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Monday, 28 October 2013

É favor definir "perigo"

Musée d' Orsay (Imagem retirada de Louvre pour Tous)
O debate da semana passada sobre fotografia nos museus, organizado pela Acesso Cultura e pelo ICOM Portugal, não correspondeu às minhas expectativas. E considero que, em parte, a culpa seja minha. Entendi o meu papel de moderadora como, sobretudo, o de reguladora da conversa. Tendo partilhado publicamente as minhas posições sobre este assunto – neste blog, no blog Mouseion, no jornal Público e também no portal Louvre pour Tous - considerei que este deveria ser o momento para dar a oportunidade aos oradores convidados e aos colegas que assistiam para trocar opiniões, esclarecer ideias, partilhar a sua visão para os museus no século XXI. Porque o contexto actual em que se discute a fotografia nos museus é um contexto para discutir a relação dos museus com as pessoas no século XXI.

A campanha "It's Time we Met" do Metropolitan Museum usou fotos tiradas pelos visitantes no museu.
O debate tomou um rumo diferente, concentrando-se principalmente em questões de direitos de autor e nos interesses e pressões comerciais por trás da Directiva da EU Relativa à Reutilização de Informações do Sector Público. Pouco foi perguntado ou dito sobre os visitantes – fotógrafos e a forma como a actual legislação portuguesa limita (ou não) a sua contribuição na promoção dos museus. Houve algumas perguntas concretas sobre este assunto – como, por exemplo, “O que é que se entende no despacho (ler aqui) por “divulgação” e os visitantes que tiram fotografias e partilham-nas nas redes sociais são criminosos?”; ou “A actual legislação não é incompatível com o facto de dois museus e dois palácios nacionais estarem neste momento no Google Art Project?” -, mas ficaram sem resposta. A falta de resposta directa pode ser ela mesma um indicador de incapacidade ou falta de vontade em abordar estas questões fundamentais, mas, como moderadora, deveria ter insistido para que houvesse uma resposta clara -  afinal, era esse o propósito do debate - ,no entanto, achei que ia envolver-me num diálogo pessoal com os intervenientes e, por isso, não o fiz (mea culpa).

Imagens amplamente disponíveis na Internet. Autores desconhecidos ou... difíceis de encontrar.
Mais para o fim do debate, houve mais uma pergunta muito relevante: a Direcção-Geral do Património Cultural tem realmente condições para controlar o uso das imagens tiradas pelos visitantes e é esse o propósito do despacho? Qual é hoje a sociedade que é suposto os museus servirem? Nesse momento, fomos informados que é muito difícil controlar e que o despacho tem sobretudo uma função dissuasiva.

Cartazes criados pelo Musée Saint-Raymond, Musée des Antiques de Toulouse.
Assim, e mais uma vez, os visitantes, as pessoas, não estiveram no centro da discussão. Os objectos é que sim. Um outro momento interessante no debate foi uma pergunta relativamente à manipulação de imagens de obras de arte – como a imagem usada para a promoção do debate. As opiniões foram diversas: desde o não haver mal nenhum neste uso criativo de uma obra de arte, uma vez que as obras têm uma vida própria; ao identificar um perigo na disponibilização de imagens de qualidade – como está a fazer neste momento o Rijksmuseum e outros museus – e realçar a responsabilidade dos profissionais dos museus em salvaguardar e proteger.



Gosto de museus que nos fazem sentir bem-vindos, livres, inspirados. Aprecio os museus que têm bom sentido de humor e não têm medo de o mostrar. Admiro os museus que não permanecem afastados do que se passa à sua volta, na sociedade. Respeito os museus que procuram criar ligações com o mundo exterior, debater e não impor. Não vejo nenhum perigo nisto, nem alguma falta de respeito; vejo simplesmente relevância e sentido de missão.

Mas, acima de tudo, sinto-me tão contente quando vejo pessoas a divertirem-se nos museus e a partilharem o seu prazer (mais ou menos criativamente). Haverá melhor sinal de missão cumprida?

Publicidade da KLM. O Rijksmuseum foi o primeiro a partilhá-la no Facebook.

Monday, 22 July 2013

Apresento-vos a Rosa Shaw

Rosa Shaw (Foto: Maria Vlachou)
Apresento-vos a Rosa Shaw. É a primeira pessoa que nos cumprimenta quando entramos no Kennedy Center for the Performing Arts. É um dos guardas do memorial e uma das caras da instituição. É bem educada, tem sentido de humor, é prestável. Quando alguém parece estar perdido ou confuso, não espera que lhe peçam ajuda, aproxima-se e tenta ver se pode ajudar. A farda poderia causar alguma inibição nos visitantes – uma preocupação permanente entre os que trabalham na área da comunicação – mas, olhando para a Rosa e a forma como faz o seu trabalho, torna-se claro que, mais do que uma questão de aparência, é uma questão de atitude.  

A Rosa faz-me pensar em vários guardas que tenho encontrado em museus. Pessoas que parecem extremamente aborrecidas e cansadas; ou pessoas que evitam o contacto visual e depois seguem-nos de perto, apesar de sermos o único visitante na sala; ou pessoas que estão a discutir em voz alta os seus problemas familiares ou laborais, não dando nenhuma atenção aos visitantes. Guardas deste género fazem-me pensar o quão mais interessante seria o seu trabalho, e qual seria o benefício para o museu ou a instituição cultural em que trabalham, se lhes fosse dada formação adequada e responsabilidades diferentes – mais responsabilidades – do que simplesmente estarem sentados numa cadeira ou de pé num canto, sisudos e aborrecidos, interagindo o menos possível com os visitantes.

Guardas no Brooklyn Museum (Foto: Maria Vlachou)
Digo isso porque tive também outras experiências. Há três anos, juntei-me a uma visita guiada à exposição das Tapeçarias de Pastrana no Museu Nacional de Arte Antiga em Lisboa. Quando a visita acabou, dirigindo-me à saída, ouvi um guarda a falar com duas senhoras, explicando tudo o que uma pessoa precisava de saber sobre aquelas obras, mas com um entusiasmo e empenho que igualava aquele do pessoal do Serviço Educativo. E numa linguagem muito mais acessível do que aquela dos textos nos painéis. Mais recentemente, numa visita à exposição de El Anatsui no Brooklyn Museum, ouvi duas guardas a falar sobre uma das obras. Adorei ouvir a sua conversa. Mais tarde, uma delas cumprimentou um pequeno grupo de visitantes e ofereceu-se para tirar-lhes uma fotografia à frente de uma das obras, para poderem ficar todos nela. Todo o ambiente estava descontraído e amigável e informal, senti que fazia toda a diferença.

Os guardas dos museus podem parecer silenciosos e sisudos, até ameaçadores às vezes, mas têm olhos e sentimentos e opiniões sobre as obras que os rodeiam. Há umas semanas, a Washington Post publicou um artigo muito interessante sobre os guardas dos museus da capital americana (ler aqui), onde falavam das suas obras favoritas e o porquê de serem as suas favoritas. Uma delas dizia que o facto de trabalhar num museu despertou o seu interesse pela arte e, consequentemente, fê-la olhar para todas as coisas de uma forma diferente. Ao ler as suas entrevistas, pensei como gostaria de ter tido uma conversa directa com eles, como visitante e como profissional.



Numa instituição cultural, o pessoal da Frente de Casa (sejam eles guardas ou assistentes de sala ou bilheteiros) são algumas das pessoas mais importantes na equipa no que diz respeito ao marketing institucional. São a cara, são a voz, são a atitude. São também os ouvidos, uma vez que estão mais próximos dos visitantes ou espectadores do que a Gestão. O pessoal da Frente de Casa tem um papel decisivo na qualidade de toda a experiência de visitar uma instituição cultural. Uma exposição que nos desiludiu ou um espectáculo que provou ser um desastre não nos vai manter afastados para sempre; assumimos um risco e sabemos que poderá não vir a corresponder à expectativa. Por outro lado, se não formos bem tratados, se nos depararmos com funcionários que são mal educados ou de mau humor, que não têm a informação que precisamos, que não são prestáveis ou que mostram não se preocupar, isto poderá fazer toda a diferença e determinar se vamos voltar ou não. Mesmo quando temos que escolher entre duas exposições ou dois espectáculos interessantes, é muito provável que o atendimento ao público, o lugar onde nos sentimos mais bem tratados, faça toda a diferença na nossa decisão.

No entanto, apesar da sua posição e papel estratégicos, o pessoal da Frente de Casa é normalmente negligenciado pela Gestão; menosprezado também. Não lhes é dada formação adequada em relações públicas e atendimento ao público; não lhes é dada informação sobre o que estão a guardar ou a vender ou o que vão ver as pessoas que encaminham aos respectivos lugares; muito frequentemente, não lhes é dada sequer informação importante sobre o que se passa na instituição na qual trabalham em termos de programação ou horários ou preços / descontos ou outras informações práticas que o público procura (já alguma vez presenciaram o desconforto e constrangimento de um membro da Frente de Casa quando não pode responder a uma pergunta lógica ou, pior, quando é informado pelo público sobre o que se passa na instituição onde trabalha?); sentem-se frustrados pelo facto da sua opinião não ser tida em conta, até quando se trata de opiniões e comentários do público que eles simplesmente transmitem superiormente, porque os ouviram ou porque os receberam.

Os funcionários da Frente de Casa não são o pessoal que ‘apenas’ guarda ou ‘apenas’ vende ou ‘apenas’ responde ao telefone ou ‘apenas’ leva as pessoas ao seu lugar. São uma parte valiosa da equipa, a parte mais visível. São aqueles que dão as boas vindas ao público, que falam com ele, que promovem a instituição – não apenas os seus conteúdos, mas também a sua visão e os seus princípios. Parece óbvio e natural que lhes sejam dadas as ferramentas para poderem fazer o seu trabalho e fazê-lo bem. A Rosa parece ter prazer em fazer o seu trabalho. E é um prazer vê-la fazê-lo.

Monday, 24 June 2013

Elitismo para todos

Our Lady, by Eszter Szabó, 2012 (Foto: Maria Vlachou)

E de repente, em menos de uma semana, houve três posts diferentes no Facebook, escritos por três pessoas diferentes, referentes a três situações diferentes, mas com uma questão subjacente comum: o elitismo cultural.

Primeiro, o programador António Pinto Ribeiro criticou o anúncio de uma edição única e limitada do último livro do poeta Herberto Hélder. Considerou esta opção uma campanha de marketing ofensiva, uma decisão arrogante, pouco dignificante para todos os envolvidos. Alguém comentou que esta tinha sido provavelmente a vontade do poeta – que se sentiu desconfortável por ter ficado na moda e que preferiu tornar os seus livros em objectos menos acessíveis. António Pinto Ribeiro reafirmou a sua crítica (ler o post aqui).

Poucos dias depois, o crítico de arte Alexandre Pomar escreveu sobre a popular artista contemporânea Joana Vasconcelos – que representa Portugal na Bienal de Veneza – e os ferozes ataques e críticas que tem recebido de muitas pessoas do sector. Falou da rejeição de qualquer obra de arte que tenha impacto público, êxito popular, um lugar no mercado internacional. Referiu-se ainda à subordinação a uma camarilha que se reserva o direito de definir o que é arte contemporânea de qualidade e que gere o “Great Divide” (erudito vs. de massas; de vanguarda vs. popular; culto vs. inculto; “high” vs. “low”). Na sua conclusão, Alexandre Pomar afirma: “Se existe uma relação traumática com a Joana e a sua obra é porque ela movimenta poderosas tensões (e pulsões)”. (ler o post aqui).

Dois dias mais tarde, a jornalista Paula Moura Pinheiro partilhou que achou muita graça ao facto da notícia mais popular no sector “Cultura” do Público ter sido a revelação de Michael Douglas que o seu cancro na garganta se deveu à prática de sexo oral… Daí, continuou e comentou sobre uma reinante confusão entre categorias, sobre o misturar o entretenimento (interessante para muitos) e as artes e o pensamento (interessante apenas para poucos). Escreveu que muito frequentemente tinha dificuldades em convencer os decisores de televisões e rádios que era mau serviço apresentar no mesmo programa a estreia do último filme do Zorro e o último livro de Herberto Hélder (aqui está ele outra vez). “Chateia os apreciadores do Zorro que, em muitos casos, se estarão nas tintas para a Poesia e afasta os amantes do Herberto.” (ler o post aqui).

Estava ainda a pensar nestes três posts e nas questões que levantavam, quando um amigo me enviou um texto do escritor José Luís Peixoto, intitulado Luta das classes. Nele partilhava a sua convicção que o seu trabalho só ganha sentido quando há um receptor do outro lado. Procura, por isso, assegurar que este tenha a mais ampla divulgação possível: deve-o a ele próprio e à convicção que tem naquilo que escolheu dizer; mas fá-lo também por respeito às pessoas que queiram ler o seu trabalho. O jornalista Vítor Belanciano comentou este texto e afirmou que, apesar de ter gostado e desgostado tanto de textos de José Luís Peixoto como de Herberto Hélder (aqui está ele outra vez), e apesar de respeitar o silêncio de Hélder, identifica-se mais com o Peixoto e os seus esforços em tornar o seu trabalho o mais disponível possível, sendo criticado por isso (uma visão que Vítor Belanciano considera elitista, acanhada e provinciana). Um ou outro comentário a este post  afirmava: “ Estás a comparar o incomparável” (o comentador não percebeu o ponto do Vítor…); “Como é que podes falar no mesmo parágrafo e nos mesmos termos sobre o José Luís Peixoto e o Herberto Hélder?” (Como é que se “atreveu”, realmente…?). (ler o post aqui).

Trabalho na área da comunicação cultural. O meu objectivo é partilhar informação, provocar interesse, ajudar as pessoas a tomarem decisões, criar acesso. Em última análise, o meu objectivo é contribuir para empurrar as fronteiras das pessoas mais longe, para as desafiar, para as confortar, para enriquecer as suas vidas e alimentar o seu pensamento. Mais que uma vez lidei com artistas que se recusavam ou não estavam interessados em partilhar informação que poderia ajudar a promover o seu projecto, desde uma simples sinopse ao dar uma entrevista (curiosamente, isto raramente acontece quando não têm um cachet assegurado no bolso e o seu pagamento depende da receita de bilheteira…). Esses artistas fazem-me frequentemente pensar: “Para quem fazem o que fazem? Para os seus amigos e familiares? E se assim for, é aceitável quando o fazem com dinheiro público?”.

No entanto, sou também eu própria consumidora. Uma consumidora que gosta tanto de “Bridget Jones” como da poesia de Cavafi; que sabe um pouco sobre música clássica e que se sente completamente inadequada quando na presença de pessoas que sabem tudo sobre a cena musical pop ou indie; que não gosta de videojogos, apesar de fazerem parte da colecção do MOMA; que saiu de exposições de arte contemporânea furiosa porque um curador “culto” pensou que ela seria tão “culta” quanto ele e que não iria precisar de qualquer explicação ou contextualização (ou que provavelmente pensou que se não fosse suficientemente “culta” não deveria lá estar de qualquer forma); que se sentiria ofendida e profundamente irritada se um dos seus escritores favoritos optasse pro fazer uma edição limitada do seu último trabalho por não gostar de se sentir “popular”.

Já vi qualidade e já vi coisas muito malfeitas em todo o tipo de expressões culturais e artísticas, “high” e low”, em todo o tipo de obras de arte “populares” e “não-tão-populares”. Admiro aquelas pessoas que não categorizam e que adoptam uma abordagem mais cosmopolita no seu consumo cultural e crítica de arte, que não estão contra o elitismo, mas que defendem o “elitismo para todos”. E sou grata àqueles (amigos, colegas, curadores, artistas, escritores, jornalistas) que me têm mostrado coisas novas, que têm partilhado e comunicado o seu trabalho, que me têm ajudado a perceber, que me têm permitido descobrir o “inseguro” quando eu ia pelo “seguro”, que têm empurrado as minhas fronteiras para a frente e que me têm dado o espaço e a confiança para falar do que gosto e do que não gosto sem medo e complexos.

Mais neste blog


Mais leituras
Vitor Belanciano, Herberto ou Peixoto (Público, 23.6.2013)
Emer O´Kelly, The case for elitism. The Arts Council, Ireland
John Holden, Culture and Class.


Monday, 27 May 2013

Pôr a mesa


Netherlands Architecture Institute (Foto: Maria Vlachou)
Quão complicado poder ser pôr a mesa para uma refeição? Provavelmente mais do que podemos pensar e não pelas razões que estamos a pensar. Há uns anos, visitei o Netherlands Architecture Institute em Roterdão, onde uma das ‘instalações’ chamou em particular a minha atenção. Uma mesa estava posta para uma refeição e os visitantes eram informados que o presidente da câmara tinha convidado para o almoço pessoas que viviam na cidade, mas que tinham nascido noutros países (metade da população de Roterdão pertence a comunidades de imigrantes). Pôr a mesa significou que uma série de questões culturais tinha que ser levada em consideração. “Partilhar comida com desconhecidos”, lia-se num painel, “pode ser tão complicado como viver numa cidade multicultural.” O próprio acto de se sentar à volta de uma mesa; homens e mulheres juntos; partilhar comida com pessoas de outras religiões; cozinhar para pessoas com diferentes requisitos dietéticos; estas foram questões que os anfitriões tiveram que considerar. Fiquei a pensar o quanto esta simples experiência de partilhar uma refeição teria sido rica, e possivelmente transformadora, para as pessoas directamente envolvidas, mas também para as que acompanhavam o evento. Quantas coisas uma pessoa pode saber sobre o ‘outro’ apenas por aceitar este convite, por estar com o ‘outro’, por lhe ser apresentado. Quantas coisas uma pessoa pode aprender quando é dada (e aceite) a oportunidade.

Netherlands Architecture Institute (Foto: Maria Vlachou)
Género, cor, etnia, religião, orientação sexual, capacidades físicas e mentais ou financeiras, são algumas das características que tornam um ser humano no ‘outro’. Primeiro vemos a característica, depois (e nem sempre) o ser humano. Constituem barreiras que, aliadas à ignorância, podem causar afastamento, incompreensão, medo, desconforto, raiva, levando à discriminação ou ao racismo.

No verão passado, vi com o meu filho várias transmissões dos Jogos Paralímpicos. Não queria influenciá-lo relativamente à forma como deveria olhar para os atletas, o que deveria pensar ou sentir. Gritámos, aplaudimos, celebrámos com os vencedores. Mesmo assim, sentia que ele não estava completamente à vontade. Um dia veio ao pé de mim e disse: “Sinto-me um pouco triste por eles.” Finalmente, tinha-o dito. Disse-lhe que sabia, que eu também me sentia triste às vezes, mas que depois olhava para eles e via como estavam felizes e orgulhosos com os seus resultados e a tristeza desaparecia. Disse-lhe que viviam a sua vida de uma forma diferente, mas que não era uma vida triste por causa disto, apenas diferente em alguns aspectos.

Houve muita discussão naquela altura, nos meios de comunicação e noutros fóruns informais, quanto ao efeito que a transmissão dos Jogos Paralímpicos teria na percepção das pessoas relativamente à deficiência. Jornalistas em diferentes países referiam-se aos atletas como heróis, ao seu esforço como sobre-humano. Fiquei a pensar se esta seria a melhor forma de retratar os atletas com deficiência ou se devíamos olhar para eles como pessoas com capacidades diferentes que fazem o mesmo enorme esforço para conseguir bons resultados como qualquer outro atleta; à sua maneira. Penso que este deveria ser o resultado a desejar da transmissão dos Jogos Paralímpicos no que respeita às percepções do público. Olhar para as pessoas por trás da deficiência e não destacá-la e fazer com que os defina.

Paralympic Games, London 2012 (Imagem retirada do jornal The Telegraph; Foto Lefteris Pitarakis/AP)
E depois, li um artigo intitulado Disabled people are not your inspiration (as pessoas com deficiência não são a vossa inspiração). Escrito por S.E. Smith, fez-me sentir que a minha forma de pensar não estava muito longe da forma de pensar de (pelo menos algumas) pessoas com deficiência. Escrevia sobre a emoção que sentiu ao ver a cerimónia de abertura e como aquilo – ver os atletas com deficiência a desfilar, artistas com deficiência a actuar, ouvir pedir a “quem puder pôr-se de pé” para se levantar para o hino nacional – fê-la sentir-se ‘normal’ por uma vez. Ao mesmo tempo, expressou a sua frustração relativamente ao facto dos atletas com deficiência serem vistos como “surpreendentes”, “comoventes”, uma “inspiração” para os outros. Citando uma outra pessoa com deficiência, afirmou: “Toda esta ideia de que somos inspiradores baseia-se no pressuposto que as pessoas [com deficiência] têm vidas terríveis e é preciso uma espécie de coragem extra para as viver.”

Quando comecei a trabalhar com pessoas com deficiência no sector cultural, o meu objectivo quando promovia certos eventos era destacar a deficiência. Acreditava que era isto que realmente diferenciava a oferta, que chamaria a atenção das pessoas e suscitaria a sua curiosidade, que as faria sentirem-se surpreendidas e impressionadas e com vontade de assistir. Entretanto, aprendi duas coisas: que as pessoas sentem-se realmente impressionadas e maravilhadas, mas têm a tendência de considerar a oferta de qualidade menor e não querem necessariamente assistir; e que os artistas com deficiência não querem ser vistos em primeiro lugar como deficientes, mas sim como artistas.

Fui recentemente convidada a participar num debate sobre deficiência e os media, organizada pela Fundação AFID Diferença. As pessoas que representavam associações de deficientes queixaram-se do facto de haver pouco espaço para as suas histórias nos meios de comunicação social e que estes normalmente estão interessados em histórias tristes, trágicas, que chamam a atenção das pessoas e que as façam ter pena (e provavelmente também sentirem-se com sorte e aliviadas por não estarem a partilhar o ‘destino’ de uma pessoa com deficiência). Histórias felizes, positivas, optimistas que envolvem pessoas com deficiência raramente têm cobertura.

Isto é verdade. Mas, ao mesmo tempo, pergunto-me se isto é o que deveria preocupar-nos mais. Partilhar uma boa história através dos meios de comunicação pode, realmente, ajudar a mudar as percepções do público e combater certos preconceitos. Mas será tão eficaz como fornecer um espaço para as pessoas se juntarem, para verem e conhecer o ‘outro’, conversar, partilhar, coexistir, interagir, reconhecer a diferença e não a considerar um problema? Para mim, a cultura e os espaços culturais podem fazer exactamente isto. Podem criar um ‘espaço’ para encontrar o ‘outro’.

Quando trabalhei no Pavilhão do Conhecimento (na altura que tinha um serviço para as pessoas com necessidades especiais, único em Portugal e uma referência também no estrangeiro), sei que havia visitantes que pela primeira vez viam ou estavam próximo de pessoas com deficiência (visitantes ou funcionários). Um dos primeiros eventos nos quais estive envolvida foi a celebração do Dia Helen Keller em 2001, em que alunos que não viam, ou nem viam nem ouviam, mostraram a outros alunos, que viam e ouviam, que tinham as suas formas de comunicação e de aprendizagem na escola.

Desafinado, Grupo Dançando com a Diferença (Foto: Júlio Silva Castro)
Mais tarde, quando trabalhei no Teatro São Luiz, organizámos as primeiras sessões de peças de teatro com interpretação em Língua Gestual Portuguesa. Espectadores ouvintes e surdos estavam na mesma sala, assistindo ao mesmo espectáculo. Para alguns, assistir a uma peça com interpretação em LGP era uma experiência que nunca tinham tido antes; outros, apercebiam-se pela primeira vez que havia pessoas surdas e que podiam ir ao teatro; os surdos estavam contentes por poder estar no mesmo espectáculo que os ouvintes, por aquilo não ser uma sessão ‘especial’, só para eles. Algum tempo depois, quando apresentámos espectáculos da Vo´Arte e do Grupo Dançando com a Diferença ou o Inkomati (dis)cord de Boyzie Cekwana e Panaibra Canda no último alkantara festival, o  público não foi ‘avisado’ a priori que haveria bailarinos com deficiência em palco, veio e descobriu por ele próprio. Acredito que muitos deles viram a pessoa, o artista, em primeiro lugar e até ficaram agradavelmente surpreendidos pela qualidade do espectáculo. Ninguém precisava de contar uma história feliz, ela estava lá, à sua frente, poderiam vê-la e até falar com ela.

Quando perguntaram ao actor Morgan Freeman “Como é que podemos combater o racismo?”, a sua resposta foi curta e clara: “Parem de falar nele.” Quando perguntaram ao maestro Daniel Barenboim sobre o impacto que a West-Eastern Divan Orchestra poderia ter no processo de paz entre Israel e Palestina, apressou-se a clarificar: “A Divan não é uma história de amor e não é uma história de paz. Sentimo-nos muito lisonjeados quando foi descrita como um projecto de paz. Não é. Não vai trazer paz, quer se toque bem quer menos bem. A Divan foi concebida como um projecto contra a ignorância.” Uma forma de combater a ignorância é juntar as pessoas, dar-lhes a oportunidade de se conhecerem, de conhecerem as suas diferenças e as suas semelhanças. Quanto mais encontros houver, maior a confiança, maior a vontade de aprender e de compreender, maior o respeito, maior abertura para reconhecer a riqueza na diversidade. Maior a disposição para ver a pessoa e o desejo de partilhar uma refeição com ela; em algumas culturas, o derradeiro gesto de amizade e hospitalidade.


Ainda neste blog:

Monday, 29 April 2013

Rede(s) de segurança

Foto retirada de My Firefighter Nation.

Quando em 2006 comecei a trabalhar na área das artes performativas, e como esse era um mundo totalmente novo para mim, uma das primeiras coisas que fiz, para além de comprar livros novos, foi procurar associações, grupos profissionais, conferências e seminários que me permitiriam integrar-me melhor e mais rapidamente, encontrar outros profissionais, arranjar apoio, fazer perguntas, trocar ideias e adquirir novas competências. Mas, além de uma ou duas associações americanas, uma das quais organizava um conferência anual sobre gestão, não encontrei mais nada que me pudesse ajudar.

Desse ponto de vista, vinha de um mundo bastante organizado e colectado, o dos museus, onde se pode encontrar toda a espécie de modelos: associações internacionais, comités nacionais, redes regionais e locais, redes temáticas (gestão, conservação, educação, comunicação, acesso, etc.); existe ainda um grande número de conferências, encontros, seminários, workshops, cursos de formação, onde uma pessoa pode adquirir as capacidades necessárias, encontrar outros profissionais, partilhar informação extensivamente, arranjar apoio, construir projectos, pôr outras pessoas em contacto.

Lembro-me o quanto me senti sozinha e assustada (para além de muitíssimo entusiasmada…) quando comecei a trabalhar para o Teatro São Luiz em Lisboa. Foi graças à ajuda e ao apoio do gestor do teatro, Rui Catarino, que consegui encontrar o meu caminho. Mesmo assim, senti a falta de uma rede profissional mais extensa e organizada – daquele sentimento de comunidade, de família, com preocupações e objectivos comuns – que encontramos quando iniciamos a nossa vida como profissionais de museus.

Mesmo assim, aqui em Lisboa, nós que trabalhamos em Comunicação em diferentes espaços de apresentação de artes performativas, criámos há cerca de três anos um grupo informal de discussão, chamado Sala de Ensaios. O funcionamento do grupo era simples: encontrávamo-nos uma vez por mês, durante duas horas, para discutirmos um tema previamente escolhido e muitas vezes tínhamos um convidado especial, um especialista na área que ia ser discutida. Quando esgotámos os temas “grandes e urgentes”, os nossos encontros, já mais espaçados, serviram como um ponto de encontro, um espaço e um tempo onde pudéssemos debater as nossas preocupações e dificuldades com colegas que sabiam exactamente o que pensávamos e sentíamos, que nos podiam aconselhar, partilhar informações ou simplesmente ouvir…

Lembro-me de uma vez que o tema da reunião era a publicidade. A nossa convidada era especialista nessa área. Ficou surpreendida ao ver que, ao contrário do que sucede noutros sectores (onde concorrência significa que quase tudo é top secret e é impensável que haja qualquer tipo de partilha), nós estávamos reunidos sobretudo para partilhar informações, para debater e para nos ajudarmos mutuamente. E esta é, na verdade, uma das especificidades do sector cultural, tanto nos museus como nas artes performativas. Não quero com isto dizer que não estamos a competir uns com os outros, estamos. Mas existe tanta concorrência que vem de fora que, naquilo que diz respeito aos nossos públicos ‘primários’ (e estou a referir-me àquelas pessoas que assistem a eventos culturais, que estão interessadas e que gostam de estar informadas), tornamo-nos mais fortes quando partilhamos informação e desenvolvemos estratégias comuns do que quando viramos as costas uns aos outros.

Acredito fortemente nas redes e já mencionei algumas das razões: podem ajudar-nos a ser melhores profissionais fornecendo um espaço (tanto real como virtual) de encontro, um espaço para se fazer perguntas, trocar ideias, adquirir novas competências, arranjar apoio. É isso que as redes sempre foram para mim. Mas agora vejo nelas mais benefícios.

Em primeiro lugar, pode ser uma plataforma de uma escala mais adequada para os mais novos se exprimirem. Mais do que uma vez nas últimas semanas ouvi colegas mais novos a falar da sua reticência/receio ou desconforto em exprimir as suas ideias ou até fazer perguntas nos grandes fóruns (como as conferências e os seminários), onde participam os especialistas “estabelecidos” e respeitados na nossa área. Diria que é normal. Redes de especialistas mais pequenas e grupos de trabalho podem ser do tamanho certo para eles se sentirem à vontade para discutir informalmente as suas preocupações e ideias. E precisamos dessas ideias.

Podem ainda ser os meios mais apropriados para pessoas que partilham uma determinada mentalidade e têm convicções relativamente a certos assuntos poderem empurrar a sua causa para a frente, independentemente de hierarquias formais e rígidas ou, atrevo-me a dizer, apesar delas. Trabalho em rede significa um lobby mais forte e decisivo, independentemente da posição dos indivíduos na pirâmide hierárquica de uma determinada estrutura. Trabalho em rede significa uma liderança colectiva mais forte.

Na vida, há certas coisas que simplesmente não podemos fazer sozinhos. Ou porque não somos suficientemente fortes; ou porque não temos preparação, conhecimentos, experiência ou auto-confiança suficiente; ou porque não temos uma voz suficientemente forte. As redes profissionais podem ser o canhão que nos projecta alto e longe; e são, sem dúvida, a nossa rede de segurança. As artes performativas têm, por isso, muito a aprender com os museus, e não só em Portugal.  Gestão, comunicação, educação, acesso, são todas áreas que precisam de ser melhor trabalhadas, no sentido de promover a reflexão crítica e as boas práticas, apoiar os novos profissionais do sector, criar as condições para maior profissionalismo em áreas que são todas técnicas e construir um discurso mais firme.

Monday, 22 April 2013

Blogger convidado: "Bombaim 'gets the blues' ", por Jay Shah (Índia)

Um festival de blues em Bombaim? “Mas porquê?”, alguém pode pensar. Ou talvez… “Porque não?”. No entanto, o facto do festival ser organizado pelo Grupo Mahindra, sendo o meu amigo e colega Jay Shah a força motora por trás, explica que esta não é uma decisão que surgiu por acaso. Faz parte da estratégia de uma empresa global, que se relaciona com mais de 100 nacionalidades de clientes e funcionários, e que pretende promover as artes e o diálogo através de várias culturas. mv
Walter Trout no Mahindra Blues Festival 2013, Bombaim, Índia (Foto: Ritam Banerjee)
Os Estúdios Mehboob, os icónicos estúdios de Bollywood no coração de Bombaim (conhecida agora por Mumbai), tem ganhado vida nos últimos três anos, durante o Mahindra Blues Festival (MBF), que apresenta os melhores talentos de blues que o mundo tem para oferecer. Buddy Guy e Taj Mahal estiveram aqui, e também Robert Randolph, Poppa Chubby, Shemekia Copeland, Ana Popovich, Jimmy Thackery, entre muitos outros. O melhor dos blues, num local inesperado, numa cidade inesperada, poderão supor.
O MBF é a celebração de uma forma de arte num festival longe do delta do Mississípi, o seu local de origem. No meio de uma cultura aparentemente tão diferente, têm emergido semelhanças impressionantes. Bombaim é uma cidade dura – mas uma cidade de sonhadores. A luta e o conflito abundam tanto como o triunfo e as vitórias. Poderá não haver uma ligação melhor entre este género de música e qualquer cidade do mundo, como acontece com Bombaim. A nossa visão audaciosa é criar o maior destino para os blues fora dos EUA. Gostaríamos de fazer de Bombaim o que Montreux é para o jazz.
Na ausência de qualquer prática de donativos para as artes da parte de indivíduos e com a preocupação do governo em providenciar às massas os essenciais para a vida, as artes e a cultura raramente são apoiadas na Índia. Actos esporádicos de apoio financeiro para um artista particular ou para um evento acontecem, mas sem existir um plano holístico a longo prazo ou uma visão. Estamos convencidos que as empresas devem ajudar a preencher a lacuna.
O Grupo Mahindra, é uma federação de empresas com um capital social de $15,9 milhões, que abrange várias geografias e negócios tão diversos como a produção de automóveis e tractores, o comércio e os resorts. Envolvemo-nos com mais de 100 nacionalidades de clientes e funcionários em todos os continentes, excepto a Antárctida. Como empresa global, acreditamos que estamos numa posição única para potenciar o diálogo entre culturas e estamos empenhados em promover as artes e a cultura a longo prazo, procurando criar admiração para a nossa marca. Além disso, as nossas actividades de outreach cultural estão directamente ligadas à nossa estratégia de negócio; são, portanto, sustentáveis. Ajudam a criar um valor partilhado entre a marca e os nossos accionistas, garantindo um pensamento positivo relativamente à nossa marca.
Para um maior sucesso na exploração de fontes de financiamento alternativas, as instituições culturais poderão querer analisar melhor os planos de negócios específicos das empresas e ajudá-las a identificar maneiras de obter vantagens a longo prazo, através do apoio a uma forma de arte específica. Se virem uma ligação estratégica e benefícios para o negócio, o financiamento irá fluir e as artes irão prosperar.
Dana Fuchs no Mahindra Blues Festival 2013, Bombaim, Índia (Foto: Ritam Banerjee)
E, podem pensar, qual a ligação estratégica entre os blues e o nosso negócio? Mahindra é o maior produtor de tractores no mundo. Os agricultores do delta do Mississípi são os nossos mais distintos clientes nos EUA. Começaram a relacionar-se connosco num plano diferente. Não somos apenas mais uma empresa estrangeira que tenta vender-lhes um produto. Vêem-nos como uma marca que tem orgulho na herança deles, que celebra a sua cultura e ajuda a divulgá-la em terras distantes. A nossa cota de mercado tem crescido e os níveis de satisfação dos nossos clientes são altíssimos. Claro que os nossos produtos são os melhores do mercado. Mas a nossa ligação através da cultura tem, sem dúvida, aumentado significativamente o gosto pela nossa marca.
O ‘produto lateral’ mais cativante deste festival tem sido o entusiasmo com o qual o público de Bombaim o tem abraçado. A ligação que sentem à música é intensa. O público é composto por pessoas de todos os meios, idades e demografias. Como disse Anand Mahindra, Presidente e Director Geral do Grupo Mahindra, ao longo dos anos este festival tornou-se num movimento e é seguido como se fosse um culto. Os públicos tornaram-se fiéis, uma tribo de seguidores.
Convido-vos a ver um pouco do festival e a ouvir os testemunhos das pessoas:

Jay Shah trabalha para o Grupo Mahindra há 15 anos, tendo desempenhado várias funções. Actualmente, é responsável pelo uso inovador das artes e da cultura para criar ligações com os accionistas do Mahindra em todo o mundo. Coordena os Mahindra Excellence in Theatre Awards e o Mahindra Blues Festival e desenvolve programas internos, como o Programa de Recrutamento Global e os prémios Mahindra Rise e Mahindra Has Talent. É International Fellow no Kennedy Center, Washington DC. 

Monday, 15 April 2013

Blogger convidado: "Orquestras em apuros: será mesmo...?", por Simon Fairclough (Reino Unido)


É um grande prazer ouvir Simon Fairclough falar apaixonadamente tanto da música clássica, como do seu trabalho. Simon é um jovem profissional, inteligente e empenhado, que quer garantir que cada vez mais pessoas poderão descobrir e desfrutar o prazer da música clássica. Neste post, analisa os problemas que orquestras em todo o mundo enfrentam nos nossos dias e aponta para as causas e possíveis caminhos a seguir. Entre eles, a necessidade de encontrar novas formas de envolvimento com os públicos. mv

A Paixão de São Mateus de Bach 're-imaginada' para públicos mais novos, com a Orchestra of the Age of Enlightenment e um coro virtual. (Foto: Vocal Futures)


As notícias dos EUA têm sido particularmente sombrias. Bloqueios e greves têm atingido várias orquestras americanas e em 2009 o déficit médio era $697.000.  Quando a poderosa Philadelphia Orchestra abriu falência, tornou-se claro que nenhuma orquestra era demasiado grande ou excelente para falhar.

Mas isto não é de todo um problema americano. A Orquestra Sinfónica da Radiotelevisão Espanhola anunciou recentemente planos para reduzir os contratos dos músicos por um terço. Na África do Sul, a Johannesburg Philharmonic fechou em Novembro, silenciada pelas suas dívidas.  No Reino Unido, a Guildford Philharmonic deu o seu concerto de despedida no mês passado, após sete décadas em palco.  Até na Alemanha, o Estado mais generoso em relação às Artes, duas orquestras de rádio irão fundir-se para poupar dinheiro.

Estaríamos tentados a assumir que a música orquestral é uma forma artística moribunda. Mas, para cada conto de crise há um outro que nos lembra a sua vasta e continuada atracção. Em 2011, a YouTube Symphony Orchestra tocou para 33 milhões de pessoas online — um dos maiores eventos de sempre do Google em live streaming.  A El Sistema de Venezuela tem criado uma espécie de culto a nível internacional. Todos os anos, durante dois meses no verão, multidões enchem o Royal Albert Hall para ouvir orquestras a tocar nos Proms: 300.000 pessoas assistiram no ano passado.  A minha orquestra, a Academy of Ancient Music, encantou milhões de pessoas quando tocou música de Handel nas celebrações do jubileu da Rainha Isabel II no verão passado.

Porque, então, há tantas orquestras em crise?  Existem quatro factores-chave:

1. A crise financeira
A crise financeira tem tido um impacto particular nas orquestras, devido à sua dependência de donativos. As receitas de bilheteira não são suficientes para cobrir os custos da maioria das orquestras e a diferença que resulta entre despesas e receitas – em alguns casos, 50% do total do volume de negócios – precisa de ser coberta através de uma combinação de subsídios estatais, legados e donativos de indivíduos, empresas e fundações. Nesta altura de dificuldades financeiras, é mais difícil assegurar este género de financiamento.

2. A maldição dos custos
No entanto, seria errado assumir que as dificuldades financeiras das orquestras são puramente cíclicas. No longo prazo, a diferença entre receitas e despesas cresce. A principal razão é um fenómeno económico chamado ‘a maldição dos custos’. Enquanto na maioria das indústrias a produtividade aumenta com o passar do tempo, a interpretação da Eroica de Beethoven precisa exactamente do mesmo número de músicos e do mesmo tempo hoje em dia que há dois séculos. Porque os salários dos músicos, cuja produtividade não tem aumentado, têm subido ao longo do tempo de acordo com os de outros trabalhadores, o custo relativo do concerto é muito maior hoje do que era na altura. Há duas maneiras apenas para enfrentar a ‘maldição dos custos’: cortar na despesa ano após ano ou aumentar a receita. A abordagem preferida tem sido tradicionalmente atrair mais donativos, mas há já algum tempo que as orquestras não têm conseguido grandes resultados: mesmo em 2005, antes da crise financeira, uma orquestra americana média tinha um déficit anual de $193.000.

A Academy of Ancient Music foi aplaudida por milhões de pessoas nas celebrações do jubileu da Raina Isabel II. (Foto: Hilary Everett)

3. O desafio da relevância
Uma razão para isso — e, provavelmente, a principal razão porque tantas orquestras estão em crise – é que têm sustentado uma relevância cada vez menor para o mundo contemporâneo. O sucesso de El Sistema e da YouTube Symphony demonstra que a música em si tem uma atracção universal, mas os concertos tradicionais apresentam-na numa embalagem arcana datada no século XIX. O público encontra-se num silêncio escurecido. Os músicos vestem gravata branca e fraque – um código de vestuário antiquado, dispensado até pela família real há quase um século. A fotografia é frequentemente proibida; avisos pouco simpáticos dão instruções ao público para não tossir; e existem regras não escritas relativamente aos momentos em que se pode aplaudir. A experiência parece esotérica e dissuade muitas pessoas. À medida que os públicos têm diminuído e envelhecido, tem-se tornado mais difícil vender bilhetes, mas também persuadir novas gerações de filantropos e os decisores do sector público que as orquestras merecem o subsídio significativo que necessitam.

4. Novos padrões de consumo via media
Recentemente surgiu um quarto desafio: o desaparecimento da indústria tradicional de discografia (o principal parceiro de marketing para muitas orquestras), e o aumento associado da tecnologia Internet. As vendas de álbuns de música clássica baixaram 20,5% entre 2011 e 2012.  As gravações, que tradicionalmente geravam dinheiro assim como reputação para as orquestras, necessitam agora de um subsídio elevado. Menos ainda estão a ser feitas. No entanto, a procura de conteúdos orquestrais gravados não tem diminuído (como vimos, 33 milhões de pessoas ligaram-se para ouvir o concerto da You Tube Symphony). Simplesmente, as pessoas esperam consumi-los de outra forma. A maioria das orquestras está ainda nos primeiros estádios de percepção destas alterações profundas nos padrões de consumo através dos media – e estão ainda mais longe de encontrar maneiras de rentabilizar novos canais de distribuição. Mas se pretendem manter os seus conteúdos disponíveis no século XXI, devem adoptar as inovações da indústria mais alargada de entretenimento.

A nova applicação iPad da Philharmonia Orchestra. (Foto: Touch Press)

Olhando para a frente
Os que se preocupam com o futuro da música orquestral podem encontrar algum conforto no facto das suas preocupações não serem novas. Mesmo em 1903, o New York Times noticiava que “A temporada orquestral tem sido financeiramente má em todo o país… há sempre um déficit para o qual os filantropos são chamados a pagar.”. Desde aquela altura até hoje, as orquestras têm inovado para sobreviver e muitas continuam a fazê-lo hoje em dia.

Durante três meses este verão, a Academy of Ancient Music fará uma residência na National Gallery de Londres. Os nossos concertos de hora a hora irão dar vida aos quadros da exposição Vermeer and Music para milhares de visitantes. Estamos também a experimentar online: mais de 1,5 milhões de pessoas no ano passado ouviram faixas da nossa música através do nosso AAMplayer. Os nossos colegas da Orchestra of the Age of Enlightenment trabalharam recentemente com Vocal Futures e re-imaginaram, com recurso a multi-media, A Paixão de São Mateus de Bach, procurando atrair públicos mais novos. A River Oaks Chamber Orchestra promete uma ‘experiência multi-sensorial’: os músicos misturam-se informalmente com o público; um programa de baby-sitting tem lugar durante os concertos para famílias às 17h; e ‘provas de música’ regulares permitem ao público desfrutar de música enquanto provam vinhos. O projecto Re-rite da Philarmonia Orchestra  permite ao público ‘dirigir, tocar e entrar no interior da orquestra’ através de projecções sofisticadas de áudio e vídeo e a orquestra lançou recentemente uma aplicação iPad inovadora.  

Ninguém encontrou ainda todas as respostas. Mas estes e outros inovadores levam-nos a quatro importantes conclusões:

· A excelência artística continua a ser um pré-requisito, mas não é suficiente;

· Ao distanciarem a música da sua embalagem datada no século XIX, as orquestras tornam-se interessantes para um público mais vasto, como os 33 milhões de pessoas que ouviram o concerto da You Tube Symphony online;

· As orquestras que inovam com recurso a novos media têm melhores hipóteses de chegar a um mercado mais vasto e criar um perfil para elas próprias e para os seus músicos no mundo da indústria pós-discos;

· A combinação certa de excelência artística, relevância contemporânea e perfil pode ajudar as orquestras a enfrentar os seus desafios financeiros gerando mais receitas e inspirando maiores níveis de apoio da parte de financiadores públicos e privados.


Simon Fairclough é Responsável de Fundraising na Academy of Ancient Music. Em cinco anos, conseguiu aumentar em 500% os donativos e assegurou pela primeira vez na história da orquestra o apoio regular do Arts Council. Desde 2005, tem sido presidente do programa de música extra-curricular da Universidade de Cambridge, onde duplicou o número de ensembles apoiados, nomeou Sir Roger Norrington como Maestro Convidado Principal e transformou o programa artístico através de colaborações com Sir Richard Armstrong, Sir Colin Davis, Sir Mark Elder, Sir Peter Maxwell Davies, Libor Pesek e Bryn Terfel, entre outros.  É Fellow no Kennedy Center em Washington.


Monday, 18 February 2013

De Thomas P. Campbell para mim



Há algum tempo, vi uma apresentação do jovem especialista em redes sociais Jasper Visser, intitulada The future of museums is about attitude, not technology (O futuro dos museus tem a ver com atitude, não com tecnologia). Mesmo antes de a ver, o título ecoou na minha cabeça. É verdade, que impacto é que a tecnologia pode ter só por si se não sabe utilizá-la, se não se entende ou não se está interessado em explorar as possibilidades que oferece e usá-las com visão e imaginação? Isto requer atitude, realmente; ou melhor, requer a atitude ‘certa’.

Há umas duas semanas, recebi um email de Thomas P. Campbell, director do Metropolitan Museum of Art. Informava-me de um novo projecto, chamado 82nd and 5th,uma nova série de vídeos, onde um curador do Met fala de uma obra específica da colecção do museu que o inspirou ou mudou a sua vida ou a sua forma de pensar. Thomas P. Campbell informou-me que poderia inscrever-me para passar a receber todos os vídeos novos por email e sugeriu que informasse também os meus amigos.

Não é sobre os vídeos que quero falar aqui (a qualidade e interesse dos quais pode ser verificada no website do museu), mas sim, sobre os detalhes da comunicação desta nova iniciativa. Como devem imaginar, não foi o próprio Thomas P. Campbell que me mandou o email e eu recebi-o porque faço parte da mailing list do museu.  O Met poderia ter feito facilmente aquilo que a maioria dos museus faz: enviar um email a todos os inscritos na sua mailing list através do seu endereço de email geral. Em vez de optar por esta forma de comunicação impessoal, criou um endereço de email específico, onde figura como remetente o director do museu. É ele que se dirige a nós e apresenta esta nova iniciativa, convidando-nos a usá-la, a abraçá-la, a ajudar o museu a promovê-la. E este pequeno detalhe faz muita diferença. Demonstra atitude.

Indhu Rubasingham, Directora Artística do Tricycle Theatre (Foto: Alastair Muir para The Guardian)
Tinha tido um outro ‘encontro especial’ com a directora de uma instituição cultural uns meses antes, quando telefonei para o Tricycle Theatre em Londres para marcar bilhetes para uma peça. O telefone tocou e, antes da chamada ser atendida pela bilheteira, ouvi uma resposta automática. Era uma mensagem da directora artística do teatro, Indhu Rubasingham, que me agradeceu por ter entrado em contacto para comprar bilhetes e pôs à minha consideração a hipótese de pagar uma libra extra por bilhete para apoiar o teatro no seu trabalho. Era uma mensagem simples, directa, simpática à qual não fui capaz de resistir. Acabei por apoiar um teatro onde não tinha estado nunca, algo que nunca fiz por aqueles teatros que costumo frequentar. Talvez porque nunca ninguém me pediu para o fazer. Indhu Rubasingham e o Tricycle Theatre têm atitude.

Nenhum dos exemplos acima envolveu um investimento enorme. Aliás, não envolveram investimento nenhum. A falta de dinheiro ou de meios sofisticados não pode servir de desculpa para a falta de atitude. Além disso, a falta de atitude quando se tem os meios, mas não se aproveita ao máximo o seu potencial, indica ainda falta de visão.

Uma das preocupações mais comuns dos profissionais da cultura quando dou formação em diversos pontos do país em comunicação cultural é a impossibilidade de usarem a tecnologia e os meios disponíveis autonomamente a fim de promoverem os seus espaços, o seu trabalho, as suas actividades. Refiro-me especificamente a organizações tuteladas por câmaras municipais ou fundações às quais não é permitido terem os seus próprios websites (são um item num sub-sub-menu) ou de gerirem as suas próprias páginas no Facebook. A informação é gerida centralmente e não por quem tem melhor conhecimento do tema e está mais interessado que qualquer outra pessoa em promovê-lo. E por quem o faria melhor, se tivesse formação adequada.

Sejamos os clientes por um momento. Estamos interessados em saber se o Museu da Electricidade em Lisboa organiza festas de aniversário? Começamos por pesquisar no Google, como eu fiz. O primeiro link leva-vos ao website da Fundação EDP, onde o museu figura como um item no menu. Ao chegar à página do museu, parece que chegámos a um portal com notícias encaixadas. Cada caixa é um link para uma página com descrições da exposição temporária; da exposição permanente; das últimas estatísticas ou de outras notícias. O museu em si não tem um menu próprio (endereço: www.fundacaoedp.pt/museu-da-electricidade).



Desejam visitar o Museu de Cerâmica de Sacavém? Uma pesquisa no Google leva-vos para (por ordem de aparição): uma inserção no website do antigo IMC sobre o edifício do museu; o Turismo Lisboa e Vale do Tejo; a Wikipedia; Lifecooler; ijogo; TSF… Se por intuição optarmos por procurar em Câmara Municipal de Loures, encontraremos um link para uma página com uma descrição geral do museu em Câmara Municipal de Loures / Conhecer / Turismo, Cultura, Lazer / Museus (endereço:
http://www.cm-loures.pt/Ligacao.aspx?DisplayId=2#topo)



Escolhi dois exemplos de museus que gosto. Porque isto faz-me pensar no quão diferente e melhor, dadas as ferramentas disponíveis, seria a minha relação online e a distância com eles (para não falar da relação desses museus com as pessoas que não os conhecem e que poderiam estar interessadas). Como estes, há muitos outros. Como é que um museu ou outro equipamento cultural pode estabelecer uma relação com actuais e potenciais visitantes/utilizadores quando está tão bem escondido (vejamos só os endereços online)? Ou quando a informação que pode disponibilizar é tão estática (e aborrecida e incompleta)? Quando não existe um diálogo aberto, directo, constante, informal?

Um profissional da área da comunicação, como eu, entende perfeitamente a necessidade de coerência e acredito que é esta a principal preocupação das câmaras municipais e das fundações que gerem diversos espaços e projectos. Mesmo assim, a solução não é controlá-los ao ponto de os estrangular.  O público desenvolve relações com as organizações que visita, com os projectos dos quais gosta e não com as entidades que os gerem. Nenhum gabinete central de comunicação de um município irá alguma vez conversar com as pessoas no Facebook sobre o dia-a-dia da vida de um museu municipal, os objectos na sua colecção, as actividades que tem para oferecer da forma como uma pessoa que trabalha nesse museu o iria fazer. Sem dúvida, há necessidade de directivas, formação, orientação. Mas as pessoas estão ansiosas para as receber para as poderem usar da melhor forma, a fim de promover melhor o que fazem e chegar às pessoas com quem pretendem comunicar. Não é boa ideia deixar isto com quem sabe menos, quem está – inevitavelmente – menos apaixonado, quem não tem um envolvimento real – como é o caso da Wikipedia do Turismo ou do Lifecooler. Isso demonstra  falta de visão que condena à falta de atitude. E nisto não há futuro.

Sempre que penso em todos aqueles profissionais frustrados cujo único desejo é comunicar (e penso muito neles), oiço na minha cabeça a canção de Sting:

When you love somebody
Set them free…
Free… free….
Set them free…

(Quando amas alguém, deixa-o livre…)