Monday, 22 July 2013

Apresento-vos a Rosa Shaw

Rosa Shaw (Foto: Maria Vlachou)
Apresento-vos a Rosa Shaw. É a primeira pessoa que nos cumprimenta quando entramos no Kennedy Center for the Performing Arts. É um dos guardas do memorial e uma das caras da instituição. É bem educada, tem sentido de humor, é prestável. Quando alguém parece estar perdido ou confuso, não espera que lhe peçam ajuda, aproxima-se e tenta ver se pode ajudar. A farda poderia causar alguma inibição nos visitantes – uma preocupação permanente entre os que trabalham na área da comunicação – mas, olhando para a Rosa e a forma como faz o seu trabalho, torna-se claro que, mais do que uma questão de aparência, é uma questão de atitude.  

A Rosa faz-me pensar em vários guardas que tenho encontrado em museus. Pessoas que parecem extremamente aborrecidas e cansadas; ou pessoas que evitam o contacto visual e depois seguem-nos de perto, apesar de sermos o único visitante na sala; ou pessoas que estão a discutir em voz alta os seus problemas familiares ou laborais, não dando nenhuma atenção aos visitantes. Guardas deste género fazem-me pensar o quão mais interessante seria o seu trabalho, e qual seria o benefício para o museu ou a instituição cultural em que trabalham, se lhes fosse dada formação adequada e responsabilidades diferentes – mais responsabilidades – do que simplesmente estarem sentados numa cadeira ou de pé num canto, sisudos e aborrecidos, interagindo o menos possível com os visitantes.

Guardas no Brooklyn Museum (Foto: Maria Vlachou)
Digo isso porque tive também outras experiências. Há três anos, juntei-me a uma visita guiada à exposição das Tapeçarias de Pastrana no Museu Nacional de Arte Antiga em Lisboa. Quando a visita acabou, dirigindo-me à saída, ouvi um guarda a falar com duas senhoras, explicando tudo o que uma pessoa precisava de saber sobre aquelas obras, mas com um entusiasmo e empenho que igualava aquele do pessoal do Serviço Educativo. E numa linguagem muito mais acessível do que aquela dos textos nos painéis. Mais recentemente, numa visita à exposição de El Anatsui no Brooklyn Museum, ouvi duas guardas a falar sobre uma das obras. Adorei ouvir a sua conversa. Mais tarde, uma delas cumprimentou um pequeno grupo de visitantes e ofereceu-se para tirar-lhes uma fotografia à frente de uma das obras, para poderem ficar todos nela. Todo o ambiente estava descontraído e amigável e informal, senti que fazia toda a diferença.

Os guardas dos museus podem parecer silenciosos e sisudos, até ameaçadores às vezes, mas têm olhos e sentimentos e opiniões sobre as obras que os rodeiam. Há umas semanas, a Washington Post publicou um artigo muito interessante sobre os guardas dos museus da capital americana (ler aqui), onde falavam das suas obras favoritas e o porquê de serem as suas favoritas. Uma delas dizia que o facto de trabalhar num museu despertou o seu interesse pela arte e, consequentemente, fê-la olhar para todas as coisas de uma forma diferente. Ao ler as suas entrevistas, pensei como gostaria de ter tido uma conversa directa com eles, como visitante e como profissional.



Numa instituição cultural, o pessoal da Frente de Casa (sejam eles guardas ou assistentes de sala ou bilheteiros) são algumas das pessoas mais importantes na equipa no que diz respeito ao marketing institucional. São a cara, são a voz, são a atitude. São também os ouvidos, uma vez que estão mais próximos dos visitantes ou espectadores do que a Gestão. O pessoal da Frente de Casa tem um papel decisivo na qualidade de toda a experiência de visitar uma instituição cultural. Uma exposição que nos desiludiu ou um espectáculo que provou ser um desastre não nos vai manter afastados para sempre; assumimos um risco e sabemos que poderá não vir a corresponder à expectativa. Por outro lado, se não formos bem tratados, se nos depararmos com funcionários que são mal educados ou de mau humor, que não têm a informação que precisamos, que não são prestáveis ou que mostram não se preocupar, isto poderá fazer toda a diferença e determinar se vamos voltar ou não. Mesmo quando temos que escolher entre duas exposições ou dois espectáculos interessantes, é muito provável que o atendimento ao público, o lugar onde nos sentimos mais bem tratados, faça toda a diferença na nossa decisão.

No entanto, apesar da sua posição e papel estratégicos, o pessoal da Frente de Casa é normalmente negligenciado pela Gestão; menosprezado também. Não lhes é dada formação adequada em relações públicas e atendimento ao público; não lhes é dada informação sobre o que estão a guardar ou a vender ou o que vão ver as pessoas que encaminham aos respectivos lugares; muito frequentemente, não lhes é dada sequer informação importante sobre o que se passa na instituição na qual trabalham em termos de programação ou horários ou preços / descontos ou outras informações práticas que o público procura (já alguma vez presenciaram o desconforto e constrangimento de um membro da Frente de Casa quando não pode responder a uma pergunta lógica ou, pior, quando é informado pelo público sobre o que se passa na instituição onde trabalha?); sentem-se frustrados pelo facto da sua opinião não ser tida em conta, até quando se trata de opiniões e comentários do público que eles simplesmente transmitem superiormente, porque os ouviram ou porque os receberam.

Os funcionários da Frente de Casa não são o pessoal que ‘apenas’ guarda ou ‘apenas’ vende ou ‘apenas’ responde ao telefone ou ‘apenas’ leva as pessoas ao seu lugar. São uma parte valiosa da equipa, a parte mais visível. São aqueles que dão as boas vindas ao público, que falam com ele, que promovem a instituição – não apenas os seus conteúdos, mas também a sua visão e os seus princípios. Parece óbvio e natural que lhes sejam dadas as ferramentas para poderem fazer o seu trabalho e fazê-lo bem. A Rosa parece ter prazer em fazer o seu trabalho. E é um prazer vê-la fazê-lo.

Monday, 15 July 2013

Blogger convidado: "Chile cultural ou a tentativa de modelos de gestão descentralizados", por Eduardo Duarte Yañez (Chile)

Eduardo Duarte Yañez é um gestor cultural chileno. Neste post partilha connosco as suas preocupações relativamente àquela que considera ser uma obsessão do governo do seu país com o “impacto” da cultura – conceito esse que Eduardo considera ter sido muito pouco ou mesmo nada definido por quem o usa. Ao mesmo tempo, deposita a sua confiança nas comunidades locais que, juntamente com a cooperação cultural internacional e as autoridades políticas locais, estão a desenhar modelos de gestão cultural, procurando abrir um caminho para a concretização de programas culturais. mv

Abertura do Primeiro Encontro Internacional Mujeres por la Cultura, que se realizou na semana passada do Chile.

Falar de processo culturais no Chile, na perspectiva do registo de modelos de gestão de cidades, onde o papel da cultura, apesar de não ser protagonista, tem uma importância vital nas políticas públicas de desenvolvimento local, é algo não muito animador para os gestores culturais, artistas e movimentos culturais comunitários, a sociedade civil organizada.

Existe, é certo, uma política cultural nacional que foi aprovada até 2016, onde nos são dados uma série de conceitos em voga, onde se menciona pela primeira vez a valorização do Património Cultural Imaterial, muitas medidas e eixos aos quais, quase transversalmente, não é associado um plano de gestão para os levar para a frente.

Por trás deste panorama, tentaremos focar-nos, de uma forma geral, nas realidades locais das comunidades. Nos últimos quatro anos não se avançou com nenhum conceito ou critério para se entender o que o Ministério da Cultura do Chile (sem classificação ministerial, outra contradição) chama de “impacto” e a sua obsessão com isto. Qual é o impacto de um poema ou de uma composição musical? O número de pessoas que o lêem ou que a ouvem? A qualidade da leitura ou da audição? E qual o prazo para se medir isto? Quantas décadas terão de passar para que a obra de Gabriela Mistral comece a ter um “impacto” na cultura nacional, caso esteja efectivamente a ter “impacto”…? Como quantificar “o impacto” de uma obra pictórica? Pelo número de olhos que a têm visto num determinado período de tempo (meses, anos?) ou pelo seu valor no mercado de arte? Receio que a preocupação legítima pelos resultados de uma certa política pública (neste caso, cultural), obcecada com o “impacto”, se não houver cautela, pode acabar num beco sem saída.

Por outro lado, também o debate pela gratuitidade ou não das actividades culturais (acesso à cultura) é algo feito apenas de forma marginal, e não como um debate entre os cidadãos. A maior parte da oferta cultural é gratuita, e em muitos casos mistura-se e confunde-se com o entretenimento de shows para as massas, que são capazes de atingir o valor do orçamento anual de um Departamento Municipal de Cultura.

No Chile existem 345 câmaras municipais. De acordo com o segundo inquérito nacional de cultura (realizado pelo Conselho Nacional da Cultura e das Artes), a forma artística com maior número de espectadores chilenos é o cinema (34%), seguido dos concertos (29,3%). Esta situação revela um interessante debate relativamente aos conteúdos cinematográficos, onde os cinemas tradicionais foram substituídos pelos cinemas nos grandes centros comerciais, e onde a programação está baseada na indústria cinematográfica de Hollywood, na qual “escolher” que filme ver significa “escolher entre os filmes que te obrigo a ver”, não há uma variedade de conteúdos onde possam também ser realizadas mostras de cinema independente ou ciclos de cinema nas universidades públicas ou privadas.

A política de fomento à leitura é um outro capítulo, ainda mais longo, de ambiguidades. Chile tem 19% de imposto nos livros, algo que faz sangrar as editoras, os autores emergentes ou não, e principalmente o cidadão comum que se vê impossibilitado de comprar livros que, muitas vezes, pressupõem 20% a 30% de um salário mensal com o qual deve sustentar a sua família. Um trabalhador não pode adquirir livros com conteúdos de qualidade, é proibitivo.


Contrariamente a tudo o que foi dito até agora, as comunidades locais, como é o caso de Coquimbo, juntamente com a cooperação cultural internacional e as autoridades políticas locais, estão a desenhar modelos de gestão cultural, como os Planos Directores de Cultura, ferramentas flexíveis que se constroem com todos os agentes culturais locais, procurando definir um rumo para a concretização de programas culturais, sustentáveis e com um registo preciso de cada acção para contemplar a maior quantidade de indicadores. Avançou-se com projectos como a Cartografia Sociocultural de Bairros Populares de Coquimbo e a Etnografia Escolar, seguindo os modelos de sucesso de Educação Patrimonial do Brasil e da Colómbia. Iniciou-se a implementação em 2012, com fundos do orçamento municipal para a cultura, da experiência dos Seminários Debates dos Microbairros, para incluir, com rigor e método científico na compilação de dados e também com múltiplos formatos de obtenção de indicadores, sem serem necessariamente académicos, questões muito importantes que devem ser tomadas em consideração.
Desta forma, os municípios vão criando uma visualização mundial dos seus principais activos bioculturais, e avançam igualmente com a experimentação de modelos de gestão cultural das cidades, de forma comunitária e inclusiva. Trata-se de uma tarefa muito ampla e, com certeza, com muitos altos e baixos, no entanto o mais interessante no processo cultural da região de Coquimbo - que contou com o primeiro prémio Nobel para uma mulher, Gabriela Mistral - é que há uma inter-relação entre as suas cidades e uma disposição integral dos gestores, artistas e autoridades políticas, para trabalhar de forma articulada. Espera-se que possamos ter no final de 2013 a primeira memória deste processo que se vai adaptando e que recebe novos impulsos por parte da comunidade local.
Eduardo Duarte Yañez é escritor e gestor cultural, criador de múltiplos projectos e programas de cultura para o desenvolvimento local e a integração cultural. Foi distinguido em 2006 com um prémio nacional de Gestão Cultural Municipal no Chile. É licenciado em Gestão Cultural, pela Faculdade de Artes da Universidade do Chile; pós-graduado em Cooperação e Gestão Cultural Internacional pela Universidade de Barcelona, Espanha. Publica em diversos meios de comunicação na América Latina e em Espanha.

Monday, 8 July 2013

'Apenas' um museu, 'apenas' uma artista?

A artista Ahlam Shibli no Jeu de Paume (Foto LP/Philippe de Poulpiquet, retirada do jornal Le Parisien)
Já tinha escrito aqui sobre a minha experiência de há vinte anos quando visitei um museu de história na cidade de Halifax no Reino Unido. Tinha ficado absolutamente chocada quanto vi, numa das fotografias expostas, combatentes da resistência cipriota contra o poder britânico a serem identificados como “terroristas”. Ao mesmo tempo, penso que me apercebi naquela altura – tinha 23 anos – que havia pessoas que contavam aquela mesma história de uma forma completamente diferente. Os homens na fotografia poderiam ter matado os seus entes queridos, que tinham sido enviados pelo seu país para defender uma autoridade, na sua opinião, legítima.

Mesmo assim, independentemente do meu choque, não ameacei o museu com uma bomba, não iniciei uma petição para fechar a exposição. Que é exactamente o que tem acontecido em Paris nas últimas semanas como resposta a certas fotografias exibidas no âmbito da exposição Foyer Fantôme, no museu Jeu de Paume, pela artista palestiniana Ahlam Shibli. Porquê? Porque certas pessoas sentiram que a exposição de fotografias de bombistas suicidas palestinianos, e o facto de serem referidos como “mártires”, era uma forma de glorificar o terrorismo. Considero, obviamente, as reacções e ameaças dos grupos pró-Israelitas totalmente inaceitáveis. Mas devo também dizer que não me surpreendem. O assunto é sensível, controverso, e aqueles que afirmam estar surpreendidos pelas fortes reacções de certos grupos ou que nos avisam relativamente ao retorno da censura (ler o artigo de Emmanuel Alloa La censure est de retour) ou são ingénuos ou não são honestos com eles próprios e com os outros. Não há nada de novo ou de surpreendente nestas tentativas de censura, aconteceram no passado e voltarão a acontecer. Mas não é sobre isto que quero falar.

Elogio os museus que têm a coragem de tocar em assuntos difíceis e controversos. Os museus devem fazer exactamente isso: desafiar as nossas ‘histórias’, apresentar ‘o outro lado’, provocar debate, criar espaço para isso. No entanto, não tenho a certeza se o propósito do Jeu de Paume era esse.

Lê-se no website do museu relativamente à exposição: “Morte, a última série de Ahlam Shibli, especialmente concebida para esta retrospectiva, mostra como a sociedade palestiniana preserva a presença de ‘mártires’, de acordo com o termo usado pela artista. Esta série testemunha uma vasta representação dos ausentes através de fotos, cartazes, painéis e graffitis expostos como forma de resistência.” O museu parece ter perfeita consciência que o uso do termo ‘mártir’ pode ser controverso e atribui o mesmo à artista. Por outro lado, a artista, citada no artigo de Emmanuel Alloa, afirma que “O meu trabalho é apenas mostrar, não é nem denunciar nem julgar”. 

Na minha opinião, as exposições não mostram ‘apenas’. Nem os artistas. Exposições e artistas fazem afirmações. A Ministra Francesa da Cultura pareceu-me muito mais afirmativa no seu comunicado público e não pareceu querer fugir àquela que é a verdadeira questão: “Esta alegada neutralidade pode também ser chocante”, disse ela, “e causar más interpretações, uma vez que não explica o contexto das fotografias, que não é apenas aquele da perda, mas também o do terrorismo.” (ler o comunicado na íntegra aqui).

Death nr. 37, por Ahlam Shibli (imagem retirada do blog Lunettes Rouges)
O Ministério pediu ao museu para completar a informação disponibilizada aos visitantes para, por um lado, clarificar e explicar melhor o propósito da artista e, por outro, para fazer a distinção entre a proposta da artista e posição da instituição. A Ministra foi atacada de todos os lados, pró e contra a exposição. Pessoalmente, não vejo porque é que um museu deveria manter a distância das suas opções da forma como parece ter sido sugerido pelo Ministério Francês. O que deveria ficar mesmo claro é por que razão o museu escolhe apresentar a exposição A ou B ao público, como é que esta escolha vai ao encontro da sua missão e programação, o que pretende comunicar, que género de reflexão e discussão procura promover.

Não posso dizer que são claros para mim os propósitos do Jeu de Paume e as razões porque optou por apresentar uma artista que ‘quer apenas mostrar’. Procurei várias vezes no website do museu a existência de um programa paralelo que poderia complementar a exposição com comunicações e debates. Nada. Quando foi finalmente anunciado um debate, organizado pelo museu e pelo Observatoire de la Liberté de Création, “reagindo à controvérsia gerida pela exposição”, este iria abordar questões como a liberdade da representação artística, a responsabilidade das instituições que expõem obras que possam causar polémica, a liberdade do visitante de ter acesso às obras e a liberdade de expressão em todas as suas componentes (ler aqui).

Isto é tudo muito bom. Isto é exactamente o que deveria ter sido programado antecipadamente e não como reacção a uma polémica. E deveria ter ido mais longe do que a discussão geral da liberdade de criar, liberdade de expor, liberdade de visitar. Esta exposição levanta outras questões importantes e específicas.

Teria esperado que o Jeu de Paume não fingisse que não estava à espera de uma enorme polémica quando bombistas suicidas palestinianos são referidos como mártires. Teria esperado que a artista não quisesse “apenas mostrar”, como se fosse ‘apenas’ uma repórter, como se não tivesse tirado e exposto estas fotos com a intenção de fazer uma afirmação. Teria esperado que ambos, o museu e a artista, quisessem verdadeiramente provocar um debate, empurrar as fronteiras para a frente, criar espaço para discutir o que é história, identidade, conflito, justiça, resistência, um acto ou um estado terrorista. Esta é a questão palestiniana, aqui não há “apenas”.

Ainda neste blog

As histórias que contamos a nos próprios

Silenciosos e apolíticos?

A longa distância entre Califórnia e Jerusalém


Mais leituras

Marie-José Mondzain, Artiste palestinienne : liberté pour l'art au Jeu de Paume (Le Monde, 21.6.2013)


G.W. Goldnadel, France/Jeu de Paume: double honte (Israël Flash, 21.6.2013)
Marta Gili: Je refuserai toujours lacensure au Jeu de Paume. Entrevista da Directora do Jeu de Paume (Le Figaro, 24.6.2013)

Monday, 1 July 2013

Blogger convidado: "Useo", por Jorge Barco (Colómbia)

Medellín é a segunda maior cidade da Colómbia. Para alguns, continua a ser sinónimo de cartel de drogas. Para outros, é a cidade-exemplo, que através de políticas culturais e sociais, conseguiu baixar o índice de criminalidade e mostrar aos seus habitantes novos caminhos para o seu desenvolvimento pessoal e também comunitário. Recentemente, li uma entrevista de Jorge Barco, Director do Departamento de Educação e Cultura do Museo de Arte Moderno de Medellín. Fiquei muito contente quando aceitou escrever para o Musing on Culture e partilhar a sua reflexão sobre o papel que as instituições culturais, e em particular os museus, podem ter no desenvolvimento de uma nova relação com a criação, o património e a vida em comunidade. mv

Colectivo Imoar (Foto: Andres Sampedro)
“La estabilidad que estamos construyendo ahora es afectivopráctico y no material, un inmenso laboratorio de la imaginación, aprovechando de toda grieta que se puede encontrar para dar cuerpo a lo que sentimos dentro” Las Grietas

O convite de Maria Vlachou para escever no seu blog, assim como do  ICOM para participar no próximo encontro de Museus no Rio de Janeiro, é para mim uma oportunidade para começar a organizar algumas ideias que têm motivado grande parte da minha reflexão como gestor, educador e activista nos museus da região de Antioquia (Colómbia) nos últimos  sete  anos.

Hoje faz sentido pensar o papel que as instituições culturais – e em particular os museus – podem ter como cenários propícios para reconfigurar uma nova relação com a criação, o património e a vida em comunidade. Os museus – num papel que se aproxima decididamente ao dos 'centros culturais', no caso especial de Medellín– têm um papel importante na promoção de programas educativos, culturais, expositivos, que ultrapassam os muros da instituição para chegar a favelas e populações distantes. E do seu interior, reinventam continuadamente as formas de se relacionarem com os seus públicos a partir da educação expandida (Edupunk), os novos enfoques de gestão cultural e o trabalho em rede.

Do seu lado, o Museo de Arte Moderno de Medellín (MAMM) – reinstalado, desde há quatro anos, numa antiga oficina de fundição de metais – tem sido consolidado como um lugar estratégico no país, pela sua programação expositiva, mas sobretudo  educativa e cultural. É um lugar propício para formular as seguintes perguntas:

Quais são as linhas orientadoras deste trabalho? Quais são os elementos para começar a criar uma nova institucionalidade e definição para o que historicamente temos chamado  Museu?

A procura de respostas para estas perguntas leva-me a propor a construção de confiança como um dos princípios orientadores: um exercício fino, perseverante e delicado de tecido e relacionamento comunitário que se  desenvolve a par com o trabalho colaborativo e em rede, o qual  se pode ver  desenhado na  cartografia de uma cena cultural cada vez mais expandida. O projecto  LABSURLAB é apenas um exemplo de como uma iniciativa que surgiu no MAMM se converteu numa rede mundial  de activistas que trabalham em torno das noções de arte, ciência, tecnologia e comunidades com um enfoque biopolítico.

LABSURLAB (Foto: Checho)

Através da construção de mapas dos projectos que se desenvolvem no território, estamos a criar relações de sentido entre os actores da cultura na cidade, na região, no continente e no mundo, procurando vincular cada vez mais grupos sociais, identitários, profissionais, assim como instituições, universidades, empreendimentos, projectos e comunidades, para a mobilização de ideais. A cartografia  dos projectos culturais é um instrumento fundamental nos processos de criação cultural contemporânea.

Uma outra linha de acção é dirigida à exploração de novas definições para o que normalmente chamamos gestão cultural, procurando conferir-lhe todo o poder criativo que alberga, a partir de modelos abertos que permitem reinventar as relações de criação, circulação e apropriação; reconhecendo que – assim como acontece com as práticas artísticas– nos projectos culturais boa parte do trabalho radica na mesma gestão. Necessariamente, esta situação faz-nos também repensar os papéis e as relações – entre quem cria, quem recebe, quem educa, quem exibe e quem gere –, ao mesmo tempo que ocorre uma transformação dos campos disciplinares.

Há mais um elemento que vincula o trabalho como activistas culturais às tecnologias, para além dos aspectos meramente técnicos: as ferramentas que nos proporcionam este momento albergam novos formatos para a criação colaborativa, a educação, a gestão de projectos, o activismo, a reorganização do trabalho e a produção dos bens comuns. Os processos culturais e artísticos ligados à cultura digital são hoje territórios de limite, fronteira e de intercâmbio, e o museu é um lugar estratégico a partir do qual se podem activar estes processos.

Uma linha adicional tem sido orientada para gerar diálogos criativos a partir do museu como instituição com os movimentos e iniciativas independentes, que podem ir desde residências artísticas, circuitos de música e bares a espaços não convencionais de educação não formal, com o objectivo de realizar projectos desde a cooperação e o mutualismo. O propósito tem sido gerar ambientes de diálogo, de co-criação e de oportunidades para ambas as esferas  (instituições e movimentos).

Equipa Educação e Cultura do MAMM (Foto: Clara Botero)
A partir desta perspectiva, a função do museu é global e, ao mesmo tempo, local, proporcionando um lugar de encontro entre as múltiplas camadas e ofícios da criação contemporânea e potenciando o desenvolvimento das subjectividades. Um lugar de encontro, trabalho, produção e investigação, para além de exposição e divulgação, onde todos os elementos se misturam, se alimentam e desde o qual poderia surgir uma nova institucionalidade e espaço que proponho que se chame provisoriamente ‘Useo’.


Jorge Bejarano Barco trabalha no sector dos museus da região de Antioquia (Colómbia) desde 2007. Actualmente, é Director do Departamento de Educação e Cultura do Museo de Arte Moderno de Medellín. No passado, trabalhou no Museo de Antioquia, na Rede de Museus e nos Conselhos Municipal e Departamental de Cultura. Participou na criação de projectos e redes independentes para a confluência entre arte, ciência, tecnologias e comunidades (ver aqui e aqui e aqui). Foi conferencista convidado na Cátedra Medellín-Barcelona, no Encuentro Internacional los Museos en la Educación organizado pelo Museo Thyssen Bornemisza em Madrid, no Master en Gestión Cultural y Economía de la Cultura de la Universidad de Valladolid, na Facultad de Diseño y Arquitectura da Universidad de Buenos Aires, no Festival de Cultura Digital de Rio de Janeiro, no Festival Internacional de la Imagen (Manizales) e nas Universidades de Antioquia e Jorge Tadeo Lozano (Bogotá). Actualmente, os seus interesses concentram-se na investigação sobre produção cultural, filosofia dos media, educação expandida, propondo diálogos entre instituições e movimentos, desde o trabalho colaborativo em rede ou a redefinição de uma série de acções que juntam a arte e o activismo cultural.

Monday, 24 June 2013

Elitismo para todos

Our Lady, by Eszter Szabó, 2012 (Foto: Maria Vlachou)

E de repente, em menos de uma semana, houve três posts diferentes no Facebook, escritos por três pessoas diferentes, referentes a três situações diferentes, mas com uma questão subjacente comum: o elitismo cultural.

Primeiro, o programador António Pinto Ribeiro criticou o anúncio de uma edição única e limitada do último livro do poeta Herberto Hélder. Considerou esta opção uma campanha de marketing ofensiva, uma decisão arrogante, pouco dignificante para todos os envolvidos. Alguém comentou que esta tinha sido provavelmente a vontade do poeta – que se sentiu desconfortável por ter ficado na moda e que preferiu tornar os seus livros em objectos menos acessíveis. António Pinto Ribeiro reafirmou a sua crítica (ler o post aqui).

Poucos dias depois, o crítico de arte Alexandre Pomar escreveu sobre a popular artista contemporânea Joana Vasconcelos – que representa Portugal na Bienal de Veneza – e os ferozes ataques e críticas que tem recebido de muitas pessoas do sector. Falou da rejeição de qualquer obra de arte que tenha impacto público, êxito popular, um lugar no mercado internacional. Referiu-se ainda à subordinação a uma camarilha que se reserva o direito de definir o que é arte contemporânea de qualidade e que gere o “Great Divide” (erudito vs. de massas; de vanguarda vs. popular; culto vs. inculto; “high” vs. “low”). Na sua conclusão, Alexandre Pomar afirma: “Se existe uma relação traumática com a Joana e a sua obra é porque ela movimenta poderosas tensões (e pulsões)”. (ler o post aqui).

Dois dias mais tarde, a jornalista Paula Moura Pinheiro partilhou que achou muita graça ao facto da notícia mais popular no sector “Cultura” do Público ter sido a revelação de Michael Douglas que o seu cancro na garganta se deveu à prática de sexo oral… Daí, continuou e comentou sobre uma reinante confusão entre categorias, sobre o misturar o entretenimento (interessante para muitos) e as artes e o pensamento (interessante apenas para poucos). Escreveu que muito frequentemente tinha dificuldades em convencer os decisores de televisões e rádios que era mau serviço apresentar no mesmo programa a estreia do último filme do Zorro e o último livro de Herberto Hélder (aqui está ele outra vez). “Chateia os apreciadores do Zorro que, em muitos casos, se estarão nas tintas para a Poesia e afasta os amantes do Herberto.” (ler o post aqui).

Estava ainda a pensar nestes três posts e nas questões que levantavam, quando um amigo me enviou um texto do escritor José Luís Peixoto, intitulado Luta das classes. Nele partilhava a sua convicção que o seu trabalho só ganha sentido quando há um receptor do outro lado. Procura, por isso, assegurar que este tenha a mais ampla divulgação possível: deve-o a ele próprio e à convicção que tem naquilo que escolheu dizer; mas fá-lo também por respeito às pessoas que queiram ler o seu trabalho. O jornalista Vítor Belanciano comentou este texto e afirmou que, apesar de ter gostado e desgostado tanto de textos de José Luís Peixoto como de Herberto Hélder (aqui está ele outra vez), e apesar de respeitar o silêncio de Hélder, identifica-se mais com o Peixoto e os seus esforços em tornar o seu trabalho o mais disponível possível, sendo criticado por isso (uma visão que Vítor Belanciano considera elitista, acanhada e provinciana). Um ou outro comentário a este post  afirmava: “ Estás a comparar o incomparável” (o comentador não percebeu o ponto do Vítor…); “Como é que podes falar no mesmo parágrafo e nos mesmos termos sobre o José Luís Peixoto e o Herberto Hélder?” (Como é que se “atreveu”, realmente…?). (ler o post aqui).

Trabalho na área da comunicação cultural. O meu objectivo é partilhar informação, provocar interesse, ajudar as pessoas a tomarem decisões, criar acesso. Em última análise, o meu objectivo é contribuir para empurrar as fronteiras das pessoas mais longe, para as desafiar, para as confortar, para enriquecer as suas vidas e alimentar o seu pensamento. Mais que uma vez lidei com artistas que se recusavam ou não estavam interessados em partilhar informação que poderia ajudar a promover o seu projecto, desde uma simples sinopse ao dar uma entrevista (curiosamente, isto raramente acontece quando não têm um cachet assegurado no bolso e o seu pagamento depende da receita de bilheteira…). Esses artistas fazem-me frequentemente pensar: “Para quem fazem o que fazem? Para os seus amigos e familiares? E se assim for, é aceitável quando o fazem com dinheiro público?”.

No entanto, sou também eu própria consumidora. Uma consumidora que gosta tanto de “Bridget Jones” como da poesia de Cavafi; que sabe um pouco sobre música clássica e que se sente completamente inadequada quando na presença de pessoas que sabem tudo sobre a cena musical pop ou indie; que não gosta de videojogos, apesar de fazerem parte da colecção do MOMA; que saiu de exposições de arte contemporânea furiosa porque um curador “culto” pensou que ela seria tão “culta” quanto ele e que não iria precisar de qualquer explicação ou contextualização (ou que provavelmente pensou que se não fosse suficientemente “culta” não deveria lá estar de qualquer forma); que se sentiria ofendida e profundamente irritada se um dos seus escritores favoritos optasse pro fazer uma edição limitada do seu último trabalho por não gostar de se sentir “popular”.

Já vi qualidade e já vi coisas muito malfeitas em todo o tipo de expressões culturais e artísticas, “high” e low”, em todo o tipo de obras de arte “populares” e “não-tão-populares”. Admiro aquelas pessoas que não categorizam e que adoptam uma abordagem mais cosmopolita no seu consumo cultural e crítica de arte, que não estão contra o elitismo, mas que defendem o “elitismo para todos”. E sou grata àqueles (amigos, colegas, curadores, artistas, escritores, jornalistas) que me têm mostrado coisas novas, que têm partilhado e comunicado o seu trabalho, que me têm ajudado a perceber, que me têm permitido descobrir o “inseguro” quando eu ia pelo “seguro”, que têm empurrado as minhas fronteiras para a frente e que me têm dado o espaço e a confiança para falar do que gosto e do que não gosto sem medo e complexos.

Mais neste blog


Mais leituras
Vitor Belanciano, Herberto ou Peixoto (Público, 23.6.2013)
Emer O´Kelly, The case for elitism. The Arts Council, Ireland
John Holden, Culture and Class.


Monday, 17 June 2013

Blogger convidado: "Sou daqui", por Zeina Soudi (Palestina)

Conheci a Zeina Soudi no mês passado, graças à Laurinda Alves. São as gestoras do Dialogue Café em Ramallah e Lisboa, respectivamente. Em duas horas conseguimos falar de imensas coisas, mas o que chamou em particular a minha atenção foi a busca da Zeina pela sua identidade. Nascida no Líbano de pais palestinianos, visitou pela primeira vez a Palestina com passaporte jordano. Foram precisos mais 10 anos para conseguir o seu bilhete de identidade palestiniano. A pergunta “De onde és?” foi sempre difícil de responder. Apesar do contexto palestiniano ter, naturalmente, as suas especificidades, várias partes na sua narrativa terão um significado especial para muitos de nós e irão levantar novamente questões sobre cultura, identidade, raízes, ‘nós’ e o ‘outro’. mv
No passaporte de Zeina Soudi.
“De onde és?” é uma pergunta com a qual fui muitas vezes confrontada quando era mais nova. Uma pergunta que durante anos me deixava confusa e que não podia responder sem primeiro pensar. A resposta era normalmente uma embrulhada. Sou o produto de uma “terceira cultura”. Nasci no Líbano e vivi em Malta e no Chipre até quase ao fim da adolescência, quando mudei para a Jordânia. Sou cidadã jordana de origem palestiniana. Mas até àquele momento, nunca tinha vivido na Jordânia ou estado na Palestina. A Palestina era apenas uma terra da fantasia sobre a qual falavam os meus pais e eu via na televisão. Sendo uma estrangeira nesses países, a pergunta “De onde és?” era uma pergunta que me apavorava, quando deveria ser uma das mais simples perguntas à qual uma pessoa devesse responder.
Na minha viagem para afirmar e reafirmar a minha identidade houve muitas reviravoltas, confusões e restrições. A começar pela pergunta “De onde és?”.
Fiz os dois últimos anos da escola em Amman, e apesar de ter adquirido um sentimento de pertença, algo faltava ainda. Havia uma pequena parte em mim que ainda precisava de encontrar para me sentir completa. Assim, quando acabei a escola, decidi ir à Palestina sozinha e inscrever-me na universidade. Esta decisão ia ser o início de uma viagem muito difícil. Foi em 1997.
Como sabem, a Palestina continua ocupada. Para ir até lá preciso de ter autorização de Israel, o que provou ser mais difícil do que tinha alguma vez imaginado. Quando finalmente consegui a autorização a primeira vez, cheguei a meio caminho e depois não me foi permitida a entrada na fronteira israelita. Quando questionei porquê, responderam “Por razões de segurança”.
“Razões de segurança”? Que género de ameaça poderia ser por ir para a universidade estudar Inglês e Literatura? Isto não lhes interessava. Puseram um carimbo “Entrada NEGADA” no meu passaporte e mandaram-me de volta para Amman. Essas duas palavras no meu passaporte mudaram a minha vida. Tinha apenas 18 anos naquela altura. Só muitos anos depois descobri porque é que era uma “ameaça”.
Cheguei tão perto, mesmo assim estava ainda longe. Lembrei-me de A Letter to His son do escritor palestiniano Ghassan Kanafani:
“Ouvi-te no outro quarto a perguntar à tua mãe ‘Mamã, sou palestiniano?’. Quando ela respondeu ‘Sim’, um pesado silêncio caiu em toda a casa. Era como se algo que estivesse suspenso sobre as nossas cabeças tivesse caído, o seu barulho a explodir, depois – silêncio. Depois… ouvi-te chorar. Não conseguia mexer-me. Havia algo maior do que a minha consciência a nascer no outro quarto através do teu choro perplexo. Era como se um bisturi abençoado estivesse a abrir o teu peito para colocar ai o coração que te pertencia… Era incapaz de me mexer para ir ver o que se passava no outro quarto. Sabia, no entanto, que uma pátria distante estava novamente a nascer: colinas, olivais, pessoas mortas, bandeiras rasgadas e dobradas, tudo isto a abrir caminho para um futuro de carne e sangue e a nascer no coração de uma outra criança… Acreditas que o homem cresce? Não, nasce de repente – uma palavra, um momento, penetra o seu coração dando um novo pulsar. Uma cena pode lançá-lo do tecto da infância para a dureza da rua.”
Mas não desisti facilmente. Tentei várias vezes até conseguir a autorização para ir à Palestina.
Maqueta do The Palestinian Museum que começou a ser construído este ano. O museu será dedicado à exploração  e compreensão da cultura, história e sociedade da Palestina e dos palestinianos. Podem ler uma entrevista com o director do museu aqui.
Estava a aprender lentamente quantos bilhetes de identidade diferentes nós palestinianos somos obrigados a ter. E essas diferentes identidades determina por que rua podemos passar ou a que cidade podemos ir. Por exemplo, não me era permitido ir a Jerusalém, de onde é a minha família. Nós palestinianos somos obrigados a estar separados e a ser categorizados de acordo com a nossa origem e cor do bilhete de identidade.
Quando começou a segunda Intifada, decidi ficar na Palestina e acabar o meu curso. Foi quando me tornei numa “estrangeira-ilegal” no meu próprio país e passei 8 anos numa prisão ao ar livre, sem possibilidade de viajar, por ter receio que a entrada no meu país me pudesse ser negada para sempre. Estava determinada em plantar as minhas raízes, tal como os meus pais, avós e bisavós tinham feito. Apesar de me sentir claustrofóbica às vezes, e prestes a desistir, no fim consegui o que queria. Tive direito a um bilhete de identidade palestiniano e tornei-me “legal”. Esta foi a minha maneira de resistir a esta injustiça. Esta foi a minha maneira de afirmar a minha identidade. Esta foi provavelmente a razão porque para os israelitas era uma ameaça.
E aqui estou ainda hoje, sentada na minha sala de estar com todos os meus amigos, todos com bilhetes de identidade de cor diferente, passaportes diferentes, aqueles que nasceram na Palestina e outros, como eu, que nasceram noutros países. Seguimos todos caminhos diferentes. Mas temos todos uma coisa em comum, somos todos persistentes. Recusamos todos esta injustiça. Recusamos todos ser categorizados. Acordamos todos dia após dia e dizemos ‘não’ à ocupação.

E no final do dia, quando alguém me pergunta “De onde és?” posso dizer facilmente “Sou daqui”.


Zeina Soudi é gestora do Dialogue Café em Ramallah. O Dialogue Cafe é uma rede aberta de videoconferências que junta pessoas com vários perfis, em todo o mundo, para trocarem ideias, conhecimentos e experiências, lidando com diferentes culturas, sociedades e tradições. No passado, trabalhou para ONGs na área dos direitos humanos e do desenvolvimento social, e também para projectos relacionados com a arte e cultura palestiniana. Começou a sua carreira como professora de inglês. 

Monday, 10 June 2013

Como toma o seu El Greco?

Museu de Belas-Artes, Budapeste (Foto: Maria Vlachou)
Quando entro numa sala de museu que tem um El Greco pendurado na parede, tudo pára à minha volta. Não há barulho, não há movimento, apenas eu, ele e silêncio. Em alguns casos em que fui apanhada de surpresa, porque não sabia que tinham um El Greco na suas colecções, houve mais ainda: pareceu que de repente deixei de respirar, senti uma fraqueza nas pernas. Ele é um dos meus pintores favoritos. E é também um homem de Creta, que levou Bizâncio com ele para qualquer lugar onde fosse e que nunca assinou as suas obras numa língua que não fosse a dele.

Vi El Greco em várias ocasiões e em diferentes circunstâncias: exposições blockbuster nas Pinacotecas de Atenas e Londres, salas muito movimentadas no Louvre ou no Metropolitan ou em Toledo, um canto sossegado na Phillips Collection em Washington ou, mais recentemente, numa sala grande quase só para mim, no Museu de Belas-Artes de Budapeste. Qual foi a melhor experiência? Todas elas.

Várias vezes nos últimos tempos li e ouvi comentários de profissionais de museus e de visitantes que se queixam que os museus não são o que eram. Sentem que não podem ter o que chamam “uma verdadeira experiência” porque estão cheios de gente. Anseiam para poder estar sozinhos com a arte e são muito críticos deste museu novo onde toda a gente é bem-vinda, mesmo que não estejam lá pelas “razões certas”. Compreendo as pessoas que procuram um ambiente específico de calma e intimidade quando visitam. Mas preocupa-me quando parece que acham que os museus foram feitos só para eles (e assim deveriam ficar) e quando os profissionais apoiam estas opiniões.

Os museus têm que dar resposta a todo o tipo de pessoas e necessidades. Quando se procura diversificar a audiência, levanta-se sempre a questão de como o fazer sem afastar os públicos existentes. Não é fácil de qualquer forma e torna-se ainda mais difícil no caso de museus movimentados e populares. Há visitantes que sabem mais e visitantes que sabem menos; visitantes que procuram intimidade e visitantes preparados para fazer a fila durante horas e para visitar na companhia de centenas de outras pessoas. Necessidades diferentes, perspectivas diferentes, mas nenhuma mais legítima que as outras, diria eu.

Uma amiga enviou-me na semana passada o artigo de Brian Cohen How to visit a museum. Apesar de não concordar com as suas opiniões sobre o que os museus representam (ou deveriam representar) na vida cultural de quem os visita, vejo que é um visitante que sabe muito bem o que procura e gostei muito de ler os seus conselhos para as pessoas que desejam adaptar a visita às suas necessidades e interesses. Os museus talvez pudessem adoptar esta ideia e aconselhar os seus visitantes no que diz respeito a horários e dias mais calmos, percursos sugeridos ou alternativos etc. (alguns já o fazem). Deveriam estar abertos e ser corajosos, deveriam reconhecer que os seus visitantes têm agendas diferentes e tentar orientá-los nos seus propósitos. E acima de tudo, deveriam deixar claro que um visitante não é mais bem-vindo do que outro.

Voltando a mim, uma visitante como tantos outros, tomo o meu El Greco como estiver. Adoro os encontros íntimos, aqueles momentos preciosos em que o tenho só para mim e posso parar, olhar e sentir o tempo que quiser. Mas já mais que uma vez tive que o partilhar com muitas-muitas outras pessoas, tive que ficar na fila e esperar pacientemente até ser a minha vez de ficar em frente a um quadro, sentindo-me um pouco pressionada pela pessoa atrás de mim. Faz tudo parte do ritual. Sabia que ia ser assim e gostei daquele sentimento de comunidade, de prazer e alegria partilhados. Gosto de museus calmos e gosto de museus movimentados. Gosto de museus.


Ainda neste blog

Mais leituras
Are blockbuster exhibitions worth queueing for?Entrevistas com Miranda Sawyer e Charles Saumarez Smith no Observer (12.11.2011)
Blockbuster art: good or bad?. Entrevistas por Emine Saner no Guardian (25.1.2013)