Monday, 7 January 2013

Liverpool-Lens-Metz-Foz Côa e de volta ao início

Imagem retirada da página do Facebook do Louvre-Lens.

Quando se pensa em cultura e regeneração urbana, surge logo o caso de Liverpool, assim como o trabalho de J. Pedro Lorente na análise deste e de outros casos de estudo de cidades que procuraram revitalizar-se, com mais ou menos sucesso, através da cultura e das artes. Na introdução do seu paper The role of museums and the arts in the urban regeneration of Liverpool (1996), Lorente escreveu: “... qualquer área abandonada no seio de uma cidade próspera irá, de qualquer forma, ser revitalizada pelos urbanistas. No entanto, há menos hipóteses de desenvolvimento quando essa área abandonada se encontra no meio de uma cidade em declínio, que enfrenta a recessão económica, o desemprego, o despovoamento, a agitação social/étnica e a decadência física. (...) Liverpool é um caso destes: nas últimas décadas tudo parece ter corrido mal, excepto as artes (…)”.

De alguma forma, Lens parece ser também um caso destes. Trata-se de uma antiga cidade mineira de 35.000 habitantes no norte de França, orgulhosa da sua equipa de futebol e muito atingida pela crise. Lens é também, desde o dia 4 de Dezembro, a cidade onde se encontra o novo museu Louvre-Lens, que apresenta objectos pertencentes à colecção do museu parisiense, incluindo algumas das suas obras de referência, como A Liberdade guiando o Povo de Delacroix. No seu discurso durante a cerimónia de inauguração, o Presidente francês François Hollande usou palavras como “desenvolvimento regional”, “descentralização cultural” e “democracia cultural” e manifestou-se confiante que os visitantes virão da região inteira, da França inteira, da Europa inteira e talvez do mundo inteiro (o objectivo anual neste momento é 500.000 visitantes; em menos de três semanas depois da sua abertura, o museu recebeu 100.000 visitantes). Por outro lado, o Presidente do Louvre, Henri Loyrette, explicou numa entrevista ao jornal El País: “[aquando da decisão sobre o local] o que me interessava era que pudesse ter um carácter social, não uma cidade com cultura. Esta é uma zona industrial, muito afectada pelo desemprego e que sofreu em todas as guerras. É uma espécie de reparação”.

Estamos bastante habituados a ouvir declarações politicamente correctas, pelas quais raramente alguém presta contas nos anos seguintes, mas um museu que tem como objectivo compensar uma região pelos seus flagelos é um novo conceito para mim. Li vários artigos e reportagens relativamente a este novo museu, alguns dos quais podem ser encontrados no fim deste texto, mas gostaria de destacar três deles que, na minha opinião, levantam algumas questões importantes.

No blog francês Option Culture, Jean-Michel Tobelem analisa os três desafios que o museu é chamado a enfrentar – frequentação, impacto territorial e democratização – e argumenta: 1. apesar do museu ter bons acessos e das exposições serem de alta qualidade, o edifício não será suficiente para atrair o grande número de visitantes com o qual sonham os que desejam um “efeito Bilbao”; 2. mesmo que haja um grande número de visitantes, Tobelem duvida que haja uma oportunidade para a criação de riqueza enquanto não existirem infra-estruturas (hotéis, restaurantes, comércio, etc.) que irão dar resposta às necessidades desses visitantes e fazê-los querer ficar mais tempo e gastar mais dinheiro; 3. Tobelem duvida ainda que a abordagem cronológica da Galeria do Tempo, as actividades educativas actualmente propostas e as reservas abertas sejam capazes de atrair os chamados públicos “novos”. Bernard Hasquenoph criticou igualmente as referências oficiais à democracia cultural e à descentralização, afirmando no seu artigo Louvre-Lens: la culture comme alibi que a região onde se situa Lens dificilmente poderia ser considerada culturalmente ‘sinistrada’ e citou o Presidente do Louvre que disse que Lens é uma cidade numa “… região reputada pelo seu excepcional dinamismo cultural e a densidade da sua rede de museus”. Por fim, Jonathan Jones do jornal The Guardian avisa que The Louvre risks losing its magic with Lens move (O Louvre arrisca-se a perder a sua magia com a mudança para Lens) e considera esta mudança uma prova que “o politicamente correcto enlouqueceu”. Pede aos museus britânicos para não cometerem o mesmo erro e para continuarem a criar ligações e promover empréstimos entre as regiões e os museus da capital.

Estes três textos resumem a minha opinião sobre este assunto. Lens encontra-se a uma hora de Paris de comboio. Faz, realmente, sentido (em nome da “descentralização e democracia cultural” ou em género de reparações) fragmentar uma colecção mundialmente conhecida, visitada por milhares de pessoas que vivem em França ou que vêm do estrangeiro, para a aproximar de pessoas que poderiam ter facilmente acesso a ela? E se não for esse o caso de todos (e provavelmente não é), não faria mais sentido tornar o transporte até Paris mais acessível a todos os interessados em visitar o museu? Além disso, numa região que parece ter já uma rica oferta cultural, não faria mais sentido apoiar estruturas existentes e as suas ligações com a capital? Ou, no caso de ser realmente considerado o momento e local certo para a criação de um novo equipamento cultural, não seria mais apropriado, também em termos de competitividade, criar algo único e distinto dessa região? Por último, se a decisão foi tomada em nome do desenvolvimento regional, será esperado do museu fazer um milagre sozinho, quando faltam ainda infra-estruturas complementares básicas?

Imagem retirada da página de Facebook de Pompidou-Metz.
Isto faz ainda lembrar o caso de Pompidou-Metz, que abriu em 2010 com objectivos bastante parecidos, enunciados pelo Presidente Francês na altura, Nicolas Sarkozy: uma cidade que não fazia parte dos percursos turísticos, a pouco mais de uma hora de comboio de Paris; uma cidade com uma rica oferta cultural; um museu criado numa zona previamente dada à indústria, parte de um plano para impulsionar o turismo; várias auto-estradas que entretanto abriram para facilitarem o acesso. Mesmo assim, menos de três anos depois da sua abertura, o museu não conseguiu atingir o seu objectivo de 600.000 visitantes para 2012 (ler aqui). Alguma coisa correu mal? Haverá alguma explicação para isto? Alguém estará a avaliar este caso no momento em que abre um museu novo aparentemente com o objectivo de servir uma visão idêntica?

E com tudo isto, questiono-me ainda: e Foz Côa? Este é um dos meus lugares favoritos em Portugal. Visitei os sítios das gravuras pré-históricas em 1999 e em 2000. Em 2011 regressei, desta vez para visitar também o museu, que tinha aberto no ano anterior. Apesar deste projecto ter sido apresentado como um factor decisivo no desenvolvimento da região (e, provavelmente, consegue mesmo atrair mais pessoas), a verdade é que a única novidade que encontrei foi o próprio  museu, onde, na tarde de um Domingo de Novembro, era a única visitante. O café do museu estava encerrado e tive que regressar à vila e enfrentar a tarefa quase impossível de encontrar algo para comer num lugar que parecia deserto e que ainda não tem um hotel decente (ou um restaurante) que pudesse fazer as pessoas considerar passar a noite. Além disto, considerando o tráfego turístico no Douro, os planos anunciados para criar uma ligação aos barcos ainda não se concretizaram, isto é, não existe ainda um cais e um teleférico que permitiriam a esses turistas chegarem ao museu e visitarem os sítios pré-históricos.

Não sou perita em regeneração urbana e só posso exprimir uma opinião com base em algumas leituras e na minha experiência como visitante. Parece-me, portanto, que, tal como uma andorinha não faz a primavera, é preciso mais que um museu para garantir o desenvolvimento sustentando de uma vila, cidade, região. Há muito a aprender com as cidades que souberam gerir isto com sucesso. Foi preciso mais que cultura. E foi preciso mais que afirmações politicamente correctas.  Acima de tudo, é necessário haver um forte compromisso político e a junção de forças públicas e privadas no sentido de cumprir um claro objectivo comum. As artes não foram a única coisa que não correu mal em Liverpool…


Mais leituras
Louvre-Lens: helping a mining town shed its image, by Oliver Wainwright (The Guardian, 5 December 2012)
The Louvre comes to town, by Edwin Heathcote (The Financial Times, 7 December 2012) 
L´ouverture du Louvre-Lens, par Didier Rykner (La Tribune de l´Art, 4 Décembre 2012)
Louvre-Lens: la naissance d´un musée (Le Monde, 5 Décembre 2012)
Le Louvre-Lens ouvre ses portes au public (Le Figaro, 12 Décembre 2012)
Le Louve Lens, le succès en dépit des grincheux (Lunettes Rouges, 11 Janvier 2013) 
Les musées seremettent en scène, para Valérie Duponchelle (Le Figaro, 7 Décembre 2012)
What's the big idea behind the Pompidou-Metz?, Jonathan Glancey, (The Guardian, 6 April 2010)
Centre Pompidou: Metz gears up for its moment, Natasha Edwards (Telegraph, 8 May 2010)
Museu do Côa, por António Martinho Baptista (Informação ICOM.PT, Nº 16, Mar-Maio 2012)
Amigos do Parque e Museu do Côa, por José Manuel Costa Ribeiro (Côavisão – Cultura e Ciência, Nº 12, 2010)
We built way too many cultural institutions during the good years, by Emiy Badger (The Atlantic Cities, 5 July 2012)
Philharmonie de Paris: a granddesign turned £300m 'bottomless pit', by Angelique Chrisafis (The Guardian, 30 December 2012)
Mais e novos museus, por Joana Sousa Monteiro (Mouseion, 7 Janeiro 2012)

Vídeos
Le Journal du Temps: Lens, le Havre et une seule cause (André Malraux inaugure le premier musée – Maison de la Culture en 1961)

Wednesday, 26 December 2012

No meu 2012...


Um espectáculo




Três filmes



e


e



Uma artista da palavra dita





Uma canção




Um livro





E a viagem...

Clique aqui para ver o álbum.

Monday, 17 December 2012

Blogger convidado: "A história do rapaz que adormeceu", por Mohamed El Ghawy (Egipto)

O último blogger convidado este ano é um sonhador, um contador de histórias, é o meu amigo Mohamed El Ghawy. O Mohamed é aquele género de sonhador que nos surpreende pela forma como consegue manter os pés na terra. É cauteloso mas determinado, procura sempre dar passos em frente, sabe o que é preciso fazer para que os sonhos se tornem realidade e... fá-lo. Tivemos longas conversas no verão passado sobre a situação no Egipto e os seus planos para a AFCA, a organização que criou em 2004 com o objectivo de educar as crianças egípcias através das artes e da cultura. Esta é a sua contribuição para o futuro do seu país, um futuro habitado por cidadãos criativos, imaginativos, sensíveis e activos, capazes de aceitarem os outros e de encontrarem o seu caminho sozinhos. mv

Workshop de artes visuais com crianças carenciadas. (Foto: AFCA)

“As crianças enchiam o hall e, como habitualmente, eu estava a contar uma história. Algumas delas abriam as suas boquinhas imitando-me, outras abriam os seus olhinhos fascinadas. A interacção era maravilhosa, divertia-me muito a esticar a minha voz para imitar personagens e vários animais. As crianças estavam a rir-se. Estavam felizes por assistir, tal como eu estava feliz por representar. De repente, reparei num rapaz que estava na última fila, contra a parede. Os seus olhos fecharam-se e cabeceou. Adormeceu e senti-me chocado, era a primeira vez que isto me acontecia. Chateado por não ter conseguido atrair a sua atenção, continuei e no fim apresentei as minhas desculpas à professora. Ela, vendo como isto me tinha afectado, riu-se e disse: «Este rapaz sofre de insónia e estamos a trabalhar com os seus pais para o ajudar. O médico diz que não dorme porque não se sente seguro»”.

Isto não me aconteceu a mim; foi um contador de histórias da Croácia que nos contou numa formação na Irlanda. Há muito tempo que estou interessado na forma como usar as artes na educação dos mais novos. No meu país, o Egipto, o sistema de educação é muito tradicional e as crianças é suposto decorarem tudo sem reflectirem sobre aquilo que estão a memorizar, o que acaba por ser aborrecido. Para mim, a Educação é uma ferramenta e deve continuar a sê-lo.

Quando tinha 25 anos, fiz uma viagem de barco no sul do Egipto com um grupo de amigos, para fugir da vida louca de Cairo. Navegámos ao longo do Nilo num barco pequeno durante 4 noites. Sem tecnologia, sem stress, só a natureza e nós. Uma noite, o céu estava cheio de estrelas e um dos meus amigos, o Damian, abriu um mapa de estrelas e começou a brincar com pedrinhas. Disse que se fizéssemos um desejo naquele momento, tornar-se-ia realidade antes do fim do ano seguinte. Sem hesitar, falei do meu sonho em abrir um espaço onde as crianças pudessem aprender tudo através das artes. Os meus amigos ficaram muito entusiasmados e começámos a procurar um nome. “Deve incluir o francês, tu adoras essas língua”, disse Marwa; e a Yasmine disse: “Irás abri-lo no Cairo, certo?”. O Damian disse que no seu país, a Bélgica, esse género de projectos chamava-se “academia das artes” e naquele momento surgiu o acrónimo francês AFCA - Académie Francophone Cairote des Arts.

Meio ano depois, juntámo-nos todos para a inauguração da minha academia das artes. O Damien estava na Europa e voltou para o natal, vestido de Pai Natal e cantando para as crianças: “Há um ano, brincávamos com as estrelas no céu, agora brincamos convosco aqui na terra…”.

A missão da AFCA é “Educar as crianças e os jovens através das Artes e da Cultura no Egipto”. As actividades que propomos são desenhadas para reforçar o uso das línguas – francês, inglês e árabe – e para estimular a criatividade e talento artístico natural de cada criança, usando-o como um meio para desenvolver capacidades pessoais.

Algumas pessoas acreditaram na nossa missão. Lembro-me da mãe de Aly, que nos apoiou imenso desde o primeiro momento. Tal como nós, acreditava que a sua criança podia aprender e falar uma segunda língua sem ser necessário passar por um sistema académico, apenas através das artes. Conversámos dois anos depois da abertura da AFCA. Disse que Aly estava muito feliz. A sua personalidade tinha mudado e tinha desenvolvido muito as suas capacidades de socialização – mas só falava apenas a língua que lhe ensinavam na escola. Três anos mais tarde, telefonou-me. “Há quatro dias que estamos em França e Aly é o nosso guia, fala em francês. Obrigada!”. Na AFCA, tínhamos brincado juntos com as línguas, tínhamos pintado, até tínhamos cozinhado com elas. Aly tem agora 12 anos e faz parte da equipa que está a planear o nosso décimo aniversário em 2014.

Depois da revolução, tínhamos energia positiva e sentimos que estávamos livres. Decidimos construir pontes com outras culturas e criámos o Hakawy International Arts Festival for Children com o objectivo de trazer ao Egipto espectáculos de todo o mundo. A exposição a outras culturas irá apoiar o desenvolvimento da imaginação e criatividade das crianças e abrir as suas mentes para o mundo e a diversidade cultural. Abrimos o festival a crianças carenciadas, que normalmente têm acesso limitado às artes. Mas têm também o direito de se exprimirem e de se sentirem aceites pelos outros, também a nível internacional. Acreditamos que as artes e a cultura são inestimáveis para as crianças, tão importantes como a comida e a saúde. Comer é uma cultura, conduzir um carro é uma cultura, ouvir enquanto se conversa com outros é uma cultura, limpar é uma cultura. No Egipto, especialmente agora, precisamos destes lados intangíveis da cultura.

Segunda edição do Festival Hakawy, com crianças com necessidades especiais. (Foto: AFCA)
Algumas pessoas pensam que ensinar artes às crianças é um luxo. Não é; é tão importante como qualquer outra coisa. Ensina criatividade, capacidades de socialização e imaginação. A história de um país, contada como conto ou representada numa peça, nunca será esquecida. Quantas pessoas se lembram das datas históricas se as estudaram apenas para responder às perguntas de um exame?

Aprender através das artes enriquece muito a educação de uma criança. A equipa da AFCA ensina línguas estrangeiras através de teatro e de canções, e até disciplinas mais complexas, como a matemática e as ciências, podem ser ensinadas através das artes visuais. É mais importante do que nunca para as gerações mais novas possuírem um amplo leque de capacidades. Considerando algo tão simples como cozer bolos, uma tarte de maçã pode ajudar surpreendentemente uma criança a aprender a comportar-se como membro de uma equipa. As artes não são uma disciplina por si; atravessam todo o currículo.

Devido à situação económica do Egipto, que impede 20 em cada 100 crianças de encontrar um lugar numa escola pública, não podemos deixá-las mais na dependência do governo. Temos que as formar desde muito cedo, de uma forma criativa, para aprenderem a pensar e a investigar. Não só para nos seguirem, mas para estarem no centro, sendo nós aqueles que as seguem.

Nas instalações da AFCA, no dia a seguir à demissão de Hosni Mubarak. (Foto: AFCA) 

Para contribuir para o desenvolvimento do nosso país, e considerando que as organizações independentes devem fazer parte da solução, a AFCA juntou-se ao conselho consultivo das escolas de Heliópolis – Cairo Oriental, para desenvolver a educação através das artes e da cultura nas escolas públicas. Estamos a espalhar o nosso conhecimento, observamos os processos e avaliamos depois da implementação de cada projecto. Dizemos sempre que “A educação através das artes e da cultura não precisa de um PhD; todos podem fazê-lo, em casa, na rua… com as suas crianças ou com as crianças dos seus amigos”. Não posso ainda esquecer-me do papel das artes e da cultura na construção da inclusão social das crianças ou daquelas com necessidades especiais. Podem até substituir um medicamento. Lembro-me ainda do impacto que as nossas actividades tiveram nos refugiados do Iraque e agora da Síria, que se sentiram socialmente incluídos através das artes. Não custa nada, temos apenas que acreditar que, para assegurarmos o futuro das nossas crianças, precisamos de começara  trabalhar com elas desde cedo. O nosso objectivo é ajudar todas as crianças egípcias a serem capazes de aceitar os outros e a encontrarem o seu caminho sozinhas.

Não é fácil trabalhar nas artes, especialmente com a situação política actual, mas estamos a avançar e tentamos ser criativos na resolução dos nossos problemas. Dou sempre coragem a mim próprio e à minha equipa lembrando a todos que o rapaz que adormeceu não estava aborrecido com a história; adormeceu porque se sentiu seguro.


Mohamed ElGhawy é licenciado em Artes, Francês e Literatura pela Universidade de Cairo. Começou a sua carreira como professor de teatro, actor e contador de histórias, em várias escolas e centros culturais. Escreveu várias peças de teatro e encenou muitas produções. Tendo recebido formação pela organização IBO em como usar as artes na educação, fundou no Egipto em 2004 a AFCA, uma organização artística e cultural independente. A fim de promover a cultura árabe e egípcia em todo o mundo, tem viajado a vários países como contador de histórias e formador em educação pela arte. Criou o Hakawy International Arts Festival for Children in Egypt, sob a égide do Ministério da Cultura do Egipto, e com o apoio de várias embaixadas e da UNESCO. É membro do Conselho Consultivo das escolas de Heliópolis – Cairo Oriental. Estudou no DeVos Institute of Arts Management no Kennedy Center for the Performing Arts, em Washington. Colaborou com artistas internacionais em vários projectos que tinham como objectivo usar as artes e a cultura como ferramenta para a aprendizagem intercultural, em França, Alemanha e Argélia. Recentemente, tornou-se representante de Assitej International Network for Theatre for Young Audience and Youth no Egipto e está a trabalhar localmente com outras organizações para a sua reconstrução.

Monday, 10 December 2012

Lugares mágicos

Workshop de Ricardo Lopes (Foto: Vasco Célio /Stills)
As exposições blockbuster atraem muitas pessoas e muita atenção. São consideradas acontecimentos únicos na vida de alguém. Nos últimos doze meses, três tiveram particular destaque nos meios de comunicação: Leonardo da Vinci: Painter at the Milan Court na National Gallery de Londres; a retrospectiva de Damien Hirst na Tate Modern (esteve aberta entre Abril e Setembro e quando encerrou era a exposição individual mais popular na história do museu); e houve ainda a exposição The Steins Collect: Matisse, Picasso and the parisianAvant-Garde no Metropolitan Museum of Art (apesar de, neste caso, a grande questão ter sido o facto da exposição de moda Schiaparelli and Prada: Impossible Conversations, também no Metropolitan, a ter ultrapassado em termos de afluência - ler aqui).

Por ocasião da exposição de Leonardo, o jornal Guardian tinha lançado o debate “Are blockbuster art shows worth queueing for?” (Vale a pena ficar na fila para exposições blockbuster?), onde a jornalista do Observer Miranda Sawyer e o director da Royal Academy Charles Saumarez Smith  - defendendo o ‘não’ e o ‘sim’ respectivamente – discutiram se e como uma pessoa pode apreciar a arte numa sala que está a abarrotar. Nessa altura, James Page acrescentou um elemento mais interessante no debate, lembrando no seu blog que “a discussão estava a revelar de várias formas, e não apenas em termos das opiniões expressas pelos dois protagonistas, mas também como uma tendência natural no sector cultural, o facto de se perguntar a si próprio como é que os seus públicos pensam, sentem ou agem em vez de irem ter directamente com os públicos em questão”.

As exposições blockbuster levantam igualmente a questão da escala. E esta parece ser uma questão que preocupa muito as pessoas, uma vez que, como cidadãos em geral e como profissionais em particular, têm a tendência em se sentir pequenos – e por ‘pequenos’ querem dizer sem poder, sem capacidade de criar impacto.

Tenho pensado na questão da escala também, sobretudo nas ideias e nas acções que são provavelmente de uma escala pequena ou média, mas que têm impacto e podem ainda fazer a diferença na vida de outras pessoas – para além da nossa, claro. São as ideias e as acções que estão ao nosso alcance, mas que podem na mesma contribuir para um todo maior.


Workshop de Maria Alcobia (Foto: Vasco Célio / Stills)
O projecto “Lugares Mágicos” é uma iniciativa da Direcção Regional de Cultura do Algarve. Junta sítios históricos e a criação artística contemporânea; torna-se no ‘lugar mágico’ de um encontro entre artistas e jovens institucionalizados. Mais concretamente, os artistas Maria Alcobia, Vasco Célio, Ricardo Lopes e Miguel Cheta (respectivamente das áreas da dança, fotografia, cerâmica e design), coordenados por Tânia Borges Nunes (Atelier Educativo), trabalharam juntamente com os jovens e, inspirados na herança local, ensinaram-lhes as técnicas da sua arte e juntos produziram peças lindíssimas.

No seguimento da primeira edição, em 2010, houve uma publicação com textos escritos pelas várias pessoas envolvidas. A segunda edição, em 2012, resultou numa jornada de reflexão, no mês passado, que juntou mais uma vez as pessoas envolvidas e deu-nos a oportunidade de conhecer o projecto em mais detalhe. Logo no começo, aconteceu algo raro: representantes da área da cultura, da educação e da acção social sentaram-se à volta da mesma mesa e elogiaram um projecto que, acreditam, cumpriu um objectivo que lhes é comum (não é disso que se trata? não deveria sempre ser assim?). O dia prosseguiu e, através de filmes, fotografias e debates entendemos a enorme visão por trás deste projecto de escala algo pequena.

Não há dúvida que este projecto teve um impacto significativo nas vidas de todos os envolvidos. Ao ouvi-los falar, apercebemo-nos que foi um processo de descoberta e de inspiração e, em certos casos, uma experiência transformadora quanto às percepções de ‘normalidade’ e ‘inclusão’. Neste sentido, parece que os objectivos enunciados pela Directora Regional Dália Paulo – “potenciar olhares, diálogos e experiências ao público-alvo, num exercício pleno de cidadania e “a cultura [como] motor para uma mudança social” – tenham sido cumpridos. Senti apenas que foi uma pena não termos ouvido a voz dos próprios jovens, não ouvimos a história da sua participação e daquilo que esta significou para eles nas suas próprias palavras (uma indicação que aquela tendência natural do sector cultural britânico, de que falava James Page, ‘afecta’ de igual modo o sector cultural português). Filomena Rosa, presidente de uma das instituições sociais envolvidas, trouxe-nos algum feedback ao citar as jovens na sua apresentação: “Fotos na cidade! Antes eu não ligava, eram pedras velhas, mas com as fotos aprendi” ou “Aprendi que uma foto tem muito a dizer… Como uma paisagem que nos diz algo. Com sentimentos”.


Workshop de Vasco Célio (Foto: Vasco Célio / Stills)
No meu comentário final nesse dia, recordei a coreógrafa brasileira Lia Rodrigues – que não criou o seu estúdio numa das favelas de Rio de Janeiro procurando resolver o problema da pobreza ou da violência -  e o maestro Daniel Barenboim – que não criou a West-Eastern Divan Orchestra esperando trazer a paz ao Médio Oriente (mais no meu post Lugares de Encontro). A contribuição da Cultura não está, em primeiro lugar, relacionada com questões como a pobreza, a violência, o crime, a saúde mental, a iliteracia, etc. Artistas e profissionais da cultura em geral não procuram assumir o papel de assistentes sociais, professores, políticos, polícias, padres ou médicos. A Cultura, em primeiro lugar, tem a ver com o pensamento crítico, a auto-expressão (verbal e não verbal), a criatividade, a sensibilidade; tem a ver com o ficar a conhecer o ‘outro’. Neste sentido, quando tudo (cultura, educação, acção social) se junta – num ‘lugar de encontro’ ou num ‘lugar mágico’ – acredito que temos mais hipóteses de construir uma sociedade mais democrática, mais tolerante, mais inclusiva; uma sociedade onde não vivemos em compartimentos e não definimos o ‘outro’ pelas suas diferenças, mas simplesmente o vemos como um outro ser humano (e não ‘especial’ ou ‘deficiente’ ou ‘diferente’ ou até ‘problemático’). “Lugares Mágicos” é o género de projecto que junta os ingredientes necessários para que isto aconteça.

Uma nota final: recentemente estive por duas vezes no Algarve em encontros com profissionais da cultura. Senti que há neles uma clara noção de propósito, há muita motivação e empenho para a ‘causa’, há satisfação pelo que tem sido feito e vontade de fazer mais. E tudo e todos apontam para a Directora Regional, a nossa colega Dália Paulo. Não há dúvida para mim que é a sua visão, o seu profissionalismo, os seus conhecimentos e capacidades que guiam e inspiram toda a equipa. A Dália Paulo e os restantes colegas que conheci no Algarve trabalham à sua escala, fazendo uma diferença blockbuster na vida das pessoas que habitam na região. São os beija-flores (hummingbirds) de Wangari Maathai.

Monday, 3 December 2012

Quem diz?

Giselle Ciulla, 'curadora' da exposição Giselle´s Remix (Imagem retirada do website do Clark Art Institute).
uCurate é uma iniciativa do Clark Art Institute na cidade de Williamstown nos EUA. Trata-se de uma aplicação digital que permite às pessoas desenhar exposições imaginárias a partir da colecção do museu. As propostas entram numa competição e a proposta vencedora é materializada com a ajuda do museu. Nesta primeira edição, e após a avaliação de quase 1000 candidaturas, a proposta vencedora foi a de uma menina de 11 anos, Giselle Ciulla, que nos convida a visitar Giselle´s Remix (mais aqui).

É tão bom ver a cara alegre da Giselle e quase que sentimos o orgulho que ela sente na sua proposta. É também este o papel dos museus na sociedade, um papel que permite o envolvimento, a participação activa, que reconhece que existem mais versões da ‘verdade’ e que as acolhe, mesmo tratando-se de crianças com 11 anos. As legendas que acompanham as obras na exposição foram escritas pela própria Giselle. Transmitem simplicidade e frescura, demonstram sensibilidade. Há uns anos atrás tinha visto legendas escritas pelos visitantes na Tate Britain e tinha também gostado muito. Eram, para mim, tão interessantes como as outras, as ‘oficiais’. Na altura (foi em 2004), Maev Kennedy do Guardian achou a iniciativa dúbia. Quanto ao director da Tate Britain, Stephen Deuchar,  dizia que estaria particularmente interessado em receber as contribuições de visitantes que poderiam saber muito mais sobre uma pintura do que os especialistas do museu ou os próprios artistas (ler mais aqui).

Nos dias 12 a 14 de Novembro estive na conferência Em nome das artes ou em nome dos públicos, organizada pela Culturgest em colaboração com o programa Descobrir da Fundação Gulbenkian. Uma das principais preocupações dos presentes pareceu-me ser a questão da ‘autoridade’ à volta da interpretação de uma obra. Quando fiz o meu mestrado, éramos ‘avisados’ que as pessoas reconheciam autoridade no museu, assumiam a informação que ali encontravam como ‘verdade validada’. Mas também naquela altura, e já vão quase 20 anos, questionávamo-nos sobre a possibilidade (e a obrigação) de criar espaço para ser contada mais que uma história.


Pois, a preocupação e a reflexão continuam nos dias de hoje. O conceito de museu participativo (tão bem fundamentado na teoria e através da prática por Nina Simon) ganhou grande expressão. Um caso interessante, entre os vários que foram apresentados na conferência Em nome das artes ou em nome dos públicos, foi o dos dTOURS na exposição de arte contemporânea dOCUMENTA - visitas guiadas (pagas) realizadas por pessoas de várias idades e backgrounds, residentes, a maioria, na cidade de Kassel, onde tem lugar a exposição. Os dTOURS tinham tido lugar pela primeira vez na edição anterior, dOCUMENTA 12, e foram motivo de várias reclamações por parte do público. Apesar da organização ter informado que as visitas seriam feitas por não especialistas, os participantes não deixaram de se sentir ‘enganados’, as suas expectativas eram diferentes. No entanto, e apesar da avaliação da iniciativa não ter sido positiva, a dOCUMENTA 13 retomou-a, com os mesmos resultados.

Várias questões se levantam aqui: Porque é que uma iniciativa se repete, nos mesmos moldes, se a sua avaliação não é positiva? Estaremos - em nome da experimentação, da exploração, da vontade de fazer mais e melhor - a ignorar necessidades básicas das pessoas, como o ouvir o que um especialista tem a dizer sobre uma determinada temática, como uma visita guiada ‘normal’, como uma legenda ‘normal’? Estaremos a caminhar para um extremo oposto, onde “o visitante é que sabe” (até “mais que o próprio artista”, para citar novamente aqui o antigo director da Tate Britain)?

O livro de Clay Shirky Cognitive Surplus: How Technology Makes Consumers into Collaborators  fala-nos do movimento pro-am (professional-amateur) e de como as novas tecnologias permitem hoje em dia aproveitar o enorme excedente cognitivo das pessoas, desejosas de contribuir com os seus conhecimentos (sem serem remuneradas, apenas por se sentirem bem, úteis, envolvidas) para projectos de todas as naturezas, causas sociais, etc. A Wikipedia é exemplo disto. Ian David Moss argumenta no seu blog Createquity que este mesmo modelo da Wikipedia poder ser aplicado na cultura, na programação ou na distribuição de apoios (ler aqui).

As pessoas continuam a procurar informação nos museus. Num artigo de Stephen Weil intitulado “The Museum and the Public” (integrado no livro Museums and their communities, editado por Sheila Watson), li que, passada a era dos museus “celebratórios” e assertivos, surgiu uma outra tendência, aquela que admite que o que se está a dizer não está fechado, poderá estar aberto a outras interpretações ou continuar a ser objecto de investigação. Vale a pena referir que foi um museu de história natural (o American Museum of Natural History) um dos primeiros a apresentar legendas onde se lia “o que sabemos até agora”, “mas podemos estar enganados, já nos aconteceu, a investigação continua”, etc. Talvez porque os cientistas estão mais confortáveis que outras especialidades com o testar e enganar-se e com o admitir que estavam errados.

Os especialistas não sabem tudo, mas sabem muito, muito mais do que nós nas suas áreas de especialidade. Encontram-se dentro e fora dos museus, são profissionais ou amadores, e juntos podem contribuir para o desenvolvimento do nosso conhecimento. Eu, como visitante, não deixo de procurar a sua opinião, a sua ‘versão’, não para a aceitar como se fosse a Bíblia, mas para com ela poder construir a minha opinião, o meu conhecimento. Ao mesmo tempo, indo além da informação, considerando que uma visita a um museu é também sentimentos, surpresas, emoções, partilha, experiências e conhecimentos prévios, memórias, o especialista - quando bom mediador ou facilitador (ou…) – saberá criar aquele espaço para o qual todos possam contribuir, com as suas ideias, as suas experiências, as suas interpretações, as suas reacções. Aquele espaço onde não há especialista e não especialista, correcto ou errado. Por isso, museu participativo para mim não é o museu que, em nome da democracia cultural, passa o ónus de uma das suas principais funções ao visitante. Museu participativo é o museu que dá as ferramentas à ‘Giselle’ (a todos nós) para construir e assumir sem medo os seus gostos, opiniões, sensibilidades e que cria o espaço para estes serem acolhidos e partilhados com todos.


Este texto baseia-se na minha breve intervenção no encerramento da conferência Em nome das artes ou em nome dos públicos, no passado dia 14 de Novembro.

Mais leituras
Museu2.0: a arte de ouvir o público, no jornal O Globo (27.11.2012)
Selling a product vs building a movement, por Nina Simon
When painting labels do their job, por Hrag Vartanian em Hyperallergic
Stories from the field: The Walters Art Museum, por Dallas Shelby
"GO", a group show at the Brooklyn Museum, por Martha Schwendener
The power of the non-experts, por Desi Gonzalez

Ainda neste blog
Somos para as pessoas… Será mesmo?
La crise oblige? (ii) Desafios na programação
Construindo uma família: lições do sector social
Livres de visitar um museu de arte
Museus: as novas igrejas?

Monday, 26 November 2012

A indústria das imensas minorias

Imagem retirada do site The Long Tail.
Na manhã de 17 de Novembro mudei os planos que tinha e fui ao CCB por duas razões: o título curioso do simpósio internacional organizado pelo Lisbon Estoril Film Festival,  Arte vs. Cultura e Indústrias Culturais; e o facto do escritor Hanif Kureishi fazer parte do primeiro painel.

Acabou por ser uma experiência frustrante. Fiz um grande esforço para perceber de que forma aquilo que a maioria dos intervenientes dizia se relacionava, realmente, com o tema do simpósio, o qual me tinha parecido tão intrigante. No fim, senti-me como se tivesse assistido a uma conversa privada, que teria acontecido de qualquer forma, independentemente do título do simpósio. Rancière, Benjamin, Adorno, Horkheimer e outros foram mencionados mais que uma vez e era óbvio que alguns dos intervenientes estavam mesmo a divertir-se entre eles, enquanto eu tentava controlar a minha frustração e o sentimento que tinha desperdiçado a minha manhã.

Acabei por sair sem ter percebido a afirmação “Arte vs. Cultura”, mas acho que percebi uma outra coisa: alguns dos intervenientes lamentavam o facto da ‘indústria’ dominar a criatividade, não deixando espaço para trabalhos menos ‘populares’ ou menos ‘mainstream’ serem conhecidos (e talvez… tornar-se tão ‘populares’ ou tão ‘comerciais’ como outros?). Houve momentos em que a queixa não parecia ser o facto de terem sido deixados sem espaço, mas o facto da ‘indústria’ não lhes permitir terem audiências igualmente grandes. Confuso, não?

Achei estranho que esta pudesse ser uma questão nos dias que correm. E achei também que, se era este o assunto que era suposto ser discutido sob o título “Arte vs. Cultura e Indústrias Culturais”, o painel deveria ter incluído um ou dois oradores que pudessem ter baixado a idade média dos intervenientes dos 65 anos (Hanif Kureishi tentou, na verdade, re-centrar o debate, mencionado o que tem estado a observar entre os seus filhos e os amigos destes, confiante de que hoje em dia há muita criatividade, graças também às novas tecnologias, mas ninguém seguiu a deixa, por isso ele desistiu e, visivelmente aborrecido, concentrou-se no seu telemóvel…).

Eu também acho que estes são tempos muito criativos, especialmente no que diz respeito aos produtos de nicho. Uma criatividade sem fronteiras, que pode ser concebida, produzida e distribuída sem estar dependente das regras da ‘indústria’. Ou… que tem, realmente, um espaço graças à ‘indústria’. Considerando o caso específico dos livros (todos os intervenientes eram escritores ou argumentistas), o livro de Chris Anderson The Long Tail: Why the future of business is selling less of more  fala-nos dos inúmeros livros que nunca teriam vendido um exemplar numa livraria normal (não haveria espaço para armazenar centenas e centenas de livros que iriam vender pequenas quantidades), mas que vendem, realmente, graças à Amazon e as suas sugestões (“pessoas que compraram este livro, compraram também este”…) e graças ao facto de poder fornecer qualquer livro, uma vez que não tem que o armazenar até ser encomendado. Hoje em dia, os livros também podem ser impressos a pedido, podem ficar disponíveis na Internet, podem chegar aos lugares mais distantes (e não nos esqueçamos dos e-books).

Este é também o tempo em que jovens talentos em música podem fazer o upload do seu trabalho para quem estiver interessado, tornando-se mais conhecidos através do “like” e da “partilha”; este é o tempo em que concertos acontecem na sala de estar das pessoas; em que festivais de cinema são apresentados no You Tube. 

Sei que esta é uma matéria muito mais vasta e que não seria possível abordar aqui todos os aspectos com ela relacionados. Mas, pergunto-me, será que é negado espaço a alguém nestes dias? Não é verdade que aos nichos não é cedido espaço, mas que são eles a criar o seu próprio? Isto tudo não poderá ser uma questão sobre o quem é que procura comunicar com quem? Os produtos ‘populares’ (uso o termo no sentido das vendas, não do conteúdo) precisam provavelmente da ‘indústria’ e das grandes instituições culturais formais para a sua distribuição, mas os produtos de nicho (que podem um dia tornar-se ‘populares’) parecem capazes de viver de forma relativamente independente nestes dias, felizes de serem quem são. Será assim?


Mais leituras
A década em que todos puderam ser famosos para 15 pessoas (dossier do Jornal Público, 8.10.2010)
Culture and Class (John Holden, 2010)

Ainda neste blog

Monday, 19 November 2012

Blogger convidado: "Que género de velho quer ser?", por Rebecca McLaughlin (Irlanda)


A população mundial está a envelhecer. E a ambição do Primeior-Ministro da Irlanda é que o seu país seja o melhor país pequeno do mundo onde envelhecer com dignidade e respeito. Rebecca McLaughlin, minha colega no Kennedy Center, é a coordenadora de Bealtaine, um festival de artes que nos últimos 17 anos tem estado a explorar o papel da criatividade à medida que se envelhece. Bealtaine apresenta todos os anos um programa de mais de 3000 eventos no mês de Maio, convidando as pessoas mais velhas a envolverem-se com as artes e a cultura como público, artistas, críticos ou participantes. E assim, a conversa que a Rebecca e eu não conseguimos ter em Julho passado começa agora neste blog. mv

Mary Russell da orquestra "Blow the Dust" na abertura do Bealtaine Festival em 2010. (Foto: John Ohle)
Que género de velho quer ser? Em que género de sociedade quer envelhecer? Quer continuar a ser criativo e desfrutar as artes e a cultura quando estiver nos seus 50, 70, 90 anos? Acha que a idade é uma barreira à criatividade?

O Bealtaine Festival é o primeiro festival do mundo que celebra a criatividade à medida que vamos envelhecendo. Tem lugar todos os anos em Maio em toda a Irlanda. Ao estar a coordenar Bealtaine, que é hoje o maior festival colaborativo de artes da Irlanda, estas são questões que se levantam com alguma regularidade. Se tivermos sorte, cada um de nós sentirá prazer ao envelhecer e continuará a viver e a experienciar aquelas actividades e oportunidades de afirmação da vida que as artes e a cultura proporcionam às nossas comunidades.

O Bealtaine Festival chega todos os anos a dezenas de milhares de pessoas com 55 anos ou mais, estimulando o seu envolvimento com as artes como artistas, participantes, público e organizadores. Através de parcerias com várias organizações, desde instituições culturais nacionais a bibliotecas, de unidades de cuidados a hospitais, pessoas mais velhas participam em mais de 3000 eventos ao longo do mês de Maio, incluindo música, teatro, artesanato, fotografia, cinema e literatura. ‘Bealtaine’ é a palavra irlandesa para Maio, com todas as suas associações ao crescimento, renascimento e a novos começos.

Não se pode negar que, quer se tenha 5 quer 105 anos, o acesso às artes é uma questão de equidade e cidadania – é um direito, não um privilégio. Da nossa experiência de 17 anos no Bealtaine Festival em que celebramos a criatividade à medida que se vai envelhecendo, sabemos que, entre outras coisas, uma maior participação nas artes é importante para o desenvolvimento de uma auto-imagem e identidade positiva para as pessoas mais velhas. Pode ajudar significativamente a construir ligações e promover o capital social.

A Irlanda está na primeira linha a nível internacional na defesa da criatividade à medida que se envelhece e neste momento cerca de 12% da nossa população tem mais de 65 anos (mais de meio milhão de pessoas). Em 2041 espera-se que o número de pessoas com mais de 65 anos aumente 180% (para 1,3 milhões). O nosso Primeiro-Ministro tem afirmado a ambição de tornar a Irlanda no melhor país pequeno no mundo onde envelhecer com dignidade e respeito.

’Velho’ é uma palavra difícil para muitos. De acordo com a nossa experiência, se perguntarmos às pessoas o que é que consideram ser ‘velho’, falarão invariavelmente de uma idade que ultrapasse a delas por 10 anos! No Festival, estamos mais à vontade para falar sobre o processo de envelhecimento em vez de ‘estar velho’ como uma espécie de destino no fim de uma viagem. É impossível colocar todas as pessoas entre os 55 e os 105 anos numa categoria homogénea de ‘velho’. Um dos objectivos do festival é desafiar esses estereótipos e as percepções negativas sobre o ficar mais velho. Concentramo-nos nas capacidades das pessoas mais velhas e abraçamos o seu valor e contributo para a sociedade.

Trabalhando no projecto "Wandering Methods" durante o Bealtaine Festival de 2012. (Foto: Lian Bell)
Com cada Bealtaine Festival, ficámos inspirados e encantados com os talentos criativos que se redescobrem ou com as novas capacidades adquiridas pelas pessoas que atendem e pela paixão de fazer arte, o que para certas gerações de Irlandeses simplesmente não fazia parte da sua educação formal ou do seu mundo. Para os nossos organizadores do Bealtaine, o mês de Maio está integrado na sua agenda cultural anual como um tempo para se concentrarem naquilo que oferecem às pessoas mais velhas. Para muitos deles, ‘pessoas mais velhas’ tem-se tornado mais num conceito abstracto e ao longo do tempo têm sido desenvolvidas entre as instituições culturais e as pessoas mais velhas actividades sustentáveis e verdadeiras relações a vários níveis; por exemplo,  de um projecto original na edição de 2010 surgiu uma orquestra permanente de pessoas mais velhas, chamada “Blow the Dust off your Trumpet” (sacode o pó do teu trompete), residente hoje no National Concert Hall em Dublin.

As tendências demográficas são claras – mais de um quinto da população mundial (22%) terá mais de 60 anos em 2050 – o dobro da actual população sénior. Nos EUA, daqui a 10 anos as pessoas mais velhas serão mais do que as crianças e um em cada três bebés nascidos hoje pode esperar viver até aos 100 anos. Quando muitos de nós estamos a lutar para atrair públicos novos e a tentar fazer malabarismos para lidar com a actual situação económica, vale a pena considerar que o grupos dos que têm mais de 50 anos detém 80% da riqueza nos EUA e 75% na EU.

Na actual sociedade, é preciso pensar radicalmente todo o leque de políticas públicas em todas as áreas, desde o emprego e a saúde às pensões. Como devemos lidar com este desafio demográfico do envelhecimento? Como podemos dar resposta às necessidades e os requisitos em constante mudança da nossa população mais velha? O envelhecimento da população e especialmente o aumento do número de pessoas no grupo dos ‘velhos mais velhos’ têm muitas implicações relacionadas com a idade (por exemplo, um aumento dos casos de demência) que exigem respostas inovadoras e sensíveis que possam garantir a inclusão desta população. Como gestores culturais e curadores, precisamos de reflectir sobre as vidas da população que está a envelhecer e permanecer relevantes para ela. Se não o fazemos ainda, deveríamos, então, começar a investir no acesso e nas oportunidades de participação para envolvermos os nossos públicos mais velhos e construir relações com eles. Ocupamos um lugar único na construção deste futuro, um dia, eu e você faremos parte desses públicos mais velhos.

Por isso, pensando nisto… “Que género de velho quer ser?!”


Rebecca McLaughlin é a coordenadora de Bealtaine Festival. Previamente, tinha sido Exhibitions Curator para o programa de exposições temporárias da Dublin City Gallery The Hugh Lane, que reúne uma das mais importantes colecções de arte moderna e contemporânea da Irlanda e integra o estúdio remodelado do artista Francis Bacon. No Reino Unido, foi Marketing Manager para o lançamento de The New Art Gallery Walsall, um projecto pioneiro de £21 milhões nos West Midlands, que apresentou a primeira Children's Art Discovery Gallery no Reino Unido. Estudou em University College Dublin e na Universidade de Leicester e é Fellow no DeVos Institute of Arts Management no Kennedy Centre em Washington.