O meu artigo no mais recente Boletim do ICOM Portugal (Série III, Junho 2018, Nº12, pág.25), editado por Ana Carvalho. Ler aqui
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Sunday, 8 July 2018
Profissionais de museus: novas competências
O meu artigo no mais recente Boletim do ICOM Portugal (Série III, Junho 2018, Nº12, pág.25), editado por Ana Carvalho. Ler aqui
Saturday, 4 February 2017
À procura de terreno arenoso
“Menores de 30 têm acesso
gratuito aos museus”, lê-se nos jornais portugueses. A medida foi ontem votada
no parlamento.
“Alguém me explica qual é a lógica dos 30 anos?”, questiona
uma colega brasileira.
“Será para estimular jovens famílias, tipo casais com filhos pequenos?”,
responde outra colega. “Será porque se constatou que o desemprego é maior até
aos 30 anos?”
Valerá a pena procurarmos a lógica? Terá havido lógica? Será que a medida
se baseou em qualquer relatório de gestão? Será que se baseou em algum estudo
de públicos? Os profissionais do sector foram consultados? Existem objectivos
concretos que daqui a um ou dois anos poderão ser avaliados?
Sunday, 24 July 2016
Gerir museus
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| Imagem retirada do Facebook do Museu Nacional de Arte Antiga |
A reclamação de um novo estatuto jurídico, de um estatuto especial, por parte do Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA) tem resultado num debate muito saudável no meio dos museus, sobretudo (e infelizmente) depois do anúncio do Ministro da Cultura que este estatuto irá mesmo ser atribuído. Independentemente das críticas, positivas ou negativas, que temos a fazer sobre este caso e sobre este processo, não há dúvida que devemos este debate, muito necessário, ao MNAA, ao seu director, António Filipe Pimentel, e a toda a equipa do museu*.
Saturday, 7 May 2016
E então?
"E então?" Uma pergunta / reacção bastante
frequente no que diz respeito ao nosso sector, quer verbalmente expressa ou
secretamente pensada. É uma pergunta legítima, que raramente estamos disponíveis
para discutir.
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| Rembrandt Harmenszoon van Rijn, "Retrato de Marten Soolmans" e "Retrato de Oopjen Coppit" (imagem retirada do jornal Telerama) |
Quando li pela primeira vez a notícia sobre a aquisição conjunta por parte do Louvre e do Rijksmuseum das obras de
Rembrandt Retrato de Marten Soolmans e
Retrato de Oopjen Coppit, por €160
milhões, não pensei propriamente "E então?", mas sim "Porquê?".
Porquê estes dois quadros? Porquê todo esse dinheiro? Quando procurei entender
um pouco melhor a importância dessas duas obras (qualquer que fosse a sua
importância, dentro do contexto da história da arte ou qualquer outra), fui
mais frequentemente confrontada com o adjectivo "raro". Os retratos
são "raros", a sua exposição em público foi extremamente "rara”,
etc. etc. Isto levantou ainda mais perguntas: Raros como? Porque é que devem
ser vistos com mais frequência? Porque é que esses dois museus públicos fizeram
um esforço tão grande (financeiro e colaborativo) para os adquirir?
Sunday, 24 May 2015
Post scriptum
Na semana de 11 de Maio, a minha caixa de email encheu-se de
convites para a celebração da Noite e do Dia dos Museus. No Facebook, a
intensidade não foi menor, com os museus e as suas tutelas a lembrar que todos
os caminhos iam levar a um museu. Um ambiente de grande festa, uma oferta
enorme em todo o país, que foi também traduzida em números: de acordo com os
meios de comunicação, houve 140 actividades por ocasião da Noite Europeia dos
Museus (16 de Maio) e 430 actividades no Dia Internacional dos Museus (18 de
Maio), em 70 museus diferentes. A verdade é que poucas das actividades
propostas responderam ao desafio do ICOM para reflectir sobre "Museus para
uma sociedade sustentável" (e fiquei a pensar qual será, realmente, a
percepção que os museus têm deste desafio anual e se este tem qualquer impacto
nas suas práticas - no Dia dos Museus e no resto do ano). Dito isto, a riqueza
e a intensidade da programação apresentada, bem como o ambiente de festa,
poderiam fazer pensar que o sector dos museus em Portugal mostra sinais claros
de prosperidade. Assim, a notícia a 18 de Maio que alguns funcionários de
museus estavam em greve, contestando a redução do pagamento de horas
extraordinárias, bem como o facto de terem sido obrigados a trabalhar numa
segunda-feira (o dia destinado ao descanso semanal), foi uma espécie de nota
marginal (ver reportagem da TV)
Monday, 2 March 2015
O que é que temos a ver com isso?
Nos últimos 2-3 anos, tem sido um prazer ver a forma como os
museus têm assinalado o Dia de São Valentim nas suas páginas no Facebook. Desde
objectos nas suas colecções, a elementos arquitectónicos e flores nos seus
jardins, eles já me fizeram sorrir, rir às gargalhadas, olhar melhor, aprender algo novo. De
uma forma simples, imaginativa, bem-humorada, e à distância, algumas
instituições culturais têm marcado no meu calendário um dia que eu, de resto,
acho algo desinteressante.
Nem todas as instituições culturais assinalam esse dia.
Algumas podem estar a pensar que isso não é uma coisa séria, que é algo
frívola, comercial, não se relaciona directamente com a sua exposição ou peça
de teatro ou programa de concerto. Relaciona-se com uma outra coisa, porém: a vida.
Quando o furacão Sandy atingiu Nova Iorque em 2012, o
director do MoMA PS1 publicou isto na página de Facebook do museu:
Como é que isso se relaciona com o seu museu? Com a
exposição temporária? Não se relaciona. Relaciona-se com uma outra coisa, porém: a vida.
Em 2014, o ano do Mundial no Brasil, algumas instituições
culturais apresentaram exposições, organizaram eventos, fizeram várias
referências ao futebol. Algumas podem ter tido a esperança de atrair seguidores
entre os fãs de futebol. Outras podem simplesmente ter pensado: isto também é a
vida, vamos celebrá-la!
O ataque ao Charlie Hebdo fez-me mais uma vez pensar no
papel que as instituições culturais têm na sociedade e na capacidade que têm de
se relacionar com ela. E também para colocar a sua teoria em prática. A teoria
diz que a cultura ajuda-nos a sermos humanos, tolerantes para com o
"Outro", a vivermos juntos, a aprendermos uns com os outros, a
partilharmos e a defendermos valores, a pensar de forma crítica. Quando o
sector cultural está sob "ataque", usamos estes mesmos argumentos para o defender
e para defender a importância do que fazemos. Para a sociedade. Mas quando essa
mesma sociedade ri, chora, apaixona-se, desespera, comemora, está de luto...
levamos algum tempo (muito tempo, mesmo) para considerar se é apropriado para
nós reconhecê-lo, relacionarmo-nos. Não poucas vezes, permanecemos calados.
Assim, na manhã seguinte ao ataque ao Charlie Hebdo,
expressei a minha consternação com o facto de nenhuma instituição cultural
grega ou portuguesa (entre aquelas que sigo no Facebook e no Twitter) ter reagido à tragédia. Uma tragédia relacionada
directamente com tudo o que a cultura defende. Segundos depois de eu ter
publicado o meu post, o Centro Cultural Onassis publicava o deles. Mais tarde,
o Museu Benaki. Alívio... Depois disso, alguns colegas avisaram-me de atitudes
semelhantes da parte do Museu Nacional da Imprensa ou do Museu Bordalo
Pinheiro. Seguiram-se mais algumas instituições culturais. No dia 9 de Janeiro,
o Museu Arqueológico do Carmo convidava-nos para um debate com cartoonistas e
académicos. Alívio... Ainda assim, não tenho conhecimento de alguma das grandes
instituições culturais (nacionais) portuguesas ter reagido aos acontecimentos.
Um amigo escreveu-me naquela altura e perguntou: "Mas
quais as instituições culturais que tu queres que reajam? Todas elas? As que,
de alguma forma, se relacionam com o que aconteceu? (que seria, por exemplo, o
Museo de la Memoria e de los Derechos Humanos no Chile ou o Museu Nacional da
Imprensa em Portugal, é isso?). As instituições culturais francesas?". Não quero parecer ingénua, mas teria gostado de ver reagir
todas as instituições culturais que dizem querer ter um papel na criação de uma
sociedade melhor; que dizem pretender abraçar e promover determinados valores;
que dizem querer ser relevantes para as pessoas; que dizem querer ser parte da
sociedade e ajudar a formar cidadãos responsáveis e críticos.
Gostaria de esclarecer aqui que por "reacção" não quero
dizer uma resposta precipitada a um incidente ou uma associação superficial a
uma celebração, sem ter em conta o que a instituição representa e com a
intenção de usá-la para relações públicas baratas ou simplesmente para não "ficar de fora". As pessoas sabem distinguir o oportunismo e não o apreciam...
Por "reacção" quero dizer uma resposta pensada, responsável, honesta
e coerente de uma instituição cultural que tem clara a sua missão e o papel que
pretende desempenhar na vida das pessoas. E isso não envolve apenas de programação
ou actividades educativas. É preciso estar permanentemente ciente do que está a acontecer à nossa volta e da forma como afecta a
vida das pessoas, para que, como resultado de uma política definida e coerente de intervenção, a instituição possa dar prontamente o seu contributo para o
tipo de mundo que pretende ajudar a construir.
O que é relevante e o que não é relevante para uma
instituição cultural? Bem, provavelmente não é esta a questão. A questão é: o
que torna uma instituição cultural relevante? Recentemente, dei um curso onde
discutimos o lugar e o papel das instituições culturais na sociedade
contemporânea. Na última parte da sessão, fizemos um exercício prático:
Por favor, considere:
- O ataque Charlie Hebdo
- O dia de São Valentim
- O desastre natural na Madeira em 2010
- A grande manifestação anti-austeridade a 15 de Setembro de
2013 em Portugal
A sua instituição reagiria?
Se sim, como?
Se não, por que não?
Anyone?
Mais leituras
Rebecca
Herz, What is an ethical museum?
Gretchen Jennings, We can’t outsource empathy, Part II: Qualities of the empathetic museum
Ed Rodley, Museums and social change
Monday, 3 November 2014
Será a Giselle uma curadora?
| Giselle Ciulla, Clark Art Institute (imagem retirada do website) |
Serão
todas as pessoas que se sentem fascinadas com a medicina, que seguem as
notícias, que ficam maravilhadas com os avanços registados e que os
compartilham com outras pessoas, "médicos"?
Será uma pessoa deslumbrada com as estrelas, que lê sobre
elas, que tem um telescópio e que faz observações, um "astrónomo"?
Serão todas as pessoas que gostam de arte, que já têm algumas
peças favoritas e que desejam partilhar e discutir os sentimentos e as ideias
que estas obras lhes suscitam, "curadores"?
O que distingue um amador de um profissional e uma pessoa
interessada de um amador? Esta não é propriamente uma questão original, mas o
contexto em que os museus operam hoje em dia coloca-a novamente em cima da
mesa.
Quando li pela primeira vez sobre o projecto uCurate do Clark
Art Institut em Williamstown, EUA, fiquei muito entusiasmada com a ideia.
Escrevi na altura que este é também o
papel dos museus na sociedade, um papel que permite o envolvimento, a
participação activa, que reconhece que há mais do que uma versão da
"verdade" e que cria um lugar para estas serem partilhadas. Houve uma coisa, porém, que me fez sentir mais crítica: o facto da Giselle Ciulla,
uma menina de 11 anos cuja proposta ganhou o concurso de 2012, ser mencionada no site do Instituto como "curadora".
Será a Giselle uma curadora? Será que o facto de ela ser uma
jovem com interesses, ideias, necessidades, opiniões, que escolheu uma série de
obras do acervo do Instituto e fez delas uma exposição, a torna curadora? Ou
será que um curador é uma pessoa que – para além de ideias, necessidades e
sentimentos – tem o conhecimento técnico que pode ajudar a fazer das ideias e
das necessidades exposições interessantes, inspiradoras e relevantes, espaços
abertos para serem discutidas mais que uma verdades, com a ajuda hoje em dia de
pessoas que desejam ser envolvidas? A Wikipedia é um projecto colaborativo
impressionante, para o qual as pessoas podem contribuir e onde podem partilhar os seus
conhecimentos. Por trás das entradas, no entanto, há "curadores", que
garantem que a informação partilhada é precisa, caso contrário, o projecto
perderia a sua credibilidade. Que analogias poderíamos encontrar aqui com o
mundo dos museus e os seus projectos de “crowdsourcing”?
Num artigo
intitulado What is photography when everyone´s a photographer?, Joan Fontcberta é citado a dizer "Tirar uma
fotografia hoje é fácil e pouca atenção é dada ao ofício. Isto significa que a
qualidade da arte já não reside na fabricação, mas sim, na prescrição de
significado". Quem é responsável por prescrever um "sentido" nos
museus e por ajudar a cumprir as intenções? Ed Rodley afirma no seu post ’Outsourcing’ the curatorial impulse: “Se tivesse
que caracterizar a essência da curadoria hoje em dia, seria ‘criação de
sentido’”.
Longe de defender a figura do "omnisciente e
todo-poderoso curador" e sendo muito a favor de todas as iniciativas que
procuram envolver as pessoas interessadas no trabalho de museu (para que o que
neles se apresenta possa ser o resultado de uma ampla participação e dos
contributos de várias pessoas, e assim, mais relevante), não chegaria ao ponto
de não distinguir ou de confundir os papéis dos envolvidos.
Num artigo recente intitulado Everybody's an art curator, Elen Gamerman aponta algumas das principais questões na debate
actual: "A tendência está a provocar um crescente debate entre artistas,
curadores e outros profissionais do mundo da arte sobre tudo, desde onde traçar
a linha entre amadores e especialistas até o que constitui uma exposição
“crowdsourced”. Até onde podem ir museus em delegar opções ao público? Quão
firmemente devem controlar a votação sobre o conteúdo de uma exposição? E em
que momento é que um museu começa a parecer mais um centro comunitário?".
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| Actividades com a comunidade no Santa Cruz Museum of Art and History (imagem retirada do blog de Nina Simon, Museum 2.0) |
Boa pergunta ... Uma pessoa que frequenta o curso que estou
actualmente a dar sobre Comunicação em Museus, depois de ver a TED Talk de Nina
Simon Opening up the museum, perguntou: "O
museu [Santa Cruz Art and History
Museum, onde Nina Simon é a directora] integra os trabalhos feitos pelas pessoas que frequentam as suas oficinas
nas suas colecções?". E eu gostaria de acrescentar: "Se sim, ficam
com todos eles, com alguns, quais são os critérios?". Sou uma grande
admiradora de Nina Simon e da sua visão sobre museus participativos, mas não
devemos limitar a nossa avaliação do que ela está a tentar fazer a ganhos
financeiros e número de visitantes. Há muito mais que isso e a Nina está a
fazer aquilo que muitos outros directores de museu deveriam fazer: arrisca,
experimenta, avalia.
O contexto em que os museus funcionam hoje é específico, mas
toda esta situação não é propriamente nova. Acontece sempre que haja uma
mudança significativa no ambiente externo (social, político, tecnológico). Há
uma necessidade de repensar as coisas, planear de forma diferente, adaptar.
Penso que o ambiente actual exige museus que sejam tanto sobre o presente como
sobre o passado. Exige curadores que estejam preparados para trabalhar não
apenas para os seus pares, mas também para as pessoas "normais" que
desejam desfrutar o museu e que o vêem como parte das suas vidas e comunidades.
Sim, isso significa prestarmos atenção e sermos sensíveis às mudanças que estão
a acontecer. Sim, isso significa partilhar a autoridade e criar um espaço para diferentes
visões do mundo. Sim, isso significa experimentar e correr riscos. Sim, isso
significa desenvolver novos programas e capacidades. Não, isso não significa
que os museus devem tornar-se em algo diferente, algo que não são (de centros
comunitários a centros de saúde, serviços correctivos de jovens, etc.). Não,
isso não significa que todos somos curadores. Não, isso não significa que
possamos confundir projectos de “crowdsourcing” com projectos "dá-às-pessoas-o-que-elas-pedem".
Então, como fazer
isso? Penso que os museus e os profissionais que neles trabalham devem
centrar-se na sua posição competitiva. Devem concentrar-se no que os torna
especiais, diferentes de outras instituições. Devem capitalizar os seus pontos
fortes e desenvolver as capacidades necessárias para enfrentar e trabalhar com
novas realidades. O objectivo final é permanecer vivo e relevante. E para isso
é preciso também alguma atitude.
Ainda neste blog
Mais leituras
Elen Gamerman, Everybody´s an art curator
Ed Rodley, ’Outsourcing’ the curatorial impulseNina Simon, Where´s the community in the crowd
Maria Isabel Roque, Ser ou não ser museu. Eis a questão
Mike Murawski, The moon belongs to everyone: embracing a digital mindset in museums
Athina Lugez, What is photography when everyone’s a photographer?
Jasper Visser, The future of museums is about attitude (not technology) - (vídeo)
Nina Simon, Opening up the museum (vídeo)
Ed Rodley, ’Outsourcing’ the curatorial impulseNina Simon, Where´s the community in the crowd
Maria Isabel Roque, Ser ou não ser museu. Eis a questão
Mike Murawski, The moon belongs to everyone: embracing a digital mindset in museums
Athina Lugez, What is photography when everyone’s a photographer?
Jasper Visser, The future of museums is about attitude (not technology) - (vídeo)
Nina Simon, Opening up the museum (vídeo)
Monday, 13 January 2014
Blogger convidado: "Visão artística e mecenato", por Filiz Ova-Karaoglu (Turquia)
Quando conheci a Filiz
e ouvi-a apresentar o seu trabalho, lembro-me que sorri. Apesar de tranquila e
algo reservada, estava a explodir com ideias e parecia que não sabia como lidar
com todas elas, o que fazer com elas. Neste post escreve sobre o seu trabalho
na Sala de Concertos Is Sanat, financiada pelo banco homónimo. Os equilíbrios
não são fáceis de manter, especialmente nos dias de hoje, mas a Filiz está a
criar um caminho, constantemente a aprender, a experimentar, clara sobre os
seus objectivos. mv
| Buika Symphonic, 24 Maio 2013 (Foto: Ilgın Yanmaz) |
As dificuldades
financeiras nas instituições culturais são um assunto permanente na nossa área.
Especialmente em países onde o apoio à cultura é algo que ainda e sobretudo diz
respeito a entidades privadas, com muito pouco apoio da parte do governo. Até
os pioneiros que têm mais sucesso neste sector não são sempre economicamente
eloquentes. Temos a tendência de esquecer que estamos a gerir um negócio e que,
apesar de não termos fins lucrativos, temos que manter as nossas instituições
activas. Muito recentemente, vimos umas das mais destacadas instituições
culturais turcas prestes a perder o seu edifício devido a um grande buraco
financeiro. Salva pelos seus fundadores – uma grande empresa – no último
momento antes de perder o seu lindo edifício, coloca a questão do envolvimento
de instituições financeiras na cultura e na arte: deveriam manter-se apenas
como mecenas ou interferir directamente no trabalho?
O crescente
envolvimento das empresas nas instituições culturais não parece tão rebuscado.
Não agem como um patrocinador, mantidas à distância e convidadas apenas para as
festas, mas são uma parte essencial do nosso plano estratégico e da tomada de
decisões. Num ambiente onde a indústria cultural está a florescer, com grandes
investimentos em várias formas artísticas, desde as galerias de arte moderna
aos museus, desde espaços para concertos e artes performativas às arenas, a
questão é se os profissionais de cultura tem um know how suficiente
sobre questões económicas, sociológicas e de marketing. E precisam de ter?
Sim, realmente. Vejo
um modelo onde o envolvimento directo nas estratégias financeiras e de
marketing é um ponto vital e uma grande vantagem. Ter o patrocínio de uma
grande empresa e, ao mesmo tempo, ser parte da sua estrutura interna,
proporciona uma estrutura estável e sustentável de estratégias de marketing e
comunicação e permite a adaptação a um ambiente em constante mudança,
sociologicamente, estrategicamente e economicamente. Apesar disto trazer alguma
dependência de certas doutrinas adoptadas pela empresa e de certas
expectativas, penso que podemos criar um compromisso, desde que o nosso
trabalho artístico possa continuar a fluir livremente. Essas doutrinas não têm
necessariamente que ser restritivas. Existem excelentes exemplos, como a Bienal
Internacional de Istambul, que foi realizada com sucesso e que é, sem dúvida,
um dos projectos mais corajosos e inovadores na sua área a nível internacional,
especialmente a sua última edição, que enfrentou um realidade sócio-política
bastante difícil na Turquia.
Mesmo assim, iria distinguir uma
relação meramente de patrocínio de uma relação de interacção com uma empresa.
Consideraria a questão do patrocínio um apoio externo no âmbito de uma visão
artística existente, enquanto na relação de interacção é desenvolvida uma visão
artística coerente. Esta não deveria estar baseada de forma alguma em
preocupações ligadas ao sucesso comercial, embora tenhamos que olhar para a
nossa viabilidade. Uma iniciativa nova, sem garantias de sucesso, precisa de
paciência, mas, sobretudo, de uma visão baseada numa missão sólida. Apesar de
não podermos registar grandes números, existem, felizmente, alguns exemplos em
várias áreas, como galerias de arte, museus e espaços para as artes performativas.
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L.A. Dance
Project, 10 Maio 2013 (Foto: Ilgın Yanmaz)
|
A adopção de uma visão a longo
prazo baseada em princípios de sustentabilidade resulta numa instituição
estável, enraizada num terreno comercial e artístico sólido. Se isto poderia
associar-se à criatividade e à liberdade artística, estaríamos num mundo
perfeito de utopia artística. Mas mesmo assim, existem modelos de trabalho. Is
Sanat foi fundado em 2000 como uma espaço para concertos que acolheria várias
formas artísticas. A partir dessa altura, recebeu uma grande variedade de
espectáculos, desde a música clássica ao jazz, músicas do mundo, actividades
para crianças, recitais de poesia, música tradicional turca, concertos de pop e
acoustic rock, uma série com jovens artistas emergentes, e muito mais. O espaço
inclui ainda uma galeria de arte que recebe quatro retrospectivas por ano.
Sendo uma entidade inovadora numa zona que se tornou num dos bairros de
negócios e compras mais populares da cidade, com instituições artísticas
emergentes e uma grande variedade de eventos culturais, continua a ser até hoje,
de muitos pontos de vista, a única instituição do género.
Com base em certos
princípios que foram definidos desde a fundação da nossa instituição, coerentes
com as doutrinas de sustentabilidade e longevidade dos nossos mecenas, sendo
nós a equipa artística, desenvolvemos um pacote, um casulo artístico à volta
destes princípios, que apresentamos como sugestão aos nossos mecenas, e que
eles têm a amabilidade de aceitar. Em troca, desenvolvemos as estratégias
certas para o nosso ‘casulo artístico’, incluindo marketing e comunicação. É
uma interacção mútua, um modelo de dar e de receber um do outro. Nesse sentido,
a abertura para a mudança é um factor importante no nosso trabalho.
Reinventámo-nos a nós próprios de várias formas ao longo dos anos. A mudança demográfica
do nosso público levou-nos a incluir novos géneros na nossa programação, tal
como teatro para a infância, a série Rising Star de concertos de acoustic rock,
que provaram ser muito populares depois de um certo período de tempo. Mas, mais
uma vez, foi preciso tempo para se desenvolverem e acentar. Juntos abraçamos um
ambiente artístico, económico e social em mudança, ano após ano. Mantendo-nos
fiéis aos nossos princípios, desenvolvemos e crescemos. No próximo ano Is Sanat
vai celebrar o seu 15º ano neste modelo de colaboração. Uma vez que estamos
constantemente a desenvolver, não sabemos se isto não vai mudar. Mas, para nós,
provou ter sucesso nos últimos 14 anos e só podemos esperar que continue a
tê-lo para muitos mais anos no futuro.
Nota:
Quando fazia a revisão
deste artigo, a minha colega e amiga Maria, que me convidou para escrever no
seu blog, perguntou e com razão:”Se nós profissionais da cultura precisamos de
nos interessar e adquirir know-how em assuntos económicos, as empresas que
participam no nosso trabalho precisam de saber de arte?”. Diria que um
entendimento do conteúdo artístico seria necessário, sim. Mas se for comunicado
em detalhe e correctamente pela equipa artística, isto não deveria causar
problemas. Como referi, uma vez que o nosso trabalho artístico tem fluído
livremente e temos estado a trabalhar à volta do conceito artístico,
verificamos que no nosso caso a maioria das estratégias tem funcionado bem. Não
tem sido impecável e ao longo dos anos temos encontrado obstáculos no nosso
entendimento mútuo. Depois de 14 anos, no entanto, desenvolvemos uma unidade.
Filiz Ova-Karaoglu é directora artística da sala de
concertos Is Sanat. Is Sanat tem uma lotação de 800 lugares e apresenta uma
temporada de 7 meses com uma programação variada de artes performativas. Tendo
trabalhado para a Is Sanat desde 2008 como Directora Assistente, Filiz
Ova-Karaoglu foi nomeada Directora Artística em Janeiro 2013. É Mestre em
História de Arte e Estudos Americanos pela Eberhard Karls University Tubingen,
onde continua os seus estudos a nível
de doutoramento. É Summer Fellow no DeVos
Institute of Arts Management no Kennedy Center for the Performing Arts.
Monday, 18 November 2013
Blogger convidado: "Círculos de apoio", por Kateryna Botanova (Ucrânia)
Os meus dois
amigos e colegas ucranianos, Ihor Poshyvailo e Kateryna Botanova, são a
representação viva daquilo que é a Ucrânia hoje em dia. Um país que deseja fortemente preservar as suas tradições e destacar, assim, a sua distinta identidade cultural;
um país determinado em olhar para a frente e para fora, em marcar a sua posição
no mundo contemporâneo, livre de ideologias controladoras e de ofertas de
“protecção”. Ihor escreveu para este blog no ano passado. Agora, é a vez da Kateryna partilhar
connosco as suas ideias, ansiedades e, sobretudo, o enorme e consistente trabalho
que ela e o resto da pequena equipa do Center for Contemporary Art tem estado a
desenvolver, determinados em lutar contra as suas inseguranças e de ultrapassar
os obstáculos para cumprirem a sua missão e assumir em pleno as
responsabilidades que traçaram para eles próprios no sector cultural do seu
país. mv
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| SPACES: Architecture of Common, CSM, 2013. Foto: Kostiantyn Strilets, © CSM |
A Ucrânia é
um país peculiar onde a palavra “independente” significa algo completamente
diferente do que no resto da Europa. Aqui, “cultura independente” e
“instituição cultural independente” não estão apenas livres do controlo
ideológico e/ou político do governo ou de qualquer outra entidade pública, mas
são também definidas como não sendo dependentes de qualquer tipo de apoio
financeiro público – porque não há.
Ser uma
instituição cultural independente na Ucrânia significa escrever a sua própria
missão de servir a comunidade, ser suficientemente corajoso para ver as lacunas
na política cultural do Estado e tentar preenchê-las da melhor forma que puder,
e ser completamente responsável pelo seu próprio futuro – financeiro e
profissional.
No Foundation Center for Contemporary Art (CSM), Kiev, Ucrânia,
começamos os nossos encontros mensais de planeamento com uma pergunta – para
quem estamos a fazer isto? A nossa declaração de missão define que trabalhamos
para criar uma plataforma de possibilidades para os profissionais da cultura –
artistas, críticos, arquitectos, escritores, etc. – para promover a comunicação
interdisciplinar, a experimentação e a inovação. Mas como é que o fazemos? Como
é que sustentamos o seu trabalho quando o acesso à cultura está limitado - e,
por isso, a apreciação por ela também – e não há apoios disponíveis, públicos
ou privados? Quem pode criar círculos de compreensão e construir apoio para
este género de arte?
O CMS é uma
instituição independente e sem fins lucrativos criada em 2009, sucessor do
Center for Contemporary Art estabelecido por George Soros em 1993, como parte
da rede de centros de arte criada por Soros em toda a Europa Central e Oriental.
Poucos sobrevivem hoje, sobretudo devido à falta de financiamento. O CSM
sobreviveu graças a uma reestruturação significativa – de uma instituição
grande, que tinha como objectivo apresentar o trabalho e promover a formação de
artistas, para uma pequena e flexível equipa curatorial que procura promover
produções experimentais, a crítica e o desenvolvimento de públicos.
Em 2010, um
ano após esta transformação, quando tivemos que deixar de repente a nossa sede
numa das principais universidades da capital e mudar-nos literalmente
“underground”, para a cave de um prédio, Art Ukraine, uma das mais importantes revistas de arte na Ucrânia, incluiu o
CSM na lista dos 10 mais importantes instituições artísticas da Ucrânia,
destacando “o verdadeiro renascimento do CSM no sentido de se tornar uma das
instituições mais activas”. Percebemos que a decisão desconfortável de
continuarmos como uma instituição pequena - com base na convicção que é
possível e necessário trabalhar nesta área onde nem as corruptas instituições
estatais nem o ofensivo capital privado queiram entrar - estava certa.
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| SEARCH: Other Spaces. Workshop de Anton Lederer, CSM, 2012. Foto: Dmitro Shklyarov, © CSM |
A ideia de
continuar a trabalhar – fazendo projectos multidisciplinares em espaços
públicos, apresentando iniciativas e programas educativos e de
auto-formação, criando novos espaços para o trabalho conjunto de artistas e públicos, fazendo
pesquisa em história de arte e políticas culturais - foi importante. O CSM foi
e ainda é um exemplo de resiliência e de criação de mudança. Enquanto nós
estivermos a trabalhar, as instituições culturais independentes neste país
poderão trabalhar também. É difícil, mas é possível.
Quanto mais
longe vamos, melhor percebemos que, por enquanto, a maior mudança está na
criação de círculos de apoio e compreensão dos públicos: apoio à cultura
contemporânea e às ideias que esta articula – criando acesso não apenas aos
produtos culturais, mas ao pensamento sobre o mundo em que vivemos e a sua
compreensão através da cultura.
Foi em 2010
que nós no CSM tivemos a ideia de lançar uma plataforma para a reflexão crítica
e a compreensão dos desenvolvimentos culturais contemporâneos – a revista
digital Korydor. Criada
inicialmente como uma ferramenta para a comunidade artística poder escrever e
debater eventos, questões e problemas, conseguiu dentro de três anos reunir
mais de 6000 leitores por mês. Quando tomámos a decisão no verão passado de
lançar uma campanha de crowdfunding para a Korydor, tínhamos
dúvidas e receio. A quem estamos a dirigir-nos? Os leitores de uma revista
intelectual, num país sem tradição de pagar por produtos culturais, precisariam
dela o suficiente para a apoiar financeiramente? Se conseguíssemos, o que é que
este apoio significaria para a Korydor? Como é que a revista ia mudar?
Como é que nós íamos mudar?
Mais de 200
pessoas apoiaram a Korydor, excedendo o objectivo inicial da campanha.
Em três meses aumentámos o número de leitores em 20%, conseguindo mais e mais
da comunidade artística para dar à comunidade de pessoas que querem que a arte
faça parte da sua vida. As contribuições eram frequentemente acompanhadas pelo
seguinte comentário: “(mesmo que não estivéssemos a ler a revista antes) estão
a fazer algo tão importante, por favor, continuem!”.
A Korydor
foi o primeiro meio de comunicação na Ucrânia que foi apoiado via crowdfunding.
Seguiram-se outros, como o Public Radio, uma iniciativa independente que
atingiu recentemente o seu objectivo de crowdfunding.
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| Project "Working Room" with Anatoliy Belov, CSM, 2013. Foto: Kostiantyn Strilets, © CSM |
O CSM está a
dar mais um passo no sentido de alargar o seu círculo de apoio. Daqui a três
semanas, em colaboração com o Kyiv-Mohyla Business School, vamos
lançar o primeiro programa especial para estudantes de MBA que permitirá a gestores de empresas falar, ver, ouvir e
aprender com artistas ucranianos de diferentes géneros e gerações. Tentaremos
pensar o nosso futuro juntos e ver como é que podemos todos permanecer independentes
no nosso pensamento, expressão e compreensão mútua de quaisquer interesses
restritos e necessidades medonhas.
Kateryna Botanova é crítico de arte, curadora, investigadora em cultura
contemporânea e políticas culturais, tradutora. Desde 2009, é a Directora do
Foundation Center for Contemporary Art em Kiev, fundadora e editora principal
do jornal cultural Korydor. Membro do Conselho Consultivo do festival
FLOW (desde 2009), European Cultural Parliament (desde 2007), Vienna Seminar
steering group (Erste Foundation, 2012), Public Council of Junist at
Andrijivsky project (desde 2012), comissão de peritos do prémio
PinchukArtCenter para Jovens Artistas ucranianos. A Kateryna trabalha na área
do envolvimento social da arte nos processos transformativos das sociedades. Dá
aulas e escreve sobre arte contemporânea, gestão cultural e crítica cultural. É
Mestre em Estudos Culturais pela National University of Kyiv-Mohyla Academy. Em
2009 a sua tradução de Culture and
Imperialism de Edward Said recebeu o prémio Ukrainian Book of the Year.
Monday, 4 November 2013
Blogger convidado: "Coreografia para uma estratégia de gestão", por Dóra Juhász (Hungria)
Quando fui convidada
para ver X&Y pela companhia Pál Frenák em Budapeste no passado mês
de Abril, não sabia que a nova gestora artística iria ser minha colega no
fellowship do Kennedy Center no verão seguinte. Assim, quando vi Dóra Juhász
pela primeira vez em Washington era como se estivesse a encontrar uma velha
amiga. Dóra é jovem, cheia de energia, ideias e ambição. Pedi-lhe para escrever
para este blog não só porque gostei muito do trabalho da companhia, mas também
pela relação especial que esta mantém com públicos surdos. mv
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| InTimE, Compagnie Pál Frenák |
O coreógrafo Pál
Frenák tem uma expressão francesa especial para explicar aos seus bailarinos o
que quer ver e o que quer alcançar durante o processo de criação: o frágil
equilíbrio do “juste”. Quando o movimento, a presença e o conteúdo emocional em
palco está “juste”; não mais, nem menos; suficiente e preciso; não criado pela
rotina, não tímido ou esquecível, nem demasiado expressivo ou exagerado.
“Juste” a intensidade que é precisa naquele momento, resultado de uma pesquisa
profunda do corpo e da alma dos bailarinos, depois de semanas de improvisação e
experimentação. Quando se atinge esse momento, temos de o reconhecer, de o
cativar e manter, porque é precisamente o que precisamos. “Juste”.
Depois trabalhar numa grande
instituição de arte contemporânea durante 6 anos, com esquemas claros e
definidos e estruturas já criadas, foi realmente inspirador para mim chegar à
companhia de dança contemporânea franco-húngara, a Compagnie Pál Frenák (aqui e aqui), uma companhia independente internacionalmente
reconhecida, que existe há 15 anos e que tem uma pequena equipa de gestão.
Cheguei num momento em que a política cultural húngara está a mudar, a cena
contemporânea de dança e teatro está a perder grande percentagem do seu
orçamento anual e do subsídio estatal, enquanto não existe de todo no país uma
tradição de financiamento de fontes privadas para a arte contemporânea. Passo a
passo, tive que perceber o quanto é crucial encontrar o frágil equilíbrio,
neste caso, criar uma estratégia de gestão adequada e apropriada para a minha
organização neste momento específico, compreensível para os meus próprios
artistas, mas inovadora, corajosa e adaptada às necessidades e ao contexto. Uma
estratégia de gestão que fosse… “juste”.
Como é que se pode
fazer isto? Como é que todos os nossos conhecimentos de gestão se podem
transformar em algo que possa ser novo, provocantemente novo, e, ao mesmo
tempo, sustentável, porque respira juntamente com a nossa companhia? Indo mais
a fundo, explorando padrões na forma como os artistas trabalham e usá-los como
fonte de inspiração para criar uma estratégia, uma campanha ou um
projecto.
SAIR DA ZONA DE CONFORTO, CRIAR
DESEQUILÍBRIO
A infância de Pál Frenák foi marcada pelo facto dos seus
pais terem uma deficiência auditiva e de fala profunda, o que fez com que a
língua gestual fosse o seu primeiro meio de expressão. Isto tornou-o
especialmente receptivo à mímica e aos gestos e a todas as outras formas de
exprimir conteúdo com a ajuda do corpo humano. Para o Pál Frenák, a melhor
técnica é simplesmente o mínimo. Procura, literalmente e fisicamente,
desequilibrar os seus bailarinos e motivá-los a sair da sua zona de conforto e
esquecer completamente a técnica aprendida.
Língua gestual, deixar a zona de conforto, criar
circunstâncias físicas e mentais onde acontecem momentos de (auto)reflexão
(claro que trabalhar com pessoas com deficiências auditivas tem sido uma parte
importante da missão da companhia desde o princípio)… mas como é que estas
componentes e forma de pensar podem influenciar a construção da estratégia dos
nossos projectos de envolvimento dos públicos e estratégia educativa a longo
prazo?
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| A equipa em Kunsthalle. |
Criámos um pacote educativo para o nosso espectáculo Twins,
onde convidámos adolescentes com e sem deficiências auditivas; durante o
workshop de preparação nas escolas, trabalhámos intensivamente com eles em
pequenos grupos separados – jogando jogos associativos, exercícios de movimento
baseados na coreografia e o tema principal da peça – e todos os grupos
trabalharam em conjunto com um especialista em drama com deficiência auditiva -
que comunicava através da língua gestual -, um tradutor e um dos bailarinos da
companhia. Finalmente, todos os grupos encontraram-se no espectáculo e houve
também um workshop pós-espectáculo, onde todos participaram, e que combinava
língua gestual e expressões verbais-vocais, usando o cenário do espectáculo.
Depois disto, os nossos bailarinos visitaram os alunos nas suas escolas para um
follow-up.
Organizamos regularmente conversas pós-espectáculo, onde
grupos de pessoas com deficiências auditivas também participam, comunicando
directamente com o coreógrafo em língua gestual – há um intérprete para o
restante público. Porque é que isto é tão importante? Porque, tal como na sala
de ensaios, estamos a criar fisicamente um desequilíbrio que provoca o
pensamento para a maioria das pessoas na audiência, onde precisam de enfrentar
uma situação em que se tornam numa minoria. Esta é a lógica e o quadro para a
construção dos nossos projectos de envolvimento e desenvolvimento de públicos a
vários níveis, com base no que se passa na sala de ensaios com os artistas,
concentrando-nos sempre na procura de uma forte ligação entre a parte artística
e a parte estrutural dos nossos projectos.
COMBINAÇÃO DA IDENTIDADE
E DO FOCO DA ESTRATÉGIA
Na nossa estratégia
de marketing envolvemos os nossos próprios bailarinos e convidamos fotógrafos e
realizadores a criar conteúdos promocionais pessoais e únicos com material que
encontram nos bastidores – por um lado, é uma boa forma de envolver o nosso
público e trazê-lo mais próximo da vida diária da companhia Pál Frenák; por
outro lado, está ajustado à equipa: como no processo criativo, o coreógrafo
compõe os elementos de uma peça com base na personalidade dos bailarinos, e
eles ficam mais ligados emocionalmente, envolvendo-os na estratégia de
marketing cria a possibilidade de uma forma muito honesta e única de
comunicação do nosso produto artístico também, e é mais que inspirador
pensarmos em conjunto o até onde podemos chegar juntos.
O mesmo acontece com a nossa estratégia de fundraising e de assinaturas. A nossa companhia não tem o seu próprio espaço, por isso colaboramos com vários teatros. O que significa que podemos essencialmente oferecer aos nossos patrocinadores uma vista sobre a vida da companhia, em vez de, por exemplo, descontos no parque de estacionamento. Mas, para termos uma estrutura sustentável, quando optamos por uma forma ou evento para envolver os nossos futuros mecenas, precisamos de ver com atenção quem somos como companhia, mantendo-nos verdadeiros, honestos e livres. Se a companhia nunca quis organizar uma festa de ano novo, mas se existe, por outro lado, uma bonita tradição de nos juntarmos no 2 de Janeiro, é importante usarmos este evento para fundraising. Em alguns casos, vamos fazer picnics no parque com coreografias site-specific, em vez de organizarmos jantares formais, porque é isto o que somos; uma colecção de sacos criada por um designer de moda sobre uma peça, em vez de lápis ou ímans com logos como merchandising; porque é esta a nossa maneira.
Estamos, claro, a meio do processo, mas explorarmos juntos
a identidade da companhia e encontrarmos ferramentas de gestão para estes
elementos é, de alguma forma, uma actividade a longo prazo de construção de
equipa, e também um desafio fantástico. Neste caso, a construção de uma
estratégia de gestão é, realmente, um processo criativo – paralelo ao
artístico. E quando tudo se compõe, quando a estratégia de gestão está
sincronizada com a área artística e as duas encontram mutuamente a inspiração,
quando está certo… não mais, nem menos do que precisamos… é a isso que
chamamos… sabem… “juste”.
Dóra Juhász é Gestora Artística da Compagnie Pál Frenák em
Budapeste, Hungria. Coordena o planeamento estratégico, as relações internacionais,
o branding, as digressões, o desenvolvimento de públicos, os patrocínios e o fundraising.
Entre 2006 e 2012, foi Responsável de Imprensa e Comunicação para a Casa Trafó
de Arte Contemporânea (Budapeste). É membro da Associação Húngara de Críticos de
Teatro e dá regularmente palestras e participa em conferências em todo o mundo.
Monday, 28 October 2013
É favor definir "perigo"
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| Musée d' Orsay (Imagem retirada de Louvre pour Tous) |
O debate da semana passada
sobre fotografia nos museus, organizado pela Acesso Cultura e pelo ICOM Portugal, não correspondeu às minhas expectativas. E
considero que, em parte, a culpa seja minha. Entendi o meu papel de moderadora
como, sobretudo, o de reguladora da conversa. Tendo partilhado publicamente as minhas
posições sobre este assunto – neste blog,
no
blog Mouseion, no jornal Público e também no portal Louvre pour Tous - considerei que este deveria ser o momento para
dar a oportunidade aos oradores convidados e aos colegas que assistiam para
trocar opiniões, esclarecer ideias, partilhar a sua visão para os museus no
século XXI. Porque o contexto actual em que se discute a fotografia nos museus
é um contexto para discutir a relação dos museus com as pessoas no século XXI.
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| A campanha "It's Time we Met" do Metropolitan Museum usou fotos tiradas pelos visitantes no museu. |
O debate tomou um rumo
diferente, concentrando-se principalmente em questões de direitos de autor e
nos interesses e pressões comerciais por trás da Directiva da EU Relativa à Reutilização de Informações do Sector Público.
Pouco
foi perguntado ou dito sobre os visitantes – fotógrafos e a forma como a actual
legislação portuguesa limita (ou não) a sua contribuição na promoção dos
museus. Houve algumas perguntas concretas sobre este assunto – como, por
exemplo, “O que é que se entende no despacho (ler aqui)
por
“divulgação” e os visitantes que tiram fotografias e partilham-nas nas redes
sociais são criminosos?”; ou “A actual legislação não
é incompatível com o facto de dois museus e dois palácios nacionais estarem
neste momento no Google Art Project?” -, mas ficaram sem resposta. A falta de
resposta directa pode ser ela mesma um indicador de incapacidade ou falta de
vontade em abordar estas questões fundamentais, mas, como moderadora, deveria
ter insistido para que houvesse uma resposta clara - afinal, era esse o propósito do debate - ,no entanto, achei que ia
envolver-me num diálogo pessoal com os intervenientes e, por isso, não o fiz (mea
culpa).
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| Imagens amplamente disponíveis na Internet. Autores desconhecidos ou... difíceis de encontrar. |
Mais para o fim do debate,
houve mais uma pergunta muito relevante: a Direcção-Geral do Património
Cultural tem realmente condições para controlar o uso das imagens tiradas pelos
visitantes e é esse o propósito do despacho? Qual é hoje a sociedade que é
suposto os museus servirem? Nesse momento, fomos informados que é muito difícil
controlar e que o despacho tem sobretudo uma função dissuasiva.
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| Cartazes criados pelo Musée Saint-Raymond, Musée des Antiques de Toulouse. |
Assim, e mais uma vez, os
visitantes, as pessoas, não estiveram no centro da discussão. Os objectos é que
sim. Um outro momento interessante no debate foi uma pergunta relativamente à
manipulação de imagens de obras de arte – como a imagem usada para a promoção
do debate. As opiniões foram diversas: desde o não haver mal nenhum neste uso
criativo de uma obra de arte, uma vez que as obras têm uma vida própria; ao
identificar um perigo na disponibilização de imagens de qualidade – como está a
fazer neste momento o Rijksmuseum e outros museus – e realçar a responsabilidade
dos profissionais dos museus em salvaguardar e proteger.
Gosto de museus que nos fazem sentir bem-vindos, livres,
inspirados. Aprecio os museus que têm bom sentido de humor e não têm medo de o
mostrar. Admiro os museus que não permanecem afastados do que se passa à sua
volta, na sociedade. Respeito os museus que procuram criar ligações com o mundo
exterior, debater e não impor. Não vejo nenhum perigo nisto, nem alguma falta
de respeito; vejo simplesmente relevância e sentido de missão.
Mas, acima de tudo, sinto-me tão contente quando vejo
pessoas a divertirem-se nos museus e a partilharem o seu prazer (mais ou menos
criativamente). Haverá melhor sinal de missão cumprida?
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| Publicidade da KLM. O Rijksmuseum foi o primeiro a partilhá-la no Facebook. |
Monday, 21 October 2013
Blogger convidado: "Organizações culturais e comunidades: parceiros perfeitos", por Karen O'Neill (Reino Unido)
Não há nada mais inspirador do que ouvir a Karen O’Neill
falar dos programas para o envolvimento da comunidade do Laurence Batley
Theatre, onde é a Gestora. Sobretudo porque sentimos o quanto as intenções são
focadas, sérias, honestas e sinceras. Tudo isto é muito mais que palavras;
estas são as acções concretas de uma instituição cultural que não tem dúvidas
quanto ao seu papel na comunidade em que se insere. Tudo isto é muito mais que
defender o acesso e a construção de relações; é, realmente, fazê-lo acontecer.
É a riqueza destas experiência que a Karen partilha connosco. mv
Todos a sentimos, aquela sensação estranha no estômago,
uma mistura de excitação e nervosismo. A sensação que algo novo, algo grande
está prestes a começar. É assim mesmo que nos sentimos neste momento no
Laurence Batley Theatre (LBT) porque
encontrámos a nossa cara metade. Sim, criámos uma parceria com uma comunidade
nova!
Para uma instituição cultural, envolver-se com uma
comunidade nova é como começar um novo romance. As fases são as mesmas:
conhecer um ao outro, o maravilhoso período de lua-de-mel, crescer juntos e,
claro, a inevitável ruptura.
Conhecer o
outro
No LBT temos trabalhado nos últimos 5 anos no
desenvolvimento de um programa e estratégia de envolvimento das comunidades
que, tal como um verdadeiro gentleman, coloca as comunidades no centro,
procurando encorajá-las a liderar e inspirar o seu trabalho. Trabalhamos com
elas no sentido de criar caminhos através dos quais as pessoas possam explorar
a sua própria criatividade e de as equipar para navegarem as artes. Aprendemos
o quanto é importante as comunidades sentirem-se confiantes em relação ao seu envolvimento.
Temos que ser pacientes e compreensivos, permitindo-lhes andar ao seu próprio
ritmo. Damos resposta às vontades e desejos da comunidade com a qual criamos
uma parceria, passando algum tempo a conversar e a descobrir em conjunto. O que
se aprende durante esse tempo é vital para formar o envolvimento e construir
uma boa base sobre a qual a relação possa florescer.
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| Iniciação ao teatro para adultos. (Foto: Peter Boyd) |
Lua-de-mel
Sem dúvida, o melhor momento em qualquer relação, quando
as coisas andam lindamente e, francamente, não podemos viver um sem o outro. O
LBT oferece neste momento uma série de workshops, programas e projectos em
resposta a tudo o que aprendemos sobre essa comunidade, as suas necessidades,
pontos fortes, esperanças e pontos fracos. Através de um gestor de projecto que
se dedica a esta parceria, o LBT procura criar fortes ligações com a comunidade
e usar a criatividade como uma ferramenta para a mudança. Através de uma série
de iniciativas, desde workshops de jogos criativos para jovens pais a projectos
de teatro intergeracionais, o LBT usa a criatividade para gerar aspirações e
promover a coesão.
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| The Courtyard Circus - evento de celebração produzido por jovens da comunidade (Foto: LBT) |
Crescer
juntos
Quando a novidade se desgasta, é importante que ambas as
partes dedicam algum tempo e energia para olharem para o futuro e enfrentar os
obstáculos que possam prejudicar a relação. Como muitos especialistas em
relacionamentos vos dirão, este pode ser o momento de avanço ou ruptura. Repetidamente,
as instituições culturais caem de pára-quedas nas comunidades e não pensam para
além da oferta inicial. É vital desenvolver um caminho entre a participação e a
performance.
No que diz respeito a um envolvimento sustentável, as
instituições culturais devem trabalhar com as comunidades no sentido de
identificarem e ultrapassarem as barreiras existentes. Da minha experiência em
trabalhar com comunidades, sei que essas barreiras podem muitas vezes ser
complexas e emotivas, podem estar relacionadas com o transporte, a confiança, o
acesso, questões económicas, etc., etc. Apenas ultrapassando estas barreiras
podem as comunidades passar de um compromisso de envolvimento a curto prazo
(actividades gratuitas na sua área) para um compromisso de envolvimento
(comprar bilhetes para um espectáculo) ou para um envolvimento alargado
(participar num programa de teatro para jovens). É importante que as
instituições culturais trabalhem com as suas comunidades no sentido de passar
por estas etapas de envolvimento. Apenas porque alguém vem a um workshop de
teatro no seu centro local não significa que automaticamente irá adquirir
bilhetes para a temporada de teatro no seu teatro local. No LBT procuramos
ultrapassar as barreiras usando várias tácticas, desde idas organizadas ao
teatro, visitas guiadas e conversas com os funcionários do teatro, juntando
diferentes grupos de teatro de jovens da comunidade, pensando em políticas de
preços estruturadas, propondo visitas aos bastidores, etc. A nossa experiência
ensinou-nos que esta etapa no envolvimento da comunidade é um factor chave para
termos sucesso. A compreensão do papel importante que o envolvimento da
comunidade tem no desenvolvimento de públicos ajuda o LBT a desenvolver
públicos para hoje e para o futuro.
A separação é
difícil
Todas as coisas boas têm um fim e, infelizmente, chega
sempre o momento em que temos que nos afastar. O LBT compromete-se sempre a
desenvolver um projecto de um mínimo de 3 anos com qualquer comunidade.
Poderiam perguntar porque é que não ficamos mais tempo, mas a verdade é que as
necessidades são muitas e os recursos poucos. Acreditamos que concentrando o
nosso trabalho numa comunidade durante um período de tempo sustentável traz os
melhores resultados para a comunidade envolvida e para o LBT. O LBT pensa na
sustentabilidade de qualquer programa desde o primeiro momento, procurando
promover projectos de capacitação paralelamente ao programa criativo.
Entendemos que em parte o nosso papel é equipar as comunidades com capacidades
e ferramentas que irão precisar para sustentar a prática criativa depois de nos
irmos embora. Trabalhamos com a comunidade no desenvolvimento de uma estratégia
de saída adaptada às suas ambições e planos para o futuro.
Podemos ainda
ser amigos?
Claro que sim! Uma função fundamental de qualquer
programa de envolvimento da comunidade é que serve como ferramenta para o
desenvolvimento de públicos. O envolvimento da comunidade constrói um público
forte e activo, extremamente envolvido com a instituição e que compreende os
seus valores e também o seu valor como organização. Através das ligações
profundas criadas com as comunidades através do envolvimento sustentável, o LBT
tem criado públicos que estão apaixonados pelas artes e que compreendem o valor
da prática criativa; um público que defende o LBT em fóruns e debates onde nós
próprios nunca teríamos acesso.
Perante os cortes no financiamento, as autarquias começam
a reduzir a sua oferta. É por isso vital que as instituições culturais abracem
as suas comunidades e criem parcerias com elas. Através de programas de
envolvimento sustentados e bem pensados, as instituições culturais podem criar
uma base de públicos entusiasta e envolvida, já convencida que as artes e a
cultura não são um luxo, mas, como as relações, uma parte essencial da vida.
Karen O’Neill é a Gestora do Lawrence
Batley Theatre (LBT) em
Huddersfield West Yorkshire no Reino Unido. O LBT apresenta os melhores espectáculos ao
vivo e trabalha de perto com a comunidade local. A Karen é responsável pelo
desenvolvimento estratégico do teatro, desde garantir o futuro financeiro da
organização através da angariação de fundos e criação de receitas à criação de
um espaço onde a criatividade possa florescer. Começou a sua carreira como
gestora de teatros comunitários, trabalhando tanto em projectos de envolvimento
da comunidade como na estabilidade financeira das organizações. A seguir passou
para as instituições de grande escala no sector do teatro comercial. Neste momento, é fellow no DeVos
Institute of Arts Management no Kennedy Centre em Washington D.C., onde se
junta a gestores culturais de todo o mundo que procuram aprender, criar,
capacitar-se e inspirar-se mutuamente.
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