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Monday, 3 February 2014

As regras do amor

Kent Nagano, Director Musical da Montreal Symphony Orchestra (Foto: Körber Foundation)
Quando o Vice-Presidente da Körber Foundation, Klaus Wehmeier, abriu o 4th Symposium on the Art of Music Education na semana passada em Hamburgo, citou uma pessoa que numa edição anterior deste simpósio tinha dito “Quero partilhar o que amo”. Ao ouvi-lo, pensei que é isto precisamente que traz muitas pessoas, profissionais, de várias áreas culturais e artísticas a este género de encontros: o seu amor por algo e o seu desejo de o partilhar.

Estava ainda a pensar nesta partilha do que amamos, quando Kent Nagano, director musical da Orquestra Sinfónica de Montreal, subiu ao púlpito. Falou-nos do estado em que encontrou a orquestra quando assumiu a sua função: uma dívida de 12 milhões de dólares; um público com uma media de idades 65+; uma ocupação de 35%.  Nagano disse que prometeu à cidade apresentar obras excepcionais com a melhor qualidade que os músicos possam atingir. “Assim”, disse, “temos agora concertos esgotados, a idade media do nosso público são os 35 anos e a sala de concertos tem o aspecto das ruas da cidade de Montreal.”

O maestro não me convenceu; no sentido que eu ouvi muito mais nas suas palavras do que aquilo que ele estava preparado para reconhecer. Não acho que a Orquestra Sinfónica de Montreal tem concertos esgotados por causa do seu excepcional repertório e da sua alta qualidade – ou, pelo menos, sobretudo por causa disso. Estas são as características de muitas outras orquestras que lutam para sobreviver. Penso que o público de Montreal talvez tenha ouvido a ‘promessa’ do dirigente de uma orquestra que estava preparado para assumir um compromisso, para se envolver com eles; uma teoria também apoiada pelo facto de Kent Nagano ter partilhado connosco o seu prazer em ver a sala de concertos ter o aspecto das ruas da cidade, o que revela uma visão maior e a séria vontade de assumir um compromisso. Este facto pode ter tido um papel tão importante na recuperação da orquestra como o excepcional repertório e a qualidade da interpretação. Nagano desejou partilhar o seu amor com a cidade e tem trabalhado para isso.

Foto: Körber Foundation
A questão de “Como partilhamos o nosso amor” estava constantemente na minha cabeça nos dois dias que se seguiram. Quando ouvia, por exemplo, o discurso inspirador da músico e compositora Kathryn Tickell que dizia que ensina crianças e jovens a tocar a gaita de foles de Northumbria não porque quer torná-los virtuosos, mas porque quer dar-lhes a conhecer a sua herança, sendo a música uma afirmação de quem eles são. O discurso da Kathryn marcou realmente os participantes. Apesar de estar a lidar com a tradição, foi precisamente capaz de nos mostrar como a tradição não é algo parado no tempo. “Precisamos de ir mais a fundo, usar o conhecimento e ir para a frente sem medo”, disse. E com “ir para a frente” quis dizer experimentar, re-interpretar, enriquecer, entrar em diálogo com outras formas artísticas, não ’pela inovação’, mas pela necessidade que uma pessoa tem de se expressar e de… partilhar o que ama.


E continuei a pensar sobre o que é que amamos e como partilhamos o nosso amor quando vi a genuína expressão de perplexidade na cara de um dos participantes quando me ouviu dizer que há qualidade também noutros géneros musicais e não apenas na música clássica; quando ouvi algumas pessoas dizer que a educação para a música é da responsabilidade da escola e outras a afirmar que os músicos devem ser obrigados a envolver-se em actividades educativas porque sabem fazê-lo melhor; quando alguns participantes tentaram lembrar que estávamos a afastar-nos do que realmente importa – a música e o nosso público principal -, enquanto outros defendiam maior acesso e disponibilidade para ouvir as pessoas e adaptar.


Foto: Körber Foundation
A maioria destas questões foi, de alguma forma, resumida no último painel de discussão, que envolveu Nick Herrmann (Touch Press), Martinh Hoffmann (general manager da Berlin Philharmonic) e Karsten Witt (general manager da karsten witt music management). Foi muito bonito ouvir Karsten Witt falar do seu amor pela música clássica, da experiência tão especial que é assistir a um concerto, da concentração, dos detalhes, dos sentimentos. “Ouvir música através dos media é uma coisa diferente; deveríamos concentrar-nos no ‘objecto real’”, disse ele.

Será assim? Deveríamos estar preocupados apenas com o ‘objecto real’? E quando o mais próximo que uma pessoa possa chegar do objecto real é um CD ou um DVD ou o You Tube? Não deveríamos estar também preocupados em manter essas portas abertas e usá-las para disponibilizar conteúdos? Terão todas as pessoas que ouvir música clássica com o mesmo grau de concentração para poderem ter uma experiência que tenha significado (para elas, não para os outros…)?

Lembrei-me de um artigo que tinha lido uns dias antes no Guardian sobre o acesso digital a espectáculos. A jornalista, Lyn Gardner, falava do maestro Thomas Beecham, que viveu no início do século XX e que acreditava que a rádio manteria as pessoas longe das salas de concertos, pelo que “censurava as ‘autoridades sem fios’ por estarem a fazer ‘um trabalho diabólico’”. Nos anos 50 o ‘diabo’ era provavelmente a televisão; nos anos 90 os websites; e no início do século XXI o You Tube, as apps, o livestreaming de concertos e espectáculos.

Por isso, apesar de partilhar o amor de Karsten Witt pelo ‘objecto real’, estou também preocupada com o que ‘real’ possa significar para outras pessoas, com o que tem significado para elas, com as formas de proporcionar o acesso e com os seus meios financeiros. Porque sei que a tecnologia fornece-nos vários pontos de entrada, diferentes formas de participação e fruição, e não mantém as pessoas longe do ‘objecto real’. Pelo contrário, quando têm a oportunidade, as pessoas querem saborear o ‘objecto real’.

Mas há aqui mais uma questão: mesmo quando as pessoas vêm usufruir o ‘objecto real’, isto não significa que o vão fazer da forma como uma outra pessoa quer que o façam. Fá-lo-ão à sua maneira. O amor pode ter muitas, várias, regras, mas tem, definitivamente, uma regra principal: não pode ser imposto, pode?


Um agradecimento especial à Körber Foundation, pelo amável convite e pela hospitalidade.

Ainda neste blog:
Outras leituras

Monday, 25 November 2013

E tudo o vento levou?


No dia 15 de Novembro teve lugar no Convento de Cristo em Tomar o encontro “Museus e Monumentos: comunicar, inovar, sustentar”, organizado pela Direcção-Geral do Património Cultural. Houve quatro painéis: Mass media: mediação ou medianização?; Estratégias de comunicação; Marketing e branding; Fontes de financiamento, modelos de gestão. Foi um encontro interessante para mim, sobretudo pela integração nos painéis de pessoas que não trabalham em museus e monumentos e que possam trazer ao debate pontos de vista muito relevantes para todos nós. Isto é… se estivermos interessados em ouvir, em ser confrontados com as nossas práticas, em actuar no sentido de mudar para melhor.

São dois os momentos do encontro nos quais gostaria de me concentrar. O primeiro é a comunicação da jornalista Paula Moura Pinheiro, integrada no primeiro painel, “Mass media: mediação ou medianização?”. A Paula referiu-se ao trabalho do jornalista e ao seu papel na comunicação para e com o grande público. Para ela, o jornalista tem o papel do tradutor. É alguém com uma boa cultura geral, mas que tem consciência que não sabe tudo e que, por isso, procura os especialistas e as fontes mais variadas, no sentido de reunir informação. Esta informação é depois trabalhada e ‘traduzida’, para ser levada ao grande público de não-especialistas. “Os meus programas não são para os especialistas”, disse Paula Moura Pinheiro, “e os especialistas não precisam dos meus programas. Os meus programas são para quem não sabe.” Lembrou-me, inevitavelmente, do naturalista britânico Edward Forbes que escreveu em 1853: “Os conservadores de museu podem ser prodígios do conhecimento e, mesmo assim, impróprios para o seu lugar, se não conhecem nada sobre pedagogia, se não estão preparados para ensinar pessoas que não sabem nada.” E lembrou-me ainda de algo que tinha lido há uns anos no livro The Manual of Museum Management de Barry Lord & Gail Dexter Lord: que uma exposição é como um programa de televisão, pode sensibilizar, mas não torna ninguém perito.

Uma outra comunicação no primeiro painel da tarde, “Marketing e branding”, veio testar a compreensão e relevância das palavras de Paula Moura Pinheiro. O publicitário Pedro Bidarra, que esteve durante muitos anos à frente da conhecida agência BBDO, falou-nos do “Muro das Palavras”. Mostrou-nos excertos de textos que encontrou em exposições e que não lhe transmitiram absolutamente nada, porque… não os compreendeu. Os seus exemplos provocaram muitos risos na plateia, mas o Pedro insistiu: “Como querem que eu vá ver as vossas exposições se vocês próprios criam barreiras na comunicação? Não me falta interesse, gostaria mesmo de visitar, mas sinto que a vossa oferta não é para mim, não foi produzida a pensar em mim”.

Os textos do Pedro Bidarra foram muito bem escolhidos; o que não significa que são difíceis de encontrar. O discurso dos nossos museus é, em grande parte, uma conversa entre especialistas. Um enorme esforço é feito para se ganhar no fim o aplauso e aprovação dos nossos pares. Onde é que isto deixa o público, as pessoas, a nossa relação com elas?

Escrevia há duas semanas sobre a forma como os resultados do euro-barómetro foram recebidos por muitas pessoas no nosso sector e perguntava se estes mesmos resultados alguma vez nos vão fazer questionar as nossas práticas ou se vamos continuar a culpar as pessoas por falta de cultura, ignorância, desinteresse.

Penso no encontro em Tomar e no impacto que estas duas comunicações, de Paula Moura Pinheiro e de Pedro Bidarra, terão tido (ou não) na forma como os profissionais de museus presentes, e sobretudo aqueles com responsabilidades de direcção, reflectem sobre as suas práticas diárias. Qual terá sido o significado dos tantos risos na plateia enquanto o Pedro apresentava os seus exemplos? Porque naquela plateia encontravam-se, sem dúvida, pessoas que foram as autoras de textos muito parecidos com os que vimos no ecrã. Como dizia a portuguesa Sandra Fisher Martins, fundadora da campanha Português Claro, na sua TEDx Talk “The right to understand”: “Estes documentos (estava-se a referir a documentos da administração pública) não caem do céu, alguém os escreve”.


Para haver mudança, é preciso haver coragem para enfrentar a crítica; abertura para reconhecer o que não está bem; determinação em prestar um serviço melhor. É também necessário termos sentido de humor, sabermos rir dos nossos próprios erros, desde que o riso sirva para atenuar o – provavelmente inevitável – sabor amargo que deixa a crítica negativa e reforçar a vontade de fazer de outra forma, melhor. Se o riso não passar de um riso, sinto que por trás está um Rhett Butler a pensar: “Francamente, minha querida, eu não ligo a mínima”.

Monday, 28 October 2013

É favor definir "perigo"

Musée d' Orsay (Imagem retirada de Louvre pour Tous)
O debate da semana passada sobre fotografia nos museus, organizado pela Acesso Cultura e pelo ICOM Portugal, não correspondeu às minhas expectativas. E considero que, em parte, a culpa seja minha. Entendi o meu papel de moderadora como, sobretudo, o de reguladora da conversa. Tendo partilhado publicamente as minhas posições sobre este assunto – neste blog, no blog Mouseion, no jornal Público e também no portal Louvre pour Tous - considerei que este deveria ser o momento para dar a oportunidade aos oradores convidados e aos colegas que assistiam para trocar opiniões, esclarecer ideias, partilhar a sua visão para os museus no século XXI. Porque o contexto actual em que se discute a fotografia nos museus é um contexto para discutir a relação dos museus com as pessoas no século XXI.

A campanha "It's Time we Met" do Metropolitan Museum usou fotos tiradas pelos visitantes no museu.
O debate tomou um rumo diferente, concentrando-se principalmente em questões de direitos de autor e nos interesses e pressões comerciais por trás da Directiva da EU Relativa à Reutilização de Informações do Sector Público. Pouco foi perguntado ou dito sobre os visitantes – fotógrafos e a forma como a actual legislação portuguesa limita (ou não) a sua contribuição na promoção dos museus. Houve algumas perguntas concretas sobre este assunto – como, por exemplo, “O que é que se entende no despacho (ler aqui) por “divulgação” e os visitantes que tiram fotografias e partilham-nas nas redes sociais são criminosos?”; ou “A actual legislação não é incompatível com o facto de dois museus e dois palácios nacionais estarem neste momento no Google Art Project?” -, mas ficaram sem resposta. A falta de resposta directa pode ser ela mesma um indicador de incapacidade ou falta de vontade em abordar estas questões fundamentais, mas, como moderadora, deveria ter insistido para que houvesse uma resposta clara -  afinal, era esse o propósito do debate - ,no entanto, achei que ia envolver-me num diálogo pessoal com os intervenientes e, por isso, não o fiz (mea culpa).

Imagens amplamente disponíveis na Internet. Autores desconhecidos ou... difíceis de encontrar.
Mais para o fim do debate, houve mais uma pergunta muito relevante: a Direcção-Geral do Património Cultural tem realmente condições para controlar o uso das imagens tiradas pelos visitantes e é esse o propósito do despacho? Qual é hoje a sociedade que é suposto os museus servirem? Nesse momento, fomos informados que é muito difícil controlar e que o despacho tem sobretudo uma função dissuasiva.

Cartazes criados pelo Musée Saint-Raymond, Musée des Antiques de Toulouse.
Assim, e mais uma vez, os visitantes, as pessoas, não estiveram no centro da discussão. Os objectos é que sim. Um outro momento interessante no debate foi uma pergunta relativamente à manipulação de imagens de obras de arte – como a imagem usada para a promoção do debate. As opiniões foram diversas: desde o não haver mal nenhum neste uso criativo de uma obra de arte, uma vez que as obras têm uma vida própria; ao identificar um perigo na disponibilização de imagens de qualidade – como está a fazer neste momento o Rijksmuseum e outros museus – e realçar a responsabilidade dos profissionais dos museus em salvaguardar e proteger.



Gosto de museus que nos fazem sentir bem-vindos, livres, inspirados. Aprecio os museus que têm bom sentido de humor e não têm medo de o mostrar. Admiro os museus que não permanecem afastados do que se passa à sua volta, na sociedade. Respeito os museus que procuram criar ligações com o mundo exterior, debater e não impor. Não vejo nenhum perigo nisto, nem alguma falta de respeito; vejo simplesmente relevância e sentido de missão.

Mas, acima de tudo, sinto-me tão contente quando vejo pessoas a divertirem-se nos museus e a partilharem o seu prazer (mais ou menos criativamente). Haverá melhor sinal de missão cumprida?

Publicidade da KLM. O Rijksmuseum foi o primeiro a partilhá-la no Facebook.

Monday, 21 October 2013

Blogger convidado: "Organizações culturais e comunidades: parceiros perfeitos", por Karen O'Neill (Reino Unido)

Não há nada mais inspirador do que ouvir a Karen O’Neill falar dos programas para o envolvimento da comunidade do Laurence Batley Theatre, onde é a Gestora. Sobretudo porque sentimos o quanto as intenções são focadas, sérias, honestas e sinceras. Tudo isto é muito mais que palavras; estas são as acções concretas de uma instituição cultural que não tem dúvidas quanto ao seu papel na comunidade em que se insere. Tudo isto é muito mais que defender o acesso e a construção de relações; é, realmente, fazê-lo acontecer. É a riqueza destas experiência que a Karen partilha connosco. mv

Todos a sentimos, aquela sensação estranha no estômago, uma mistura de excitação e nervosismo. A sensação que algo novo, algo grande está prestes a começar. É assim mesmo que nos sentimos neste momento no Laurence Batley Theatre (LBT) porque encontrámos a nossa cara metade. Sim, criámos uma parceria com uma comunidade nova!

Para uma instituição cultural, envolver-se com uma comunidade nova é como começar um novo romance. As fases são as mesmas: conhecer um ao outro, o maravilhoso período de lua-de-mel, crescer juntos e, claro, a inevitável ruptura.

Conhecer o outro
No LBT temos trabalhado nos últimos 5 anos no desenvolvimento de um programa e estratégia de envolvimento das comunidades que, tal como um verdadeiro gentleman, coloca as comunidades no centro, procurando encorajá-las a liderar e inspirar o seu trabalho. Trabalhamos com elas no sentido de criar caminhos através dos quais as pessoas possam explorar a sua própria criatividade e de as equipar para navegarem as artes. Aprendemos o quanto é importante as comunidades sentirem-se confiantes em relação ao seu envolvimento. Temos que ser pacientes e compreensivos, permitindo-lhes andar ao seu próprio ritmo. Damos resposta às vontades e desejos da comunidade com a qual criamos uma parceria, passando algum tempo a conversar e a descobrir em conjunto. O que se aprende durante esse tempo é vital para formar o envolvimento e construir uma boa base sobre a qual a relação possa florescer.

Iniciação ao teatro para adultos. (Foto: Peter Boyd)
Lua-de-mel
Sem dúvida, o melhor momento em qualquer relação, quando as coisas andam lindamente e, francamente, não podemos viver um sem o outro. O LBT oferece neste momento uma série de workshops, programas e projectos em resposta a tudo o que aprendemos sobre essa comunidade, as suas necessidades, pontos fortes, esperanças e pontos fracos. Através de um gestor de projecto que se dedica a esta parceria, o LBT procura criar fortes ligações com a comunidade e usar a criatividade como uma ferramenta para a mudança. Através de uma série de iniciativas, desde workshops de jogos criativos para jovens pais a projectos de teatro intergeracionais, o LBT usa a criatividade para gerar aspirações e promover a coesão.

The Courtyard Circus - evento de celebração produzido por jovens da comunidade (Foto: LBT) 
Crescer juntos
Quando a novidade se desgasta, é importante que ambas as partes dedicam algum tempo e energia para olharem para o futuro e enfrentar os obstáculos que possam prejudicar a relação. Como muitos especialistas em relacionamentos vos dirão, este pode ser o momento de avanço ou ruptura. Repetidamente, as instituições culturais caem de pára-quedas nas comunidades e não pensam para além da oferta inicial. É vital desenvolver um caminho entre a participação e a performance.   

No que diz respeito a um envolvimento sustentável, as instituições culturais devem trabalhar com as comunidades no sentido de identificarem e ultrapassarem as barreiras existentes. Da minha experiência em trabalhar com comunidades, sei que essas barreiras podem muitas vezes ser complexas e emotivas, podem estar relacionadas com o transporte, a confiança, o acesso, questões económicas, etc., etc. Apenas ultrapassando estas barreiras podem as comunidades passar de um compromisso de envolvimento a curto prazo (actividades gratuitas na sua área) para um compromisso de envolvimento (comprar bilhetes para um espectáculo) ou para um envolvimento alargado (participar num programa de teatro para jovens). É importante que as instituições culturais trabalhem com as suas comunidades no sentido de passar por estas etapas de envolvimento. Apenas porque alguém vem a um workshop de teatro no seu centro local não significa que automaticamente irá adquirir bilhetes para a temporada de teatro no seu teatro local. No LBT procuramos ultrapassar as barreiras usando várias tácticas, desde idas organizadas ao teatro, visitas guiadas e conversas com os funcionários do teatro, juntando diferentes grupos de teatro de jovens da comunidade, pensando em políticas de preços estruturadas, propondo visitas aos bastidores, etc. A nossa experiência ensinou-nos que esta etapa no envolvimento da comunidade é um factor chave para termos sucesso. A compreensão do papel importante que o envolvimento da comunidade tem no desenvolvimento de públicos ajuda o LBT a desenvolver públicos para hoje e para o futuro.

Re:Volt - peça produzida pela equipa do teatro com um elenco composto exclusivamente por membros da comunidade, apresentada no palco principal do LBT como parte da temporada de teatro. (Foto: Peter Boyd)

A separação é difícil
Todas as coisas boas têm um fim e, infelizmente, chega sempre o momento em que temos que nos afastar. O LBT compromete-se sempre a desenvolver um projecto de um mínimo de 3 anos com qualquer comunidade. Poderiam perguntar porque é que não ficamos mais tempo, mas a verdade é que as necessidades são muitas e os recursos poucos. Acreditamos que concentrando o nosso trabalho numa comunidade durante um período de tempo sustentável traz os melhores resultados para a comunidade envolvida e para o LBT. O LBT pensa na sustentabilidade de qualquer programa desde o primeiro momento, procurando promover projectos de capacitação paralelamente ao programa criativo. Entendemos que em parte o nosso papel é equipar as comunidades com capacidades e ferramentas que irão precisar para sustentar a prática criativa depois de nos irmos embora. Trabalhamos com a comunidade no desenvolvimento de uma estratégia de saída adaptada às suas ambições e planos para o futuro.

Podemos ainda ser amigos?
Claro que sim! Uma função fundamental de qualquer programa de envolvimento da comunidade é que serve como ferramenta para o desenvolvimento de públicos. O envolvimento da comunidade constrói um público forte e activo, extremamente envolvido com a instituição e que compreende os seus valores e também o seu valor como organização. Através das ligações profundas criadas com as comunidades através do envolvimento sustentável, o LBT tem criado públicos que estão apaixonados pelas artes e que compreendem o valor da prática criativa; um público que defende o LBT em fóruns e debates onde nós próprios nunca teríamos acesso.

Perante os cortes no financiamento, as autarquias começam a reduzir a sua oferta. É por isso vital que as instituições culturais abracem as suas comunidades e criem parcerias com elas. Através de programas de envolvimento sustentados e bem pensados, as instituições culturais podem criar uma base de públicos entusiasta e envolvida, já convencida que as artes e a cultura não são um luxo, mas, como as relações, uma parte essencial da vida.

                  

Karen O’Neill é a Gestora do Lawrence Batley Theatre (LBT) em Huddersfield West Yorkshire no Reino Unido. O LBT apresenta os melhores espectáculos ao vivo e trabalha de perto com a comunidade local. A Karen é responsável pelo desenvolvimento estratégico do teatro, desde garantir o futuro financeiro da organização através da angariação de fundos e criação de receitas à criação de um espaço onde a criatividade possa florescer. Começou a sua carreira como gestora de teatros comunitários, trabalhando tanto em projectos de envolvimento da comunidade como na estabilidade financeira das organizações. A seguir passou para as instituições de grande escala no sector do teatro comercial.  Neste momento, é fellow no DeVos Institute of Arts Management no Kennedy Centre em Washington D.C., onde se junta a gestores culturais de todo o mundo que procuram aprender, criar, capacitar-se e inspirar-se mutuamente.

Monday, 14 October 2013

O Louvre, o meu filho e eu

Foto: Thomas Struth

A primeira vez que levei o meu filho a Paris, ele tinha 7 anos. Tínhamos combinado que não íamos visitar mais que um museu por dia (as memórias do meu irmão de 5 anos a fazer birra e a queixar-se constantemente que estava cansado ou que tinha fome, até declarar aos nossos pais “Não mais museus!”, fizeram de mim uma mãe mais ‘calculista’…). Quando chegou o dia de irmos ao Louvre, o acordo tornou-se ainda mais específico: íamos ficar uma hora e íamos ver três peças gregas que eu tinha escolhido para ele e a Mona Lisa, escolha dele, uma vez que tinham falado nela na escola.

Estava a falar dessa visita durante uma aula na semana passada, quando estávamos a discutir se é uma coisa boa ou má que algumas pessoas queiram só dar uma volta num museu. E estarão todas as pessoas que aparentemente estão a dar uma volta a fazer precisamente isso? Se alguém nos tivesse observado no Louvre, teria visto uma mãe a apressar o seu filho de uma sala para a outra, sem prestar atenção à riqueza e à beleza à sua volta. A verdade é que tínhamos um plano, um plano muito pessoal e específico. E quando saímos do museu, estávamos contentes porque tínhamos feito o que tínhamos planeado.

Esta é uma questão recorrente neste blog: a qualidade da visita ao museu, tal como a desejam os curadores e as próprias pessoas. Quando o John Holden definiu os três tipos de guardião no seu ensaio Culture and Class, escreveu sobre os snobs culturais, os neo-mandarins e os neo-cosmopolitas. Definiu os neo-mandarins como aqueles profissionais da cultura que defendem o acesso, mas que querem ser eles a decidir a que é que vale a pena ter acesso. Penso que a maioria de nós pertence a essa categoria. Desejamos o melhor para os visitantes, mas não estamos preparados para admitir que os visitantes também sabem o que é melhor para eles. Queremos impor uma agenda, mas os visitantes têm a sua própria, uma agenda que nem sempre aceitamos como válida ou significativa, a não ser que corresponda de alguma forma aos nossos próprios padrões.

Desejar o melhor para os visitantes e fazer o nosso melhor para o fornecer é a razão porque estamos aqui. Mas há duas maneiras diferentes de o fazer e de o exprimir. Existe a versão neo-mandarim e a versão neo-cosmopolita. Foi no decorrer da aula que referi que me ocorreram dois exemplos concretos.

No início deste ano, pouco depois de assumir a posição de subdirector do Museu Reina Sofia, João Fernandes foi entrevistado pelo jornal espanhol ABC. Houve uma afirmação que chamou a minha atenção: “Queremos que o espectador seja mais lúcido e crítico quando se confronta com a obra de arte, que possa pensar e que não sirva apenas para dizer que esteve lá.”

Percebi, claro, o que quis dizer, mas não gostei da forma como o disse. Não gostei do uso das expressões “queremos que” e “espectador”, senti o desejo do neo-mandarim de ditar, de impor.

Dois meses depois, estava a ler Civilizing the Museum de Elaine Heumann Gurian. E encontrei isto: “ Não somos mais pregadores para os não-iniciados; estamos unidos como parceiros com os nossos públicos e as suas famílias. Devemos ajudar o nosso público, que acredita e confia em nós de uma forma comovente, a tornar-se mais céptico e exigente.”

Parece-me que o desejo é o mesmo expresso por João Fernandes. As palavras, e eventualmente a forma de fazer, são bastante diferentes. Heumann Gurian fala de uma parceria; assume o papel do facilitador e descarta aquele do pregador; sente a responsabilidade que advém da confiança depositada pelas pessoas nos profissionais dos museus.

No que diz respeito à relação entre museus e pessoas, não é como se existisse uma lista de controlo e que os visitantes tenham que fazer e aprender uma série de coisas antes que a sua visita possa ser validada por uma autoridade superior. Mesmo quando os curadores tentam fazer isso, não têm sucesso, simplesmente mantém muitas pessoas afastadas porque não se sentem confortáveis e bem-vindas. O museu é um espaço onde as pessoas vêm para aprender, para se inspirarem, para serem surpreendidas, para serem tocadas, para se divertirem. O pessoal do museu trabalha para garantir as condições para que isto aconteça. Pode ser que tudo isto aconteça de uma vez ou em parte ou que não aconteça de todo e que não aconteça da forma como tinha sido planeado pelo museu. No entanto, penso que a avaliação final só poderá ser feita envolvendo o próprio visitante e considerando igualmente as suas necessidades e expectativas e não apenas aquelas do curador. O museu é um espaço partilhado.

Monday, 30 September 2013

Ópera e a Cidade

Percurso musical em 5 actos, homenagem à Maria Callas (Fonte: Lifo)
No início de 2011, a dívida da Ópera Nacional da Grécia (ONG) ultrapassava os 17 milhões de Euros e a organização corria um sério risco de ser encerrada. Quando há duas semanas o director artístico da ONG deu uma conferência de imprensa para apresentar a temporada 2013-2014, o quadro era bastante diferente:

- A dívida é neste momento 4.697.609 Euros (baixou 73%);

- O orçamento para a programação 2012-2013, inicialmente estimado em 3.890.000 Euros, teve que baixar para os 2.580.000; no entanto, a afluência subiu para 90.000 espectadores, e a receita da bilheteira somou 2.220.000 Euros (apenas 360.000 abaixo do valor investido nas produções);

- Todas as produções no teatro principal da ONG, o Olympia, assim como aquelas apresentadas na sala de concertos Megaron e no Teatro Herodes Atticus tiveram uma taxa de ocupação entre 80% e 100% - havendo sempre um número de bilhetes gratuitos para desempregados;

- A ONG chegou a mais 20.000 pessoas fora de portas, tanto em Atenas como na periferia, com o apoio da Fundação Stavros Niarchos, que lhe permitiu desenvolver uma série de actividades de outreach e fazer uma digressão em várias cidades gregas (a Fundação Niarchos está a construir um novo centro cultural, desenhado por Renzo Piano, que será a nova casa da ONG e da Biblioteca Nacional a partir de 2016).

Um milagre? Nem por isso. Decisões difíceis, um forte compromisso, um claro sentido de missão, muito trabalho e, consequentemente, apoio privado/individual. Não podemos ignorar o facto de tudo isto acontecer num momento em que a Grécia está a atravessar uma extrema crise económica e a sofrer severas medidas “correctivas”, que têm destruído a economia do país. O subsídio estatal para a ONG diminuiu 5 milhões de Euros nos últimos dois anos, o que tem causado sérios problemas nas operações da organização.

Gostaria muito de saber de que forma cortaram nos custos operacionais, o maior ‘peso’ na gestão de uma instituição como esta. Infelizmente, este tipo de dados não foi partilhado publicamente, por isso, só podemos imaginar o quanto deve ter sido difícil. Na falta destes dados, gostaria de me concentrar nas iniciativas tomadas – apesar das dificuldades ou, talvez, por causa delas – no sentido de pôr a ONG de volta no mapa e de criar uma ligação com a cidade e as pessoas.

Ter que cortar o orçamento das produções em casa não significou que a ONG tivesse cortado também no todo da sua actividade. Antes pelo contrário. Este momento de crise foi precisamente o momento em que a ONG decidiu ser extrovertida, original e inovadora. Através de uma série de iniciativas, conseguiu estar mais presente que nunca na vida dos Atenienses e, fisicamente ou virtualmente, na vida dos Gregos que vivem longe da capital.

Há dois anos, uma das suas primeiras iniciativas de outreach tinha sido o “autocarro lírico”, que percorria as ruas da capital grega apresentando destaques dos próximos espectáculos. Simples, informal, directo, conseguiu tocar os transeuntes.


Mais tarde, desenvolveu um projecto chamado “Ópera na Mala”. Esta é uma forma ‘flexível’ de apresentar ópera em espaços não-convencionais, apenas com o cenário que cabe numa mala e com um piano em vez de orquestra. A ONG foi a praças, mercados, átrios de museus e encontrou-se com pessoas que de outra forma talvez não tivesse tido contacto com esta arte. Alguns destes concertos reuniram perto de 4000 espectadores.


Concerto no Mercado Varvakios (Fonte: Lifo)
Os ensaios abertos em espaços públicos são uma outra forma de estar próximo das pessoas e partilhar com elas o que normalmente acontece de porta fechada. No verão passado, a ONG apresentou Madama Butterfly no Teatro Herodes Atticus no âmbito do Festival de Atenas. Alguns dias antes da estreia, houve um ensaio aberto próximo do teatro, na rua pedonal que circunda Acrópole e a antiga Ágora. Na passada quinta-feira, uma semana depois da apresentação da nova temporada, houve um ensaio aberto da orquestra no porto de Pireu – um programa de uma hora com destaques da temporada -, assim como um ensaio aberto da companhia de bailado da ONG no porto de Salónica – um ensaio da peça “Viagem à Eternidade”, homenagem ao realizador Theo Angelopoulos.



Por fim, mais de 5000 pessoas seguiram o percurso musical em cinco actos no dia 15 de Setembro, celebrando o 36º aniversário da morte de Maria Kallas. “Esta participação foi uma afirmação clara de todos nós”, disse uma pessoa à revista Lifo. “É necessário criar ligações entre a arte e a vida da cidade, o que se tornou absolutamente essencial nas actuais circunstâncias.”

Tudo isto faz recordar a carta aberta que Michael Boder, director musical do teatro Liceu de Barcelona, enviou à administração no ano passado, quando foi anunciado que, devido às dificuldades financeiras, o teatro ia encerrar por dois períodos de um mês. Tínhamos comentado na altura esta carta, considerando a resposta de Boder uma excelente lição de gestão (ler aqui). Aqui está um excerto: “Nesta situação difícil para Espanha e a sua população, podíamos dar concertos gratuitos para os desempregados. Afinal de contas, temos os recursos necessários! Podíamos organizar concertos e projectos para crianças, jovens e idosos. (…) Mas temos que tocar, ou iremos desaparecer! Devíamos ter que tocar mais, não menos. (...) Ao mesmo tempo, o Liceu podia também transmitir uma mensagem social: ‘Vejam, estamos a tocar para vós e estamos aqui, fazemos música e toda a gente está convidada para ouvir em vez de falar.’ (...) Que objectivo poderia fazer mais sentido numa altura de crise? Afinal de contas, a cultura traz conforto em tempos difíceis e dá também ideias.”


Ensaio aberto de Madama Butterfly (Fonte: página Facebook da ONG) 
Tocar mais, não menos. Mostrar às pessoas que estamos a tocar para elas, que estamos aqui. Esta tem sido a missão e mensagem da Ópera Nacional da Grécia nos últimos dois anos e meio. Julgando pela reacção das pessoas, podemos concluir que esta é mesmo a mensagem que queriam ouvir. Em retorno, mostram o seu afecto e dão o seu apoio.

Monday, 16 September 2013

A reconquista

Wolf Trap National Park for the Performing Arts, Washington DC (Photo: bigbirdz on Flickr)

Na antiguidade, o teatro grego fazia parte do que, hoje em dia, uma pessoa poderia chamar cultura popular ou cultura das massas. Os Gregos Antigos iam ao teatro aos milhares. Traziam comida com eles, porque iam lá passar o dia inteiro. Comiam durante o espectáculo e atiravam comida ou gritavam com os actores quando não estavam a gostar do que estava a ser apresentado. Também intervinham, faziam perguntas e exprimiam opiniões sobre o enredo. 


O público de Shakespeare, bastante heterogéneo na sua composição social, era tão barulhento como o público na Grécia Antiga. As pessoas mais pobres pagavam o equivalente a quase um dia de trabalho para ficarem de pé à frente do palco. E pagavam mesmo. Era importante para elas estarem lá, significava algo, tanto pelo que se estava a passar no palco, como fora dele…


Poucos séculos depois, no final do século XIX, existem registos de pessoas que gritavam ou se metiam em cima das cadeiras durante concertos de música clássica. E... aplaudiam entre os movimentos ou sempre que se entusiasmavam com a interpretação. 

Porque é que estou a  dizer tudo isto? Para que nos lembremos todos que as coisas mudam, os hábitos mudam, os gostos mudam. O que era aceitável antes, já não o é. E o que é hoje, não será amanhã. As coisas estão novamente a mudar. Hoje em dia, há, por exemplo, pessoas que gostam de falar durante os concertos de música clássica ou de partilhar ao vivo uma experiência teatral através do twitter ou de usar todo o género de gadgets enquanto visitam um museu. Isto faz outras pessoas sentirem-se nervosas e está a ser montada resistência.

Os apelos para o regresso a uma experiência de teatro /música / museu mais ‘pura’ estão a multiplicar-se. Pelo menos ‘pura’ da forma como algumas pessoas a vêem, pessoas que gostam de assistir em silêncio absoluto a um concerto de música clássica ou de visitar um museu e simplesmente contemplar uma obra de arte. Esta é, realmente, uma forma de fazer as coisas. Não é a única. E não é necessariamente mais significativa.

A questão foi novamente levantada recentemente por Judith Dobrzynski no New York Times, num artigo intitulado High culture goes hands-on. Lamentando a busca de uma ‘experiência’ que tem tomado proporções gigantescas, Dobrzynski sente claramente saudades dos “tempos passados, [quando] os museus não precisavam de ser activados”; escreve sobre “a emoção de estar de pé diante da arte”, chegando à triste conclusão que “isto não é suficientemente emocionante para a maioria das pessoas”; e, finalmente, avisa: “Tudo isto faz-se em nome da participação e da experiência – também chamado envolvimento do visitante – mas altera a própria natureza dos museus e as expectativas dos visitantes. Altera quem irá aos museus e para quê.”

Dois dias depois, Dennis Kois respondia com Song of experience, lembrando, basicamente, que não existe apenas uma forma, válida e significativa, de fazer as coisas. Podem existir ofertas diferentes para pessoas diferentes com necessidades diferentes; são diferentes e depende das próprias pessoas o que é que vão levar com elas.

É exactamente isto que pensei quando li a seguinte afirmação de Mark Rosen a propósito dos visitantes do Metropolitan Museum: “… quase todos vêm aqui, tentam ver tudo em quatro horas ou menos, tiram imensas fotos no Instagram e vão-se embora, sem se lembrarem de nada.” Rosen está envolvido numa iniciativa chamada Museum Hack, que propõe várias visitas “não-tradicionais” em museus. No caso do Met, levam as pessoas a fazer visitas curtas, apresentando-lhes peças menos conhecidas da colecção. Acho isto muito bem. E, enquanto tenho a certeza que as pessoas que se juntam a estas visitas divertem-se e aprendem muito, tenho quase a certeza que turistas que estão pela única vez na vida em Nova Iorque sentir-se-ão mais satisfeitas e será mais significativo para elas se tentarem ver e fotografar tudo em quatro horas. E irão lembrar-se de algo.

Todas as experiências são necessárias, são diferentes pontos de entrada, significam coisas diferentes para pessoas diferentes. A Nina Simon disse-o maravilhosamente há uns anos num post chamado I am an elitist jerk. Apaixonada por parques naturais, uma visitante com muita experiência, confessou sentir-se incomodada nos parques nacionais que atraem as massas. Admitiu ser uma elitista. O que a fez considerar a sua campanha por museus acessíveis e participatórios. “Nessa viagem, pela primeira vez, compreendi realmente a posição das pessoas que discordam comigo, aquelas que sentem que comer e falar alto nos museus não é apenas indesejável, mas transgressor e doloroso. Para os elitistas, é impossível ignorar a forma como outros degradam o que é para eles uma intensa experiência estética e emocional. Compreendo agora.” No entanto, Simon continua e diz que os parques nacionais não lhe pertencem só a ela e que os mais populares entre eles são um importante ponto de entrada para pessoas que escolheram lá estar, porque significava algo para elas. Um dia, algumas delas poderão experimentar um outro parque, mais remoto e ‘difícil’.

Ou um museu. Ou um teatro. Ou um concerto. Os nossos conhecimentos e a nossa experiência é algo que construímos. De acordo com as nossas necessidades, de acordo com o contexto em que nos encontramos. Assisti a concertos de música clássica em silêncio absoluto, juntamente com pessoas que ‘sabiam exactamente quando aplaudir’ e saboreando a última nota tocada até desaparecer e poder (podermos) começar novamente a respirar. Mas gostei igualmente de concertos de música clássica ao ar livre, juntamente com centenas de pessoas a fazer picnic sentadas na relva e a conversar sobre tudo, relacionado ou não com o que se passava no palco.

Sem dúvida, não é sempre fácil dar resposta a necessidades diferentes no mesmo espaço. Na verdade, foi sempre um desafio. Mas há duas coisas que me parecem importantes: 1. Reconhecer que existem necessidades diferentes; e 2. Não julgar uma forma de experiência mais válida ou significativa do que outra. Isto aplica-se aos profissionais da cultura. Aplica-se a espectadores e visitantes também.


Ainda neste blog

Como toma o seu El Greco?

Elitismo para todos

Qual o problema com a música clássica? Aparentemente nenhum…

Livres de visitar um museu de arte

Museus: as novas igrejas?

Simon Fairclough, Orquestras em apuros: será mesmo?


More readings

James Durston, Why I hate museums

Mark Tapson, Should museums be more entertaining?

Peter Funt, Theatre for Twits

Richard Dare, The Awfulness of Classical Music Explained



Monday, 22 July 2013

Apresento-vos a Rosa Shaw

Rosa Shaw (Foto: Maria Vlachou)
Apresento-vos a Rosa Shaw. É a primeira pessoa que nos cumprimenta quando entramos no Kennedy Center for the Performing Arts. É um dos guardas do memorial e uma das caras da instituição. É bem educada, tem sentido de humor, é prestável. Quando alguém parece estar perdido ou confuso, não espera que lhe peçam ajuda, aproxima-se e tenta ver se pode ajudar. A farda poderia causar alguma inibição nos visitantes – uma preocupação permanente entre os que trabalham na área da comunicação – mas, olhando para a Rosa e a forma como faz o seu trabalho, torna-se claro que, mais do que uma questão de aparência, é uma questão de atitude.  

A Rosa faz-me pensar em vários guardas que tenho encontrado em museus. Pessoas que parecem extremamente aborrecidas e cansadas; ou pessoas que evitam o contacto visual e depois seguem-nos de perto, apesar de sermos o único visitante na sala; ou pessoas que estão a discutir em voz alta os seus problemas familiares ou laborais, não dando nenhuma atenção aos visitantes. Guardas deste género fazem-me pensar o quão mais interessante seria o seu trabalho, e qual seria o benefício para o museu ou a instituição cultural em que trabalham, se lhes fosse dada formação adequada e responsabilidades diferentes – mais responsabilidades – do que simplesmente estarem sentados numa cadeira ou de pé num canto, sisudos e aborrecidos, interagindo o menos possível com os visitantes.

Guardas no Brooklyn Museum (Foto: Maria Vlachou)
Digo isso porque tive também outras experiências. Há três anos, juntei-me a uma visita guiada à exposição das Tapeçarias de Pastrana no Museu Nacional de Arte Antiga em Lisboa. Quando a visita acabou, dirigindo-me à saída, ouvi um guarda a falar com duas senhoras, explicando tudo o que uma pessoa precisava de saber sobre aquelas obras, mas com um entusiasmo e empenho que igualava aquele do pessoal do Serviço Educativo. E numa linguagem muito mais acessível do que aquela dos textos nos painéis. Mais recentemente, numa visita à exposição de El Anatsui no Brooklyn Museum, ouvi duas guardas a falar sobre uma das obras. Adorei ouvir a sua conversa. Mais tarde, uma delas cumprimentou um pequeno grupo de visitantes e ofereceu-se para tirar-lhes uma fotografia à frente de uma das obras, para poderem ficar todos nela. Todo o ambiente estava descontraído e amigável e informal, senti que fazia toda a diferença.

Os guardas dos museus podem parecer silenciosos e sisudos, até ameaçadores às vezes, mas têm olhos e sentimentos e opiniões sobre as obras que os rodeiam. Há umas semanas, a Washington Post publicou um artigo muito interessante sobre os guardas dos museus da capital americana (ler aqui), onde falavam das suas obras favoritas e o porquê de serem as suas favoritas. Uma delas dizia que o facto de trabalhar num museu despertou o seu interesse pela arte e, consequentemente, fê-la olhar para todas as coisas de uma forma diferente. Ao ler as suas entrevistas, pensei como gostaria de ter tido uma conversa directa com eles, como visitante e como profissional.



Numa instituição cultural, o pessoal da Frente de Casa (sejam eles guardas ou assistentes de sala ou bilheteiros) são algumas das pessoas mais importantes na equipa no que diz respeito ao marketing institucional. São a cara, são a voz, são a atitude. São também os ouvidos, uma vez que estão mais próximos dos visitantes ou espectadores do que a Gestão. O pessoal da Frente de Casa tem um papel decisivo na qualidade de toda a experiência de visitar uma instituição cultural. Uma exposição que nos desiludiu ou um espectáculo que provou ser um desastre não nos vai manter afastados para sempre; assumimos um risco e sabemos que poderá não vir a corresponder à expectativa. Por outro lado, se não formos bem tratados, se nos depararmos com funcionários que são mal educados ou de mau humor, que não têm a informação que precisamos, que não são prestáveis ou que mostram não se preocupar, isto poderá fazer toda a diferença e determinar se vamos voltar ou não. Mesmo quando temos que escolher entre duas exposições ou dois espectáculos interessantes, é muito provável que o atendimento ao público, o lugar onde nos sentimos mais bem tratados, faça toda a diferença na nossa decisão.

No entanto, apesar da sua posição e papel estratégicos, o pessoal da Frente de Casa é normalmente negligenciado pela Gestão; menosprezado também. Não lhes é dada formação adequada em relações públicas e atendimento ao público; não lhes é dada informação sobre o que estão a guardar ou a vender ou o que vão ver as pessoas que encaminham aos respectivos lugares; muito frequentemente, não lhes é dada sequer informação importante sobre o que se passa na instituição na qual trabalham em termos de programação ou horários ou preços / descontos ou outras informações práticas que o público procura (já alguma vez presenciaram o desconforto e constrangimento de um membro da Frente de Casa quando não pode responder a uma pergunta lógica ou, pior, quando é informado pelo público sobre o que se passa na instituição onde trabalha?); sentem-se frustrados pelo facto da sua opinião não ser tida em conta, até quando se trata de opiniões e comentários do público que eles simplesmente transmitem superiormente, porque os ouviram ou porque os receberam.

Os funcionários da Frente de Casa não são o pessoal que ‘apenas’ guarda ou ‘apenas’ vende ou ‘apenas’ responde ao telefone ou ‘apenas’ leva as pessoas ao seu lugar. São uma parte valiosa da equipa, a parte mais visível. São aqueles que dão as boas vindas ao público, que falam com ele, que promovem a instituição – não apenas os seus conteúdos, mas também a sua visão e os seus princípios. Parece óbvio e natural que lhes sejam dadas as ferramentas para poderem fazer o seu trabalho e fazê-lo bem. A Rosa parece ter prazer em fazer o seu trabalho. E é um prazer vê-la fazê-lo.

Monday, 24 June 2013

Elitismo para todos

Our Lady, by Eszter Szabó, 2012 (Foto: Maria Vlachou)

E de repente, em menos de uma semana, houve três posts diferentes no Facebook, escritos por três pessoas diferentes, referentes a três situações diferentes, mas com uma questão subjacente comum: o elitismo cultural.

Primeiro, o programador António Pinto Ribeiro criticou o anúncio de uma edição única e limitada do último livro do poeta Herberto Hélder. Considerou esta opção uma campanha de marketing ofensiva, uma decisão arrogante, pouco dignificante para todos os envolvidos. Alguém comentou que esta tinha sido provavelmente a vontade do poeta – que se sentiu desconfortável por ter ficado na moda e que preferiu tornar os seus livros em objectos menos acessíveis. António Pinto Ribeiro reafirmou a sua crítica (ler o post aqui).

Poucos dias depois, o crítico de arte Alexandre Pomar escreveu sobre a popular artista contemporânea Joana Vasconcelos – que representa Portugal na Bienal de Veneza – e os ferozes ataques e críticas que tem recebido de muitas pessoas do sector. Falou da rejeição de qualquer obra de arte que tenha impacto público, êxito popular, um lugar no mercado internacional. Referiu-se ainda à subordinação a uma camarilha que se reserva o direito de definir o que é arte contemporânea de qualidade e que gere o “Great Divide” (erudito vs. de massas; de vanguarda vs. popular; culto vs. inculto; “high” vs. “low”). Na sua conclusão, Alexandre Pomar afirma: “Se existe uma relação traumática com a Joana e a sua obra é porque ela movimenta poderosas tensões (e pulsões)”. (ler o post aqui).

Dois dias mais tarde, a jornalista Paula Moura Pinheiro partilhou que achou muita graça ao facto da notícia mais popular no sector “Cultura” do Público ter sido a revelação de Michael Douglas que o seu cancro na garganta se deveu à prática de sexo oral… Daí, continuou e comentou sobre uma reinante confusão entre categorias, sobre o misturar o entretenimento (interessante para muitos) e as artes e o pensamento (interessante apenas para poucos). Escreveu que muito frequentemente tinha dificuldades em convencer os decisores de televisões e rádios que era mau serviço apresentar no mesmo programa a estreia do último filme do Zorro e o último livro de Herberto Hélder (aqui está ele outra vez). “Chateia os apreciadores do Zorro que, em muitos casos, se estarão nas tintas para a Poesia e afasta os amantes do Herberto.” (ler o post aqui).

Estava ainda a pensar nestes três posts e nas questões que levantavam, quando um amigo me enviou um texto do escritor José Luís Peixoto, intitulado Luta das classes. Nele partilhava a sua convicção que o seu trabalho só ganha sentido quando há um receptor do outro lado. Procura, por isso, assegurar que este tenha a mais ampla divulgação possível: deve-o a ele próprio e à convicção que tem naquilo que escolheu dizer; mas fá-lo também por respeito às pessoas que queiram ler o seu trabalho. O jornalista Vítor Belanciano comentou este texto e afirmou que, apesar de ter gostado e desgostado tanto de textos de José Luís Peixoto como de Herberto Hélder (aqui está ele outra vez), e apesar de respeitar o silêncio de Hélder, identifica-se mais com o Peixoto e os seus esforços em tornar o seu trabalho o mais disponível possível, sendo criticado por isso (uma visão que Vítor Belanciano considera elitista, acanhada e provinciana). Um ou outro comentário a este post  afirmava: “ Estás a comparar o incomparável” (o comentador não percebeu o ponto do Vítor…); “Como é que podes falar no mesmo parágrafo e nos mesmos termos sobre o José Luís Peixoto e o Herberto Hélder?” (Como é que se “atreveu”, realmente…?). (ler o post aqui).

Trabalho na área da comunicação cultural. O meu objectivo é partilhar informação, provocar interesse, ajudar as pessoas a tomarem decisões, criar acesso. Em última análise, o meu objectivo é contribuir para empurrar as fronteiras das pessoas mais longe, para as desafiar, para as confortar, para enriquecer as suas vidas e alimentar o seu pensamento. Mais que uma vez lidei com artistas que se recusavam ou não estavam interessados em partilhar informação que poderia ajudar a promover o seu projecto, desde uma simples sinopse ao dar uma entrevista (curiosamente, isto raramente acontece quando não têm um cachet assegurado no bolso e o seu pagamento depende da receita de bilheteira…). Esses artistas fazem-me frequentemente pensar: “Para quem fazem o que fazem? Para os seus amigos e familiares? E se assim for, é aceitável quando o fazem com dinheiro público?”.

No entanto, sou também eu própria consumidora. Uma consumidora que gosta tanto de “Bridget Jones” como da poesia de Cavafi; que sabe um pouco sobre música clássica e que se sente completamente inadequada quando na presença de pessoas que sabem tudo sobre a cena musical pop ou indie; que não gosta de videojogos, apesar de fazerem parte da colecção do MOMA; que saiu de exposições de arte contemporânea furiosa porque um curador “culto” pensou que ela seria tão “culta” quanto ele e que não iria precisar de qualquer explicação ou contextualização (ou que provavelmente pensou que se não fosse suficientemente “culta” não deveria lá estar de qualquer forma); que se sentiria ofendida e profundamente irritada se um dos seus escritores favoritos optasse pro fazer uma edição limitada do seu último trabalho por não gostar de se sentir “popular”.

Já vi qualidade e já vi coisas muito malfeitas em todo o tipo de expressões culturais e artísticas, “high” e low”, em todo o tipo de obras de arte “populares” e “não-tão-populares”. Admiro aquelas pessoas que não categorizam e que adoptam uma abordagem mais cosmopolita no seu consumo cultural e crítica de arte, que não estão contra o elitismo, mas que defendem o “elitismo para todos”. E sou grata àqueles (amigos, colegas, curadores, artistas, escritores, jornalistas) que me têm mostrado coisas novas, que têm partilhado e comunicado o seu trabalho, que me têm ajudado a perceber, que me têm permitido descobrir o “inseguro” quando eu ia pelo “seguro”, que têm empurrado as minhas fronteiras para a frente e que me têm dado o espaço e a confiança para falar do que gosto e do que não gosto sem medo e complexos.

Mais neste blog


Mais leituras
Vitor Belanciano, Herberto ou Peixoto (Público, 23.6.2013)
Emer O´Kelly, The case for elitism. The Arts Council, Ireland
John Holden, Culture and Class.


Monday, 10 June 2013

Como toma o seu El Greco?

Museu de Belas-Artes, Budapeste (Foto: Maria Vlachou)
Quando entro numa sala de museu que tem um El Greco pendurado na parede, tudo pára à minha volta. Não há barulho, não há movimento, apenas eu, ele e silêncio. Em alguns casos em que fui apanhada de surpresa, porque não sabia que tinham um El Greco na suas colecções, houve mais ainda: pareceu que de repente deixei de respirar, senti uma fraqueza nas pernas. Ele é um dos meus pintores favoritos. E é também um homem de Creta, que levou Bizâncio com ele para qualquer lugar onde fosse e que nunca assinou as suas obras numa língua que não fosse a dele.

Vi El Greco em várias ocasiões e em diferentes circunstâncias: exposições blockbuster nas Pinacotecas de Atenas e Londres, salas muito movimentadas no Louvre ou no Metropolitan ou em Toledo, um canto sossegado na Phillips Collection em Washington ou, mais recentemente, numa sala grande quase só para mim, no Museu de Belas-Artes de Budapeste. Qual foi a melhor experiência? Todas elas.

Várias vezes nos últimos tempos li e ouvi comentários de profissionais de museus e de visitantes que se queixam que os museus não são o que eram. Sentem que não podem ter o que chamam “uma verdadeira experiência” porque estão cheios de gente. Anseiam para poder estar sozinhos com a arte e são muito críticos deste museu novo onde toda a gente é bem-vinda, mesmo que não estejam lá pelas “razões certas”. Compreendo as pessoas que procuram um ambiente específico de calma e intimidade quando visitam. Mas preocupa-me quando parece que acham que os museus foram feitos só para eles (e assim deveriam ficar) e quando os profissionais apoiam estas opiniões.

Os museus têm que dar resposta a todo o tipo de pessoas e necessidades. Quando se procura diversificar a audiência, levanta-se sempre a questão de como o fazer sem afastar os públicos existentes. Não é fácil de qualquer forma e torna-se ainda mais difícil no caso de museus movimentados e populares. Há visitantes que sabem mais e visitantes que sabem menos; visitantes que procuram intimidade e visitantes preparados para fazer a fila durante horas e para visitar na companhia de centenas de outras pessoas. Necessidades diferentes, perspectivas diferentes, mas nenhuma mais legítima que as outras, diria eu.

Uma amiga enviou-me na semana passada o artigo de Brian Cohen How to visit a museum. Apesar de não concordar com as suas opiniões sobre o que os museus representam (ou deveriam representar) na vida cultural de quem os visita, vejo que é um visitante que sabe muito bem o que procura e gostei muito de ler os seus conselhos para as pessoas que desejam adaptar a visita às suas necessidades e interesses. Os museus talvez pudessem adoptar esta ideia e aconselhar os seus visitantes no que diz respeito a horários e dias mais calmos, percursos sugeridos ou alternativos etc. (alguns já o fazem). Deveriam estar abertos e ser corajosos, deveriam reconhecer que os seus visitantes têm agendas diferentes e tentar orientá-los nos seus propósitos. E acima de tudo, deveriam deixar claro que um visitante não é mais bem-vindo do que outro.

Voltando a mim, uma visitante como tantos outros, tomo o meu El Greco como estiver. Adoro os encontros íntimos, aqueles momentos preciosos em que o tenho só para mim e posso parar, olhar e sentir o tempo que quiser. Mas já mais que uma vez tive que o partilhar com muitas-muitas outras pessoas, tive que ficar na fila e esperar pacientemente até ser a minha vez de ficar em frente a um quadro, sentindo-me um pouco pressionada pela pessoa atrás de mim. Faz tudo parte do ritual. Sabia que ia ser assim e gostei daquele sentimento de comunidade, de prazer e alegria partilhados. Gosto de museus calmos e gosto de museus movimentados. Gosto de museus.


Ainda neste blog

Mais leituras
Are blockbuster exhibitions worth queueing for?Entrevistas com Miranda Sawyer e Charles Saumarez Smith no Observer (12.11.2011)
Blockbuster art: good or bad?. Entrevistas por Emine Saner no Guardian (25.1.2013)