A notícia da demissão de Warren Kanders do Conselho Directivo
do Whitney Museum deixou-me muito satisfeita. Depois de
meses de protestos, o proprietário da Safariland (uma empresa que fabrica
“produtos para a aplicação da lei" - noutras palavras, armas, incluindo o gás
lacrimogéneo usado contra os imigrantes na fronteira dos EUA) foi forçado a
sair, já que muitas pessoas sentiam que ganhar dinheiro com a produção de armas
e depois investi-lo filantropicamente na cultura e nas artes é, no mínimo, um
oxímoro.
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Wednesday, 7 August 2019
Saturday, 13 January 2018
O que o Maria Matos significa para mim (ou: porque é que assinei o abaixo assinado)
No dia 17 de Dezembro de 2017, o jornal Público
publicava uma entrevista da Vereadora da Cultura de Lisboa, Catarina Vaz Pinto, onde se anunciava que “o [Teatro] Maria Matos (MM) terá um
modelo de programação bastante diferente, com carreiras mais longas e uma maior
preocupação de captação de público, para ser rentável”. A notícia foi, no mínimo,
surpreendente para mim. Diria mais, lembro-me que, ao ler, senti uma espécie de
dor física.
Saturday, 17 June 2017
O que está a acontecer ao Museu dos Transportes e Comunicações?
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| Museu dos Transportes e Comunicações, exposição "O Automóvel no Espaço e no Tempo", 2015 (Foto: Maria Vlachou) |
Esta semana, estive no Museu dos Transportes e Comunicações
no Porto para um workshop na pré-conferência do ECSITE (a rede europeia de
centros e museus de ciência). Gosto de regressar ao espaço da Alfândega, tenho
boas memórias, como visitante e como profissional. Há dois anos, tinha lá
estado numa conferência da Associação Internacional de Museus de Transportes e
Comunicações, que muito me marcou, e aproveitei para revisitar a exposição do automóvel
(“O Automóvel no Espaço e no Tempo”) e para conhecer a exposição “Comunicar”.
Sunday, 4 June 2017
Ressonâncias
É sempre um prazer e uma inspiração ler os posts de Nina
Simon. Mas os que eu sempre gostei mais foram aqueles em que Nina partilha as suas
aprendizagens pelo facto de ocupar um lugar de responsabilidade, como Year One as a Museum
Director… Survived! ou o mais recente Why We Moved the Abbott Square Opening - A Mistake, a Tough Call and a Pivot.
Estamos todos muito habituados a directores de museus - ou
outras pessoas que ocupam lugares com responsabilidade de liderança no nosso sector
- disponíveis para falar de finais felizes. Raramente do processo, nunca das
falhas. Mesmo quando se sentem forçados a comentar sobre acções e situações que
recebem críticas negativas, parece haver sempre uma forma de dar a volta, encontrar
justificações, focar detalhes irrelevantes, oferecer verdades alternativas.
Qualquer coisa que possa desviar a nossa atenção do que deve ser essencialmente
discutido. Qualquer coisa excepto um claro "É verdade, errámos, estamos
disponíveis para falar sobre isso."
Wednesday, 22 June 2016
Reflexões governamentais sobre o acesso à cultura
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| "MAPA - O jogo da cartografia", um espectáculo da associação A PELE (imagem retirada do website do Teatro Nacional D. Maria II) |
O Culture White Paper (publicado pelo Departamento de Cultura, Media e Desporto em Março 2016) define
a forma como o governo britânico vai apoiar o sector cultural nos próximos
anos. É o primeiro documento deste tipo em 50 anos e o segundo alguma vez
publicado no Reino Unido.
O documento abre citando o primeiro-ministro britânico,
David Cameron, que afirma: "Se acreditam no financiamento público da arte
e da cultura, como eu apaixonadamente acredito, então devem também acreditar na
igualdade de acesso, atraindo todos e acolhendo todos."
Saturday, 7 May 2016
E então?
"E então?" Uma pergunta / reacção bastante
frequente no que diz respeito ao nosso sector, quer verbalmente expressa ou
secretamente pensada. É uma pergunta legítima, que raramente estamos disponíveis
para discutir.
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| Rembrandt Harmenszoon van Rijn, "Retrato de Marten Soolmans" e "Retrato de Oopjen Coppit" (imagem retirada do jornal Telerama) |
Quando li pela primeira vez a notícia sobre a aquisição conjunta por parte do Louvre e do Rijksmuseum das obras de
Rembrandt Retrato de Marten Soolmans e
Retrato de Oopjen Coppit, por €160
milhões, não pensei propriamente "E então?", mas sim "Porquê?".
Porquê estes dois quadros? Porquê todo esse dinheiro? Quando procurei entender
um pouco melhor a importância dessas duas obras (qualquer que fosse a sua
importância, dentro do contexto da história da arte ou qualquer outra), fui
mais frequentemente confrontada com o adjectivo "raro". Os retratos
são "raros", a sua exposição em público foi extremamente "rara”,
etc. etc. Isto levantou ainda mais perguntas: Raros como? Porque é que devem
ser vistos com mais frequência? Porque é que esses dois museus públicos fizeram
um esforço tão grande (financeiro e colaborativo) para os adquirir?
Sunday, 31 January 2016
Pavões, avestruzes e a terceira via
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| Anne Pasternak, Directora do Brooklyn Museum (Foto de Erin Baiano para o New York Times) |
Há umas semanas,
li uma notícia sobre seis curadores do Canadian Museum of History que manifestaram
preocupações éticas em relação à compra de objectos recuperados do naufrágio do
Empress of Ireland. Estas preocupações incluíam a maneira como tinham sido
recolhidos os objectos e o facto do museu ter pago para adquirir artefactos de
um sítio arqueológico. Não só as suas objecções foram descartadas, como o museu
contratou um advogado e ameaçou-os com uma acção legal, caso partilhassem as
suas preocupações com outras pessoas. De acordo com o Presidente e CEO do
Museu, Mark O'Neill, "É normal haver discussões internas como esta, e,
francamente, torná-las públicas não é." (ler mais). Esta afirmação fez-me pensar quais seriam os temas ‘apropriados’ para serem
discutidos em público e porque é que as condições de aquisição de objectos para
as colecções do museu não seria um deles.
Monday, 30 November 2015
O museu é uma pessoa: alguns pensamentos pós-NEMO
Como podemos envolver-nos mais? Como podemos tomar uma
posição? Não estaríamos a alienar algumas pessoas se classificarem o museu como
"de esquerda" ou "de direita", como fazem com os jornais?
Até onde podemos ir? Quais são os limites? Estas são algumas das perguntas que tive
a oportunidade de discutir com os colegas que estiveram na conferência anual da
NEMO – Network of European Museums Organizations, no seguimento da minha comuicação
Are we failing?
Monday, 19 October 2015
As armadilhas
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| Museu dos Coches, Lisboa (imagem retirada de Boas Notícias) |
No mês passado, foi noticiado por vários jornais que nos quatro primeiros meses do novo Museu dos Coches houve uma série de acidentes devido a deficiências no projecto arquitectónico. ‘Deficiências' no sentido de terem sido adoptadas soluções (ou, se preferem, de terem sido criados elementos arquitectónicos) que se tornam armadilhas para os utilizadores do espaço (sim, eles existem).
Friday, 26 June 2015
A mensagem, a linguagem, as opções
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| Paula Sá Nogueira no programa Inferno. |
Mais uma vez, a discussão que se gerou após o anúncio da
atribuição dos apoios da Direcção-Geral das Artes (DgArtes) fez-me pensar sobre
a forma como este sector comunica com o público, com os cidadãos e
contribuintes. Há uma questão maior, claro, a dos apoios em si: do sistema de
candidaturas, da avaliação das propostas, do acompanhamento das estruturas, do
propósito e da duração dos apoios. Mas hoje, aqui, a minha reflexão centra-se
na comunicação.
Monday, 16 March 2015
O que é que temos a ver com isso? (ii)
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| Field Museum, Chicago (fotógrafo desconhecido) |
Em Dezembro passado, houve um intenso debate entre os
profissionais de museus nos EUA a respeito do papel dos museus na sequência da
morte de negros pela da polícia em Ferguson, Cleveland e Nova Iorque. Os nossos
colegas norte-americanos sentiram fortemente que os museus fazem parte da rede
cultural e educacional que trabalha no sentido de uma maior compreensão
cultural e racial. Será que eles se referiam especificamente aos museus com
colecções afro-americanas? Ou a museus situados nas comunidades onde os eventos
ocorreram? Não, não se referiam apenas a estes. "Como mediadores
culturais, todos os museus devem procurar identificar formas criar ligações com
relevantes questões contemporâneas, independentemente da sua colecção, enfoque
ou missão." (ler a declaração na íntegra)
Na altura, concordei com a posição mais cautelosa de Rebecca Herz. Acho arriscado incentivar um museu (ou qualquer outra instituição) a agir
independentemente da sua missão, mas, como Rebecca referiu: "Eu
pessoalmente acredito que os museus devem alinhar todas as suas acções com a
sua missão, que deve estar relacionada com a colecção ou o enfoque. E acho que
se pode encontrar uma ligação entre qualquer colecção e a vida contemporânea,
mas que estas ligações devem ser cuidadosamente consideradas e desenvolvidas.
" (ler post)
Enquanto estava a seguir esta discussão muito interessante
que ocorria no outro lado do Atlântico, no dia 15 de Dezembro, um refugiado
iraniano invadia um café em Sydney fazendo reféns. Dezasseis horas depois, a
polícia interveio, matando o atacante, assim como dois dos reféns. Temendo
represálias contra os membros da comunidade muçulmana que usavam o traje
islâmico, os habitantes de Sydney ofereceram-se para acompanhar nos transportes
públicos os seus vizinhos muçulmanos que se sentiam inseguros. Soube disto no
início da manhã de 16 de Dezembro, através da página de Facebook do Immigration
Museum. O museu partilhou a notícia do Guardian e juntou-se ao resto dos
australianos, numa tomada de posição contra o preconceito e a violência.
Tomar posição não é algo simples, especialmente para uma
instituição (por oposição a um indivíduo). Não é uma decisão que pode ou deve
ser tomada apressadamente, uma reacção ao momento. Deve ser um acto
"natural", o resultado de uma política consciente, estruturada e
sustentada de intervenção cívica / política, de acordo com a missão da
instituição. É também uma grande responsabilidade.
No mês passado, três jovens muçulmanos foram assassinados na
sua casa na Carolina do Norte, EUA. Numa altura em que os jornais noticiavam
que os motivos do atacante ainda não eram conhecidos, o Arab American National
Museum partilhava na sua página no Facebook a sua tristeza pela perda dos três
jovens, insinuando que este tinha sido um crime racial. Pensei que era muito
cedo, que o museu estava a tirar ilações, o que não me pareceu ser nem
responsável nem útil. Perguntei ao museu se fazia uma declaração como aquela para
cada assassinato nos EUA. Outras pessoas (não o museu) responderam que as
vítimas eram americanos-árabes, de modo que o museu fazia bem em reagir.
Reformulei a pergunta e questionei se o museu fazia uma declaração para cada
americano-árabe assassinado, se assumia que o assassinato de qualquer
americano-árabe era um crime racial. Acho que os museus não devem atirar-se e
fazer declarações antes do tempo.
Mais recentemente, em Portugal, o Museu Nacional de Arte
Antiga publicou uma declaração sobre a destruição de tesouros arqueológicos do
Museu de Mosul por militantes do ISIS. Foi uma boa surpresa, uma vez que este
museu, como a maioria dos museus portugueses, não costuma tomar posições
publicamente. Alguém poderia argumentar que isso não foi exactamente uma
declaração política e que se tratava de uma assunto algo "seguro"
para o museu; pode ser. Veio também num momento em que os especialistas ainda
estavam a tentar perceber se os objectos destruídos eram os originais ou
cópias; talvez por isso, pareceu uma reacção um pouco precipitada. Estou mais
interessada, no entanto, em perceber se essa foi uma acção pontual ou o
primeiro acto de uma política concreta e a longo prazo de reconhecer e assumir
as responsabilidades civis-políticas-culturais do museu. Seria óptimo se assim
fosse, o tempo o dirá.
Mais neste blog
Monday, 2 March 2015
O que é que temos a ver com isso?
Nos últimos 2-3 anos, tem sido um prazer ver a forma como os
museus têm assinalado o Dia de São Valentim nas suas páginas no Facebook. Desde
objectos nas suas colecções, a elementos arquitectónicos e flores nos seus
jardins, eles já me fizeram sorrir, rir às gargalhadas, olhar melhor, aprender algo novo. De
uma forma simples, imaginativa, bem-humorada, e à distância, algumas
instituições culturais têm marcado no meu calendário um dia que eu, de resto,
acho algo desinteressante.
Nem todas as instituições culturais assinalam esse dia.
Algumas podem estar a pensar que isso não é uma coisa séria, que é algo
frívola, comercial, não se relaciona directamente com a sua exposição ou peça
de teatro ou programa de concerto. Relaciona-se com uma outra coisa, porém: a vida.
Quando o furacão Sandy atingiu Nova Iorque em 2012, o
director do MoMA PS1 publicou isto na página de Facebook do museu:
Como é que isso se relaciona com o seu museu? Com a
exposição temporária? Não se relaciona. Relaciona-se com uma outra coisa, porém: a vida.
Em 2014, o ano do Mundial no Brasil, algumas instituições
culturais apresentaram exposições, organizaram eventos, fizeram várias
referências ao futebol. Algumas podem ter tido a esperança de atrair seguidores
entre os fãs de futebol. Outras podem simplesmente ter pensado: isto também é a
vida, vamos celebrá-la!
O ataque ao Charlie Hebdo fez-me mais uma vez pensar no
papel que as instituições culturais têm na sociedade e na capacidade que têm de
se relacionar com ela. E também para colocar a sua teoria em prática. A teoria
diz que a cultura ajuda-nos a sermos humanos, tolerantes para com o
"Outro", a vivermos juntos, a aprendermos uns com os outros, a
partilharmos e a defendermos valores, a pensar de forma crítica. Quando o
sector cultural está sob "ataque", usamos estes mesmos argumentos para o defender
e para defender a importância do que fazemos. Para a sociedade. Mas quando essa
mesma sociedade ri, chora, apaixona-se, desespera, comemora, está de luto...
levamos algum tempo (muito tempo, mesmo) para considerar se é apropriado para
nós reconhecê-lo, relacionarmo-nos. Não poucas vezes, permanecemos calados.
Assim, na manhã seguinte ao ataque ao Charlie Hebdo,
expressei a minha consternação com o facto de nenhuma instituição cultural
grega ou portuguesa (entre aquelas que sigo no Facebook e no Twitter) ter reagido à tragédia. Uma tragédia relacionada
directamente com tudo o que a cultura defende. Segundos depois de eu ter
publicado o meu post, o Centro Cultural Onassis publicava o deles. Mais tarde,
o Museu Benaki. Alívio... Depois disso, alguns colegas avisaram-me de atitudes
semelhantes da parte do Museu Nacional da Imprensa ou do Museu Bordalo
Pinheiro. Seguiram-se mais algumas instituições culturais. No dia 9 de Janeiro,
o Museu Arqueológico do Carmo convidava-nos para um debate com cartoonistas e
académicos. Alívio... Ainda assim, não tenho conhecimento de alguma das grandes
instituições culturais (nacionais) portuguesas ter reagido aos acontecimentos.
Um amigo escreveu-me naquela altura e perguntou: "Mas
quais as instituições culturais que tu queres que reajam? Todas elas? As que,
de alguma forma, se relacionam com o que aconteceu? (que seria, por exemplo, o
Museo de la Memoria e de los Derechos Humanos no Chile ou o Museu Nacional da
Imprensa em Portugal, é isso?). As instituições culturais francesas?". Não quero parecer ingénua, mas teria gostado de ver reagir
todas as instituições culturais que dizem querer ter um papel na criação de uma
sociedade melhor; que dizem pretender abraçar e promover determinados valores;
que dizem querer ser relevantes para as pessoas; que dizem querer ser parte da
sociedade e ajudar a formar cidadãos responsáveis e críticos.
Gostaria de esclarecer aqui que por "reacção" não quero
dizer uma resposta precipitada a um incidente ou uma associação superficial a
uma celebração, sem ter em conta o que a instituição representa e com a
intenção de usá-la para relações públicas baratas ou simplesmente para não "ficar de fora". As pessoas sabem distinguir o oportunismo e não o apreciam...
Por "reacção" quero dizer uma resposta pensada, responsável, honesta
e coerente de uma instituição cultural que tem clara a sua missão e o papel que
pretende desempenhar na vida das pessoas. E isso não envolve apenas de programação
ou actividades educativas. É preciso estar permanentemente ciente do que está a acontecer à nossa volta e da forma como afecta a
vida das pessoas, para que, como resultado de uma política definida e coerente de intervenção, a instituição possa dar prontamente o seu contributo para o
tipo de mundo que pretende ajudar a construir.
O que é relevante e o que não é relevante para uma
instituição cultural? Bem, provavelmente não é esta a questão. A questão é: o
que torna uma instituição cultural relevante? Recentemente, dei um curso onde
discutimos o lugar e o papel das instituições culturais na sociedade
contemporânea. Na última parte da sessão, fizemos um exercício prático:
Por favor, considere:
- O ataque Charlie Hebdo
- O dia de São Valentim
- O desastre natural na Madeira em 2010
- A grande manifestação anti-austeridade a 15 de Setembro de
2013 em Portugal
A sua instituição reagiria?
Se sim, como?
Se não, por que não?
Anyone?
Mais leituras
Rebecca
Herz, What is an ethical museum?
Gretchen Jennings, We can’t outsource empathy, Part II: Qualities of the empathetic museum
Ed Rodley, Museums and social change
Monday, 19 January 2015
Da lealdade
Soube recentemente da
Chefe de um Serviço Regional de Antiguidades na Grécia, cujo trabalho foi
positivamente avaliado por muitos dos seus colegas e membros do público, mas
que foi ameaçada com processos disciplinares e mais tarde foi ainda transferida,
algo que foi visto como uma espécie de "punição" discreta. Porque é
que se tornou em “persona non grata”? Talvez porque, tendo repetidamente
informado os seus superiores da vigilância inadequada de um dos sítios
arqueológicos mais importantes da sua região, que se tornou realmente num pasto
para rebanhos de ovelhas e cabras, e, não tendo recebido nenhuma resposta,
informou o público em geral da situação e disponibilizou fotografias do sítio.
Talvez porque, tendo também repetidamente informado os seus superiores da falta
de vigilantes num determinado museu, alertando para a possibilidade de
encerramento a partir de uma determinada data se nenhuma solução fosse
encontrada, e tendo os seus relatórios sido recebidos com silêncio, avançou e
fechou o museu, pedindo desculpa ao público e dando a conhecer as razões do
encerramento.
Acredito que esta é
precisamente a atitude que devemos esperar de uma pessoa que tem a
responsabilidade de gerir uma instituição pública (e, neste caso, cultural):
esforçar-se para uma gestão adequada; adoptar medidas necessárias,
responsáveis, a fim de salvaguardar o que é um bem comum, público; manter os
seus superiores informados sobre quaisquer questões que possam pôr em causa o
bom funcionamento da instituição e impedi-la de cumprir a sua missão; e, quando
necessário, partilhar essa responsabilidade, informando todas as partes
interessadas, incluindo o público em geral, os cidadãos.
Não fiquei
surpreendida, porém, ao saber das ameaças de processos disciplinares contra essa pessoa. O
que, de facto, se espera dos gestores de instituições públicas - e isso não é
apenas o caso da Grécia - é mostrarem-se leais aos seus superiores e à tutela.
O que se entende por 'leal', no entanto, é abraçar todas e quaisquer decisões e
práticas que vêm de cima e, em caso de desacordo, não as questionar em público
ou, então, manter a discussão dentro da ‘família’, onde pode ser facilmente
ignorada. Uma partilha mais ampla, com a sociedade, raramente é tolerada e o
‘castigo’ é visto por todos nós, mesmo que não se concorde, como algo esperado,
inevitável, natural de acontecer. Não apoiamos os nossos colegas, não
questionamos abertamente o castigo, não nos juntamos a eles, para nos
tornarmos, juntos, mais fortes. Assim, somos hoje todos testemunhas de uma
gestão das instituições culturais públicas que revela pouca transparência, onde
os planos e acções não são discutidos, onde o diálogo público não é incentivado
e onde os próprios profissionais do sector se mantém em silêncio ou criticam de
forma muito cautelosa e discreta. Neste contexto, de medo e de auto-censura,
não é fácil ser-se crítico, muito menos quando se age sozinho. Não é fácil nem
é muito eficaz.
Quando se vive numa
sociedade democrática, deve-se esperar que a lealdade dos gestores de serviços
públicos esteja em primeiro lugar e acima de tudo com o seu serviço e com os
cidadãos. Eles têm a obrigação de contestar ou opor-se a qualquer decisão ou
omissão que ponha em causa esse serviço. Quando necessário, têm a obrigação de
partilhar a informação e de ajudar a moldar a opinião pública sobre assuntos
que são do interesse público. No Reino Unido, existe o Conselho de Directores de Museus Nacionais, que representa os
directores das colecções nacionais do país e os principais museus regionais. O
Conselho actua em prol dos seus membros; representa-os perante o governo e
outras entidades; é pró-activo na definição e execução da agenda política dos
museus; é um fórum onde os seus membros podem discutir questões de interesse
comum. Embora esses membros sejam museus nacionais – ou seja, financiados pelo
Estado -, o Conselho é uma organização independente. Como é que conseguem fazer isso? Teremos algo a aprender com eles?
Recentemente, David Fleming, Director dos National Museums Liverpool, partilhou no Twitter o desejo que os museus possam encontrar a sua voz em 2015 e alertar o público em relação ao impacto da austeridade sobre o que os museus são capazes hoje de fazer comparando com o passado. Fiquei a pensar: o que é que a sociedade grega ou portuguesa sabe, realmente, da situação vivida por várias instituições culturais públicas? Da falta de dinheiro para a realização de tarefas básicas e essenciais, do “multitasking”, das horas extraordinárias (não pagas), do trabalho aos fins-de-semana, para que o barco possa continuar a andar? E estarão interessadas em saber? Consideram essas instituições como suas? Faria alguma diferença se fechassem amanhã?
Recentemente, David Fleming, Director dos National Museums Liverpool, partilhou no Twitter o desejo que os museus possam encontrar a sua voz em 2015 e alertar o público em relação ao impacto da austeridade sobre o que os museus são capazes hoje de fazer comparando com o passado. Fiquei a pensar: o que é que a sociedade grega ou portuguesa sabe, realmente, da situação vivida por várias instituições culturais públicas? Da falta de dinheiro para a realização de tarefas básicas e essenciais, do “multitasking”, das horas extraordinárias (não pagas), do trabalho aos fins-de-semana, para que o barco possa continuar a andar? E estarão interessadas em saber? Consideram essas instituições como suas? Faria alguma diferença se fechassem amanhã?
Qual é o nosso papel,
como profissionais, neste contexto? Podemos esperar que os cidadãos sejam
críticos e exigentes, se os próprios profissionais do sector não o são
abertamente? De que forma ajudamos a formar cidadãos esclarecidos e
responsáveis? Há democracia sem pensamento crítico e diálogo público? De que
forma defendemos a transparência, a meritocracia, a honestidade intelectual?
Onde está o nosso fórum público? Com quem está a nossa lealdade e porquê?
Mais neste blog:
Monday, 15 December 2014
A dimensão educativa
Em Outubro passado, durante o intervalo da apresentação do
“Requiem” de Brahms pela Saint Louis Symphony, vinte e três manifestantes
sentados em várias partes do auditório levantaram-se e cantaram "Requiem
para Mike Brown" (o jovem negro desarmado que foi baleado por um polícia
em Ferguson). Algumas pessoas ficaram chocadas, outras aplaudiram, o mesmo
aconteceu com os músicos no palco. Ninguém interrompeu os manifestantes,
ninguém chamou a polícia. Talvez porque o que aconteceu fez sentido, naquele
lugar, naquele tempo, naquele contexto específico. Sendo que a música era parte
integrante dos protesto em Ferguson, esta, de acordo com um dos organizadores,
foi uma tentativa de "falar com um segmento da população que tem o luxo de
estar confortável. Temos que fazer uma escolha de apenas ficarmos na nossa zona
de conforto ou falarmos de algo que é importante. Não está certo simplesmente
ignorá-lo" (leia o artigo completo).
As recentes mortes de negros pela polícia em diferentes cidades dos Estados Unidos provocaram uma intensa reflexão entre as instituições culturais no país sobre o seu papel. Num recente comunicado de bloggers de museus e de outros profissionais da cultura em relação a Ferguson e outros eventos relacionados, lê-se:
"Os recentes acontecimentos, desde Ferguson a Cleveland
e Nova Iorque, criaram um momento de transição. As coisas precisam de mudar.
Novas leis e políticas irão ajudar, mas qualquer movimento em direcção a uma
maior compreensão e comunicação cultural e racial deve ser apoiado pela
infra-estrutura cultural e educativa do nosso país. Os museus fazem parte desta
rede educativa e cultural. Qual deve ser o nosso papel (papéis)? (...) Onde é
que os museus se encaixam? Alguns poderiam dizer que só os museus com colecções
específicas afro-americanas têm um papel, ou talvez apenas museus situados nas
comunidades onde estes eventos ocorreram. Como mediadores culturais, todos os
museus devem comprometer-se em identificar de que forma podem relacionar-se com
questões contemporâneas relevantes, independentemente da sua colecção, foco ou
missão. (...) Até agora, apenas a Association of African
American Museums emitiu uma declaração formal sobre as questões mais
amplas relacionadas com Ferguson, Cleveland e Staten Island. Acreditamos que o
silêncio de outros museus envia uma mensagem de que estas questões são uma
preocupação apenas para os afro-americanos e os museus afro-americanos. Sabemos
que este não é o caso."
Em Agosto passado, uma séria controvérsia envolveu a decisão
do Tricycle Theatre de não receber o UK Jewish Film Festival, pela primeira vez
em oito anos. O motivo foi que o festival tinha o apoio da Embaixada de Israel
em Londres e, dado que naquele momento estava em desenvolvimento a ofensiva em
Gaza, o Conselho Consultivo considerou que “não seria apropriado aceitar o
apoio financeiro de qualquer agência governamental envolvida". O Teatro
ofereceu-se para fornecer financiamento alternativo, mas o Festival não aceitou
(leia o artigo completo). O conflito em Gaza foi também a razão pela qual artistas participantes na
Bienal de São Paulo este ano apelaram aos organizadores (apoiados
posteriormente pelos curadores da Bienal) para devolver o financiamento do
Consulado Israelita. As negociações mais tarde resultaram na remoção do
logótipo do Consulado dos principais patrocinadores e na sua associação apenas
aos artistas israelitas que receberam este apoio financeiro específico (leia o
relatório completo).
Podemos
concordar ou discordar com as decisões tomadas por estas organizações. Mas o
questionamento em relação ao papel das instituições culturais na sociedade de
hoje, especialmente o seu papel educativo, deve ser permanente, constante. Tal
como Rebecca Herz, acredito que estas não devem agir independentemente da sua
missão (como é sugerido no acima referido comunicado dos bloggers de museus
norte-americanos), mas qualquer colecção de museu ou temporada de teatro /
orquestra / festival pode ter uma ligação à vida contemporânea e ajudar a
moldar o tipo de sociedade que precisamos ou sonhamos. Como o trabalho de
muitos artistas contemporâneos é uma resposta a assuntos da vida contemporânea, é comum
encontrarmos este género de ligações, assim como uma fértil reflexão à volta deles, na programação de teatros, companhias e galerias (o
Teatro Maria Matos, o Programa Gulbenkian Próximo Futuro ou o alkantara festival são os
primeiros que me ocorrem entre as entidades cuja programação acompanho em Portugal, mas há outros). Os museus ou as orquestras que apresentam obras que não são contemporâneas não estão muito
habituados a procurar ligações entre as suas colecções ou concertos e a vida
contemporânea ou, se o fazem, não se torna perceptível para mim. Muitas vezes
pergunto-me “Qual o propósito desta exposição ou deste concerto?”, “Porque é relevante?”, “Como é
que isto se relaciona com a sociedade portuguesa contemporânea e com a sua
diversidade?” (penso mais uma vez no trabalho inspirador da Orchestra of the Age of the Enlightenment...)
Isto leva-me mais uma vez para uma questão recorrente neste
blog: “accountability” e responsabilidade. Não vejo as instituições culturais
como ilhas, distantes do que está a acontecer no seu redor. Acredito que devem
tornar claro para as pessoas de que forma o que têm a dizer ou mostrar pode ser
relevante para elas; devem partilhar publicamente a sua visão e objectivos e
assumir a responsabilidade pelo seu cumprimento; devem ser um fórum público,
onde as pessoas podem encontrar conforto, mas também o desconforto necessário.
Têm claramente um papel educativo (no sentido de fornecer o que os gregos
antigos chamavam "paideia"), um papel que eu não faria
necessariamente depender do que acontece (ou não acontece) na escola ou em casa
e um papel que não depende, em primeiro lugar, do serviço educativo, mas sim,
do/a director/a.
Dois directores de museus e um curador estarão connosco na
próxima terça-feira, 16 de Dezembro, na conferência da Fundação Gulbenkian
"Que lugares para a educação? A dimensão educativa de instituições
culturais" (mais informações). Charles Esche
(Director do Van Abbemuseum e um dos curadores da Bienal de São Paulo deste
ano), David Fleming (Director dos National Museums Liverpool e Presidente da
Federação Internacional de Museus de Direitos Humanos) e Delfim Sardo (Curador,
Professor Universitário e Ensaísta) irão desafiar-nos a pensar sobre as nossas
responsabilidades e práticas no actual contexto social e político.
Nota: Para
quem não puder estar em Lisboa, a conferência será transmitida em livestreaming. Há uma série de
artigos, posts, textos de opinião e entrevistas na página da conferência (em
“Oradores”, “+Reflexão” e “+Info”).
Mais leituras:
Jean-François Chougnet, Le MuCEM ne doit pas devenir un musée pour touristes
Laura C. Mallonee, A scramble to save protest art, from Ferguson to Hong Kong
Maddy Costa, Can a relationship with theatre change people’s relationship to society?
Maddy Costa, Can a relationship with theatre change people’s relationship to society?
Sunny
Hundal and Nock Cohen, Was the Tricycle Theatre right to ask the UK Jewish Film Festival to ‘reconsider’ its funding?
Mais neste blog:
Monday, 1 December 2014
Uma apologia da crítica
O pensamento crítico é uma função mental e emocional em que alguém - com base nos seus conhecimentos e a informação disponível - decide o que pensar ou fazer em relação a uma situação específica. O resultado é uma opinião fundamentada. É subjectiva. Pode ser positiva ou negativa. Deve ser intelectualmente honesta.
Há uma tendência de associar aspectos exclusivamente negativos à palavra "crítica" e encará-la como um ataque. É por isso que muitas vezes uma crítica provoca reacções como "criticar é fácil ..."; ou um precipitado esclarecimento por parte do ‘atacante’, como "por favor, não aceite isso como uma crítica"; ou até mesmo a necessidade de declarar que o 'atacante' não tem nada pessoal contra o 'alvo' do seu ataque.
Há duas semanas, reagi – de forma crítica - à entrevista do director de um museu nacional e, especificamente, a uma afirmação a respeito de uma questão que é de extrema importância para mim na nossa profissão. Isto significa que, com base nos meus conhecimentos e nas informações disponíveis, eu decidi o que pensar dessa afirmação e partilhei a minha opinião. Outras pessoas reagiram à minha crítica, concordando ou discordando ou adicionando outros aspectos no processo de pensamento crítico. Num determinado momento, no entanto, uma colega interveio dizendo: "Não se fala mal dos colegas no Facebook.." Desde aí, este comentário tem ocupado o meu pensamento.
Na minha opinião, há uma diferença distinta entre falar mal e criticar. Falar mal só pode ser negativo e há nisso algo muito pessoal, algo muito sentimental, algo que acaba por neutralizar a força dos argumentos e afectar seriamente a credibilidade do crítico. Falar mal não é construtivo, pode ser temporariamente "terapêutico" para quem o faz, mas é ineficaz.
A crítica é algo diferente. A crítica é o desejo de estar ciente e atento, de dar aos nossos conhecimentos bom uso, de contribuir para algo melhor (por meio de apreciações positivas ou negativas) e também de assumir responsabilidade. A crítica não é fácil.
O pensamento crítico é muito pouco partilhado em público, com a excepção, talvez, do que está relacionado com o governo e os políticos em geral - o que me faz pensar que talvez não nos sintamos responsáveis pela vida política deste país, e assim, o criticar (ou o falar mal) torna-se fácil... Em relação ao resto, e especificamente no sector cultural, a crítica e o debate público sobre decisões, posições, projectos são bastante limitados. Os profissionais da área podem estar a sentir que tudo isto os ultrapassa e este sentimento de impotência faz qualquer intervenção parecer escusada. Outros podem não gostar da exposição que a crítica pública traz, preocupados com relações pessoais / profissionais que tendem confundir-se nessas situações. Outros ainda podem não gostar de assumir a responsabilidade de criticar publicamente. Assim, como a crítica é vista como algo negativo, como um ataque, é melhor ser mantida à porta fechada, "em família", ou, melhor ainda, não ser expressa. Algumas pessoas consideram que isto não deveria acontecer nas redes sociais. (Não consigo deixar de lembrar que, há uns dois anos, quando escrevi positivamente a propósito de uma entrevista desse mesmo director de museu, ninguém me disse que não deveria fazê-lo no Facebook. Suponho que não foi considerado crítica).
Invejo os bloggers culturais nos EUA e no Reino Unido, em especial, que contribuem para o debate aberto e a crítica de todos os assuntos importantes, mantendo o diálogo vivo, a sua voz ouvida e o público interessado informado. Eles são demasiado inteligentes para cair na armadilha do ‘falar mal’. Este é um acto de responsabilidade. Este deve ser um acto esperado numa democracia. Todos os assuntos importantes devem ser discutidos abertamente, os aspectos positivos e negativos devem ser amplamente debatidos, a responsabilidade deve ser assumida. O rumo de todas as instituições culturais públicas é um assunto que diz respeito a todos, a começar pelos profissionais da área.
O que me leva a um outro ponto: a crítica está associada à “accountability”. Quando Nina Simon completou o seu primeiro ano como directora do Santa Cruz Museum of Art and History, ela escreveu o post Primeiro ano como directora de museu... Sobrevivi!. Tanto a “accountability” como a crítica resultam de um profundo sentido de responsabilidade e o texto de Nina é um perfeito exemplo do que gostaria que acontecesse aqui. Mas não acontece. Num país onde não é esperado que os que ocupam cargos públicos sejam “accountable” - ou seja, definam claramente os seus objectivos, expliquem regularmente o que estão a fazer, como, porquê e se são bem sucedidos – a crítica pode, realmente, fazer menos sentido e nós entramos num ciclo vicioso. Um ciclo onde poucas opiniões fundamentadas são ouvidas publicamente e têm pouco impacto; onde as coisas acontecem de qualquer maneira e apesar de tudo; e onde o sucesso é declarado... apesar de tudo. Até consideramos normal que alguém que ocupa um cargo público esteja a defender o indefensável, possa não estar a dar uma opinião honesta, por dever aos seus superiores. Um ciclo vicioso, um jogo, onde sacrificamos a nossa honestidade intelectual. Com que benefício? E com que custo?
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Monday, 3 November 2014
Será a Giselle uma curadora?
| Giselle Ciulla, Clark Art Institute (imagem retirada do website) |
Serão
todas as pessoas que se sentem fascinadas com a medicina, que seguem as
notícias, que ficam maravilhadas com os avanços registados e que os
compartilham com outras pessoas, "médicos"?
Será uma pessoa deslumbrada com as estrelas, que lê sobre
elas, que tem um telescópio e que faz observações, um "astrónomo"?
Serão todas as pessoas que gostam de arte, que já têm algumas
peças favoritas e que desejam partilhar e discutir os sentimentos e as ideias
que estas obras lhes suscitam, "curadores"?
O que distingue um amador de um profissional e uma pessoa
interessada de um amador? Esta não é propriamente uma questão original, mas o
contexto em que os museus operam hoje em dia coloca-a novamente em cima da
mesa.
Quando li pela primeira vez sobre o projecto uCurate do Clark
Art Institut em Williamstown, EUA, fiquei muito entusiasmada com a ideia.
Escrevi na altura que este é também o
papel dos museus na sociedade, um papel que permite o envolvimento, a
participação activa, que reconhece que há mais do que uma versão da
"verdade" e que cria um lugar para estas serem partilhadas. Houve uma coisa, porém, que me fez sentir mais crítica: o facto da Giselle Ciulla,
uma menina de 11 anos cuja proposta ganhou o concurso de 2012, ser mencionada no site do Instituto como "curadora".
Será a Giselle uma curadora? Será que o facto de ela ser uma
jovem com interesses, ideias, necessidades, opiniões, que escolheu uma série de
obras do acervo do Instituto e fez delas uma exposição, a torna curadora? Ou
será que um curador é uma pessoa que – para além de ideias, necessidades e
sentimentos – tem o conhecimento técnico que pode ajudar a fazer das ideias e
das necessidades exposições interessantes, inspiradoras e relevantes, espaços
abertos para serem discutidas mais que uma verdades, com a ajuda hoje em dia de
pessoas que desejam ser envolvidas? A Wikipedia é um projecto colaborativo
impressionante, para o qual as pessoas podem contribuir e onde podem partilhar os seus
conhecimentos. Por trás das entradas, no entanto, há "curadores", que
garantem que a informação partilhada é precisa, caso contrário, o projecto
perderia a sua credibilidade. Que analogias poderíamos encontrar aqui com o
mundo dos museus e os seus projectos de “crowdsourcing”?
Num artigo
intitulado What is photography when everyone´s a photographer?, Joan Fontcberta é citado a dizer "Tirar uma
fotografia hoje é fácil e pouca atenção é dada ao ofício. Isto significa que a
qualidade da arte já não reside na fabricação, mas sim, na prescrição de
significado". Quem é responsável por prescrever um "sentido" nos
museus e por ajudar a cumprir as intenções? Ed Rodley afirma no seu post ’Outsourcing’ the curatorial impulse: “Se tivesse
que caracterizar a essência da curadoria hoje em dia, seria ‘criação de
sentido’”.
Longe de defender a figura do "omnisciente e
todo-poderoso curador" e sendo muito a favor de todas as iniciativas que
procuram envolver as pessoas interessadas no trabalho de museu (para que o que
neles se apresenta possa ser o resultado de uma ampla participação e dos
contributos de várias pessoas, e assim, mais relevante), não chegaria ao ponto
de não distinguir ou de confundir os papéis dos envolvidos.
Num artigo recente intitulado Everybody's an art curator, Elen Gamerman aponta algumas das principais questões na debate
actual: "A tendência está a provocar um crescente debate entre artistas,
curadores e outros profissionais do mundo da arte sobre tudo, desde onde traçar
a linha entre amadores e especialistas até o que constitui uma exposição
“crowdsourced”. Até onde podem ir museus em delegar opções ao público? Quão
firmemente devem controlar a votação sobre o conteúdo de uma exposição? E em
que momento é que um museu começa a parecer mais um centro comunitário?".
![]() |
| Actividades com a comunidade no Santa Cruz Museum of Art and History (imagem retirada do blog de Nina Simon, Museum 2.0) |
Boa pergunta ... Uma pessoa que frequenta o curso que estou
actualmente a dar sobre Comunicação em Museus, depois de ver a TED Talk de Nina
Simon Opening up the museum, perguntou: "O
museu [Santa Cruz Art and History
Museum, onde Nina Simon é a directora] integra os trabalhos feitos pelas pessoas que frequentam as suas oficinas
nas suas colecções?". E eu gostaria de acrescentar: "Se sim, ficam
com todos eles, com alguns, quais são os critérios?". Sou uma grande
admiradora de Nina Simon e da sua visão sobre museus participativos, mas não
devemos limitar a nossa avaliação do que ela está a tentar fazer a ganhos
financeiros e número de visitantes. Há muito mais que isso e a Nina está a
fazer aquilo que muitos outros directores de museu deveriam fazer: arrisca,
experimenta, avalia.
O contexto em que os museus funcionam hoje é específico, mas
toda esta situação não é propriamente nova. Acontece sempre que haja uma
mudança significativa no ambiente externo (social, político, tecnológico). Há
uma necessidade de repensar as coisas, planear de forma diferente, adaptar.
Penso que o ambiente actual exige museus que sejam tanto sobre o presente como
sobre o passado. Exige curadores que estejam preparados para trabalhar não
apenas para os seus pares, mas também para as pessoas "normais" que
desejam desfrutar o museu e que o vêem como parte das suas vidas e comunidades.
Sim, isso significa prestarmos atenção e sermos sensíveis às mudanças que estão
a acontecer. Sim, isso significa partilhar a autoridade e criar um espaço para diferentes
visões do mundo. Sim, isso significa experimentar e correr riscos. Sim, isso
significa desenvolver novos programas e capacidades. Não, isso não significa
que os museus devem tornar-se em algo diferente, algo que não são (de centros
comunitários a centros de saúde, serviços correctivos de jovens, etc.). Não,
isso não significa que todos somos curadores. Não, isso não significa que
possamos confundir projectos de “crowdsourcing” com projectos "dá-às-pessoas-o-que-elas-pedem".
Então, como fazer
isso? Penso que os museus e os profissionais que neles trabalham devem
centrar-se na sua posição competitiva. Devem concentrar-se no que os torna
especiais, diferentes de outras instituições. Devem capitalizar os seus pontos
fortes e desenvolver as capacidades necessárias para enfrentar e trabalhar com
novas realidades. O objectivo final é permanecer vivo e relevante. E para isso
é preciso também alguma atitude.
Ainda neste blog
Mais leituras
Elen Gamerman, Everybody´s an art curator
Ed Rodley, ’Outsourcing’ the curatorial impulseNina Simon, Where´s the community in the crowd
Maria Isabel Roque, Ser ou não ser museu. Eis a questão
Mike Murawski, The moon belongs to everyone: embracing a digital mindset in museums
Athina Lugez, What is photography when everyone’s a photographer?
Jasper Visser, The future of museums is about attitude (not technology) - (vídeo)
Nina Simon, Opening up the museum (vídeo)
Ed Rodley, ’Outsourcing’ the curatorial impulseNina Simon, Where´s the community in the crowd
Maria Isabel Roque, Ser ou não ser museu. Eis a questão
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Monday, 30 June 2014
"Ou...ou" ou simplesmente "e"?
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| Nicholas Penny, director da National Gallery (imagem retirada do Guardian) |
Os directores de dois museus de Londres anunciaram este mês
que irão deixar o seu lugar assim que forem nomeados os seus sucessores:
primeiro, Sandy Nairne da National Portrait Gallery e depois Nicholas Penny da
National Gallery. Dois directores considerados muito bem sucedidos.
Embora nem tenham especificado algum motivo profissional
especial para deixarem o cargo (pelo menos, a minha pesquisa no Google não
revelou algo neste sentido), o jornalista do Guardian Jonathan Jones pensa que
o motivo pode ser o aumento da pressão sobre os directores dos museus de
Londres devido a expectativas populistas, a suposição da parte dos meios de
comunicação de que todas as exposições devem ser um sucesso e uma crença
política que os museus devem não apenas apresentar colecções bem geridas, mas também fornecer entretenimento e educação a todos. E Jones afirma:
"(...) Será que estamos prestes a ver uma nova geração
tecnocrata de chefes de museus que baixam a cabeça, colocam as
relações públicas em primeiro lugar e fazem tudo o que podem para cumprir metas
definidas pelos políticos e pela imprensa? (...) Esse tipo de pressão não deixa
propriamente muito espaço para a experimentação. Os museus não podem ser apenas
máquinas de entretenimento. Devem ter um lado mais calmo, onde a arte vem em
primeiro lugar, as multidões em segundo e um lado académico que reverencia
alguém como Penny. Tudo isto parece ser o anúncio deprimente do final da
individualidade no mundo dos museus." (leiam o artigo)
Torna-se cada vez mais difícil para mim entender porque é
que os museus são ainda e constantemente confrontados com dicotomias: objectos
ou pessoas; estudiosos ou tecnocratas; quietude e reverência ou publicidade e
acessibilidade. Tem que ser assim? Não é possível encontrar um equilíbrio? Não
podem ser ‘E’?
Ao ler o livro “Civilizing the museum" de Elaine
Heumann Gurian há um par de anos, lembro-me de ter uma sensação de grande consolo
ao chegar ao capítulo "The importance of 'and'." Elaine comentava sobre o relatório da American Association of Museums Excellence and Equity (um relatório que em 1993 foi distribuído a todos os estudantes de museologia
no UCL, onde eu estudava). Lia-se:
"(...) Este relatório fez uma tentativa concertada para
aceitar as duas ideias principais propostas por facções dentro do sector –
equidade e excelência - como iguais e sem que uma delas fosse
prioritária." Mais adiante: "(...) para o sector dos museus ir para a
frente, é preciso mais do que trazer uma paz política, associando palavras.
Devemos acreditar no que escrevemos, ou seja, que organizações complexas devem
abraçar a coexistência de mais que uma missão principal." E ainda:
“Ocorreu-me que talvez toda a minha carreira tenha sido metaforicamente sobre o
'e' ".
Devemos acreditar no que escrevemos, este é um ponto. E,
provavelmente, o outro ponto é que devemos ir em frente e fazer aquilo sobre o
que escrevemos ou falamos. Porque não é impossível fazê-lo. Quem é a melhor
pessoa para o fazer? Pode ser apenas uma pessoa? Será que as equipas que
envolvem profissionais com diferentes sensibilidades conseguem atingir estes
múltiplos objectivos de uma forma mais equilibrada? Procuramos criar este tipo
de equipas? São todos ouvidos equitativamente?
"Publicidade e acessibilidade são tudo", escreve
Jonathan Jones num tom de crítica negativa no seu artigo. A publicidade pode
não ser tudo, mas a acessibilidade certamente é. Os museus são para qualquer
pessoa que possa estar interessada neles, mas nem todas as pessoas abordam os
seus conteúdos com o mesmo nível de conhecimento ou de interesse e com o mesmo
tipo de necessidades. É um trabalho difícil, de facto, mas, se os museus querem
cumprir a sua missão, têm que ter um lado mais calmo e um lado de celebração.
Têm que agradar àqueles que sabem e têm que encantar quem não sabe tanto ou
quem não sabe nada. Foi em 1853 que o naturalista britânico Edward Forbes
escreveu: "Os curadores podem ser prodígios do saber e ainda impróprios
para o seu lugar, se não sabem nada sobre pedagogia, se não estão preparados
para ensinar as pessoas que nada sabem." Essas pessoas são importantes
também. Essas pessoas talvez sejam ainda mais importantes.
Enquanto escrevo sobre estas dicotomias, surge-me mais
uma necessidade, como profissional, mas também como cidadã. Gostaria de ouvir a
opinião dos responsáveis pela gestão dos nossos museus (e organizações
culturais em geral) sobre estas questões. Gostaria de ouvir afirmações claras,
gostaria de sentir que há uma visão por trás delas. Gostaria de saber qual o
plano em que poderá incidir a minha crítica. Jonathan Jones está
preocupado com os tecnocratas que mantêm a cabeça em baixo, eu estou preocupada
com os directores (de museus, teatros, orquestras, bibliotecas) que se mantêm
silenciosos. Estive recentemente num debate onde alguém disse: "Felizmente,
eu nunca fui convidado para ocupar cargos de direcção e isso significa que fui
sempre livre de dizer o que penso." Felizmente? Isto não é profundamente
preocupante?
Não há dúvida de que há uma grande dificuldade em lidar
com gestores ou directores com opinião. Nesta nossa democracia, alguém que
assume um determinado cargo é suposto mostrar uma espécie de
"lealdade" que o/a impede de partilhar publicamente a sua opinião
(especialmente quando contrária às posições dos governos). Não estou a defender
que todos os problemas, todas as discordâncias, devam ser tratados em público.
No entanto, há assuntos que dizem respeito a todos nós. Quando o Estado nomeia certas pessoas para determinados cargos,
gostaria de saber o que se espera delas. Quando essas certas pessoas aceitam o
cargo, gostaria de saber o que pretendem fazer e qual será o plano para
alcançar os objectivos. E se elas sentem que não lhes são dadas as condições
para fazerem bem o seu trabalho ou se não sentem que estão à altura do que se espera delas, eu
gostaria de saber sobre isto também. Quando dois directores de museus (em
Londres ou em qualquer outro lugar) anunciam, num espaço de duas semanas um do
outro, que se vão embora, gostaria de perceber o porquê. Quando outros
directores de museus (em Londres ou em qualquer outro lugar), se mantêm no
cargo, apesar do estado das coisas, também gostaria de perceber o que é que os
faz ficar.
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