No dia 17 de Dezembro de 2017, o jornal Público
publicava uma entrevista da Vereadora da Cultura de Lisboa, Catarina Vaz Pinto, onde se anunciava que “o [Teatro] Maria Matos (MM) terá um
modelo de programação bastante diferente, com carreiras mais longas e uma maior
preocupação de captação de público, para ser rentável”. A notícia foi, no mínimo,
surpreendente para mim. Diria mais, lembro-me que, ao ler, senti uma espécie de
dor física.
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Saturday, 13 January 2018
Monday, 11 September 2017
Uma questão de relevância
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| A capa de Story, Agosto 2017. |
O meu artigo "A question of relevance" foi publicado em Agosto 2017 em Story, a revista do Queensland Performing Arts Centre, integrada na sua estratégia de educação e editada por Rebecca Lamoin. Nesta edição, procura-se olhar para o conceito de resistência no sector cultural a partir de múltiplos pontos de vista e a propósito da programação Jul - Dez do QPAC. Ler aqui
Wednesday, 21 June 2017
Uma tragédia nacional: o que é que "a Cultura" tem a ver com ela?
No Domingo de manhã as
notícias ultrapassavam o pior pesadelo. O grande incêndio na zona de Pedrógão Grande
tinha tirado a vida a 19 pessoas. Ao longo do dia, este número foi subindo. O
país estava em estado de choque.
O Teatro Maria Matos em
Lisboa foi dos primeiros a reagir. Não se limitou a anunciar o cancelamento do
espectáculo naquele dia, no seguimento da decretação de luto nacional, mas
informou os seus seguidores no Facebook sobre possíveis formas de ajudar e foi
actualizando esta informação. Manteve-se solidário e envolvido.
Sunday, 13 November 2016
Silêncios diplomáticos
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| A Primeira-Ministra da Escócia, Nicola Sturgeon. |
À medida que a Web Summit chegava ao fim em Lisboa, um dia depois da divulgação dos resultados das eleições norte-americanas, a Câmara Municipal de Lisboa colocou alguns outdoors onde se lia: "No mundo livre ainda pode encontrar uma cidade para viver, investir e construir o seu futuro, construindo pontes, não muros. Chama-se Lisboa". Os outdoors foram classificados como "anti-Trump" pela oposição, que disse que preferia pensar “que se trata de uma interpretação abusiva e que a intenção de Medina [presidente da Câmara] não foi a de desrespeitar a escolha democrática do povo americano, que não foi uma demonstração de arrogância ideológica, que não foi uma precipitação oportunista em resultado do deslumbramento pela atenção internacional". Resumindo, a oposição pediu explicações (leia o artigo).
Tuesday, 14 July 2015
Quem és tu?
Tenho algumas impressões fortes das paredes do metro em
Londres (e de outras cidades), uma plataforma fundamental para uma pessoa se
manter informada sobre a oferta cultural da cidade. Agora, imaginem o que
aconteceria se as organizações culturais, competindo entre si e com outras
entidades para a atenção das pessoas, não considerassem cuidadosamente a sua
identidade visual para poderem destacar-se e fazer uma ligação imediata tanto com os indivíduos interessados como, e especialmente, com os mais
distraídos.
Sunday, 24 May 2015
Post scriptum
Na semana de 11 de Maio, a minha caixa de email encheu-se de
convites para a celebração da Noite e do Dia dos Museus. No Facebook, a
intensidade não foi menor, com os museus e as suas tutelas a lembrar que todos
os caminhos iam levar a um museu. Um ambiente de grande festa, uma oferta
enorme em todo o país, que foi também traduzida em números: de acordo com os
meios de comunicação, houve 140 actividades por ocasião da Noite Europeia dos
Museus (16 de Maio) e 430 actividades no Dia Internacional dos Museus (18 de
Maio), em 70 museus diferentes. A verdade é que poucas das actividades
propostas responderam ao desafio do ICOM para reflectir sobre "Museus para
uma sociedade sustentável" (e fiquei a pensar qual será, realmente, a
percepção que os museus têm deste desafio anual e se este tem qualquer impacto
nas suas práticas - no Dia dos Museus e no resto do ano). Dito isto, a riqueza
e a intensidade da programação apresentada, bem como o ambiente de festa,
poderiam fazer pensar que o sector dos museus em Portugal mostra sinais claros
de prosperidade. Assim, a notícia a 18 de Maio que alguns funcionários de
museus estavam em greve, contestando a redução do pagamento de horas
extraordinárias, bem como o facto de terem sido obrigados a trabalhar numa
segunda-feira (o dia destinado ao descanso semanal), foi uma espécie de nota
marginal (ver reportagem da TV)
Saturday, 16 May 2015
"Ganesh contra o Terceiro Reich" e a pergunta que ficou para a próxima vez
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| Foto: Jeff Busby |
Monday, 5 January 2015
Para aceitar o 'não' como resposta
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| Museu da Acrópole (Foto: Maria Vlachou) |
Da última vez que estive no Museu da Acrópole e enquanto
estava a tirar fotografias na sala das esculturas, fui abordada por um
vigilante que gentilmente me informou que não podia tirar fotos naquela sala e
que rapidamente me informou também das áreas onde podia fotografar. Não me foi
dada nenhuma explicação em relação a essa distinção. Quando um pouco mais tarde
tirei uma fotografia a uma legenda (não um objecto, uma legenda), uma outra
vigilante fez questão de informar os seus colegas que deveria ser vigiada. E
passou a seguir-me de perto…
Sendo tudo isto muito desconfortável para mim - e, tenho a
certeza, para os vigilantes também -, aproveitei a oportunidade para questionar
uma arqueóloga que estava na sala, a fim de responder a perguntas dos
visitantes. Explicou-me que algumas das estátuas preservam as suas cores
originais, que o flash pode ser prejudicial, e que, como não é possível para os
vigilantes controlarem o uso do flash, o museu achou melhor proibir totalmente
a fotografia. Pareceu-me que a apanhei de surpresa quando perguntei por que
razão o museu não assume o seu papel educativo e não explica aos visitantes
porque é que não deve ser utilizado o flash, em vez de proibir totalmente a
fotografia em determinadas salas (a maioria das câmeras digitais não precisa de
flash) e criar uma política tão ambígua em relação à fotografia no museu.
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| Brooklyn Museum (Foto: Maria Vlachou) |
Não foi algo que inventei naquele momento. Ocorreu-me que,
há um par de anos, na exposição Workt by Hand no Brooklyn Museum - composta
de colchas extremamente frágeis, feitas nos últimos dois séculos - o museu
tinha optado por não mostrar os objectos atrás de vidros ou cercados de cordas
e à distância. Por isso, quando se entrava no quarto, o visitante era convidado
a "Por favor, não tocar. O óleo e os sais nas suas mãos podem danificar
tecidos e pontos. Agradecemos a sua ajuda na preservação destas peças
frágeis". Algumas pessoas podem estar a pensar que estamos a falar de uma
cultura diferente, uma cultura mais respeitosa, mas não é o caso. O Brooklyn
Museum abre as suas portas a todo o tipo de visitantes, com e sem o hábito de
visitar museus, com e sem conhecimentos específicos sobre os objectos e a sua
preservação. O museu assume, no entanto, o seu papel educativo e não espera
simplesmente que os visitantes aceitem o 'não' como resposta, só porque o museu
assim o disse, sem mais explicações.
Pouco depois da minha visita ao Museu da Acrópole, li um artigo no Guardian sobre o papel fundamental dos assistentes de sala nos teatros, principalmente no que diz respeito a públicos disruptivos. No artigo, é-nos dado a conhecer o exemplo de Stratford East Theatre, onde
assistentes de sala e pessoal de frente-de-casa são formados para lidar com
tais situações. E mais: num teatro que tem "um número particularmente
elevado de espectadores que vêm pela primeira vez, que às vezes precisam de ser
ajudados a compreender o efeito que o seu comportamento tem não apenas nos
outros membros do público, mas também nos assistentes de sala e nos
actores", a gestão do teatro opta por convidá-los "a visitar os
bastidores para conhecerem a equipa e o elenco e para que possam entender mais
sobre como funciona um teatro e como os seus comportamentos afectam os
outros".
Acredito que faz parte do papel educativo das instituições
culturais ajudar as pessoas a compreender melhor os detalhes do trabalho que
está a ser feito, mas também o seu próprio papel – o papel dos espectadores e
dos visitantes – para que este trabalho possa ser realizado nas melhores
condições para todos os envolvidos. Acredito que isto pode ser muito mais
eficaz do que simplesmente dizer "não" a um certo comportamento ou
pedir às pessoas para saírem e é também uma maneira de as tornar
co-proprietárias e co-responsáveis por esse trabalho.
Monday, 15 December 2014
A dimensão educativa
Em Outubro passado, durante o intervalo da apresentação do
“Requiem” de Brahms pela Saint Louis Symphony, vinte e três manifestantes
sentados em várias partes do auditório levantaram-se e cantaram "Requiem
para Mike Brown" (o jovem negro desarmado que foi baleado por um polícia
em Ferguson). Algumas pessoas ficaram chocadas, outras aplaudiram, o mesmo
aconteceu com os músicos no palco. Ninguém interrompeu os manifestantes,
ninguém chamou a polícia. Talvez porque o que aconteceu fez sentido, naquele
lugar, naquele tempo, naquele contexto específico. Sendo que a música era parte
integrante dos protesto em Ferguson, esta, de acordo com um dos organizadores,
foi uma tentativa de "falar com um segmento da população que tem o luxo de
estar confortável. Temos que fazer uma escolha de apenas ficarmos na nossa zona
de conforto ou falarmos de algo que é importante. Não está certo simplesmente
ignorá-lo" (leia o artigo completo).
As recentes mortes de negros pela polícia em diferentes cidades dos Estados Unidos provocaram uma intensa reflexão entre as instituições culturais no país sobre o seu papel. Num recente comunicado de bloggers de museus e de outros profissionais da cultura em relação a Ferguson e outros eventos relacionados, lê-se:
"Os recentes acontecimentos, desde Ferguson a Cleveland
e Nova Iorque, criaram um momento de transição. As coisas precisam de mudar.
Novas leis e políticas irão ajudar, mas qualquer movimento em direcção a uma
maior compreensão e comunicação cultural e racial deve ser apoiado pela
infra-estrutura cultural e educativa do nosso país. Os museus fazem parte desta
rede educativa e cultural. Qual deve ser o nosso papel (papéis)? (...) Onde é
que os museus se encaixam? Alguns poderiam dizer que só os museus com colecções
específicas afro-americanas têm um papel, ou talvez apenas museus situados nas
comunidades onde estes eventos ocorreram. Como mediadores culturais, todos os
museus devem comprometer-se em identificar de que forma podem relacionar-se com
questões contemporâneas relevantes, independentemente da sua colecção, foco ou
missão. (...) Até agora, apenas a Association of African
American Museums emitiu uma declaração formal sobre as questões mais
amplas relacionadas com Ferguson, Cleveland e Staten Island. Acreditamos que o
silêncio de outros museus envia uma mensagem de que estas questões são uma
preocupação apenas para os afro-americanos e os museus afro-americanos. Sabemos
que este não é o caso."
Em Agosto passado, uma séria controvérsia envolveu a decisão
do Tricycle Theatre de não receber o UK Jewish Film Festival, pela primeira vez
em oito anos. O motivo foi que o festival tinha o apoio da Embaixada de Israel
em Londres e, dado que naquele momento estava em desenvolvimento a ofensiva em
Gaza, o Conselho Consultivo considerou que “não seria apropriado aceitar o
apoio financeiro de qualquer agência governamental envolvida". O Teatro
ofereceu-se para fornecer financiamento alternativo, mas o Festival não aceitou
(leia o artigo completo). O conflito em Gaza foi também a razão pela qual artistas participantes na
Bienal de São Paulo este ano apelaram aos organizadores (apoiados
posteriormente pelos curadores da Bienal) para devolver o financiamento do
Consulado Israelita. As negociações mais tarde resultaram na remoção do
logótipo do Consulado dos principais patrocinadores e na sua associação apenas
aos artistas israelitas que receberam este apoio financeiro específico (leia o
relatório completo).
Podemos
concordar ou discordar com as decisões tomadas por estas organizações. Mas o
questionamento em relação ao papel das instituições culturais na sociedade de
hoje, especialmente o seu papel educativo, deve ser permanente, constante. Tal
como Rebecca Herz, acredito que estas não devem agir independentemente da sua
missão (como é sugerido no acima referido comunicado dos bloggers de museus
norte-americanos), mas qualquer colecção de museu ou temporada de teatro /
orquestra / festival pode ter uma ligação à vida contemporânea e ajudar a
moldar o tipo de sociedade que precisamos ou sonhamos. Como o trabalho de
muitos artistas contemporâneos é uma resposta a assuntos da vida contemporânea, é comum
encontrarmos este género de ligações, assim como uma fértil reflexão à volta deles, na programação de teatros, companhias e galerias (o
Teatro Maria Matos, o Programa Gulbenkian Próximo Futuro ou o alkantara festival são os
primeiros que me ocorrem entre as entidades cuja programação acompanho em Portugal, mas há outros). Os museus ou as orquestras que apresentam obras que não são contemporâneas não estão muito
habituados a procurar ligações entre as suas colecções ou concertos e a vida
contemporânea ou, se o fazem, não se torna perceptível para mim. Muitas vezes
pergunto-me “Qual o propósito desta exposição ou deste concerto?”, “Porque é relevante?”, “Como é
que isto se relaciona com a sociedade portuguesa contemporânea e com a sua
diversidade?” (penso mais uma vez no trabalho inspirador da Orchestra of the Age of the Enlightenment...)
Isto leva-me mais uma vez para uma questão recorrente neste
blog: “accountability” e responsabilidade. Não vejo as instituições culturais
como ilhas, distantes do que está a acontecer no seu redor. Acredito que devem
tornar claro para as pessoas de que forma o que têm a dizer ou mostrar pode ser
relevante para elas; devem partilhar publicamente a sua visão e objectivos e
assumir a responsabilidade pelo seu cumprimento; devem ser um fórum público,
onde as pessoas podem encontrar conforto, mas também o desconforto necessário.
Têm claramente um papel educativo (no sentido de fornecer o que os gregos
antigos chamavam "paideia"), um papel que eu não faria
necessariamente depender do que acontece (ou não acontece) na escola ou em casa
e um papel que não depende, em primeiro lugar, do serviço educativo, mas sim,
do/a director/a.
Dois directores de museus e um curador estarão connosco na
próxima terça-feira, 16 de Dezembro, na conferência da Fundação Gulbenkian
"Que lugares para a educação? A dimensão educativa de instituições
culturais" (mais informações). Charles Esche
(Director do Van Abbemuseum e um dos curadores da Bienal de São Paulo deste
ano), David Fleming (Director dos National Museums Liverpool e Presidente da
Federação Internacional de Museus de Direitos Humanos) e Delfim Sardo (Curador,
Professor Universitário e Ensaísta) irão desafiar-nos a pensar sobre as nossas
responsabilidades e práticas no actual contexto social e político.
Nota: Para
quem não puder estar em Lisboa, a conferência será transmitida em livestreaming. Há uma série de
artigos, posts, textos de opinião e entrevistas na página da conferência (em
“Oradores”, “+Reflexão” e “+Info”).
Mais leituras:
Jean-François Chougnet, Le MuCEM ne doit pas devenir un musée pour touristes
Laura C. Mallonee, A scramble to save protest art, from Ferguson to Hong Kong
Maddy Costa, Can a relationship with theatre change people’s relationship to society?
Maddy Costa, Can a relationship with theatre change people’s relationship to society?
Sunny
Hundal and Nock Cohen, Was the Tricycle Theatre right to ask the UK Jewish Film Festival to ‘reconsider’ its funding?
Mais neste blog:
Monday, 17 November 2014
Isto é publicidade
O que é geralmente entendido como "publicidade"
pelas instituições culturais é um anúncio num jornal ou numa revista com base
no cartaz de uma exposição ou espectáculo e que informa sobre o quê - onde -
quando. Às vezes, esse conceito é transportado para um spot televisivo, onde é
feita alguma “animação” usando a imagem e letras do cartaz, e onde a informação
sobre o quê - onde - quando é também transmitida por via oral. Isto é, factos.
No ano passado, vi no You Tube o spot publicitário de uma
exposição do Museu Nacional Checo em Praga, que me fez pensar. Estava
relacionado com a exposição em 2008 do documento original do "Acordo de
Munique", que tinha sido assinado 70 anos antes, em 1938. Este foi um
acordo entre Grã-Bretanha, Alemanha, Itália e França, que permitiu que
territórios checoslovacos de língua alemã fossem entregues a Hitler.
Isto não é definitivamente o spot televisivo habitual de o
quê - onde - quando. Temos aqui um museu a transmitir uma mensagem e a dirigir
um convite tendo um bom conhecimento do contexto social – político – cultural
em que se insere e com sentido de humor. Curto, intrigante e bastante ousado,
considerando o que os museus, em geral, nos têm habituado. O spot comunica com
os cidadãos da República Checa e com todos nós, sem serem necessárias palavras.
Mais recentemente, fiquei muito agradavelmente surpreendida
com um anúncio "Made in Portugal". A terceira edição do Festival de
Teatro de Montemor-o-Novo foi organizada pela Câmara Municipal de
Montemor-o-Novo, juntamente com uma série de grupos de teatro locais,
contrariando as dificuldades financeiras sentidas no sector cultural,
apresentando-se por toda a cidade e com o objectivo - entre outros - de
envolver a população local, independentemente da sua idade, educação,
conhecimentos ou hábitos prévios de assistir a espectáculos de teatro.
O sentido de humor neste spot voltou a conquistar-me. A
segunda coisa em que pensei foi que “soou” verdadeiro, considerando a missão e
os objectivos do festival, especialmente a preocupação em envolver a comunidade
local, que se torna aqui no protagonista.
O terceiro exemplo que gostaria de apresentar é também
"Made in Portugal" e é mais do que um anúncio, é o que se pode chamar
uma campanha. "Maria & Luiz" é o esforço conjunto dos dois
teatros municipais de Lisboa (Maria Matos e São Luiz) para forjar uma relação
com as pessoas, através da criação de um cartão que custa €10 e que oferece 50%
de desconto ao longo de um ano. A campanha é composta por sete pequenos filmes.
Sete pequenos filmes, sete histórias de romance, vanguarda,
drama, música, expressão, encanto, fantasia. Os ingredientes do quotidiano de
pessoas muito diversas, reflectida de volta para nós quando nos encontramos
numa sala de teatro.
O objectivo da publicidade é construir mensagens capazes de
influenciar comportamentos em relação a um produto ou a uma ideia. Agora que
coloquei estes três exemplos juntos, percebo que o que têm em comum, para além
de sentido de humor, é que estão centrados nas pessoas com as quais desejam
comunicar. Não factos, pessoas. A história não é apenas o documento ou o
festival ou o cartão de desconto; a história não é contada pelo curador, pelo
artista ou pelo gestor. As pessoas comuns tornam-se nos protagonistas e
narradores. As pessoas comuns são a razão de existir das instituições
culturais. É esta a ideia que eu vejo por trás do conceito, é esta a mensagem.
Num meio habituado a comunicar com os “seus” – com aqueles que já fazem parte,
com aqueles que “percebem” – fico feliz por ver que alguns de nós optam por um
outro caminho, por uma outra relação.
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Monday, 16 June 2014
Velhos amigos, novos amigos
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| A Seattle Symphony Orchestra com o Sir Mix-a-Lot |
Quando a questão é a diversificação de públicos, emerge
frequentemente uma preocupação: e se, ao tentarmos estabelecer uma relação com
novas pessoas, estivermos a alienar os nossos velhos amigos, aqueles que nos
têm acompanhado e que nos têm apoiado durante muito tempo?
Quando surge esta questão, penso em dois exemplos.
Primeiro nos EUA, e agora também no Reino Unido e na
Austrália, os teatros promovem as chamadas “sessões descontraídas” (relaxed
sessions). Foram inicialmente introduzidas para permitir a famílias com filhos
autistas assistirem a uma peça de teatro todos juntos, como uma família. As
luzes e o som são regulados, não se exige silêncio absoluto, é permitido às
pessoas saírem da sala em qualquer momento. Pequenas adaptações que acabam por
tornar estas sessões acessíveis também para pais com filhos pequenos, pessoas
com deficiência mental e os seus acompanhantes, pessoas para quem certos
espaços ou formas artísticas são uma novidade, etc. As sessões descontraídas são claramente publicitadas, não só para
se promover a oferta, mas também para informar outras pessoas que estas sessões
apresentarão ligeiras alterações em relação às apresentações habituais. Assim,
estas pessoas podem optar por assistir ou por ir a uma das outras sessões.
A questão é, de alguma forma, a mesma quando se trata de
museus populares ou de exposições blockbuster, que atraem um grande
número de pessoas, muitas das quais vêm pela primeira vez. Filas, muita gente à
frente das obras, fotografias, conversas, barulho, um zumbido constante. Não
propriamente o ambiente que alguns amantes de museus mais gostam. O que fazer?
Para além de controlar as entradas através da venda antecipada online de
bilhetes para períodos específicos de tempo, talvez informar também as pessoas
sobre os períodos mais calmos, que permitem ter uma experiência diferente. Como
no início da manhã ou, especialmente, ao final da tarde; durante os horários
prolongados; em certos casos, à hora do almoço; no meio da semana; em dias
bonitos em vez de em dias de chuva? Vários museus e guias turísticos fornecem
este género de dicas.
Suponho que a verdadeira questão aqui é: haverá apenas uma
forma, a forma de algumas pessoas, de usufruir de uma exposição, uma peça, um
concerto? Haverá uma forma ‘correcta’ de o fazer? Pertencerá esta oferta apenas
a um público específico? Estaremos realmente a afastar os nossos velhos amigos
ao procurar fazer novos?
Gostaria de esclarecer aqui que não estou a sugerir a
alteração da missão ou do produto de uma organização a fim de estabelecer novas
relações. Um produto diferente significaria uma organização diferente, uma
missão diferente e uma relação diferente, não aquela que nos preocupa. Isto
significa que – para dar um exemplo recente – quando a Seattle Symphony Orchestra se
orgulha de ocupar um lugar único no mundo da música sinfónica desde 1903, o seu
concerto com Sir Mix-a-Lot, apesar de aparentemente ter sido muito divertido,
não contribui propriamente para criar uma relação com novas pessoas pelo amor,
compreensão e usufruto da música sinfónica. A orquestra está simplesmente a
entrar num território diferente para trazer mais pessoas e pessoas diferentes
(no entanto, devemos tomar em consideração o facto da senhora que mais parece
ter gostado do concerto ter afirmado que está a pensar voltar e que tem o programa
da orquestra – mas irá voltar para quê?) - leiam o artigo no New York Times.
A oferta cultural não é propriedade de alguns públicos, não pertence a
um número restrito de pessoas. Pertence a todos aqueles que estão interessados
e a todos aqueles que poderiam estar interessados, mas que não tiveram ainda a
oportunidade de experimentar. Assim, acredito que as organizações culturais
podem e devem servir mais que um género de público e com isso quero dizer que
podem procurar formas diferentes de apresentar um produto específico. Às vezes,
poderá não ser possível fazer isto em simultâneo, agradar a todos aos mesmo
tempo; mas é possível fazê-lo separadamente, de forma que todos possam
encontrar aquilo que procuram. Noutros casos, poderá ser possível juntar velhos
e novos amigos, permitindo a cada parte descobrir, possivelmente, novos
aspectos naquilo que pensavam que conheciam.
Ainda neste blog
Monday, 16 September 2013
A reconquista
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| Wolf Trap National Park for the Performing Arts, Washington DC (Photo: bigbirdz on Flickr) |
Na antiguidade, o teatro grego fazia parte do que, hoje em dia, uma pessoa poderia chamar cultura popular ou cultura das massas. Os Gregos Antigos iam ao teatro aos milhares. Traziam comida com eles, porque iam lá passar o dia inteiro. Comiam durante o espectáculo e atiravam comida ou gritavam com os actores quando não estavam a gostar do que estava a ser apresentado. Também intervinham, faziam perguntas e exprimiam opiniões sobre o enredo.
O público de Shakespeare, bastante heterogéneo na sua composição social, era tão barulhento como o público na Grécia Antiga. As pessoas mais pobres pagavam o equivalente a quase um dia de trabalho para ficarem de pé à frente do palco. E pagavam mesmo. Era importante para elas estarem lá, significava algo, tanto pelo que se estava a passar no palco, como fora dele…
Poucos séculos depois, no
final do século XIX, existem registos de pessoas que gritavam ou se metiam em
cima das cadeiras durante concertos de música clássica. E... aplaudiam entre os
movimentos ou sempre que se entusiasmavam com a interpretação.
Porque é que estou
a dizer tudo isto? Para que nos
lembremos todos que as coisas mudam, os hábitos mudam, os gostos mudam. O que
era aceitável antes, já não o é. E o que é hoje, não será amanhã. As coisas
estão novamente a mudar. Hoje em dia, há, por exemplo, pessoas que gostam de
falar durante os concertos de música clássica ou de partilhar ao vivo uma
experiência teatral através do twitter ou de usar todo o género de gadgets
enquanto visitam um museu. Isto faz outras pessoas sentirem-se nervosas e está
a ser montada resistência.
Os apelos para o regresso a uma
experiência de teatro /música / museu mais ‘pura’ estão a multiplicar-se. Pelo
menos ‘pura’ da forma como algumas pessoas a vêem, pessoas que gostam de assistir
em silêncio absoluto a um concerto de música clássica ou de visitar um museu e
simplesmente contemplar uma obra de arte. Esta é, realmente, uma forma de fazer
as coisas. Não é a única. E não é necessariamente mais significativa.
A questão foi novamente levantada
recentemente por Judith Dobrzynski no New York Times, num artigo intitulado High culture goes hands-on. Lamentando a busca de uma ‘experiência’ que tem tomado proporções
gigantescas, Dobrzynski sente claramente saudades dos “tempos passados,
[quando] os museus não precisavam de ser activados”; escreve sobre “a emoção de
estar de pé diante da arte”, chegando à triste conclusão que “isto não é
suficientemente emocionante para a maioria das pessoas”; e, finalmente, avisa:
“Tudo isto faz-se em nome da participação e da experiência – também chamado
envolvimento do visitante – mas altera a própria natureza dos museus e as
expectativas dos visitantes. Altera quem irá aos museus e para quê.”
Dois dias depois, Dennis Kois
respondia com Song of experience,
lembrando, basicamente, que não existe apenas uma forma, válida e
significativa, de fazer as coisas. Podem existir ofertas diferentes para
pessoas diferentes com necessidades diferentes; são diferentes e depende das
próprias pessoas o que é que vão levar com elas.
É exactamente isto que pensei
quando li a seguinte afirmação de Mark Rosen a
propósito dos visitantes do Metropolitan Museum: “… quase todos vêm aqui,
tentam ver tudo em quatro horas ou menos, tiram imensas fotos no Instagram e
vão-se embora, sem se lembrarem de nada.” Rosen está envolvido numa iniciativa
chamada Museum Hack, que propõe várias visitas “não-tradicionais” em museus. No
caso do Met, levam as pessoas a fazer visitas curtas, apresentando-lhes peças
menos conhecidas da colecção. Acho isto muito bem. E, enquanto tenho a certeza
que as pessoas que se juntam a estas visitas divertem-se e aprendem muito,
tenho quase a certeza que turistas que estão pela única vez na vida em Nova
Iorque sentir-se-ão mais satisfeitas e será mais significativo para elas
se tentarem ver e fotografar tudo em quatro horas. E irão lembrar-se de algo.
Todas as experiências são necessárias, são diferentes pontos de entrada, significam
coisas diferentes para pessoas diferentes. A Nina Simon disse-o
maravilhosamente há uns anos num post chamado I am an elitist jerk. Apaixonada por parques naturais, uma visitante com muita
experiência, confessou sentir-se incomodada nos parques nacionais que atraem as
massas. Admitiu ser uma elitista. O que a fez considerar a sua campanha por
museus acessíveis e participatórios. “Nessa viagem, pela primeira vez,
compreendi realmente a posição das pessoas que discordam comigo, aquelas que
sentem que comer e falar alto nos museus não é apenas indesejável, mas
transgressor e doloroso. Para os elitistas, é impossível ignorar a forma como
outros degradam o que é para eles uma intensa experiência estética e emocional.
Compreendo agora.” No entanto, Simon continua e diz que os parques nacionais
não lhe pertencem só a ela e que os mais populares entre eles são um importante
ponto de entrada para pessoas que escolheram lá estar, porque significava algo
para elas. Um dia, algumas delas poderão experimentar um outro parque, mais
remoto e ‘difícil’.
Ou um museu. Ou um teatro. Ou um concerto.
Os nossos conhecimentos e a nossa experiência é algo que construímos. De acordo
com as nossas necessidades, de acordo com o contexto em que nos encontramos.
Assisti a concertos de música clássica em silêncio absoluto, juntamente com
pessoas que ‘sabiam exactamente quando aplaudir’ e saboreando a última nota
tocada até desaparecer e poder (podermos) começar novamente a respirar. Mas
gostei igualmente de concertos de música clássica ao ar livre, juntamente com
centenas de pessoas a fazer picnic sentadas na relva e a conversar sobre
tudo, relacionado ou não com o que se passava no palco.
Sem dúvida, não é sempre fácil dar resposta
a necessidades diferentes no mesmo espaço. Na verdade, foi sempre um desafio.
Mas há duas coisas que me parecem importantes: 1. Reconhecer que existem
necessidades diferentes; e 2. Não julgar uma forma de experiência mais válida
ou significativa do que outra. Isto aplica-se aos profissionais da cultura.
Aplica-se a espectadores e visitantes também.
Ainda neste blog
Como toma o seu El Greco?
Elitismo para todos
Qual o problema com a música clássica? Aparentemente nenhum…
Livres de visitar um museu de arte
Museus: as novas igrejas?
Simon Fairclough, Orquestras em apuros: será mesmo?
More readings
James Durston, Why I hate museums
Mark Tapson, Should museums be more entertaining?
Peter Funt, Theatre for Twits
Richard Dare, The Awfulness of Classical Music Explained
Monday, 22 July 2013
Apresento-vos a Rosa Shaw
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| Rosa Shaw (Foto: Maria Vlachou) |
Apresento-vos a Rosa Shaw. É a primeira pessoa que nos
cumprimenta quando entramos no Kennedy Center for the Performing Arts. É um dos
guardas do memorial e uma das caras da instituição. É bem educada, tem sentido
de humor, é prestável. Quando alguém parece estar perdido ou confuso, não
espera que lhe peçam ajuda, aproxima-se e tenta ver se pode ajudar. A farda
poderia causar alguma inibição nos visitantes – uma preocupação permanente
entre os que trabalham na área da comunicação – mas, olhando para a Rosa e a
forma como faz o seu trabalho, torna-se claro que, mais do que uma questão de
aparência, é uma questão de atitude.
A Rosa faz-me pensar em vários guardas que tenho
encontrado em museus. Pessoas que parecem extremamente aborrecidas e cansadas;
ou pessoas que evitam o contacto visual e depois seguem-nos de perto, apesar de
sermos o único visitante na sala; ou pessoas que estão a discutir em voz alta
os seus problemas familiares ou laborais, não dando nenhuma atenção aos
visitantes. Guardas deste género fazem-me pensar o quão mais interessante seria
o seu trabalho, e qual seria o benefício para o museu ou a instituição cultural
em que trabalham, se lhes fosse dada formação adequada e responsabilidades
diferentes – mais responsabilidades – do que simplesmente estarem sentados numa
cadeira ou de pé num canto, sisudos e aborrecidos, interagindo o menos possível
com os visitantes.
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| Guardas no Brooklyn Museum (Foto: Maria Vlachou) |
Digo isso porque tive também outras experiências. Há três
anos, juntei-me a uma visita guiada à exposição das Tapeçarias de Pastrana no
Museu Nacional de Arte Antiga em Lisboa. Quando a visita acabou, dirigindo-me à
saída, ouvi um guarda a falar com duas senhoras, explicando tudo o que uma
pessoa precisava de saber sobre aquelas obras, mas com um entusiasmo e empenho
que igualava aquele do pessoal do Serviço Educativo. E numa linguagem muito
mais acessível do que aquela dos textos nos painéis. Mais recentemente, numa
visita à exposição de El Anatsui no Brooklyn Museum,
ouvi duas guardas a falar sobre uma das obras. Adorei ouvir a sua conversa.
Mais tarde, uma delas cumprimentou um pequeno grupo de visitantes e ofereceu-se
para tirar-lhes uma fotografia à frente de uma das obras, para poderem ficar
todos nela. Todo o ambiente estava descontraído e amigável e informal, senti
que fazia toda a diferença.
Os guardas dos museus podem parecer silenciosos e
sisudos, até ameaçadores às vezes, mas têm olhos e sentimentos e opiniões sobre
as obras que os rodeiam. Há umas semanas, a Washington Post publicou um artigo
muito interessante sobre os guardas dos museus da capital americana (ler
aqui),
onde falavam das suas obras favoritas e o porquê de serem as suas favoritas.
Uma delas dizia que o facto de trabalhar num museu despertou o seu interesse
pela arte e, consequentemente, fê-la olhar para todas as coisas de uma forma
diferente. Ao ler as suas entrevistas, pensei como gostaria de ter tido uma
conversa directa com eles, como visitante e como profissional.
Numa instituição cultural, o pessoal da Frente de Casa
(sejam eles guardas ou assistentes de sala ou bilheteiros) são algumas das
pessoas mais importantes na equipa no que diz respeito ao marketing
institucional. São a cara, são a voz, são a atitude. São também os ouvidos, uma
vez que estão mais próximos dos visitantes ou espectadores do que a Gestão. O
pessoal da Frente de Casa tem um papel decisivo na qualidade de toda a
experiência de visitar uma instituição cultural. Uma exposição que nos
desiludiu ou um espectáculo que provou ser um desastre não nos vai manter
afastados para sempre; assumimos um risco e sabemos que poderá não vir a
corresponder à expectativa. Por outro lado, se não formos bem tratados, se nos
depararmos com funcionários que são mal educados ou de mau humor, que não têm a
informação que precisamos, que não são prestáveis ou que mostram não se
preocupar, isto poderá fazer toda a diferença e determinar se vamos voltar ou
não. Mesmo quando temos que escolher entre duas exposições ou dois espectáculos
interessantes, é muito provável que o atendimento ao público, o lugar onde nos
sentimos mais bem tratados, faça toda a diferença na nossa decisão.
No entanto, apesar da sua posição e papel estratégicos, o
pessoal da Frente de Casa é normalmente negligenciado pela Gestão; menosprezado
também. Não lhes é dada formação adequada em relações públicas e atendimento ao
público; não lhes é dada informação sobre o que estão a guardar ou a vender ou
o que vão ver as pessoas que encaminham aos respectivos lugares; muito
frequentemente, não lhes é dada sequer informação importante sobre o que se
passa na instituição na qual trabalham em termos de programação ou horários ou
preços / descontos ou outras informações práticas que o público procura (já
alguma vez presenciaram o desconforto e constrangimento de um membro da Frente
de Casa quando não pode responder a uma pergunta lógica ou, pior, quando é
informado pelo público sobre o que se passa na instituição onde trabalha?);
sentem-se frustrados pelo facto da sua opinião não ser tida em conta, até
quando se trata de opiniões e comentários do público que eles simplesmente
transmitem superiormente, porque os ouviram ou porque os receberam.
Os
funcionários da Frente de Casa não são o pessoal que ‘apenas’ guarda ou
‘apenas’ vende ou ‘apenas’ responde ao telefone ou ‘apenas’ leva as pessoas ao
seu lugar. São uma parte valiosa da equipa, a parte mais visível. São aqueles
que dão as boas vindas ao público, que falam com ele, que promovem a
instituição – não apenas os seus conteúdos, mas também a sua visão e os seus princípios.
Parece óbvio e natural que lhes sejam dadas as ferramentas para poderem fazer o
seu trabalho e fazê-lo bem. A Rosa parece ter prazer em fazer o seu trabalho. E
é um prazer vê-la fazê-lo.
Monday, 21 January 2013
Não me mandem calar!
![]() |
| Foto retirada de Culture 24 (© Cedida pela Wallace Collection) |
Em 2003, a Royal Academy teve uma exposição sobre os Astecas. River, uma criança de dois anos, exclamou “Monstro! Monstro!” quando viu a estátua do Homem Águia. O segurança pediu imediatamente à família da criança para sair, considerando que a criança se estava a portar mal. A mãe, Dea Birkett, era jornalista e alguns dias depois escrevia um artigo para o Guardian intitulado Travelling with kids, questionando: “Se restringirmos a sua atracção não filtrada pela arte quando são crianças, como é que podemos exigir que a apreciem quando têm 20 anos? Espero que os meus filhos não se portem mal. Mas gritar de alegria ao ver uma estátua não me parece ser algo reprovável. Ter-me-ia sentido muito mais perturbada se não tiveste reagido de todo. Mas talvez vocês tenham estado nos Astecas também e tenham ficado contentes quando a criança que fazia barulho se foi embora. Talvez eu tenha passado demasiado tempo entre crianças a gritar para perceber o quanto podem ser irritantes? O que acham? O River deveria ficar ou sair…?”. O incidente tinha sido amplamente discutido naquela altura e Dea Birkett fundou Kids in Museums, uma associação que procura tornar os museus mais acolhedores para crianças e famílias. Kids in Museums acaba de celebrar o seu décimo aniversário na… Royal Academy! A responsável pelo serviço educativo do museu. Beth Schneider, aproveitou a oportunidade e escreveu um longo artigo para o Guardian descrevendo todos os passos dados nos últimos dez anos no sentido de tornar o museu mais acolhedor para as famílias e especialmente para visitantes mais novos.
A Tate Modern esteve sob fogo por não pôr fim ao patrocínio da BP depois do desastre
ambiental no Golfo do México em 2010 (leiam aqui e aqui).
Iniciativas como Liberate Tate, Art not Oil e Platform não deixaram este assunto ficar esquecido, não só em relação à Tate, mas a
todas as instituições culturais britânicas patrocinadas pela petrolífera, entre
elas a National Portrait Gallery, a Royal Opera House e o British Museum. No ano
passado, estas instituições renovaram os seus acordos de patrocínio,
considerando que o apoio da BP para a cultura e as artes tem sido consistente e
substancial e não há razão para ser renunciado devido a apenas um incidente
grave. Mesmo assim, o British Museum demonstrou uma grande abertura à crítica e
abriu o seu próprio espaço para esse efeito. Em Novembro passado, teve lugar na
Great Court do Museu uma flashmob teatral, organizada pela Reclaim Shakespeare
Company, um protesto contra o patrocínio da BP à exposição de Shakespeare,
patente no museu. Um assessor de imprensa do museu reafirmou a gratidão da
instituição pelo compromisso continuado da BP e, ao mesmo tempo, reconheceu o
direito da Reclaim Shakespeare Company´s de protestar, afirmando não haver
rancor (ler aqui).
Quando o teatro Woolly Mammoth anunciou
a reposição da peça de Mike Daisey The Agony and the Ecstasy of Steve Jobs,
foi severamente criticado por muitos. O monólogo lidava com e denunciava as práticas corporativas da Apple e da
Foxconn, o fornecedor da Apple na China, mas algum tempo depois da estreia,
Mike Daisey foi acusado de ter fabricado alguns factos. Admitiu a sua culpa,
pediu desculpa publicamente e retirou da peça todos os pontos
contestados. O Woolly Mammoth permaneceu firme na sua decisão de repor a peça e
na sua colaboração de longa data com Mike Daisey. No entanto, em vez de ignorar
a controvérsia, na verdade usou-a para promover o espectáculo como “a peça mais
notória e controversa da década”. Promoveu um diálogo muito saudável tanto com
os opositores como com os apoiantes da decisão na sua página no Facebook e
chegou a alimentar a conversa publicando críticas negativas dos jornais. No
último dia da carreira do espectáculo, o co-fundador da Apple Steve Wozniac,
que não escapou à crítica de Mike Daisey na peça, esteve no teatro para uma
conversa após o espectáculo com o autor e o público.
![]() |
| Mike Daisey em The Agony and Ecstasy of Steve Jobs (Foto: Sara Krulwich/The New York Times) |
Qual o fio condutor destas três histórias? As instituições
culturais envolvidas não esconderam a cabeça na areia, não fingiram não
reparar, não ignoraram as vozes das pessoas. As pessoas foram ouvidas. Não no
sentido de “o cliente tem sempre razão”. Na verdade, em dois dos três casos
aqui apresentados não houve mudança na decisão. Mas entendeu-se que havia um outro lado, pessoas com convicções,
expectativas e necessidades. Não estão aqui para nos adorar incondicionalmente
– ‘nós’, instituições culturais. Estão aqui para nos questionar, para nos
criticar, para exigir e também para nos guiar. Porque se preocupam. E porque
nós nos preocupamos também, não nos escondemos. Entramos
no diálogo, promovemo-lo, alimentamo-lo. Convidamo-los a envolver-se no que fazemos. Tornamo-nos
parte da sua vida. E ganhamos o seu apoio.
Mais
leituras:
Monday, 6 June 2011
A diferença entre "mais" e "diversos"
Antes de falar da notícia que vem do outro lado do Atlântico, volto a afirmar a minha convicção que as entradas gratuitas podem multiplicar as visitas (o que também é desejável), mas não podem, só por si, diversificar o público das instituições culturais, nomeadamente museus e salas de espectáculos. Não me parece realista continuarmos a usar a gratuitidade como um argumento em prol da democracia e da igualdade. Para a maioria das pessoas que não vai aos museus, não é o preço do bilhete (em Portugal, entre €2 e €5 com descontos nos museus nacionais) que constitui a barreira. Da mesma forma, há espectáculos de excelente qualidade com bilhetes a €5 e com pouco público e outros, muito mais caros, que esgotam. O que faz a diferença? A relevância e importância de uma determinada oferta na vida das pessoas. Também o terem ou não conhecimento dessa oferta.
Dito isto, não podemos ignorar o facto de existirem pessoas que desejam participar em actividades culturais, mas que têm que fazer contas à vida. Considerar esta necessidade é uma obrigação para as instituições culturais, em particular aquelas financiadas com dinheiros públicos. Espectáculos de entrada livre ao longo da temporada, preços especiais para todos em certos dias da semana ou entradas gratuitas aos museus em certos dias da semana e do ano, promoções conjuntas entre instituições – tudo devidamente e amplamente divulgado - são uma possível resposta a esta necessidade. Não significa acesso a toda e qualquer oferta? É verdade, mas tudo tem um preço e cada um de nós faz contas e decide em que é que é importante investir e para que é que vale a pena poupar.
Já quando se fala em diversificar o público, o trabalho que as instituições culturais têm que desenvolver é mais complexo. E o primeiro factor a considerar não é o preço. É necessário desenvolver um programa extenso de outreach. Conhecer melhor os hábitos, necessidades e gostos das pessoas com as quais pretendemos estabelecer uma relação é algo que não passa, em primeiro lugar, por oferecer uma entrada gratuita. E se se considerar que é isto que temos que fazer, entre outras coisas, que seja oferecida entrada gratuita a essas pessoas. Porquê estendê-la a todos, até àqueles dispostos e com capacidade de pagar?
Apresentei os meus argumentos contra a gratuitidade em dois posts no ano passado, um sobre museus e outro sobre teatros, aos quais gostava agora de acrescentar dois pontos. Primeiro, mesmo quando a entrada é gratuita, visitar um museu ou assistir a um espectáculo nunca é totalmente gratuito: os transportes (colectivos ou privados) não são gratuitos, o estacionamento em muitos casos também não, a refeição antes ou depois, a necessidade de contratar uma babysitter… São vários os custos associados e podem ser significativos e determinantes na decisão de ir ao museu / teatro ou não. O segundo ponto é que as instituições culturais deverão ter um cuidado particular na forma como defendem e oferecem a gratuitidade. Quando o ser artista é considerado um hobby e não uma profissão, quando grande parte da sociedade vê os artistas como uns subsídio-dependentes que vivem à custa de todos os outros, que mensagem é que as próprias instituições passam quando oferecem este trabalho (feito por profissionais que, muitas vezes, desenvolvem a sua actividade com grandes sacrifícios) gratuitamente?
Passando agora para a notícia transatlântica: o Mixed Blood Theatre na cidade de Minneapolis nos EUA anunciou no mês passado que nas próximas três temporadas os espectáculos serão gratuitos para todos (ler notícia aqui). A iniciativa intitula-se Radical Hospitality (hospitalidade radical). No entanto, o teatro continuará a cobrar para as assinaturas anuais e a disponibilizar bilhetes no valor de $15 a quem quiser comprar antecipadamente e garantir lugar num determinado espectáculo. O director artístico afirmou que esta é "uma forma de cumprir a missão igualitária do teatro, que é ser totalmente inclusivo”. Uma rádio local colocou a questão ao público: Qual a importância do preço na vossa decisão sobre uma opção de entretenimento? Vale a pena ler as respostas das pessoas (ver aqui). Sobretudo porque, ao lado daqueles que afirmam que o preço dos bilhetes é proibitivo (e existem casos que devem ser considerados com atenção, como, por exemplo, os custos para uma família), há outros tantos a dizer que os custos associados a uma saída de casa são demasiado altos; que não conhecem a programação ou a localização; que a oferta cultural é muito variada e existem opções e preços para todos os bolsos.
Gostava, entretanto, de transcrever uma das respostas: “A prioridade de assistir a teatro e música ao vivo é uma questão de qualidade de vida de grande importância para mim e para o meu marido. (…) As pessoas precisam de escolher com atenção, mas devem estar preparadas a pagar pelo empenho e talento incrível que é preciso para produzir eventos culturais ao vivo de qualidade. Estamos dispostos a ter a nossa caderneta de cheques mais leve, para que as nossas vidas não sejam mais pobres”. Quem deu esta resposta não deve ser uma pessoa pobre. Mas penso tratar-se de uma questão de escala e que a maioria das pessoas, dentro das suas possibilidades económicas, diria o mesmo se achasse que aquilo que as instituições culturais lhes oferecem é relevante e importante para as suas vidas. É este o grande desafio para quem trabalha na área da cultura.
Nesta altura de crise e de cortes, os museus nacionais no Reino Unido estão a reconsiderar a aplicação de entradas pagas (ver relatórios sobre o impacto das entradas gratuitas no meu post sobre museus). O Metropolitan Museum of Art - de entrada livre, mas recomendando aos visitantes uma contribuição de $20 – irá aumentar o preço recomendado para $25 a partir de 1 de Julho (ler a notícia aqui; no fim da mesma, apresenta-se um quadro com os preços de entrada em vários museus de arte americanos). Ao mesmo tempo, e dado o sucesso da exposição de Alexander Mc Queen, o museu irá abrir excepcionalmente às segundas-feiras, para receber visitantes dispostos a pagar $50 para visitar a mesma (ler notícia aqui). Há também teatros nos EUA que convidam o público a pagar o que puder para assistir a um espectáculo.
A necessidade de gerar receitas e de trabalhar para a auto-sustentabilidade é real. A preocupação relativamente ao acesso a uma oferta que todos têm o direito de fruir também. No entanto, quando é do acesso que queremos falar, diria que a entrada gratuita é uma medida fácil. E que, mesmo assim, não produz os resultados desejados de diversificação dos públicos. Para isto acontecer, é preciso um esforço muito maior e, em muitos casos, uma mentalidade bastante diferente na forma de fazer a abordagem. A acessibilidade começa na linguagem que usamos.
Mais algumas sugestões de leitura
Museus gratuitos (textos de Gabriela Canavilhas, Luís Raposo e João Neto, DN, 18.04.2011)
Ainda neste blog
Monday, 15 November 2010
O Artigo 27
Esta semana cruzei-me por duas vezes nas minhas leituras com o Artigo 27 da Declaração Universal dos Direitos do Homem, que diz: “Toda a pessoa tem o direito de tomar parte livremente na vida cultural da comunidade, de fruir as artes e de participar no progresso científico e nos benefícios que deste resultam.”
A primeira vez foi no livro No Culture, No Future de Simon Brault. Brault é o Director do National Theatre School of Canada, Vice-Presidente do Canada Council for the Arts e Presidente de Culture Montréal. O seu livro centra-se nas questões ligadas à participação cultural. No primeiro capítulo, “Culture as a forward-looking sector for the future”, o autor apresenta o desenvolvimento de políticas culturais em países como a França, a Grã Bretanha, os Estados Unidos e o próprio Canadá, reflecte sobre as condições de trabalho dos artistas, sobre o impacto económico da cultura e sobre o seu financiamento. É neste contexto que se refere ao artigo 27 e o direito de tomar livremente parte na vida cultural, direito este que justifica o envolvimento governamental no apoio à cultura.
O segundo capítulo do livro, intitulado “Culture as an essential dimension of the human experience”, apresenta a visão que o autor tem da cultura, como uma linha de vida, não apenas como um factor que forma e define cada ser humano, mas também como um factor de civilização e progresso. Brault faz aqui referência ao estudo The Values Study, realizado pela Connecticut Commission on Culture and Tourism com o apoio da Wallace Foundation, que apresenta os resultados de uma centena de entrevistas com cidadãos com níveis variados de participação cultural. São valores comuns entre os entrevistados a experiência estética, valores cognitivos, políticos e espirituais, mas atribuem igualmente importância ao impacto da participação cultural na ligação entre o espírito e o corpo, à apreciação de diferenças étnicas e geracionais, mencionando ainda noções de identidade, auto-estima, orgulho e dignidade. Brault reflecte sobre todos aqueles factores que constituem barreiras à participação cultural (sociais, educacionais, financeiros e outros práticos – falta de tempo, de transporte, etc.) e apresenta uma série de exemplos entre as instituições culturais que procuram providenciar melhor acesso, contextualizando a sua oferta, simplificando o discurso, promovendo encontros entre artistas e público, mas também fazendo a legendagem das óperas, transmitindo os espectáculos ao vivo em cinemas, organizando actuações ao ar livre e completando a experiência também do ponto de vista social (restaurantes, bares, lojas, etc).
Descobri neste segundo capítulo que na Bélgica existe a Associação Artigo 27, que reúne várias instituições culturais e cujo papel é considerado exemplar na área da democracia cultural (não encontrei o site da Associação, mas existe uma referência à sua actividade aqui). A Associação disponibiliza bilhetes gratuitos ou a preços muito baixos, em muitos casos bilhetes que não foram vendidos, a todos aqueles que têm dificuldades financeiras e que doutra forma não poderiam assistir a espectáculos. A ideia agora é alargar a oferta a outras actividades culturais e artísticas, para além das artes performativas. Uma iniciativa que pode fazer muito sentido e que pode até criar alguma receita, mas que se concentra na eliminação da barreira financeira, o que não me parece suficiente para considerar a sua acção fundamental para a democracia cultural. A grande questão aqui não é o dinheiro (pode ser também), mas sim as barreiras mentais e cognitivas.
Simon Brault abraça a declaração “Uma cultura elitista para todos”, pronunciada pelo encenador francês Antoine Vitez, e defende que, para além de apoiar, proteger e financiar arte de excelência, é importante não se esquecer da necessidade de desenvolver também a procura. No terceiro capítulo do seu livro, apresenta a cidade de Montreal como um estudo de caso na criação de uma política de desenvolvimento cultural numa cidade que se quer uma metrópolis.
O livro de Simon Brault não me trouxe propriamente algo de novo. Mas é um livro bem escrito, por alguém que acredita no que está a fazer e que o faz de forma apaixonada e dedicada.
A segunda referência ao Artigo 27 encontrei-a no editorial de Sharon Heal na revista Museums Journal do mês de Outubro (revista mensal da Museums Association). No mês de Setembro realizou-se em Liverpool a conferência inaugural da Federation of International Human Rights Museums. A Federação reúne museus que lidam com as temáticas da escravatura, dos direitos humanos ou do Holocausto, museus esses cuja missão é também educar e fazer campanha pelo respeito e contra o abuso dos direitos humanos. No seu editorial Sharon Heal defende que lidar com estas questões não deve ser da exclusiva responsabilidade de museus cuja temática está directamente ou obviamente ligada a elas. Invocando o Artigo 27, Heal lembra que os direitos culturais são direitos humanos e defende que todos os museus devem olhar para as suas comunidades locais e tentar perceber se existem nelas pessoas que são financeiramente, intelectualmente ou socialmente excluídas. E se sim (sabemos que sim), não têm a obrigação de fazer algo?
Até agora não tinha reflectido sobre a questão da participação cultural e do desenvolvimento de novos públicos à luz do Artigo 27. Tão preocupados que todos estamos em provar o valor da cultura e convencer governantes, mecenas, patrocinadores e a sociedade em geral da importância e necessidade de a apoiar, que esquecemos muitas vezes que a participação na mesma é um direito declarado. Por isso, o ponto de partida, tal como defendi no post Quem merece ser financiado (II), deveria ser outro: o de facilitar o acesso (físico, cognitivo e financeiro).
A primeira vez foi no livro No Culture, No Future de Simon Brault. Brault é o Director do National Theatre School of Canada, Vice-Presidente do Canada Council for the Arts e Presidente de Culture Montréal. O seu livro centra-se nas questões ligadas à participação cultural. No primeiro capítulo, “Culture as a forward-looking sector for the future”, o autor apresenta o desenvolvimento de políticas culturais em países como a França, a Grã Bretanha, os Estados Unidos e o próprio Canadá, reflecte sobre as condições de trabalho dos artistas, sobre o impacto económico da cultura e sobre o seu financiamento. É neste contexto que se refere ao artigo 27 e o direito de tomar livremente parte na vida cultural, direito este que justifica o envolvimento governamental no apoio à cultura.O segundo capítulo do livro, intitulado “Culture as an essential dimension of the human experience”, apresenta a visão que o autor tem da cultura, como uma linha de vida, não apenas como um factor que forma e define cada ser humano, mas também como um factor de civilização e progresso. Brault faz aqui referência ao estudo The Values Study, realizado pela Connecticut Commission on Culture and Tourism com o apoio da Wallace Foundation, que apresenta os resultados de uma centena de entrevistas com cidadãos com níveis variados de participação cultural. São valores comuns entre os entrevistados a experiência estética, valores cognitivos, políticos e espirituais, mas atribuem igualmente importância ao impacto da participação cultural na ligação entre o espírito e o corpo, à apreciação de diferenças étnicas e geracionais, mencionando ainda noções de identidade, auto-estima, orgulho e dignidade. Brault reflecte sobre todos aqueles factores que constituem barreiras à participação cultural (sociais, educacionais, financeiros e outros práticos – falta de tempo, de transporte, etc.) e apresenta uma série de exemplos entre as instituições culturais que procuram providenciar melhor acesso, contextualizando a sua oferta, simplificando o discurso, promovendo encontros entre artistas e público, mas também fazendo a legendagem das óperas, transmitindo os espectáculos ao vivo em cinemas, organizando actuações ao ar livre e completando a experiência também do ponto de vista social (restaurantes, bares, lojas, etc).
Descobri neste segundo capítulo que na Bélgica existe a Associação Artigo 27, que reúne várias instituições culturais e cujo papel é considerado exemplar na área da democracia cultural (não encontrei o site da Associação, mas existe uma referência à sua actividade aqui). A Associação disponibiliza bilhetes gratuitos ou a preços muito baixos, em muitos casos bilhetes que não foram vendidos, a todos aqueles que têm dificuldades financeiras e que doutra forma não poderiam assistir a espectáculos. A ideia agora é alargar a oferta a outras actividades culturais e artísticas, para além das artes performativas. Uma iniciativa que pode fazer muito sentido e que pode até criar alguma receita, mas que se concentra na eliminação da barreira financeira, o que não me parece suficiente para considerar a sua acção fundamental para a democracia cultural. A grande questão aqui não é o dinheiro (pode ser também), mas sim as barreiras mentais e cognitivas.
Simon Brault abraça a declaração “Uma cultura elitista para todos”, pronunciada pelo encenador francês Antoine Vitez, e defende que, para além de apoiar, proteger e financiar arte de excelência, é importante não se esquecer da necessidade de desenvolver também a procura. No terceiro capítulo do seu livro, apresenta a cidade de Montreal como um estudo de caso na criação de uma política de desenvolvimento cultural numa cidade que se quer uma metrópolis.
O livro de Simon Brault não me trouxe propriamente algo de novo. Mas é um livro bem escrito, por alguém que acredita no que está a fazer e que o faz de forma apaixonada e dedicada.
A segunda referência ao Artigo 27 encontrei-a no editorial de Sharon Heal na revista Museums Journal do mês de Outubro (revista mensal da Museums Association). No mês de Setembro realizou-se em Liverpool a conferência inaugural da Federation of International Human Rights Museums. A Federação reúne museus que lidam com as temáticas da escravatura, dos direitos humanos ou do Holocausto, museus esses cuja missão é também educar e fazer campanha pelo respeito e contra o abuso dos direitos humanos. No seu editorial Sharon Heal defende que lidar com estas questões não deve ser da exclusiva responsabilidade de museus cuja temática está directamente ou obviamente ligada a elas. Invocando o Artigo 27, Heal lembra que os direitos culturais são direitos humanos e defende que todos os museus devem olhar para as suas comunidades locais e tentar perceber se existem nelas pessoas que são financeiramente, intelectualmente ou socialmente excluídas. E se sim (sabemos que sim), não têm a obrigação de fazer algo?
Até agora não tinha reflectido sobre a questão da participação cultural e do desenvolvimento de novos públicos à luz do Artigo 27. Tão preocupados que todos estamos em provar o valor da cultura e convencer governantes, mecenas, patrocinadores e a sociedade em geral da importância e necessidade de a apoiar, que esquecemos muitas vezes que a participação na mesma é um direito declarado. Por isso, o ponto de partida, tal como defendi no post Quem merece ser financiado (II), deveria ser outro: o de facilitar o acesso (físico, cognitivo e financeiro).
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