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Monday, 22 April 2013

Blogger convidado: "Bombaim 'gets the blues' ", por Jay Shah (Índia)

Um festival de blues em Bombaim? “Mas porquê?”, alguém pode pensar. Ou talvez… “Porque não?”. No entanto, o facto do festival ser organizado pelo Grupo Mahindra, sendo o meu amigo e colega Jay Shah a força motora por trás, explica que esta não é uma decisão que surgiu por acaso. Faz parte da estratégia de uma empresa global, que se relaciona com mais de 100 nacionalidades de clientes e funcionários, e que pretende promover as artes e o diálogo através de várias culturas. mv
Walter Trout no Mahindra Blues Festival 2013, Bombaim, Índia (Foto: Ritam Banerjee)
Os Estúdios Mehboob, os icónicos estúdios de Bollywood no coração de Bombaim (conhecida agora por Mumbai), tem ganhado vida nos últimos três anos, durante o Mahindra Blues Festival (MBF), que apresenta os melhores talentos de blues que o mundo tem para oferecer. Buddy Guy e Taj Mahal estiveram aqui, e também Robert Randolph, Poppa Chubby, Shemekia Copeland, Ana Popovich, Jimmy Thackery, entre muitos outros. O melhor dos blues, num local inesperado, numa cidade inesperada, poderão supor.
O MBF é a celebração de uma forma de arte num festival longe do delta do Mississípi, o seu local de origem. No meio de uma cultura aparentemente tão diferente, têm emergido semelhanças impressionantes. Bombaim é uma cidade dura – mas uma cidade de sonhadores. A luta e o conflito abundam tanto como o triunfo e as vitórias. Poderá não haver uma ligação melhor entre este género de música e qualquer cidade do mundo, como acontece com Bombaim. A nossa visão audaciosa é criar o maior destino para os blues fora dos EUA. Gostaríamos de fazer de Bombaim o que Montreux é para o jazz.
Na ausência de qualquer prática de donativos para as artes da parte de indivíduos e com a preocupação do governo em providenciar às massas os essenciais para a vida, as artes e a cultura raramente são apoiadas na Índia. Actos esporádicos de apoio financeiro para um artista particular ou para um evento acontecem, mas sem existir um plano holístico a longo prazo ou uma visão. Estamos convencidos que as empresas devem ajudar a preencher a lacuna.
O Grupo Mahindra, é uma federação de empresas com um capital social de $15,9 milhões, que abrange várias geografias e negócios tão diversos como a produção de automóveis e tractores, o comércio e os resorts. Envolvemo-nos com mais de 100 nacionalidades de clientes e funcionários em todos os continentes, excepto a Antárctida. Como empresa global, acreditamos que estamos numa posição única para potenciar o diálogo entre culturas e estamos empenhados em promover as artes e a cultura a longo prazo, procurando criar admiração para a nossa marca. Além disso, as nossas actividades de outreach cultural estão directamente ligadas à nossa estratégia de negócio; são, portanto, sustentáveis. Ajudam a criar um valor partilhado entre a marca e os nossos accionistas, garantindo um pensamento positivo relativamente à nossa marca.
Para um maior sucesso na exploração de fontes de financiamento alternativas, as instituições culturais poderão querer analisar melhor os planos de negócios específicos das empresas e ajudá-las a identificar maneiras de obter vantagens a longo prazo, através do apoio a uma forma de arte específica. Se virem uma ligação estratégica e benefícios para o negócio, o financiamento irá fluir e as artes irão prosperar.
Dana Fuchs no Mahindra Blues Festival 2013, Bombaim, Índia (Foto: Ritam Banerjee)
E, podem pensar, qual a ligação estratégica entre os blues e o nosso negócio? Mahindra é o maior produtor de tractores no mundo. Os agricultores do delta do Mississípi são os nossos mais distintos clientes nos EUA. Começaram a relacionar-se connosco num plano diferente. Não somos apenas mais uma empresa estrangeira que tenta vender-lhes um produto. Vêem-nos como uma marca que tem orgulho na herança deles, que celebra a sua cultura e ajuda a divulgá-la em terras distantes. A nossa cota de mercado tem crescido e os níveis de satisfação dos nossos clientes são altíssimos. Claro que os nossos produtos são os melhores do mercado. Mas a nossa ligação através da cultura tem, sem dúvida, aumentado significativamente o gosto pela nossa marca.
O ‘produto lateral’ mais cativante deste festival tem sido o entusiasmo com o qual o público de Bombaim o tem abraçado. A ligação que sentem à música é intensa. O público é composto por pessoas de todos os meios, idades e demografias. Como disse Anand Mahindra, Presidente e Director Geral do Grupo Mahindra, ao longo dos anos este festival tornou-se num movimento e é seguido como se fosse um culto. Os públicos tornaram-se fiéis, uma tribo de seguidores.
Convido-vos a ver um pouco do festival e a ouvir os testemunhos das pessoas:

Jay Shah trabalha para o Grupo Mahindra há 15 anos, tendo desempenhado várias funções. Actualmente, é responsável pelo uso inovador das artes e da cultura para criar ligações com os accionistas do Mahindra em todo o mundo. Coordena os Mahindra Excellence in Theatre Awards e o Mahindra Blues Festival e desenvolve programas internos, como o Programa de Recrutamento Global e os prémios Mahindra Rise e Mahindra Has Talent. É International Fellow no Kennedy Center, Washington DC. 

Monday, 15 April 2013

Blogger convidado: "Orquestras em apuros: será mesmo...?", por Simon Fairclough (Reino Unido)


É um grande prazer ouvir Simon Fairclough falar apaixonadamente tanto da música clássica, como do seu trabalho. Simon é um jovem profissional, inteligente e empenhado, que quer garantir que cada vez mais pessoas poderão descobrir e desfrutar o prazer da música clássica. Neste post, analisa os problemas que orquestras em todo o mundo enfrentam nos nossos dias e aponta para as causas e possíveis caminhos a seguir. Entre eles, a necessidade de encontrar novas formas de envolvimento com os públicos. mv

A Paixão de São Mateus de Bach 're-imaginada' para públicos mais novos, com a Orchestra of the Age of Enlightenment e um coro virtual. (Foto: Vocal Futures)


As notícias dos EUA têm sido particularmente sombrias. Bloqueios e greves têm atingido várias orquestras americanas e em 2009 o déficit médio era $697.000.  Quando a poderosa Philadelphia Orchestra abriu falência, tornou-se claro que nenhuma orquestra era demasiado grande ou excelente para falhar.

Mas isto não é de todo um problema americano. A Orquestra Sinfónica da Radiotelevisão Espanhola anunciou recentemente planos para reduzir os contratos dos músicos por um terço. Na África do Sul, a Johannesburg Philharmonic fechou em Novembro, silenciada pelas suas dívidas.  No Reino Unido, a Guildford Philharmonic deu o seu concerto de despedida no mês passado, após sete décadas em palco.  Até na Alemanha, o Estado mais generoso em relação às Artes, duas orquestras de rádio irão fundir-se para poupar dinheiro.

Estaríamos tentados a assumir que a música orquestral é uma forma artística moribunda. Mas, para cada conto de crise há um outro que nos lembra a sua vasta e continuada atracção. Em 2011, a YouTube Symphony Orchestra tocou para 33 milhões de pessoas online — um dos maiores eventos de sempre do Google em live streaming.  A El Sistema de Venezuela tem criado uma espécie de culto a nível internacional. Todos os anos, durante dois meses no verão, multidões enchem o Royal Albert Hall para ouvir orquestras a tocar nos Proms: 300.000 pessoas assistiram no ano passado.  A minha orquestra, a Academy of Ancient Music, encantou milhões de pessoas quando tocou música de Handel nas celebrações do jubileu da Rainha Isabel II no verão passado.

Porque, então, há tantas orquestras em crise?  Existem quatro factores-chave:

1. A crise financeira
A crise financeira tem tido um impacto particular nas orquestras, devido à sua dependência de donativos. As receitas de bilheteira não são suficientes para cobrir os custos da maioria das orquestras e a diferença que resulta entre despesas e receitas – em alguns casos, 50% do total do volume de negócios – precisa de ser coberta através de uma combinação de subsídios estatais, legados e donativos de indivíduos, empresas e fundações. Nesta altura de dificuldades financeiras, é mais difícil assegurar este género de financiamento.

2. A maldição dos custos
No entanto, seria errado assumir que as dificuldades financeiras das orquestras são puramente cíclicas. No longo prazo, a diferença entre receitas e despesas cresce. A principal razão é um fenómeno económico chamado ‘a maldição dos custos’. Enquanto na maioria das indústrias a produtividade aumenta com o passar do tempo, a interpretação da Eroica de Beethoven precisa exactamente do mesmo número de músicos e do mesmo tempo hoje em dia que há dois séculos. Porque os salários dos músicos, cuja produtividade não tem aumentado, têm subido ao longo do tempo de acordo com os de outros trabalhadores, o custo relativo do concerto é muito maior hoje do que era na altura. Há duas maneiras apenas para enfrentar a ‘maldição dos custos’: cortar na despesa ano após ano ou aumentar a receita. A abordagem preferida tem sido tradicionalmente atrair mais donativos, mas há já algum tempo que as orquestras não têm conseguido grandes resultados: mesmo em 2005, antes da crise financeira, uma orquestra americana média tinha um déficit anual de $193.000.

A Academy of Ancient Music foi aplaudida por milhões de pessoas nas celebrações do jubileu da Raina Isabel II. (Foto: Hilary Everett)

3. O desafio da relevância
Uma razão para isso — e, provavelmente, a principal razão porque tantas orquestras estão em crise – é que têm sustentado uma relevância cada vez menor para o mundo contemporâneo. O sucesso de El Sistema e da YouTube Symphony demonstra que a música em si tem uma atracção universal, mas os concertos tradicionais apresentam-na numa embalagem arcana datada no século XIX. O público encontra-se num silêncio escurecido. Os músicos vestem gravata branca e fraque – um código de vestuário antiquado, dispensado até pela família real há quase um século. A fotografia é frequentemente proibida; avisos pouco simpáticos dão instruções ao público para não tossir; e existem regras não escritas relativamente aos momentos em que se pode aplaudir. A experiência parece esotérica e dissuade muitas pessoas. À medida que os públicos têm diminuído e envelhecido, tem-se tornado mais difícil vender bilhetes, mas também persuadir novas gerações de filantropos e os decisores do sector público que as orquestras merecem o subsídio significativo que necessitam.

4. Novos padrões de consumo via media
Recentemente surgiu um quarto desafio: o desaparecimento da indústria tradicional de discografia (o principal parceiro de marketing para muitas orquestras), e o aumento associado da tecnologia Internet. As vendas de álbuns de música clássica baixaram 20,5% entre 2011 e 2012.  As gravações, que tradicionalmente geravam dinheiro assim como reputação para as orquestras, necessitam agora de um subsídio elevado. Menos ainda estão a ser feitas. No entanto, a procura de conteúdos orquestrais gravados não tem diminuído (como vimos, 33 milhões de pessoas ligaram-se para ouvir o concerto da You Tube Symphony). Simplesmente, as pessoas esperam consumi-los de outra forma. A maioria das orquestras está ainda nos primeiros estádios de percepção destas alterações profundas nos padrões de consumo através dos media – e estão ainda mais longe de encontrar maneiras de rentabilizar novos canais de distribuição. Mas se pretendem manter os seus conteúdos disponíveis no século XXI, devem adoptar as inovações da indústria mais alargada de entretenimento.

A nova applicação iPad da Philharmonia Orchestra. (Foto: Touch Press)

Olhando para a frente
Os que se preocupam com o futuro da música orquestral podem encontrar algum conforto no facto das suas preocupações não serem novas. Mesmo em 1903, o New York Times noticiava que “A temporada orquestral tem sido financeiramente má em todo o país… há sempre um déficit para o qual os filantropos são chamados a pagar.”. Desde aquela altura até hoje, as orquestras têm inovado para sobreviver e muitas continuam a fazê-lo hoje em dia.

Durante três meses este verão, a Academy of Ancient Music fará uma residência na National Gallery de Londres. Os nossos concertos de hora a hora irão dar vida aos quadros da exposição Vermeer and Music para milhares de visitantes. Estamos também a experimentar online: mais de 1,5 milhões de pessoas no ano passado ouviram faixas da nossa música através do nosso AAMplayer. Os nossos colegas da Orchestra of the Age of Enlightenment trabalharam recentemente com Vocal Futures e re-imaginaram, com recurso a multi-media, A Paixão de São Mateus de Bach, procurando atrair públicos mais novos. A River Oaks Chamber Orchestra promete uma ‘experiência multi-sensorial’: os músicos misturam-se informalmente com o público; um programa de baby-sitting tem lugar durante os concertos para famílias às 17h; e ‘provas de música’ regulares permitem ao público desfrutar de música enquanto provam vinhos. O projecto Re-rite da Philarmonia Orchestra  permite ao público ‘dirigir, tocar e entrar no interior da orquestra’ através de projecções sofisticadas de áudio e vídeo e a orquestra lançou recentemente uma aplicação iPad inovadora.  

Ninguém encontrou ainda todas as respostas. Mas estes e outros inovadores levam-nos a quatro importantes conclusões:

· A excelência artística continua a ser um pré-requisito, mas não é suficiente;

· Ao distanciarem a música da sua embalagem datada no século XIX, as orquestras tornam-se interessantes para um público mais vasto, como os 33 milhões de pessoas que ouviram o concerto da You Tube Symphony online;

· As orquestras que inovam com recurso a novos media têm melhores hipóteses de chegar a um mercado mais vasto e criar um perfil para elas próprias e para os seus músicos no mundo da indústria pós-discos;

· A combinação certa de excelência artística, relevância contemporânea e perfil pode ajudar as orquestras a enfrentar os seus desafios financeiros gerando mais receitas e inspirando maiores níveis de apoio da parte de financiadores públicos e privados.


Simon Fairclough é Responsável de Fundraising na Academy of Ancient Music. Em cinco anos, conseguiu aumentar em 500% os donativos e assegurou pela primeira vez na história da orquestra o apoio regular do Arts Council. Desde 2005, tem sido presidente do programa de música extra-curricular da Universidade de Cambridge, onde duplicou o número de ensembles apoiados, nomeou Sir Roger Norrington como Maestro Convidado Principal e transformou o programa artístico através de colaborações com Sir Richard Armstrong, Sir Colin Davis, Sir Mark Elder, Sir Peter Maxwell Davies, Libor Pesek e Bryn Terfel, entre outros.  É Fellow no Kennedy Center em Washington.


Monday, 1 April 2013

Blogger convidado: "As artes no nosso quotidiano", por Tim Joss (Reino Unido)


Há alguns meses, a minha amiga Caroline Miller reencaminhou-me a mensagem de Natal de Tim Joss, onde ele partilhava as suas ideias sobre os desafios que o sector cultural enfrenta hoje em dia na sua relação com as pessoas. Tim é o fundador da Public Engagement Foundation que procura “abrir novos mercados para as artes na nossa vida do dia-a-dia”. Neste post explica porque é que acredita que as artes têm um papel tão poderoso e tanto valor no nosso quotidiano, contribuindo definitivamente para o nosso bem-estar. mv

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5 Soldiers, por Rosie Kay Dance Company (Foto: Brian Slater, em www.rosiekay.co.uk)

Pouco depois de tomar posse, o actual governo do Reino Unido anunciou que queria começar a medir a felicidade das pessoas e ia procurar estar entre os primeiros países a monitorizar oficialmente o bem-estar psicológico e ambiental, a par de medições puramente económicas, como o produto interno bruto. O Gabinete de Estatísticas Nacionais do Reino Unido pôs mãos à obra e, em Setembro passado, publicou a lista de ‘domínios e medidas’ que serão usados para avaliar o bem-estar da nação. Foi nessa altura que soubemos que as artes não são importantes para o bem-estar do Reino Unido. O Gabinete de Estatísticas não tomou em consideração as representações e decidiu que não iria haver uma medida específica para as artes.

Devemos estar muito mais articulados sobre o poderoso papel das artes. Portanto, aqui estão três sinais e histórias promissores sobre o valor das artes no nosso dia-a-dia.

1. Para os que estão fora do sector das artes e não se envolvem com elas, ‘as artes’ significa frequentemente alta cultura em locais luxuosos para os mais abastados – teatros de ópera, teatros nacionais e grandes galerias de arte.

Através da Rayne Foundation, conheço muitos executivos de organizações de beneficência que trabalham dentro e fora do sector das artes. Steve Wyler dirige Locality, uma rede nacional de mais de 700 organizações comunitárias, cada uma das quais ajuda empreendimentos comunitários a crescer, fortalecendo o sentimento de pertença de activos locais e apoiando a acção social nas próprias comunidades. Em 2011, Locality ganhou um contrato com o governo no valor de 15 milhões de libras para formar 5000 organizadores e criar um Instituto de Organizadores de Comunidades. Steve pensa ‘as artes’ nesta perspectiva específica. Questionei-o sobre os seus planos para a formação de todos esses organizadores: “Trabalhas para a mudança de cultura, não é assim?”. Steve concordou. Perguntei: “Usas a cultura para conseguir a mudança de cultura?”. Steve disse que não. Depois disto, um dia tomámos pequeno-almoço juntos para continuarmos a conversa. Evitei falar das ‘artes’ e falei ao Steve dos papéis que diferentes formas de arte podem desempenhar: música para celebrar; teatro para explorar o conflito; fotografia para documentar… Steve ficou muito entusiasmado com a contagem de histórias e o seu poder na transmissão de experiências e sabedoria entre organizadores de comunidades. Apresentei o Steve a Hugh Lupton, um dos maiores contadores de histórias do Reino Unido (conhecia o Hugh do Bath Literature Festival que criei em meados dos anos 90). A Rayne Foundation deu um pequeno subsídio a três contadores de histórias para participarem no encontro de verão de organizadores de comunidades. Foi um sucesso. Reflectindo sobre isto, Steve destacou não só o valor da contagem de histórias, mas também a importância e a força da qualidade artística. Não precisava de ser um especialista em artes para entender o poder  dos contadores de histórias.

2. Os que trabalham no sector das artes falam frequentemente do seu poder transformativo. Este poder limita-se a experiências em salas de concertos, teatros, cinemas e galerias de arte, e em casa, ouvindo música na rádio ou vendo televisão.  Nos locais fora de casa, onde as pessoas passam o seu dia-a-dia – nos locais de trabalho, nos hospitais, nos centros comunitários e nas escolas – as artes não são consideradas prioridade, são algo ‘engraçado’ de ter.

Arthur Koestler é mais conhecido pelo seu romance Darkness at Noon, um trabalho sobre o anti-totalitarismo que lhe trouxe reconhecimento a nível internacional. É também lembrado por ter fundado a Koestler Trust e os prémios atribuídos às capacidades artísticas de delinquentes, doentes mentais e presos. Foi o primeiro programa de artes na justiça criminal e celebrou recentemente o seu 50º aniversário. Hoje em dia, 200 organizações pertencem à Arts Alliance, a entidade nacional para a promoção das artes no sector da justiça criminal. Para além da Koestler Trust, inclui a Clean Break – companhia de teatro de mulheres e Music in Prisons (num projecto típico, um grupo do 10-12 participantes é motivado a experimentar diferentes instrumentos, desenvolver ideias para canções e escrever a letra, como parte de um processo de criação de música nova e inovadora).  O trabalho depende muito da angariação de fundos (pouco é pago pelas prisões) e é vulnerável. Por exemplo, em 2008, o Ministro de Justiça da altura, Jack Straw, cancelou os workshops de comédia na prisão Whitemoor e deu ordens para que todas as actividades similares acabassem.

Mas as provas de que as intervenções são mais que ‘engraçadas’ estão a aumentar. A organização artística de beneficência Good Vibrations usa gamelões da Indonésia (orquestras de percussão calmas e bonitas) para trabalhar com os presos mais difíceis: homens violentos e mulheres auto-destrutivas. Uma avaliação deste trabalho feita pelo Instituto de Criminologia da Universidade de Cambridge mostrou uma diminuição a longo prazo das tendências auto-destrutivas dessas mulheres.


3. Muito frequentemente, organizações artísticas mainstream – subsidiadas e comerciais – atribuem pouca ou nenhuma importância a actividades participativas. Apesar do incentivo financeiro dado pelo Arts Council, este trabalho é ainda o parente pobre nas organizações culturais. Alguns artistas adoptam um tom paternalista, falando de ‘devolver à comunidade’. O outreach pode ter conotações paternalistas também.

Falando com artistas e lendo sobre eles, levou-me a ter uma opinião diferente. Na melhor das hipóteses, há um diálogo entre artista e contexto, enriquecendo o artista, o contexto e as criações artísticas.

Criei os Rayne Fellowships para ‘construtores de pontes’ na sociedade. A primeira onda abordou um problema identificado por profissionais seniores da área da dança: os coreógrafos são muitas vezes apanhados na bolha da dança, não suficientemente ligados ao resto do mundo. Uma fellow, Rosie Kay, fez um estágio no 4º Batalhão de Fuzileiros e no Headley Court (um centro de reabilitação de soldados). Criou um trabalho sobre soldados no Afeganistão e eles disseram-lhe: “É isto! É isto! Percebeste como é.” Suspeito que Rosie se tenha tornado na primeira coreógrafa - artista de guerra.

Este ano é o centenário do nascimento de Benjamin Britten. Em 1945, ele e Yehudi Menuhin participaram num concerto para sobreviventes de Bergen Belsen. Mais tarde, Britten revelou que a experiência acabou por influenciar tudo o que escreveu posteriormente.

A Hepworth Wakefield Gallery tem actualmente uma exposição de Barbara Hepworth, uma das maiores escultoras britânicas do século XX. É uma exposição dos desenhos que fez em hospitais, o resultado de muitas horas que Hepwroth passou em salas de operações. A experiência ajudou-a a cristalizar as suas ideias sobre a pintura abstracta: “Trabalhando no realismo ajuda a reforçar o nosso amor pela vida, a humanidade e a terra. Trabalhando na abstracção parece soltar a nossa personalidade e aguçar as nossas percepções.

As experiências dos artistas longe de organizações artísticas e de outros artistas pode ter um profundo efeito no seu trabalho.


Tim Joss é Director de uma fundação de caridade, a Rayne Foundation. Em 2008, Tim escreveu ‘New Flow – a better future for artists, citizens and the state’. Foi Senior Fellow em políticas culturais no City University e criou a Public Engagement Foundation que procura abrir novos mercados para as artes no quotidiano (no desenvolvimento de comunidades, escolas, prisões, etc.) O primeiro foco é na saúde.  Antes, Tim foi Director Artístico e Director Executivo de festivais na cidade de Bath, onde revitalizou o Bath International Music Festival e fundou a Bath Royal Academy of Music (piano e composição). O Governo Francês atribui-lhe o grau de Cavaleiro da Ordem das Artes e das Letras em 2005.

Monday, 18 March 2013

Blogger convidado: "Festival dos festivais", por Gustavo Gordillo (Colómbia)

No verão passado ouvimos no Kennedy Center a história de Fanny Mikey, uma actriz colombiana, nascida na Argentina, que era uma daquelas pessoas que podem mover montanhas para conseguirem aquilo que querem. E uma das coisas que ela queria era promover as artes na Colómbia. Uma das suas maiores conquistas foi a criação e organização do Festival Iberoamericano de Teatro de Bogotá. Fanny Mikey morreu em 2008, mas as pessoas que com ela trabalharam estão determinadas em continuar a fazer acontecer o maior festival de teatro do mundo. O nosso colega Gustavo Gordillo é o director criativo e aceitou partilhar connosco a sua reflexão sobre o festival que tem mudado o cenário cultural e social da Colómbia. mv

Sara Says, Teatro Petra, Colómbia (Foto: Juan Antonio Monsalve)
Qual é a primeira coisa que vos vem à cabeça quando ouvem falar da Colómbia? Se ainda pensam na violência ou no cartéis de tráfico de drogas, deveriam reconsiderar. A verdade é que nos últimos dez anos o país tem feito uma viragem e é hoje considerado um dos quatro países no mundo com maior desenvolvimento económico, sendo ainda um país com uma economia muito estável. Aqueles tempos difíceis, quando todos pensavam que os Colombianos eram uma ameaça para a sociedade e que nada iria mudar no país, foram deixados para trás. Mesmo assim, há muito ainda por fazer.

A Colómbia, um país com uma localização estratégica no sul do continente americano, tem reduzido os seus principais problemas sociais e tem começado a mostrar grandes avanços em campos artísticos como o cinema, a música, a literatura, o design, a tecnologia e o teatro.

Bogotá, a capital, com 9 milhões de habitantes, é o sítio onde a maioria destas mudanças têm sido implementadas. Tem desenvolvido uma cultura social (dantes praticamente inexistente) e as atitudes dos seus cidadãos estão num processo constante de transformação. Um reflexo deste processo é, talvez, a mais importante instituição cultural dos últimos tempos: o Festival Iberoamericano de Teatro de Bogotá.

E não é de admirar, uma vez que desde a sua concepção, há 28 anos, houve 13 edições. Foram convidadas mais de 2.000 companhias de teatro de 60 países; aproximadamente 3 milhões de pessoas frequentaram todos os anos os teatros e assistiram a eventos de rua na capital, e foram envolvidos aproximadamente 7000 espaços. As actividades educativas foram frequentadas por 20.000 estudantes e quase 30.000 artistas pisaram os palcos dos teatros da cidade. Foi preciso muito esforço e trabalho para se chegar a estes números. A fundadora do festival inventou este evento cultural numa cidade localizada a uma altitude de 2600 metros, uma cidade recordada por ser fria e chata, que não tinha nada para celebrar.

Fanny Mikey, a fundadora e directora do festival, conseguiu mudar a opinião das pessoas, tirando-as das suas casas numa altura difícil para a cidade e para o país, onde a violência, o medo e a impunidade reinavam nas ruas. Desde o primeiro festival, a violência ameaçou a sua existência quando uma bomba explodiu num dos mais importantes teatros. O incidente ocorreu em 1099, na altura mais trágica e difícil da história recente da Colómbia. Sem vítimas mortais, mas com muito medo, era esperado que o festival fechasse as suas portas, mas o público reagiu enfrentando o medo, opondo-se à ilegalidade e assistindo em massa aos eventos. A cultura surgiu como a arma certa para confrontar o flagelo da violência… e o festival continuou.

Desfile inaugural (Foto: Juan Antonio Monsalve)
O público de Bogotá abraçou o festival como se fosse sua propriedade e, desde aquela altura até hoje, as pessoas esperam com ansiedade pela edição seguinte, realizada de dois em dois anos, e assistem em massa aos vários espectáculos, celebrando com diferentes artistas de todo o mundo o maior festival de artes performativas. 

O Festival Iberoamericano de Teatro de Bogotá tonrnou-se no maior festival do mundo. Artistas e encenadores vêm de todos os cantos, como se chegassem a um oásis cultural, onde os espera um público ansioso para conhecer outras culturas. O festival tornou-se num palco prestigiante para actores e encenadores, que voltam e continuam a participar sem interrupções. É por isso que hoje, depois de 13 edições, o sentido de orgulho dos habitantes da cidade neste evento permanece intacto.

O festival apresenta programação para toda a família e pensa também em todos os sectores da população. Começa com um enorme desfile, onde o público da cidade dá as boas-vindas aos países que participam, e que se realiza na avenida principal da cidade e que acaba na praça central. Ali, um concerto dá as boas-vindas a mais de 40.000 participantes, no primeiro evento de entrada livre. Depois disso e durante 17 dias, os 40 teatros mais representativos da capital apresentam produções de todos os continentes. Ao mesmo tempo, o melhor do teatro de rua é apresentado gratuitamente em parques, ruas movimentadas e centros comerciais.

As actividades educativas são de grande importância, uma vez que a maioria dos artistas convidados tornam-se mentores e formadores, realizando workshops e seminários para mais de 1.500 estudantes interessados em aprender sobre as formas artísticas. Este é também um mercado que junta produtores de todo o mundo, criando espaço para todo o tipo de projectos criativos.

Players of Light, Groupe, França (Foto: Juan Antonio Monsalve)
No fim de cada dia, os participantes partilham as suas experiências num espaço onde todos falam a mesma língua: a música. Diferentes bandas tocam música ao vivo e fazem a festa todas as noites. Procurando descentralizar o festival, aproximadamente 4,5 milhões de pessoas nas diferentes regiões do país fazem parte do evento, acompanhando ao vivo num canal exclusivo da televisão pública os eventos aos quais não podem assistir em pessoa.

Ao fim de 17 dias cheios de experiências memoráveis, o evento culmina num encontro sem precedente, onde 300.000 pessoas assistem a um espectáculo de fogo de artifício, música, alegria, sentindo desde logo algumas saudades, uma vez que terão que esperar mais dois anos para a edição seguinte.

Em termos comparativos, festivais similares noutros países desenvolvidos angariam apenas 10% do custo total do evento através da venda de bilhetes, e o restante 90% através de patrocínios e apoios do estado. No Festival Iberoamericano de Taetro de Bogotá a receita de bilheteira ronda os 70%, enquanto os patrocinadores contribuem com 20% e o estado e as embaixadas estrangeiras apenas com 10%. Isto torna o festival num evento de grande risco, mas, ao mesmo tempo, extremamente gratificante para um público interessado em cultura, artes performativas e empenhado em mostrar ao mundo a melhor face da Colómbia: cultura, arte e celebração.

Vinte e seis anos depois, o Festival Iberoamericano de Teatro de Bogotá está mais vivo do que nunca, abrigando-se na visão que o público colombiano adoptou como mote: “Um acto de fé na Colómbia”. Entre 4 e 20 de Abril de 2014, poderão fazer parte do público que irá assistir à 14ª edição do festival, que terá como tema aquele que foi criado para o primeiro festival: “O Melhor Teatro do Mundo na Colómbia, o Melhor da Colómbia para o Mundo”.



Gustavo Gordillo é o director criativo do Festival Iberoamericano de Teatro de Bogotá. Foi co-fundador da primeira companhia de produção da Colómbia especializada em cultura. A companhia associou-se à Fundação Teatro Nacional e com o Festival Iberoamericano de Teatro de Bogotá, que conta com 13 edições e que se tornou no maior festival de teatro do mundo. Estudou marketing e produção cinematográfica e anteriormente trabalhou como realizador e argumentista de spots publicitários, vídeos, telenovelas, eventos e documentários. Gustavo fundou ainda uma conhecida banda musical na Colómbia, que produziu até à data cinco álbuns.

Monday, 4 March 2013

Blogger convidado: "Movimento Cultura Viva Santo André: a sociedade quer diálogo", por Simone Zárate (Brasil)


Lembram-se de Santo André? A cidade onde o inimaginável – para nós – aconteceu, quando a população questionou o Secretário de Cultura sobre as suas políticas culturais e exigiu participar? Fiquei mesmo intrigada com este caso e foi uma feliz coincidência o facto de eu e a Simone Zárate termos um amigo comum, o André Fonseca, que nos pôs em contacto. Simone foi ela própria Secretária da Cultura em Santo André e ajuda-nos a perceber como é que isto aconteceu. Tem um processo longo e contínuo, o resultado de uma visão, de muito trabalho e de determinação. E é bom saber que é possível. mv

Seminário Cidadania e Cultura, 1993. (Foto: Cibele Aragão)
“Pela criação de uma biblioteca municipal e de um salão de conferências”. Esta foi uma das propostas do programa dos candidatos do Partido Social Trabalhista às eleições municipais de 1947 em Santo André. Os candidatos (prefeito e parlamentares) venceram as eleições, porém, foram impedidos de exercer seus mandatos em virtude de problemas políticos em âmbito nacional. A biblioteca municipal foi criada sete anos depois, em 1954.

A história de lutas pela atuação cultural do poder público em Santo André é antiga. Passou por diversos atores e propostas de acordo com os tempos vividos. Santo André é uma das cidades da região conhecida como Grande ABC (A de Santo André; B de São Bernardo; C de São Caetano), localizada na região metropolitana de São Paulo; região que teve seu desenvolvimento impulsionado pela indústria; região de lutas operárias e sociais, mas também de movimentos artísticos e culturais.

Desde 1954 a prefeitura de Santo André intervém no desenvolvimento cultural da cidade. Para o bem e para o mal. Mas foi no início dos anos 90 do século passado que uma atuação incisiva do poder público municipal nas questões culturais tornou-se evidente. Refiro-me à primeira administração do Partido dos Trabalhadores na cidade: criação de novos equipamentos e programas, descentralização de serviços e de poder de decisão, indução da participação social na construção de políticas públicas (com acertos e erros inerentes a qualquer projeto inovador). Não foi um privilégio de Santo André, mas de muitas outras cidades administradas por um partido político que em âmbito nacional contava com reflexões acerca da importância das políticas culturais. Políticas culturais que dissessem não ao clientelismo de balcão (individual ou corporativo) e que induzissem à reflexão e à cidadania – poética e crítica.

Feira de Cultura em Centro Comunitário de Santoa André, 1991. (Foto: Jason Brito Pessoa) 
Muitos dos que hoje participam do Movimento Cultura Viva Santo André participaram também desse período histórico da atuação pública na cultura da cidade, bem como de outros movimentos. Como usuários de serviços culturais, como artistas, como críticos, como trabalhadores, como militantes.  Em 1993, tempos bastante diferentes dos atuais, o Fórum Permanente de Debates Culturais – que retomou suas atividades em 2007, que retomou suas atividades em 2007, colheu milhares de assinaturas contra o “desmanche cultural” ocorrido na mudança da gestão municipal e realizou o Seminário Cidadania e Cultura; em 2009, o Movimento Livre S.A, realizou ato público para sensibilizar o prefeito recém-eleito sobre “a importância do setor cultural para a cidade”. Em 2013, a reivindicação é pela construção conjunta das políticas culturais (e talvez sempre tenha sido: em cada tempo a seu modo).

A participação da população na construção de políticas públicas é um processo longo e de aprendizado conjunto em todas as áreas, porém, na área cultural, algumas questões sempre acabam permeando as conversas sobre o assunto: a população não expressa desejo por cultura; a cultura não figura entre as prioridades – nem de governos, nem de cidadãos; o interesse por políticas culturais gira em torno de interesses pessoais e/ou corporativos. Correto em parte: durante muito tempo (e ainda hoje) testemunhamos reivindicações umbilicais, para o “quintal lá de casa”, o financiamento ao meu segmento artístico. No entanto, gradativamente nos últimos anos, essas preocupações corporativas vêm sendo ocupadas por preocupações com o coletivo, por preocupações com as diretrizes da política cultural não apenas em relação aos segmentos específicos, mas em relação à cidade.

No Brasil, a ocorrência desta mudança certamente está associada à política do governo federal, especificamente do Ministério da Cultura, que a partir de 2003, dentre outras ousadias, praticou a ampliação do conceito de cultura na política estatal, estimulou a participação social através de conferências, seminários, fóruns, colegiados, etc. e implantou o Programa Cultura Viva, cujas diretrizes são o empoderamento, o protagonismo e a autonomia de “fazedores” culturais dos diversos cantos e recantos do país. A cultura além das artes e do patrimônio, a cultura feita pelo povo e o Estado como indutor. Somamos a isso as transformações nas relações sociais advindas da internet, especialmente das redes sociais e dos movimentos de software livre: horizontalidade e processos colaborativos.

Um governo eleito sempre possui algum programa, bem como responsabilidades e limitações legais e orçamentárias, porém, tais limitações não impedem a abertura de diálogo. Por mais iluminada e bem intencionada, uma política cultural de gabinete não refletirá a realidade, os desejos, dinamismos e necessidades da população. Apenas desta constatação já deveria partir a necessidade de construção conjunta, resultado da somatória de informações, possibilidades e limitações do governo e da sociedade traduzido em programas e ações, mas também espaço de explicitação e resolução pactual e transparente de legítimos e necessários conflitos.

Reunião do Movimento Cultura Viva Santo André, 2013. (Foto: Marcello Vitorino)
O Movimento Cultura Viva Santo André, ao que tenho observado (ver gravações das reuniões no fim do post) e ao que consta em carta entregue ao prefeito e vereadores eleitos (contendo 13 tópicos, alguns dos quais reforçando  propostas do Programa de Governo da atual administração veiculado durante a campanha eleitoral), não se pretende de oposição e não é corporativo. Ao contrário, está permeado pelo desejo de diálogo, pela construção coletiva, pela autonomia, pela descentralização de poderes e de lideranças, pelo desejo de políticas culturais para a cidade que proporcionem o direito à efetiva cidadania. Quer participar politicamente, no sentido de discussão da pólis, e com isso se fortalece.

Como cantado por Mercedes Sosa, "todo cambia". "Cambia lo superficial, cambia también lo profundo, cambia el modo de pensar, cambia todo en este mundo". Como o próprio significado da palavra, os Movimentos também mudam, vão e vem, adormecem em alguns períodos e permanecem atentos em outros. Porém, o acúmulo cultural, poético e crítico são ressignificados e permanecem presentes. Oxalá!


Simone Zárate é mestre em Cultura e Informação pela Universidade de São Paulo. Desde 1991 atua na área, tendo sido Agente Cultural e Secretária de Cultura, Esporte e Lazer na Prefeitura de Santo André, e Coordenadora de Desenvolvimento Social no Consórcio Intermunicipal do Grande ABC.  É pesquisadora e consultora independente em gestão cultural e políticas culturais e diretora do IFOC – Observatório & Formação Cultural.


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Reunião de 04 de fevereiro

Reunião de 18 de fevereiro

Monday, 25 February 2013

Blogger convidado: "Líderes natos, líderes feitos", por Assis Carreiro (Bélgica) e Thomas Edur (Estónia)

Penso frequentemente no que faz um bom líder, um grande líder. Aquela pessoa que tem a visão e a determinação de traçar e seguir um caminho e que, ao mesmo tempo, é capaz de inspirar, reunir à sua volta e liderar muitas outras pessoas, essenciais para a missão ser cumprida. Por isso, fiquei muito interessada quando a minha amiga Caroline Miller, directora do Dance UK, me escreveu sobre o Rural Retreats, um think tank internacional que olha para o futuro do bailado e da dança. As sessões trazem oradores convidados do mundo dos negócios, do desporto e das artes que se juntam aos profissionais da dança, partilham experiências e permitem pensar, sem limitações e preconceitos, sobre o papel da dança na sociedade contemporânea. Os grandes líderes nascem ou são criados? Ou um pouco dos dois? Assis Carreiro, Directora Artística do Royal Ballet of Flanders e a pessoa que concebeu e lançou os Rural Retreats, e Thomas Edur, Director Artístico do Estonian National Ballet, partilham a sua experiência e escrevem sobre os desafios que enfrentam. É muito interessante que ambos falam dos egos; e ambos falam das pessoas… mv

Assis Carreiro com Lynn  Seymour e Karen Kain no Rural Retreats de 2012. 

Como fundadora e produtora dos Rural Retreats, abordei o último encontro de directores artísticos de todo o mundo com grande entusiasmo, mas também com algum nervosismo, dado que, pela primeira vez, não estaria apenas no papel de anfitriã, mas de participante também, tendo acabado de assumir a função de Directora Artística do Royal Ballet of Flanders. Esta última edição, portanto, foi um bónus duplo para mim. Por um lado, produzi um think tank pelo qual estou apaixonada e determinada em fornecer a uma comunidade de dirigentes – desesperadamente à procura de apoio, de debate com os seus pares, de estímulo por parte dos oradores convidados de outras áreas profissionais. O sucesso das edições anteriores mostra o quanto estas têm sido cruciais e necessárias para o bem estar e o desenvolvimento de existentes e futuros líderes na área da dança. Por outro lado, o fim-de-semana era exactamente o que precisava quatro meses depois de ter assumido funções como Directora Artística – uma oportunidade para aprender e ouvir, fazer muitas perguntas práticas sobre o dia-a-dia no trabalho, assim como perguntas mais profundas, filosóficas, sobre esta forma de arte pela qual estamos todos tão apaixonados.  

Quando concebi os Rural Retreats, há doze anos, nunca tinha pensado que um dia iria dirigir uma companhia. Mas, com o passar do tempo, pensei que seria um desafio do qual iria gostar e… aqui estou. Devo dizer que não poderia ter feito este trabalho antes. Precisava não só de experiência profissional, mas também de experiência de vida – é crucial e é esta experiência que vou buscar no fundo do meu saco que me ajuda a encontrar soluções e manter-me sã. Ter uma família, enquanto continuo a assumir desafios e negociações, contribui também para a minha sanidade e ajuda-me a perceber que há mais na vida do que a dança. Eles são o mais maravilhoso sistema de apoio e clube de fãs quando a situação se torna difícil!

Este trabalho é antes de mais um trabalho com pessoas. Como Directora Artística, sou responsável pelas suas carreiras – o seu desenvolvimento -, e essas são carreiras frágeis e curtas e tudo se torna pessoal. Os bailarinos estão constantemente a ser julgados e há decisões difíceis a tomar. Tenho mesmo que pôr de parte o meu ego e cuidar de outros 52 egos e ainda da equipa artística, coreógrafos convidados e repetidores, equipa administrativa, membros do Conselho Consultivo e, claro, das necessidades do nosso público. É malabarismo a alta velocidade, sempre com um sorriso e uma atitude forte, clara e positiva…

Os desafios: 

1) Dinheiro, dinheiro, dinheiro: se houvesse suficiente, poderíamos simplesmente fazer o nosso trabalho, mas esta é uma frustração e um desafio constantes e, nestes tempos difíceis, temos mesmo que pensar “out of the box” sobre como vamos sobreviver e manter a nossa forma artística relevante e vibrante e compreendida por um público mais amplo, fora do nosso mundo pequeno e frágil.

2) Ser nova: Sou nova, por isso tenho que provar a todos o que sou capaz de fazer e ganhar a sua confiança. Isto leva tempo. Tive que programar uma temporada inteira em apenas duas semanas – o que foi uma perfeita loucura, mas consegui e a equipa juntou-se a mim para a tornarmos realidade. Isto tem sido maravilhoso e espero ter começado a ganhar a confiança deles aos poucos.

3) No primeiro ano, cada dia é um dia de aprendizagem: Não tenho medo de fazer perguntas e juntei-me a uma companhia com uma enorme riqueza de experiências, por isso, pergunto e aprendo, mas posso também ensinar, com a minha experiência de 32 anos nesta profissão, em várias companhias e papéis, que me deu a confiança de aceitar este último posto.

4) As pessoas: reunir as pessoas certas para embarcarem comigo nesta viagem e seguirem a minha visão. Se não forem as pessoas certas, deverão procurar um outro barco para navegar, dado que precisamos de trabalhar em conjunto, como uma equipa coesa de indivíduos empenhados. Na área da dança é difícil, porque muitas vezes não se trata das pessoas serem boas ou não, mas se se enquadram nesta nova forma de trabalhar, se estão abertas à mudança e a novas formas de levar as coisas para a frente. Em Antuérpia, estou mesmo a tentar criar um forte ensemble de bailarinos e, felizmente, herdei uma base forte para o poder fazer, mas as equipas técnicas e de produção, assim como a administrativa, são igualmente importantes para o barco navegar na direcção certa.

5) A alegria: tem que haver sempre alguma! O trabalho de coreógrafos maravilhosos interpretado por bailarinos com enorme talento e depois… ver a reacção do público; isto faz com que tudo mereça a pena e o prazer da programação que os leva ambos a uma viagem – e a mim também!

Assis Carreiro é Directora Artística do Royal Ballet of Flanders desde Setembro 2012. Foi Directora Artística e CEO do DanceEast England entre 2000 e 2012, onde criou os Rural Retreats, uma série de think tanks internacionais que apoiam o desenvolvimento de liderança na área da dança para directores artísticos, existentes e futuros; o Snape Dances, uma série internacional de dança em Snape Maltings; e o Centro Nacional de Coreografia. Liderou um projecto capital do DanceEast, que em 2009 culminou na abertura do Jerwood Dance House nas docas de Ipswich e que custou 9 milhões de libras. Em 1998/99, foi programadora em DasTAT para a companhia de William Forsythe em Frankfurt. Em 1994/96 foi directora de DanceXchange em Birmingham e trabalhou para Wayne McGregor|Random Dance. Antes de se mudar para o Reino Unido em 1994, foi Directora de Educação, Outreach e Publicações no National Ballet of Canada.

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National Ballet of Estonia (Foto: Harri Rospu)

Sou Director Artístico do Estonian National Ballet há quase quatro anos. Assumi esta função depois de ter trabalhado durante muitos anos como bailarino principal no English National Ballet. A transição da condição de bailarino principal autónomo e
freelancer para dirigente de uma companhia com mais de 70 pessoas foi enorme.  Tinha estado a pensar no como isto seria ao longo de muitos anos, porque sabia que queria ser um dia Director Artístico. Há alguns anos, tinha participado nos Dance Retreats do DanceEast para futuros directores de companhia e tinha falado com outros colegas sobre o papel, mas nada nos prepara realmente para a realidade.

Lições aprendidas?

1. Não o faça pelo seu ego, faça-o porque gosta de transmitir os seus conhecimentos.

2. Ensine algo a alguém e vai aprender sobre si e o seu estilo de liderança.

3. Comunicar e falar com as pessoas é vital – mas vai ficar cheio de trabalho e descobrirá que não tem tempo para falar com as pessoas. Arranje tempo, é essencial.

4. Tente ser razoável e justo.

5. Prepare-se para trabalhar muitas horas – mas admita que tem que encontrar um equilíbrio entre o trabalho e a sua vida fora dele para se manter são.

Quando estive no Rural Retreats na Inglaterra este ano, tive a oportunidade de estar com outros 27 directores artísticos de companhias de dança de todo o mundo. Não partilhámos apenas os nossos desafios e oportunidades, mas ouvimos oradores que trabalham em áreas como o desporto de alta competição, a psicologia e a ópera. Tínhamos muito em comum.

A Estónia é um país pequeno e cada país enfrenta desafios diferentes, mas o financiamento é sempre uma grande questão. Afecta o trabalho artístico que podemos criar, mas não nos pode impedir de criar. Algumas vezes, penso que ter menos recursos é uma oportunidade criativa. Orçamentos para produções de luxo podem significar que estamos a deitar fora a oportunidade de nos expressarmos apenas com o corpo. E tudo tem a ver com isto – a música e o corpo.

Para mim pessoalmente, o desafio que mais me preocupa é lidar com os artistas. Estou a pensar constantemente em como contribuir para o seu desenvolvimento, não apenas no futuro imediato, mas a longo prazo. Mantê-los motivados e com energia pode ser difícil. Os bailarinos são fortes e independentes e muitas vezes esta característica é negligenciada, porque a forma artística é silenciosa. A sociedade não se relaciona facilmente com isto. Tudo tem a ver com auto-promoção, ser entrevistado para a televisão, fazer ouvir a sua voz – enquanto a dança tem a  ver com mostrar o que se pode fazer em vez de falar sobre isso. Muito poucos bailarinos serão famosos e, para aqueles que o forem, pouco tempo depois chegará o momento de se reformarem.

Ser Director Artístico de uma companhia de dança significa que o teu activo mais importante são os bailarinos. Está-se a lidar com pessoas que estão a fazer um esforço enorme para conseguirem algo e, algumas vezes, podem ser mal entendidas. Todos os bailarinos profissionais trabalham para conseguir o máximo da sua capacidade física. É muito semelhante ao lidar com o talento na área do desporto. O meu desafio como líder é mostrar-lhes que se me ouvirem irão dançar melhor e este é um processo a longo prazo. Como Director Artístico, tem-se que mostrar resultados, e quando um bailarino tem sucesso, outros se seguirão.

Thomas Edur é Director Artístico do Estonian National Ballet desde 2009. Foi uma estrela internacional na área da dança, tanto como solista, como também na parceria com a sua mulher, Agnes Oaks. É também professor e coreógrafo, empenhado em promover a excelência na dança. Em 2001, foi-lhe atribuída pelo Presidente da Estónia a Ordem da Estrela Branca. Em 2010, a Rainha Elisabete de Inglaterra atribuiu-lhe o Grau de Commander of the Most Excellent Order of the British Empire (CBE), em reconhecimento dos seus serviços na área das artes no Reino Unido nas relações culturais Reino Unido-Estónia.
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O meu agradecimento à Caroline Miller por toda a sua ajuda.

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Monday, 11 February 2013

Blogger convidado: "Nepal a desafiar-se a si próprio e ao mundo", por Sangeeta Thapa (Nepal)


Sangeeta Thapa é minha colega no fellowship do Kennedy Center. No verão de 2011 tive a oportunidade de ter uma longa conversa com ela sobre a primeira edição do Kathmandu International Art Festival, sendo a Sangeeta a sua impulsionadora. Vi o catálogo, aprendi sobre alguns dos artistas, uma história trazia sempre outra. Nessa altura, Sangeeta falava já da próxima edição do Festival, que seria dedicada a questões ambientais. Esta teve lugar em Novembro passado e as fotografias colocadas no Facebook eram lindíssimas. Sangeeta partilha aqui essa maravilhosa experiência que juntou artistas de 31 países e que envolveu o país inteiro. Este post foi escrito juntamente com Sharareh Bajracharya (Festival Coordinator) e Nischal Oli (KIAF Media Coordinator). mv 

"We may end up in the same boat", por Michelle Spalding (Foto: KIAF)
O Kathmandu International Art Festival (KIAF) é um festival de arte contemporânea não comercial, que se organiza de três em três anos com o objectivo de “colocar firmemente o Nepal no mapa global como um foro para a arte contemporânea, dar espaço à colaboração artística e ao intercâmbio entre artistas internacionais e locais, e usar a arte como uma plataforma para a reflexão crítica e a sensibilização da sociedade”. Cada edição do Festival concentra-se numa temática específica, de interesse local e global.

Em Novembro 2012 a Siddhartha Arts Foundation apresentou a 2ª edição do KIAF, centrada na temática do ambiente, da ecologia, das alterações climáticas e da relação humana com a natureza. Apesar de Nepal não ser um poluidor global, somos uma nação vulnerável. As alterações climáticas são um tema de grande importância para nós, uma vez que as montanhas dos Himalaias abrigam as maiores torres de água no mundo. O aquecimento global resultaria num tsunami vertical que poderia inundar 33 países.

A gestão do Festival envolveu diferentes instituições e pessoas na comunidade artística, e o Festival foi visto como uma plataforma de apoio para uma forte e emergente geração de artistas contemporâneos no país. Um dos mais importantes objectivos do Festival é promover a arte contemporânea do Nepal, por isso, foi possível juntar um conjunto de energias individuais e colectivas, que atraíram uma maior audiência, criando um impacto ainda maior. O KIAF manteve-se como plataforma de intercâmbio interdisciplinar sobre questões levantadas pelo tema e objectivos do Festival. Este intercâmbio foi promovido, através de todas as dimensões do Festival, entre instituições, artistas, os media, comunidades tradicionais e instituições de educação. Existe um consenso geral que o Festival foi uma esforço colaborativo e que as pessoas superaram aquilo que teria sido o seu dever para o fazer acontecer. Desta forma, criou-se um sentimento colectivo de pertença.


Seguindo a nossa missão de tornar a arte contemporânea acessível a um público mais alargado, e a colocá-la em diálogo com as pessoas, o KIAF exibiu os trabalhos dos artistas em vários locais em toda a cidade. Os trabalhos foram levados até à porta de casa das pessoas. Isto significa que mais pessoas visitaram as exposições e permitiu-nos tirar a discussão relativamente ao aquecimento global do domínio da academia e de a levar ao mundo das artes criativas e às pessoas. A alargada representação e a variedade de formas de arte permitiram atrair públicos diversos e deixaram uma impressão monumental. 

Pessoas de todo o país foram testemunhas de uma exposição de arte contemporânea e experienciaram um trabalho interpretativo relativo à serpente mítica, a “Naga”, cujas histórias são conhecidas da maioria dos Nepaleses. Não existem garantias que as pessoas tenham entendido na totalidade a intenção do artista do Camboja ao criar aquela obra de plástico reciclado, mas fez com que todas as pessoas que entrassem naquele espaço parassem, olhassem, admirassem e questionassem. Em geral, as pessoas liam as legendas de todas as obras expostas e queriam saber mais. Os artistas tiveram a possibilidade de ir a todos os espaços novos, ver novas possibilidades em termos de espaços para exibir, encontrando uma razão para fazerem o seu trabalho.


"Naag" por Leang  Seckon (Foto: KIAF)
Houve visitas guiadas para vários grupos etários. O trabalho de outreach criou confiança e permitiu que a comunidade artística se apercebesse da necessidade de envolver as escolas, os alunos, as famílias, para além de uma grande variedade de instituições, no seu trabalho. A Horlicks (Glaxo Smith and Kline) patrocinou e organizou três concursos artísticos em três cidades, motivando as crianças para recolher materiais e criar instalações tridimensionais, colagens ou mixed media/pinturas. As suas pinturas foram expostas no átrio do British Council como parte integrante do KIAF.

Mais de 400.000 pessoas visitaram ou viram partes das exposições, eventos, espectáculos, actividades de outreach do KIAF 2012. Entre estas pessoas, 100.000 foram registadas como visitantes dos espaços de exposições. As pessoas tiveram um sentimento de excitação, alegria e de curiosidade relativamente às diversas formas de arte, os lugares de onde vinham as pessoas e as questões levantadas pelos artistas. Os visitantes criaram laços profundos com Nepal. As reacções da comunidade de Patan foram muito fortes. Um grupo de seniores apanharam o autocarro Nevitrade porque ficaram entusiasmados com a ideia. Acabaram por visitar todos os espaços e gostaram do tour. Um dos senhores, quando chegou a Metropark, deu uma volta maravilhado e disse: “É graças a vós que chego a ver esta parte da cidade e tenho a possibilidade de ver trabalhos que nunca tinha visto ou pensado antes!”.   


O autocarro Nevitrade (movido com bateria) teve muita publicidade e muitas solicitações para eventos depois do KIAF 2012 (Foto: Sangeeta Thapa)
O Festival tentou reduzir o mais possível, dentro dos seus recursos, as suas pegadas de carbono. Uma das formas principais foi promovendo actividades de energia limpa – o pessoal usou bicicletas e transportes públicos e trabalhou em conjunto com a comunidade de ciclistas. Em colaboração com a Nevitrade, tivemos a possibilidade de operar um autocarro de energia limpa que levou as pessoas aos vários espaços expositivos. O Festival procurou ainda reduzir as emissões de carbono alojando os artistas próximo dos seus locais de trabalho. Sacos reciclados foram produzidos a partir de lonas usadas por várias organizações na cidade. Depois do Festival, as nossas faixas foram recolhidas e transformadas em sacos e pastas.

No que diz respeito ao financiamento e o fundraising, trabalhar com o governo foi o maior desafio antecipado. O Secretário de Cultura mudou seis vezes e de cada vez era necessário reverem os seus compromissos. Em termos do orçamento governamental, foram pagos apenas os salários dos funcionários e as necessidades básicas para o funcionamento das instituições. Qualquer montante que tivessem prometido não chegou a ser efectivado. Tivemos problemas parecidos com o Nepal Tourism Board. Com o generoso apoio da Prince Claus Fund, da Embaixada do Brasil, do WWF, da Hariyo Ban, da USAID e de outros, a escala do Festival expandiu exponencialmente, resultando na necessidade de mobilizar negócios locais, bancos, embaixadas, indivíduos e fundações de arte com afiliações no Nepal. Foi um desafio, no mínimo. Foi extremamente difícil conseguir com que certos financiadores cumprissem os seus compromissos. As embaixadas pagaram os montantes do seu patrocínio após o encerramento do Festival, e estamos à espera ainda da maior parte do dinheiro que foi angariado localmente. Seremos capazes de efectuar todos os pagamentos pendentes apenas na primeira semana de Março. 

O KIAF 2012 criou um caminho para a Siddhartha Arts Foundation desenvolver mais trabalho que junte diferentes organizações e instituições para promover a arte contemporânea no Nepal. No que diz respeito ao KIAF 2015, teremos que pensar e planear bem para conseguirmos manter a escala e qualidade dos trabalhos. Enquanto o preparamos, a Fundação irá continuar a trazer artistas internacionais a Kathmandu, a criar projectos com a comunidade para promover a participação das pessoas, a trabalhar com museus locais e a criar estruturas onde as crianças e o público em geral terão a oportunidade de interagir com e reflectir sobre os trabalhos artísticos.


Sangeeta Thapa é a fundadora e directora da Siddhartha Art Gallery que foi estabelecida em 1987 em Kathmandu. Nos últimos 25 anos, organizou mais de 400 exposições e promoveu vários projectos artísticos com a comunidade, que juntaram artistas, poetas, escritores, músicos, actores, bailarinos e pessoas de vários grupos sociais. Organizou ainda duas Feiras Internacionais de Arte, a última em 2012, na qual participaram artistas de 31 países. Em 2010 fundou, juntamente com Celia Washington, o Kathmandu Contemporary Art Centre (KCAC), no Patan Museum, que integra a Biblioteca Washington e que serve ainda como espaço para residências, onde artistas nacionais e internacionais partilham estúdios. Em 2011, registou a Siddharta Arts Foundation, que apresentou a segunda edição do Kathmandu International Art Festival. Sangeeta é a mentora de muitos artistas e gestores culturais que estão a promover o movimento da arte contemporânea localmente. É membro do Conselho Consultivo do Patan Museum Development Committee e autora do livro “In the Eye of the Storm – The Drawings of Manuj Babu Mishra”. Colabora com o programa Australian Himalayan Foundation Art Awards, que atribui todos os anos bolsas a dois artistas Nepaleses.