Monday, 28 January 2013

Blogger convidado: "Um pequeno passo para o homem, um salto gigante para um museu", por Ania Danilewicz (Polónia)

Conheci a Ania Danilewicz em Outubro passado. Estava em Portugal por alguns meses e queria saber mais sobre os museus e, em particular, sobre o GAM – Grupo para a Acessibilidade nos Museus. Houve mais dois encontros depois desse, longas conversas, e em ambas Ania impressionou-me com a sua energia, a sua vontade de aprender, o seu espírito crítico, o seu desejo de poder intervir e fazer mais. Neste post partilha, com muito sentido de humor, os seus pensamentos e sentimentos por regressar ao seu país, cheia de ideias que poderiam parecer inúteis num meio bastante resistente à mudança, só para se aperceber que coisas boas acontecem em todo lado, até no seu próprio museu e ainda que numa escala mais pequena. Não é impossível, mas é uma passo de cada vez. Quem tiver sorte, encontra três velhas senhoras pelo caminho… mv 

Adam Malysz, melhor atleta Polaco de salto de esqui (Foto: Associated Press/East News)
Há algum tempo, três senhoras com muita idade estavam a visitar a nossa exposição. Esta era uma apresentação bastante moderna (interactiva também), mas elas preferiram fazer uma visita mais tradicional: olhando só, não tocando, circulando em silêncio, mantendo alguma distância dos objectos expostos. Mesmo assim, pareciam satisfeitas, porque a exposição mostrava a cidade no tempo da sua juventude. Perto da saída, um dos guias aproximou-se delas:

“-Já experimentaram a nossa nova estação de escuta?”
“- Por amor de Deus, não! Isto não é para nós… demos espaço aos jovens…
“- Mas podem encontrar canções originais do tempo em que eram jovens!”, insistiu o guia. “Vejam, este é um telefone original dos anos 30. Se escolherem os números ímpares, podem ouvir todos estes sucessos!”.

E as três velhas senhoras fizeram-no. Pegaram no telefone, que é uma estação de escuta, e aproximaram-se todas do aparelho. Aproximaram-se, mas ainda com muito cuidado. Um pouco depois começaram a… cantar suavemente, dando risadinhas, como se fossem meninas. Experimentaram também os números pares, que continham as mesmas canções mas num remix contemporâneo. E divertiram-se tanto!

Porque é que estou a falar nisto? Porque me salvou da minha depressão pós-Portugal! Aqui estão alguns dos sintomas desta minha doença recente (se tiverem alguns deles, procurem o mais rapidamente possível três velhas senhoras!).

Regressei recentemente de uma visita prolongada a Portugal, onde uma das minhas ocupações permanentes foi visitar museus e conhecer pessoas deste sector. Durante a minha estadia, descobri com prazer e surpresa, coisas muito atraentes, como o percurso especial no Museu do Azulejo, composto de réplicas de painéis de azulejos especialmente criadas para cegos – para serem tocadas e para uma pessoa poder sentir a sua estrutura, a forma, a superfície e as cores - , mas recebidas com muito interesse também por outros visitantes. Fiquei maravilhada com a minha visita ao Museu da Comunidade Concelhia da Batalha, admirando todos os serviços que tornam esta pequena instituição tão especial para a comunidade local e tão importante para a rede mundial de profissionais de museus. E apreciei muito todas as minhas conversas com a Maria Vlachou no contexto da acessibilidade e do GAM – Grupo para a Acessibildade nos Museus.

Apercebi-me também, claro, que os exemplos maravilhosos são as excepções que confirmam a regra. E a regra é a mesma que em todo o lado – a maioria dos museus não é moderna, aberta e preparada para novas tendências. Mesmo assim, encontrei bons exemplos suficientes para me sentir inspirada e motivada para novos projectos no meu museu.

Trabalho no Museu Militar em Bialystok, um museu de tamanho médio, sem nada de muito especial. É moderno o suficiente (a exposição permanente foi mudada nos últimos três anos, sendo esta a primeira remodelação em… 38 anos) para oferecer aos visitantes visitas guiadas e programas interessantes. Mas trata-se de um museu sub-financiado e conservador e necessita de mais mudanças. Por isso, o meu regresso significou duas coisas: o confronto entre as ideias inspiradoras que trazia comigo e a realidade do museu; a obrigação de escrever este post para a Maria sobre o sector dos museus na minha cidade e no meu país.

E esta foi a génese da minha doença. Estava desesperadamente à procura de algo bom e impressionante que mereceria a pena ser apresentado neste blog internacional. “O que é que poderia alguma vez ficar ao lado do Louvre ou dos National Museum Liverpool?”, pensei. Uma amiga fez-me a pergunta mais simples: “Porque não o teu próprio museu?”. No início, desatei a rir, mas pouco depois encontrei as três velhas senhoras que mencionei e aquela experiência convenceu-me, na realidade, do quanto poderia ser fácil e simples a implementação de ideias como a acessibilidade, a abertura, a participação, mesmo que os resultados não sejam tão espectaculares como noutros casos (Liverpool, Portugal, Louvre).

As três senhoras mostraram-me que a criação de um ambiente acessível e acolhedor pode simplesmente significar dar informação apropriada e estar pronto para adaptar as condições existentes às necessidades de diferentes visitantes. Se tivéssemos proposto às velhas senhoras ouvir remixes modernos de velhas canções, teriam, com certeza, recusado, tal como fizeram quando lhes propus experimentar a ‘estação de escuta’. ‘Remix’ e ‘estação de escuta’ não são palavras do seu mundo. Mas um convite para atender o telefone, que tem um papel de uma estação de escuta, parece ser uma boa maneira para as convencer a interagir com o objecto e também para lhes apresentar música moderna. Ipso facto, saltaram do nível “indivíduo consome conteúdo” para o nível “interacção individual” (apresentados por Nina Simon no seu blog, num dos diagramas de participação cultural), sem nós termos feito nada em especial ou termos preparado um programa especial. Se é tão fácil, porque é que não experimentamos fazê-lo mais vezes? Ao desenharmos aquela exposição, tínhamos planeado fazer uma audio-descrição para cegos e um audio-guia para todos os visitantes. Como não tínhamos dinheiro suficiente para comprar dois aparelhos móveis diferentes, decidimos gravar apenas uma narração, capaz de atrair qualquer visitante, independentemente das suas deficiências ou capacidades. E só nesse momento é que nos apercebemos que este é um exemplo de pensamento e design universal, um dos mais importantes desafios para os museus neste momento. Uau, até podemos fazer isso!

Poderia ainda mencionar um outro exemplo dos meus primeiros dias no museu. Era Março de 2011 e o melhor atleta polaco de salto de esqui, um herói nacional para todos os Polacos, Adam Malysz estava a finalizar a sua carreira profissional. Muitas pessoas participaram numa acção espontânea chamada “Polónia inteira põe um bigode” (Adam Malysz tem um bigode muito característico…), onde todos puseram um bigode postiço (alguns até fizeram crescer pela ocasião!). E nós participámos também! Numa altura em que o museu era sobretudo visto como um espaço antiquado e conservador, colámos bigodes coloridos em todos os manequins da nossa exposição. E foi só isso! Essa acção tão simples mudou a nossa imagem radicalmente, mostrando a nós e a outras pessoas que poderíamos afastar-nos um pouco e olhar para nós próprios com sentido de humor e que, apesar dos sérios acontecimentos históricos relatados na nossa exposição, poderíamos também ter graça e aproximar-nos das pessoas. Foi só um dia, mas deu à equipa uma força incrível para começar a pensar as nossas actividades de uma outra perspectiva, indo além dos modelos pré-definidos.

Foto: Museum Militar em Bialystok
Talvez estes exemplos não sejam grandes, significantes ou impressionantes o suficiente para serem apresentados entre notas sobre os National Museums Liverpool ou o Louvre. Mas mostram, sem dúvida, que as grandes mudanças começam frequentemente com passos pequenos. É fácil dizermos que não podemos mudar nada, por falta de dinheiro ou de pessoas. É muito mais desafiante e importante começarmos por questionar: o que posso mudar ou melhorar neste momento no meu ambiente? Estes pequenos passos podem algumas vezes ter uma influência mais alargada do que as grandes acções. Preparam-nos para nos transformarmos e para nos adaptarmos devido a uma necessidade e não a ocasiões especiais ou esporádicas.

Estou quase a recuperar da minha depressão pós-Portugal. Quase, porque no fundo tenho ainda uma forte necessidade de implementar e desenvolver novos elementos para o nosso programa. Mas agora sei como o fazer – com um passo de cada vez.


Ania Danilewicz é animadora cultural e gestora, Responsável pelo Departamento de Educação e Organização de exposições no Museu Militar em Bialystok. Antes, tinha trabalhado para o Teatro Drama na mesma cidade e foi jornalista para o maior jornal da região de Podlasie, Gazeta Wspolczesna. Tem colaborado com muitas associações e alguns projectos independentes, como a Street Culture Enthusiasts Association ENGRAM, Borderland Summer School, Foundation of the University of Białystok, Marcel Hicter Foundation in Brussels. Recebeu o Diploma Europeu de Gestão de Projectos Culturais em 2012 e frequentou o Seminário Internacional para Operadores Culturais, organizado pelo Centro Nacional de Cultura e a Fundação Marcel Hicter. Terminou os seus estudos na Universidade de Bialystok em 2005.

Monday, 21 January 2013

Não me mandem calar!

Foto retirada de Culture 24 (© Cedida pela Wallace Collection)

Em 2003, a Royal Academy teve uma exposição sobre os Astecas. River, uma criança de dois anos, exclamou “Monstro! Monstro!” quando viu a estátua do Homem Águia. O segurança pediu imediatamente à família da criança para sair, considerando que a criança se estava a portar mal. A mãe, Dea Birkett, era jornalista e alguns dias depois escrevia um artigo para o Guardian intitulado Travelling with kids, questionando: “Se restringirmos a sua atracção não filtrada pela arte quando são crianças, como é que podemos exigir que a apreciem quando têm 20 anos? Espero que os meus filhos não se portem mal. Mas gritar de alegria ao ver uma estátua não me parece ser algo reprovável. Ter-me-ia sentido muito mais perturbada se não tiveste reagido de todo. Mas talvez vocês tenham estado nos Astecas também e tenham ficado contentes quando a criança que fazia barulho se foi embora. Talvez eu tenha passado demasiado tempo entre crianças a gritar para perceber o quanto podem ser irritantes? O que acham? O River deveria ficar ou sair…?”. O incidente tinha sido amplamente discutido naquela altura e Dea Birkett fundou Kids in Museums, uma associação que procura tornar os museus mais acolhedores para crianças e famílias. Kids in Museums acaba de celebrar o seu décimo aniversário na… Royal Academy! A responsável pelo serviço educativo do museu. Beth Schneider, aproveitou a oportunidade e escreveu um longo artigo para o Guardian descrevendo todos os passos dados nos últimos dez anos no sentido de tornar o museu mais acolhedor para as famílias e especialmente para visitantes mais novos.

A Tate Modern esteve sob fogo por não pôr fim ao patrocínio da BP depois do desastre ambiental no Golfo do México em 2010 (leiam aqui e aqui). Iniciativas como Liberate Tate, Art not Oil e Platform não deixaram este assunto ficar esquecido, não só em relação à Tate, mas a todas as instituições culturais britânicas patrocinadas pela petrolífera, entre elas a National Portrait Gallery, a Royal Opera House  e o British Museum. No ano passado, estas instituições renovaram os seus acordos de patrocínio, considerando que o apoio da BP para a cultura e as artes tem sido consistente e substancial e não há razão para ser renunciado devido a apenas um incidente grave. Mesmo assim, o British Museum demonstrou uma grande abertura à crítica e abriu o seu próprio espaço para esse efeito. Em Novembro passado, teve lugar na Great Court do Museu uma flashmob teatral, organizada pela Reclaim Shakespeare Company, um protesto contra o patrocínio da BP à exposição de Shakespeare, patente no museu. Um assessor de imprensa do museu reafirmou a gratidão da instituição pelo compromisso continuado da BP e, ao mesmo tempo, reconheceu o direito da Reclaim Shakespeare Company´s de protestar, afirmando não haver rancor (ler aqui).


Quando o teatro Woolly Mammoth anunciou a reposição da peça de Mike Daisey The Agony and the Ecstasy of Steve Jobs, foi severamente criticado por muitos. O monólogo lidava com e denunciava as práticas corporativas da Apple e da Foxconn, o fornecedor da Apple na China, mas algum tempo depois da estreia, Mike Daisey foi acusado de ter fabricado alguns factos. Admitiu a sua culpa, pediu desculpa publicamente e retirou da peça todos os pontos contestados. O Woolly Mammoth permaneceu firme na sua decisão de repor a peça e na sua colaboração de longa data com Mike Daisey. No entanto, em vez de ignorar a controvérsia, na verdade usou-a para promover o espectáculo como “a peça mais notória e controversa da década”. Promoveu um diálogo muito saudável tanto com os opositores como com os apoiantes da decisão na sua página no Facebook e chegou a alimentar a conversa publicando críticas negativas dos jornais. No último dia da carreira do espectáculo, o co-fundador da Apple Steve Wozniac, que não escapou à crítica de Mike Daisey na peça, esteve no teatro para uma conversa após o espectáculo com o autor e o público.

Mike Daisey em The Agony and Ecstasy of Steve Jobs (Foto: Sara Krulwich/The New York Times)

Qual o fio condutor destas três histórias? As instituições culturais envolvidas não esconderam a cabeça na areia, não fingiram não reparar, não ignoraram as vozes das pessoas. As pessoas foram ouvidas. Não no sentido de “o cliente tem sempre razão”. Na verdade, em dois dos três casos aqui apresentados não houve mudança na decisão.  Mas entendeu-se que havia um outro lado, pessoas com convicções, expectativas e necessidades. Não estão aqui para nos adorar incondicionalmente – ‘nós’, instituições culturais. Estão aqui para nos questionar, para nos criticar, para exigir e também para nos guiar. Porque se preocupam. E porque nós nos preocupamos também, não nos escondemos. Entramos no diálogo, promovemo-lo, alimentamo-lo. Convidamo-los a envolver-se no que fazemos. Tornamo-nos parte da sua vida. E ganhamos o seu apoio.


Mais leituras:

Monday, 14 January 2013

Blogger convidado: "O museu político", por David Fleming (Reino Unido)


David Fleming é alguém que admiro e respeito muito e que tem influenciado profundamente o meu pensamento sobre o papel dos museus. Há uns anos, Josie Appleton criticou a afirmação de David que tinha entrado no mundo dos museus porque esta era a sua forma de tentar mudar o mundo dizendo: “Um objectivo admirável, com certeza, mas talvez Fleming devesse ter-se tornado um político ou assistente social e não um director de museu.” [in Watson, E. (ed), Museums and their Communities, p116]. Eu pessoalmente estou contente que David tenha entrado para os museus e que se tenha tornado um director de museu. E é com muito prazer que publicamos neste blog uma versão abreviada da sua comunicação O Museu Político, que foi feita na conferência do INTERCOM em Sydney, em Novembro passado. No fim deste texto existe um link onde o seu discurso pode ser lido na íntegra. mv

Imagem retirada do website de National Museums Liverpool.

1.   Introdução – o mito da neutralidade

É tradição dizer que os museus são, ou deveriam ser, apolíticos, e isto significa que os museus não se deveriam envolver nas relações de poder que caracterizam a sociedade. Não nos compete embrulharmo-nos no mundo das pessoas reais, dos eventos reais, da controvérsia e das opiniões. Aquilo que devíamos fazer é usar os nossos conhecimentos e a nossa perícia para criar e tomar conta das nossas colecções e para as apresentar de uma forma neutra para benefício público, flutuando numa nuvem de virtude académica, que paira muito acima das realidades mundanas da vida humana. Na verdade, continuar a fazer aquilo que muitos museus têm tentado fazer a maior parte do tempo, desde que foram criados.

Isto é, claro, o cúmulo da hipocrisia e é, verdadeiramente, uma afirmação de um vazio completo defender que os museus têm alguma vez sido ‘neutros’ relativamente a qualquer coisa que fosse. Todas as tarefas básicas que assumimos – investigar, coleccionar, apresentar, interpretar – estão sobrecarregadas de significado e preconceitos e sempre estiveram; estas tarefas são os métodos que o museu usa para servir ao público aquilo que as pessoas que dirigem o museu querem que o público veja. Os museus são construções sociais e a política é um pilar da actividade social – não se pode ter uma coisa sem a outra. Independentemente do tipo de museu, do que contém, têm sido sempre tomadas decisões por alguém sobre o que investigar, o que preservar, o que coleccionar, o que apresentar, como interpretar; e têm sido tomadas decisões sobre o que não fazer, o que não investigar, o que não preservar, o que não coleccionar, o que não apresentar, o que não interpretar.

Não tenho a certeza sobre a razão porque algumas pessoas que trabalham em museus, e outras, valorizam tanto a imagem de alguém numa busca desinteressada do conhecimento, como se, procedendo assim, evitássemos o risco de nos tornarmos políticos. A questão não é “é certo ou errado os museus serem políticos?” mas “todos os museus são políticos, porque é que alguns pretendem que não o são?”.


2. O museu político em acção

a) O modelo antigo

Depois da conquista da Grécia no século II antes de Cristo, os Romanos usaram a exposição triunfal de objectos para demonstrarem a superioridade de cultura romana sobre a grega. Esta técnica teve continuidade ao longo dos tempos, pela igreja cristã, por Carlos Magno, pela República de Veneza, por Napoleão, pelos Nazis, e por muitos outros – em todas estas instâncias, qualquer apreciação estética dos objectos expostos estava provavelmente subserviente à mensagem do poder político. Alguns dos grandes museus da Europa Ocidental são exemplos particularmente bons do modelo antigo do museu político, com as suas exposições de saque imperial e a sua presunção casual de superioridade europeia sobre outros povos. A natureza política deste género de museus tem sido revelada nas justificações para a existência de museus “universais”, um conceito que voltou a ganhar proeminência em 2003 com a Declaração sobre a Importância e o Valor dos Museus Universais  (Declaration on the Importance and Value of Universal Museums) pelos directores de um grupo auto-seleccionado de grandes museus europeus e norte-americanos. O modelo antigo do museu político é melhor caracterizado pela sua discrição. É político, mas finge não o ser – finge ser meramente ortodoxo e verdadeiro. É um museu que ia prosperar na Oceania de George Orwell.

b) O novo modelo

Imagem retirada do website de Tuol Sleng Genocide Museum.
Hoje em dia, o novo modelo de museu político manifesta-se e está a fazer campanha, em particular nas áreas dos direitos humanos e da identidade nacional: The National Museum of Australia (Canberra), The Museum of New Zealand Te Papa Tongawera (Wellington, New Zealand), District Six Museum (Cape Town, South Africa) , Tuol Sleng Genocide Museum (Phnom Penh, Cambodia), Museum of Genocide Victims (Vilnius, Lithuania), Museumof the Occupation of Latvi (Riga, Latvia), The Museum of the Romanian Peasant (Bucharest, Romania), The Vietnam War Remnants Museum (Ho Chi Minh City, Vietnam), DDR Museum (Berlin, Germany), entre outros. Há muitos mais museus deste tipo que procuram activamente emendar uma situação onde as políticas do poder deixaram algumas pessoas  na melhor das hipóteses desfavorecidas; na pior, oprimidas e vitimizadas.

Há duas semanas, recebi um email do director do Memorial Resistance Museum em Santo Domingo: “Acabo de criar uma nova petição e espero que possa assinar. Chama-se: Estamos a lutar pelo direito à verdade e à justiça pelas vítimas da ditadura de Trujillo.”

Fui ao website e encontrei o seguinte: “Pedimos ao Procurador-Geral da República Dominicana, Sr. Francisco Dominguez Brito, para fazer cumprir as leis e os tratados internacionais sobre os direitos humanos, defender os direitos dos jovens e das crianças da república Dominicana à verdade, defender o direito à justiça para mais de 50.000 vítimas da ditadura de Trujillo, para os sobreviventes e os familiares das vítimas. Exigimos o cumprimento da decisão dos tribunais dominicanos, que nos protegem das reivindicações do regime e da figura do ditador, e a criação de uma Comissão de Verdade.”

Este é o museu político a grande potência.

Em conclusão, existe uma separação entre os museus activos, em campanha, que vimos aqui e aqueles que fazem o seu trabalho político de forma mais discreta, mas esta separação é superficial. Diria que a maioria dos museus são políticos e é ingénuo ou desonesto fingir o contrário. Não deveríamos lamentar este facto, como se houvesse um estado melhor, neutro, ao qual poderíamos aspirar – está na natureza humana ser político, e ainda bem.


O texto completo da comunicação de David Fleming, em inglês, pode ser lido aqui. O Museum of Liverpool, um dos museus sob a direcção de David, recebeu no mês passado o Prémio do Conselho da Europa para 2013, um prémio atribuído pela Comissão de Cultura, Ciência, Educação e Media da Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa (PACE). PACE disse que “O Museum of Liverpool proporciona um reconhecimento exemplar dos direitos humanos na prática museal." (ler aqui)

Mais leituras
Lugares de encontro, por Maria Vlachou
Silenciosos e apolíticos?, por Maria Vlachou

Veja ainda:


David Fleming tornou-se director dos National Museum Liverpool em 2001. Dirigiu um processo de gestão de mudança radical que resultou num aumento no número de visitantes de 700.000 por ano a 3,5 milhões, aumentando ao mesmo tempo, de forma marcante, a sua diversidade. Tem sido consultor de vários governos, museus e autarquias, a nível nacional e internacional, sobre estratégia para museus nacionais, gestão de projectos, design de exposições e governança de museus. Tem muitas publicações sobre museus e tem dado inúmeras palestras sobre gestão de museus e liderança, inclusão social, museus de história de cidades e museus de direitos humanos, em mais de 30 países. É Presidente Fundador da Federation of International Human Rights Museums (FIHRM), Vice-Presidente do European Museum Forum e Presidente da Comissão de Finanças e Recursos do ICOM. Foi Presidente da Museums Association do Reino Unido e tem participado em várias comissões governamentais.

Monday, 7 January 2013

Liverpool-Lens-Metz-Foz Côa e de volta ao início

Imagem retirada da página do Facebook do Louvre-Lens.

Quando se pensa em cultura e regeneração urbana, surge logo o caso de Liverpool, assim como o trabalho de J. Pedro Lorente na análise deste e de outros casos de estudo de cidades que procuraram revitalizar-se, com mais ou menos sucesso, através da cultura e das artes. Na introdução do seu paper The role of museums and the arts in the urban regeneration of Liverpool (1996), Lorente escreveu: “... qualquer área abandonada no seio de uma cidade próspera irá, de qualquer forma, ser revitalizada pelos urbanistas. No entanto, há menos hipóteses de desenvolvimento quando essa área abandonada se encontra no meio de uma cidade em declínio, que enfrenta a recessão económica, o desemprego, o despovoamento, a agitação social/étnica e a decadência física. (...) Liverpool é um caso destes: nas últimas décadas tudo parece ter corrido mal, excepto as artes (…)”.

De alguma forma, Lens parece ser também um caso destes. Trata-se de uma antiga cidade mineira de 35.000 habitantes no norte de França, orgulhosa da sua equipa de futebol e muito atingida pela crise. Lens é também, desde o dia 4 de Dezembro, a cidade onde se encontra o novo museu Louvre-Lens, que apresenta objectos pertencentes à colecção do museu parisiense, incluindo algumas das suas obras de referência, como A Liberdade guiando o Povo de Delacroix. No seu discurso durante a cerimónia de inauguração, o Presidente francês François Hollande usou palavras como “desenvolvimento regional”, “descentralização cultural” e “democracia cultural” e manifestou-se confiante que os visitantes virão da região inteira, da França inteira, da Europa inteira e talvez do mundo inteiro (o objectivo anual neste momento é 500.000 visitantes; em menos de três semanas depois da sua abertura, o museu recebeu 100.000 visitantes). Por outro lado, o Presidente do Louvre, Henri Loyrette, explicou numa entrevista ao jornal El País: “[aquando da decisão sobre o local] o que me interessava era que pudesse ter um carácter social, não uma cidade com cultura. Esta é uma zona industrial, muito afectada pelo desemprego e que sofreu em todas as guerras. É uma espécie de reparação”.

Estamos bastante habituados a ouvir declarações politicamente correctas, pelas quais raramente alguém presta contas nos anos seguintes, mas um museu que tem como objectivo compensar uma região pelos seus flagelos é um novo conceito para mim. Li vários artigos e reportagens relativamente a este novo museu, alguns dos quais podem ser encontrados no fim deste texto, mas gostaria de destacar três deles que, na minha opinião, levantam algumas questões importantes.

No blog francês Option Culture, Jean-Michel Tobelem analisa os três desafios que o museu é chamado a enfrentar – frequentação, impacto territorial e democratização – e argumenta: 1. apesar do museu ter bons acessos e das exposições serem de alta qualidade, o edifício não será suficiente para atrair o grande número de visitantes com o qual sonham os que desejam um “efeito Bilbao”; 2. mesmo que haja um grande número de visitantes, Tobelem duvida que haja uma oportunidade para a criação de riqueza enquanto não existirem infra-estruturas (hotéis, restaurantes, comércio, etc.) que irão dar resposta às necessidades desses visitantes e fazê-los querer ficar mais tempo e gastar mais dinheiro; 3. Tobelem duvida ainda que a abordagem cronológica da Galeria do Tempo, as actividades educativas actualmente propostas e as reservas abertas sejam capazes de atrair os chamados públicos “novos”. Bernard Hasquenoph criticou igualmente as referências oficiais à democracia cultural e à descentralização, afirmando no seu artigo Louvre-Lens: la culture comme alibi que a região onde se situa Lens dificilmente poderia ser considerada culturalmente ‘sinistrada’ e citou o Presidente do Louvre que disse que Lens é uma cidade numa “… região reputada pelo seu excepcional dinamismo cultural e a densidade da sua rede de museus”. Por fim, Jonathan Jones do jornal The Guardian avisa que The Louvre risks losing its magic with Lens move (O Louvre arrisca-se a perder a sua magia com a mudança para Lens) e considera esta mudança uma prova que “o politicamente correcto enlouqueceu”. Pede aos museus britânicos para não cometerem o mesmo erro e para continuarem a criar ligações e promover empréstimos entre as regiões e os museus da capital.

Estes três textos resumem a minha opinião sobre este assunto. Lens encontra-se a uma hora de Paris de comboio. Faz, realmente, sentido (em nome da “descentralização e democracia cultural” ou em género de reparações) fragmentar uma colecção mundialmente conhecida, visitada por milhares de pessoas que vivem em França ou que vêm do estrangeiro, para a aproximar de pessoas que poderiam ter facilmente acesso a ela? E se não for esse o caso de todos (e provavelmente não é), não faria mais sentido tornar o transporte até Paris mais acessível a todos os interessados em visitar o museu? Além disso, numa região que parece ter já uma rica oferta cultural, não faria mais sentido apoiar estruturas existentes e as suas ligações com a capital? Ou, no caso de ser realmente considerado o momento e local certo para a criação de um novo equipamento cultural, não seria mais apropriado, também em termos de competitividade, criar algo único e distinto dessa região? Por último, se a decisão foi tomada em nome do desenvolvimento regional, será esperado do museu fazer um milagre sozinho, quando faltam ainda infra-estruturas complementares básicas?

Imagem retirada da página de Facebook de Pompidou-Metz.
Isto faz ainda lembrar o caso de Pompidou-Metz, que abriu em 2010 com objectivos bastante parecidos, enunciados pelo Presidente Francês na altura, Nicolas Sarkozy: uma cidade que não fazia parte dos percursos turísticos, a pouco mais de uma hora de comboio de Paris; uma cidade com uma rica oferta cultural; um museu criado numa zona previamente dada à indústria, parte de um plano para impulsionar o turismo; várias auto-estradas que entretanto abriram para facilitarem o acesso. Mesmo assim, menos de três anos depois da sua abertura, o museu não conseguiu atingir o seu objectivo de 600.000 visitantes para 2012 (ler aqui). Alguma coisa correu mal? Haverá alguma explicação para isto? Alguém estará a avaliar este caso no momento em que abre um museu novo aparentemente com o objectivo de servir uma visão idêntica?

E com tudo isto, questiono-me ainda: e Foz Côa? Este é um dos meus lugares favoritos em Portugal. Visitei os sítios das gravuras pré-históricas em 1999 e em 2000. Em 2011 regressei, desta vez para visitar também o museu, que tinha aberto no ano anterior. Apesar deste projecto ter sido apresentado como um factor decisivo no desenvolvimento da região (e, provavelmente, consegue mesmo atrair mais pessoas), a verdade é que a única novidade que encontrei foi o próprio  museu, onde, na tarde de um Domingo de Novembro, era a única visitante. O café do museu estava encerrado e tive que regressar à vila e enfrentar a tarefa quase impossível de encontrar algo para comer num lugar que parecia deserto e que ainda não tem um hotel decente (ou um restaurante) que pudesse fazer as pessoas considerar passar a noite. Além disto, considerando o tráfego turístico no Douro, os planos anunciados para criar uma ligação aos barcos ainda não se concretizaram, isto é, não existe ainda um cais e um teleférico que permitiriam a esses turistas chegarem ao museu e visitarem os sítios pré-históricos.

Não sou perita em regeneração urbana e só posso exprimir uma opinião com base em algumas leituras e na minha experiência como visitante. Parece-me, portanto, que, tal como uma andorinha não faz a primavera, é preciso mais que um museu para garantir o desenvolvimento sustentando de uma vila, cidade, região. Há muito a aprender com as cidades que souberam gerir isto com sucesso. Foi preciso mais que cultura. E foi preciso mais que afirmações politicamente correctas.  Acima de tudo, é necessário haver um forte compromisso político e a junção de forças públicas e privadas no sentido de cumprir um claro objectivo comum. As artes não foram a única coisa que não correu mal em Liverpool…


Mais leituras
Louvre-Lens: helping a mining town shed its image, by Oliver Wainwright (The Guardian, 5 December 2012)
The Louvre comes to town, by Edwin Heathcote (The Financial Times, 7 December 2012) 
L´ouverture du Louvre-Lens, par Didier Rykner (La Tribune de l´Art, 4 Décembre 2012)
Louvre-Lens: la naissance d´un musée (Le Monde, 5 Décembre 2012)
Le Louvre-Lens ouvre ses portes au public (Le Figaro, 12 Décembre 2012)
Le Louve Lens, le succès en dépit des grincheux (Lunettes Rouges, 11 Janvier 2013) 
Les musées seremettent en scène, para Valérie Duponchelle (Le Figaro, 7 Décembre 2012)
What's the big idea behind the Pompidou-Metz?, Jonathan Glancey, (The Guardian, 6 April 2010)
Centre Pompidou: Metz gears up for its moment, Natasha Edwards (Telegraph, 8 May 2010)
Museu do Côa, por António Martinho Baptista (Informação ICOM.PT, Nº 16, Mar-Maio 2012)
Amigos do Parque e Museu do Côa, por José Manuel Costa Ribeiro (Côavisão – Cultura e Ciência, Nº 12, 2010)
We built way too many cultural institutions during the good years, by Emiy Badger (The Atlantic Cities, 5 July 2012)
Philharmonie de Paris: a granddesign turned £300m 'bottomless pit', by Angelique Chrisafis (The Guardian, 30 December 2012)
Mais e novos museus, por Joana Sousa Monteiro (Mouseion, 7 Janeiro 2012)

Vídeos
Le Journal du Temps: Lens, le Havre et une seule cause (André Malraux inaugure le premier musée – Maison de la Culture en 1961)

Wednesday, 26 December 2012

No meu 2012...


Um espectáculo




Três filmes



e


e



Uma artista da palavra dita





Uma canção




Um livro





E a viagem...

Clique aqui para ver o álbum.

Monday, 17 December 2012

Blogger convidado: "A história do rapaz que adormeceu", por Mohamed El Ghawy (Egipto)

O último blogger convidado este ano é um sonhador, um contador de histórias, é o meu amigo Mohamed El Ghawy. O Mohamed é aquele género de sonhador que nos surpreende pela forma como consegue manter os pés na terra. É cauteloso mas determinado, procura sempre dar passos em frente, sabe o que é preciso fazer para que os sonhos se tornem realidade e... fá-lo. Tivemos longas conversas no verão passado sobre a situação no Egipto e os seus planos para a AFCA, a organização que criou em 2004 com o objectivo de educar as crianças egípcias através das artes e da cultura. Esta é a sua contribuição para o futuro do seu país, um futuro habitado por cidadãos criativos, imaginativos, sensíveis e activos, capazes de aceitarem os outros e de encontrarem o seu caminho sozinhos. mv

Workshop de artes visuais com crianças carenciadas. (Foto: AFCA)

“As crianças enchiam o hall e, como habitualmente, eu estava a contar uma história. Algumas delas abriam as suas boquinhas imitando-me, outras abriam os seus olhinhos fascinadas. A interacção era maravilhosa, divertia-me muito a esticar a minha voz para imitar personagens e vários animais. As crianças estavam a rir-se. Estavam felizes por assistir, tal como eu estava feliz por representar. De repente, reparei num rapaz que estava na última fila, contra a parede. Os seus olhos fecharam-se e cabeceou. Adormeceu e senti-me chocado, era a primeira vez que isto me acontecia. Chateado por não ter conseguido atrair a sua atenção, continuei e no fim apresentei as minhas desculpas à professora. Ela, vendo como isto me tinha afectado, riu-se e disse: «Este rapaz sofre de insónia e estamos a trabalhar com os seus pais para o ajudar. O médico diz que não dorme porque não se sente seguro»”.

Isto não me aconteceu a mim; foi um contador de histórias da Croácia que nos contou numa formação na Irlanda. Há muito tempo que estou interessado na forma como usar as artes na educação dos mais novos. No meu país, o Egipto, o sistema de educação é muito tradicional e as crianças é suposto decorarem tudo sem reflectirem sobre aquilo que estão a memorizar, o que acaba por ser aborrecido. Para mim, a Educação é uma ferramenta e deve continuar a sê-lo.

Quando tinha 25 anos, fiz uma viagem de barco no sul do Egipto com um grupo de amigos, para fugir da vida louca de Cairo. Navegámos ao longo do Nilo num barco pequeno durante 4 noites. Sem tecnologia, sem stress, só a natureza e nós. Uma noite, o céu estava cheio de estrelas e um dos meus amigos, o Damian, abriu um mapa de estrelas e começou a brincar com pedrinhas. Disse que se fizéssemos um desejo naquele momento, tornar-se-ia realidade antes do fim do ano seguinte. Sem hesitar, falei do meu sonho em abrir um espaço onde as crianças pudessem aprender tudo através das artes. Os meus amigos ficaram muito entusiasmados e começámos a procurar um nome. “Deve incluir o francês, tu adoras essas língua”, disse Marwa; e a Yasmine disse: “Irás abri-lo no Cairo, certo?”. O Damian disse que no seu país, a Bélgica, esse género de projectos chamava-se “academia das artes” e naquele momento surgiu o acrónimo francês AFCA - Académie Francophone Cairote des Arts.

Meio ano depois, juntámo-nos todos para a inauguração da minha academia das artes. O Damien estava na Europa e voltou para o natal, vestido de Pai Natal e cantando para as crianças: “Há um ano, brincávamos com as estrelas no céu, agora brincamos convosco aqui na terra…”.

A missão da AFCA é “Educar as crianças e os jovens através das Artes e da Cultura no Egipto”. As actividades que propomos são desenhadas para reforçar o uso das línguas – francês, inglês e árabe – e para estimular a criatividade e talento artístico natural de cada criança, usando-o como um meio para desenvolver capacidades pessoais.

Algumas pessoas acreditaram na nossa missão. Lembro-me da mãe de Aly, que nos apoiou imenso desde o primeiro momento. Tal como nós, acreditava que a sua criança podia aprender e falar uma segunda língua sem ser necessário passar por um sistema académico, apenas através das artes. Conversámos dois anos depois da abertura da AFCA. Disse que Aly estava muito feliz. A sua personalidade tinha mudado e tinha desenvolvido muito as suas capacidades de socialização – mas só falava apenas a língua que lhe ensinavam na escola. Três anos mais tarde, telefonou-me. “Há quatro dias que estamos em França e Aly é o nosso guia, fala em francês. Obrigada!”. Na AFCA, tínhamos brincado juntos com as línguas, tínhamos pintado, até tínhamos cozinhado com elas. Aly tem agora 12 anos e faz parte da equipa que está a planear o nosso décimo aniversário em 2014.

Depois da revolução, tínhamos energia positiva e sentimos que estávamos livres. Decidimos construir pontes com outras culturas e criámos o Hakawy International Arts Festival for Children com o objectivo de trazer ao Egipto espectáculos de todo o mundo. A exposição a outras culturas irá apoiar o desenvolvimento da imaginação e criatividade das crianças e abrir as suas mentes para o mundo e a diversidade cultural. Abrimos o festival a crianças carenciadas, que normalmente têm acesso limitado às artes. Mas têm também o direito de se exprimirem e de se sentirem aceites pelos outros, também a nível internacional. Acreditamos que as artes e a cultura são inestimáveis para as crianças, tão importantes como a comida e a saúde. Comer é uma cultura, conduzir um carro é uma cultura, ouvir enquanto se conversa com outros é uma cultura, limpar é uma cultura. No Egipto, especialmente agora, precisamos destes lados intangíveis da cultura.

Segunda edição do Festival Hakawy, com crianças com necessidades especiais. (Foto: AFCA)
Algumas pessoas pensam que ensinar artes às crianças é um luxo. Não é; é tão importante como qualquer outra coisa. Ensina criatividade, capacidades de socialização e imaginação. A história de um país, contada como conto ou representada numa peça, nunca será esquecida. Quantas pessoas se lembram das datas históricas se as estudaram apenas para responder às perguntas de um exame?

Aprender através das artes enriquece muito a educação de uma criança. A equipa da AFCA ensina línguas estrangeiras através de teatro e de canções, e até disciplinas mais complexas, como a matemática e as ciências, podem ser ensinadas através das artes visuais. É mais importante do que nunca para as gerações mais novas possuírem um amplo leque de capacidades. Considerando algo tão simples como cozer bolos, uma tarte de maçã pode ajudar surpreendentemente uma criança a aprender a comportar-se como membro de uma equipa. As artes não são uma disciplina por si; atravessam todo o currículo.

Devido à situação económica do Egipto, que impede 20 em cada 100 crianças de encontrar um lugar numa escola pública, não podemos deixá-las mais na dependência do governo. Temos que as formar desde muito cedo, de uma forma criativa, para aprenderem a pensar e a investigar. Não só para nos seguirem, mas para estarem no centro, sendo nós aqueles que as seguem.

Nas instalações da AFCA, no dia a seguir à demissão de Hosni Mubarak. (Foto: AFCA) 

Para contribuir para o desenvolvimento do nosso país, e considerando que as organizações independentes devem fazer parte da solução, a AFCA juntou-se ao conselho consultivo das escolas de Heliópolis – Cairo Oriental, para desenvolver a educação através das artes e da cultura nas escolas públicas. Estamos a espalhar o nosso conhecimento, observamos os processos e avaliamos depois da implementação de cada projecto. Dizemos sempre que “A educação através das artes e da cultura não precisa de um PhD; todos podem fazê-lo, em casa, na rua… com as suas crianças ou com as crianças dos seus amigos”. Não posso ainda esquecer-me do papel das artes e da cultura na construção da inclusão social das crianças ou daquelas com necessidades especiais. Podem até substituir um medicamento. Lembro-me ainda do impacto que as nossas actividades tiveram nos refugiados do Iraque e agora da Síria, que se sentiram socialmente incluídos através das artes. Não custa nada, temos apenas que acreditar que, para assegurarmos o futuro das nossas crianças, precisamos de começara  trabalhar com elas desde cedo. O nosso objectivo é ajudar todas as crianças egípcias a serem capazes de aceitar os outros e a encontrarem o seu caminho sozinhas.

Não é fácil trabalhar nas artes, especialmente com a situação política actual, mas estamos a avançar e tentamos ser criativos na resolução dos nossos problemas. Dou sempre coragem a mim próprio e à minha equipa lembrando a todos que o rapaz que adormeceu não estava aborrecido com a história; adormeceu porque se sentiu seguro.


Mohamed ElGhawy é licenciado em Artes, Francês e Literatura pela Universidade de Cairo. Começou a sua carreira como professor de teatro, actor e contador de histórias, em várias escolas e centros culturais. Escreveu várias peças de teatro e encenou muitas produções. Tendo recebido formação pela organização IBO em como usar as artes na educação, fundou no Egipto em 2004 a AFCA, uma organização artística e cultural independente. A fim de promover a cultura árabe e egípcia em todo o mundo, tem viajado a vários países como contador de histórias e formador em educação pela arte. Criou o Hakawy International Arts Festival for Children in Egypt, sob a égide do Ministério da Cultura do Egipto, e com o apoio de várias embaixadas e da UNESCO. É membro do Conselho Consultivo das escolas de Heliópolis – Cairo Oriental. Estudou no DeVos Institute of Arts Management no Kennedy Center for the Performing Arts, em Washington. Colaborou com artistas internacionais em vários projectos que tinham como objectivo usar as artes e a cultura como ferramenta para a aprendizagem intercultural, em França, Alemanha e Argélia. Recentemente, tornou-se representante de Assitej International Network for Theatre for Young Audience and Youth no Egipto e está a trabalhar localmente com outras organizações para a sua reconstrução.

Monday, 10 December 2012

Lugares mágicos

Workshop de Ricardo Lopes (Foto: Vasco Célio /Stills)
As exposições blockbuster atraem muitas pessoas e muita atenção. São consideradas acontecimentos únicos na vida de alguém. Nos últimos doze meses, três tiveram particular destaque nos meios de comunicação: Leonardo da Vinci: Painter at the Milan Court na National Gallery de Londres; a retrospectiva de Damien Hirst na Tate Modern (esteve aberta entre Abril e Setembro e quando encerrou era a exposição individual mais popular na história do museu); e houve ainda a exposição The Steins Collect: Matisse, Picasso and the parisianAvant-Garde no Metropolitan Museum of Art (apesar de, neste caso, a grande questão ter sido o facto da exposição de moda Schiaparelli and Prada: Impossible Conversations, também no Metropolitan, a ter ultrapassado em termos de afluência - ler aqui).

Por ocasião da exposição de Leonardo, o jornal Guardian tinha lançado o debate “Are blockbuster art shows worth queueing for?” (Vale a pena ficar na fila para exposições blockbuster?), onde a jornalista do Observer Miranda Sawyer e o director da Royal Academy Charles Saumarez Smith  - defendendo o ‘não’ e o ‘sim’ respectivamente – discutiram se e como uma pessoa pode apreciar a arte numa sala que está a abarrotar. Nessa altura, James Page acrescentou um elemento mais interessante no debate, lembrando no seu blog que “a discussão estava a revelar de várias formas, e não apenas em termos das opiniões expressas pelos dois protagonistas, mas também como uma tendência natural no sector cultural, o facto de se perguntar a si próprio como é que os seus públicos pensam, sentem ou agem em vez de irem ter directamente com os públicos em questão”.

As exposições blockbuster levantam igualmente a questão da escala. E esta parece ser uma questão que preocupa muito as pessoas, uma vez que, como cidadãos em geral e como profissionais em particular, têm a tendência em se sentir pequenos – e por ‘pequenos’ querem dizer sem poder, sem capacidade de criar impacto.

Tenho pensado na questão da escala também, sobretudo nas ideias e nas acções que são provavelmente de uma escala pequena ou média, mas que têm impacto e podem ainda fazer a diferença na vida de outras pessoas – para além da nossa, claro. São as ideias e as acções que estão ao nosso alcance, mas que podem na mesma contribuir para um todo maior.


Workshop de Maria Alcobia (Foto: Vasco Célio / Stills)
O projecto “Lugares Mágicos” é uma iniciativa da Direcção Regional de Cultura do Algarve. Junta sítios históricos e a criação artística contemporânea; torna-se no ‘lugar mágico’ de um encontro entre artistas e jovens institucionalizados. Mais concretamente, os artistas Maria Alcobia, Vasco Célio, Ricardo Lopes e Miguel Cheta (respectivamente das áreas da dança, fotografia, cerâmica e design), coordenados por Tânia Borges Nunes (Atelier Educativo), trabalharam juntamente com os jovens e, inspirados na herança local, ensinaram-lhes as técnicas da sua arte e juntos produziram peças lindíssimas.

No seguimento da primeira edição, em 2010, houve uma publicação com textos escritos pelas várias pessoas envolvidas. A segunda edição, em 2012, resultou numa jornada de reflexão, no mês passado, que juntou mais uma vez as pessoas envolvidas e deu-nos a oportunidade de conhecer o projecto em mais detalhe. Logo no começo, aconteceu algo raro: representantes da área da cultura, da educação e da acção social sentaram-se à volta da mesma mesa e elogiaram um projecto que, acreditam, cumpriu um objectivo que lhes é comum (não é disso que se trata? não deveria sempre ser assim?). O dia prosseguiu e, através de filmes, fotografias e debates entendemos a enorme visão por trás deste projecto de escala algo pequena.

Não há dúvida que este projecto teve um impacto significativo nas vidas de todos os envolvidos. Ao ouvi-los falar, apercebemo-nos que foi um processo de descoberta e de inspiração e, em certos casos, uma experiência transformadora quanto às percepções de ‘normalidade’ e ‘inclusão’. Neste sentido, parece que os objectivos enunciados pela Directora Regional Dália Paulo – “potenciar olhares, diálogos e experiências ao público-alvo, num exercício pleno de cidadania e “a cultura [como] motor para uma mudança social” – tenham sido cumpridos. Senti apenas que foi uma pena não termos ouvido a voz dos próprios jovens, não ouvimos a história da sua participação e daquilo que esta significou para eles nas suas próprias palavras (uma indicação que aquela tendência natural do sector cultural britânico, de que falava James Page, ‘afecta’ de igual modo o sector cultural português). Filomena Rosa, presidente de uma das instituições sociais envolvidas, trouxe-nos algum feedback ao citar as jovens na sua apresentação: “Fotos na cidade! Antes eu não ligava, eram pedras velhas, mas com as fotos aprendi” ou “Aprendi que uma foto tem muito a dizer… Como uma paisagem que nos diz algo. Com sentimentos”.


Workshop de Vasco Célio (Foto: Vasco Célio / Stills)
No meu comentário final nesse dia, recordei a coreógrafa brasileira Lia Rodrigues – que não criou o seu estúdio numa das favelas de Rio de Janeiro procurando resolver o problema da pobreza ou da violência -  e o maestro Daniel Barenboim – que não criou a West-Eastern Divan Orchestra esperando trazer a paz ao Médio Oriente (mais no meu post Lugares de Encontro). A contribuição da Cultura não está, em primeiro lugar, relacionada com questões como a pobreza, a violência, o crime, a saúde mental, a iliteracia, etc. Artistas e profissionais da cultura em geral não procuram assumir o papel de assistentes sociais, professores, políticos, polícias, padres ou médicos. A Cultura, em primeiro lugar, tem a ver com o pensamento crítico, a auto-expressão (verbal e não verbal), a criatividade, a sensibilidade; tem a ver com o ficar a conhecer o ‘outro’. Neste sentido, quando tudo (cultura, educação, acção social) se junta – num ‘lugar de encontro’ ou num ‘lugar mágico’ – acredito que temos mais hipóteses de construir uma sociedade mais democrática, mais tolerante, mais inclusiva; uma sociedade onde não vivemos em compartimentos e não definimos o ‘outro’ pelas suas diferenças, mas simplesmente o vemos como um outro ser humano (e não ‘especial’ ou ‘deficiente’ ou ‘diferente’ ou até ‘problemático’). “Lugares Mágicos” é o género de projecto que junta os ingredientes necessários para que isto aconteça.

Uma nota final: recentemente estive por duas vezes no Algarve em encontros com profissionais da cultura. Senti que há neles uma clara noção de propósito, há muita motivação e empenho para a ‘causa’, há satisfação pelo que tem sido feito e vontade de fazer mais. E tudo e todos apontam para a Directora Regional, a nossa colega Dália Paulo. Não há dúvida para mim que é a sua visão, o seu profissionalismo, os seus conhecimentos e capacidades que guiam e inspiram toda a equipa. A Dália Paulo e os restantes colegas que conheci no Algarve trabalham à sua escala, fazendo uma diferença blockbuster na vida das pessoas que habitam na região. São os beija-flores (hummingbirds) de Wangari Maathai.