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Sunday, 8 July 2018

Profissionais de museus: novas competências


O meu artigo no mais recente Boletim do ICOM Portugal (Série III, Junho 2018, Nº12, pág.25), editado por Ana Carvalho. Ler aqui

Monday, 29 January 2018

Ainda sobre o Maria Matos: o etos de um teatro

"Have a Good Day!", de Vaiva Grainytė, Lina Lapelytė, Rugilė Barzdžiukaitė (Foto: Simonas Svitra). Teatro Maria Matos, 2017

Etos: (grego éthos-ouscostumehábito), substantivo masculino
Conjunto
 de características ou valores de determinado grupo ou movimento.
Fonte: Dicionário Priberam

Anne Pasternak assumiu a direcção do Brooklyn Museum em Nova Iorque em 2015, sucedendo a Arnold L. Lehman, que tinha ocupado o lugar durante 18 anos. A Anne impressionou-me pela positiva na sua primeira entrevista ao New York Times quando afirmou: “I am excited to build on that ethos of welcome” (numa tradução livre minha: Estou entusiasmada por poder construir sobre esse etos de bom acolhimento).

Na altura da nomeação de Pasternak houve várias vozes a criticar a escolha de alguém que nunca tinha trabalhado num museu. No entanto, a mim bastou-me esta frase, mesmo-mesmo no final do artigo no New York Times, para pensar: Ela percebeu! Ela percebeu “quem” é o museu para o qual vai trabalhar.

Thursday, 30 November 2017

Lutas operáticas


Andando pelas ruas de Viena, há três ou quatro anos, vi o cartaz de "Hansel e Gretel" da Oper Frankfurt. Muito tempo passou, mas ainda consigo lembrar-me do sorriso e da sensação calorosa que esse cartaz me provocou. Simples, directo, engraçado, informativo. Foi um momento e foi sobre ópera.

Thursday, 9 March 2017

Sunday, 30 October 2016

MAAT, gerador de expectativas

Imagem retirada do website do MAAT.
Continuo admirada com a forma como o recém-inaugurado edifício do MAAT – Museu de Arte, Arquitectura e Tecnologia, da autoria de Amanda Levete, se integra na paisagem. Quando me aproximo daquela zona ou quando atravesso a ponte, espero sempre ver um edifício enorme que se sobreponha ou que esconda a Central Tejo. Mas não...... A Central Tejo continua majestosa, sendo que o novo edifício surge ao seu lado como uma nota suave e fluída.
O meu primeiro contacto com o novo museu foi em Junho. Na verdade, tratou-se da reabertura do “velho” museu (Museu da Electricidade na Central Tejo), depois das obras de renovação, e foi lançada a marca MAAT. Acompanhei depois a campanha para a inauguração do novo edifício e li algumas entrevistas do director do museu, Pedro Gadanho, tendo, assim, formado uma primeira opinião / expectativa. As várias críticas que surgiram com a inauguração do edifício e algumas conversas com colegas trouxeram-me mais “food for thought”. A minha primeira visita ao novo edifício também.

Sunday, 24 July 2016

Gerir museus

Imagem retirada do Facebook do Museu Nacional de Arte Antiga

A reclamação de um novo estatuto jurídico, de um estatuto especial, por parte do Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA) tem resultado num debate muito saudável no meio dos museus, sobretudo (e infelizmente) depois do anúncio do Ministro da Cultura que este estatuto irá mesmo ser atribuído. Independentemente das críticas, positivas ou negativas, que temos a fazer sobre este caso e sobre este processo, não há dúvida que devemos este debate, muito necessário, ao MNAA, ao seu director, António Filipe Pimentel, e a toda a equipa do museu*.

Saturday, 28 May 2016

Primeiro no nosso coração

Imagem cedida pelo Museu Nacional Soares dos Reis
De que forma poderíamos definir o ‘primeiro’ museu? Será aquele que melhor cumpre a sua missão? Ou aquele em que pensamos primeiro quando ouvimos a palavra ‘museu’ (o sonho de qualquer marketeer)? Será aquele que tem a maior colecção ou aquele que tem a melhor colecção? Será aquele que faz mais exposições? Será o ‘primeiro’ museu aquele que produz muitas notícias para os media, mas continua a trabalhar para a mesma elite? Ou será aquele que raramente é notícia, mas que trabalha para diversificar as suas ‘elites’? Qual deles merece ser considerado ‘primeiro’? E quem atribui a ‘primacia’, o museu a si próprio ou os destinatários, reais e potenciais, da sua acção?

Saturday, 7 May 2016

E então?

"E então?" Uma pergunta / reacção bastante frequente no que diz respeito ao nosso sector, quer verbalmente expressa ou secretamente pensada. É uma pergunta legítima, que raramente estamos disponíveis para discutir.

Rembrandt Harmenszoon van Rijn, "Retrato de Marten Soolmans" e "Retrato de Oopjen Coppit" (imagem retirada do jornal Telerama)

Quando li pela primeira vez a notícia sobre a aquisição conjunta por parte do Louvre e do Rijksmuseum das obras de Rembrandt Retrato de Marten Soolmans e Retrato de Oopjen Coppit, por €160 milhões, não pensei propriamente "E então?", mas sim "Porquê?". Porquê estes dois quadros? Porquê todo esse dinheiro? Quando procurei entender um pouco melhor a importância dessas duas obras (qualquer que fosse a sua importância, dentro do contexto da história da arte ou qualquer outra), fui mais frequentemente confrontada com o adjectivo "raro". Os retratos são "raros", a sua exposição em público foi extremamente "rara”, etc. etc. Isto levantou ainda mais perguntas: Raros como? Porque é que devem ser vistos com mais frequência? Porque é que esses dois museus públicos fizeram um esforço tão grande (financeiro e colaborativo) para os adquirir?

Sunday, 6 March 2016

Passado recente

Exposição Retornar - Traços de Memória, Lisboa
Há umas semanas, li o texto de Lily Hyde Living Memory II, que questiona a construção de narrativas a partir de acontecimentos históricos recentes. Neste caso, o conflito armado no leste da Ucrânia e, especificamente, na cidade de Slavyansk. Um pouco mais de um ano antes, Hyde tinha falado com a directora do Museu de Slavyansk, Lilya Zander, que já estava a coleccionar Troféus de uma guerra incompreensível. Naquela altura, a directora do museu tinha dito que "O nosso trabalho é contar a história da nossa região", acrescentando que "O museu não está a tentar mostrar que está 'a favor' e 'contra'. Estamos a tentar mostrar os factos.”

Sunday, 31 January 2016

Pavões, avestruzes e a terceira via

Anne Pasternak, Directora do Brooklyn Museum (Foto de Erin Baiano para o New York Times)

Há umas semanas, li uma notícia sobre seis curadores do Canadian Museum of History que manifestaram preocupações éticas em relação à compra de objectos recuperados do naufrágio do Empress of Ireland. Estas preocupações incluíam a maneira como tinham sido recolhidos os objectos e o facto do museu ter pago para adquirir artefactos de um sítio arqueológico. Não só as suas objecções foram descartadas, como o museu contratou um advogado e ameaçou-os com uma acção legal, caso partilhassem as suas preocupações com outras pessoas. De acordo com o Presidente e CEO do Museu, Mark O'Neill, "É normal haver discussões internas como esta, e, francamente, torná-las públicas não é." (ler mais). Esta afirmação fez-me pensar quais seriam os temas ‘apropriados’ para serem discutidos em público e porque é que as condições de aquisição de objectos para as colecções do museu não seria um deles.

Sunday, 20 September 2015

Acesso intelectual e não uma saída fácil


A promoção do acesso intelectual por algumas pessoas no sector cultural é muitas vezes descartada por outras como 'emburrecimento' (dumbing down). Recentemente, li o seguinte no ensaio de Rob Riemen "O eterno retorno do fascismo":

"Na cultura desta sociedade [a sociedade de massa; nossa sociedade contemporânea], há uma tendência para o menor, o nível mais baixo, porque é aqui que se encontra a maioria das coisas que as pessoas podem partilhar. É exactamente por isso que os indicadores da educação universitária são nivelados por baixo, de modo que ‘todos’ possam estudar e obter um diploma. E o mesmo se aplicará às artes, porque elas terão de ser acessíveis a todos, não só no que diz respeito às propinas, mas também ao nível de compreensão. Afinal, a mais feroz indignação é dirigida ao que é difícil. Porque o que não é compreendido imediatamente por todos é difícil, ou seja ‘elitista’ e, portanto, não-democrático." (tradução minha do grego)

Sunday, 6 September 2015

A bofetada italiana

Eike Schmidt, novo director do Uffizzi (imagem retirada de The Art Newspaper, Foto: Zuma Press/Alamy)

"Uma bofetada na cara dos arqueólogos e historiadores de arte italianos." De acordo com um artigo de Margarita Pournara no jornal grego I Kathimerini, esta foi a declaração de Vittorio Sgarbi, ex-Ministro da Cultura italiano, em relação à nomeação de sete profissionais estrangeiros como directores de museus italianos.

A questão foi amplamente discutida em diferentes meios a partir do momento que foi anunciada a nomeação, em 18 de Agosto.

Tuesday, 14 July 2015

Quem és tu?



Tenho algumas impressões fortes das paredes do metro em Londres (e de outras cidades), uma plataforma fundamental para uma pessoa se manter informada sobre a oferta cultural da cidade. Agora, imaginem o que aconteceria se as organizações culturais, competindo entre si e com outras entidades para a atenção das pessoas, não considerassem cuidadosamente a sua identidade visual para poderem destacar-se e fazer uma ligação imediata tanto com os indivíduos interessados ​​como, e especialmente, com os mais distraídos.

Friday, 26 June 2015

A mensagem, a linguagem, as opções


Paula Sá Nogueira no programa Inferno.
Mais uma vez, a discussão que se gerou após o anúncio da atribuição dos apoios da Direcção-Geral das Artes (DgArtes) fez-me pensar sobre a forma como este sector comunica com o público, com os cidadãos e contribuintes. Há uma questão maior, claro, a dos apoios em si: do sistema de candidaturas, da avaliação das propostas, do acompanhamento das estruturas, do propósito e da duração dos apoios. Mas hoje, aqui, a minha reflexão centra-se na comunicação.

Monday, 11 May 2015

Uma boa ideia, duas respostas, algumas lições


Passam este ano 125 anos desde a morte de Vincent Van Gogh. A partir de 3 de maio e ao longo de 125 dias, o Museu Van Gogh em Amsterdão irá responder a 125 questões sobre o pintor, a sua vida e a sua obra. O museu convida todos os interessados ​​a fazer uma pergunta através do seu website e de uma página especialmente criada para apresentar as perguntas e respostas (ver vídeo promocional e visitar a página).

Monday, 27 April 2015

Museum Next começa aqui

Christian Lachel, BRC Imagination Arts (Foto: Maria Vlachou)
Parece-me que as três palavras mais ouvidas na conferência de 2015 do MuseumNext foram: emoção, histórias, envolvimento. Palavras que registam claramente a mudança que tem estado a ocorrer na atitude dos museus, com o objectivo de estabelecer, com a ajuda de suas colecções, uma relação melhor e mais relevante e significativa com as pessoas - mais pessoas, pessoas diferentes, pessoas comuns.

Uma apresentação que foi inteiramente dedicada a este tema foi "Emotionalizing the Museum", de Christian Lachel da BRC Imagination Arts. "A experiência estará a transformar os seus visitantes fazendo-os querer partilhá-la com outros?", perguntou Christian. E esta é, provavelmente, a pergunta certa. Embora a transformação que todos nós tanto desejamos fazer acontecer pode levar algum tempo para ser conscientemente reconhecida pelas pessoas (se chegar a ser reconhecida), o desejo irresistível de compartilhar com os outros é um indicador mais imediato da ocorrência de um encontro significativo. E o ponto de partida é o coração das pessoas, afirmou Christian. O processo de criação de uma experiência envolvente acontece do interior para o exterior e não o inverso. Um processo que tem como objectivo envolver as pessoas através de uma história, procurando, de seguida, as ferramentas certas e a criação de um ambiente físico adequado para esse encontro.

Christian Lachel, BRC Imagination Arts (Foto: Maria Vlachou)
Outra questão que surgiu repetidamente foi a do digital vs o físico. Ao mesmo tempo que os museus estão numa corrida para abraçar as novas ferramentas e plataformas digitais, a fim de criar experiências mais envolventes e significativas, muitas vezes parecem dar um passo atrás, re-avaliando as vantagens e os pontos fortes do encontro físico.

Um projecto inspirador do Museu Brooklyn, a Ask Mobile App, passou por essas fases de pensamento e avaliação (que são abertamente partilhadas no blog do museu - um grande exemplo de profissionalismo, generosidade, transparência e accountability que mais museus devem ter a coragem de aplicar). Como Shelley Bernstein nos explicou, num momento em que o Museu de Brooklyn está a reavaliar vários pontos de contacto com os seus visitantes (o seu foyer austero, a recepção confusa, a falta de assentos), deseja também melhorar a sua experiência, permitindo-lhes fazer, no local e em tempo real, qualquer pergunta que possam ter a respeito dos objectos ou das exposições em geral. O projecto está ainda a ser testado nos seus detalhes e será lançado em Junho. 

Shelley Bernstein, Brooklyn Museum (Foto: Maria Vlachou)
Numa fase anterior, o museu tinha membros do seu pessoal nas salas e descobriu que os visitantes gostavam muito de conversar com eles. No entanto, um museu tão grande iria precisar de muitas pessoas para ser capaz de cobrir todas as salas. A fim de optimizar a ideia do contacto directo e em tempo real com um membro da equipa, decidiram recorrer à tecnologia. Uma equipa de seis pessoas está disponível para responder a perguntas de visitantes enviadas através dos seus telemóveis usando a Ask Mobile App. A avaliação até agora tem mostrado que as pessoas continuam a considerar este contacto pessoal e o museu está confiante que esta será mais uma forma de cumprir a sua missão de ser "um museu dinâmico e atento que promove o diálogo e provoca conversas". O museu descobriu que as pessoas até passam mais tempo a olhar para os objectos... à procura de perguntas para fazer!

Existirá, no entanto, algo mais pessoal e físico (e divertido e inspirador) do que sermos levados para uma visita guiada adaptada às nossas necessidades e interesses pelo Museum Hack? "Eu odeio museus!", é assim que Nick Grey começou a sua apresentação. E odiava-os ... no passado. Agora, o que mais quer é partilhar a sua paixão por eles com as pessoas que ainda os odeiam, com as pessoas que ainda sentem que os museus não são para elas. Um colega do Museu de Arquitectura e Design de Oslo chamou ao Museum Hack "nossos aliados naturais". E são, de facto! O objecto favorito de Nick no Metropolitan Museum é o fragmento do rosto de uma rainha egípcia. Foi isto que nos disse sobre ela (citando de memória): "Se estes são os lábios, podem imaginar o resto? Como deve ter sido bela? E, embora não saibamos quem ela foi e quais as ferramentas que foram usadas para a fazer, sabemos que ela é feita de jaspe amarelo. O jaspe amarelo era tão caro que o único outro objecto no Met feito deste material é pequeníssimo. Numa escala de dureza de 1 a 10, onde o diamante é 10 e o mármore é 3, jaspe é um sólido 6. Faz o mármore parecer borracha... ". Não são os museus “f *** ing awesome”?!

Nick Grey, Museum Hack (Fotos: Maria Vlachou)
A minha visita ao recentemente renovado Museu Internacional da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho testou, de alguma forma, todos esses pensamentos e ideias. É um museu que combina muito bem o físico e o digital, utilizando a tecnologia de modo a realçar o significado dos objectos, para partilhar histórias poderosas e para envolver o visitante - tanto emocional como intelectualmente - na discussão de questões universais e sensíveis. Os três capítulos principais da história são "A defesa da dignidade humana", "O restabelecimento de laços familiares" e "A redução de riscos naturais" e cada espaço / capítulo foi criado por um arquitecto diferente, propondo ambientes bastante distintos. Um dos momentos mais tocantes para mim foi na sala onde estão expostos os presentes oferecidos pelos prisioneiros de diferentes conflitos ao delegado da Cruz Vermelha encarregue do seu caso. Fizeram-me pensar na beleza, sensibilidade, criatividade e humanidade que ainda pode emanar depois do horror da barbárie, breves sinais de uma esperança renovada. Devo dizer, porém, que o momento mais poderoso foi tocar no ecrã a mão estendida de uma testemunha, um gesto que iniciaria o seu testemunho. Uma concepção brilhante, que liga o físico ao digital, criando uma experiência profundamente emocionante e memorável.


Em quase todas as visitas a museus, nas apresentação e discussões durante a conferência, devo dizer que havia para mim uma questão subjacente: podem os museus cumprir o seu papel social e educativo, podem ser relevantes e envolventes, se não assumirem também, e de forma clara, o seu papel político? Logo no primeiro dia, Gail Dexter Lord introduziu o conceito de ‘soft power’ como "a capacidade de influenciar o comportamento através da persuasão, da atracção ou do estabelecimento de uma agenda". Como é que os museus podem exercer este poder? "Não podemos tomar partido", costumam exclamar alguns colegas. Oh, mas é o que fazemos ... Às vezes com o nosso silêncio ou fingindo sermos neutros; mais frequentemente, com os objectos que optamos por mostrar ou não mostrar, com as histórias que optamos por contar ou não contar.

Mais que tomar partido, porém, assumirmos o nosso papel político é assumirmos que há, na realidade, mais que um lado para cada história e criarmos espaço para estes pontos de vista se tornarem conhecidos, serem discutidos, para que os cidadãos possam ficar melhor informados, ver os seus próprios pontos de vista serem desafiados, conhecer e ouvir o 'outro', desenvolver empatia e compreensão, tomar uma posição. Os museus não são ilhas e, como afirmou Tony Butler (Derby Museums / The Happy Museum Project): "O que se passa lá fora é tão importante como o que se passa cá dentro". Não é urgente, e não faz sentido, que os museus no século XXI assumam o seu papel na promoção da democracia?


Gail Dexter Lord (Foto: Maria Vlachou)












Monday, 13 April 2015

Vamos fazer um re-branding?



Recentemente, devido a alguns artigos e posts que li, a questão de como os museus são percepcionados pelas pessoas voltou a surgir na minha cabeça. Senti que há uma necessidade urgente de levar o branding a sério, como sector.

Para aqueles que não estão muito familiarizados com o conceito de branding, sugiro o brilhante discurso de Peter Economides Rebranding Greece, onde explica as coisas de forma muito clara:

- A marca (brand) é um conjunto de impressões na cabeça das pessoas;
- Branding é o processo de gestão dessas impressões;
- As marcas fortes criam impressões fortes e consistentes.

Os museus têm definitivamente criado impressões fortes e consistentes. A expressão muito popular "é uma peça de museu" - ou seja, algo velho, morto, empoeirado, não útil, algo do passado – mostra que impressões são essas, realmente... A nossa necessidade de promover os museus dizendo que eles são "espaços vivos" também indica que sabemos perfeitamente o que as pessoas pensam sobre nós.



Alguns anos atrás, fiz a minha primeira entrevista para o boletim do ICOM Portugal com o Director de Marketing da Xerox. O principal assunto da nossa breve conversa foi a campanha da empresa para a troca de peças antigas por novas. O senhor tentou ser gentil com os museus quando eu perguntei sobre a ligação que fizeram: "(...) Muitos dos nossos clientes mostram muita relutância em trocar equipamentos antigos enquanto estes ainda funcionam. Esta é uma atitude comum perante algumas das nossas ‘peças de estimação’, que gostamos de manter independentemente do seu custo real de manutenção ou de sabermos que a evolução tecnológica já as colocou ‘fora de moda’. Numa empresa, o ‘fora de moda’ pode ser a diferença entre o sucesso ou a sobrevivência. Num museu é onde tipicamente podemos ver peças fora da nossa época e com valor. A campanha pretende comunicar que, apesar do equipamento estar a funcionar e ser valioso, a sua antiguidade faz com que não tenha as funcionalidades e características da era tecnológica actual. Ou seja, estará fora da sua época e o seu lugar é em Museus, onde podemos ver como viviam e trabalhavam os nossos antepassados.” Foi uma tentativa generosa, mas todos nós podemos ler nas entrelinhas, não podemos?


Mais recentemente, li dois artigos (aqui e aqui) sobre o projecto “Futuristic Archaeology”, do artista coreata Daesung Lee. O fotógrafo explicou que a acção humana sobre o meio ambiente é uma das suas preocupações e sugeriu que “as paisagens verdejantes se tornarão escassas e que as recordaremos num espaço onde se apresentarão mortas, intocáveis e inatingíveis: num museu de história natural.”  Todos podemos ler nas entrelinhas, não podemos?



O terceiro caso que gostaria de discutir é o da campanha de um museu: o Museu do Holocausto de Buenos Aires. A campanha data de 2011, mas chegou à minha atenção agora, através de um post no Comunicacion Patrimonio. O slogan do museu é "Un museo, nada de arte", tentando colocar a ênfase nas pessoas e na sua história. Cada foto da campanha apresenta um sobrevivente do Holocausto e diz: "Ele / ela e milhões de outras pessoas não fizeram nada para estar num museu". Percebo o que querem dizer... E, ainda assim, não percebo... O museu aprovou uma campanha (uma bela campanha, devo dizer) que reforça uma série de estereótipos: que quando falamos em museus falamos em museus de arte; que as pessoas não precisam ter medo, porque não vão encontrar arte neste museu; que os museus são sobre os grandes (grandes artistas?) e não sobre pessoas comuns. Como disse, acho que esta é uma bela campanha, uma que coloca as pessoas em primeiro plano. Mas não posso concordar com o facto de, a fim de passarem a sua mensagem, terem usado uma série de estereótipos que ajudam a reforçar impressões negativas que as pessoas têm dos museus. E eles são um museu…

As impressões das pessoas coincidem com o que os museus são hoje? Não vou negar que alguns museus, em quase todos os países, ainda são dignos do que as pessoas pensam deles. Mas muitos não o são. Em grande medida, os museus mudaram as suas atitudes, as suas formas de trabalho, a sua imagem, por isso precisam de pensar seriamente na forma de mudar essas percepções que persistem na cabeça das pessoas.

Um dos meus livros favoritos é "Designing Brand Identity" de Alina Wheeler. Voltei a ler o capítulo “When is it needed?” (ou seja, quando é que o branding é preciso), onde são identificadas seis razões para procurar um especialista em “brand identity”: 1. nova empresa, novo produto; 2. mudança de nome; 3. revitalizar uma marca; 4. revitalizar a identidade de uma marca; 5. criar um sistema integrado; 6. empresas que se fundem. O caso dos museus está claramente associado à terceira razão, considerando que eles precisam de se reposicionar e renovar a sua marca corporativa; já não fazem o mesmo que faziam quando foram fundados; precisam de comunicar de forma mais clara quem são; muitas pessoas não sabem quem são; desejam atrair um novo mercado.

As impressões na cabeça das pessoas são poderosas. Os estereótipos levam muito tempo para se dissolver. Não admira que muitas pessoas ainda se mantenham afastadas (facto para o qual contribui também a forma como os museus comunicam a sua oferta em geral, incapazes, muitos deles, de apelar à pessoa comum, o visitante não-especialista). Os museus precisam de ter um papel activo na mudança dessas percepções e precisam de o fazer com cuidado, com conhecimento de causa, com urgência e ... unidos.

Monday, 30 March 2015

O que há num título?



Escolher o título de uma exposição, actividade ou evento não é algo fácil. Não quando o que se pretende é que possa transmitir algo sobre o conteúdo e ser curioso ou engraçado o suficiente para atrair a atenção das pessoas – e, também, ser eficaz quando aplicado em materiais promocionais. O que normalmente se encontra ao abrir uma agenda cultural são títulos que apresentam o óbvio (por exemplo, o nome de um artista que podemos ou não conhecer) ou que tentam descrever o conteúdo de uma forma algo seca, maçadora ou repetitiva - palavras como "lugar", "memória", "olhar", "tesouros" são das mais preferidas por museus. Outro caso que devemos considerar é o de peças de teatro e performances contemporâneas, cujos títulos podem ser de 2-3 linhas, para serem depois abreviados para "uso diário" pela própria equipa artística e pelo público, levando ao que, provavelmente, deveria ter sido o título em primeiro lugar...

Tentei lembrar-me de títulos que funcionaram bem para mim e ocorreram-me logo dois:

"Unter 10" no Wien Museum (Foto: Maria Vlachou)
"Unter 10 - Wertvolles en miniatura" (Abaixo de 10 - Tesouros em miniatura), no Wien Museum, foi uma exposição de 2013 que apresentava objectos da colecção do museu escolhidos com base no critério rígido que nenhum deles podia ter mais de 10 cm de largura, altura, profundidade ou diâmetro. Desde objectos que procuravam “simplesmente” responder ao desafio da miniaturização, a utensílios do bébé, frascos de cheiro ou panfletos políticos ilegais, esta exposição fez-nos olhar (também com a ajuda de lupas ...), e olhar melhor, de maneira diferente, para a colecção. O museu não estava na minha lista de visitas, mas não pude resistir ao título.

Entrada da exposição "Disobedient Objects", V&A (Foto: Maria Vlachou)
Mais recentemente, "Disobedient Objects” (Objectos Desobedientes) foi outro título de exposição que chamou a minha atenção. Apareceu pela primeira vez no meu “feed” de notícias no verão passado, entre dezenas de diferentes títulos de notícias. Parei e abri o artigo. Citando o site do Victoria & Albert Museum, "Desde bules das Sufragistas a robots de protesto, esta exposição foi a primeira a examinar o papel poderoso de objectos em movimentos de mudança social. Demonstrou como o activismo político impulsiona uma riqueza de engenho no design e de criatividade colectiva que desafiam definições-padrão de arte e design." Tive a oportunidade de visitar a exposição em Novembro passado e correspondeu às minhas expectativas. O objecto que mais me tocou foi uma nota líbia desfigurada (o rosto rabiscado sendo o de Gaddafi). Lembrou-me de um líbio a ser entrevistado após ter visto o cadáver de Gaddafi: "Nós sempre pensámos que ele era um homem grande. Ele é pequeno, ele é tão pequeno."

Nota líbia desfigurada na exposição "Disobedient Objects", V&A (Foto: Maria Vlachou)

Vale a pena falar também de alguns exemplos refrescantes que surgiram recentemente em Portugal.


"Vivinha a saltar!" é uma exposição no Museu Bordalo Pinheiro que apresenta dois símbolos da cidade de Lisboa: a varina, uma figura popular na obra de Rafael Bordalo Pinheiro; e a sardinha, que se tornou num ícone da cidade e numa fonte de inspiração para artistas contemporâneos. O nome da exposição, "Vivinha a saltar!", um dos pregões mais famosos das varinas, tinha sido título de uma crónica sobre política e a sociedade portuguesa publicada no jornal "A Paródia", fundado por Bordalo Pinheiro.



Na semana passada, o Museu Municipal de Penafiel celebrou o Dia Mundial da Poesia, a 21 de Março, com "Dois garfos de conversa", uma conferência sobre os poetas da cidade, seguida de um jantar no museu. Conforme me explicou a directora do museu, título e cartaz foram criados pela equipa do Museu.



No mesmo dia, o colectivo de jovens Faz 15-25 celebrou o seu primeiro ano de existência no Museu Arpad Szenes - Vieira da Silva com filmes, poesia, palestras, oficinas e comida, inspirados na exposição temporária do museu "Sonnabend | Paris - New York" e dirigidos a públicos jovens. O título da iniciativa: "Faz-Tá POP!".




Por fim, a Fundação Calouste Gulbenkian surpreendeu-nos em Dezembro passado com um convite "P'ra Rir", um ciclo de cinema (agora na sua segunda edição), que dá às pessoas a oportunidade de ver cinema numa sala grande, o recentemente renovado Grande Auditório da Fundação. De acordo com João Mário Grilo, responsável pela programação, o riso pareceu-lhe ser um bom gesto inaugural. "E será errado pensar que se trata de (mais) um 'ciclo de comédias', porque no cinema, como na vida, se ri de muitos modos diferentes, e até nos dramas."


Retirado da página de Facebook da Fundação Calouste Gulbenkian.

Tanto nas instituições culturais grandes como nas pequenas, o processo de escolha de um título pode envolver diferentes pessoas e departamentos: curadores, directores, assessores de imprensa, as equipas de educação e de comunicação. Recentemente, a Fundação Gulbenkian decidiu envolver o público na escolha do título de uma exposição de 2016 no Museu Gulbenkian. Como mencionado no início do post, o objectivo ao escolher um título é que este possa transmitir algo sobre o conteúdo, atrair a atenção das pessoas, ser eficaz quando aplicado nos materiais promocionais (neste caso, um bom design gráfico é definitivamente uma vantagem). Um último conselho, dos nossos colegas do Australian Museum: "Assegure-se que os funcionários da recepção / frente-de-casa estão confortáveis ​​ao dizer o título em voz alta, pois muitas vezes são eles que vendem a exposição aos visitantes." E têm razão!


Agradecimentos: Elisabete Caramelo, Isabel Aguilar, Maria José Santos, Rui Belo, Sara Pais.


Mais leituras:






Monday, 23 March 2015

Philippe de Montebello revela-se


Vou dizê-lo logo no início para deixar o assunto arrumado: sim, fiquei irritada com as duas afirmações de Philippe de Montebello no livro "Rendez-vous with art" relativas à questão da restituição de objectos (p.54 e p.208). Dito isto, o resto do livro é absolutamente encantador! Uma série bela, inspiradora e surpreendente de conversas entre Montebello e o crítico de arte Martin Gayford, que revela o homem por trás do historiador de arte e durante muitos anos director do Metropolitan Museum of Art.

Seguindo estas conversas, sentimos um desejo de olhar e olhar melhor, mesmo que seja apenas uma foto num livro - na esperança, é claro, de poder estar à frente do original um dia ... Como o próprio Montebello diz: "(...) nada pode substituir a experiência, a sensação muito física, de estar cercado e envolto no espaço real." (51 p.)

Provavelmente, um dos momentos mais tocantes vem logo no início do livro, onde Montebello responde à pergunta de Gayford sobre aquele momento único, aquela experiência única que pode tê-lo levado a uma vida nas artes. Montebello partilha connosco esse momento muito especial, quando ele tinha 15 anos e o seu pai levou para casa o livro "Les Voix du Silence" de André Malraux. E, de repente, ali estava Uta...

"Ela era a Marquesa Uta na Catedral de Naumburg e eu amei-a como mulher (...) com a sua maravilhosa gola alta e as suas pálpebras inchadas, como se tivesse passado a noite a fazer amor." (p.10; imagem retirada da Wikipedia)

Fiquei a pensar: será que ele teria alguma vez posto isto na legenda num museu? Quantas pessoas teriam olhado, olhado melhor, olhado mais, se tivessem lido algo assim sobre uma estátua?

Mais à frente, Montebello admite algo que raramente ouvimos da boca de curadores, mas que é verdade para a maioria dos visitantes de museus: "Descobri que quando me forcei - muitas vezes com a ajuda de curadores - a olhar para coisas sobre as quais era indiferente ou que até me repeliam, descobri que, com mais alguns conhecimentos, o que havia sido escondido de mim tornou-se manifesto." (p.59)

Que tipo de conhecimentos é necessário para esta 'epifania' ocorrer, podemos questionar. Nem factos sobre a vida do artista, nem uma descrição detalhada e seca de pormenores estilísticos, quando são consideradas as primeiras necessidades do visitante não-especialista (ou seja, da maioria dos visitantes dos museus). Parece que podemos encontrar todas as respostas no livro de Freeman Tilden "Interpreting our Heritage": "O que está por trás do que o olho vê é muito maior do que aquilo que é visível" (p.20); (...) Mas o objectivo da interpretação é estimular o leitor ou o ouvinte a desejar ampliar os seus horizontes de interesses e conhecimentos e a procurar entender as grandes verdades que estão por trás de qualquer afirmação de factos (p.59); (…) Não com os nomes das coisas, mas expondo a alma das coisas – aquelas verdades que estão por trás do que estamos a mostrar ao visitante. Nem pregando; nem sequer dando sermões; não através da instrução, mas através da provocação (p.67).

Mais alguns exemplos do livro de Montebello poderiam ilustrar melhor estes pontos:

"(...) é absolutamente delicioso. O sapato voando para o ar, em direcção à estátua de Cupido ao lado, aquela árvore encantadora, tão espumosa e diferente de uma árvore real: é tudo como um décor de théâtre, um cenário teatral. Esta é uma lindíssima pintura sobre o estarmos a divertir-nos e sobre a qual uma pessoa não precisa de pensar muito, basta abandonar-se ao puro prazer que proporciona: uma pintura com a qual não teria nenhum problema em viver." (p. 81, Jean-Honoré Fragonard, O baloiço, 1767; imagem retirada de www.thebingbanglife.com)

"(...) então, concentrei-me nas profundas marcas de queimaduras na parte inferior do quadro, claramente feitas pelas velas votivas, confirmando que esta foi, realmente, uma imagem devocional. Apenas alguns detalhes adicionais resultaram de uma análise aprofundada, sendo um dos mais importantes que a imagem estava impecável, uma coisa rara quando se trata de imagens com fundo dourado do século XIV, uma vez que a maioria das obras sofreram muito ao longo do tempo, principalmente, receio, nas mãos dos restauradores." (p.65, Duccio di Buoninsegna, Madona e criança, c.1290-1300; imagem retirada de www.theopenacademy.com)

"Mas estou feliz só de apreciar a expressão no rosto de Adão, tão doce, e da maneira como ele segura o ramo de maçã - não é uma folha de figueira - com dois dedos, bem como a folhagem necessária para cobrir a sua nudez. Dürer dotou de uma forma tão cativante as suas figuras inspiradas na antiguidade clássica com uma terna sensualidade; e adoro Eva, parecida com Vénus, com o seu rosto bonito de fräulein de Nürnberg. Vê? Nada de história da arte, apenas a minha própria reacção muito pessoal "(p124, Albrecht Dürer, Adão e Eva, 1507; imagem retirada de www.pictify.com)

Não acredito que a maioria das pessoas visita museus à procura de uma lição em história de arte nos seus painéis e legendas - ou de física, de música ou de outra disciplina qualquer (algumas o fazem, é claro, e as suas necessidades são igualmente legítimas, mas os museus geralmente dão resposta a essas necessidades com vários outros meios). As pessoas também não visitam museus à procura de alguém que lhes diga o que devem sentir ou pensar, como defende Alain de Botton em Art is Therapy (Rijksmuseum), onde encontramos legendas como esta: "Você sofre de fragilidade, de culpa, de dupla personalidade, de auto-aversão. Você é provavelmente um pouco como esta imagem." (a respeito da pintura de Jan Steen A Festa de São Nicolau). Penso que a maioria de nós está, antes de tudo, à procura de algo que possa ter significado para nós, algo que possa deliciar-nos, surpreender-nos, fazer-nos sentir bem ou mais ricos ou mais conscientes de nós mesmos e do mundo. Muitos de nós estamos à procura de histórias, histórias de outras pessoas, seres humanos com os quais nos possamos relacionar - aqueles representados ou aqueles que procuram partilhar os seus conhecimentos connosco.

Decidir qual a história a contar não é uma escolha fácil para um museu; escrevê-la de uma forma clara e concisa é igualmente difícil. Mas não é impossível, como Montebello nos mostra no seu livro, onde abandona o seu “eu institucional" e consegue partilhar o seu enorme conhecimento de historiador de arte de uma maneira simples e humana, que é significativa e relevante para muitas mais pessoas. Não é impossível, como Paula Moura Pinheiro nos mostra todas as semanas no seu programa televisivo "Visita Guiada", onde descobrimos que curadores e especialistas em arte em Portugal também são pessoas fascinantes, capazes de partilhar connosco muito mais do que os habituais factos geralmente presentes nas legendas, e que nos fazem desejar saber mais, visitar o museu, ver o objecto - ou voltar para o ver de novo, depois do que nos foi revelado.

É possível. É uma questão de escolha e de habilidade. Não lhe falta teor científico e comunica.

"Não tenho certeza se ficaria encantado porque estou tão concentrado, tão absorto e cativado pela perfeição do que lá está; que o meu prazer - e é um prazer intenso - está maravilhado com o que o meu olho vê, não com uma abstracção que, de um modo mais ‘à história de arte’, eu poderia evocar. É como um livro que amamos e simplesmente não queremos ver o filme. Já imaginámos o herói ou a heroína de uma certa maneira. Na verdade, com os lábios de jaspe amarelo, eu nunca tentei, realmente, imaginar as partes que faltam." (p.8, Fragmento do rosto de uma rainha, Período do Império Novo, c. 1353-1336 a.C, Egipto; imagem retirada do website do Metropolitan Museum)

Mais neste blog





Mais leituras

Philippe de Montebello and Martin Gayford (2014), Rendez-vous with Art. Thames and Hudson









Monday, 5 January 2015

Para aceitar o 'não' como resposta

Museu da Acrópole (Foto: Maria Vlachou)

Da última vez que estive no Museu da Acrópole e enquanto estava a tirar fotografias na sala das esculturas, fui abordada por um vigilante que gentilmente me informou que não podia tirar fotos naquela sala e que rapidamente me informou também das áreas onde podia fotografar. Não me foi dada nenhuma explicação em relação a essa distinção. Quando um pouco mais tarde tirei uma fotografia a uma legenda (não um objecto, uma legenda), uma outra vigilante fez questão de informar os seus colegas que deveria ser vigiada. E passou a seguir-me de perto…

Sendo tudo isto muito desconfortável para mim - e, tenho a certeza, para os vigilantes também -, aproveitei a oportunidade para questionar uma arqueóloga que estava na sala, a fim de responder a perguntas dos visitantes. Explicou-me que algumas das estátuas preservam as suas cores originais, que o flash pode ser prejudicial, e que, como não é possível para os vigilantes controlarem o uso do flash, o museu achou melhor proibir totalmente a fotografia. Pareceu-me que a apanhei de surpresa quando perguntei por que razão o museu não assume o seu papel educativo e não explica aos visitantes porque é que não deve ser utilizado o flash, em vez de proibir totalmente a fotografia em determinadas salas (a maioria das câmeras digitais não precisa de flash) e criar uma política tão ambígua em relação à fotografia no museu.

Brooklyn Museum (Foto: Maria Vlachou)
Não foi algo que inventei naquele momento. Ocorreu-me que, há um par de anos, na exposição Workt by Hand no Brooklyn Museum - composta de colchas extremamente frágeis, feitas nos últimos dois séculos - o museu tinha optado por não mostrar os objectos atrás de vidros ou cercados de cordas e à distância. Por isso, quando se entrava no quarto, o visitante era convidado a "Por favor, não tocar. O óleo e os sais nas suas mãos podem danificar tecidos e pontos. Agradecemos a sua ajuda na preservação destas peças frágeis". Algumas pessoas podem estar a pensar que estamos a falar de uma cultura diferente, uma cultura mais respeitosa, mas não é o caso. O Brooklyn Museum abre as suas portas a todo o tipo de visitantes, com e sem o hábito de visitar museus, com e sem conhecimentos específicos sobre os objectos e a sua preservação. O museu assume, no entanto, o seu papel educativo e não espera simplesmente que os visitantes aceitem o 'não' como resposta, só porque o museu assim o disse, sem mais explicações.

Pouco depois da minha visita ao Museu da Acrópole, li um artigo no Guardian sobre o papel fundamental dos assistentes de sala nos teatros, principalmente no que diz respeito a públicos disruptivos. No artigo, é-nos dado a conhecer o exemplo de Stratford East Theatre, onde assistentes de sala e pessoal de frente-de-casa são formados para lidar com tais situações. E mais: num teatro que tem "um número particularmente elevado de espectadores que vêm pela primeira vez, que às vezes precisam de ser ajudados a compreender o efeito que o seu comportamento tem não apenas nos outros membros do público, mas também nos assistentes de sala e nos actores", a gestão do teatro opta por convidá-los "a visitar os bastidores para conhecerem a equipa e o elenco e para que possam entender mais sobre como funciona um teatro e como os seus comportamentos afectam os outros".

Acredito que faz parte do papel educativo das instituições culturais ajudar as pessoas a compreender melhor os detalhes do trabalho que está a ser feito, mas também o seu próprio papel – o papel dos espectadores e dos visitantes – para que este trabalho possa ser realizado nas melhores condições para todos os envolvidos. Acredito que isto pode ser muito mais eficaz do que simplesmente dizer "não" a um certo comportamento ou pedir às pessoas para saírem e é também uma maneira de as tornar co-proprietárias e co-responsáveis por esse trabalho.