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Monday, 2 September 2013

O ano novo


Estou de regresso de Washington, no avião de Paris para Lisboa. Estou no lugar do meio, por isso, peço ao homem que está no lugar de corredor para me deixar passar. Não olho bem para ele; um homem moreno, poderia ser português.

Começo a ler o meu livro. Pouco tempo depois, sinto que o homem ao meu lado está um pouco nervoso. Olho para as suas mãos: tem um boné, o seu telemóvel e algumas páginas enroladas com um texto em inglês. Tento olhar melhor para ele, discretamente. Não é português, é de origem árabe. Olho novamente para as suas mãos. O seu telemóvel está ligado e está constantemente a verificá-lo. O texto nas páginas enroladas é um texto científico, mas não consigo perceber de que área exactamente.

As assistentes de bordo passam e oferecem bebidas. Não aceita. “Ramadão”, penso para mim. Continua a olhar para o seu telemóvel e faz-me sentir nervosa também. Olho novamente para ele, está de olhos fechados e os seus lábios estão a mexer. Está a rezar? Estou ainda mais nervosa. Tento dizer a mim própria que tem ar de um homem perfeitamente normal, mas há uma outra voz interior que me diz “Não têm todos ar de um homem normal?”.

Pouso o meu livro na mesa, é de um autor Árabe (estarei a tentar mandar um recado?). Muitos pensamentos passam pela minha cabeça. Um deles é levantar-me e ir avisar o pessoal de cabine que tenho um Árabe nervoso sentado ao meu lado com o seu telemóvel ligado… Obrigo-me a mim própria a ficar onde estou, sentindo-me ridícula. E então ele diz:

-          O que está a ler?
-          É um autor marroquino.
-          É o que me pareceu.
-          É também marroquino?
-          Sim, sou.

Pede para dar uma vista de olhos. Pega no livro e lê a sinopse. Depois começamos a falar sobre política. Religião também. Pergunta-me sobre a Grécia, falamos muito sobre o Egipto e depois também sobre Marrocos. Está a caminho de Portugal para participar numa conferência sobre matemática aplicada. Estou a gostar muito da nossa conversa, tem uma voz calma e parece um homem meigo, mas não consigo deixar de me sentir nervosa. Sempre que haja um momento de silêncio, olha para o seu telemóvel. “Não têm todos ar de um homem normal?”, insiste a voz interior.

Assim que aterramos em Lisboa, ele diz-me: “Sabe que as probabilidades de um avião se despenhar são muito menores do que de dois comboios colidirem?”. Não está nervoso, não estou nervosa. Sinto-me aliviada. E sinto vergonha.

____________________

Há duas entradas para a exposição do Museum of Tolerance em Los Angeles, uma com a indicação “Preconceituoso”, a outra “Não preconceituoso”. Aqueles que tentam entrar pela segunda porta encontram-na fechada, não conseguem abri-la. O incidente no avião continuou a assombrar os meus pensamentos. Sentia-me realmente envergonhada. Se o homem ao meu lado não parecesse Árabe, teria reagido de outra forma ao seu nervosismo.

Organizações e pessoas que trabalham na área do racismo e da discriminação lembram-nos constantemente que não nascemos racistas, tornamo-nos racistas. E, depois de nos tornarmos, parece ser preciso lutar mesmo muito, conscientemente e com determinação, para evitar discriminar o Outro. Depois de conversar com algumas pessoas sobre o incidente no avião e de ouvir as suas opiniões sobre o que devia ter feito, apercebi-me que esta luta é mesmo difícil. Porque, para lutarmos, é necessário primeiro estarmos conscientes dos nossos actos discriminatórios, estarmos conscientes das nossas próprias atitudes. Muito frequentemente não estamos. Nunca pensamos em nós próprios como racistas e uma série de desculpas servem-nos perfeitamente para justificarmos os nossos pensamentos e acções: a necessidade de sentirmos segurança, a necessidade de protegermos as pessoas que amamos e as nossas comunidades, a necessidade de preservarmos a nossa cultura e tradições, a necessidade de defendermos o nosso território, a necessidade de garantirmos a nossa sobrevivência… Por isso, se necessário e ‘just in case’, o Outro poderá ter que pagar o preço. E “não há mal nisto, é compreensível, somos boas pessoas, preocupadas com os nossos”…

Esse ‘just in case’ tem servido de desculpa para muitas pessoas nas suas decisões do dia-a-dia, assim como para muitas e importantes decisões políticas. A América pós-9/11 vem-me inevitavelmente à cabeça. Mas mesmo aí – como me apercebi lendo o livro de Leila Ahmed A Quiet Revolution – The Veil´s Resurgence, from the Middle East to America -, no meio da destruição, da dor, do medo, da raiva, da violência, houve pessoas de todas as origens e religiões que foram capazes de olhar bem para elas próprias e de ser solidárias para com outras, determinadas em preservar as suas comunidades multiculturais, manter e proteger as suas relações com amigos e vizinhos, continuar a ser e a sentir-se humanas. A linha entre o civilizado e o bárbaro é tão ténue; requer um esforço tão grande para se ser o primeiro e não o segundo.

Setembro assinala um ‘ano novo’ para mim mais que Janeiro; vem do tempo da escola. É o momento em que olho para a frente e penso “E agora?” ou “A seguir?”. Neste preciso momento, tendo o ‘ano novo’ pela frente, a minha cabeça está cheia de perguntas. Penso novamente no meu tempo no Kennedy Center, onde Egípcios falam com Israelitas; Paquistaneses e Indianos trocam piadas sobre os seus países; um Sérvio, uma Croata e um Bósnio tiram fotos juntos; uma Grega e uma Turca partilham uma refeição. Será este um ambiente ‘seguro’, ‘civilizado’? Teria sido diferente se o contexto fosse diferente? Haverá espaços onde as pessoas são civilizadas e outros espaços onde essas mesmas pessoas se tornam bárbaros? Terá mesmo a cultura um papel em manter-nos civilizados ou os seus ‘efeitos’ são facilmente neutralizados por outras forças e factores? Poderá ajudar a criar um espaço comum, onde as pessoas possam coexistir e manter boas relações, não simplesmente tolerando uns os outros, mas ficando a conhecer-se melhor; dispostas a conversar, a entender, a aceitar? Não foi o livro de Fouad Laroui que ajudou a iniciar a conversa naquele avião, que ajudou a controlar o medo? As minhas resoluções para o ‘ano novo’ encontram-se algures entre todas estas questões.

Ler também:

Can Culture make it?

Monday, 8 July 2013

'Apenas' um museu, 'apenas' uma artista?

A artista Ahlam Shibli no Jeu de Paume (Foto LP/Philippe de Poulpiquet, retirada do jornal Le Parisien)
Já tinha escrito aqui sobre a minha experiência de há vinte anos quando visitei um museu de história na cidade de Halifax no Reino Unido. Tinha ficado absolutamente chocada quanto vi, numa das fotografias expostas, combatentes da resistência cipriota contra o poder britânico a serem identificados como “terroristas”. Ao mesmo tempo, penso que me apercebi naquela altura – tinha 23 anos – que havia pessoas que contavam aquela mesma história de uma forma completamente diferente. Os homens na fotografia poderiam ter matado os seus entes queridos, que tinham sido enviados pelo seu país para defender uma autoridade, na sua opinião, legítima.

Mesmo assim, independentemente do meu choque, não ameacei o museu com uma bomba, não iniciei uma petição para fechar a exposição. Que é exactamente o que tem acontecido em Paris nas últimas semanas como resposta a certas fotografias exibidas no âmbito da exposição Foyer Fantôme, no museu Jeu de Paume, pela artista palestiniana Ahlam Shibli. Porquê? Porque certas pessoas sentiram que a exposição de fotografias de bombistas suicidas palestinianos, e o facto de serem referidos como “mártires”, era uma forma de glorificar o terrorismo. Considero, obviamente, as reacções e ameaças dos grupos pró-Israelitas totalmente inaceitáveis. Mas devo também dizer que não me surpreendem. O assunto é sensível, controverso, e aqueles que afirmam estar surpreendidos pelas fortes reacções de certos grupos ou que nos avisam relativamente ao retorno da censura (ler o artigo de Emmanuel Alloa La censure est de retour) ou são ingénuos ou não são honestos com eles próprios e com os outros. Não há nada de novo ou de surpreendente nestas tentativas de censura, aconteceram no passado e voltarão a acontecer. Mas não é sobre isto que quero falar.

Elogio os museus que têm a coragem de tocar em assuntos difíceis e controversos. Os museus devem fazer exactamente isso: desafiar as nossas ‘histórias’, apresentar ‘o outro lado’, provocar debate, criar espaço para isso. No entanto, não tenho a certeza se o propósito do Jeu de Paume era esse.

Lê-se no website do museu relativamente à exposição: “Morte, a última série de Ahlam Shibli, especialmente concebida para esta retrospectiva, mostra como a sociedade palestiniana preserva a presença de ‘mártires’, de acordo com o termo usado pela artista. Esta série testemunha uma vasta representação dos ausentes através de fotos, cartazes, painéis e graffitis expostos como forma de resistência.” O museu parece ter perfeita consciência que o uso do termo ‘mártir’ pode ser controverso e atribui o mesmo à artista. Por outro lado, a artista, citada no artigo de Emmanuel Alloa, afirma que “O meu trabalho é apenas mostrar, não é nem denunciar nem julgar”. 

Na minha opinião, as exposições não mostram ‘apenas’. Nem os artistas. Exposições e artistas fazem afirmações. A Ministra Francesa da Cultura pareceu-me muito mais afirmativa no seu comunicado público e não pareceu querer fugir àquela que é a verdadeira questão: “Esta alegada neutralidade pode também ser chocante”, disse ela, “e causar más interpretações, uma vez que não explica o contexto das fotografias, que não é apenas aquele da perda, mas também o do terrorismo.” (ler o comunicado na íntegra aqui).

Death nr. 37, por Ahlam Shibli (imagem retirada do blog Lunettes Rouges)
O Ministério pediu ao museu para completar a informação disponibilizada aos visitantes para, por um lado, clarificar e explicar melhor o propósito da artista e, por outro, para fazer a distinção entre a proposta da artista e posição da instituição. A Ministra foi atacada de todos os lados, pró e contra a exposição. Pessoalmente, não vejo porque é que um museu deveria manter a distância das suas opções da forma como parece ter sido sugerido pelo Ministério Francês. O que deveria ficar mesmo claro é por que razão o museu escolhe apresentar a exposição A ou B ao público, como é que esta escolha vai ao encontro da sua missão e programação, o que pretende comunicar, que género de reflexão e discussão procura promover.

Não posso dizer que são claros para mim os propósitos do Jeu de Paume e as razões porque optou por apresentar uma artista que ‘quer apenas mostrar’. Procurei várias vezes no website do museu a existência de um programa paralelo que poderia complementar a exposição com comunicações e debates. Nada. Quando foi finalmente anunciado um debate, organizado pelo museu e pelo Observatoire de la Liberté de Création, “reagindo à controvérsia gerida pela exposição”, este iria abordar questões como a liberdade da representação artística, a responsabilidade das instituições que expõem obras que possam causar polémica, a liberdade do visitante de ter acesso às obras e a liberdade de expressão em todas as suas componentes (ler aqui).

Isto é tudo muito bom. Isto é exactamente o que deveria ter sido programado antecipadamente e não como reacção a uma polémica. E deveria ter ido mais longe do que a discussão geral da liberdade de criar, liberdade de expor, liberdade de visitar. Esta exposição levanta outras questões importantes e específicas.

Teria esperado que o Jeu de Paume não fingisse que não estava à espera de uma enorme polémica quando bombistas suicidas palestinianos são referidos como mártires. Teria esperado que a artista não quisesse “apenas mostrar”, como se fosse ‘apenas’ uma repórter, como se não tivesse tirado e exposto estas fotos com a intenção de fazer uma afirmação. Teria esperado que ambos, o museu e a artista, quisessem verdadeiramente provocar um debate, empurrar as fronteiras para a frente, criar espaço para discutir o que é história, identidade, conflito, justiça, resistência, um acto ou um estado terrorista. Esta é a questão palestiniana, aqui não há “apenas”.

Ainda neste blog

As histórias que contamos a nos próprios

Silenciosos e apolíticos?

A longa distância entre Califórnia e Jerusalém


Mais leituras

Marie-José Mondzain, Artiste palestinienne : liberté pour l'art au Jeu de Paume (Le Monde, 21.6.2013)


G.W. Goldnadel, France/Jeu de Paume: double honte (Israël Flash, 21.6.2013)
Marta Gili: Je refuserai toujours lacensure au Jeu de Paume. Entrevista da Directora do Jeu de Paume (Le Figaro, 24.6.2013)

Monday, 17 June 2013

Blogger convidado: "Sou daqui", por Zeina Soudi (Palestina)

Conheci a Zeina Soudi no mês passado, graças à Laurinda Alves. São as gestoras do Dialogue Café em Ramallah e Lisboa, respectivamente. Em duas horas conseguimos falar de imensas coisas, mas o que chamou em particular a minha atenção foi a busca da Zeina pela sua identidade. Nascida no Líbano de pais palestinianos, visitou pela primeira vez a Palestina com passaporte jordano. Foram precisos mais 10 anos para conseguir o seu bilhete de identidade palestiniano. A pergunta “De onde és?” foi sempre difícil de responder. Apesar do contexto palestiniano ter, naturalmente, as suas especificidades, várias partes na sua narrativa terão um significado especial para muitos de nós e irão levantar novamente questões sobre cultura, identidade, raízes, ‘nós’ e o ‘outro’. mv
No passaporte de Zeina Soudi.
“De onde és?” é uma pergunta com a qual fui muitas vezes confrontada quando era mais nova. Uma pergunta que durante anos me deixava confusa e que não podia responder sem primeiro pensar. A resposta era normalmente uma embrulhada. Sou o produto de uma “terceira cultura”. Nasci no Líbano e vivi em Malta e no Chipre até quase ao fim da adolescência, quando mudei para a Jordânia. Sou cidadã jordana de origem palestiniana. Mas até àquele momento, nunca tinha vivido na Jordânia ou estado na Palestina. A Palestina era apenas uma terra da fantasia sobre a qual falavam os meus pais e eu via na televisão. Sendo uma estrangeira nesses países, a pergunta “De onde és?” era uma pergunta que me apavorava, quando deveria ser uma das mais simples perguntas à qual uma pessoa devesse responder.
Na minha viagem para afirmar e reafirmar a minha identidade houve muitas reviravoltas, confusões e restrições. A começar pela pergunta “De onde és?”.
Fiz os dois últimos anos da escola em Amman, e apesar de ter adquirido um sentimento de pertença, algo faltava ainda. Havia uma pequena parte em mim que ainda precisava de encontrar para me sentir completa. Assim, quando acabei a escola, decidi ir à Palestina sozinha e inscrever-me na universidade. Esta decisão ia ser o início de uma viagem muito difícil. Foi em 1997.
Como sabem, a Palestina continua ocupada. Para ir até lá preciso de ter autorização de Israel, o que provou ser mais difícil do que tinha alguma vez imaginado. Quando finalmente consegui a autorização a primeira vez, cheguei a meio caminho e depois não me foi permitida a entrada na fronteira israelita. Quando questionei porquê, responderam “Por razões de segurança”.
“Razões de segurança”? Que género de ameaça poderia ser por ir para a universidade estudar Inglês e Literatura? Isto não lhes interessava. Puseram um carimbo “Entrada NEGADA” no meu passaporte e mandaram-me de volta para Amman. Essas duas palavras no meu passaporte mudaram a minha vida. Tinha apenas 18 anos naquela altura. Só muitos anos depois descobri porque é que era uma “ameaça”.
Cheguei tão perto, mesmo assim estava ainda longe. Lembrei-me de A Letter to His son do escritor palestiniano Ghassan Kanafani:
“Ouvi-te no outro quarto a perguntar à tua mãe ‘Mamã, sou palestiniano?’. Quando ela respondeu ‘Sim’, um pesado silêncio caiu em toda a casa. Era como se algo que estivesse suspenso sobre as nossas cabeças tivesse caído, o seu barulho a explodir, depois – silêncio. Depois… ouvi-te chorar. Não conseguia mexer-me. Havia algo maior do que a minha consciência a nascer no outro quarto através do teu choro perplexo. Era como se um bisturi abençoado estivesse a abrir o teu peito para colocar ai o coração que te pertencia… Era incapaz de me mexer para ir ver o que se passava no outro quarto. Sabia, no entanto, que uma pátria distante estava novamente a nascer: colinas, olivais, pessoas mortas, bandeiras rasgadas e dobradas, tudo isto a abrir caminho para um futuro de carne e sangue e a nascer no coração de uma outra criança… Acreditas que o homem cresce? Não, nasce de repente – uma palavra, um momento, penetra o seu coração dando um novo pulsar. Uma cena pode lançá-lo do tecto da infância para a dureza da rua.”
Mas não desisti facilmente. Tentei várias vezes até conseguir a autorização para ir à Palestina.
Maqueta do The Palestinian Museum que começou a ser construído este ano. O museu será dedicado à exploração  e compreensão da cultura, história e sociedade da Palestina e dos palestinianos. Podem ler uma entrevista com o director do museu aqui.
Estava a aprender lentamente quantos bilhetes de identidade diferentes nós palestinianos somos obrigados a ter. E essas diferentes identidades determina por que rua podemos passar ou a que cidade podemos ir. Por exemplo, não me era permitido ir a Jerusalém, de onde é a minha família. Nós palestinianos somos obrigados a estar separados e a ser categorizados de acordo com a nossa origem e cor do bilhete de identidade.
Quando começou a segunda Intifada, decidi ficar na Palestina e acabar o meu curso. Foi quando me tornei numa “estrangeira-ilegal” no meu próprio país e passei 8 anos numa prisão ao ar livre, sem possibilidade de viajar, por ter receio que a entrada no meu país me pudesse ser negada para sempre. Estava determinada em plantar as minhas raízes, tal como os meus pais, avós e bisavós tinham feito. Apesar de me sentir claustrofóbica às vezes, e prestes a desistir, no fim consegui o que queria. Tive direito a um bilhete de identidade palestiniano e tornei-me “legal”. Esta foi a minha maneira de resistir a esta injustiça. Esta foi a minha maneira de afirmar a minha identidade. Esta foi provavelmente a razão porque para os israelitas era uma ameaça.
E aqui estou ainda hoje, sentada na minha sala de estar com todos os meus amigos, todos com bilhetes de identidade de cor diferente, passaportes diferentes, aqueles que nasceram na Palestina e outros, como eu, que nasceram noutros países. Seguimos todos caminhos diferentes. Mas temos todos uma coisa em comum, somos todos persistentes. Recusamos todos esta injustiça. Recusamos todos ser categorizados. Acordamos todos dia após dia e dizemos ‘não’ à ocupação.

E no final do dia, quando alguém me pergunta “De onde és?” posso dizer facilmente “Sou daqui”.


Zeina Soudi é gestora do Dialogue Café em Ramallah. O Dialogue Cafe é uma rede aberta de videoconferências que junta pessoas com vários perfis, em todo o mundo, para trocarem ideias, conhecimentos e experiências, lidando com diferentes culturas, sociedades e tradições. No passado, trabalhou para ONGs na área dos direitos humanos e do desenvolvimento social, e também para projectos relacionados com a arte e cultura palestiniana. Começou a sua carreira como professora de inglês. 

Monday, 14 January 2013

Blogger convidado: "O museu político", por David Fleming (Reino Unido)


David Fleming é alguém que admiro e respeito muito e que tem influenciado profundamente o meu pensamento sobre o papel dos museus. Há uns anos, Josie Appleton criticou a afirmação de David que tinha entrado no mundo dos museus porque esta era a sua forma de tentar mudar o mundo dizendo: “Um objectivo admirável, com certeza, mas talvez Fleming devesse ter-se tornado um político ou assistente social e não um director de museu.” [in Watson, E. (ed), Museums and their Communities, p116]. Eu pessoalmente estou contente que David tenha entrado para os museus e que se tenha tornado um director de museu. E é com muito prazer que publicamos neste blog uma versão abreviada da sua comunicação O Museu Político, que foi feita na conferência do INTERCOM em Sydney, em Novembro passado. No fim deste texto existe um link onde o seu discurso pode ser lido na íntegra. mv

Imagem retirada do website de National Museums Liverpool.

1.   Introdução – o mito da neutralidade

É tradição dizer que os museus são, ou deveriam ser, apolíticos, e isto significa que os museus não se deveriam envolver nas relações de poder que caracterizam a sociedade. Não nos compete embrulharmo-nos no mundo das pessoas reais, dos eventos reais, da controvérsia e das opiniões. Aquilo que devíamos fazer é usar os nossos conhecimentos e a nossa perícia para criar e tomar conta das nossas colecções e para as apresentar de uma forma neutra para benefício público, flutuando numa nuvem de virtude académica, que paira muito acima das realidades mundanas da vida humana. Na verdade, continuar a fazer aquilo que muitos museus têm tentado fazer a maior parte do tempo, desde que foram criados.

Isto é, claro, o cúmulo da hipocrisia e é, verdadeiramente, uma afirmação de um vazio completo defender que os museus têm alguma vez sido ‘neutros’ relativamente a qualquer coisa que fosse. Todas as tarefas básicas que assumimos – investigar, coleccionar, apresentar, interpretar – estão sobrecarregadas de significado e preconceitos e sempre estiveram; estas tarefas são os métodos que o museu usa para servir ao público aquilo que as pessoas que dirigem o museu querem que o público veja. Os museus são construções sociais e a política é um pilar da actividade social – não se pode ter uma coisa sem a outra. Independentemente do tipo de museu, do que contém, têm sido sempre tomadas decisões por alguém sobre o que investigar, o que preservar, o que coleccionar, o que apresentar, como interpretar; e têm sido tomadas decisões sobre o que não fazer, o que não investigar, o que não preservar, o que não coleccionar, o que não apresentar, o que não interpretar.

Não tenho a certeza sobre a razão porque algumas pessoas que trabalham em museus, e outras, valorizam tanto a imagem de alguém numa busca desinteressada do conhecimento, como se, procedendo assim, evitássemos o risco de nos tornarmos políticos. A questão não é “é certo ou errado os museus serem políticos?” mas “todos os museus são políticos, porque é que alguns pretendem que não o são?”.


2. O museu político em acção

a) O modelo antigo

Depois da conquista da Grécia no século II antes de Cristo, os Romanos usaram a exposição triunfal de objectos para demonstrarem a superioridade de cultura romana sobre a grega. Esta técnica teve continuidade ao longo dos tempos, pela igreja cristã, por Carlos Magno, pela República de Veneza, por Napoleão, pelos Nazis, e por muitos outros – em todas estas instâncias, qualquer apreciação estética dos objectos expostos estava provavelmente subserviente à mensagem do poder político. Alguns dos grandes museus da Europa Ocidental são exemplos particularmente bons do modelo antigo do museu político, com as suas exposições de saque imperial e a sua presunção casual de superioridade europeia sobre outros povos. A natureza política deste género de museus tem sido revelada nas justificações para a existência de museus “universais”, um conceito que voltou a ganhar proeminência em 2003 com a Declaração sobre a Importância e o Valor dos Museus Universais  (Declaration on the Importance and Value of Universal Museums) pelos directores de um grupo auto-seleccionado de grandes museus europeus e norte-americanos. O modelo antigo do museu político é melhor caracterizado pela sua discrição. É político, mas finge não o ser – finge ser meramente ortodoxo e verdadeiro. É um museu que ia prosperar na Oceania de George Orwell.

b) O novo modelo

Imagem retirada do website de Tuol Sleng Genocide Museum.
Hoje em dia, o novo modelo de museu político manifesta-se e está a fazer campanha, em particular nas áreas dos direitos humanos e da identidade nacional: The National Museum of Australia (Canberra), The Museum of New Zealand Te Papa Tongawera (Wellington, New Zealand), District Six Museum (Cape Town, South Africa) , Tuol Sleng Genocide Museum (Phnom Penh, Cambodia), Museum of Genocide Victims (Vilnius, Lithuania), Museumof the Occupation of Latvi (Riga, Latvia), The Museum of the Romanian Peasant (Bucharest, Romania), The Vietnam War Remnants Museum (Ho Chi Minh City, Vietnam), DDR Museum (Berlin, Germany), entre outros. Há muitos mais museus deste tipo que procuram activamente emendar uma situação onde as políticas do poder deixaram algumas pessoas  na melhor das hipóteses desfavorecidas; na pior, oprimidas e vitimizadas.

Há duas semanas, recebi um email do director do Memorial Resistance Museum em Santo Domingo: “Acabo de criar uma nova petição e espero que possa assinar. Chama-se: Estamos a lutar pelo direito à verdade e à justiça pelas vítimas da ditadura de Trujillo.”

Fui ao website e encontrei o seguinte: “Pedimos ao Procurador-Geral da República Dominicana, Sr. Francisco Dominguez Brito, para fazer cumprir as leis e os tratados internacionais sobre os direitos humanos, defender os direitos dos jovens e das crianças da república Dominicana à verdade, defender o direito à justiça para mais de 50.000 vítimas da ditadura de Trujillo, para os sobreviventes e os familiares das vítimas. Exigimos o cumprimento da decisão dos tribunais dominicanos, que nos protegem das reivindicações do regime e da figura do ditador, e a criação de uma Comissão de Verdade.”

Este é o museu político a grande potência.

Em conclusão, existe uma separação entre os museus activos, em campanha, que vimos aqui e aqueles que fazem o seu trabalho político de forma mais discreta, mas esta separação é superficial. Diria que a maioria dos museus são políticos e é ingénuo ou desonesto fingir o contrário. Não deveríamos lamentar este facto, como se houvesse um estado melhor, neutro, ao qual poderíamos aspirar – está na natureza humana ser político, e ainda bem.


O texto completo da comunicação de David Fleming, em inglês, pode ser lido aqui. O Museum of Liverpool, um dos museus sob a direcção de David, recebeu no mês passado o Prémio do Conselho da Europa para 2013, um prémio atribuído pela Comissão de Cultura, Ciência, Educação e Media da Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa (PACE). PACE disse que “O Museum of Liverpool proporciona um reconhecimento exemplar dos direitos humanos na prática museal." (ler aqui)

Mais leituras
Lugares de encontro, por Maria Vlachou
Silenciosos e apolíticos?, por Maria Vlachou

Veja ainda:


David Fleming tornou-se director dos National Museum Liverpool em 2001. Dirigiu um processo de gestão de mudança radical que resultou num aumento no número de visitantes de 700.000 por ano a 3,5 milhões, aumentando ao mesmo tempo, de forma marcante, a sua diversidade. Tem sido consultor de vários governos, museus e autarquias, a nível nacional e internacional, sobre estratégia para museus nacionais, gestão de projectos, design de exposições e governança de museus. Tem muitas publicações sobre museus e tem dado inúmeras palestras sobre gestão de museus e liderança, inclusão social, museus de história de cidades e museus de direitos humanos, em mais de 30 países. É Presidente Fundador da Federation of International Human Rights Museums (FIHRM), Vice-Presidente do European Museum Forum e Presidente da Comissão de Finanças e Recursos do ICOM. Foi Presidente da Museums Association do Reino Unido e tem participado em várias comissões governamentais.

Monday, 21 May 2012

Blogger convidado: "Jos Repertory Theatre: Trabalhar e viver na Nigéria", por Patrick-Jude Oteh

Patrick-Jude Oteh foi meu colega no ano passado no Fellowship do Kennedy Center. Lembro-me de ter ficado sem palavras depois da sua apresentação sobre o trabalho desenvolvido pelo Jos Repertory Theatre, que ele fundou numa pequena e agora dividida cidade nigeriana chamada Jos. Como é que uma companhia de teatro pode cumprir a sua missão num sítio onde a segurança das pessoas é uma das primeiras prioridades? E qual o papel dessa companhia num ambiente definido pelo terrorismo, a corrupção, divisões étnicas e religiosas?  mv

When The Arrow Rebounds, de Emeka Nwabueze, adaptação para teatro do livro de Chinua Achebe Arrow of God, encenação de Patrick-Jude Oteh para a digressão nacional em 2011 e para o 2012 Jos Theatre Festival.  © The Jos Repertory Theatre Archive

Vivo e trabalho num estado com uma população de 3,5 milhões de pessoas, a maioria das quais trabalham por conta própria ou são funcionários públicos. Os habitantes de Jos, capital do Estado Plateau, são trabalhadores, cheios de energia e hospitaleiros. Na cidade, existe uma mistura saudável de pessoas provenientes de outras partes da Nigéria, que tem 36 estados, e da capital federal, Abuja. O Estado Plateau costumava ser o único estado na Nigéria onde se podia encontrar facilmente outras tribos e nacionalidades a co-existir em paz. Até 12 anos atrás.

Devido a um misto de política, economia, intolerância religiosa e étnica e altíssimo desemprego, os vários segmentos desta cidade outrora vibrante e bonita vivem hoje em enclaves segregados e divididos em toda a cidade. Existe uma desconfiança mútua, angústia e dor em relações que, apenas há uma década, estavam a ser construídas por cima de quaisquer divisórias.

A nossa companhia de teatro, o Jos Repertory Theatre, começou a funcionar nesta cidade há pouco mais de 10 anos. Na altura, estava na moda os espectáculos começarem às 7 da tarde e as pessoas sentiam-se seguras passeando à noite pela cidade. Já não é assim. É considerado arriscado iniciarmos um espectáculo às 5 da tarde. Hoje em dia, as maioria das pessoas quer estar em casa pelas 7. No último festival em 2012 os espectáculos acabavam às 6.30. Tivemos que cancelar as conversas pós-espectáculo, que proporcionavam às pessoas um canal para serem ouvidas, para poderem estar em casa a horas ou encontrarem o conforto e a segurança dos seus bairros. O comércio e as escolas seguiram o mesmo caminho. É triste ver escolas habitadas apenas por alunos da mesma crença ou da mesma etnia. Os mercados, que dantes eram espaços vibrantes de interacção social e relacionamentos, também não escaparam.

Ceremonies In Dark Old Men, de Lonne Elder III, encenação de Osasogie Efe Guobadia para o 2012 Jos Theatre Festival.  © The Jos Repertory Theatre Archive

A razão por estes desenvolvimentos desagradáveis nos assuntos da nossa nação, onde Jos é apenas uma pequeníssima fracção de um mau estar muito maior, é a luta pelo poder e pelo controlo dos recursos nacionais, uma vez que a pessoa ou o grupo de pessoas que tem o poder tem igualmente a responsabilidade pela partilha dos recursos nacionais. As pessoas lutam para governar não porque querem servir, mas porque querem ser elas a decidir quem recebe o quê e quando. Existe ainda muita corrupção, num país tão rico em termos de recursos, que tem posto fim a muitos dos nossos valores tradicionais.

Nos últimos dois anos, tem-se tornado bastante desafiante trabalhar em teatro. Organizámos dois festivais, mas em condições bastante difíceis e desafiantes. Em parte, o objectivo do nosso trabalho mais recente é usar o teatro para promover o diálogo e a interacção entre as várias partes destes conflitos sem fim.

Devido ao facto de estarmos a ser confrontados com vários problemas que parecem desafiar qualquer solução possível, a maior parte do tempo parece que o nosso trabalho é um consistente e constante falhanço. Ficamos com o sentimento que não estamos a fazer o suficiente. Mas, o que é que podemos fazer numa situação em que muitas pessoas não vêem a necessidade de investir em causas nobres, como o teatro? Há cinco anos, decidimos que, se não poderíamos trabalhar na nossa cidade, trabalharíamos na capital da nação, Abuja. Mas a nossa capital não tem sido poupada. Parece que estamos num caldeirão em permanente ebulição.

Como manter a esperança viva num ambiente como este?

Temos tido a sorte na nossa companhia de trabalhar com um grupo de jovens que querem simplesmente criar e não querem saber onde e com quem o estão a fazer. Querem simplesmente conhecer o ser humano. Não é sempre fácil manter toda a gente segura nos diferentes enclaves, mas ajuda saber que na geração deles estão dispostos a trabalhar um com o outro, criando amizades e proximidade que nenhuma política, religião ou diferenças étnicas possam apagar. Estes são os futuros líderes da nossa sociedade. São vibrantes e resilientes. Quando a esperança e a moral estão em baixo, são eles que nos fazem seguir para a frente, com as suas palavras e os seus actos.

The Man Who Never Died, de Barrie Stavis, encenação de Patrick-Jude Oteh para o 2012 Jos Theatre Festival.  © The Jos Repertory Theatre Archive

O crescimento do terrorismo no nosso país acrescentou mais uma dimensão às nossas aflições. Como tudo o que é nigeriano, sempre que assumimos algo, criamos um modelo melhor. É o que aconteceu com os nossos terroristas. Tornam-se cada vez mais sofisticados, e ao lado desta sofisticação tem surgido um novo sentido de ousadia. Estão prontos para enfrentar tudo e todos. O governo e a imprensa não são poupados. O aspecto mais infeliz desta situação é que neste momento não existe um lugar seguro no país, a não ser no sul, que não conheceu ataques terroristas.

Isto tem afectado, sem dúvida, todos os aspectos do nosso trabalho. Não podemos fazer nada neste momento sem considerar as questões de segurança. Quando estamos à procura de um espaço, numa zona onde quase não existem espaços para espectáculos, temos que procurar entre os lugares mais caros, o que significa que temos que cobrar aos nossos espectadores o suficiente para cobrarmos os nossos custos; no entanto, isto pode manter as pessoas afastadas do teatro. Têm mais preocupações do que o teatro! Uma outra dimensão triste, que está a criar rapidamente um grande desafio, é o facto das pessoas estarem a evitar espaços com muita gente. Portanto, termos público já não está garantido.

A nossa esperança é que o nosso país voltará a ser o que era e não esta aberração que dificilmente conseguimos reconhecer. A nossa esperança é que um dia o governo vai traduzir as palavras em acções, especialmente no que diz respeito à criação de emprego para um sector crucial na nossa economia. Até agora, o governo não foi capaz de fazer corresponder as palavras e a retórica a acções. O Presidente tinha prometido um fundo de $200 milhões para as artes, que estaria disponível para todos os sectores artísticos. Quase dois anos depois, não conhecemos ninguém que tenha tido acesso a esse fundo. A própria existência do fundo tem estado envolvida em polémica, e o governo diz agora que o dinheiro era para pagar infra-estruturas para o sector das artes. Não temos visto nenhuma estrutura ou sistema de apoio para as artes. Como organização, temos continuado a contar com o apoio de indivíduos e, às vezes, do sector empresarial.

Este é o país onde vivo e trabalho. Será este o país onde os meus filhos irão perceber o seu potencial? Duvido. Mas somos pessoas com esperança e fé.


Patrick-Jude Oteh é o fundador e director artístico do Jos Repertory Theatre, uma companhia independente e sem fins lucrativos na Nigéria. Estudou Artes Teatrais na Universidade de Ibadan, onde também tirou o seu mestrado e está neste momento e fazer o seu doutoramento. Durante algum tempo, ensinou Teatro Africano, Encenação e Interpretação / Elocução no Departamento de Teatro e Artes da Comunicação na Universidade de Jos. Tem estado envolvido em projectos relacionados com o teatro nos EUA, Reino Unido, Itália, Serra Leoa, Costa do Marfim, Quénia e África do Sul. Está presentemente envolvido na criação de um grupo de teatros itinerantes e também na criação de uma base de dados de companhias e actores da sub-região da África Ocidental. Foi Summer International Fellow no Kennedy Center for the Performing Arts em Washington DC. Está ainda envolvido na criação do primeiro Centro de Gestão das Artes em Abuja e é colaborador do jornal The Peoples Daily, onde escreve uma coluna sobre Gestão das Artes chamada From the Live Stage. 

Monday, 19 September 2011

A longa distância entre Califórnia e Jerusalém

Um dos desenhos da exposição cancelada pelo MOCHA.

MOCHA (Museum of Children´s Art) é um museu em Oakland, Califórnia. Aberto desde 1989, a sua missão é assegurar que as artes sejam uma parte fundamental na vida de todas as crianças através de experiências artísticas, formação artística para educadores e advocacia pelas artes. No dia 12 de Setembro, o portal Hyperallergic noticiou (ler aqui) que o museu, sob pressão de grupos judaicos, tinha decidido cancelar a exposição A Child´s View from Gaza, que reunia desenhos de crianças palestinianas criados durante sessões de arte-terapia (alguns deles podem ser vistos aqui). O presidente do Board of Directors, numa carta aberta publicada no site do MOCHA (ler aqui), esclarecia que o museu tomou esta decisão sensibilizado pelas preocupações expressas por pais e educadores que não queriam que as suas crianças fossem confrontadas durante a sua visita com trabalhos graficamente violentos e sensíveis. O que é que o museu esperava que crianças que viveram os bombardeamentos israelitas de 2008 e 2009 desenhassem? As cenas de violência terão sido uma surpresa? No Hyperallergic comentava-se que não seria a primeira vez que o museu iria exibir desenhos de crianças com cenas de violência. O facto também de a decisão ter sido tomada menos de duas semanas antes de inauguração da exposição, faz acreditar que a razão não foi uma descoberta repentina por parte dos responsáveis que deviam rever a política de exposições no que diz respeito à representação de violência, mas sim, outro género de pressões.

Eyad Baba, Gaza, Palestine, 2009 (fotografia da exposição HomeLessHome no Museum on the Seam)
O Museum on the Seam (Museu na Costura) é um museu em Jerusalém. Está localizado na rua que separa o sector judeu na parte oeste da cidade dos bairros árabes no sector leste. Fundado em 1999, define-se como um museu sócio-político de arte contemporânea que, à sua maneira, apresenta a arte como uma linguagem sem fronteiras a fim de levantar questões sociais controversas. No centro das suas exposições temporárias encontram-se as ‘costuras’ nacionais, étnicas e económicas, no seu contexto local e nacional. Na sua declaração de missão, o museu diz ainda que está empenhado em examinar a realidade social dentro do conflito que se vive na região, em promover o diálogo em face da discórdia e em estimular a responsabilidade social baseada no que se tem em comum e não no que separa. A exposição patente neste momento, West End, explora o conflito entre Islão e o mundo ocidental e é o resultado de anos de esforços intensos para convencer artistas do Médio Oriente a expor nas suas galerias. Dos 28 artistas muçulmanos envolvidos, 7 são originários do Médio Oriente, alguns de países que proíbem qualquer relação com Israel (ler notícia aqui). No passado, o museu tinha apresentado exposições como The Right to Protest, Bare Life ou HomeLessHome, entre outras. Quaisquer que sejam as pressões que este museu possa estar a sofrer (e não devem ser poucas), não parece estar a fazer-lhes face cancelando exposições.

Gosto de pensar nos museus como espaços de confronto de ideias; espaços que nos fazem sair da nossa zona de conforto; espaços que nos confrontam com realidades que desconhecemos; e, também, espaços que geram alguma controvérsia. Não me estou a referir à controvérsia ‘barata’; nem àquela gerada pela cobardia, o silêncio ou um suposto ‘apoliticismo’. Estou-me a referir à controvérsia gerada, com inteligência e honestidade, pela expressão de opinião, pela tomada de posição, pela vontade genuína do museu em constituir um espaço de encontro.

Ainda neste blog
Lugares de encontro

Monday, 13 September 2010

Made in Peru

O Sendero Luminoso, organização terrorista peruana, iniciou a sua actividade na década de 1980. Na altura eu era adolescente. Lembro-me de algumas notícias esporádicas nos telejornais, nada especial. Mais tarde, durante a presidência de Alberto Fujimori, o grupo voltou a ser notícia e eu já estava mais atenta. No entanto, acho que até agora não tinha verdadeira noção da extensão do conflito e dos seus resultados. Este verão, cruzei-me em várias ocasiões com a história do Sendero Luminoso e de Peru, um país que tenta hoje lidar com o seu sangrento passado recente. Artistas, escritores, académicos dão o seu contributo.

Começo pelo fim. No mês passado li sobre um jovem escritor peruano,
Santiago Roncagliolo. A sua família tinha-se refugiado no México por razões políticas, mas os pais decidiram voltar a Peru em 1979. Diz que a sua primeira memória do país são "os cães de Deng Xiaoping". No dia 25 de Dezembro de 1980 os habitantes da capital Lima acordaram e encontraram o centro da cidade ‘enfeitado’ com cadáveres de cães pendurados nos postos de electricidade. Traziam tabelas que diziam “Deng Siao Ping, hijo de perra” (um cão enforcado simboliza na China um tirano condenado à morte pelo povo). Foi assim que o Sendero Luminoso anunciou o início da guerrilha. Santiago Roncagliolo tinha 5 anos.
Santiago Roncagliolo
No seu livro
A quarta espada: a história de Abimael Guzmán e do Sendero Luminoso (ed:Objetiva, Brasil), Roncagliolo tenta desvendar a personalidade de Abimael Guzmán, o ‘Presidente Gonzalo’, líder do grupo. Sem nunca pegar numa arma, Guzmán conduziu as operações da guerrilha entre o seu grupo e o Estado de Peru, que resultou em quase 70.000 mortes. Na maioria civis. Na maioria camponeses. O Sendero Luminoso foi considerado responsável por mais de metade dessas mortes violentas e cruéis. As restantes foram atribuídas às forças da Estado, autorizadas por um governo democraticamente eleito a usar os mesmos métodos do grupo terrorista. Através de uma investigação que durou três anos, e que incluiu entrevistas com ex-companheiros e alguns familiares de Guzmán, Roncagliolo desenhou o perfil deste terrorista, produzindo um trabalho que alguns comparam ao jornalismo literário de Truman Capote. Li o livro num dia. E no dia seguinte tinha nas mãos Abril Vermelho (ed. Teorema), mais uma obra de Roncagliolo, um thriller policial que coloca o meticuloso Promotor de Justica Félix Chacaltana Saltivana em confronto com o Sendero Luminoso e com a democracia de fachada do estado peruano na época do Presidente Alberto Fujimori. Mas também com ele próprio. Mais um livro que foi impossível largar até o acabar.

Aproximadamente um mês antes de meu ‘encontro’ com Roncagliolo, estava a ler na revista do
Instituto Hemisférico de Performance e Política, e-misférica (Nº 6.2 – Cultura + Direitos + Instituições), o artigo de Gisela Cánepa-Koch “The Public Sphere and Cultural Rights: Culture as Action”. A autora, professora na Pontifícia Universidad Católica del Perú, começava o seu artigo com a polémica à volta da criação do Museu da Memória, uma recomendação da Comissão para a Verdade e Reconciliação peruana, que Alemanha - outro país que quis confrontar o desconforto do seu passado recente - se disponibilizou para financiar. O governo peruano recusou a oferta. Nas palavras do Ministro da Defesa, Antero Flores Aráoz, um país como Peru, onde faltam tantas escolas e hospitais e onde tanta gente passa fome, “no necesita museos”. O escritor peruano Mario Vargas Llosa respondeu com um artigo intitulado “El Perú no necesita museos”. Um texto frontal, equilibrado e comovente, onde se lê: “(…) Eles [os museus] também curam, não os corpos, mas as mentes, da escuridão que é a ignorância, o preconceito, a superstição e todos os defeitos que impedem a comunicação entre os seres humanos, que os tornam amargos e que os levam a matarem-se uns aos outros. Os museus substituem uma visão de vida e das coisas que é pequena, provinciana, mesquinha, unilateral, limitada com uma visão ampla, generosa e plural. Afinam a sensibilidade, estimulam a imaginação, refinam os sentimentos e despertam nas pessoas um espírito crítico e auto-crítico. (...) Os Peruanos precisamos de um Museu da Memória para combater essas atitudes intolerantes, cegas e obtusas que levaram à violência política. Para que o que aconteceu nos anos 80 e 90 não volte a acontecer.”

No seu artigo, Gisela Cánepa-Koch afirma que o debate em si à volta do Museu da Memória é importante e necessário para a construção de uma cultura de cidadania saudável e democrática. Na sua visão, o museu deveria ser um espaço inclusivo, para a expressão das sensibilidades, exigências e formas de acção cultural de vários actores. Ignorar a existência de múltiplas memórias leva-nos também a ignorar as diversas formas de recordar e as formas específicas que cada cultura tem de lidar com a dor. Diz ainda que a linguagem dos museus não é o único mecanismo que possa ser utilizado neste processo e que o próprio museu deveria promover outros meios que lidam com a memória e que possam promover o diálogo, como a literatura, o cinema, as artes visuais, a música, a etnografia. “A reconciliação não tem a ver com o perdão ou a culpa, mas com a possibilidade da vítima se tornar num actor no processo de reconstrução social.”
Uma cena do filme A Teta Assustada
Um dos filmes mencionados no artigo de Cánepa-Koch é A Teta Assustada, de
Claudia Llosa (sobrinha de Mario Vargas Llosa), que foi apresentado em Portugal em Junho passado (ver o trailer). O filme fala de uma doença chamada 'teta assustada', em que a mãe, violada pelos terroristas, transmite ao filho através do leite materno o seu medo e sofrimento. Fausta, a personagem principal, vive permanentemente assustada, desconfiada, e opta pela solidão. Quando a mãe morre, e não tendo dinheiro para tratar do funeral, é obrigada a sair da sua zona de conforto e é ali que finalmente aprende a desafiar o medo. O filme é marcado pela beleza da sonoridade da língua quechua, a língua falada pelos camponeses dos Andes, as principais vítimas da guerrilha peruana.

“Um país que se esquece da sua história está condenado a repeti-la”, lê-se no site da Comissão para a Verdade e Reconciliação. Os peruanos não optam pelo conforto do esquecimento. Os artistas e os intelectuais do país reclamam o seu lugar neste processo penoso. E para citar novamente Mario Vargas Llosa: “Progresso não é apenas muitos colégios, hospitais e auto-estradas. É também, e sobretudo, essa sabedoria que nos torna capazes de distinguirmos o feio do belo, o inteligente do estúpido, o bom do mau e o tolerável do intolerável, a que chamamos cultura”.

Monday, 14 June 2010

Arte, política e boicotes

Às notícias sobre o ataque israelita contra os navios que pretendiam levar ajuda humanitária à faixa de Gaza, no passado dia 31 de Maio, seguiram-se sucessivas notícias sobre o cancelamento de vários concertos que iriam ser realizados em Israel por artistas internacionais (ler artigo no New York Times aqui). O grupo americano The Pixies, cujo primeiro concerto em Israel era muito esperado, pediu desculpa aos fãs, mas “eventos que nos são alheios conspiraram contra nós”. Por outro lado, Elvis Costello, que inicialmente pareceu que não ia voltar atrás com a sua decisão de actuar em Israel, justificou, através de um comunicado no seu website, a sua mudança de opinião e o cancelamento do seu concerto como “uma questão de instinto e consciência”.

Ao mesmo tempo, os jornais franceses davam a notícia do cancelamento da projecção do filme de um realizador israelita, uma comédia romântica, na rede de salas de cinema Utopia, uma decisão que mereceu a intervenção do Ministro da Cultura francês e que mais tarde foi revogada (ver artigo no Le Monde aqui).

Através destas leituras, descobri a Palestinian Campaign for the Academic and Cultural Boycott of Israel, que nasceu em 2004 por um grupo de académicos e intelectuais palestinianos que apelam ao boicote considerando que a grande maioria dos intelectuais e académicos israelitas tem contribuído directamente para a ocupação israelita ou, no mínimo, tem-se mostrado cúmplice através do seu silêncio. Por outro lado, li o editorial do Le Monde no dia 9 de Junho, intitulado Ne boycottons pas les artistes israéliens, que caracterizava este género de boicote como uma resposta perigosa e inaceitável, que contribuiria para fragilizar vozes e olhares israelitas que são entre os mais intransigentes no que diz respeito ao governo do seu país.

Em situações como esta, muitas vezes ouvimos dizer que não se deve misturar a arte com a política. Eu diria que o que não se deve fazer é colocar a arte ao serviço de interesses políticos, não se deve instrumentalizá-la. Mas a arte não é criada no vácuo. E por isso, respeito profundamente os artistas que não se mostram alheios ao que se passa à sua volta, que tomam posição. Ao ler as declarações dos Pixies ou de Elvis Costello, senti que faltava algo na sua argumentação, que na verdade era mais instinto do que consciência. No entanto, o cancelamento dos seus concertos, entre vários outros, chama, sem dúvida, a atenção para uma situação trágica, injusta, revoltante. Suponho que os sentimentos do público israelita face a estes desenvolvimentos variem. Aliás, o artigo no New York Times fala de pessoas que vêem neles um claro sinal que o seu país se torne cada vez mais isolado, assim como fala de pessoas que se sentem incompreendidas pelo resto do mundo. De qualquer modo, estes artistas famosos levaram o seu público e não só, mesmo que de forma aparentemente pouco consciente, ao debate e à reflexão. Nesse mesmo artigo, o agente que promoveu a ida dos Pixies a Israel falou ao New York Times de “terrorismo cultural”. Enfim, muitos israelitas têm uma forma muito particular de definir a palavra ‘terrorismo’ (mas não são os únicos).

No entanto, a decisão de um artista estrangeiro de não actuar em Israel e o boicote aos artistas ou intelectuais israelitas não são os dois lados da mesma moeda. A jornalista grega Katerina Voussoura passou uma semana em Israel em finais de Maio e acompanhou a cena cultural contemporânea do país, dando-nos a conhecer vários artistas num artigo publicado no jornal Kathimerini e intitulado Israeli artists challenge identity issues
. Nesse artigo apresenta-nos o trabalho daqueles que vivem a trabalham no terreno, pouco promovidos pelos media, pouco conhecidos, por isso, e pouco ouvidos, e que questionam constantemente a identidade israelita, desenvolvendo os seus processos de paz, numa escala infinitamente mais pequena, mas não por isso menos significativa.

Assim, ficámos a conhecer o Acco Theater Center
, situado na cidade de Acco no norte de Israel. Considerando que o teatro tem um papel fundamental em estimular uma catarse individual e colectiva, há mais de 20 anos que este grupo promove encontros entre artistas judeus e árabes, dá voz às histórias dos residentes locais, desafia a apatia, o medo e o isolamento e convida a comunidade local a abrir os seus corações e as suas mentes e a considerar alternativas. A co-fundadora e directora artística do grupo, Smadar Yaaron, apresentou recentemente a sua última criação, Wishuponastar, onde, através do casamento com a Estrela de David, apresenta e a seguir desconstrói uma série de estereótipos da identidade contemporânea israelo-judáica.



Outros casos apresentados no artigo do jornal grego são o do Arab-Hebrew Theater of Jaffa
, situado na cidade omónima, constituído por dois grupos que produzem peças em conjunto ou separadamente, com artistas Judeus e Árabes, em ambas as línguas; e ainda o Ruth Kanner Theater Group, em Tel Aviv, que através de textos hebráicos – trabalhos literários, produtos de investigação das tradições locais e material documentário -, procura re-examinar as narrativas oficiais e questionar a relatividade da verdade e a sua dependência do olhar do observador.



Idan Raichel é outro artista citado no artigo. O seu projecto musical Idan Raichel Project foi apresentado em 2002 e promove artistas de várias zonas produzindo canções em várias línguas. Este projecto levou pela primeira vez a música das minorias às rádios israelitas. “É importante que as pessoas conheçam as culturas da Síria e do Líbano, que saibam que do outro lado da fronteira existe um vizinho, não um inimigo”, diz Idan Raichel.

Nenhum destes artistas, e outros até mais conhecidos (por exemplo, o projecto East-western Divan Orchestra), tem ilusões quanto ao impacto do seu trabalho. Nem o teatro, nem a música, nem a literatura, nem o cinema, irão trazer a paz no Médio Oriente. De qualquer forma, não é com este objectivo que trabalham. Mas trabalham, existem, pensam, questionam, desafiam, tomam posição. Numa luta constante contra a ignorância. Boicotá-los, devido à sua nacionalidade, seria discriminá-los, eles que trabalham contra a discriminação. Seria censurá-los, eles que trabalham pela liberdade da expressão. Seria fragilizá-los, como se dizia no editorial do Le Monde, eles que são muitas vezes vistos como ‘traidores’.

Duas sugestões de leitura:
- O perfume da nossa terra: vozes da Palestina e de Israel, de Kenize Mourad (ed. ASA). Um trabalho jornalístico que dá voz às pessoas que se encontram nos dois lados do conflito.
- The attack, de Yasmina Khadra. Um romance sobre um médico israelita-árabe que descobre que a sua mulher, que tinha sido morta num ataque, tinha sido ela própria a bombista suicida.