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Wednesday, 7 August 2019

Por nós e pelos nossos amigos

Da esquerda para a direita: o poeta Odysseas Elytis, o compositor Manos Hadjidakis, o encenador Karolos Koun, Theatro Technis 1957, ensaios de "O Círculo de Giz Caucasiano" de Bertolt Brecht © Manos Hadjudakis Archive


A notícia da demissão de Warren Kanders do Conselho Directivo do Whitney Museum deixou-me muito satisfeita. Depois de meses de protestos, o proprietário da Safariland (uma empresa que fabrica “produtos para a aplicação da lei" - noutras palavras, armas, incluindo o gás lacrimogéneo usado contra os imigrantes na fronteira dos EUA) foi forçado a sair, já que muitas pessoas sentiam que ganhar dinheiro com a produção de armas e depois investi-lo filantropicamente na cultura e nas artes é, no mínimo, um oxímoro.

Saturday, 22 June 2019

Primeiros pensamentos sobre o Plano Nacional das Artes



Houve dois momentos para uma primeira apreciação do Plano Nacional das Artes (PNA): a sua apresentação pública, no passado dia 18 de Junho e a leitura do documento. Começarei por partilhar os meus pensamentos sobre o primeiro.

Sessão esgotada nos estúdios Victor Córdon para ouvir a apresentação do PNA. Muitos colegas, jornalistas, pessoas que representavam instituições privadas que apoiam o sector cultural e as artes. Sentia-se a boa disposição e a expectativa, misturada com alguma desconfiança (“Será desta?). Penso que aquele momento de encontro e tudo o que se sentia no ar foi um bom sinal de que “o sector” é constituído por profissionais que continuam interessados e prontos para se envolver num esforço comum que possa valorizar, apoiar e fortalecer o seu trabalho e contributo para a sociedade.

Sunday, 20 May 2018

Apropriação cultural: menos guardiões, mais pensadores críticos

"La Japonaise" de Claude Monet, Museum of Fine Arts Boston. (Imagem retirada de http://japaneseamericaninboston.blogspot.com)
Para a Nandia

O meu primeiro contacto com o conceito de apropriação cultural aconteceu em Julho de 2015 devido às “Kimono Wednesdays” no Museum of Fine Arts Boston (MFA). Por ocasião da exibição de “La Japonaise” de Claude Monet (uma pintura da esposa do artista, rodeada de leques, usando uma peruca loira e um quimono vermelho), os visitantes eram convidados a vestir um quimono semelhante ao mostrado no quadro e a partilhar as suas fotos nas redes sociais. Segundo o museu, essa era uma maneira para os visitantes se envolverem com a pintura. Para algumas pessoas, no entanto, a actividade carecia de qualquer contexto em relação ao quimono, tornando-se apenas “divertida”; outros criticaram a iniciativa por estar a reforçar estereótipos e exotizar os asiáticos-americanos; para outros, era racismo flagrante (leiam o artigo de Seph Rodney).

Saturday, 5 May 2018

"Lindonéia, a Gioconda do subúrbio", da minha primeira visita à Pinacoteca de São Paulo

"Lindonéia, a Gioconda do subúrbio", Rubens Gerchman, Pinacoteca de São Paulo  (Foto: Maria Vlachou)

“Na frente do espelho
Sem que ninguém a visse
Miss
Linda,feia
Lindonéia desaparecida
Despedaçados, atropelados
Cachorros mortos nas ruas
Policiais vigiando
O sol batendo nas frutas
Sangrando
Ai, meu amor
A solidão vai me matar de dor (...)”

Caetano Veloso, “Lindonéia”

Uma coisa da qual me apercebi logo nas primeiras visitas aos museus de São Paulo é que se gosta de longas introduções às exposições. A exposição “Vanguarda Brasileira dos anos 1960 – Coleção Roger Wright”, na Pinacoteca de São Paulo, não foi excepção.

Sunday, 28 January 2018

TS Elliot, um terrível artista hip-hop

Uma imagem do projecto Contratempo no programa do Isto é PARTIS.

O jornal inglês The Guardian deu recentemente a notícia de uma crítica da poetisa Rebecca Watts, intitulada “O culto do nobre amador”, ao trabalho de um grupo de jovens poetisas que Watts considera que constitui "O óbvio denegrir do envolvimento intelectual e a rejeição do ofício”. A crítica gerou uma discussão muito interessante, e bem-vinda, em relação ao valor da poesia erudita e da poesia popular, sendo que a resposta de Don Paterson (poeta escocês, vencedor do prémio TS Elliot e editor de duas das jovens poetisas) foi cativante: "Não precisa de gostar do que as pessoas fazem, mas penso que deve avaliá-lo em função das suas próprias ambições. Caso contrário, é como dizer que TS Elliot foi um terrível artista de hip-hop. É verdade, e então?”.

Wednesday, 15 November 2017

I am a native foreigner


Foi esta a minha apresentação ontem na conferência anual do ICOM Europa, que teve lugar em Bolonha. O tema da conferência era "The role of local and regional museums in the building of a People's Europe". Ler mais

Tuesday, 12 September 2017

Isto é também meu!


Eden Condoms, Esther Pi & Timo Waag, Espanha. Candidato ao prémios Rijksstudio 2017 (fonte: Rijksmuseum website)

As pessoas devem poder usar imagens de coleções de museus em bolos de aniversário, ténis, preservativos ou papel higiénico? Quem protegerá a dignidade dos objetos desse 'assalto'? E a receita que os museus perdem ao não cobrar pelo uso das imagens?

O meu post no blog do CIDOC - International Committee for Documentation sobre as questões levantadas pelas políticas de acesso aberto. Ler aqui

Monday, 11 September 2017

Uma questão de relevância

A capa de Story, Agosto 2017.

O meu artigo "A question of relevance" foi publicado em Agosto 2017 em Story, a revista do Queensland Performing Arts Centre, integrada na sua estratégia de educação e editada por Rebecca Lamoin. Nesta edição, procura-se olhar para o conceito de resistência no sector cultural a partir de múltiplos pontos de vista e a propósito da programação Jul - Dez do QPAC. Ler aqui

Thursday, 9 March 2017

Sunday, 30 October 2016

MAAT, gerador de expectativas

Imagem retirada do website do MAAT.
Continuo admirada com a forma como o recém-inaugurado edifício do MAAT – Museu de Arte, Arquitectura e Tecnologia, da autoria de Amanda Levete, se integra na paisagem. Quando me aproximo daquela zona ou quando atravesso a ponte, espero sempre ver um edifício enorme que se sobreponha ou que esconda a Central Tejo. Mas não...... A Central Tejo continua majestosa, sendo que o novo edifício surge ao seu lado como uma nota suave e fluída.
O meu primeiro contacto com o novo museu foi em Junho. Na verdade, tratou-se da reabertura do “velho” museu (Museu da Electricidade na Central Tejo), depois das obras de renovação, e foi lançada a marca MAAT. Acompanhei depois a campanha para a inauguração do novo edifício e li algumas entrevistas do director do museu, Pedro Gadanho, tendo, assim, formado uma primeira opinião / expectativa. As várias críticas que surgiram com a inauguração do edifício e algumas conversas com colegas trouxeram-me mais “food for thought”. A minha primeira visita ao novo edifício também.

Saturday, 22 October 2016

Ilimitado (Unlimited)

"Uma menina perdida no seu século à procura do pai", Teatro Crinabel (Foto: Paulo Pimenta; imagem gentilmente cedida pelo Teatro Nacional D. Maria II)
Há dois anos, questionava aqui o propósito dos festivais que apresentam a arte de grupos específicos de pessoas (gays, negros, pessoas com deficiência, etc). Era Setembro de 2014, e estava a decorrer a segunda edição do festival Unlimited no Southbank em Londres. “Pergunto-me”, escrevia na altura, "quem é que assiste a estes festivais, exposições, actividades e o que é que acontece depois? Será que atraem apenas os já ‘convertidos’ ou um público mais amplo? Serão os artistas gay ou negros ou com deficiência mais reconhecidos como artistas pelo sector e pelo público? Estaremos a seguir em direcção a uma representação inclusiva, onde serão vistos em primeiro ligar como artistas, ou os curadores e o público vão, na mesma, para assistir a algo “especial”, circunscrito num tempo e espaço específico, um tempo e um espaço ‘próprio’? Ajudam-nos estes festivais a aprender a preocupar-nos mais e mais com a arte e menos e menos com o ‘resto’?

Monday, 3 October 2016

Justin Bieber e o combate ao extremismo islâmico

O Presidente iraniano, Hassan Rouhani, e o Primeiro-Ministro italiano, Matteo Renzi (Foto: Alessandro Bianchi / Reuters, imagem retirada do jornal The Atlantic)
Um recente artigo do NPR, intitulado Italy's 'Cultural Allowance' For Teens Aims To Educate, Counter Extremism (O subsídio de cultura para os adolescentes na Itália pretende educar, combater o extremismo) demonstra a confusão que existe, a vários níveis e meios, em relação ao acesso à cultura e à cultura como panaceia para vários males deste mundo.

O título não é um exagero do jornal. Foi o próprio Primeiro-Ministro italiano que, ao anunciar este subsídio de cultura (€500 para cada jovem com 18 anos gastar em produtos culturais), pouco depois dos ataques terroristas em Paris, em Novembro 2015, afirmou: “Destroem estátuas, nós protegemo-las. Queimam livros, somos o país das bibliotecas. Concebem o terror, respondemos com cultura."

Sunday, 25 September 2016

O impacto tem nome: pode ser Telmo ou Rafael ou Gustavo...

Telmo Martins, membro da Orquestra Geração (Foto: Maria Vlachou)

Há uns anos, vi o documentário Waste Land (Lixo Extraordinário)
. Era sobre o trabalho do artista plástico brasileiro Vic Moniz com os catadores de lixo no maior aterro do mundo, o Jardim Gramacho, na periferia do Rio de Janeiro. Moniz disse que queria mudar a vida de um grupo de pessoas com os mesmos materiais com que elas lidam todos os dias. Juntos, usaram lixo para criar grandes retratos dos próprios catadores, que foram depois vendidos em leilão e o dinheiro distribuído entre os catadores. Os trabalhos foram apresentados em exposições em vários museus de arte contemporânea.

Wednesday, 22 June 2016

Reflexões governamentais sobre o acesso à cultura


"MAPA - O jogo da cartografia", um espectáculo da associação A PELE (imagem retirada do website do Teatro Nacional D. Maria II)

O Culture White Paper (publicado pelo Departamento de Cultura, Media e Desporto em Março 2016) define a forma como o governo britânico vai apoiar o sector cultural nos próximos anos. É o primeiro documento deste tipo em 50 anos e o segundo alguma vez publicado no Reino Unido.

O documento abre citando o primeiro-ministro britânico, David Cameron, que afirma: "Se acreditam no financiamento público da arte e da cultura, como eu apaixonadamente acredito, então devem também acreditar na igualdade de acesso, atraindo todos e acolhendo todos."

Saturday, 7 May 2016

E então?

"E então?" Uma pergunta / reacção bastante frequente no que diz respeito ao nosso sector, quer verbalmente expressa ou secretamente pensada. É uma pergunta legítima, que raramente estamos disponíveis para discutir.

Rembrandt Harmenszoon van Rijn, "Retrato de Marten Soolmans" e "Retrato de Oopjen Coppit" (imagem retirada do jornal Telerama)

Quando li pela primeira vez a notícia sobre a aquisição conjunta por parte do Louvre e do Rijksmuseum das obras de Rembrandt Retrato de Marten Soolmans e Retrato de Oopjen Coppit, por €160 milhões, não pensei propriamente "E então?", mas sim "Porquê?". Porquê estes dois quadros? Porquê todo esse dinheiro? Quando procurei entender um pouco melhor a importância dessas duas obras (qualquer que fosse a sua importância, dentro do contexto da história da arte ou qualquer outra), fui mais frequentemente confrontada com o adjectivo "raro". Os retratos são "raros", a sua exposição em público foi extremamente "rara”, etc. etc. Isto levantou ainda mais perguntas: Raros como? Porque é que devem ser vistos com mais frequência? Porque é que esses dois museus públicos fizeram um esforço tão grande (financeiro e colaborativo) para os adquirir?

Sunday, 24 May 2015

Post scriptum

Na semana de 11 de Maio, a minha caixa de email encheu-se de convites para a celebração da Noite e do Dia dos Museus. No Facebook, a intensidade não foi menor, com os museus e as suas tutelas a lembrar que todos os caminhos iam levar a um museu. Um ambiente de grande festa, uma oferta enorme em todo o país, que foi também traduzida em números: de acordo com os meios de comunicação, houve 140 actividades por ocasião da Noite Europeia dos Museus (16 de Maio) e 430 actividades no Dia Internacional dos Museus (18 de Maio), em 70 museus diferentes. A verdade é que poucas das actividades propostas responderam ao desafio do ICOM para reflectir sobre "Museus para uma sociedade sustentável" (e fiquei a pensar qual será, realmente, a percepção que os museus têm deste desafio anual e se este tem qualquer impacto nas suas práticas - no Dia dos Museus e no resto do ano). Dito isto, a riqueza e a intensidade da programação apresentada, bem como o ambiente de festa, poderiam fazer pensar que o sector dos museus em Portugal mostra sinais claros de prosperidade. Assim, a notícia a 18 de Maio que alguns funcionários de museus estavam em greve, contestando a redução do pagamento de horas extraordinárias, bem como o facto de terem sido obrigados a trabalhar numa segunda-feira (o dia destinado ao descanso semanal), foi uma espécie de nota marginal (ver reportagem da TV)

Saturday, 16 May 2015

"Ganesh contra o Terceiro Reich" e a pergunta que ficou para a próxima vez

Foto: Jeff Busby
É rara hoje em dia a peça de teatro que permanece connosco. A peça que ocupa os nossos pensamentos horas e dias depois de deixarmos o teatro. A peça que queremos discutir com outros. A peça que queremos ver novamente, à procura de mais, à procura de tudo o que sabemos que perdemos da primeira vez. "Ganesh contra o Terceiro Reich", pelos australianos Back to Back Theatre (apresentada na Culturgest, a 14 e 15 de Maio) é uma peça que fez isso para mim.

Monday, 23 March 2015

Philippe de Montebello revela-se


Vou dizê-lo logo no início para deixar o assunto arrumado: sim, fiquei irritada com as duas afirmações de Philippe de Montebello no livro "Rendez-vous with art" relativas à questão da restituição de objectos (p.54 e p.208). Dito isto, o resto do livro é absolutamente encantador! Uma série bela, inspiradora e surpreendente de conversas entre Montebello e o crítico de arte Martin Gayford, que revela o homem por trás do historiador de arte e durante muitos anos director do Metropolitan Museum of Art.

Seguindo estas conversas, sentimos um desejo de olhar e olhar melhor, mesmo que seja apenas uma foto num livro - na esperança, é claro, de poder estar à frente do original um dia ... Como o próprio Montebello diz: "(...) nada pode substituir a experiência, a sensação muito física, de estar cercado e envolto no espaço real." (51 p.)

Provavelmente, um dos momentos mais tocantes vem logo no início do livro, onde Montebello responde à pergunta de Gayford sobre aquele momento único, aquela experiência única que pode tê-lo levado a uma vida nas artes. Montebello partilha connosco esse momento muito especial, quando ele tinha 15 anos e o seu pai levou para casa o livro "Les Voix du Silence" de André Malraux. E, de repente, ali estava Uta...

"Ela era a Marquesa Uta na Catedral de Naumburg e eu amei-a como mulher (...) com a sua maravilhosa gola alta e as suas pálpebras inchadas, como se tivesse passado a noite a fazer amor." (p.10; imagem retirada da Wikipedia)

Fiquei a pensar: será que ele teria alguma vez posto isto na legenda num museu? Quantas pessoas teriam olhado, olhado melhor, olhado mais, se tivessem lido algo assim sobre uma estátua?

Mais à frente, Montebello admite algo que raramente ouvimos da boca de curadores, mas que é verdade para a maioria dos visitantes de museus: "Descobri que quando me forcei - muitas vezes com a ajuda de curadores - a olhar para coisas sobre as quais era indiferente ou que até me repeliam, descobri que, com mais alguns conhecimentos, o que havia sido escondido de mim tornou-se manifesto." (p.59)

Que tipo de conhecimentos é necessário para esta 'epifania' ocorrer, podemos questionar. Nem factos sobre a vida do artista, nem uma descrição detalhada e seca de pormenores estilísticos, quando são consideradas as primeiras necessidades do visitante não-especialista (ou seja, da maioria dos visitantes dos museus). Parece que podemos encontrar todas as respostas no livro de Freeman Tilden "Interpreting our Heritage": "O que está por trás do que o olho vê é muito maior do que aquilo que é visível" (p.20); (...) Mas o objectivo da interpretação é estimular o leitor ou o ouvinte a desejar ampliar os seus horizontes de interesses e conhecimentos e a procurar entender as grandes verdades que estão por trás de qualquer afirmação de factos (p.59); (…) Não com os nomes das coisas, mas expondo a alma das coisas – aquelas verdades que estão por trás do que estamos a mostrar ao visitante. Nem pregando; nem sequer dando sermões; não através da instrução, mas através da provocação (p.67).

Mais alguns exemplos do livro de Montebello poderiam ilustrar melhor estes pontos:

"(...) é absolutamente delicioso. O sapato voando para o ar, em direcção à estátua de Cupido ao lado, aquela árvore encantadora, tão espumosa e diferente de uma árvore real: é tudo como um décor de théâtre, um cenário teatral. Esta é uma lindíssima pintura sobre o estarmos a divertir-nos e sobre a qual uma pessoa não precisa de pensar muito, basta abandonar-se ao puro prazer que proporciona: uma pintura com a qual não teria nenhum problema em viver." (p. 81, Jean-Honoré Fragonard, O baloiço, 1767; imagem retirada de www.thebingbanglife.com)

"(...) então, concentrei-me nas profundas marcas de queimaduras na parte inferior do quadro, claramente feitas pelas velas votivas, confirmando que esta foi, realmente, uma imagem devocional. Apenas alguns detalhes adicionais resultaram de uma análise aprofundada, sendo um dos mais importantes que a imagem estava impecável, uma coisa rara quando se trata de imagens com fundo dourado do século XIV, uma vez que a maioria das obras sofreram muito ao longo do tempo, principalmente, receio, nas mãos dos restauradores." (p.65, Duccio di Buoninsegna, Madona e criança, c.1290-1300; imagem retirada de www.theopenacademy.com)

"Mas estou feliz só de apreciar a expressão no rosto de Adão, tão doce, e da maneira como ele segura o ramo de maçã - não é uma folha de figueira - com dois dedos, bem como a folhagem necessária para cobrir a sua nudez. Dürer dotou de uma forma tão cativante as suas figuras inspiradas na antiguidade clássica com uma terna sensualidade; e adoro Eva, parecida com Vénus, com o seu rosto bonito de fräulein de Nürnberg. Vê? Nada de história da arte, apenas a minha própria reacção muito pessoal "(p124, Albrecht Dürer, Adão e Eva, 1507; imagem retirada de www.pictify.com)

Não acredito que a maioria das pessoas visita museus à procura de uma lição em história de arte nos seus painéis e legendas - ou de física, de música ou de outra disciplina qualquer (algumas o fazem, é claro, e as suas necessidades são igualmente legítimas, mas os museus geralmente dão resposta a essas necessidades com vários outros meios). As pessoas também não visitam museus à procura de alguém que lhes diga o que devem sentir ou pensar, como defende Alain de Botton em Art is Therapy (Rijksmuseum), onde encontramos legendas como esta: "Você sofre de fragilidade, de culpa, de dupla personalidade, de auto-aversão. Você é provavelmente um pouco como esta imagem." (a respeito da pintura de Jan Steen A Festa de São Nicolau). Penso que a maioria de nós está, antes de tudo, à procura de algo que possa ter significado para nós, algo que possa deliciar-nos, surpreender-nos, fazer-nos sentir bem ou mais ricos ou mais conscientes de nós mesmos e do mundo. Muitos de nós estamos à procura de histórias, histórias de outras pessoas, seres humanos com os quais nos possamos relacionar - aqueles representados ou aqueles que procuram partilhar os seus conhecimentos connosco.

Decidir qual a história a contar não é uma escolha fácil para um museu; escrevê-la de uma forma clara e concisa é igualmente difícil. Mas não é impossível, como Montebello nos mostra no seu livro, onde abandona o seu “eu institucional" e consegue partilhar o seu enorme conhecimento de historiador de arte de uma maneira simples e humana, que é significativa e relevante para muitas mais pessoas. Não é impossível, como Paula Moura Pinheiro nos mostra todas as semanas no seu programa televisivo "Visita Guiada", onde descobrimos que curadores e especialistas em arte em Portugal também são pessoas fascinantes, capazes de partilhar connosco muito mais do que os habituais factos geralmente presentes nas legendas, e que nos fazem desejar saber mais, visitar o museu, ver o objecto - ou voltar para o ver de novo, depois do que nos foi revelado.

É possível. É uma questão de escolha e de habilidade. Não lhe falta teor científico e comunica.

"Não tenho certeza se ficaria encantado porque estou tão concentrado, tão absorto e cativado pela perfeição do que lá está; que o meu prazer - e é um prazer intenso - está maravilhado com o que o meu olho vê, não com uma abstracção que, de um modo mais ‘à história de arte’, eu poderia evocar. É como um livro que amamos e simplesmente não queremos ver o filme. Já imaginámos o herói ou a heroína de uma certa maneira. Na verdade, com os lábios de jaspe amarelo, eu nunca tentei, realmente, imaginar as partes que faltam." (p.8, Fragmento do rosto de uma rainha, Período do Império Novo, c. 1353-1336 a.C, Egipto; imagem retirada do website do Metropolitan Museum)

Mais neste blog





Mais leituras

Philippe de Montebello and Martin Gayford (2014), Rendez-vous with Art. Thames and Hudson









Monday, 2 March 2015

O que é que temos a ver com isso?

Nos últimos 2-3 anos, tem sido um prazer ver a forma como os museus têm assinalado o Dia de São Valentim nas suas páginas no Facebook. Desde objectos nas suas colecções, a elementos arquitectónicos e flores nos seus jardins, eles já me fizeram sorrir, rir às gargalhadas, olhar melhor, aprender algo novo. De uma forma simples, imaginativa, bem-humorada, e à distância, algumas instituições culturais têm marcado no meu calendário um dia que eu, de resto, acho algo desinteressante.


Nem todas as instituições culturais assinalam esse dia. Algumas podem estar a pensar que isso não é uma coisa séria, que é algo frívola, comercial, não se relaciona directamente com a sua exposição ou peça de teatro ou programa de concerto. Relaciona-se com uma outra coisa, porém: a vida.

Quando o furacão Sandy atingiu Nova Iorque em 2012, o director do MoMA PS1 publicou isto na página de Facebook do museu:



Como é que isso se relaciona com o seu museu? Com a exposição temporária? Não se relaciona. Relaciona-se com uma outra coisa, porém: a vida.

Em 2014, o ano do Mundial no Brasil, algumas instituições culturais apresentaram exposições, organizaram eventos, fizeram várias referências ao futebol. Algumas podem ter tido a esperança de atrair seguidores entre os fãs de futebol. Outras podem simplesmente ter pensado: isto também é a vida, vamos celebrá-la!


O ataque ao Charlie Hebdo fez-me mais uma vez pensar no papel que as instituições culturais têm na sociedade e na capacidade que têm de se relacionar com ela. E também para colocar a sua teoria em prática. A teoria diz que a cultura ajuda-nos a sermos humanos, tolerantes para com o "Outro", a vivermos juntos, a aprendermos uns com os outros, a partilharmos e a defendermos valores, a pensar de forma crítica. Quando o sector cultural está sob "ataque", usamos estes mesmos argumentos para o defender e para defender a importância do que fazemos. Para a sociedade. Mas quando essa mesma sociedade ri, chora, apaixona-se, desespera, comemora, está de luto... levamos algum tempo (muito tempo, mesmo) para considerar se é apropriado para nós reconhecê-lo, relacionarmo-nos. Não poucas vezes, permanecemos calados.


Assim, na manhã seguinte ao ataque ao Charlie Hebdo, expressei a minha consternação com o facto de nenhuma instituição cultural grega ou portuguesa (entre aquelas que sigo no Facebook e no Twitter) ter reagido à tragédia. Uma tragédia relacionada directamente com tudo o que a cultura defende. Segundos depois de eu ter publicado o meu post, o Centro Cultural Onassis publicava o deles. Mais tarde, o Museu Benaki. Alívio... Depois disso, alguns colegas avisaram-me de atitudes semelhantes da parte do Museu Nacional da Imprensa ou do Museu Bordalo Pinheiro. Seguiram-se mais algumas instituições culturais. No dia 9 de Janeiro, o Museu Arqueológico do Carmo convidava-nos para um debate com cartoonistas e académicos. Alívio... Ainda assim, não tenho conhecimento de alguma das grandes instituições culturais (nacionais) portuguesas ter reagido aos acontecimentos.


Um amigo escreveu-me naquela altura e perguntou: "Mas quais as instituições culturais que tu queres que reajam? Todas elas? As que, de alguma forma, se relacionam com o que aconteceu? (que seria, por exemplo, o Museo de la Memoria e de los Derechos Humanos no Chile ou o Museu Nacional da Imprensa em Portugal, é isso?). As instituições culturais francesas?". Não quero parecer ingénua, mas teria gostado de ver reagir todas as instituições culturais que dizem querer ter um papel na criação de uma sociedade melhor; que dizem pretender abraçar e promover determinados valores; que dizem querer ser relevantes para as pessoas; que dizem querer ser parte da sociedade e ajudar a formar cidadãos responsáveis ​​e críticos.

Gostaria de esclarecer aqui que por "reacção" não quero dizer uma resposta precipitada a um incidente ou uma associação superficial a uma celebração, sem ter em conta o que a instituição representa e com a intenção de usá-la para relações públicas baratas ou simplesmente para não "ficar de fora". As pessoas sabem distinguir o oportunismo e não o apreciam... Por "reacção" quero dizer uma resposta pensada, responsável, honesta e coerente de uma instituição cultural que tem clara a sua missão e o papel que pretende desempenhar na vida das pessoas. E isso não envolve apenas de programação ou actividades educativas. É preciso estar permanentemente ciente do que está a acontecer à nossa volta e da forma como afecta a vida das pessoas, para que, como resultado de uma política definida e coerente de intervenção, a instituição possa dar prontamente o seu contributo para o tipo de mundo que pretende ajudar a construir.

O que é relevante e o que não é relevante para uma instituição cultural? Bem, provavelmente não é esta a questão. A questão é: o que torna uma instituição cultural relevante? Recentemente, dei um curso onde discutimos o lugar e o papel das instituições culturais na sociedade contemporânea. Na última parte da sessão, fizemos um exercício prático:

Por favor, considere:

- O ataque Charlie Hebdo
- O dia de São Valentim
- O desastre natural na Madeira em 2010
- A grande manifestação anti-austeridade a 15 de Setembro de 2013 em Portugal

A sua instituição reagiria?
Se sim, como?
Se não, por que não?

Anyone?


Mais leituras


Gretchen Jennings, We can’t outsource empathy, Part II: Qualities of the empathetic museum


Monday, 16 February 2015

Bem-vindos, neo-cosmopolitas!

Foto: Adriano Vizoni/Folhapress (retirada da Folha de S. Paulo)
“Presença Negra” é uma acção promovida em São Paulo por artistas, escritores e activistas negros que visitam em grupo inaugurações de exposições em galerias de arte. Chegam um a um, tornam-se numerosos e atraem os olhares desconfortáveis dos restantes visitantes. Porque a presença de negros (como artistas e como público) não é habitual nesses contextos. Nem todos concordam com estas acções (como se pode ver nos comentários na Folha de S. Paulo), mas a mim, este acto de reivindicação por parte de cidadãos chamou-me a atenção.

E veio lembrar-me um outro. Numa conferência no ano passado ouvi Sylvain Denoncin, da empresa francesa EO Guidage, contar a história do museu Louvre – Lens. O museu foi projectado pelo atelier de arquitectura japonês SANAA. Os habitantes da cidade ameaçaram levar o projecto a tribunal se o novo museu não fosse acessível. Aí, foi chamada a EO Guidage, para intervir e remediar algo que deveria ter sido pensado desde o primeiro momento. Numa troca de opiniões com um colega no Facebook, partilhámos a mesma inquietação: quantas gerações até os cidadãos deste país se tornarem mais exigentes, mais reivindicativos em relação ao acesso à oferta cultural em instituições culturais públicas?

Estes são dois casos que levantam novamente à questão do que se entende por “acesso à cultura”; do que os profissionais do sector querem dizer quando afirmam que “estamos de portas abertas” ou que “estamos aqui para todos”; da diferença que existe entre os conceitos da “democratização da cultura” e da “cultura democrática”.

John Holden tem sido mais que uma vez citado neste blog, mais concretamente a sua identificação dos guardiões da cultura no ensaio “Culture and Class” – os “cultural snobs” e os neo-mandarins (ver referências no final do texto).

Primeiro ponto: sofremos ainda muito da mentalidade do “cultural snob”, que considera que a oferta cultural – certa oferta cultural – é apenas para os entendidos. Em relação aos outros – os não entendidos, os não cultos – a opção (cada vez menos assumida publicamente, mas presente na forma como se programa e se comunica) é a da exclusão, não havendo nada a fazer, uma vez que nem o meio familiar destas pessoas nem a escola tiveram a capacidade de as educar, de as preparar para tal experiência.

Segundo ponto: os neo-mandarins vieram alterar o contexto criado e defendido pelos “cultural snobs”, vieram promover o acesso, a democratização da cultura. Apesar de se tratar de uma postura diferente, mais aberta e inclusiva, na prática revela também um outro tipo de guardião. Os neo-mandarins defendem o acesso, mas querem ser eles a definir a que é que vale a pena ter acesso e como. Ultimamente, em mais que uma reunião, quando levantada a questão da “inclusão”, quando levantada a necessidade dos espaços culturais serem mais representativos das sociedades em que estão inseridos e mais acolhedores para as diversas  pessoas que as compõem, a resposta variou pouco: passa normalmente pelas acções do serviço educativo, visitas guiadas ou idas a espectáculos aos quais as pessoas assistem fazendo parte de grupos específicos (pessoas com deficiência, séniores, imigrantes, crianças e adultos institucionalizados, pessoas vindas de meios “desfavorecidos”, etc.).

Terceiro ponto: o aparecimento dos neo-cosmopolitas no sector cultural, dispostos a abdicar do seu papel de guardião, de abrir verdadeiramente as portas para uma maior colaboração e envolvimento das pessoas “de fora”, no sentido de tornar a oferta cultural mais representativa e relevante, vem alterar também esta mesma relação com as pessoas e a forma como vêem e se apropriam das instituições culturais. O objectivo dos neo-cosmopolitas é caminhar para uma cultura mais democrática.

Para haver mudança, é necessário o contributo de vários agentes. Irei concentrar-me em dois deles: as associações que representam os grupos de pessoas anteriormente referidos; e os profissionais do sector cultural.

Sem dúvida, é preciso haver cidadãos mais participativos, conhecedores dos seus direitos, mais reivindicativos, que queiram ter uma palavra sobre as instituições culturais e o acesso à oferta cultural. O papel das associações que representam certos grupos de cidadãos é aqui fundamental, por se tratar de organizações formadas com uma voz, às vezes, mais forte e respeitada. Estas associações devem promover e defender os direitos dos seus associados, devem intervir sempre que necessário, devem ponderar muito bem que soluções propõem e que soluções aceitam. Há poucos meses, um actor que ia representar num teatro municipal reagiu negativamente à presença dos intérpretes de língua gestual à frente do palco. O teatro procurou alternativas e sondou a Federação das Associações de Surdos em relação à hipótese de transmissão ao vivo da peça numa outra sala, a partir da qual os espectadores surdos poderiam seguir o espectáculo. A Federação considerou a solução aceitável. Não o era. Nenhuma solução que discrimine os cidadãos e o seu direito de acesso à cultura é aceitável e as associações devem ser as primeiras a defendê-lo.

No entanto, é preciso haver também um movimento por dentro, no próprio sector. Um movimento que permita contrariar as atitudes “snob”; um movimento que permita aos neo-mandarins evoluírem e tornarem-se neo-cosmopolitas. Acredito que não teremos cidadãos mais reivindicativos enquanto tivermos profissionais da cultura “snob”, conformados, preparados apenas para repetir receitas do passado, sem as questionar, sem pensar no passo seguinte, na promoção da inclusão a médio e longo prazo.

Os cidadãos precisam de sentir e de ver na prática que existe uma outra mentalidade da parte dos profissionais do sector, uma mentalidade que procura fomentar a relação com as pessoas, diversas pessoas e não apenas os entendidos, e criar espaço para que esta relação exista e cresça, seja real e duradoura. Seremos mais inclusivos quando os cidadãos, na sua diversidade, sentirem que a programação das instituições culturais públicas é relevante para eles; quando se sentirem representados e se a representação pressupor um maior envolvimento; quando a comunicação for desenvolvida com a preocupação de chegar mesmo a elas, de entrar em diálogo numa língua partilhada por todos; quando a nossa acção deixar de promover o acesso à oferta cultural através da manutenção de grupos segregados, mas dando passos todos os dias para que as pessoas possam co-existir no mesmo espaço, usufruir da mesma oferta. Se os profissionais da cultura não conseguirem convencer as pessoas das suas intenções honestas em fomentar esta relação e em trabalhar para uma cultura democrática, a oferta (não a cultura) continuará irrelevante, e consequentemente inexistente, para elas.


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