Monday, 9 September 2013

Blogger convidado: "Arte sitiada", por Chaymaa Ramzy El Dessouky (Egipto)

Existe um tipo especial de mulher em Alexandria: determinada, teimosa, confiante, cheia de energia, ideias e sonhos, e com uma enorme capacidade de trabalho. Chaymaa Ramzy é esse género de Alexandrina. Dadas todas estas características, não é uma pessoa que cede perante as dificuldades ou quando enfrenta controvérsia. Entre os vários projectos em que está envolvida, aquele que a tem mesmo cativado é o Marsam 301, um projecto com base em Belém, Palestina, que envolve pessoas de vários países árabes e cuja sede ela não pode visitar. Pelo menos por agora… mv

Eventos de rua (Foto: Marsam 301)

“Não me lembro quando li exactamente a minha primeira banda desenhada, mas lembro-me exactamente o quanto me senti libertado e subversivo, como resultado.”
― Edward W. Said, Palestine

Como é que se define o ‘sítio’? Trata-se de um cerco físico ou sobretudo psicológico? Somos capazes, como pessoas simples, de ultrapassar as suas barreiras? Será o sítio uma fronteira? Ou trata-se apenas de uma limitação numa determinada terra ou espaço que deveríamos estar constantemente a sonhar em como voar por cima dela?
Questões que podem ter respostas diferentes, que cada um de nós pode interpretar de acordo com a sua própria situação, local ou estilo de vida.
Palestina: as pessoas, o território, o país e a Terra Santa. A experiência antecipada por todos. Alguns de nós podem, outros não. Podemos sonhar com a beleza dos seus becos, a gentileza das suas pessoas e maravilhar-nos com as histórias sem fim das suas casas e ruas.
Quando Monther Jawabreh, um proeminente artista visual de Belém, começou a pensar em fundar um novo espaço cultural, “Marsam 301” (Estúdio 301), não pensou em promover a arte nos seus espaços tradicionais, mas noutros diferentes, onde uma pessoa pode ser tocada por uma história, ouvir um dialecto local, ouvir a vida em alta voz em espaços como casas, escolas, hospitais e talvez prisões.
Marsam 301 é um espaço cultural independente, localizado na cidade de Belém, Palestina. Um espaço que destaca o artista visual palestiniano e a arte visual palestiniana na região árabe e talvez no mundo! Uma visão partilhada com outros artistas, gestores culturais e apoiantes da Palestina e países árabes vizinhos.
O nome “301” advém do posto de controlo Kabr Rahil (Túmulo de Raquel), que se encontra entre Jerusalém e Belém. Um posto de controlo israelita conhecido como ‘Barrier 300’ (Barreira 300 – “Parar para inspecção”) bloqueia a passagem dos palestinianos para e de Jerusalém. Marsam 301 fica a 2 quilómetros do posto de controlo, mesmo no centro da cidade de Belém. Portanto, Marsam 301 tem esse nome procurando ser a segunda barreira que obrigará os palestinianos a pararem para ver arte. 301 é também o número do edifício.
Marsmam 301, o espaço (Foto: Marsam 301)
“Assaltar casas, raptar pessoas, bombardear cafés” pode soar perigoso! Mas quando ouvimos isso da equipa do Marsam 301, percebemos a sua missão e ansiedade em assaltar casas com Arte, raptar pessoas e mantê-las durante muito tempo em galerias de arte e bombardear todos os cafés do beco com cores. Uma visão que advém do seu contexto social e do seu dialecto diário, de transformar o actual estado de sítio social e político num sentimento de felicidade e apreciação pelas artes. Uma visão que possa libertar as mentes e sensibilizar sobre a verdadeira relação que deveria existir entre o artista e a sua comunidade.    
Os três programas principais do Marsam 301 incluem nesta fase a promoção da arte visual palestiniana e a capacitação de jovens artistas palestinianos. Um outro programa importante pretende trazer as artes para a rua e espaços não-tradicionais, e até de criar arte em formas não-tradicionais. Por fim, uma residência artística que recebe outros artistas dispostos a viver a experiência palestiniana de intercâmbio artístico, provenientes da região árabe ou de qualquer outra parte do mundo.
Através destes três  programas, a equipa do Marsam 301 deseja ter um papel importante na cena artística palestiniana, juntando um grande número de artistas emergentes com outros mais proeminentes e estabelecidos. Mas também, construir uma nova relação entre estes dois tipos de artistas que poderão beneficiar nesta fase da partilha de experiências e do debate de uma série de tópicos. Uma ideia que foi confirmada e apreciada por Tamam Al Akhal, um proeminente artista visual palestiniano, durante o último encontro da equipa em Amã, Jordânia. Al Akhal partilha a visão e objectivos do Marsam 301.
O recente encontro da equipa em Amã, Jordânia (Foto: Marsam 301)

Esta extraordinária experiência, na minha opinião (tendo eu o orgulho de ser um dos seus fundadores, juntamente com Iman Bachir do Líbano e Ahed Izhiman da Palestina), irá contribuir muito para a cena artística palestiniana e ter um impacto muito rico nas pessoas e na comunidade. Irá tornar as artes acessíveis em qualquer lugar e a qualquer hora. Fornecendo um melhor conhecimento das artes que reflectem sobre a realidade do país e apresentam as opiniões e emoções das pessoas aos de fora. Uma experiência que coloca os artistas no coração da sociedade.
O Marsam 301 continuará com a sua estratégia de ajudar no desenvolvimento da sociedade palestiniana, esperando que, um dia, as pessoas ganharão a sua própria liberdade e nunca mais irão parar para inspecção ou sentir-se sitiadas!
Para contactar o Marsam 301, por favor escrevam para marsam301(at)gmail.com ou visitem-nos no Facebook.

Chaymaa Ramzy El Dessouky é Program Officer da Fundação Anna Lindh em Alexandria, Egipto; International Fellow of Arts Management no Kennedy Center for Performing Arts, Washington DC; membro fundador de Marsam 301 em Belém, Palestina. Nascida em Alexandria, licenciou-se em Business Administration and Strategic Marketing na Faculdade de Comércio - Alexandria University. Com a sua experiência como formadora, apoia várias organizações da sociedade civil e outros projectos emergentes na região árabe, ajudando-os a criar estratégias que aumentam a sua capacidade na área do marketing, da publicidade e do planeamento estratégico. Durante o seu fellowship no Kennedy Center, quer concentrar-se no desenvolvimento de um plano de marketing que irá ajudar a envolver a imprensa e de incorporar plataformas de redes sociais para fortalecer a organização de eventos locais no Egipto. Com a Fundação Anna Lindh, organiza anualmente o Festival Intercultural de Alexandria “Farah El Bahr”. Está igualmente envolvida na criação do plano estratégico do Marsam 301 em Belém, Palestina, fazendo parte de uma equipa regional de pessoas de diferentes países árabes.

Contactos:
Chaymaa.ramzy(at)gmail.com
Chaymaa.ramzy(at)bibalex.org

Monday, 2 September 2013

O ano novo


Estou de regresso de Washington, no avião de Paris para Lisboa. Estou no lugar do meio, por isso, peço ao homem que está no lugar de corredor para me deixar passar. Não olho bem para ele; um homem moreno, poderia ser português.

Começo a ler o meu livro. Pouco tempo depois, sinto que o homem ao meu lado está um pouco nervoso. Olho para as suas mãos: tem um boné, o seu telemóvel e algumas páginas enroladas com um texto em inglês. Tento olhar melhor para ele, discretamente. Não é português, é de origem árabe. Olho novamente para as suas mãos. O seu telemóvel está ligado e está constantemente a verificá-lo. O texto nas páginas enroladas é um texto científico, mas não consigo perceber de que área exactamente.

As assistentes de bordo passam e oferecem bebidas. Não aceita. “Ramadão”, penso para mim. Continua a olhar para o seu telemóvel e faz-me sentir nervosa também. Olho novamente para ele, está de olhos fechados e os seus lábios estão a mexer. Está a rezar? Estou ainda mais nervosa. Tento dizer a mim própria que tem ar de um homem perfeitamente normal, mas há uma outra voz interior que me diz “Não têm todos ar de um homem normal?”.

Pouso o meu livro na mesa, é de um autor Árabe (estarei a tentar mandar um recado?). Muitos pensamentos passam pela minha cabeça. Um deles é levantar-me e ir avisar o pessoal de cabine que tenho um Árabe nervoso sentado ao meu lado com o seu telemóvel ligado… Obrigo-me a mim própria a ficar onde estou, sentindo-me ridícula. E então ele diz:

-          O que está a ler?
-          É um autor marroquino.
-          É o que me pareceu.
-          É também marroquino?
-          Sim, sou.

Pede para dar uma vista de olhos. Pega no livro e lê a sinopse. Depois começamos a falar sobre política. Religião também. Pergunta-me sobre a Grécia, falamos muito sobre o Egipto e depois também sobre Marrocos. Está a caminho de Portugal para participar numa conferência sobre matemática aplicada. Estou a gostar muito da nossa conversa, tem uma voz calma e parece um homem meigo, mas não consigo deixar de me sentir nervosa. Sempre que haja um momento de silêncio, olha para o seu telemóvel. “Não têm todos ar de um homem normal?”, insiste a voz interior.

Assim que aterramos em Lisboa, ele diz-me: “Sabe que as probabilidades de um avião se despenhar são muito menores do que de dois comboios colidirem?”. Não está nervoso, não estou nervosa. Sinto-me aliviada. E sinto vergonha.

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Há duas entradas para a exposição do Museum of Tolerance em Los Angeles, uma com a indicação “Preconceituoso”, a outra “Não preconceituoso”. Aqueles que tentam entrar pela segunda porta encontram-na fechada, não conseguem abri-la. O incidente no avião continuou a assombrar os meus pensamentos. Sentia-me realmente envergonhada. Se o homem ao meu lado não parecesse Árabe, teria reagido de outra forma ao seu nervosismo.

Organizações e pessoas que trabalham na área do racismo e da discriminação lembram-nos constantemente que não nascemos racistas, tornamo-nos racistas. E, depois de nos tornarmos, parece ser preciso lutar mesmo muito, conscientemente e com determinação, para evitar discriminar o Outro. Depois de conversar com algumas pessoas sobre o incidente no avião e de ouvir as suas opiniões sobre o que devia ter feito, apercebi-me que esta luta é mesmo difícil. Porque, para lutarmos, é necessário primeiro estarmos conscientes dos nossos actos discriminatórios, estarmos conscientes das nossas próprias atitudes. Muito frequentemente não estamos. Nunca pensamos em nós próprios como racistas e uma série de desculpas servem-nos perfeitamente para justificarmos os nossos pensamentos e acções: a necessidade de sentirmos segurança, a necessidade de protegermos as pessoas que amamos e as nossas comunidades, a necessidade de preservarmos a nossa cultura e tradições, a necessidade de defendermos o nosso território, a necessidade de garantirmos a nossa sobrevivência… Por isso, se necessário e ‘just in case’, o Outro poderá ter que pagar o preço. E “não há mal nisto, é compreensível, somos boas pessoas, preocupadas com os nossos”…

Esse ‘just in case’ tem servido de desculpa para muitas pessoas nas suas decisões do dia-a-dia, assim como para muitas e importantes decisões políticas. A América pós-9/11 vem-me inevitavelmente à cabeça. Mas mesmo aí – como me apercebi lendo o livro de Leila Ahmed A Quiet Revolution – The Veil´s Resurgence, from the Middle East to America -, no meio da destruição, da dor, do medo, da raiva, da violência, houve pessoas de todas as origens e religiões que foram capazes de olhar bem para elas próprias e de ser solidárias para com outras, determinadas em preservar as suas comunidades multiculturais, manter e proteger as suas relações com amigos e vizinhos, continuar a ser e a sentir-se humanas. A linha entre o civilizado e o bárbaro é tão ténue; requer um esforço tão grande para se ser o primeiro e não o segundo.

Setembro assinala um ‘ano novo’ para mim mais que Janeiro; vem do tempo da escola. É o momento em que olho para a frente e penso “E agora?” ou “A seguir?”. Neste preciso momento, tendo o ‘ano novo’ pela frente, a minha cabeça está cheia de perguntas. Penso novamente no meu tempo no Kennedy Center, onde Egípcios falam com Israelitas; Paquistaneses e Indianos trocam piadas sobre os seus países; um Sérvio, uma Croata e um Bósnio tiram fotos juntos; uma Grega e uma Turca partilham uma refeição. Será este um ambiente ‘seguro’, ‘civilizado’? Teria sido diferente se o contexto fosse diferente? Haverá espaços onde as pessoas são civilizadas e outros espaços onde essas mesmas pessoas se tornam bárbaros? Terá mesmo a cultura um papel em manter-nos civilizados ou os seus ‘efeitos’ são facilmente neutralizados por outras forças e factores? Poderá ajudar a criar um espaço comum, onde as pessoas possam coexistir e manter boas relações, não simplesmente tolerando uns os outros, mas ficando a conhecer-se melhor; dispostas a conversar, a entender, a aceitar? Não foi o livro de Fouad Laroui que ajudou a iniciar a conversa naquele avião, que ajudou a controlar o medo? As minhas resoluções para o ‘ano novo’ encontram-se algures entre todas estas questões.

Ler também:

Can Culture make it?

Monday, 29 July 2013

Kennedy Center: o fim da aventura

Foto: Ihor Poshyvailo
Não estaria a exagerar se dissesse que o Fellowship no Kennedy Center for the Performing Arts foi a mais significativa experiência profissional que tive nos últimos anos.

Abriu novos mundos para mim, mostrou-me novos caminhos e diferentes realidades, ajudou-me a respirar, inspirou-me e fez-me pensar.

Graças à equipa do Kennedy Center e do DeVos Institute, pensamentos, ideias, dúvidas, convicções e práticas foram organizadas e começaram a fazer sentido, tornando-me, penso, numa profissional melhor, mais conhecedora e capaz.

Além disso, graças à grande oportunidade de estar e trabalhar com gestores culturais de todo o mundo, pessoas inteligentes e inspiradoras, os meus conhecimentos aprofundaram-se e tornaram-se mais diversos.

E mais: estas pessoas muito especiais, dedicadas e determinadas, lembraram-me que, se permitirmos que outros nos atrofiem, não seremos o melhor que podemos, não faremos o melhor que podemos; ajudaram-me a vencer o medo e a fazer o que tinha que fazer.

O meu profundo agradecimento à equipa do Kennedy Center / DeVos Institute e a todos os Fellows: por tudo o que aprendi convosco e que ficará comigo, para sempre.

Um agradecimento igualmente profundo ao Rui Catarino, Cecília Folgado e Rui Belo: não teria conseguido fazer isto sem vós.

Posts escritos durante o Fellowship

2011

A começar no Kennedy Center






2012




2013


Graduation Day

Monday, 22 July 2013

Apresento-vos a Rosa Shaw

Rosa Shaw (Foto: Maria Vlachou)
Apresento-vos a Rosa Shaw. É a primeira pessoa que nos cumprimenta quando entramos no Kennedy Center for the Performing Arts. É um dos guardas do memorial e uma das caras da instituição. É bem educada, tem sentido de humor, é prestável. Quando alguém parece estar perdido ou confuso, não espera que lhe peçam ajuda, aproxima-se e tenta ver se pode ajudar. A farda poderia causar alguma inibição nos visitantes – uma preocupação permanente entre os que trabalham na área da comunicação – mas, olhando para a Rosa e a forma como faz o seu trabalho, torna-se claro que, mais do que uma questão de aparência, é uma questão de atitude.  

A Rosa faz-me pensar em vários guardas que tenho encontrado em museus. Pessoas que parecem extremamente aborrecidas e cansadas; ou pessoas que evitam o contacto visual e depois seguem-nos de perto, apesar de sermos o único visitante na sala; ou pessoas que estão a discutir em voz alta os seus problemas familiares ou laborais, não dando nenhuma atenção aos visitantes. Guardas deste género fazem-me pensar o quão mais interessante seria o seu trabalho, e qual seria o benefício para o museu ou a instituição cultural em que trabalham, se lhes fosse dada formação adequada e responsabilidades diferentes – mais responsabilidades – do que simplesmente estarem sentados numa cadeira ou de pé num canto, sisudos e aborrecidos, interagindo o menos possível com os visitantes.

Guardas no Brooklyn Museum (Foto: Maria Vlachou)
Digo isso porque tive também outras experiências. Há três anos, juntei-me a uma visita guiada à exposição das Tapeçarias de Pastrana no Museu Nacional de Arte Antiga em Lisboa. Quando a visita acabou, dirigindo-me à saída, ouvi um guarda a falar com duas senhoras, explicando tudo o que uma pessoa precisava de saber sobre aquelas obras, mas com um entusiasmo e empenho que igualava aquele do pessoal do Serviço Educativo. E numa linguagem muito mais acessível do que aquela dos textos nos painéis. Mais recentemente, numa visita à exposição de El Anatsui no Brooklyn Museum, ouvi duas guardas a falar sobre uma das obras. Adorei ouvir a sua conversa. Mais tarde, uma delas cumprimentou um pequeno grupo de visitantes e ofereceu-se para tirar-lhes uma fotografia à frente de uma das obras, para poderem ficar todos nela. Todo o ambiente estava descontraído e amigável e informal, senti que fazia toda a diferença.

Os guardas dos museus podem parecer silenciosos e sisudos, até ameaçadores às vezes, mas têm olhos e sentimentos e opiniões sobre as obras que os rodeiam. Há umas semanas, a Washington Post publicou um artigo muito interessante sobre os guardas dos museus da capital americana (ler aqui), onde falavam das suas obras favoritas e o porquê de serem as suas favoritas. Uma delas dizia que o facto de trabalhar num museu despertou o seu interesse pela arte e, consequentemente, fê-la olhar para todas as coisas de uma forma diferente. Ao ler as suas entrevistas, pensei como gostaria de ter tido uma conversa directa com eles, como visitante e como profissional.



Numa instituição cultural, o pessoal da Frente de Casa (sejam eles guardas ou assistentes de sala ou bilheteiros) são algumas das pessoas mais importantes na equipa no que diz respeito ao marketing institucional. São a cara, são a voz, são a atitude. São também os ouvidos, uma vez que estão mais próximos dos visitantes ou espectadores do que a Gestão. O pessoal da Frente de Casa tem um papel decisivo na qualidade de toda a experiência de visitar uma instituição cultural. Uma exposição que nos desiludiu ou um espectáculo que provou ser um desastre não nos vai manter afastados para sempre; assumimos um risco e sabemos que poderá não vir a corresponder à expectativa. Por outro lado, se não formos bem tratados, se nos depararmos com funcionários que são mal educados ou de mau humor, que não têm a informação que precisamos, que não são prestáveis ou que mostram não se preocupar, isto poderá fazer toda a diferença e determinar se vamos voltar ou não. Mesmo quando temos que escolher entre duas exposições ou dois espectáculos interessantes, é muito provável que o atendimento ao público, o lugar onde nos sentimos mais bem tratados, faça toda a diferença na nossa decisão.

No entanto, apesar da sua posição e papel estratégicos, o pessoal da Frente de Casa é normalmente negligenciado pela Gestão; menosprezado também. Não lhes é dada formação adequada em relações públicas e atendimento ao público; não lhes é dada informação sobre o que estão a guardar ou a vender ou o que vão ver as pessoas que encaminham aos respectivos lugares; muito frequentemente, não lhes é dada sequer informação importante sobre o que se passa na instituição na qual trabalham em termos de programação ou horários ou preços / descontos ou outras informações práticas que o público procura (já alguma vez presenciaram o desconforto e constrangimento de um membro da Frente de Casa quando não pode responder a uma pergunta lógica ou, pior, quando é informado pelo público sobre o que se passa na instituição onde trabalha?); sentem-se frustrados pelo facto da sua opinião não ser tida em conta, até quando se trata de opiniões e comentários do público que eles simplesmente transmitem superiormente, porque os ouviram ou porque os receberam.

Os funcionários da Frente de Casa não são o pessoal que ‘apenas’ guarda ou ‘apenas’ vende ou ‘apenas’ responde ao telefone ou ‘apenas’ leva as pessoas ao seu lugar. São uma parte valiosa da equipa, a parte mais visível. São aqueles que dão as boas vindas ao público, que falam com ele, que promovem a instituição – não apenas os seus conteúdos, mas também a sua visão e os seus princípios. Parece óbvio e natural que lhes sejam dadas as ferramentas para poderem fazer o seu trabalho e fazê-lo bem. A Rosa parece ter prazer em fazer o seu trabalho. E é um prazer vê-la fazê-lo.

Monday, 15 July 2013

Blogger convidado: "Chile cultural ou a tentativa de modelos de gestão descentralizados", por Eduardo Duarte Yañez (Chile)

Eduardo Duarte Yañez é um gestor cultural chileno. Neste post partilha connosco as suas preocupações relativamente àquela que considera ser uma obsessão do governo do seu país com o “impacto” da cultura – conceito esse que Eduardo considera ter sido muito pouco ou mesmo nada definido por quem o usa. Ao mesmo tempo, deposita a sua confiança nas comunidades locais que, juntamente com a cooperação cultural internacional e as autoridades políticas locais, estão a desenhar modelos de gestão cultural, procurando abrir um caminho para a concretização de programas culturais. mv

Abertura do Primeiro Encontro Internacional Mujeres por la Cultura, que se realizou na semana passada do Chile.

Falar de processo culturais no Chile, na perspectiva do registo de modelos de gestão de cidades, onde o papel da cultura, apesar de não ser protagonista, tem uma importância vital nas políticas públicas de desenvolvimento local, é algo não muito animador para os gestores culturais, artistas e movimentos culturais comunitários, a sociedade civil organizada.

Existe, é certo, uma política cultural nacional que foi aprovada até 2016, onde nos são dados uma série de conceitos em voga, onde se menciona pela primeira vez a valorização do Património Cultural Imaterial, muitas medidas e eixos aos quais, quase transversalmente, não é associado um plano de gestão para os levar para a frente.

Por trás deste panorama, tentaremos focar-nos, de uma forma geral, nas realidades locais das comunidades. Nos últimos quatro anos não se avançou com nenhum conceito ou critério para se entender o que o Ministério da Cultura do Chile (sem classificação ministerial, outra contradição) chama de “impacto” e a sua obsessão com isto. Qual é o impacto de um poema ou de uma composição musical? O número de pessoas que o lêem ou que a ouvem? A qualidade da leitura ou da audição? E qual o prazo para se medir isto? Quantas décadas terão de passar para que a obra de Gabriela Mistral comece a ter um “impacto” na cultura nacional, caso esteja efectivamente a ter “impacto”…? Como quantificar “o impacto” de uma obra pictórica? Pelo número de olhos que a têm visto num determinado período de tempo (meses, anos?) ou pelo seu valor no mercado de arte? Receio que a preocupação legítima pelos resultados de uma certa política pública (neste caso, cultural), obcecada com o “impacto”, se não houver cautela, pode acabar num beco sem saída.

Por outro lado, também o debate pela gratuitidade ou não das actividades culturais (acesso à cultura) é algo feito apenas de forma marginal, e não como um debate entre os cidadãos. A maior parte da oferta cultural é gratuita, e em muitos casos mistura-se e confunde-se com o entretenimento de shows para as massas, que são capazes de atingir o valor do orçamento anual de um Departamento Municipal de Cultura.

No Chile existem 345 câmaras municipais. De acordo com o segundo inquérito nacional de cultura (realizado pelo Conselho Nacional da Cultura e das Artes), a forma artística com maior número de espectadores chilenos é o cinema (34%), seguido dos concertos (29,3%). Esta situação revela um interessante debate relativamente aos conteúdos cinematográficos, onde os cinemas tradicionais foram substituídos pelos cinemas nos grandes centros comerciais, e onde a programação está baseada na indústria cinematográfica de Hollywood, na qual “escolher” que filme ver significa “escolher entre os filmes que te obrigo a ver”, não há uma variedade de conteúdos onde possam também ser realizadas mostras de cinema independente ou ciclos de cinema nas universidades públicas ou privadas.

A política de fomento à leitura é um outro capítulo, ainda mais longo, de ambiguidades. Chile tem 19% de imposto nos livros, algo que faz sangrar as editoras, os autores emergentes ou não, e principalmente o cidadão comum que se vê impossibilitado de comprar livros que, muitas vezes, pressupõem 20% a 30% de um salário mensal com o qual deve sustentar a sua família. Um trabalhador não pode adquirir livros com conteúdos de qualidade, é proibitivo.


Contrariamente a tudo o que foi dito até agora, as comunidades locais, como é o caso de Coquimbo, juntamente com a cooperação cultural internacional e as autoridades políticas locais, estão a desenhar modelos de gestão cultural, como os Planos Directores de Cultura, ferramentas flexíveis que se constroem com todos os agentes culturais locais, procurando definir um rumo para a concretização de programas culturais, sustentáveis e com um registo preciso de cada acção para contemplar a maior quantidade de indicadores. Avançou-se com projectos como a Cartografia Sociocultural de Bairros Populares de Coquimbo e a Etnografia Escolar, seguindo os modelos de sucesso de Educação Patrimonial do Brasil e da Colómbia. Iniciou-se a implementação em 2012, com fundos do orçamento municipal para a cultura, da experiência dos Seminários Debates dos Microbairros, para incluir, com rigor e método científico na compilação de dados e também com múltiplos formatos de obtenção de indicadores, sem serem necessariamente académicos, questões muito importantes que devem ser tomadas em consideração.
Desta forma, os municípios vão criando uma visualização mundial dos seus principais activos bioculturais, e avançam igualmente com a experimentação de modelos de gestão cultural das cidades, de forma comunitária e inclusiva. Trata-se de uma tarefa muito ampla e, com certeza, com muitos altos e baixos, no entanto o mais interessante no processo cultural da região de Coquimbo - que contou com o primeiro prémio Nobel para uma mulher, Gabriela Mistral - é que há uma inter-relação entre as suas cidades e uma disposição integral dos gestores, artistas e autoridades políticas, para trabalhar de forma articulada. Espera-se que possamos ter no final de 2013 a primeira memória deste processo que se vai adaptando e que recebe novos impulsos por parte da comunidade local.
Eduardo Duarte Yañez é escritor e gestor cultural, criador de múltiplos projectos e programas de cultura para o desenvolvimento local e a integração cultural. Foi distinguido em 2006 com um prémio nacional de Gestão Cultural Municipal no Chile. É licenciado em Gestão Cultural, pela Faculdade de Artes da Universidade do Chile; pós-graduado em Cooperação e Gestão Cultural Internacional pela Universidade de Barcelona, Espanha. Publica em diversos meios de comunicação na América Latina e em Espanha.

Monday, 8 July 2013

'Apenas' um museu, 'apenas' uma artista?

A artista Ahlam Shibli no Jeu de Paume (Foto LP/Philippe de Poulpiquet, retirada do jornal Le Parisien)
Já tinha escrito aqui sobre a minha experiência de há vinte anos quando visitei um museu de história na cidade de Halifax no Reino Unido. Tinha ficado absolutamente chocada quanto vi, numa das fotografias expostas, combatentes da resistência cipriota contra o poder britânico a serem identificados como “terroristas”. Ao mesmo tempo, penso que me apercebi naquela altura – tinha 23 anos – que havia pessoas que contavam aquela mesma história de uma forma completamente diferente. Os homens na fotografia poderiam ter matado os seus entes queridos, que tinham sido enviados pelo seu país para defender uma autoridade, na sua opinião, legítima.

Mesmo assim, independentemente do meu choque, não ameacei o museu com uma bomba, não iniciei uma petição para fechar a exposição. Que é exactamente o que tem acontecido em Paris nas últimas semanas como resposta a certas fotografias exibidas no âmbito da exposição Foyer Fantôme, no museu Jeu de Paume, pela artista palestiniana Ahlam Shibli. Porquê? Porque certas pessoas sentiram que a exposição de fotografias de bombistas suicidas palestinianos, e o facto de serem referidos como “mártires”, era uma forma de glorificar o terrorismo. Considero, obviamente, as reacções e ameaças dos grupos pró-Israelitas totalmente inaceitáveis. Mas devo também dizer que não me surpreendem. O assunto é sensível, controverso, e aqueles que afirmam estar surpreendidos pelas fortes reacções de certos grupos ou que nos avisam relativamente ao retorno da censura (ler o artigo de Emmanuel Alloa La censure est de retour) ou são ingénuos ou não são honestos com eles próprios e com os outros. Não há nada de novo ou de surpreendente nestas tentativas de censura, aconteceram no passado e voltarão a acontecer. Mas não é sobre isto que quero falar.

Elogio os museus que têm a coragem de tocar em assuntos difíceis e controversos. Os museus devem fazer exactamente isso: desafiar as nossas ‘histórias’, apresentar ‘o outro lado’, provocar debate, criar espaço para isso. No entanto, não tenho a certeza se o propósito do Jeu de Paume era esse.

Lê-se no website do museu relativamente à exposição: “Morte, a última série de Ahlam Shibli, especialmente concebida para esta retrospectiva, mostra como a sociedade palestiniana preserva a presença de ‘mártires’, de acordo com o termo usado pela artista. Esta série testemunha uma vasta representação dos ausentes através de fotos, cartazes, painéis e graffitis expostos como forma de resistência.” O museu parece ter perfeita consciência que o uso do termo ‘mártir’ pode ser controverso e atribui o mesmo à artista. Por outro lado, a artista, citada no artigo de Emmanuel Alloa, afirma que “O meu trabalho é apenas mostrar, não é nem denunciar nem julgar”. 

Na minha opinião, as exposições não mostram ‘apenas’. Nem os artistas. Exposições e artistas fazem afirmações. A Ministra Francesa da Cultura pareceu-me muito mais afirmativa no seu comunicado público e não pareceu querer fugir àquela que é a verdadeira questão: “Esta alegada neutralidade pode também ser chocante”, disse ela, “e causar más interpretações, uma vez que não explica o contexto das fotografias, que não é apenas aquele da perda, mas também o do terrorismo.” (ler o comunicado na íntegra aqui).

Death nr. 37, por Ahlam Shibli (imagem retirada do blog Lunettes Rouges)
O Ministério pediu ao museu para completar a informação disponibilizada aos visitantes para, por um lado, clarificar e explicar melhor o propósito da artista e, por outro, para fazer a distinção entre a proposta da artista e posição da instituição. A Ministra foi atacada de todos os lados, pró e contra a exposição. Pessoalmente, não vejo porque é que um museu deveria manter a distância das suas opções da forma como parece ter sido sugerido pelo Ministério Francês. O que deveria ficar mesmo claro é por que razão o museu escolhe apresentar a exposição A ou B ao público, como é que esta escolha vai ao encontro da sua missão e programação, o que pretende comunicar, que género de reflexão e discussão procura promover.

Não posso dizer que são claros para mim os propósitos do Jeu de Paume e as razões porque optou por apresentar uma artista que ‘quer apenas mostrar’. Procurei várias vezes no website do museu a existência de um programa paralelo que poderia complementar a exposição com comunicações e debates. Nada. Quando foi finalmente anunciado um debate, organizado pelo museu e pelo Observatoire de la Liberté de Création, “reagindo à controvérsia gerida pela exposição”, este iria abordar questões como a liberdade da representação artística, a responsabilidade das instituições que expõem obras que possam causar polémica, a liberdade do visitante de ter acesso às obras e a liberdade de expressão em todas as suas componentes (ler aqui).

Isto é tudo muito bom. Isto é exactamente o que deveria ter sido programado antecipadamente e não como reacção a uma polémica. E deveria ter ido mais longe do que a discussão geral da liberdade de criar, liberdade de expor, liberdade de visitar. Esta exposição levanta outras questões importantes e específicas.

Teria esperado que o Jeu de Paume não fingisse que não estava à espera de uma enorme polémica quando bombistas suicidas palestinianos são referidos como mártires. Teria esperado que a artista não quisesse “apenas mostrar”, como se fosse ‘apenas’ uma repórter, como se não tivesse tirado e exposto estas fotos com a intenção de fazer uma afirmação. Teria esperado que ambos, o museu e a artista, quisessem verdadeiramente provocar um debate, empurrar as fronteiras para a frente, criar espaço para discutir o que é história, identidade, conflito, justiça, resistência, um acto ou um estado terrorista. Esta é a questão palestiniana, aqui não há “apenas”.

Ainda neste blog

As histórias que contamos a nos próprios

Silenciosos e apolíticos?

A longa distância entre Califórnia e Jerusalém


Mais leituras

Marie-José Mondzain, Artiste palestinienne : liberté pour l'art au Jeu de Paume (Le Monde, 21.6.2013)


G.W. Goldnadel, France/Jeu de Paume: double honte (Israël Flash, 21.6.2013)
Marta Gili: Je refuserai toujours lacensure au Jeu de Paume. Entrevista da Directora do Jeu de Paume (Le Figaro, 24.6.2013)