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Tuesday, 23 July 2019

Memória que resiste

Uma cena do documentário O Silêncio dos Outros

Há algumas semanas, li num artigo que o impasse nas negociações do Brexit é considerado humilhante para a Grã-Bretanha, tanto por quem votou a favor como por quem votou contra. De acordo com uma pesquisa, 90% dos entrevistados concordaram que a forma como o Reino Unido está a lidar com o Brexit é uma humilhação nacional. O autor do artigo, o Professor de Psicologia Política Barry Richards, referiu-se a uma investigação cada vez mais influente na teoria da psicologia que enfatiza que “a necessidade de dignidade é básica para a nossa constituição psicológica. Sentir que nos foi retirada é muito ameaçador e desestabilizador”. Richards faz a distinção entre o sentimento de humilhação e o sentimento de traição e o seu conselho é evitar endossar e ampliar o sentimento de humilhação. Sugere também que a palavra "humilhação" e outras (como "traidor" ou "traição") não sejam usadas no debate.

Saturday, 22 June 2019

Primeiros pensamentos sobre o Plano Nacional das Artes



Houve dois momentos para uma primeira apreciação do Plano Nacional das Artes (PNA): a sua apresentação pública, no passado dia 18 de Junho e a leitura do documento. Começarei por partilhar os meus pensamentos sobre o primeiro.

Sessão esgotada nos estúdios Victor Córdon para ouvir a apresentação do PNA. Muitos colegas, jornalistas, pessoas que representavam instituições privadas que apoiam o sector cultural e as artes. Sentia-se a boa disposição e a expectativa, misturada com alguma desconfiança (“Será desta?). Penso que aquele momento de encontro e tudo o que se sentia no ar foi um bom sinal de que “o sector” é constituído por profissionais que continuam interessados e prontos para se envolver num esforço comum que possa valorizar, apoiar e fortalecer o seu trabalho e contributo para a sociedade.

Saturday, 23 March 2019

O grande privilégio da vida pública

Imagem do cartaz da peça "O casaco", apresentada em 2018 pelo Grupo de Teatro da Nova.

O recente episódio de blackface numa escola de Matosinhos e a forma como foi comentado são mais um indicador da falta preocupante de espaços de encontro (não virtuais) para o diálogo. Muitos não perceberam o porquê das críticas de racismo a propósito de uma iniciativa que pretendia celebrar a diversidade cultural (de “países” como África, China e Brasil) e acusaram os próprios críticos de racismo e promoção do ódio. A troca de comentários na página de Facebook Blackface Portugal é reveladora da incompreensão, e mesmo da ignorância, em torno desta matéria. Mas, podemos dizer que ficámos chocados ou surpreendidos? Não será essa uma realidade conhecida que, por muito que nos apeteça dizer “já deviam saber”, não lhe podemos virar as costas? Não podemos mesmo, porque continua a influenciar a educação, o pensamento e as noções que grande parte da nossa sociedade tem sobre esta matéria e várias outras. São estas noções que acabam por condicionar a liberdade de vários cidadãos e de perpetuar todos os tipos de racismo e, em certos casos, também a violência.

Sunday, 8 July 2018

Profissionais de museus: novas competências


O meu artigo no mais recente Boletim do ICOM Portugal (Série III, Junho 2018, Nº12, pág.25), editado por Ana Carvalho. Ler aqui

Monday, 11 June 2018

Discutindo a descolonização dos museus em Portugal

Foto: Maria Vlachou

Adoro museus. Adoro-os pelo que são; adoro-os pelo que não são, mas podem ser; adoro-os pelo seu potencial. Adoro-os especialmente devido ao trabalho desenvolvido por vários colegas em todo o mundo para que os museus se adaptem a novas realidades, permaneçam ou se tornem relevantes para as pessoas e até se reinventem. Ultimamente, adoro-os particularmente pelas controvérsias que causam ou enfrentam, empurrando o nosso pensamento e prática para a frente.

Saturday, 5 May 2018

"Lindonéia, a Gioconda do subúrbio", da minha primeira visita à Pinacoteca de São Paulo

"Lindonéia, a Gioconda do subúrbio", Rubens Gerchman, Pinacoteca de São Paulo  (Foto: Maria Vlachou)

“Na frente do espelho
Sem que ninguém a visse
Miss
Linda,feia
Lindonéia desaparecida
Despedaçados, atropelados
Cachorros mortos nas ruas
Policiais vigiando
O sol batendo nas frutas
Sangrando
Ai, meu amor
A solidão vai me matar de dor (...)”

Caetano Veloso, “Lindonéia”

Uma coisa da qual me apercebi logo nas primeiras visitas aos museus de São Paulo é que se gosta de longas introduções às exposições. A exposição “Vanguarda Brasileira dos anos 1960 – Coleção Roger Wright”, na Pinacoteca de São Paulo, não foi excepção.

Monday, 16 March 2015

O que é que temos a ver com isso? (ii)

Field Museum, Chicago (fotógrafo desconhecido)
Em Dezembro passado, houve um intenso debate entre os profissionais de museus nos EUA a respeito do papel dos museus na sequência da morte de negros pela da polícia em Ferguson, Cleveland e Nova Iorque. Os nossos colegas norte-americanos sentiram fortemente que os museus fazem parte da rede cultural e educacional que trabalha no sentido de uma maior compreensão cultural e racial. Será que eles se referiam especificamente aos museus com colecções afro-americanas? Ou a museus situados nas comunidades onde os eventos ocorreram? Não, não se referiam apenas a estes. "Como mediadores culturais, todos os museus devem procurar identificar formas criar ligações com relevantes questões contemporâneas, independentemente da sua colecção, enfoque ou missão." (ler a declaração na íntegra)

Na altura, concordei com a posição mais cautelosa de Rebecca Herz. Acho arriscado incentivar um museu (ou qualquer outra instituição) a agir independentemente da sua missão, mas, como Rebecca referiu: "Eu pessoalmente acredito que os museus devem alinhar todas as suas acções com a sua missão, que deve estar relacionada com a colecção ou o enfoque. E acho que se pode encontrar uma ligação entre qualquer colecção e a vida contemporânea, mas que estas ligações devem ser cuidadosamente consideradas e desenvolvidas. " (ler post)

Enquanto estava a seguir esta discussão muito interessante que ocorria no outro lado do Atlântico, no dia 15 de Dezembro, um refugiado iraniano invadia um café em Sydney fazendo reféns. Dezasseis horas depois, a polícia interveio, matando o atacante, assim como dois dos reféns. Temendo represálias contra os membros da comunidade muçulmana que usavam o traje islâmico, os habitantes de Sydney ofereceram-se para acompanhar nos transportes públicos os seus vizinhos muçulmanos que se sentiam inseguros. Soube disto no início da manhã de 16 de Dezembro, através da página de Facebook do Immigration Museum. O museu partilhou a notícia do Guardian e juntou-se ao resto dos australianos, numa tomada de posição contra o preconceito e a violência.



Tomar posição não é algo simples, especialmente para uma instituição (por oposição a um indivíduo). Não é uma decisão que pode ou deve ser tomada apressadamente, uma reacção ao momento. Deve ser um acto "natural", o resultado de uma política consciente, estruturada e sustentada de intervenção cívica / política, de acordo com a missão da instituição. É também uma grande responsabilidade.



No mês passado, três jovens muçulmanos foram assassinados na sua casa na Carolina do Norte, EUA. Numa altura em que os jornais noticiavam que os motivos do atacante ainda não eram conhecidos, o Arab American National Museum partilhava na sua página no Facebook a sua tristeza pela perda dos três jovens, insinuando que este tinha sido um crime racial. Pensei que era muito cedo, que o museu estava a tirar ilações, o que não me pareceu ser nem responsável nem útil. Perguntei ao museu se fazia uma declaração como aquela para cada assassinato nos EUA. Outras pessoas (não o museu) responderam que as vítimas eram americanos-árabes, de modo que o museu fazia bem em reagir. Reformulei a pergunta e questionei se o museu fazia uma declaração para cada americano-árabe assassinado, se assumia que o assassinato de qualquer americano-árabe era um crime racial. Acho que os museus não devem atirar-se e fazer declarações antes do tempo.


Mais recentemente, em Portugal, o Museu Nacional de Arte Antiga publicou uma declaração sobre a destruição de tesouros arqueológicos do Museu de Mosul por militantes do ISIS. Foi uma boa surpresa, uma vez que este museu, como a maioria dos museus portugueses, não costuma tomar posições publicamente. Alguém poderia argumentar que isso não foi exactamente uma declaração política e que se tratava de uma assunto algo "seguro" para o museu; pode ser. Veio também num momento em que os especialistas ainda estavam a tentar perceber se os objectos destruídos eram os originais ou cópias; talvez por isso, pareceu uma reacção um pouco precipitada. Estou mais interessada, no entanto, em perceber se essa foi uma acção pontual ou o primeiro acto de uma política concreta e a longo prazo de reconhecer e assumir as responsabilidades civis-políticas-culturais do museu. Seria óptimo se assim fosse, o tempo o dirá.



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Monday, 8 September 2014

O que está para além?

Freeman Tilden
Quando li o livro “Civilizing the Museum”, de Elaine Heumann Gurian, pouco mais de um ano atrás, lembro-me de ter tido um pensamento e dois sentimentos. Pensei em como era possível ter chegado pela primeira vez aos seus textos e ao seu pensamento visionário tão tarde, após 20 antes de estudo e de trabalho nesta área. Tive um sentimento aconchegante de conforto, quando percebi que ideias e preocupações que estavam constantemente na minha cabeça não eram propriamente novas e que alguém como a Elaine as tinha formulado de uma maneira tão bonita e completa, influenciando tantas pessoas e instituições com as quais trabalhou.  Mas tive também um sentimento amargo de frustração, apercebendo-me do quão lenta é, realmente, a mudança, uma vez que questões levantadas pela Elaine há já algum tempo continuam a ser actuais hoje em dia.

Quando acabei o livro de Freeman Tilden “Interpreting our heritage” no mês passado, sorri. Tive o mesmo pensamento e os mesmos dois sentimentos. Como é que é possível ter lido o Tilden apenas agora?! Como é inspiradora a sua escrita, como tudo se torna claro quando se lêem os seus seis princípios para a interpretação e os seus vários exemplos. E como é decepcionante ver que, mais de meio século depois, aprendemos pouco e fizemos ainda menos.

Tilden escreveu o seu livro em 1957, quando tinha 74 anos e depois de uma longa carreira como jornalista, escritor e dramaturgo. Russell E. Dickenson salienta no prólogo da quarta edição que “Na sua associação com os parques, Tilden desenvolveu um interesse em como os parques nacionais formaram a identidade americana, assim como a identidade individual, incitando os cidadãos a procurarem encontrar sentido e inspiração nos preciosos recursos naturais e históricos.”

É isto que Tilden desejava para os cidadãos e eram precisamente estas as suas expectativas da interpretação e dos intérpretes. “Os intérpretes decidem que histórias vão contar, como contá-las e a quem, uma responsabilidade séria [p.2]; (…) O principal interesse do visitante está em qualquer coisa que toque a sua personalidade, as suas experiências e os seus ideais [p.36]; (…) Mas o objectivo da interpretação é estimular o leitor ou o ouvinte a desejar ampliar os seus horizontes de interesses e conhecimentos e a procurar entender as grandes verdades que estão por trás de qualquer afirmação de factos [p.59]; (…) Não com os nomes das coisas, mas expondo a alma das coisas – aquelas verdades que estão por trás do que estamos a mostrar ao visitante. Nem pregando; nem sequer dando sermões; não através da instrução, mas através da provocação [p.67]; (…)  colocar o visitante na posse de pelos menos uma ideia perturbadora, que possa crescer num fértil interesse [p.128]”.

Resumindo assim a visão de Tilden, aqui estão os seus seis princípios para a interpretação:

1. Qualquer interpretação que não relacione de alguma forma o que está a ser apresentado ou descrito com algo na personalidade ou experiência do visitante, será estéril.

2. A informação em si não é interpretação. A interpretação é uma revelação baseada em informação. Mas são coisas completamente diferentes. No entanto, toda a interpretação inclui informação.

3. A interpretação é uma arte, que combina muitas artes, quer os materiais apresentados sejam científicos, históricos ou arquitecturais. Qualquer arte pode ser ensinada, até certo ponto.

4. O principal objectivo da interpretação não é a instrução, mas a provocação.

5. A interpretação deve procurar apresentar um todo em vez de uma parte e deve dirigir-se ao indivíduo no seu todo e não apenas a alguma das suas facetas.

6. A interpretação dirigida a crianças (digamos até aos 12 anos) não deve ser uma diluição da apresentação aos adultos, mas deve seguir uma abordagem fundamentalmente diferente. Para estar no seu melhor, requer um programa separado.

Claro que, enquanto lia isto, estava a pensar nos museus; na riqueza que se encontra neles e que está inacessível para muitas pessoas. Em muitos casos, por opção: a opção daqueles que têm a grande responsabilidade de interpretar, revelar, provocar, chegar aos corações de muitas pessoas e não apenas aos cérebros de algumas, mas que, tendo o poder de decisão, a sua principal preocupação é comunicarem com e serem reconhecidos pelos seus pares. Esta é uma razão, para mim, a principal, a mais determinante. Uma outra razão é que, neste contexto, os profissionais que têm preparação técnica nesta área lutam para ser ouvidos e, não poucas vezes, são vencidos. Uma outra razão ainda, não menos importante, é que muitas outras pessoas que trabalham nesta área não têm preparação técnica para aquilo que lhes é solicitado fazer, e não lhes é proporcionada esta preparação. Lembro-me uma vez num curso de formação, durante uma discussão acesa em relação às responsabilidades dos profissionais de museus que trabalham para eles próprios e para os seus pares, uma senhora levantou a mão e disse: “Por favor, não digam que estamos apenas preocupados com nós próprios e com os nossos pares. Eu simplesmente não sei fazer as coisas de outra forma e é por isso que aqui estou”…

É a combinação destes factores que faz com que Heumann Gurian, Tilden, Cotton Dana (para mencionar outro dos meus favoritos) soam amargamente relevantes e contemporâneos, mais de 20 ou 50 ou 100 anos depois.

Acontece que acabei de ler o livro de Tilden e comecei a escrever estas palavras no meio de um parque nacional, o Parque Nacional de Tzoumerka na Grécia. A beleza da paisagem cortava a respiração. Pensava constantemente nas palavras de Tilden: “A interpretação leva o visitante para além do seu prazer estético, em direcção à compreensão das forças materiais que se juntaram para produzir a beleza que está à sua volta.” É isto que as pessoas que conheci fizeram por mim. Levaram-me - com simplicidade, entusiasmo e um conhecimento profundo das coisas – além, muito além do que era visível para mim. Não eram todos profissionais, mas eram pessoas que tinham amor por aquele sítio, que desejavam partilhá-lo. Assim, tornaram a minha experiência em algo ainda maior.


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Mostrem-me as pessoas


Ponte de Plaka, Parque Nacional de Tzoumerka, Grécia

Monday, 17 March 2014

Pedaços de cerâmica

"Some use for your broken clay pots", de Christoph Meierhans, apresentado no Teatro Maria Matos. (Foto: Jan Lietaert)
A semana passada, fui ver ao Teatro Maria Matos “Some use for your broken clay pots” com Christoph Meierhans. Inspirado no antigo sistema do ostracismo em Atenas, onde um líder político que assumisse demasiado poder podia ser exilado pelos cidadãos, Meierhans deseja propor-nos um novo sistema democrático, uma nova constituição que, ele acredita, poderá também produzir um novo tipo de cidadão.

Segui a sua teoria com interesse e fiquei a pensar: nós, como cidadãos, precisamos mesmo de um sistema diferente para ‘ostracizarmos” ou 'desqualificarmos' políticos maus ou incompetentes? Não podemos simplesmente, dentro dos direitos que nos são dados pelo actual sistema, não votar neles? Mas votamos neles, uma e outra vez. Porquê? Alguns de nós não estão suficientemente interessados, outros sentem-se impotentes, outros ainda acreditam que tudo isto está fora do seu controlo, outros pensam que podem ter benefícios se se associarem aos que têm o poder. Pensei em particular sobre este último ponto ao ouvir uma das espectadoras falar apaixonadamente sobre a luta das classes. Será mesmo uma questão de classes? Como é que se pode explicar, então, que pessoas de uma determinada classe votem em políticos que representam outra? Não será porque esperam ter algum benefício, para eles e para os seus?

O que é preciso para produzir os cidadãos activos, informados, exigentes dos quais necessita o sistema de Meierhans? Penso que este é o ponto fraco da sua teoria, o ponto relacionado com os cidadãos em si. Penso que ignorou ou subvalorizou o poderoso factor humano, aquele que não é moldado por sistemas, aquele que consegue subverter até o melhor dos sistemas. Até na Grécia Antiga, onde o ostracismo parecia ser um bom sistema, o factor humano acabou por agir contra ele ou, melhor, por usá-lo em seu próprio benefício, acabando por fazer uso do ostracismo para se ver livre de oponentes políticos. O problema era do sistema?

Poderíamos ser um género diferente de cidadão no sistema actual, se quiséssemos, se não tivéssemos medo, se estivéssemos preparados para agir como um colectivo. A consciência e o sentido de responsabilidade individual são provavelmente importantes para cada um de nós poder dormir descansado à noite, mas não trazem revoluções nem verdadeira mudança. O poder, para o bem e para o mal, está no colectivo. Pensei muitas vezes no quão me senti orgulhosa e tocada quando vi os portugueses a saírem para a rua no dia 15 de Setembro de 2012. Era algo novo para mim, que já vivia neste país há 17 anos. Mas, por muito que tenha acarinhado aquele momento, não tinha ilusões. A grande maioria daquelas pessoas voltou para a sua vida ‘normal’, segunda de manhã, aceitando, compactuando, permanecendo silenciosa perante as coisas, aquelas coisas do costume, que os tinham levado à rua dois dias antes. Mas, ao mesmo tempo, quando acontece algo assim, as coisas nunca mais poderão ser as mesmas. Pode não ser muito visível, mas algo mudou e o próximo passo será daí para a frente. Isto é progresso.

Nos últimos três anos testemunhámos momentos de grande agitação social em diferentes partes do mundo. E testemunhámos igualmente a emergência de um novo tipo de cidadão. Dois museus, dois museus de arte, decidiram focar-se nos protestos. “140 caracteres” e “Objectos Desobedientes” são os títulos de duas exposições. A primeira encerrou ontem no Museu de Arte Moderna de São Paulo, a segunda abre no próximo verão no Victoria & Albert Museum em Londres.


Exposição "140 caracteres" no Museu de Arte Moderna de São Paulo (Foto: Karina Bacci)
“140 caracteres” juntou 140 obras da colecção do museu com o objectivo de permitir às pessoas reflectir sobre os protestos que tiveram recentemente lugar no Brasil e a mobilização política através das redes sociais (sendo 140 o limite de caracteres a ser usados num tweet no Twitter). Vejo isto como o resultado do desejo de ser relevante, um desejo que resultou num olhar novo e imaginativo através da colecção permanente do museu, permitindo uma nova leitura dos objectos em si num contexto específico, actual.


Pedra insuflável gigante criada para ser atirada aos polícias e que fará parte da exposição "Disobedient Objects" no V&A. (Imagem retirada de De Zeen magazine) 
“Objectos Desobedientes” abre no V&A a 26 de Julho. Um dos co-curadores, Gavin Grindon, explicou que “As culturas dos movimentos sociais não são normalmente coleccionadas pelos museus, excepto gravuras e cartazes. Queríamos levantar a questão da ausência de outros tipos de objectos desobedientes no museu.”  A exposição irá juntar exemplos de arte e design que foram desenvolvidos por contra-culturas para comunicar mensagens políticas ou para facilitar os protestos. A abordagem aqui é diferente daquela no museu de São Paulo. Neste caso, foi identificada uma lacuna na colecção e o objectivo é preenchê-la, não apenas porque isto faz sentido no âmbito da política de gestão de colecções, mas também porque é a natureza da política de gestão de colecções que torna o museu relevante – ou não – para a actual sociedade. Não deveria ser este o objectivo de qualquer museu?

“140 caracteres” e “Objectos Desobedientes” são mais do que dois títulos que contrariam a tendência para títulos chatos, descritivos, pouco imaginativos das exposições propostas ao público. São duas exposições que afirmam aquele que é realmente o papel dos museus. São as pessoas por trás delas, artistas e curadores, que, juntamente com outras – escritores, músicos, performers, ensaístas, filósofos – nos desafiam, nos intrigam, nos confrontam e nos confortam, fazem-nos pensar no tipo de cidadãos que desejamos ser, no tipo de cidadãos que podemos ainda ser, especialmente quando as paredes parecem muito altas e a batalha totalmente sem esperança, talvez mesmo perdida.


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Monday, 9 December 2013

'Paideia': onde se encontram educação e cultura

Visita escolar ao Crystal Bridges Museum of American Art (Foto: Stephen Ironside, retirada do site Education Next)
Penso com muita frequência ultimamente nos resultados do estudo de 2008 sobre participação cultural do National Endowment for the Arts, que indicavam que a educação para a arte na infância acaba por ser um factor mais determinante do que a idade ou o estatuto socioeconómico no que diz respeito à participação cultural na idade adulta. 

Lembrei-me novamente destes resultados depois de ler um artigo no New York Times que falava de um estudo no Crystal Bridges Museum of American Art que procurou avaliar os efeitos das visitas escolares, o seu valor educacional. Entre várias coisas muito interessantes (relacionadas com a capacidade de pensamento crítico, a empatia, a tolerância, o interesse pela arte – ler pormenores aqui), houve duas que me chamaram particularmente a atenção:

1. Os benefícios observados eram significativamente maiores para alunos que pertenciam a minorias étnicas, famílias com baixo rendimento e provenientes de escolas rurais, sendo que muitos deles visitavam um museu de arte pela primeira vez.

2. Tendo sido dada a possibilidade de regressar ao museu (através de distribuição de cupões que continham um código) tanto aos alunos que participaram nas visitas escolares no âmbito do estudo como também a outros que não faziam parte da amostra, verificou-se que os alunos do estudo demonstravam um maior interesse em voltar (mais 18% do que os restantes alunos).

Os estudos referidos foram realizados em território americano, mas penso que os resultados não teriam sido muito diferentes se se tratasse dos nossos países, por isso, temos que olhar para eles com atenção, na medida em que vêm afirmar a importância da educação para a arte na infância como factor determinante para a participação cultural na idade adulta, e, igualmente, a importância da escola e das visitas escolares aos espaços culturais como um meio para a criação de condições de igualdade no acesso à cultura.

A escola teve desde sempre um papel determinante no contacto com a arte e com a cultura em geral. O resultado não foi (e continua a não ser) sempre o melhor. Todos tivemos experiências de visitas escolares a espaços culturais muito pouco interessantes – aborrecidas mesmo – ou pela falta de preparação da visita pelos professores ou pela falta de qualidade da oferta em si (por exemplo, ambientes pouco acolhedores e desconfortáveis, discursos formatados e muito pouco adequados para os interesses e necessidades específicas dos jovens visitantes/espectadores, etc.). No entanto, temos, igualmente, memórias de visitas escolares que nos deixaram maravilhados, entusiasmados, inspirados, que nos mostraram caminhos e que, não poucas vezes, determinaram as decisões de alguns de nós relativamente ao que íamos querer fazer na nossa vida.

O papel da escola e das visitas escolares a espaços culturais torna-se ainda mais determinante no caso daqueles alunos cujo meio familiar não lhes proporciona certas oportunidades, por falta de hábitos ou de meios ou de conhecimento. As visitas escolares são, provavelmente, a única hipótese que certas crianças e jovens terão de entrar num museu ou num teatro. Qual o significado disto numa altura em que a educação para a cultura e a arte tem cada vez menor expressão nos currículos escolares, neste e noutros países, e em que os cortes limitam cada vez mais a possibilidade das escolas organizarem estas saídas?

Significa que aquelas crianças e jovens cujas famílias não lhes proporcionam certas oportunidades (de visita ou de prática artística) se vêem privadas de usufruir de uma oferta, de uma experiência, que muito pode contribuir para o seu desenvolvimento cognitivo e emocional, ultrapassando barreiras e limitações impostas pelo seu meio socioeconómico.

Significa que as crianças e jovens em geral vêem cada vez mais limitada a sua formação como futuros cidadãos activos, pensantes, críticos, emocionalmente e intelectualmente ricos.

Significa que a nossa sociedade será composta por cidadãos com menos paideia (palavra grega da qual gosto muito e que expressa o resultado da acção conjunta da educação e da cultura).

Poderíamos pensar que, na impossibilidade da escola actuar, as instituições culturais poderiam procurar reforçar o seu papel. Poderiam ser elas a ir ao encontro dos alunos nas escolas. Na verdade, isto não seria algo novo. Já existem projectos móveis (do género “o museu vai à escola” ou “o teatro vai à escola”) que têm procurado servir este propósito. No entanto, a situação que se vive neste momento – uma situação marcada por cortes financeiros tão graves no sector cultural como no sector educativo – parece ser muito pouco propícia para a intensificação e multiplicação deste género de iniciativas.

Onde ficamos, então? Será este um impasse?

Não podemos deixar que isto se torne num impasse. E digo isto sem ter neste momento nenhuma solução concreta a propor, a não ser indicar aquele caminho que me parece ser o caminho natural, óbvio: reconhecer a gravidade da situação e, mais do que procurar reagir com acções pontuais, procurar planear e estabelecer aquelas parcerias que irão permitir resistir e ultrapassar as decisões governamentais que põem em causa a qualidade do futuro de muitas gerações. Devemo-lo às nossas crianças. Sobretudo àquelas para quem, se a via não for esta, dificilmente haverá outra.



Monday, 1 July 2013

Blogger convidado: "Useo", por Jorge Barco (Colómbia)

Medellín é a segunda maior cidade da Colómbia. Para alguns, continua a ser sinónimo de cartel de drogas. Para outros, é a cidade-exemplo, que através de políticas culturais e sociais, conseguiu baixar o índice de criminalidade e mostrar aos seus habitantes novos caminhos para o seu desenvolvimento pessoal e também comunitário. Recentemente, li uma entrevista de Jorge Barco, Director do Departamento de Educação e Cultura do Museo de Arte Moderno de Medellín. Fiquei muito contente quando aceitou escrever para o Musing on Culture e partilhar a sua reflexão sobre o papel que as instituições culturais, e em particular os museus, podem ter no desenvolvimento de uma nova relação com a criação, o património e a vida em comunidade. mv

Colectivo Imoar (Foto: Andres Sampedro)
“La estabilidad que estamos construyendo ahora es afectivopráctico y no material, un inmenso laboratorio de la imaginación, aprovechando de toda grieta que se puede encontrar para dar cuerpo a lo que sentimos dentro” Las Grietas

O convite de Maria Vlachou para escever no seu blog, assim como do  ICOM para participar no próximo encontro de Museus no Rio de Janeiro, é para mim uma oportunidade para começar a organizar algumas ideias que têm motivado grande parte da minha reflexão como gestor, educador e activista nos museus da região de Antioquia (Colómbia) nos últimos  sete  anos.

Hoje faz sentido pensar o papel que as instituições culturais – e em particular os museus – podem ter como cenários propícios para reconfigurar uma nova relação com a criação, o património e a vida em comunidade. Os museus – num papel que se aproxima decididamente ao dos 'centros culturais', no caso especial de Medellín– têm um papel importante na promoção de programas educativos, culturais, expositivos, que ultrapassam os muros da instituição para chegar a favelas e populações distantes. E do seu interior, reinventam continuadamente as formas de se relacionarem com os seus públicos a partir da educação expandida (Edupunk), os novos enfoques de gestão cultural e o trabalho em rede.

Do seu lado, o Museo de Arte Moderno de Medellín (MAMM) – reinstalado, desde há quatro anos, numa antiga oficina de fundição de metais – tem sido consolidado como um lugar estratégico no país, pela sua programação expositiva, mas sobretudo  educativa e cultural. É um lugar propício para formular as seguintes perguntas:

Quais são as linhas orientadoras deste trabalho? Quais são os elementos para começar a criar uma nova institucionalidade e definição para o que historicamente temos chamado  Museu?

A procura de respostas para estas perguntas leva-me a propor a construção de confiança como um dos princípios orientadores: um exercício fino, perseverante e delicado de tecido e relacionamento comunitário que se  desenvolve a par com o trabalho colaborativo e em rede, o qual  se pode ver  desenhado na  cartografia de uma cena cultural cada vez mais expandida. O projecto  LABSURLAB é apenas um exemplo de como uma iniciativa que surgiu no MAMM se converteu numa rede mundial  de activistas que trabalham em torno das noções de arte, ciência, tecnologia e comunidades com um enfoque biopolítico.

LABSURLAB (Foto: Checho)

Através da construção de mapas dos projectos que se desenvolvem no território, estamos a criar relações de sentido entre os actores da cultura na cidade, na região, no continente e no mundo, procurando vincular cada vez mais grupos sociais, identitários, profissionais, assim como instituições, universidades, empreendimentos, projectos e comunidades, para a mobilização de ideais. A cartografia  dos projectos culturais é um instrumento fundamental nos processos de criação cultural contemporânea.

Uma outra linha de acção é dirigida à exploração de novas definições para o que normalmente chamamos gestão cultural, procurando conferir-lhe todo o poder criativo que alberga, a partir de modelos abertos que permitem reinventar as relações de criação, circulação e apropriação; reconhecendo que – assim como acontece com as práticas artísticas– nos projectos culturais boa parte do trabalho radica na mesma gestão. Necessariamente, esta situação faz-nos também repensar os papéis e as relações – entre quem cria, quem recebe, quem educa, quem exibe e quem gere –, ao mesmo tempo que ocorre uma transformação dos campos disciplinares.

Há mais um elemento que vincula o trabalho como activistas culturais às tecnologias, para além dos aspectos meramente técnicos: as ferramentas que nos proporcionam este momento albergam novos formatos para a criação colaborativa, a educação, a gestão de projectos, o activismo, a reorganização do trabalho e a produção dos bens comuns. Os processos culturais e artísticos ligados à cultura digital são hoje territórios de limite, fronteira e de intercâmbio, e o museu é um lugar estratégico a partir do qual se podem activar estes processos.

Uma linha adicional tem sido orientada para gerar diálogos criativos a partir do museu como instituição com os movimentos e iniciativas independentes, que podem ir desde residências artísticas, circuitos de música e bares a espaços não convencionais de educação não formal, com o objectivo de realizar projectos desde a cooperação e o mutualismo. O propósito tem sido gerar ambientes de diálogo, de co-criação e de oportunidades para ambas as esferas  (instituições e movimentos).

Equipa Educação e Cultura do MAMM (Foto: Clara Botero)
A partir desta perspectiva, a função do museu é global e, ao mesmo tempo, local, proporcionando um lugar de encontro entre as múltiplas camadas e ofícios da criação contemporânea e potenciando o desenvolvimento das subjectividades. Um lugar de encontro, trabalho, produção e investigação, para além de exposição e divulgação, onde todos os elementos se misturam, se alimentam e desde o qual poderia surgir uma nova institucionalidade e espaço que proponho que se chame provisoriamente ‘Useo’.


Jorge Bejarano Barco trabalha no sector dos museus da região de Antioquia (Colómbia) desde 2007. Actualmente, é Director do Departamento de Educação e Cultura do Museo de Arte Moderno de Medellín. No passado, trabalhou no Museo de Antioquia, na Rede de Museus e nos Conselhos Municipal e Departamental de Cultura. Participou na criação de projectos e redes independentes para a confluência entre arte, ciência, tecnologias e comunidades (ver aqui e aqui e aqui). Foi conferencista convidado na Cátedra Medellín-Barcelona, no Encuentro Internacional los Museos en la Educación organizado pelo Museo Thyssen Bornemisza em Madrid, no Master en Gestión Cultural y Economía de la Cultura de la Universidad de Valladolid, na Facultad de Diseño y Arquitectura da Universidad de Buenos Aires, no Festival de Cultura Digital de Rio de Janeiro, no Festival Internacional de la Imagen (Manizales) e nas Universidades de Antioquia e Jorge Tadeo Lozano (Bogotá). Actualmente, os seus interesses concentram-se na investigação sobre produção cultural, filosofia dos media, educação expandida, propondo diálogos entre instituições e movimentos, desde o trabalho colaborativo em rede ou a redefinição de uma série de acções que juntam a arte e o activismo cultural.

Monday, 25 March 2013

O começo e o final de uma semana a p&b em Viena


Angelo Soliman (imagem retirada de www.economist.com)
Chego a Viena numa sexta à noite. A cara do taxista diz-me que o seu país de origem poderá ser algures no Médio Oriente. Não fala inglês, por isso, não podemos falar. Alguns minutos mais tarde atende uma chamada. Oiço-o falar turco. “So, you´re from Turkey?”, pergunto quando desliga. Olha para mim através do retrovisor surpreendido e pergunta-me (provavelmente): “Percebe turco?”. Digo-lhe “Yunanistan” (“Grécia” em turco). Olha para mim ainda mais surpreendido e exclama: “You?! Yunanistan?!”. E continua em inglês: “Me, you, no problem, no problem.” Sorrio: “No problem”, digo-lhe. Quando chegamos ao hotel, agradeço-lhe em turco. Parece estar contente. 

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Estou em Viena para um workshop sobre racismo e consciência cultural, financiado pelo Grundtvig, o programa da União Europeia de aprendizagem ao longo da vida – começa na segunda. A formadora principal é uma mulher preta que parece ser dinâmica e muito autoconfiante. Os participantes vêm da Bulgária, Roménia, República Checa, Polónia, Alemanha, Irlanda, Holanda, Reino Unido, Espanha e Turquia. Pessoas pretas e brancas – ou uma espécie de pretas e uma espécie de brancas – muitas originárias de países diferentes daqueles onde hoje residem, pessoas de várias idades e áreas, reunidas em Viena para debaterem o racismo.

É-nos pedido para falarmos das nossas expectativas face ao workshop. Digo-lhes que espero que as minhas ideias sobre o racismo sejam desafiadas, que o meu pensamento se desenvolva, porque sei que nenhum de nós se considera racista, mesmo assim, poderíamos ficar surpreendidos.

Um pouco mais tarde, é-nos dada pela formadora uma definição do racismo: “Racismo é discriminação com poder numa sociedade dominada pelos brancos.” Esta definição não me deixa confortável.

“Vê o racismo hoje em dia como algo que apenas os brancos fazem contra os pretos?”, pergunto.
“Não sou eu que o estou a dizer”, responde a formadora, “é assim que tem sido definido.”

E nesse momento, com aquele género de resposta, sei que a semana que temos pela frente será mais complicada e menos interessante do que tinha antecipado. Mas desafiante, mesmo assim.

São várias as razões porque esta experiência me deixou profundamente preocupada e desiludida, para além de me fazer sentir desconfortável.

Em primeiro lugar, ao longo da semana, fomos bombardeados com afirmações (algumas delas sendo sérias imprecisões históricas), raramente, ou melhor nunca, fazendo referência a qualquer fonte bibliográfica e sem espaço para serem discutidas: assim, foi-nos dito que deveríamos esquecer os filósofos Gregos antigos e o seu contributo para a cultura europeia e mundial, porque tinham sido vistos no Egipto (só isso, “tinham sido vistos”); que Heródoto tinha feito a descrição de Cleópatra como tendo traços africanos (como, se viveu cinco séculos antes dela?); que Alexandre o Grande incendiou a biblioteca de Timbuctú (bem, acho que não se aventurou por esses lados); que os médicos hoje fazem um juramento escrito por um médico egípcio (mmm… será de Hipócrates que estamos a falar?).

Em segundo lugar, havia uma determinação em fazer calar qualquer pessoa, preta ou branca, que estaria a tentar colocar o racismo numa perspectiva mais contemporânea, mais ampla. Era-nos dito que este não era o tema do workshop ou os nossos comentários e questões provocavam risos irónicos ou respostas agressivas, uma vez que o nosso desejo para haver debate era visto como uma tentativa de minimizar a seriedade do racismo dos brancos contra os pretos a fim de lidarmos com a nossa “culpa de brancos”. Os argumentos para apoiar esta tese continuavam a chegar. Num passeio pela cidade (chamado “Black Vienna” no programa do workshop), uma jovem mulher preta – que vive na Áustria desde os 2 anos e que tem hoje nacionalidade austríaca – partilhou a história da sua participação numa peça de Tennessee Williams, fazendo de empregada (um papel típico reservado a actores pretos, disse-nos). Sentiu-se desconfortável com o uso da palavra “nigger” (preto) no texto de Williams. Queria que fosse substituída (vamos ver: teria ficado satisfeita se tivesse mudado um texto escrito nos anos 50 que apresentava uma história no sul dos EUA, onde um personagem branco (provavelmente racista) que queria rebaixar um preto usasse talvez o termo “african american” em vez de “nigger”? E talvez a criada devesse ser interpretada por uma actriz branca? A sério, é assim que se vai combater o racismo?). Depois disto, continuando o nosso passeio, fomos levados ao parque da cidade e foi-nos mostrado o local onde um jovem preto tinha sido atacado pela polícia com enorme gravidade (presumivelmente por ser preto), onde a ambulância demorou séculos para chegar, resultando o incidente na morte do jovem (umas semanas antes tinha ocorrido em Salónica, na Grécia, um incidente bastante parecido, quando a polícia não gostou do aspecto “anarquista” de um jovem – branco…).

A aparente incapacidade da comunidade preta de Viena em se organizar para lutar pelos seus direitos e para partilhar de forma mais ampla as suas preocupações com a sociedade vienense deixou-me também apreensiva e algo surpreendida. Foi-nos contada a história de Angelo Soliman, um homem preto que chegou a Viena no século XVIII e era muito respeitado pela sociedade local e um companheiro do imperador pela sua inteligência e vastos conhecimentos e até se casou com uma mulher branca… para depois da sua morte ser embalsamado e exposto no Museu de História Natural. Uma exposição do Museu de Viena sobre Soliman uns anos atrás foi severamente criticada pela nossa guia, pela forma como representava as pessoas de África, mas, aparentemente, não houve nenhuma reacção oficial da comunidade preta (mais sobre a exposição aqui). Mais tarde, quando perguntámos que tipo de associações tinham para serem representados na sociedade austríaca e nas suas relações com o Estado austríaco, foi-nos dito que este género de associação não era possível, uma vez que a maior comunidade africana era da Nigéria e as pessoas pertencem a tribos diferentes e no passado rivais… Como pode ser que sejam todos “um” (“pretos” ou “africanos”) quando atacados ou discriminados, mas que as tribos se metam no caminho quando é suposto organizarem-se?

Por último, uma outra razão de preocupação: a óbvia raiva e igualmente óbvia incapacidade (ou falta de vontade) de colocar as coisas numa perspectiva diferente. Quando foi mencionado o caso de Zimbabwe, e concretamente a forma como os brancos tinham sido tratados pelo governo de Mugabe, foi-nos dito que tinha sido feita justiça. Os pretos viviam lá desde sempre, os brancos chegaram depois, por isso, mesmo que nasçam e cresçam naquele pedaço de terra há décadas, não lhes é permitido chamá-lo “seu”… Por outro lado, jovens que hoje em dia são oficialmente Austríacos (pretos) – depois de terem vivido durante alguns anos no país – reclamam furiosos contra o racismo e a discriminação austríacos. Estão convencidos (ou preferem pensar, para poderem continuar a alimentar a sua raiva) que qualquer coisa que aconteça a um preto é porque é preto.

Não estou a negar este género de racismo – ao contrário, se o estivesse a fazer, não teria ido a Viena -, mas nas suas repetidas tentativas de nos fazer ver uma vítima preta, alguns de nós víamos simplesmente uma vítima: um pobre, uma mulher, um homossexual, um cigano… Fiquei muito impressionada quando um participante do Senegal, que vive hoje em Barcelona, nos disse que, quando um rapaz do Senegal foi assassinado por ciganos (que estavam a gritar “mata o preto”…), a comunidade recusou-se a ver este incidente como um crime racial e concentrou-se no crime, no homicídio que deveria ser punido. Tinha sido uma opção consciente para evitar virar uma comunidade contra a outra. O homicídio tinha sido visto como um homicídio.

E sinto que este poderá ser o caminho. Considerando que existe apenas uma raça, a raça humana, o racismo hoje em dia para mim só pode ter um significado metafórico. É discriminação com poder (independentemente da cor do discriminado e de que detém o poder). Numa entrevista com Mike Wallace, Morgan Freeman considerou o Black History Month “ridículo”, recusando-se a ver a sua história reduzida a um mês. Quando o jornalista lhe perguntou “Então, como vamos ver-nos livres do racismo”, simplesmente respondeu: “Parem de falar sobre isso. Vou parar de te chamar branco e vais parar de me chamar preto. Sou Morgan Freeman para ti, e és Mike Wallace para mim.”




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No final da semana, esperando pelos nossos voos no aeroporto – quatro de nós, pretas e brancas de diferentes origens – estamos a falar de viagens e depois das companhias low cost e dos seus serviços. Uma de nós, preta, conta-nos a história da sua tia que vinha para a Europa com a Easyjet e foi-lhe dito para esperar algures para fazer o check-in, tendo sido “esquecida” propositadamente e obrigada a comprar um bilhete novo. “Estão a ver, é o que fazem aos Africanos.”

Mais leituras

Diane Ragsdale, Are we overdue to amend our default cultural policy? (um post muito interessante sobre o impacto do 'quadro racial branco' no sector cultural)

Molefi Kenti Asante, An african origin of philosophy: myth or reality?





Spectra, What kind of African doesn´t speak any african languages? Me.

Monday, 17 December 2012

Blogger convidado: "A história do rapaz que adormeceu", por Mohamed El Ghawy (Egipto)

O último blogger convidado este ano é um sonhador, um contador de histórias, é o meu amigo Mohamed El Ghawy. O Mohamed é aquele género de sonhador que nos surpreende pela forma como consegue manter os pés na terra. É cauteloso mas determinado, procura sempre dar passos em frente, sabe o que é preciso fazer para que os sonhos se tornem realidade e... fá-lo. Tivemos longas conversas no verão passado sobre a situação no Egipto e os seus planos para a AFCA, a organização que criou em 2004 com o objectivo de educar as crianças egípcias através das artes e da cultura. Esta é a sua contribuição para o futuro do seu país, um futuro habitado por cidadãos criativos, imaginativos, sensíveis e activos, capazes de aceitarem os outros e de encontrarem o seu caminho sozinhos. mv

Workshop de artes visuais com crianças carenciadas. (Foto: AFCA)

“As crianças enchiam o hall e, como habitualmente, eu estava a contar uma história. Algumas delas abriam as suas boquinhas imitando-me, outras abriam os seus olhinhos fascinadas. A interacção era maravilhosa, divertia-me muito a esticar a minha voz para imitar personagens e vários animais. As crianças estavam a rir-se. Estavam felizes por assistir, tal como eu estava feliz por representar. De repente, reparei num rapaz que estava na última fila, contra a parede. Os seus olhos fecharam-se e cabeceou. Adormeceu e senti-me chocado, era a primeira vez que isto me acontecia. Chateado por não ter conseguido atrair a sua atenção, continuei e no fim apresentei as minhas desculpas à professora. Ela, vendo como isto me tinha afectado, riu-se e disse: «Este rapaz sofre de insónia e estamos a trabalhar com os seus pais para o ajudar. O médico diz que não dorme porque não se sente seguro»”.

Isto não me aconteceu a mim; foi um contador de histórias da Croácia que nos contou numa formação na Irlanda. Há muito tempo que estou interessado na forma como usar as artes na educação dos mais novos. No meu país, o Egipto, o sistema de educação é muito tradicional e as crianças é suposto decorarem tudo sem reflectirem sobre aquilo que estão a memorizar, o que acaba por ser aborrecido. Para mim, a Educação é uma ferramenta e deve continuar a sê-lo.

Quando tinha 25 anos, fiz uma viagem de barco no sul do Egipto com um grupo de amigos, para fugir da vida louca de Cairo. Navegámos ao longo do Nilo num barco pequeno durante 4 noites. Sem tecnologia, sem stress, só a natureza e nós. Uma noite, o céu estava cheio de estrelas e um dos meus amigos, o Damian, abriu um mapa de estrelas e começou a brincar com pedrinhas. Disse que se fizéssemos um desejo naquele momento, tornar-se-ia realidade antes do fim do ano seguinte. Sem hesitar, falei do meu sonho em abrir um espaço onde as crianças pudessem aprender tudo através das artes. Os meus amigos ficaram muito entusiasmados e começámos a procurar um nome. “Deve incluir o francês, tu adoras essas língua”, disse Marwa; e a Yasmine disse: “Irás abri-lo no Cairo, certo?”. O Damian disse que no seu país, a Bélgica, esse género de projectos chamava-se “academia das artes” e naquele momento surgiu o acrónimo francês AFCA - Académie Francophone Cairote des Arts.

Meio ano depois, juntámo-nos todos para a inauguração da minha academia das artes. O Damien estava na Europa e voltou para o natal, vestido de Pai Natal e cantando para as crianças: “Há um ano, brincávamos com as estrelas no céu, agora brincamos convosco aqui na terra…”.

A missão da AFCA é “Educar as crianças e os jovens através das Artes e da Cultura no Egipto”. As actividades que propomos são desenhadas para reforçar o uso das línguas – francês, inglês e árabe – e para estimular a criatividade e talento artístico natural de cada criança, usando-o como um meio para desenvolver capacidades pessoais.

Algumas pessoas acreditaram na nossa missão. Lembro-me da mãe de Aly, que nos apoiou imenso desde o primeiro momento. Tal como nós, acreditava que a sua criança podia aprender e falar uma segunda língua sem ser necessário passar por um sistema académico, apenas através das artes. Conversámos dois anos depois da abertura da AFCA. Disse que Aly estava muito feliz. A sua personalidade tinha mudado e tinha desenvolvido muito as suas capacidades de socialização – mas só falava apenas a língua que lhe ensinavam na escola. Três anos mais tarde, telefonou-me. “Há quatro dias que estamos em França e Aly é o nosso guia, fala em francês. Obrigada!”. Na AFCA, tínhamos brincado juntos com as línguas, tínhamos pintado, até tínhamos cozinhado com elas. Aly tem agora 12 anos e faz parte da equipa que está a planear o nosso décimo aniversário em 2014.

Depois da revolução, tínhamos energia positiva e sentimos que estávamos livres. Decidimos construir pontes com outras culturas e criámos o Hakawy International Arts Festival for Children com o objectivo de trazer ao Egipto espectáculos de todo o mundo. A exposição a outras culturas irá apoiar o desenvolvimento da imaginação e criatividade das crianças e abrir as suas mentes para o mundo e a diversidade cultural. Abrimos o festival a crianças carenciadas, que normalmente têm acesso limitado às artes. Mas têm também o direito de se exprimirem e de se sentirem aceites pelos outros, também a nível internacional. Acreditamos que as artes e a cultura são inestimáveis para as crianças, tão importantes como a comida e a saúde. Comer é uma cultura, conduzir um carro é uma cultura, ouvir enquanto se conversa com outros é uma cultura, limpar é uma cultura. No Egipto, especialmente agora, precisamos destes lados intangíveis da cultura.

Segunda edição do Festival Hakawy, com crianças com necessidades especiais. (Foto: AFCA)
Algumas pessoas pensam que ensinar artes às crianças é um luxo. Não é; é tão importante como qualquer outra coisa. Ensina criatividade, capacidades de socialização e imaginação. A história de um país, contada como conto ou representada numa peça, nunca será esquecida. Quantas pessoas se lembram das datas históricas se as estudaram apenas para responder às perguntas de um exame?

Aprender através das artes enriquece muito a educação de uma criança. A equipa da AFCA ensina línguas estrangeiras através de teatro e de canções, e até disciplinas mais complexas, como a matemática e as ciências, podem ser ensinadas através das artes visuais. É mais importante do que nunca para as gerações mais novas possuírem um amplo leque de capacidades. Considerando algo tão simples como cozer bolos, uma tarte de maçã pode ajudar surpreendentemente uma criança a aprender a comportar-se como membro de uma equipa. As artes não são uma disciplina por si; atravessam todo o currículo.

Devido à situação económica do Egipto, que impede 20 em cada 100 crianças de encontrar um lugar numa escola pública, não podemos deixá-las mais na dependência do governo. Temos que as formar desde muito cedo, de uma forma criativa, para aprenderem a pensar e a investigar. Não só para nos seguirem, mas para estarem no centro, sendo nós aqueles que as seguem.

Nas instalações da AFCA, no dia a seguir à demissão de Hosni Mubarak. (Foto: AFCA) 

Para contribuir para o desenvolvimento do nosso país, e considerando que as organizações independentes devem fazer parte da solução, a AFCA juntou-se ao conselho consultivo das escolas de Heliópolis – Cairo Oriental, para desenvolver a educação através das artes e da cultura nas escolas públicas. Estamos a espalhar o nosso conhecimento, observamos os processos e avaliamos depois da implementação de cada projecto. Dizemos sempre que “A educação através das artes e da cultura não precisa de um PhD; todos podem fazê-lo, em casa, na rua… com as suas crianças ou com as crianças dos seus amigos”. Não posso ainda esquecer-me do papel das artes e da cultura na construção da inclusão social das crianças ou daquelas com necessidades especiais. Podem até substituir um medicamento. Lembro-me ainda do impacto que as nossas actividades tiveram nos refugiados do Iraque e agora da Síria, que se sentiram socialmente incluídos através das artes. Não custa nada, temos apenas que acreditar que, para assegurarmos o futuro das nossas crianças, precisamos de começara  trabalhar com elas desde cedo. O nosso objectivo é ajudar todas as crianças egípcias a serem capazes de aceitar os outros e a encontrarem o seu caminho sozinhas.

Não é fácil trabalhar nas artes, especialmente com a situação política actual, mas estamos a avançar e tentamos ser criativos na resolução dos nossos problemas. Dou sempre coragem a mim próprio e à minha equipa lembrando a todos que o rapaz que adormeceu não estava aborrecido com a história; adormeceu porque se sentiu seguro.


Mohamed ElGhawy é licenciado em Artes, Francês e Literatura pela Universidade de Cairo. Começou a sua carreira como professor de teatro, actor e contador de histórias, em várias escolas e centros culturais. Escreveu várias peças de teatro e encenou muitas produções. Tendo recebido formação pela organização IBO em como usar as artes na educação, fundou no Egipto em 2004 a AFCA, uma organização artística e cultural independente. A fim de promover a cultura árabe e egípcia em todo o mundo, tem viajado a vários países como contador de histórias e formador em educação pela arte. Criou o Hakawy International Arts Festival for Children in Egypt, sob a égide do Ministério da Cultura do Egipto, e com o apoio de várias embaixadas e da UNESCO. É membro do Conselho Consultivo das escolas de Heliópolis – Cairo Oriental. Estudou no DeVos Institute of Arts Management no Kennedy Center for the Performing Arts, em Washington. Colaborou com artistas internacionais em vários projectos que tinham como objectivo usar as artes e a cultura como ferramenta para a aprendizagem intercultural, em França, Alemanha e Argélia. Recentemente, tornou-se representante de Assitej International Network for Theatre for Young Audience and Youth no Egipto e está a trabalhar localmente com outras organizações para a sua reconstrução.