experiência de profissionais estrangeiros no sector cultural pode ser de grande importância e valor para a Ucrânia. Ajudar-nos-á a encontramos uma forma de compreender e avançar com o uso da nossa herança cultural e das novas formas de expressão artística num ambiente que está a mudar rapidamente, concentrando-nos sobre o porque é que os museus são importantes para a nossa cultura, qual pode ser o seu contributo para a qualidade da experiência e o bem-estar humano, como podem enriquecer as vidas das pessoas envolvendo as emoções, melhorando as experiências e aprofundando a compreensão de pessoas, lugares, eventos, ideias, conceitos e objectos do passado e do presente.


Ihor Poshyvailo é Etnólogo, doutorado pelo Instituto de Estudos Artísticos, Arte Popular e Etnologia, Academia Nacional das Ciências da Ucrânia (1998). É Director-Adjunto do Centro Nacional de Cultura Popular “Ivan Honchar Museum” (Kiev); Presidente da Delegação Regional de Kiev da União Nacional de Mestres de Arte Popular; membro fundador do Conselho da Fundação Ivan Honchar. Foi um dos peritos da Comissão Estatal de Arte do Ministério da Cultura da Ucrânia, assim como da Comissão Intergovernamental da UNESCO para a Preservação do Património Cultural Imaterial (2009). É o autor do livro premiado Phenomenology of Pottery (semiotic and ethnological aspects). Co-moderador e co-organizador de seminários internacionais sobre gestão de museus (desde 2005). Participou no International Visitor Program (EUA, 2004), Global Youth Exchange Program (Japão, 2004) e The World Master’s Festival in Arts and Culture (Coreia do Sul, 2007). Curador de projectos artísticos internacionais, incluindo a exposição itineráriaSmithsonian Folklife Festival: Culture Of, By, and For People” (2011), “Interpreting Cultural Heritage” (2011), “Home to Home: Landscapes of Memory” (2011-2012). Foi bolseiro do International Charitable Fund “Ukraine-3000” (2005–2006). Foi Fulbright Scholar no Smithsonian Center of Folklife and Cultural Heritage (2009-2010) e actualmente é Summer International Fellow no Kennedy Center (2011-2013). 

Monday, 3 September 2012

Choque de culturas

Aung San Suu Kyi no parlamento birmanês no dia 2 de Maio de 2012. (Foto retirada de  http://photoblog.nbcnews.com)

Tenho estado a pensar sobre o medo e a forma como nos aprisiona, como nos limita, como nos leva a aceitar constantes compromissos, como nos impede de sonhar, como nos mantém no lugar onde estamos, tornando-nos medíocres, pequenos; a forma como e as razões porque se cultiva. A cultura do medo.

Li recentemente o livro Freedom from Fear, uma compilação de textos e discursos públicos de Aung San Suu Kyi, a activista birmanesa, Prémio Nobel da Paz, que passou vários anos em prisão domiciliária, mas que, há poucos meses, entrou no parlamento do seu país como deputada. Isto significou muito para mim. A primeira petição que alguma vez assinei, tinha uns 19-20 anos, era da Amnistia Internacional e pedia a libertação de Suu. Um dos discursos que agora li no livro começava assim: “Não é o poder que corrompe, mas o medo. O medo de perder o poder corrompe aqueles que o detém e o medo de serem castigados por ele corrompe aqueles que lhe estão sujeitos.”

Com esta frase, o meu pensamento voou da Birmânia novamente para os países da Primavera Árabe. Confesso que, desde que tudo isto começou, nunca olhei para eles como países que vêm agora, ‘finalmente’, juntar-se a nós - os ‘países-guardiões da democracia’, o ocidente ‘livre’. Pelo contrário, ao acompanhar o desenvolvimento da Primavera Árabe e o que se lhe seguiu, senti que teríamos que estar muito atentos porque há aqui várias lições para nós. O que eu vi nesta revolução foram povos que se juntaram para vencer o medo, que agiram como um corpo pelo bem de todos, que lutaram pela democracia - pelos direitos que ela traz, mas assumindo igualmente as obrigações. Tenho lido artigos em jornais, textos em blogs, tenho trocado opiniões com algumas pessoas provenientes desses países, e o que encontro são cidadãos que se sentem responsáveis pela manutenção dos ideais que guiaram esta acção, que têm perfeita noção que a luta não acabou e que terão que estar em alerta permanente para não voltarem atrás. Conhecendo o nosso percurso, será uma utopia desejar que eles possam permanecer assim? E que isto funcione mesmo? Porque confesso que houve momentos em que me senti envergonhada: pelas coisas que nós tomamos por certas; por fazermos parte do ciclo vicioso da cultura do medo - ora no lugar de quem detém o poder ora no lugar de quem lhe é sujeito -, inconscientes dos ideais e dos valores que sacrificámos pelo caminho ou, então, conscientes, mas absolvendo-nos a nós próprios com desculpas como “são as regras do jogo”, “é algo que me ultrapassa” ou “estou a seguir ordens”. As palavras de Wassyla Tamzali, escritora e activista argelina que participou num debate em Lisboa sobre a Primavera Árabe, tornam-se extremamente relevantes, para todos nós. Tamzali citou Michel Foucault, que tinha dito que “Revolução é dizer ‘não’ ao rei”, e acrescentou: “Na Argélia não houve essa junção mágica [como na Tunísia] entre todos os elementos da sociedade. [Na Tunísia] tinha sempre havido resistência, a resistência ao poder existiu desde sempre e dentro de várias categorias sociais (os artistas, os intelectuais, as mulheres, os juizes, os mineiros…), mas nunca tinha havido esta junção de todas as categorias. Apenas há revolução quando todas as categorias sociais se encontram e se posicionam.”

Neste contexto, a entrevista do Secretário de Estado da Cultura ao jornal Le Monde no mês passado causou-me alguma consternação. Apesar da mesma não ter sido dada na qualidade de SEC, não é possível separar o homem do cargo, sobretudo porque as suas declarações estão intimamente relacionadas com questões que têm a ver com a cultura de um povo.

Francisco José Viegas disse: “(…) Pertenço a uma geração que a um determinado momento deve responder ‘sim’. E aceitar compromissos. Quando o nosso país atravessa uma crise terrível, escrever em jornais ou em blogues o que deve ser a cultura ou a sociedade, como fazer o cinema sair do marasmo ou salvar as bibliotecas, já não basta..(…).”  E disse ainda: “Vivemos numa sociedade que perdeu os seus sonhos. Os portugueses têm medo do futuro, de falar. E isto acontece depois da Inquisição, que foi há 300 anos, e de 50 anos de regime fascista de Salazar. Hoje, com a crise, continua. É terrível.” (ler aqui um resumo no jornal Público e aqui a entrevista na íntegra no Le Monde).

É verdade, a Inquisição foi há 300 anos e o país viveu ainda 50 anos de regime fascista. Mas têm sido também quase 40 de regime ‘democrático’. O que têm produzido? Uma cultura de medo; uma cultura de yes men; uma cultura de compromisso, que faz até algumas cabeças mais erguidas baixarem-se, alinharem com a mediocridade, para sobreviverem (vale muito a pena ler a crónica do jornalista grego Nikos Demou The alliance of the lesser; o regime ‘democrático’ tem alimentado comportamentos semelhantes em países como a Grécia, com um percurso histórico e político diferente do de Portugal, o que leva a pensar que provavelmente nem a Inquisição nem o Salazar serão os únicos responsáveis).

Talvez não baste escrever em jornais e blogs sobre o que deve ser a cultura e a sociedade. Mas basta, sem dúvida, sermos governados ou manipulados, a todos os níveis e em vários meios, por quem pertence à ‘geração’ do SEC, a ‘geração’ (que, na verdade, abrange várias gerações, inclusivamente as mais novas) que alimenta a cultura do medo, que acha que deve dizer ‘sim’ e aceitar compromissos. Não terá chegado também aqui, nos nossos ‘países-guardiões da democracia’, o momento de entrarmos em confronto com a cultura do medo recuperando a nossa cultura de pensamento e de prática democrática? Não terá chegado o momento de dizermos ‘não’ aos reis e às suas cortes e de declararmos que há compromissos que são inaceitáveis, intoleráveis? Não terá chegado o momento de sonharmos com algo mais do que a mediocridade? De formarmos cidadãos atentos, sensíveis, tolerantes, exigentes e críticos, envolvidos nos assuntos da polis, que possam exprimir a sua opinião livremente e com sentido de responsabilidade, sem medo de serem castigados por isso? De alimentarmos a imaginação, de apoiarmos a criatividade, de premiarmos o empenho e o mérito? De esperarmos de quem confiamos com um poder executivo a obrigação de accountability* e de assumirmos todos, como cidadãos, o direito e o dever de a exigir? Sobretudo porque, como lembra o SEC, este país (como outros) atravessa uma crise terrível, uma crise que não apenas financeira. E esta é também uma questão de Cultura.

*Accountability significa que quem desempenha funções de importância na sociedade deve regularmente explicar o que anda a fazer, como faz, por que faz, quanto gasta e o que vai fazer a seguir. Não se trata, portanto, apenas de prestar contas em termos quantitativos, mas de auto-avaliar a obra feita, de dar a conhecer o que se conseguiu e de justificar aquilo em que se falhou. (Fonte: Wikipedia)

Monday, 6 August 2012

Até Setembro

"It is not power that corrupts but fear. Fear of losing power corrupts those who wield it and fear of the scourge of power corrupts those who are subject to it." Aung San Suu Kyi