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Monday, 11 June 2018

Discutindo a descolonização dos museus em Portugal

Foto: Maria Vlachou

Adoro museus. Adoro-os pelo que são; adoro-os pelo que não são, mas podem ser; adoro-os pelo seu potencial. Adoro-os especialmente devido ao trabalho desenvolvido por vários colegas em todo o mundo para que os museus se adaptem a novas realidades, permaneçam ou se tornem relevantes para as pessoas e até se reinventem. Ultimamente, adoro-os particularmente pelas controvérsias que causam ou enfrentam, empurrando o nosso pensamento e prática para a frente.

Sunday, 20 May 2018

Apropriação cultural: menos guardiões, mais pensadores críticos

"La Japonaise" de Claude Monet, Museum of Fine Arts Boston. (Imagem retirada de http://japaneseamericaninboston.blogspot.com)
Para a Nandia

O meu primeiro contacto com o conceito de apropriação cultural aconteceu em Julho de 2015 devido às “Kimono Wednesdays” no Museum of Fine Arts Boston (MFA). Por ocasião da exibição de “La Japonaise” de Claude Monet (uma pintura da esposa do artista, rodeada de leques, usando uma peruca loira e um quimono vermelho), os visitantes eram convidados a vestir um quimono semelhante ao mostrado no quadro e a partilhar as suas fotos nas redes sociais. Segundo o museu, essa era uma maneira para os visitantes se envolverem com a pintura. Para algumas pessoas, no entanto, a actividade carecia de qualquer contexto em relação ao quimono, tornando-se apenas “divertida”; outros criticaram a iniciativa por estar a reforçar estereótipos e exotizar os asiáticos-americanos; para outros, era racismo flagrante (leiam o artigo de Seph Rodney).

Saturday, 5 May 2018

"Lindonéia, a Gioconda do subúrbio", da minha primeira visita à Pinacoteca de São Paulo

"Lindonéia, a Gioconda do subúrbio", Rubens Gerchman, Pinacoteca de São Paulo  (Foto: Maria Vlachou)

“Na frente do espelho
Sem que ninguém a visse
Miss
Linda,feia
Lindonéia desaparecida
Despedaçados, atropelados
Cachorros mortos nas ruas
Policiais vigiando
O sol batendo nas frutas
Sangrando
Ai, meu amor
A solidão vai me matar de dor (...)”

Caetano Veloso, “Lindonéia”

Uma coisa da qual me apercebi logo nas primeiras visitas aos museus de São Paulo é que se gosta de longas introduções às exposições. A exposição “Vanguarda Brasileira dos anos 1960 – Coleção Roger Wright”, na Pinacoteca de São Paulo, não foi excepção.

Sunday, 20 September 2015

Acesso intelectual e não uma saída fácil


A promoção do acesso intelectual por algumas pessoas no sector cultural é muitas vezes descartada por outras como 'emburrecimento' (dumbing down). Recentemente, li o seguinte no ensaio de Rob Riemen "O eterno retorno do fascismo":

"Na cultura desta sociedade [a sociedade de massa; nossa sociedade contemporânea], há uma tendência para o menor, o nível mais baixo, porque é aqui que se encontra a maioria das coisas que as pessoas podem partilhar. É exactamente por isso que os indicadores da educação universitária são nivelados por baixo, de modo que ‘todos’ possam estudar e obter um diploma. E o mesmo se aplicará às artes, porque elas terão de ser acessíveis a todos, não só no que diz respeito às propinas, mas também ao nível de compreensão. Afinal, a mais feroz indignação é dirigida ao que é difícil. Porque o que não é compreendido imediatamente por todos é difícil, ou seja ‘elitista’ e, portanto, não-democrático." (tradução minha do grego)

Thursday, 4 June 2015

Algo está a acontecer em Évora


A lona no exterior do Fórum Fundação Eugénio de Almeida (FEA) em Évora fez-me sorrir… “Como é o museu com que sonha?” é uma espécie de promessa ou de convite para reflexão e diálogo.

Parece que é mesmo isso que o FEA e a curadora Filipa Oliveira procuram: “(…)o início de um caminho e de uma nova relação que o FEA quer estabelecer com a cidade de Évora e com o país; (…) uma reflexão programática do FEA em torno do dilema de como articular a singularidade e a especificidade do contexto local com o pensamento e os desafios da criação artística contemporânea internacional.”

Monday, 11 May 2015

Uma boa ideia, duas respostas, algumas lições


Passam este ano 125 anos desde a morte de Vincent Van Gogh. A partir de 3 de maio e ao longo de 125 dias, o Museu Van Gogh em Amsterdão irá responder a 125 questões sobre o pintor, a sua vida e a sua obra. O museu convida todos os interessados ​​a fazer uma pergunta através do seu website e de uma página especialmente criada para apresentar as perguntas e respostas (ver vídeo promocional e visitar a página).

Monday, 23 March 2015

Philippe de Montebello revela-se


Vou dizê-lo logo no início para deixar o assunto arrumado: sim, fiquei irritada com as duas afirmações de Philippe de Montebello no livro "Rendez-vous with art" relativas à questão da restituição de objectos (p.54 e p.208). Dito isto, o resto do livro é absolutamente encantador! Uma série bela, inspiradora e surpreendente de conversas entre Montebello e o crítico de arte Martin Gayford, que revela o homem por trás do historiador de arte e durante muitos anos director do Metropolitan Museum of Art.

Seguindo estas conversas, sentimos um desejo de olhar e olhar melhor, mesmo que seja apenas uma foto num livro - na esperança, é claro, de poder estar à frente do original um dia ... Como o próprio Montebello diz: "(...) nada pode substituir a experiência, a sensação muito física, de estar cercado e envolto no espaço real." (51 p.)

Provavelmente, um dos momentos mais tocantes vem logo no início do livro, onde Montebello responde à pergunta de Gayford sobre aquele momento único, aquela experiência única que pode tê-lo levado a uma vida nas artes. Montebello partilha connosco esse momento muito especial, quando ele tinha 15 anos e o seu pai levou para casa o livro "Les Voix du Silence" de André Malraux. E, de repente, ali estava Uta...

"Ela era a Marquesa Uta na Catedral de Naumburg e eu amei-a como mulher (...) com a sua maravilhosa gola alta e as suas pálpebras inchadas, como se tivesse passado a noite a fazer amor." (p.10; imagem retirada da Wikipedia)

Fiquei a pensar: será que ele teria alguma vez posto isto na legenda num museu? Quantas pessoas teriam olhado, olhado melhor, olhado mais, se tivessem lido algo assim sobre uma estátua?

Mais à frente, Montebello admite algo que raramente ouvimos da boca de curadores, mas que é verdade para a maioria dos visitantes de museus: "Descobri que quando me forcei - muitas vezes com a ajuda de curadores - a olhar para coisas sobre as quais era indiferente ou que até me repeliam, descobri que, com mais alguns conhecimentos, o que havia sido escondido de mim tornou-se manifesto." (p.59)

Que tipo de conhecimentos é necessário para esta 'epifania' ocorrer, podemos questionar. Nem factos sobre a vida do artista, nem uma descrição detalhada e seca de pormenores estilísticos, quando são consideradas as primeiras necessidades do visitante não-especialista (ou seja, da maioria dos visitantes dos museus). Parece que podemos encontrar todas as respostas no livro de Freeman Tilden "Interpreting our Heritage": "O que está por trás do que o olho vê é muito maior do que aquilo que é visível" (p.20); (...) Mas o objectivo da interpretação é estimular o leitor ou o ouvinte a desejar ampliar os seus horizontes de interesses e conhecimentos e a procurar entender as grandes verdades que estão por trás de qualquer afirmação de factos (p.59); (…) Não com os nomes das coisas, mas expondo a alma das coisas – aquelas verdades que estão por trás do que estamos a mostrar ao visitante. Nem pregando; nem sequer dando sermões; não através da instrução, mas através da provocação (p.67).

Mais alguns exemplos do livro de Montebello poderiam ilustrar melhor estes pontos:

"(...) é absolutamente delicioso. O sapato voando para o ar, em direcção à estátua de Cupido ao lado, aquela árvore encantadora, tão espumosa e diferente de uma árvore real: é tudo como um décor de théâtre, um cenário teatral. Esta é uma lindíssima pintura sobre o estarmos a divertir-nos e sobre a qual uma pessoa não precisa de pensar muito, basta abandonar-se ao puro prazer que proporciona: uma pintura com a qual não teria nenhum problema em viver." (p. 81, Jean-Honoré Fragonard, O baloiço, 1767; imagem retirada de www.thebingbanglife.com)

"(...) então, concentrei-me nas profundas marcas de queimaduras na parte inferior do quadro, claramente feitas pelas velas votivas, confirmando que esta foi, realmente, uma imagem devocional. Apenas alguns detalhes adicionais resultaram de uma análise aprofundada, sendo um dos mais importantes que a imagem estava impecável, uma coisa rara quando se trata de imagens com fundo dourado do século XIV, uma vez que a maioria das obras sofreram muito ao longo do tempo, principalmente, receio, nas mãos dos restauradores." (p.65, Duccio di Buoninsegna, Madona e criança, c.1290-1300; imagem retirada de www.theopenacademy.com)

"Mas estou feliz só de apreciar a expressão no rosto de Adão, tão doce, e da maneira como ele segura o ramo de maçã - não é uma folha de figueira - com dois dedos, bem como a folhagem necessária para cobrir a sua nudez. Dürer dotou de uma forma tão cativante as suas figuras inspiradas na antiguidade clássica com uma terna sensualidade; e adoro Eva, parecida com Vénus, com o seu rosto bonito de fräulein de Nürnberg. Vê? Nada de história da arte, apenas a minha própria reacção muito pessoal "(p124, Albrecht Dürer, Adão e Eva, 1507; imagem retirada de www.pictify.com)

Não acredito que a maioria das pessoas visita museus à procura de uma lição em história de arte nos seus painéis e legendas - ou de física, de música ou de outra disciplina qualquer (algumas o fazem, é claro, e as suas necessidades são igualmente legítimas, mas os museus geralmente dão resposta a essas necessidades com vários outros meios). As pessoas também não visitam museus à procura de alguém que lhes diga o que devem sentir ou pensar, como defende Alain de Botton em Art is Therapy (Rijksmuseum), onde encontramos legendas como esta: "Você sofre de fragilidade, de culpa, de dupla personalidade, de auto-aversão. Você é provavelmente um pouco como esta imagem." (a respeito da pintura de Jan Steen A Festa de São Nicolau). Penso que a maioria de nós está, antes de tudo, à procura de algo que possa ter significado para nós, algo que possa deliciar-nos, surpreender-nos, fazer-nos sentir bem ou mais ricos ou mais conscientes de nós mesmos e do mundo. Muitos de nós estamos à procura de histórias, histórias de outras pessoas, seres humanos com os quais nos possamos relacionar - aqueles representados ou aqueles que procuram partilhar os seus conhecimentos connosco.

Decidir qual a história a contar não é uma escolha fácil para um museu; escrevê-la de uma forma clara e concisa é igualmente difícil. Mas não é impossível, como Montebello nos mostra no seu livro, onde abandona o seu “eu institucional" e consegue partilhar o seu enorme conhecimento de historiador de arte de uma maneira simples e humana, que é significativa e relevante para muitas mais pessoas. Não é impossível, como Paula Moura Pinheiro nos mostra todas as semanas no seu programa televisivo "Visita Guiada", onde descobrimos que curadores e especialistas em arte em Portugal também são pessoas fascinantes, capazes de partilhar connosco muito mais do que os habituais factos geralmente presentes nas legendas, e que nos fazem desejar saber mais, visitar o museu, ver o objecto - ou voltar para o ver de novo, depois do que nos foi revelado.

É possível. É uma questão de escolha e de habilidade. Não lhe falta teor científico e comunica.

"Não tenho certeza se ficaria encantado porque estou tão concentrado, tão absorto e cativado pela perfeição do que lá está; que o meu prazer - e é um prazer intenso - está maravilhado com o que o meu olho vê, não com uma abstracção que, de um modo mais ‘à história de arte’, eu poderia evocar. É como um livro que amamos e simplesmente não queremos ver o filme. Já imaginámos o herói ou a heroína de uma certa maneira. Na verdade, com os lábios de jaspe amarelo, eu nunca tentei, realmente, imaginar as partes que faltam." (p.8, Fragmento do rosto de uma rainha, Período do Império Novo, c. 1353-1336 a.C, Egipto; imagem retirada do website do Metropolitan Museum)

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Mais leituras

Philippe de Montebello and Martin Gayford (2014), Rendez-vous with Art. Thames and Hudson









Monday, 8 September 2014

O que está para além?

Freeman Tilden
Quando li o livro “Civilizing the Museum”, de Elaine Heumann Gurian, pouco mais de um ano atrás, lembro-me de ter tido um pensamento e dois sentimentos. Pensei em como era possível ter chegado pela primeira vez aos seus textos e ao seu pensamento visionário tão tarde, após 20 antes de estudo e de trabalho nesta área. Tive um sentimento aconchegante de conforto, quando percebi que ideias e preocupações que estavam constantemente na minha cabeça não eram propriamente novas e que alguém como a Elaine as tinha formulado de uma maneira tão bonita e completa, influenciando tantas pessoas e instituições com as quais trabalhou.  Mas tive também um sentimento amargo de frustração, apercebendo-me do quão lenta é, realmente, a mudança, uma vez que questões levantadas pela Elaine há já algum tempo continuam a ser actuais hoje em dia.

Quando acabei o livro de Freeman Tilden “Interpreting our heritage” no mês passado, sorri. Tive o mesmo pensamento e os mesmos dois sentimentos. Como é que é possível ter lido o Tilden apenas agora?! Como é inspiradora a sua escrita, como tudo se torna claro quando se lêem os seus seis princípios para a interpretação e os seus vários exemplos. E como é decepcionante ver que, mais de meio século depois, aprendemos pouco e fizemos ainda menos.

Tilden escreveu o seu livro em 1957, quando tinha 74 anos e depois de uma longa carreira como jornalista, escritor e dramaturgo. Russell E. Dickenson salienta no prólogo da quarta edição que “Na sua associação com os parques, Tilden desenvolveu um interesse em como os parques nacionais formaram a identidade americana, assim como a identidade individual, incitando os cidadãos a procurarem encontrar sentido e inspiração nos preciosos recursos naturais e históricos.”

É isto que Tilden desejava para os cidadãos e eram precisamente estas as suas expectativas da interpretação e dos intérpretes. “Os intérpretes decidem que histórias vão contar, como contá-las e a quem, uma responsabilidade séria [p.2]; (…) O principal interesse do visitante está em qualquer coisa que toque a sua personalidade, as suas experiências e os seus ideais [p.36]; (…) Mas o objectivo da interpretação é estimular o leitor ou o ouvinte a desejar ampliar os seus horizontes de interesses e conhecimentos e a procurar entender as grandes verdades que estão por trás de qualquer afirmação de factos [p.59]; (…) Não com os nomes das coisas, mas expondo a alma das coisas – aquelas verdades que estão por trás do que estamos a mostrar ao visitante. Nem pregando; nem sequer dando sermões; não através da instrução, mas através da provocação [p.67]; (…)  colocar o visitante na posse de pelos menos uma ideia perturbadora, que possa crescer num fértil interesse [p.128]”.

Resumindo assim a visão de Tilden, aqui estão os seus seis princípios para a interpretação:

1. Qualquer interpretação que não relacione de alguma forma o que está a ser apresentado ou descrito com algo na personalidade ou experiência do visitante, será estéril.

2. A informação em si não é interpretação. A interpretação é uma revelação baseada em informação. Mas são coisas completamente diferentes. No entanto, toda a interpretação inclui informação.

3. A interpretação é uma arte, que combina muitas artes, quer os materiais apresentados sejam científicos, históricos ou arquitecturais. Qualquer arte pode ser ensinada, até certo ponto.

4. O principal objectivo da interpretação não é a instrução, mas a provocação.

5. A interpretação deve procurar apresentar um todo em vez de uma parte e deve dirigir-se ao indivíduo no seu todo e não apenas a alguma das suas facetas.

6. A interpretação dirigida a crianças (digamos até aos 12 anos) não deve ser uma diluição da apresentação aos adultos, mas deve seguir uma abordagem fundamentalmente diferente. Para estar no seu melhor, requer um programa separado.

Claro que, enquanto lia isto, estava a pensar nos museus; na riqueza que se encontra neles e que está inacessível para muitas pessoas. Em muitos casos, por opção: a opção daqueles que têm a grande responsabilidade de interpretar, revelar, provocar, chegar aos corações de muitas pessoas e não apenas aos cérebros de algumas, mas que, tendo o poder de decisão, a sua principal preocupação é comunicarem com e serem reconhecidos pelos seus pares. Esta é uma razão, para mim, a principal, a mais determinante. Uma outra razão é que, neste contexto, os profissionais que têm preparação técnica nesta área lutam para ser ouvidos e, não poucas vezes, são vencidos. Uma outra razão ainda, não menos importante, é que muitas outras pessoas que trabalham nesta área não têm preparação técnica para aquilo que lhes é solicitado fazer, e não lhes é proporcionada esta preparação. Lembro-me uma vez num curso de formação, durante uma discussão acesa em relação às responsabilidades dos profissionais de museus que trabalham para eles próprios e para os seus pares, uma senhora levantou a mão e disse: “Por favor, não digam que estamos apenas preocupados com nós próprios e com os nossos pares. Eu simplesmente não sei fazer as coisas de outra forma e é por isso que aqui estou”…

É a combinação destes factores que faz com que Heumann Gurian, Tilden, Cotton Dana (para mencionar outro dos meus favoritos) soam amargamente relevantes e contemporâneos, mais de 20 ou 50 ou 100 anos depois.

Acontece que acabei de ler o livro de Tilden e comecei a escrever estas palavras no meio de um parque nacional, o Parque Nacional de Tzoumerka na Grécia. A beleza da paisagem cortava a respiração. Pensava constantemente nas palavras de Tilden: “A interpretação leva o visitante para além do seu prazer estético, em direcção à compreensão das forças materiais que se juntaram para produzir a beleza que está à sua volta.” É isto que as pessoas que conheci fizeram por mim. Levaram-me - com simplicidade, entusiasmo e um conhecimento profundo das coisas – além, muito além do que era visível para mim. Não eram todos profissionais, mas eram pessoas que tinham amor por aquele sítio, que desejavam partilhá-lo. Assim, tornaram a minha experiência em algo ainda maior.


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Mostrem-me as pessoas


Ponte de Plaka, Parque Nacional de Tzoumerka, Grécia

Monday, 14 July 2014

A curiosidade matou o visitante

Art Museum of Estonia. Lia-se na legenda: "Villu Jaanisoo, 1963 / Chair I - II (2001) Motor Tyres, Art Museum of Estonia". (Foto: Maria Vlachou)

Assisti no passado Sábado a um colóquio intitulado “Os públicos do MNAC” (Museu Nacional de Arte Contemporânea – Museu do Chiado), a propósito dos 20 anos da reabertura do museu após o incêndio do Chiado. Durante as quase três horas de comunicações e debate, ao longo das quais muito pouco se falou de públicos, estava sentada ao pé de uma legenda relacionada com a obra exposta na parede. Lia-se:

“Mockba, 2004
Óleo sobre tela, óleo sobre chapa acrílica
Colecção VPV”

Olhei várias vezes para ela, enquanto ouvia falar da história do museu nos últimos 20 anos contada pelos seus directores (pormenores interessantíssimos, que desconhecia), da sua colecção, do que deveria ser o seu nome, do que deveria ser o seu propósito, de qual deveria ser o edifício a albergá-lo, etc. Olhei para a legenda a pensar que a obra exposta pouco me dizia esteticamente ou conceptualmente, mas que, curiosa em perceber melhor, teria gostado de encontrar algo mais (e mais interessante) que aquelas três linhas. Afinal, a opção de expor aquela obra tinha uma razão por trás e eu gostaria de perceber qual.

Acontece-me muitas vezes nos museus. Sou aquele tipo de visitante a quem não faltam diplomas, mas não é por isso que pretende conhecer e entender todas as linguagens e poder desvendar todos os mistérios. Sou também aquele tipo de visitante seguro de si, que não se sente constrangido (nem estúpido) em admitir que não entende e que gostava de saber mais, de ter informação mais interessante e relevante, numa linguagem compreensível. Tenho tendência em pensar que quem optou por colocar aquela legenda na parede não entende (e talvez não se interesse em entender) quem eu sou e o que procuro. Sou, portanto, aquele tipo de visitante minoritário. Muitos outros sentem-se estúpidos, mas assumem a culpa disso. Não voltam, desistem, desinteressam-se, recolhem-se, não se “atrevem” novamente, nunca levam os seus filhos.

Fui várias vezes confrontada nas últimas semanas com esta questão. Ao visitar a exposição de Vhils no Museu da Electricidade, numa sala encontrei uma legenda que repetia seis vezes “Portas antigas de madeira gravadas a laser”, seguindo-se as dimensões das referidas portas. Qual o propósito que serve uma legenda como esta? Porque é que se faz e para quem?


Uma outra visita recente foi ao Museu Municipal de Aljustrel, que conta a história das minas naquela zona do país. A história é contada assim:


Uma outra ainda exposição que despertou a minha curiosidade foi a de Helen Mirra na Culturgest. Trata-se da exposição de faixas de tecido pintadas monocromaticamente. À partida, não me “dizem” nada, por isso, procurei com muito interesse mais informações. Quando as encontrei na brochura, ficou claro que a minha curiosidade não ia ser satisfeita e que a exposição não era para mim.

Excerto do texto que se encontra na brochura. 

Nas várias formações que dei nos últimos dois meses, falou-se extensivamente sobre a questão da comunicação e da linguagem. Às vezes os formandos, apesar de reconhecerem a ineficácia da linguagem usada ou o pouco interesse da história contada, manifestam incompreensão relativamente à forma como esta comunicação poderia ser feita de outra forma, que cumprisse o objectivo do museu ou da exposição e que fosse ao encontro das necessidades dos visitantes, na sua maioria não-especialistas.

Ocorre-me, assim, o exemplo de dois mosteiros portugueses: o Convento de Tomar e o Mosteiro de Alcobaça. Ambos pretendem contar aos visitantes a história do edifício onde se encontram, no entanto, a abordagem, a opção em relação à história que será contada é claramente distinta. Qual serve melhor as necessidades do museu E dos visitantes?

Textos de painéis no Convento de Tomar.
Textos de painéis no Mosteiro de Alcobaça

Não é impossível comunicarmos de forma diferente, dizer coisas interessantes de forma simples. Por “simples” que não se entenda infantilizando, banalizando, comprometendo a qualidade científica da informação partilhada. O que é mesmo impossível é continuar a ouvir afirmações politicamente correctas que os museus são para todos, que há necessidade de serem relevantes, acolhedores, criarem nas pessoas um sentimento de pertença, e, na prática, continuar a desprezar e desvalorizar as necessidades dessas mesmas pessoas, continuar a ofender a sua inteligência. Acho perfeitamente legítimo uma exposição ser feita para especialistas, um dos vários públicos-alvo que um museu ou uma exposição pode servir. Mas tem que ser assumido e, assim, o restante público fica “avisado”. Continuar a escrever para comunicar com especialistas dizendo que a exposição é para todos indica, cada vez mais para mim, alguma falta de honestidade por parte dos responsáveis. A teoria é boa, é clara, parece que todos a conhecemos. O que falta para a pôr em prática? E ainda, queremos pô-la em prática?


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Monday, 28 April 2014

Mostrem-me as pessoas



Penso frequentemente que os painéis e as legendas nos museus de arte ou de história são incapazes de transmitir paixão, maravilha, alegria, orgulho, tristeza, desespero, entusiasmo; de falar com pessoas sobre outras pessoas; de criar empatia, a necessidade de ler mais, de descobrir mais. A linguagem é normalmente seca, académica, factual, incompreensível – estou certa – para uma série (talvez a maioria?) de visitantes.

Voltei a pensar nisto durante a minha visita ao Museu Benfica. Este é o mais recente museu na cidade de Lisboa, inaugurado em Julho 2013, e recebeu até agora cerca de 43.000 visitantes (a entrada não é gratuita, o bilhete adulto custa €10,00). O seu objectivo é contar a história do clube e das suas diferentes modalidades – sendo que o futebol ofusca, claro, todas as outras.



Haveria muitas coisas a dizer sobre o museu, mas gostaria de me concentrar na mensagem e no sentimento que transmite através da sua comunicação escrita e das ligações que cria com as pessoas.

Este é claramente um museu para e sobre pessoas. Um museu sobre paixões. Procura contar a história de uma forma que as pessoas, todo o género de pessoas, entendam, se sintam relacionadas com ela, envolvidas nela. Pensando nos museus de arte ou de história, diria que a opção aqui não é narrar simplesmente alguns factos ou explicar técnicas. A opção é reforçar a identidade do clube – apresentando os seus valores, os seus objectivos, conquistas, a sua contribuição para o país como um todo e para as vidas dos indivíduos.

(junção de duas fotos)

No que diz respeito às pessoas, encontramos neste museu tanto os ‘artistas’ (jogadores de futebol, outros atletas, treinadores) como também os que desfrutam da ‘arte’ (pessoas famosas e sócios e fãs anónimos). Os pensamentos e sentimentos de todos eles têm um lugar nas paredes deste museu, ninguém é mais importante. Assim, vemos uma instalação com as caras de sócios do clube, mas também um cenário especial com citações de escritores, cantores, actores e de outras figuras públicas que apoiam o clube.




“É diferente, é futebol”, poderão dizer. “Têm dinheiro, isto faz toda a diferença”, poderão dizer.

Começando pelo fim, não é uma questão de dinheiro. É uma questão de atitude. O dinheiro pode permitir a um museu como o Museu Benfica usar uma série de audiovisuais e outros truques caros para abrilhantar a experiência. Mas todos os museus, independentemente do dinheiro que têm, produzem painéis e legendas (e folhetos e websites). A linguagem que usam, a história que optam por contar, as pessoas a quem se dirigem são opções que nada têm a ver com dinheiro.



O futebol atrai mais pessoas do que a arte ou a história ou a arqueologia? À primeira, podemos dizer que sim. Mas, pensando melhor, talvez a arte e a história e a arqueologia atraiam também, mas não quando são representadas em museus…. Talvez quando um amigo nos conta uma história e desperta a nossa curiosidade; quando vemos uma reportagem ou um documentário na televisão; quando lemos uma notícia na Internet ou no Facebook. Ou seja, quando nos encontramos num contexto confortável onde alguém fala connosco numa linguagem que entendemos, partilha os seus conhecimentos e entusiasmo sobre uma temática querendo mesmo comunicar connosco, põe os seus sentimentos na narrativa, torna-a numa conversa normal entre pessoas.



Não podem os museus falar e escrever sobre arte e história e arqueologia e uma série de outras matérias transmitindo paixão, maravilha, alegria, orgulho, tristeza, desespero, entusiasmo? Não podem falar e escrever para as pessoas sobre outras pessoas? Não podem criar empatia, a necessidade de ler mais, de descobrir mais? Acredito que podem, e alguns fazem-no, mas muitos outros optam por não o fazer. A necessidade de impressionarmos e garantirmos a aprovação dos nossos pares torna-se em muitos casos na prioridade quando se toma este género de decisões. Dizemos que “Estamos aqui para todos, os museus são para as pessoas”, mas a prática está longe de confirmar a retórica.



A diferença entre o Museu Benfica e muitos outros museus que visitei é que este permanece fiel à sua missão. É um museu para e sobre pessoas e isto não é apenas retórica, é algo que se confirma em cada opção (mais ou menos bem sucedida; mais ou menos necessária) no desenvolver da história que se pretende contar. No Museu Benfica senti as pessoas, senti as suas paixões, o seu orgulho, a sua angústia, a sua tristeza, a sua alegria. E isto acabou por me fazer ficar mais tempo no museu do que tinha inicialmente pensado.


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Monday, 3 December 2012

Quem diz?

Giselle Ciulla, 'curadora' da exposição Giselle´s Remix (Imagem retirada do website do Clark Art Institute).
uCurate é uma iniciativa do Clark Art Institute na cidade de Williamstown nos EUA. Trata-se de uma aplicação digital que permite às pessoas desenhar exposições imaginárias a partir da colecção do museu. As propostas entram numa competição e a proposta vencedora é materializada com a ajuda do museu. Nesta primeira edição, e após a avaliação de quase 1000 candidaturas, a proposta vencedora foi a de uma menina de 11 anos, Giselle Ciulla, que nos convida a visitar Giselle´s Remix (mais aqui).

É tão bom ver a cara alegre da Giselle e quase que sentimos o orgulho que ela sente na sua proposta. É também este o papel dos museus na sociedade, um papel que permite o envolvimento, a participação activa, que reconhece que existem mais versões da ‘verdade’ e que as acolhe, mesmo tratando-se de crianças com 11 anos. As legendas que acompanham as obras na exposição foram escritas pela própria Giselle. Transmitem simplicidade e frescura, demonstram sensibilidade. Há uns anos atrás tinha visto legendas escritas pelos visitantes na Tate Britain e tinha também gostado muito. Eram, para mim, tão interessantes como as outras, as ‘oficiais’. Na altura (foi em 2004), Maev Kennedy do Guardian achou a iniciativa dúbia. Quanto ao director da Tate Britain, Stephen Deuchar,  dizia que estaria particularmente interessado em receber as contribuições de visitantes que poderiam saber muito mais sobre uma pintura do que os especialistas do museu ou os próprios artistas (ler mais aqui).

Nos dias 12 a 14 de Novembro estive na conferência Em nome das artes ou em nome dos públicos, organizada pela Culturgest em colaboração com o programa Descobrir da Fundação Gulbenkian. Uma das principais preocupações dos presentes pareceu-me ser a questão da ‘autoridade’ à volta da interpretação de uma obra. Quando fiz o meu mestrado, éramos ‘avisados’ que as pessoas reconheciam autoridade no museu, assumiam a informação que ali encontravam como ‘verdade validada’. Mas também naquela altura, e já vão quase 20 anos, questionávamo-nos sobre a possibilidade (e a obrigação) de criar espaço para ser contada mais que uma história.


Pois, a preocupação e a reflexão continuam nos dias de hoje. O conceito de museu participativo (tão bem fundamentado na teoria e através da prática por Nina Simon) ganhou grande expressão. Um caso interessante, entre os vários que foram apresentados na conferência Em nome das artes ou em nome dos públicos, foi o dos dTOURS na exposição de arte contemporânea dOCUMENTA - visitas guiadas (pagas) realizadas por pessoas de várias idades e backgrounds, residentes, a maioria, na cidade de Kassel, onde tem lugar a exposição. Os dTOURS tinham tido lugar pela primeira vez na edição anterior, dOCUMENTA 12, e foram motivo de várias reclamações por parte do público. Apesar da organização ter informado que as visitas seriam feitas por não especialistas, os participantes não deixaram de se sentir ‘enganados’, as suas expectativas eram diferentes. No entanto, e apesar da avaliação da iniciativa não ter sido positiva, a dOCUMENTA 13 retomou-a, com os mesmos resultados.

Várias questões se levantam aqui: Porque é que uma iniciativa se repete, nos mesmos moldes, se a sua avaliação não é positiva? Estaremos - em nome da experimentação, da exploração, da vontade de fazer mais e melhor - a ignorar necessidades básicas das pessoas, como o ouvir o que um especialista tem a dizer sobre uma determinada temática, como uma visita guiada ‘normal’, como uma legenda ‘normal’? Estaremos a caminhar para um extremo oposto, onde “o visitante é que sabe” (até “mais que o próprio artista”, para citar novamente aqui o antigo director da Tate Britain)?

O livro de Clay Shirky Cognitive Surplus: How Technology Makes Consumers into Collaborators  fala-nos do movimento pro-am (professional-amateur) e de como as novas tecnologias permitem hoje em dia aproveitar o enorme excedente cognitivo das pessoas, desejosas de contribuir com os seus conhecimentos (sem serem remuneradas, apenas por se sentirem bem, úteis, envolvidas) para projectos de todas as naturezas, causas sociais, etc. A Wikipedia é exemplo disto. Ian David Moss argumenta no seu blog Createquity que este mesmo modelo da Wikipedia poder ser aplicado na cultura, na programação ou na distribuição de apoios (ler aqui).

As pessoas continuam a procurar informação nos museus. Num artigo de Stephen Weil intitulado “The Museum and the Public” (integrado no livro Museums and their communities, editado por Sheila Watson), li que, passada a era dos museus “celebratórios” e assertivos, surgiu uma outra tendência, aquela que admite que o que se está a dizer não está fechado, poderá estar aberto a outras interpretações ou continuar a ser objecto de investigação. Vale a pena referir que foi um museu de história natural (o American Museum of Natural History) um dos primeiros a apresentar legendas onde se lia “o que sabemos até agora”, “mas podemos estar enganados, já nos aconteceu, a investigação continua”, etc. Talvez porque os cientistas estão mais confortáveis que outras especialidades com o testar e enganar-se e com o admitir que estavam errados.

Os especialistas não sabem tudo, mas sabem muito, muito mais do que nós nas suas áreas de especialidade. Encontram-se dentro e fora dos museus, são profissionais ou amadores, e juntos podem contribuir para o desenvolvimento do nosso conhecimento. Eu, como visitante, não deixo de procurar a sua opinião, a sua ‘versão’, não para a aceitar como se fosse a Bíblia, mas para com ela poder construir a minha opinião, o meu conhecimento. Ao mesmo tempo, indo além da informação, considerando que uma visita a um museu é também sentimentos, surpresas, emoções, partilha, experiências e conhecimentos prévios, memórias, o especialista - quando bom mediador ou facilitador (ou…) – saberá criar aquele espaço para o qual todos possam contribuir, com as suas ideias, as suas experiências, as suas interpretações, as suas reacções. Aquele espaço onde não há especialista e não especialista, correcto ou errado. Por isso, museu participativo para mim não é o museu que, em nome da democracia cultural, passa o ónus de uma das suas principais funções ao visitante. Museu participativo é o museu que dá as ferramentas à ‘Giselle’ (a todos nós) para construir e assumir sem medo os seus gostos, opiniões, sensibilidades e que cria o espaço para estes serem acolhidos e partilhados com todos.


Este texto baseia-se na minha breve intervenção no encerramento da conferência Em nome das artes ou em nome dos públicos, no passado dia 14 de Novembro.

Mais leituras
Museu2.0: a arte de ouvir o público, no jornal O Globo (27.11.2012)
Selling a product vs building a movement, por Nina Simon
When painting labels do their job, por Hrag Vartanian em Hyperallergic
Stories from the field: The Walters Art Museum, por Dallas Shelby
"GO", a group show at the Brooklyn Museum, por Martha Schwendener
The power of the non-experts, por Desi Gonzalez

Ainda neste blog
Somos para as pessoas… Será mesmo?
La crise oblige? (ii) Desafios na programação
Construindo uma família: lições do sector social
Livres de visitar um museu de arte
Museus: as novas igrejas?

Monday, 14 May 2012

Qual o problema com a música clássica? Aparentemente, nenhum…

Gustavo Dudamel (foto retirada do blog Fanáticos da Ópera)

Gustavo Dudamel é neste momento o rosto da popularidade da música clássica. Li recentemente que o seu novo álbum está em número 3 do pop chart sueco (à frente da Madonna). Não sei se estarei errada, mas acho que não se via algo assim no mundo da música clássica desde o tempo dos três tenores. É uma sorte, acredito, quando se pode contar com o contributo destes ‘fenómenos’, que com a sua arte e a sua grande capacidade de comunicação conseguem abrir janelas a milhares de pessoas para experiências nunca antes vividas. Graças a eles, este mundo (assim como o da ópera ou do bailado) - visto por muitos como fechado, elitista, incompreensível, desinteressante, ‘abafado’, desmistifica-se, surpreende, entusiasma, toca, ganha um lugar na vida das pessoas. No entanto, há muitos outros profissionais (artistas, mas também programadores, gestores, profissionais dos serviços educativos e da comunicação) que dão o seu contributo, ainda que numa escala diferente, para que cada vez mais pessoas possam entrar em contacto com o mundo da música clássica, descobri-lo, partilhá-lo.

Não se pode negar que a falta de familiaridade com a experiência é uma barreira fundamental. Um estudo realizado recentemente no Reino Unido veio confirmar mais uma vez esta realidade. De acordo com o mesmo, 15% dos inquiridos (o que corresponderia a 7,3 milhões de adultos), quando questionados sobre a experiência cultural que gostariam de ter, manifestaram interesse em ir à ópera (ler a notícia aqui). Quando lhes perguntaram porque é que nunca o tinham feito, 62% disseram que era muito caro. No entanto, 14% (o que corresponde a mais de 4 milhões de pessoas) responderam que não conheciam o suficiente para poderem apreciar esta forma de arte e 7% estavam preocupados porque não conheciam a etiqueta exigida. A familiaridade prende-se com várias questões (tanto práticas – como, realmente, a etiqueta -, como de conhecimentos ou até de relevância para as pessoas), que as instituições e os profissionais da área procuram abordar de várias formas. Uma delas são os chamados flash mobs, que têm vindo a multiplicar-se nos últimos anos. Lembro-me em particular deste, no mercado de Valencia, onde no fim apareceu um cartaz a perguntar: “Vês como gostas de ópera?”. 



Do outro lado do Atlântico, a Knight Foundation financia os Random Acts of Culture em aeroportos, mercados, restaurantes fast food, lojas, e justifica no seu site este investimento da seguinte forma: “Ouvir Händel ou ver tango num lugar inesperado cria um lembrete muito sentido de como os clássicos podem enriquecer as nossas vidas. Como vão ver nos nossos vídeos, as performances fazem as pessoas sorrir, dançar, pegar nas suas câmaras – até chorar de alegria. Por estes breves momentos, as pessoas que levam as suas vidas do dia-a-dia fazem parte de uma experiência partilhada, comunal, que torna a sua comunidade num espaço mais vibrante para se viver.” 


Palavras mais usadas pelos visitantes da instalação Re-Rite para descreverem a experiência.
Nesta linha de acções, e apesar de não ter sido ao vivo (mas quase o era…), penso que deveríamos ainda mencionar a experiência única que foi o Re-rite, apresentado no ano passado pela Fundação Gulbenkian no MUDE (ver aqui e aqui), que nos colocou no meio de uma grande orquestra sinfónica e até nos deu a oportunidade de ocuparmos o lugar do maestro e dos músicos. À saída, perguntava-se aos visitantes como é que descreveriam a experiência com três palavras. “Emocionante”, “vibrante”, “fantástico”, “envolvente” foram algumas das palavras mais usadas. No entanto, quase um terço dos inquiridos admitiu que não teria usado essas mesmas palavras para descrever um concerto antes da visita ao Re-Rite. “Não tinha noção”, “Não conhecia”, “Nunca tinha assistido a um concerto”, Não fazia ideia”, “Não tinha esta percepção”, foram algumas das razões dadas. Resta saber se a experiência levou algumas dessas pessoas aos concertos da Temporada de Música, uma vez que quase 50% dos inquiridos tinha exprimido esta intenção*.

Mas este passo que nos faz sair das nossas instituições para irmos ao encontro das pessoas não responde a todas as suas dúvidas, não é por si suficiente para quebrar a barreira que se prende com questões sobre a etiqueta ou com o que se passa realmente na sala de concertos, no palco e atrás dele. O Grant Park Music Festival
 em Chicago reconhece que estas dúvidas existem e aproveita os seus quase 30 concertos de entrada livre e 50 ensaios abertos, num local extremamente acessível como o Millennium Park, para encorajar os milhares de pessoas que assistem ao festival (25% das quais pela primeira vez) a colocá-las. Tudo desde “o que é que faz o maestro”, “porque é que a orquestra está assim dividida em secções” até ao indispensável “posso aplaudir agora?” tem aqui uma resposta (ler mais em Overcoming cultural barriers: romancing the newcomers in Millennium Park). Em Londres, a Opera Holland Park convida as pessoas a assistirem aos seus espectáculos disponibilizando bilhetes a preços acessíveis, mas, sobretudo, criando um ambiente de informalidade, onde as pessoas, sobretudo aquelas que vêm pela primeira vez, não precisam de se preocupar com a etiqueta. Ainda em Londres, o Royal Ballet apresentou em Março passado em directo no You Tube um dia de trabalho nos seus bastidores (ler aqui), dando a conhecer alguns aspectos que o público raramente ou nunca tem a oportunidade de conhecer ou de acompanhar.

Uma outra forma de aproximação ainda é a imagem que as instituições procuram projectar sobre elas próprias e a natureza da sua oferta através dos seus spots publicitários. O blog
Slipped Disc apresentou vários deles nos últimos dias e é notória a intenção de transmitir a ideia de que a experiência é divertida, descontraída e relevante. São disso exemplo os spots da Orquestra Filarmónica Checa ou da Orquestra Filarmónica de Luxemburgo, mas eu convidava a ver ainda este, sobre o Royal Ballet (“Not what you think”), que, diz-se, foi criado por um bailarino e não foi ‘assumido’ pelo Royal Ballet (e se assim é, que pena…).



Há ainda outras questões, que se prendem com o repertório, os compositores, a sua vida e obra. O anteriormente referido Grant Park Music Festival, para além de disponibilizar ‘explicadores’, proporciona momentos de convívio com maestros e músicos, onde se pode conversar sobre o programa. Entre as minhas experiências pessoais nesta área, destacaria duas. Primeiro, uma conversa fascinante no ano passado entre o musicólogo Rui Leitão e uma dezena de pessoas antes de um concerto da Metropolitana. Não foi apenas a simplicidade do seu discurso que me agradou, totalmente acessível para quem pouco conhecia, mas também o facto de quem conhecia um pouco mais ter descoberto - sim, naquela abordagem tão simples e informal - tantas coisas, pormenores maravilhosos, que desconhecia. Em segundo lugar, o concerto de apresentação da temporada 2011-2012 da National Symphony Orchestra no Kennedy Center, onde foi impossível resistir à energia contagiante do maestro Ankush Kumar Bahl, que com muito entusiasmo, sensibilidade, paixão e sentido de humor contou pequenas histórias e criou lindos contextos a propósito dos destaques da programação aí apresentados. O que caracterizou ambos os discursos era a plena consciência que não se estavam a dirigir aos seus pares, conhecedores profundos, mas sim, ao público ‘geral’ e interessado, com o qual muito gostariam de poder partilhar esta experiência.

Anna Nicole Smith na Royal Opera House (foto retirada do site da ROH)

Mas esse mesmo repertório não estagnou. 
Naturalmente, continua-se a criar, a renovar, a procurar até novas formas de apresentação, para se relacionar com mais pessoas. A Minnesota Opera aposta nas encomendas porque vê a necessidade de evoluir, de avançar, de tornar a arte operática numa forma de arte progressiva, ambiciosa, inovadora. Uma das suas últimas produções é uma ópera para público juvenil, baseada num livro popular, The Giver (ver aqui entrevista com os responsáveis). Deveríamos ainda mencionar exemplos como a controversa aposta da Royal Opera House numa ópera sobre a vida da playmate Anna Nicole Smith (ver o trailer aqui) ou a nova produção do Royal Ballet, que junta bailarinas a cantores pop e rappers (ler aqui). E para além destas experiências de ‘fusão’ (artística e não só), vale a pena ainda conhecer os Alarm Will Sound, um grupo de música contemporânea que procura tocar as pessoas, independentemente do seu background, através de concertos-performance. Dizem-se conscientes de que os concertos de música contemporânea são um pouco frios, porque as pessoas não estão familiarizadas com este género musical. Assim, através da sua música, mas também dos seus corpos, energia e entusiasmo, comunicam o que a música é. E o que é pouco familiar pode ganhar sentido.

  

E depois de tudo isto, vem o chamado
Churn Report (Orchestra Audience Growth Initiative) dizer que afinal o problema não é trazer novas pessoas, é convencê-las a voltar… O estudo mostrou que 90% das pessoas que vêm a um concerto pela primeira vez, não regressam; e 60% dos espectadores ocasionais não compram bilhetes para a temporada seguinte. Algo que chamou em particular a minha atenção neste relatório é que os gostos das pessoas que vêm pela primeira vez e das mais assíduas quanto a compositores e instrumentos favoritos não são tão diferentes quanto se poderia pensar (ver quadros) - afinal, talvez não seja tão complicado programar para ambos. Vale a pena ler os resultados e as propostas deste estudo, que prova, mais uma vez, que não é apenas a arte que determina as opções das pessoas (e por isso, a não participação não indica necessariamente um ‘problema’ com a arte em si), mas sim a experiência como um todo, com a qual é preciso criar familiaridade, não desvalorizando, ao mesmo tempo, aqueles detalhes práticos e logísticos que poderão constituir barreiras, por muita que seja a vontade de assistir. 


*
Dados do inquérito realizado aos visitantes do Re-Rite no MUDE, gentilmente cedidos pelo Serviço de Música da Fundação Calouste Gulbenkian.


Ainda neste blog 

Convite para a festa 
Por falar em ‘novos’ públicos 
A diferença entre ‘mais’ e ‘diversos’  
La crise oblige? (ii) Desafios da programação  

Mais leituras 

How Symphonies Grew Strong Audiences By Killing The Myth Of The Average Consumer 
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Remixing Classical-Music Concerts for the iPod Generation 
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Sydney Dance Company attendance doubles 
I’m ready for my close-Up, Mr. Puccini 
Streaming ahead 
Minnesota Opera premieres a new opera for youth based on Lois Lowry’s classic novel, “The Giver”
My very first night at the opera