Showing posts with label exposições. Show all posts
Showing posts with label exposições. Show all posts

Sunday, 20 May 2018

Apropriação cultural: menos guardiões, mais pensadores críticos

"La Japonaise" de Claude Monet, Museum of Fine Arts Boston. (Imagem retirada de http://japaneseamericaninboston.blogspot.com)
Para a Nandia

O meu primeiro contacto com o conceito de apropriação cultural aconteceu em Julho de 2015 devido às “Kimono Wednesdays” no Museum of Fine Arts Boston (MFA). Por ocasião da exibição de “La Japonaise” de Claude Monet (uma pintura da esposa do artista, rodeada de leques, usando uma peruca loira e um quimono vermelho), os visitantes eram convidados a vestir um quimono semelhante ao mostrado no quadro e a partilhar as suas fotos nas redes sociais. Segundo o museu, essa era uma maneira para os visitantes se envolverem com a pintura. Para algumas pessoas, no entanto, a actividade carecia de qualquer contexto em relação ao quimono, tornando-se apenas “divertida”; outros criticaram a iniciativa por estar a reforçar estereótipos e exotizar os asiáticos-americanos; para outros, era racismo flagrante (leiam o artigo de Seph Rodney).

Saturday, 5 May 2018

"Lindonéia, a Gioconda do subúrbio", da minha primeira visita à Pinacoteca de São Paulo

"Lindonéia, a Gioconda do subúrbio", Rubens Gerchman, Pinacoteca de São Paulo  (Foto: Maria Vlachou)

“Na frente do espelho
Sem que ninguém a visse
Miss
Linda,feia
Lindonéia desaparecida
Despedaçados, atropelados
Cachorros mortos nas ruas
Policiais vigiando
O sol batendo nas frutas
Sangrando
Ai, meu amor
A solidão vai me matar de dor (...)”

Caetano Veloso, “Lindonéia”

Uma coisa da qual me apercebi logo nas primeiras visitas aos museus de São Paulo é que se gosta de longas introduções às exposições. A exposição “Vanguarda Brasileira dos anos 1960 – Coleção Roger Wright”, na Pinacoteca de São Paulo, não foi excepção.

Sunday, 6 March 2016

Passado recente

Exposição Retornar - Traços de Memória, Lisboa
Há umas semanas, li o texto de Lily Hyde Living Memory II, que questiona a construção de narrativas a partir de acontecimentos históricos recentes. Neste caso, o conflito armado no leste da Ucrânia e, especificamente, na cidade de Slavyansk. Um pouco mais de um ano antes, Hyde tinha falado com a directora do Museu de Slavyansk, Lilya Zander, que já estava a coleccionar Troféus de uma guerra incompreensível. Naquela altura, a directora do museu tinha dito que "O nosso trabalho é contar a história da nossa região", acrescentando que "O museu não está a tentar mostrar que está 'a favor' e 'contra'. Estamos a tentar mostrar os factos.”

Thursday, 4 June 2015

Algo está a acontecer em Évora


A lona no exterior do Fórum Fundação Eugénio de Almeida (FEA) em Évora fez-me sorrir… “Como é o museu com que sonha?” é uma espécie de promessa ou de convite para reflexão e diálogo.

Parece que é mesmo isso que o FEA e a curadora Filipa Oliveira procuram: “(…)o início de um caminho e de uma nova relação que o FEA quer estabelecer com a cidade de Évora e com o país; (…) uma reflexão programática do FEA em torno do dilema de como articular a singularidade e a especificidade do contexto local com o pensamento e os desafios da criação artística contemporânea internacional.”

Monday, 11 May 2015

Uma boa ideia, duas respostas, algumas lições


Passam este ano 125 anos desde a morte de Vincent Van Gogh. A partir de 3 de maio e ao longo de 125 dias, o Museu Van Gogh em Amsterdão irá responder a 125 questões sobre o pintor, a sua vida e a sua obra. O museu convida todos os interessados ​​a fazer uma pergunta através do seu website e de uma página especialmente criada para apresentar as perguntas e respostas (ver vídeo promocional e visitar a página).

Monday, 30 March 2015

O que há num título?



Escolher o título de uma exposição, actividade ou evento não é algo fácil. Não quando o que se pretende é que possa transmitir algo sobre o conteúdo e ser curioso ou engraçado o suficiente para atrair a atenção das pessoas – e, também, ser eficaz quando aplicado em materiais promocionais. O que normalmente se encontra ao abrir uma agenda cultural são títulos que apresentam o óbvio (por exemplo, o nome de um artista que podemos ou não conhecer) ou que tentam descrever o conteúdo de uma forma algo seca, maçadora ou repetitiva - palavras como "lugar", "memória", "olhar", "tesouros" são das mais preferidas por museus. Outro caso que devemos considerar é o de peças de teatro e performances contemporâneas, cujos títulos podem ser de 2-3 linhas, para serem depois abreviados para "uso diário" pela própria equipa artística e pelo público, levando ao que, provavelmente, deveria ter sido o título em primeiro lugar...

Tentei lembrar-me de títulos que funcionaram bem para mim e ocorreram-me logo dois:

"Unter 10" no Wien Museum (Foto: Maria Vlachou)
"Unter 10 - Wertvolles en miniatura" (Abaixo de 10 - Tesouros em miniatura), no Wien Museum, foi uma exposição de 2013 que apresentava objectos da colecção do museu escolhidos com base no critério rígido que nenhum deles podia ter mais de 10 cm de largura, altura, profundidade ou diâmetro. Desde objectos que procuravam “simplesmente” responder ao desafio da miniaturização, a utensílios do bébé, frascos de cheiro ou panfletos políticos ilegais, esta exposição fez-nos olhar (também com a ajuda de lupas ...), e olhar melhor, de maneira diferente, para a colecção. O museu não estava na minha lista de visitas, mas não pude resistir ao título.

Entrada da exposição "Disobedient Objects", V&A (Foto: Maria Vlachou)
Mais recentemente, "Disobedient Objects” (Objectos Desobedientes) foi outro título de exposição que chamou a minha atenção. Apareceu pela primeira vez no meu “feed” de notícias no verão passado, entre dezenas de diferentes títulos de notícias. Parei e abri o artigo. Citando o site do Victoria & Albert Museum, "Desde bules das Sufragistas a robots de protesto, esta exposição foi a primeira a examinar o papel poderoso de objectos em movimentos de mudança social. Demonstrou como o activismo político impulsiona uma riqueza de engenho no design e de criatividade colectiva que desafiam definições-padrão de arte e design." Tive a oportunidade de visitar a exposição em Novembro passado e correspondeu às minhas expectativas. O objecto que mais me tocou foi uma nota líbia desfigurada (o rosto rabiscado sendo o de Gaddafi). Lembrou-me de um líbio a ser entrevistado após ter visto o cadáver de Gaddafi: "Nós sempre pensámos que ele era um homem grande. Ele é pequeno, ele é tão pequeno."

Nota líbia desfigurada na exposição "Disobedient Objects", V&A (Foto: Maria Vlachou)

Vale a pena falar também de alguns exemplos refrescantes que surgiram recentemente em Portugal.


"Vivinha a saltar!" é uma exposição no Museu Bordalo Pinheiro que apresenta dois símbolos da cidade de Lisboa: a varina, uma figura popular na obra de Rafael Bordalo Pinheiro; e a sardinha, que se tornou num ícone da cidade e numa fonte de inspiração para artistas contemporâneos. O nome da exposição, "Vivinha a saltar!", um dos pregões mais famosos das varinas, tinha sido título de uma crónica sobre política e a sociedade portuguesa publicada no jornal "A Paródia", fundado por Bordalo Pinheiro.



Na semana passada, o Museu Municipal de Penafiel celebrou o Dia Mundial da Poesia, a 21 de Março, com "Dois garfos de conversa", uma conferência sobre os poetas da cidade, seguida de um jantar no museu. Conforme me explicou a directora do museu, título e cartaz foram criados pela equipa do Museu.



No mesmo dia, o colectivo de jovens Faz 15-25 celebrou o seu primeiro ano de existência no Museu Arpad Szenes - Vieira da Silva com filmes, poesia, palestras, oficinas e comida, inspirados na exposição temporária do museu "Sonnabend | Paris - New York" e dirigidos a públicos jovens. O título da iniciativa: "Faz-Tá POP!".




Por fim, a Fundação Calouste Gulbenkian surpreendeu-nos em Dezembro passado com um convite "P'ra Rir", um ciclo de cinema (agora na sua segunda edição), que dá às pessoas a oportunidade de ver cinema numa sala grande, o recentemente renovado Grande Auditório da Fundação. De acordo com João Mário Grilo, responsável pela programação, o riso pareceu-lhe ser um bom gesto inaugural. "E será errado pensar que se trata de (mais) um 'ciclo de comédias', porque no cinema, como na vida, se ri de muitos modos diferentes, e até nos dramas."


Retirado da página de Facebook da Fundação Calouste Gulbenkian.

Tanto nas instituições culturais grandes como nas pequenas, o processo de escolha de um título pode envolver diferentes pessoas e departamentos: curadores, directores, assessores de imprensa, as equipas de educação e de comunicação. Recentemente, a Fundação Gulbenkian decidiu envolver o público na escolha do título de uma exposição de 2016 no Museu Gulbenkian. Como mencionado no início do post, o objectivo ao escolher um título é que este possa transmitir algo sobre o conteúdo, atrair a atenção das pessoas, ser eficaz quando aplicado nos materiais promocionais (neste caso, um bom design gráfico é definitivamente uma vantagem). Um último conselho, dos nossos colegas do Australian Museum: "Assegure-se que os funcionários da recepção / frente-de-casa estão confortáveis ​​ao dizer o título em voz alta, pois muitas vezes são eles que vendem a exposição aos visitantes." E têm razão!


Agradecimentos: Elisabete Caramelo, Isabel Aguilar, Maria José Santos, Rui Belo, Sara Pais.


Mais leituras:






Monday, 23 March 2015

Philippe de Montebello revela-se


Vou dizê-lo logo no início para deixar o assunto arrumado: sim, fiquei irritada com as duas afirmações de Philippe de Montebello no livro "Rendez-vous with art" relativas à questão da restituição de objectos (p.54 e p.208). Dito isto, o resto do livro é absolutamente encantador! Uma série bela, inspiradora e surpreendente de conversas entre Montebello e o crítico de arte Martin Gayford, que revela o homem por trás do historiador de arte e durante muitos anos director do Metropolitan Museum of Art.

Seguindo estas conversas, sentimos um desejo de olhar e olhar melhor, mesmo que seja apenas uma foto num livro - na esperança, é claro, de poder estar à frente do original um dia ... Como o próprio Montebello diz: "(...) nada pode substituir a experiência, a sensação muito física, de estar cercado e envolto no espaço real." (51 p.)

Provavelmente, um dos momentos mais tocantes vem logo no início do livro, onde Montebello responde à pergunta de Gayford sobre aquele momento único, aquela experiência única que pode tê-lo levado a uma vida nas artes. Montebello partilha connosco esse momento muito especial, quando ele tinha 15 anos e o seu pai levou para casa o livro "Les Voix du Silence" de André Malraux. E, de repente, ali estava Uta...

"Ela era a Marquesa Uta na Catedral de Naumburg e eu amei-a como mulher (...) com a sua maravilhosa gola alta e as suas pálpebras inchadas, como se tivesse passado a noite a fazer amor." (p.10; imagem retirada da Wikipedia)

Fiquei a pensar: será que ele teria alguma vez posto isto na legenda num museu? Quantas pessoas teriam olhado, olhado melhor, olhado mais, se tivessem lido algo assim sobre uma estátua?

Mais à frente, Montebello admite algo que raramente ouvimos da boca de curadores, mas que é verdade para a maioria dos visitantes de museus: "Descobri que quando me forcei - muitas vezes com a ajuda de curadores - a olhar para coisas sobre as quais era indiferente ou que até me repeliam, descobri que, com mais alguns conhecimentos, o que havia sido escondido de mim tornou-se manifesto." (p.59)

Que tipo de conhecimentos é necessário para esta 'epifania' ocorrer, podemos questionar. Nem factos sobre a vida do artista, nem uma descrição detalhada e seca de pormenores estilísticos, quando são consideradas as primeiras necessidades do visitante não-especialista (ou seja, da maioria dos visitantes dos museus). Parece que podemos encontrar todas as respostas no livro de Freeman Tilden "Interpreting our Heritage": "O que está por trás do que o olho vê é muito maior do que aquilo que é visível" (p.20); (...) Mas o objectivo da interpretação é estimular o leitor ou o ouvinte a desejar ampliar os seus horizontes de interesses e conhecimentos e a procurar entender as grandes verdades que estão por trás de qualquer afirmação de factos (p.59); (…) Não com os nomes das coisas, mas expondo a alma das coisas – aquelas verdades que estão por trás do que estamos a mostrar ao visitante. Nem pregando; nem sequer dando sermões; não através da instrução, mas através da provocação (p.67).

Mais alguns exemplos do livro de Montebello poderiam ilustrar melhor estes pontos:

"(...) é absolutamente delicioso. O sapato voando para o ar, em direcção à estátua de Cupido ao lado, aquela árvore encantadora, tão espumosa e diferente de uma árvore real: é tudo como um décor de théâtre, um cenário teatral. Esta é uma lindíssima pintura sobre o estarmos a divertir-nos e sobre a qual uma pessoa não precisa de pensar muito, basta abandonar-se ao puro prazer que proporciona: uma pintura com a qual não teria nenhum problema em viver." (p. 81, Jean-Honoré Fragonard, O baloiço, 1767; imagem retirada de www.thebingbanglife.com)

"(...) então, concentrei-me nas profundas marcas de queimaduras na parte inferior do quadro, claramente feitas pelas velas votivas, confirmando que esta foi, realmente, uma imagem devocional. Apenas alguns detalhes adicionais resultaram de uma análise aprofundada, sendo um dos mais importantes que a imagem estava impecável, uma coisa rara quando se trata de imagens com fundo dourado do século XIV, uma vez que a maioria das obras sofreram muito ao longo do tempo, principalmente, receio, nas mãos dos restauradores." (p.65, Duccio di Buoninsegna, Madona e criança, c.1290-1300; imagem retirada de www.theopenacademy.com)

"Mas estou feliz só de apreciar a expressão no rosto de Adão, tão doce, e da maneira como ele segura o ramo de maçã - não é uma folha de figueira - com dois dedos, bem como a folhagem necessária para cobrir a sua nudez. Dürer dotou de uma forma tão cativante as suas figuras inspiradas na antiguidade clássica com uma terna sensualidade; e adoro Eva, parecida com Vénus, com o seu rosto bonito de fräulein de Nürnberg. Vê? Nada de história da arte, apenas a minha própria reacção muito pessoal "(p124, Albrecht Dürer, Adão e Eva, 1507; imagem retirada de www.pictify.com)

Não acredito que a maioria das pessoas visita museus à procura de uma lição em história de arte nos seus painéis e legendas - ou de física, de música ou de outra disciplina qualquer (algumas o fazem, é claro, e as suas necessidades são igualmente legítimas, mas os museus geralmente dão resposta a essas necessidades com vários outros meios). As pessoas também não visitam museus à procura de alguém que lhes diga o que devem sentir ou pensar, como defende Alain de Botton em Art is Therapy (Rijksmuseum), onde encontramos legendas como esta: "Você sofre de fragilidade, de culpa, de dupla personalidade, de auto-aversão. Você é provavelmente um pouco como esta imagem." (a respeito da pintura de Jan Steen A Festa de São Nicolau). Penso que a maioria de nós está, antes de tudo, à procura de algo que possa ter significado para nós, algo que possa deliciar-nos, surpreender-nos, fazer-nos sentir bem ou mais ricos ou mais conscientes de nós mesmos e do mundo. Muitos de nós estamos à procura de histórias, histórias de outras pessoas, seres humanos com os quais nos possamos relacionar - aqueles representados ou aqueles que procuram partilhar os seus conhecimentos connosco.

Decidir qual a história a contar não é uma escolha fácil para um museu; escrevê-la de uma forma clara e concisa é igualmente difícil. Mas não é impossível, como Montebello nos mostra no seu livro, onde abandona o seu “eu institucional" e consegue partilhar o seu enorme conhecimento de historiador de arte de uma maneira simples e humana, que é significativa e relevante para muitas mais pessoas. Não é impossível, como Paula Moura Pinheiro nos mostra todas as semanas no seu programa televisivo "Visita Guiada", onde descobrimos que curadores e especialistas em arte em Portugal também são pessoas fascinantes, capazes de partilhar connosco muito mais do que os habituais factos geralmente presentes nas legendas, e que nos fazem desejar saber mais, visitar o museu, ver o objecto - ou voltar para o ver de novo, depois do que nos foi revelado.

É possível. É uma questão de escolha e de habilidade. Não lhe falta teor científico e comunica.

"Não tenho certeza se ficaria encantado porque estou tão concentrado, tão absorto e cativado pela perfeição do que lá está; que o meu prazer - e é um prazer intenso - está maravilhado com o que o meu olho vê, não com uma abstracção que, de um modo mais ‘à história de arte’, eu poderia evocar. É como um livro que amamos e simplesmente não queremos ver o filme. Já imaginámos o herói ou a heroína de uma certa maneira. Na verdade, com os lábios de jaspe amarelo, eu nunca tentei, realmente, imaginar as partes que faltam." (p.8, Fragmento do rosto de uma rainha, Período do Império Novo, c. 1353-1336 a.C, Egipto; imagem retirada do website do Metropolitan Museum)

Mais neste blog





Mais leituras

Philippe de Montebello and Martin Gayford (2014), Rendez-vous with Art. Thames and Hudson









Monday, 5 January 2015

Para aceitar o 'não' como resposta

Museu da Acrópole (Foto: Maria Vlachou)

Da última vez que estive no Museu da Acrópole e enquanto estava a tirar fotografias na sala das esculturas, fui abordada por um vigilante que gentilmente me informou que não podia tirar fotos naquela sala e que rapidamente me informou também das áreas onde podia fotografar. Não me foi dada nenhuma explicação em relação a essa distinção. Quando um pouco mais tarde tirei uma fotografia a uma legenda (não um objecto, uma legenda), uma outra vigilante fez questão de informar os seus colegas que deveria ser vigiada. E passou a seguir-me de perto…

Sendo tudo isto muito desconfortável para mim - e, tenho a certeza, para os vigilantes também -, aproveitei a oportunidade para questionar uma arqueóloga que estava na sala, a fim de responder a perguntas dos visitantes. Explicou-me que algumas das estátuas preservam as suas cores originais, que o flash pode ser prejudicial, e que, como não é possível para os vigilantes controlarem o uso do flash, o museu achou melhor proibir totalmente a fotografia. Pareceu-me que a apanhei de surpresa quando perguntei por que razão o museu não assume o seu papel educativo e não explica aos visitantes porque é que não deve ser utilizado o flash, em vez de proibir totalmente a fotografia em determinadas salas (a maioria das câmeras digitais não precisa de flash) e criar uma política tão ambígua em relação à fotografia no museu.

Brooklyn Museum (Foto: Maria Vlachou)
Não foi algo que inventei naquele momento. Ocorreu-me que, há um par de anos, na exposição Workt by Hand no Brooklyn Museum - composta de colchas extremamente frágeis, feitas nos últimos dois séculos - o museu tinha optado por não mostrar os objectos atrás de vidros ou cercados de cordas e à distância. Por isso, quando se entrava no quarto, o visitante era convidado a "Por favor, não tocar. O óleo e os sais nas suas mãos podem danificar tecidos e pontos. Agradecemos a sua ajuda na preservação destas peças frágeis". Algumas pessoas podem estar a pensar que estamos a falar de uma cultura diferente, uma cultura mais respeitosa, mas não é o caso. O Brooklyn Museum abre as suas portas a todo o tipo de visitantes, com e sem o hábito de visitar museus, com e sem conhecimentos específicos sobre os objectos e a sua preservação. O museu assume, no entanto, o seu papel educativo e não espera simplesmente que os visitantes aceitem o 'não' como resposta, só porque o museu assim o disse, sem mais explicações.

Pouco depois da minha visita ao Museu da Acrópole, li um artigo no Guardian sobre o papel fundamental dos assistentes de sala nos teatros, principalmente no que diz respeito a públicos disruptivos. No artigo, é-nos dado a conhecer o exemplo de Stratford East Theatre, onde assistentes de sala e pessoal de frente-de-casa são formados para lidar com tais situações. E mais: num teatro que tem "um número particularmente elevado de espectadores que vêm pela primeira vez, que às vezes precisam de ser ajudados a compreender o efeito que o seu comportamento tem não apenas nos outros membros do público, mas também nos assistentes de sala e nos actores", a gestão do teatro opta por convidá-los "a visitar os bastidores para conhecerem a equipa e o elenco e para que possam entender mais sobre como funciona um teatro e como os seus comportamentos afectam os outros".

Acredito que faz parte do papel educativo das instituições culturais ajudar as pessoas a compreender melhor os detalhes do trabalho que está a ser feito, mas também o seu próprio papel – o papel dos espectadores e dos visitantes – para que este trabalho possa ser realizado nas melhores condições para todos os envolvidos. Acredito que isto pode ser muito mais eficaz do que simplesmente dizer "não" a um certo comportamento ou pedir às pessoas para saírem e é também uma maneira de as tornar co-proprietárias e co-responsáveis por esse trabalho. 

Monday, 6 January 2014

Para que possam viver felizes para sempre


Lembro-me que quando li a notícia sobre a colaboração do Museu de Arte Antiga (MNAA) com a agência Everything is New na produção da exposição do Prado em Portugal senti-me um pouco surpreendida. Tão pouco tempo depois da exposição de Joana Vasconcelos no Palácio da Ajuda e apesar das questões que aquela primeira parceria tinha levantado (não tanto publicamente e formalmente, talvez, mas, sem dúvida, em muitas conversas entre colegas), aqui estava mais uma parceria do Estado Português (e de um museu nacional) com o mesmo parceiro. Pelo que li nos jornais, a Everything is New financiou a produção da exposição no valor de €380.000, sendo que a receita de bilheteira e de outras vendas até este valor será a 100% da Everything is New; acima deste montante, será dividida entre esta agência e o MNAA.   

Acredito muito nas parcerias público-privadas e penso que irão acontecer cada vez mais e ainda bem. Além disso, e no caso específico da Everything is New, gostei particularmente de ler as afirmações do seu director, Álvaro Covões, em Novembro passado, a propósito dos resultados do Eurobarómetro sobre a participação cultural dos portugueses. Numa altura em que a maioria das reacções no sector ia no sentido de acusar este povo de ignorância e desinteresse e falta de cultura, Covões dizia que o estudo não era assustador e que, pelo contrário, representava uma oportunidade e uma responsabilidade social. Eu também penso o mesmo.


Quando na semana passada entrei no MNAA, uma das primeiras coisas que vi foi um suporte acrílico com folhetos: da exposição temporária do Prado em Portugal; do concerto da Beyonce; e do espectáculo “Dralion” do Cirque du Soleil. Percebi, então, que este era o suporte de publicidade da Everything is New. Esta mistura de propostas fez-me sorrir. Colocar as paisagens nórdicas de Rubens, Brueghel e Lorrain lado a lado com a Beyonce, no Museu de Arte Antiga, pode ser uma forma de desafiar os nossos preconceitos sobre “alta” e “baixa” cultura, de reconhecer que quem gosta de uma coisa pode também gostar da outra e que as formas de participação cultural variam e não acontecem apenas dentro de moldes pré-definidos pelos profissionais do sector. Acredito que esta coexistência no suporte acrílico tenha sido apenas o resultado de uma das contrapartidas dadas à Everything is New e não uma tentativa consciente de desafiar as nossas noções sobre o que é “cultura” e “arte”. Mesmo assim, é um dos resultados colaterais, e para mim positivos, deste género de parcerias.

Depois deste sorriso inicial, no entanto, começaram a surgir as dúvidas. E isto porque, quanto mais olho para os pormenores da comunicação desta parceria, mais sinto que o que vi não foi a nova exposição do MNAA, mas sim, a exposição da Everything is New no MNAA. Detalhes? Talvez sim, talvez não.

O folheto da exposição é um folheto neutro. ‘Neutro’ porque não identifica, como devia, a entidade promotora, a entidade que apresenta a exposição e que nos convida a visitá-la (o que normalmente acontece através da inclusão do logo desta num lugar de destaque). No caso do MNAA e de outros museus nacionais isto não é novo. Estas entidades estão condenadas à discrição, não se podem assumir como grandes promotoras das suas iniciativas, sendo o seu logo remetido para o rodapé dos materiais de divulgação, obrigatoriamente precedido por aqueles (dois neste caso) da sua tutela e ao mesmo nível que os logos dos apoios. Nos materiais de divulgação, a referência aos museus nacionais é, em primeiro lugar, uma referência ao local – apenas o local – de uma exposição. O que é novo no folheto desta exposição no MNAA é que o museu é mesmo identificado como ‘o local’. Não se trata apenas de uma interpretação da forma como a informação é referenciada, mas existe mesmo a designação “Localização / Location”, e não “Morada / Address”, como seria natural. Detalhes? Talvez sim, talvez não.

A posição discreta do MNAA no âmbito desta parceria é reafirmada nos suportes online. Ao clicar na imagem desta exposição temporária no website do museu, somos levados para uma página com apenas três links: 1. Nota de imprensa + info (encontramos aqui informação destinada apenas aos meios de comunicação social); 2. Vídeo de divulgação (no canal do You Tube do MNAA e com o título “A Paisagem Nórdica do Museu do Prado” e não “Rubens, Brueghel, Lorrain”, que é o título com o qual a exposição está a ser divulgada – um pouco enganador, mas por uma boa causa, suponho, uma vez que os nomes são atractivos, apesar da sua representação na exposição ser limitada); 3.  Bilhetes e informações (remete para o site específico da exposição - Porque é que esta exposição tem um site específico? Porque é que não encontramos toda a informação relevante no site do MNAA?). Detalhes? Talvez sim, talvez não.

Imagem retirada do website Portugal Confidential.
Onde quero chegar? Uma das coisas que aprendi e muito bem nesta profissão é que tudo, ‘tudo’, comunica: o que se diz e o que não se diz; o que se faz e o que não se faz. E o que me é comunicado no caso desta parceria, olhando para alguns suportes de divulgação e lendo as notícias nos jornais, é a afirmação da Everything is New como o agente que permitiu tornar a exposição realidade e que, por isso, pode beneficiar de (ou exigir?) condições especiais de apresentação e de representação.

“Mas, o que é que te incomoda realmente?”, insistiu uma amiga.

O que me incomoda realmente é que parcerias como esta são, na verdade, vistas como uma espécie de favor que se faz da parte de quem tem o dinheiro e não como verdadeiras parcerias, que contam com o contributo de ambas ou, neste caso, de várias partes. A Everything is New investiu nesta exposição, como antes na exposição da Joana Vasconcelos, um valor muito significativo que, sem dúvida, foi determinante para a viabilização do projecto. Fê-lo não porque teve pena dos museus e das condições muito limitadas em que estes estão a operar, mas porque sentiu que tinha algo a ganhar com isto, tanto em termos financeiros, como também em termos de prestígio, nesta área que não é propriamente – ou ainda - a sua. Por isso, não investiu numa exposição qualquer, mas sim, numa exposição que resulta da parceria do MNAA com o Museu do Prado. Pelo seu lado, o MNAA não recebeu apenas. Contribuiu igualmente para a realização da exposição. Contribuiu com o espaço, contribuiu com a toda a sua infra-estrutura, contribuiu com a sua expertise e contribuiu com o seu prestígio. Esta exposição não seria a mesma coisa se este museu não estivesse envolvido. E ainda, quanto terá custado, por exemplo, o seguro das obras, suportado pela Lusitânia? Ou a impressão do catálogo, assumida pela Casa da Imprensa? Portanto, esta é uma verdadeira parceria e deveria ser encarada como uma “win-win situation” e não como um risco assumido, generosamente e apenas, pela Everything is New. A exposição não teria acontecido apenas com os €380.000 que a agência investiu, não é verdade?

Imagem retirada do website Museus de Portugal
Mas mesmo antes disto, o que me incomoda realmente, e principalmente, é que o Estado avançou com esta nova parceria com a Everything is New sem terem sido discutidas, esclarecidas e avaliadas as questões levantadas pela exposição da Joana Vasconcelos no Palácio da Ajuda. Questões relacionadas com a entrega do espaço ao controlo do parceiro/investidor; com o impacto na colecção do Palácio e no próprio edifício, devido a decisões/imposições que contrariavam os conselhos dos técnicos do museu; com as condições de contratação e com a preparação dos monitores da exposição. Não consigo dizer até que ponto estas questões têm fundamento ou não; também não tenho informação concreta sobre os moldes da parceria, apesar de a ter procurado.

O Estado tem responsabilidades e tem a obrigação de ser transparente na elaboração destas parcerias. Nós, os profissionais, também temos responsabilidades e a obrigação de exigir transparência e de intervir de forma decisiva, o que ultrapassa as conversas entre colegas e a troca de comentários no Facebook. As parcerias público-privadas são fundamentais e, na minha opinião, desejáveis. Tal como é desejável que tenhamos conhecimento dos moldes em que as mesmas se constróem para que não fiquemos com a incómoda sensação - interpretando os sinais, as conversas, os rumores e as notícias nos jornais – que os museus nacionais são entregues a agentes externos e usados apenas como palcos. Detalhes? Certamente que não.

Monday, 8 July 2013

'Apenas' um museu, 'apenas' uma artista?

A artista Ahlam Shibli no Jeu de Paume (Foto LP/Philippe de Poulpiquet, retirada do jornal Le Parisien)
Já tinha escrito aqui sobre a minha experiência de há vinte anos quando visitei um museu de história na cidade de Halifax no Reino Unido. Tinha ficado absolutamente chocada quanto vi, numa das fotografias expostas, combatentes da resistência cipriota contra o poder britânico a serem identificados como “terroristas”. Ao mesmo tempo, penso que me apercebi naquela altura – tinha 23 anos – que havia pessoas que contavam aquela mesma história de uma forma completamente diferente. Os homens na fotografia poderiam ter matado os seus entes queridos, que tinham sido enviados pelo seu país para defender uma autoridade, na sua opinião, legítima.

Mesmo assim, independentemente do meu choque, não ameacei o museu com uma bomba, não iniciei uma petição para fechar a exposição. Que é exactamente o que tem acontecido em Paris nas últimas semanas como resposta a certas fotografias exibidas no âmbito da exposição Foyer Fantôme, no museu Jeu de Paume, pela artista palestiniana Ahlam Shibli. Porquê? Porque certas pessoas sentiram que a exposição de fotografias de bombistas suicidas palestinianos, e o facto de serem referidos como “mártires”, era uma forma de glorificar o terrorismo. Considero, obviamente, as reacções e ameaças dos grupos pró-Israelitas totalmente inaceitáveis. Mas devo também dizer que não me surpreendem. O assunto é sensível, controverso, e aqueles que afirmam estar surpreendidos pelas fortes reacções de certos grupos ou que nos avisam relativamente ao retorno da censura (ler o artigo de Emmanuel Alloa La censure est de retour) ou são ingénuos ou não são honestos com eles próprios e com os outros. Não há nada de novo ou de surpreendente nestas tentativas de censura, aconteceram no passado e voltarão a acontecer. Mas não é sobre isto que quero falar.

Elogio os museus que têm a coragem de tocar em assuntos difíceis e controversos. Os museus devem fazer exactamente isso: desafiar as nossas ‘histórias’, apresentar ‘o outro lado’, provocar debate, criar espaço para isso. No entanto, não tenho a certeza se o propósito do Jeu de Paume era esse.

Lê-se no website do museu relativamente à exposição: “Morte, a última série de Ahlam Shibli, especialmente concebida para esta retrospectiva, mostra como a sociedade palestiniana preserva a presença de ‘mártires’, de acordo com o termo usado pela artista. Esta série testemunha uma vasta representação dos ausentes através de fotos, cartazes, painéis e graffitis expostos como forma de resistência.” O museu parece ter perfeita consciência que o uso do termo ‘mártir’ pode ser controverso e atribui o mesmo à artista. Por outro lado, a artista, citada no artigo de Emmanuel Alloa, afirma que “O meu trabalho é apenas mostrar, não é nem denunciar nem julgar”. 

Na minha opinião, as exposições não mostram ‘apenas’. Nem os artistas. Exposições e artistas fazem afirmações. A Ministra Francesa da Cultura pareceu-me muito mais afirmativa no seu comunicado público e não pareceu querer fugir àquela que é a verdadeira questão: “Esta alegada neutralidade pode também ser chocante”, disse ela, “e causar más interpretações, uma vez que não explica o contexto das fotografias, que não é apenas aquele da perda, mas também o do terrorismo.” (ler o comunicado na íntegra aqui).

Death nr. 37, por Ahlam Shibli (imagem retirada do blog Lunettes Rouges)
O Ministério pediu ao museu para completar a informação disponibilizada aos visitantes para, por um lado, clarificar e explicar melhor o propósito da artista e, por outro, para fazer a distinção entre a proposta da artista e posição da instituição. A Ministra foi atacada de todos os lados, pró e contra a exposição. Pessoalmente, não vejo porque é que um museu deveria manter a distância das suas opções da forma como parece ter sido sugerido pelo Ministério Francês. O que deveria ficar mesmo claro é por que razão o museu escolhe apresentar a exposição A ou B ao público, como é que esta escolha vai ao encontro da sua missão e programação, o que pretende comunicar, que género de reflexão e discussão procura promover.

Não posso dizer que são claros para mim os propósitos do Jeu de Paume e as razões porque optou por apresentar uma artista que ‘quer apenas mostrar’. Procurei várias vezes no website do museu a existência de um programa paralelo que poderia complementar a exposição com comunicações e debates. Nada. Quando foi finalmente anunciado um debate, organizado pelo museu e pelo Observatoire de la Liberté de Création, “reagindo à controvérsia gerida pela exposição”, este iria abordar questões como a liberdade da representação artística, a responsabilidade das instituições que expõem obras que possam causar polémica, a liberdade do visitante de ter acesso às obras e a liberdade de expressão em todas as suas componentes (ler aqui).

Isto é tudo muito bom. Isto é exactamente o que deveria ter sido programado antecipadamente e não como reacção a uma polémica. E deveria ter ido mais longe do que a discussão geral da liberdade de criar, liberdade de expor, liberdade de visitar. Esta exposição levanta outras questões importantes e específicas.

Teria esperado que o Jeu de Paume não fingisse que não estava à espera de uma enorme polémica quando bombistas suicidas palestinianos são referidos como mártires. Teria esperado que a artista não quisesse “apenas mostrar”, como se fosse ‘apenas’ uma repórter, como se não tivesse tirado e exposto estas fotos com a intenção de fazer uma afirmação. Teria esperado que ambos, o museu e a artista, quisessem verdadeiramente provocar um debate, empurrar as fronteiras para a frente, criar espaço para discutir o que é história, identidade, conflito, justiça, resistência, um acto ou um estado terrorista. Esta é a questão palestiniana, aqui não há “apenas”.

Ainda neste blog

As histórias que contamos a nos próprios

Silenciosos e apolíticos?

A longa distância entre Califórnia e Jerusalém


Mais leituras

Marie-José Mondzain, Artiste palestinienne : liberté pour l'art au Jeu de Paume (Le Monde, 21.6.2013)


G.W. Goldnadel, France/Jeu de Paume: double honte (Israël Flash, 21.6.2013)
Marta Gili: Je refuserai toujours lacensure au Jeu de Paume. Entrevista da Directora do Jeu de Paume (Le Figaro, 24.6.2013)

Monday, 3 December 2012

Quem diz?

Giselle Ciulla, 'curadora' da exposição Giselle´s Remix (Imagem retirada do website do Clark Art Institute).
uCurate é uma iniciativa do Clark Art Institute na cidade de Williamstown nos EUA. Trata-se de uma aplicação digital que permite às pessoas desenhar exposições imaginárias a partir da colecção do museu. As propostas entram numa competição e a proposta vencedora é materializada com a ajuda do museu. Nesta primeira edição, e após a avaliação de quase 1000 candidaturas, a proposta vencedora foi a de uma menina de 11 anos, Giselle Ciulla, que nos convida a visitar Giselle´s Remix (mais aqui).

É tão bom ver a cara alegre da Giselle e quase que sentimos o orgulho que ela sente na sua proposta. É também este o papel dos museus na sociedade, um papel que permite o envolvimento, a participação activa, que reconhece que existem mais versões da ‘verdade’ e que as acolhe, mesmo tratando-se de crianças com 11 anos. As legendas que acompanham as obras na exposição foram escritas pela própria Giselle. Transmitem simplicidade e frescura, demonstram sensibilidade. Há uns anos atrás tinha visto legendas escritas pelos visitantes na Tate Britain e tinha também gostado muito. Eram, para mim, tão interessantes como as outras, as ‘oficiais’. Na altura (foi em 2004), Maev Kennedy do Guardian achou a iniciativa dúbia. Quanto ao director da Tate Britain, Stephen Deuchar,  dizia que estaria particularmente interessado em receber as contribuições de visitantes que poderiam saber muito mais sobre uma pintura do que os especialistas do museu ou os próprios artistas (ler mais aqui).

Nos dias 12 a 14 de Novembro estive na conferência Em nome das artes ou em nome dos públicos, organizada pela Culturgest em colaboração com o programa Descobrir da Fundação Gulbenkian. Uma das principais preocupações dos presentes pareceu-me ser a questão da ‘autoridade’ à volta da interpretação de uma obra. Quando fiz o meu mestrado, éramos ‘avisados’ que as pessoas reconheciam autoridade no museu, assumiam a informação que ali encontravam como ‘verdade validada’. Mas também naquela altura, e já vão quase 20 anos, questionávamo-nos sobre a possibilidade (e a obrigação) de criar espaço para ser contada mais que uma história.


Pois, a preocupação e a reflexão continuam nos dias de hoje. O conceito de museu participativo (tão bem fundamentado na teoria e através da prática por Nina Simon) ganhou grande expressão. Um caso interessante, entre os vários que foram apresentados na conferência Em nome das artes ou em nome dos públicos, foi o dos dTOURS na exposição de arte contemporânea dOCUMENTA - visitas guiadas (pagas) realizadas por pessoas de várias idades e backgrounds, residentes, a maioria, na cidade de Kassel, onde tem lugar a exposição. Os dTOURS tinham tido lugar pela primeira vez na edição anterior, dOCUMENTA 12, e foram motivo de várias reclamações por parte do público. Apesar da organização ter informado que as visitas seriam feitas por não especialistas, os participantes não deixaram de se sentir ‘enganados’, as suas expectativas eram diferentes. No entanto, e apesar da avaliação da iniciativa não ter sido positiva, a dOCUMENTA 13 retomou-a, com os mesmos resultados.

Várias questões se levantam aqui: Porque é que uma iniciativa se repete, nos mesmos moldes, se a sua avaliação não é positiva? Estaremos - em nome da experimentação, da exploração, da vontade de fazer mais e melhor - a ignorar necessidades básicas das pessoas, como o ouvir o que um especialista tem a dizer sobre uma determinada temática, como uma visita guiada ‘normal’, como uma legenda ‘normal’? Estaremos a caminhar para um extremo oposto, onde “o visitante é que sabe” (até “mais que o próprio artista”, para citar novamente aqui o antigo director da Tate Britain)?

O livro de Clay Shirky Cognitive Surplus: How Technology Makes Consumers into Collaborators  fala-nos do movimento pro-am (professional-amateur) e de como as novas tecnologias permitem hoje em dia aproveitar o enorme excedente cognitivo das pessoas, desejosas de contribuir com os seus conhecimentos (sem serem remuneradas, apenas por se sentirem bem, úteis, envolvidas) para projectos de todas as naturezas, causas sociais, etc. A Wikipedia é exemplo disto. Ian David Moss argumenta no seu blog Createquity que este mesmo modelo da Wikipedia poder ser aplicado na cultura, na programação ou na distribuição de apoios (ler aqui).

As pessoas continuam a procurar informação nos museus. Num artigo de Stephen Weil intitulado “The Museum and the Public” (integrado no livro Museums and their communities, editado por Sheila Watson), li que, passada a era dos museus “celebratórios” e assertivos, surgiu uma outra tendência, aquela que admite que o que se está a dizer não está fechado, poderá estar aberto a outras interpretações ou continuar a ser objecto de investigação. Vale a pena referir que foi um museu de história natural (o American Museum of Natural History) um dos primeiros a apresentar legendas onde se lia “o que sabemos até agora”, “mas podemos estar enganados, já nos aconteceu, a investigação continua”, etc. Talvez porque os cientistas estão mais confortáveis que outras especialidades com o testar e enganar-se e com o admitir que estavam errados.

Os especialistas não sabem tudo, mas sabem muito, muito mais do que nós nas suas áreas de especialidade. Encontram-se dentro e fora dos museus, são profissionais ou amadores, e juntos podem contribuir para o desenvolvimento do nosso conhecimento. Eu, como visitante, não deixo de procurar a sua opinião, a sua ‘versão’, não para a aceitar como se fosse a Bíblia, mas para com ela poder construir a minha opinião, o meu conhecimento. Ao mesmo tempo, indo além da informação, considerando que uma visita a um museu é também sentimentos, surpresas, emoções, partilha, experiências e conhecimentos prévios, memórias, o especialista - quando bom mediador ou facilitador (ou…) – saberá criar aquele espaço para o qual todos possam contribuir, com as suas ideias, as suas experiências, as suas interpretações, as suas reacções. Aquele espaço onde não há especialista e não especialista, correcto ou errado. Por isso, museu participativo para mim não é o museu que, em nome da democracia cultural, passa o ónus de uma das suas principais funções ao visitante. Museu participativo é o museu que dá as ferramentas à ‘Giselle’ (a todos nós) para construir e assumir sem medo os seus gostos, opiniões, sensibilidades e que cria o espaço para estes serem acolhidos e partilhados com todos.


Este texto baseia-se na minha breve intervenção no encerramento da conferência Em nome das artes ou em nome dos públicos, no passado dia 14 de Novembro.

Mais leituras
Museu2.0: a arte de ouvir o público, no jornal O Globo (27.11.2012)
Selling a product vs building a movement, por Nina Simon
When painting labels do their job, por Hrag Vartanian em Hyperallergic
Stories from the field: The Walters Art Museum, por Dallas Shelby
"GO", a group show at the Brooklyn Museum, por Martha Schwendener
The power of the non-experts, por Desi Gonzalez

Ainda neste blog
Somos para as pessoas… Será mesmo?
La crise oblige? (ii) Desafios na programação
Construindo uma família: lições do sector social
Livres de visitar um museu de arte
Museus: as novas igrejas?

Monday, 29 October 2012

Qual - ou quem - é a barreira?

Castelo de Mértola (Foto: Fátima Alves)

Uma família chega ao sopé do castelo de Mértola. Tem quatro crianças, uma delas com mobilidade bastante condicionada; um rapazinho nos seus 10-11 anos. Um dos irmãos pega no andarilho e transporta-o a correr até ao topo dos degraus que levam à entrada do castelo. A mãe apoia o seu filho no braço e começam os dois a subir lentamente os degraus. A meio, sugere-lhe fazer uma pausa. O rapaz prefere continuar. Faz um esforço enorme para colocar o pé, que treme do cansaço, no degrau seguinte. Não quero ultrapassá-los; sigo-os, quero acompanhá-los no seu ritmo. Chegando à entrada do Castelo, o rapaz finalmente descansa. A mãe avança um pouco para avaliar a dificuldade do resto do caminho.

Assisti a esta ‘subida ao castelo’ no fim de uma semana em que participei em dois encontros sobre museus e acessibilidade: o seminário anual do GAM – Grupo para a Acessibilidade nos Museus, no Seixal, intitulado Programar para a Diversidade, e o 1ºEncontro Transfronteiriço de Profissionais de Museus, em Alcoutim. Dias antes da realização do seminário do GAM, encontrei-me com uma colega polaca que me colocou a seguinte questão: “O que esperas destes encontros”?

Fala-se bastante de acessibilidade entre os profissionais de museus, cada vez mais. E o conceito de ‘acessibilidade’ está constantemente a crescer e a alargar-se. Não se trata apenas da preocupação em e da obrigação de dar resposta às necessidades das pessoas com deficiência (física e cognitiva), mas de um amplo leque de necessidades intelectuais, sociais e culturais dos cidadãos. Trata-se, ainda, de gerir e de saber aproveitar uma cada vez maior vontade e necessidade das pessoas em estarem envolvidas no processo de tomada de decisões, de forma a que se revejam nos produtos finais propostos pelos museus ao público (a minha comunicação sobre este tema em Alcoutim encontra-se disponível na coluna da direita).

Escrevo este texto quase uma semana depois e apercebo-me que as coisas que mais me marcaram nesses dois encontros e que mais me fizeram reflectir estão todas ligadas a questões de mentalidade, da nossa mentalidade, dos profissionais de museus.

Fernando António Baptista Pereira, professor na Faculdade de Belas-Artes e comissário de várias exposições apresentadas em Portugal e no estrangeiro, fez a conferência de abertura no seminário do GAM. Questionado sobre a sua melhor e a sua pior exposição, não hesitou em admitir que as suas piores exposições, apesar de lindíssimas, foram aquelas que fez para os seus pares, aquelas que não foram feitas a pensar no público em geral. Dá esperança ouvir isto da parte de alguém que comissariou e voltará a comissariar exposições que atraem um grande número de pessoas. E como Fernando António Baptista Pereira, haverá, com certeza, mais profissionais desta área (comissários, directores de museu, curadores) que, mesmo que não o digam, tenham consciência que assim é. Por isso, uma pessoa fica a pensar quando é que podemos esperar ver nos museus portugueses, e em particular nos museus nacionais (públicos) portugueses, exposições que possam ser entendidas pelos não-especialistas que as visitam e que são a maioria dos visitantes. Exposições que possam ser fonte de novos conhecimentos, de verdadeiro prazer e de descoberta, em vez de um meio de comunicação e de diálogo entre poucos entendidos e uma fonte de frustração para os restantes?

Em Alcoutim, assistimos à apresentação de Maribel Rodriguez Achutégui “Redacção de textos expositivos para todos os públicos”, que veio lembrar-nos que é possível, sim, escrever para todos, sem infantilizar, sem banalizar o discurso, sem pôr em causa a precisão científica da informação apresentada. A alguns de nós, a sua apresentação trouxe memórias do excelente seminário Sabe escrever para todos? A acessibilidade da comunicação escrita nos museus, o primeiro seminário anual do GAM, em 2006, que contou com duas presenças marcantes: a de Helen Coxall (consultora em museum language – sim, a especialidade existe, assim como existe extensa bibliografia sobre a matéria, que em parte se encontra no site do GAM) e a de Julia Cassim (designer ligada ao Helen Hamlyn Centre for Inclusive Design). Mais tarde nesse ano, Helen Coxall fez um memorável workshop, Am I Communicating? Writing effective museum texts, organizado pelo GAM na Fundação Calouste Gulbenkian. Qual terá sido o impacto dessas iniciativas em Portugal? Quem trabalha em serviços educativos queixa-se frequentemente da dificuldade em ‘convencer’ comissários e directores de museus da necessidade dos textos (para as exposições, mas também para todos os suportes de comunicação do museu) serem escritos  numa linguagem mais acessível (se bem que as excepções existem: lembro-me, por exemplo, dos textos da exposição sobre o automóvel no Museu dos Transportes e Comunicações no Porto ou dos do Museu da Comunidade Concelhia da Batalha, para referir apenas dois). Uma pessoa fica a pensar, porque é que é que tão difícil convencê-los? Será que nunca ouviram as queixas dos seus visitantes, destinatários últimos, diz-se, desta oferta? Ou será que não se importam?

Uma outra apresentação brilhante e muito ‘educativa’ foi a do designer gráfico Filipe Trigo, que nos trouxe uma série de exemplos daqueles que já todos temos visto nas nossas visitas a museus e exposições: bíblias na parede (ou book on the wall), letra pequena, legendas escondidas ou colocadas muito baixo ou muito alto, contrastes que tornam a leitura impossível, anarquia na apresentação dos conteúdos (que ficam onde der mais jeito, sem uma lógica por trás). Esta apresentação merecia ser vista por comissários e directores de museus, mas também por designers gráficos, uma vez que não existe consenso sobre quem é que impõe soluções a quem. Existe é uma desconfiança mútua e talvez alguma indefinição sobre o papel de cada um e, entre os dois, sobre o papel dos museólogos e/ou profissionais dos serviços educativos e/ou profissionais da comunicação. Não faria sentido que cada um fosse ouvido sobre a sua área de especialidade, com o objectivo final de servir melhor as necessidades dos visitantes?

Hoje poderia responder melhor à pergunta da colega polaca, “O que esperas destes encontros?”. Espero que da próxima vez que se organizar um encontro para se falar de acessibilidade (qualquer tipo de acessibilidade) haja mais directores de museu, comissários de exposições, arquitectos e designers na audiência. Esta não é uma questão que diga apenas respeito aos serviços educativos. Diria até que diz cada vez mais respeito àqueles que tomam as decisões finais. Para que serve sensibilizar e preparar tecnicamente nos cursos de museologia futuros profissionais, que só daqui a 20 ou 30 anos estarão numa posição de tomar decisões, se nos próximos 20 ou 30 anos continuarem a encontrar a maior barreira de todas dentro dos próprios museus? Se estes encontros continuarem a ser uma oportunidade para se encontrarem os já sensibilizados e para concordarem entre eles, o seu impacto, então, continuará a ser mínimo ou quase inexistente. Há necessidade de assumir compromissos e não ficar pelo discurso politicamente correcto. Há também a obrigação de cumprir a lei. E tem que ser agora, não daqui a 20-30 anos. Não custa nada (e não custa mais…).


Vídeos
Joaquina Bobes, Textos expositivos y visitantes: ¿hablamos el mismo idioma? 
Julia Cassim, Inclusive design