Monday, 5 July 2010

Patrocínios: benção ou maldição?

Foto: Akira Suemori/AP

Teatro Nacional São João com 600 mil euros em falta para cumprir programação era o título de uma notícia no Público no passado dia 30 de Junho. No artigo lia-se que o prestigiado teatro nacional tinha perdido o mecenato da REN – Rede Energética Nacional e que o seu director estava confiante que, mesmo numa altura de crise, e dado o prestígio e a história do Teatro São João, apareceria alguém a querer ajudar.

É normalmente em alturas de crise ou de cortes que nós, instituições culturais e profissionais do sector, começamos a falar de fontes de financiamento alternativas e, mais concretamente, de patrocínios ou de mecenato. Aquilo que deveria ser um trabalho permanente e consistente de angariação de fundos, desassociado de momentos de crise, passa a ser um grito de socorro, que nos coloca no lugar do parente pobre, do ‘coitadinho’, que está à espera que alguém tenha pena e o salve.

Não consigo imaginar qual seria a empresa que investiria o seu dinheiro por pena, por querer salvar alguém que esteja a afogar-se. Não quero, obviamente, pôr em causa o prestígio do Teatro Nacional São João ou de qualquer outra instituição cultural. Antes pelo contrário, considero que é este mesmo prestígio e o trabalho continuado e de grande qualidade que deveria ser a notícia que os eventuais patrocinadores iriam ler.

Não vamos encontrar patrocinadores através de anúncios nos jornais. Foi exactamente isso que Carlos Fragateiro fez, há uns anos atrás, quando era director do Teatro Nacional D. Maria II (ver notícia no Diário de Notícias aqui), e, como era de esperar, não houve resultados. Nuno Carinhas, director do Teatro Nacional São João, volta agora a fazer o mesmo. Não se deve anunciar que se procura um patrocínio porque houve um corte; porque se perdeu uma outra fonte de financiamento; porque falta algum dinheiro para se conseguir cumprir a programação. Um patrocínio é uma parceria entre pares, onde ambas as partes têm algo a ganhar. A angariação de fundos deveria ter como objectivo fazer mais e melhor, ir cada vez mais longe, e não colmatar dificuldades financeiras. Os projectos propostos – institucionais ou programáticos – deveriam ser projectos fortes, de qualidade, bem estruturados, aliciantes, projectos que certas empresas, por razões de prestígio e no âmbito da sua política de branding, não iam querer perder a oportunidade de se associar.

Tudo isso faz-me pensar em toda a polémica relativamente ao mecenato da BP à Tate Modern. Uma festa para a celebração dos 20 anos desse patrocínio provocou uma onda de protestos por parte de muitos artistas e tem resultado numa intensa troca de opiniões no jornal Guardian desde o final do mês passado. Tudo devido ao acidente, em Abril passado, na plataforma da BP no Golfo do México que causou o maior desastre ambiental dos últimos anos, ou de sempre.

Jonathan Jones, no seu artigo intitulado
Tate is right to take BP´s money, foi provocador. Num momento de grandes cortes, como é o momento actual no Reino Unido, “se [os museus] pudessem conseguir dinheiro do próprio Diabo, deveriam aceitá-lo”, afirmou Jones. Quanto ao patrocínio da BP à Tate, questionava o que é que afinal a BP ganhava pelo facto de ser mecenas desse prestigiado museu. “…nem sequer sabia que era o mecenas da Tate – até agora. Se o apoio à Tate é suposto associar a BP à arte cool, tem sido um fracasso. Devo ter visto o logo da BP mil vezes em comunicados de imprensa e nunca o fixei na minha cabeça. Nunca pensei Tate=BP, muito menos Tate=BP=o petróleo é bom”.

John Sauven dava a resposta no seu excelente artigo
BP arts sponsorship: can Tate afford it?. “Até o desastre no Golfo do México, o girassol verde da BP encontrava-se em locais cuidadosamente escolhidos, desenhados para dar à empresa um ar autoridade limpa, britânica: Covent Garden, os prémios National Portrait, uma nova exposição na Tate. Estes são alguns dos nossos passatempos favoritos e para a BP este factor de bem-estar simplesmente não tem preço”.

É esta a associação que as empresas procuram e não salvar-nos das nossas dificuldades financeiras. Às vezes as coisas podem não correr como era previsto ou desejável. O desastre no Golfo do México e as responsabilidades da BP colocam agora a Tate numa posição muito difícil. Uma instituição que proclama que não aceita fundos de um patrocinador que tem agido ilegalmente na aquisição dos mesmos e que pretende ser um líder na resposta às alterações climáticas, tem agora algumas decisões difíceis pela frente. As opiniões dividem, como se pode ver no artigo
Crude awakening: BP and the Tate, para o qual o Guardian entrevistou várias figuras ligadas à cultura. Uma leitura muito interessante.

Monday, 28 June 2010

Sobre a entrevista da Ministra

A entrevista da Ministra da Cultura, Gabriela Canavilhas, ao jornal Público (ler aqui), no passado dia 25 de Junho, dá notícia de cortes muito significativos na área da cultura, que irão afectar todos os sectores, alguns de forma preocupante (como é o caso da Direcção-Geral das Artes).

Considero que há vários pontos que mereciam ser melhor explicados. Aliás, as reacções de vários agentes culturais, que obrigaram o Ministério a emitir um comunicado no mesmo dia da publicação da entrevista (ler notícia
aqui), indicam que tem, aparentemente, havido pouco diálogo e partilha de informações. Todos se mostram solidários, mas não gostam de ser apanhados de surpresa e sentem que deveriam estar mais envolvidos na procura de soluções. Faz sentido.

Na minha opinião, a Ministra da Cultura tem mostrado ser uma pessoa que sabe o que quer, confiante, corajosa e concentrada. Procurou rapidamente informar-se sobre a situação dos vários sectores da área da cultura e tomou iniciativas que iriam dar início a processos que procuram dar respostas a questões pendentes há muito.

Por isso, fico sempre desiludida quando sinto que a Ministra foge às questões que lhe são colocadas e chega até a dar informações pouco precisas ao público em geral. Utiliza, digamos assim, ‘truques’ de político, mas que não funcionam com as pessoas que têm um conhecimento mais profundo do sector e, repito, mantém desinformado o cidadão comum.

Foram dois os pontos na entrevista do passado dia 25 que me causaram este sentimento, ambos relacionados com os museus. Primeiro, quando questionada sobre o processo polémico da transferência do Museu Nacional de Arqueologia, a Ministra respondeu:

“… A visibilidade pública da polémica, se virmos com atenção, tem sido motivada por apenas duas ou três pessoas. Não tem uma dimensão grande. É o movimento restrito de um grupo restrito. O facto de ter muita visibilidade nos jornais não significa que seja emanado de uma força civil com significado.”

“Raramente na cultura as movimentações vêm de grandes forças civis”, insistiu a jornalista Vanessa Rato.

”Olhe que não”, respondeu a Ministra. “Veja o caso do Museu de Arte Popular. Foi um movimento, esse sim, com uma força muito interessante. No caso da Arqueologia é o director e duas ou três pessoas mais...”.

Não quero acreditar que a Ministra não tenha conhecimento da discordância de grande parte dos profissionais dos museus, da actividade intensa do Grupo de Amigos do Museu de Arqueologia, da discussão acesa no blogue desse mesmo grupo, da declaração da Assembleia-Geral da Comissão Nacional do ICOM (International Council of Museums) que deu origem a uma petição. Todas essas pessoas não se manifestam simplesmente contra a transferência do museu. Manifestam-se contra a transferência enquanto não houver um estudo que garanta que a Cordoaria tenha as condições necessárias para receber uma colecção de extrema importância nacional.

Mas diria mais. Mesmo que fossem apenas duas ou três as pessoas que se manifestam contra a transferência do museu, mesmo que fosse apenas uma, o Director, o facto de se tratar de profissionais da área deveria ser suficiente para a Ministra prestar mais atenção e não procurar minimizar ou ignorar a validade das suas opiniões e acções. Porque o Luís Raposo é um excelente profissional. Porque é uma pessoa de diálogo, que procura o consenso. E porque não está a fazer uma birra. Está a cumprir as suas funções, procurando garantir, em nome de todos nós, as condições para a salvaguarda da colecção do Museu Nacional de Arqueologia.

O segundo ponto que me incomodou na entrevista da Ministra foi quando foi questionada sobre articulação do Ministério da Cultura com o Ministério da Economia, dando como exemplo o caso da exposição “Encompassing the Globe”.

“Não acompanhei esse processo, estava nos Açores”, respondeu Gabriela Canavilhas.

Ora, já todos sabemos que os objectivos dessa exposição não foram minimamente cumpridos e que os custos para o Estado, para os contribuintes, foram significativos. Os pormenores foram publicados no Público no dia 21 de Abril (ler
aqui), já Gabriela Canavilhas era Ministra da Cultura. No meu post de 26 de Abril, intitulado O MNAA é notícia, comentava sobre o facto do ex-Ministro da Cultura, José António Pinto Ribeiro, Ministro responsável pela vinda da exposição a Portugal, ter-se mostrado indisponível para comentar as notícias. Considerava ser uma obrigação perante os cidadãos o ex-Ministro assumir as suas responsabilidades e responder às perguntas que lhe eram colocadas. De igual modo, acho que não foi correcto a actual titular da pasta ter evitado responder quando questionada sobre a eficácia das parcerias entre o seu Ministério e o Ministério da Economia. Mesmo que continuasse nos Açores, teria, concerteza, tomado conhecimento das notícias. A questão colocada é muito pertinente e esperava que uma Ministra que sabe o que quer, confiante, corajosa e concentrada, teria respondido de forma clara, garantindo que casos de má gestão de dinheiros públicos, como o da exposição “Encompassing the Clobe”, não voltarão a repetir-se.

Monday, 21 June 2010

Notícias da crise grega

Petros Tatoulis, ex-Vice-Ministro da Cultura grego, afirmava no dia 9 de Maio ao jornal Kathimerini: “O Ministério da Cultura precisa de um hard reset! E o timing não poderia ser melhor. Como não há dinheiro, é uma oportunidade única para se fazerem reformas radicais. Se não acontecerem agora, nunca acontecerão! E o sector apagar-se-á.”

Nesta altura de crise, os olhos estão postos no Ministério da Cultura (mais precisamente, depois das últimas eleições, no Ministério da Cultura e do Turismo) e nos organismos por ele tutelados. De acordo com o artigo de Iota Sykka, são as orquestras e os museus que irão sofrer as maiores mudanças e fusões. Demasiadas orquestras para um país do tamanho da Grécia, algumas delas orquestras-fantasma, sobreposições, os mesmos músicos a tocar em várias delas.
Quanto aos museus, a primeira fusão a anunciar será a do Museu do Cinema com o Centro Grego de Cinema na cidade de Thessaloniki, a segunda maior cidade da Grécia. Considera-se ainda certa a fusão do Organismo para a Promoção da Cultura Helénica e do Fundo de Recursos Arqueológicos. Há anos que se falava da sobreposição de competências, no entanto, o primeiro continuou a servir como fonte de emprego para os apoiantes dos partidos que estavam no governo. As receitas de ambos são decepcionantes, os serviços prestados medíocres ou inexistentes. O actual Ministro da Cultura, Pavlos Geroulanos, ambiciona criar um novo organismo que terá “a orientação para o desenvolvimento do Organismo para a Promoção da Cultura Helénica e o perfil comercial do Fundo de Recursos Arqueológicos”. Existe ainda a Fundação para a Cultura Helénica, que não apresenta um deficit, mas cujo perfil o Ministério gostaria de definir melhor, estudando desde já a fusão dos seus anexos no estrangeiro com os postos de Turismo.

Mudanças ainda no teatro. Os teatros nacionais foram já avisados que, se ultrapassarem os seus orçamentos, deverão procurar fontes alternativas de financiamento (não deveria acontecer de qualquer forma e em quaisquer circunstâncias, pergunto eu…). Está ainda a ser estudado o futuro dos Teatros Periféricos Municipais, uma rede que foi criada no início dos anos 80 - por iniciativa da Ministra da Cultura de então, Melina Merkouri - promovendo a descentralização e o enriquecimento da vida cultural das sociedades locais. Trinta anos após a sua criação, os 16 teatros apresentam oficialmente as duas produções e uma peça infantil a que são obrigados. De resto, funcionam como companhias de teatro comercial que apresentam em itinerância durante o verão produções de qualidade duvidosa. Conforme se lê num artigo da jornalista Sandra Voulgari (Kathimerini, 23/05/2010), além de algumas, poucas, excepções, a maioria dos Teatros Periféricos Municipais encontra-se em decadência. Os directores artísticos dos teatros mais bem-sucedidos defendem a sua continuação, mas pedem reformas. O actor Panos Skouroliakos, director artístico do teatro da região de Roumeli, fala de pessoal a mais (resultado das ‘inevitáveis’, na sociedade grega, cunhas), cujos ordenados absorvem 80% do orçamento, deixando apenas €60.000 para a produção. Yiannis Karachissaridis, director do teatro da cidade de Kozani, defende que se deve apostar no aumento da produtividade e simultaneamente no decréscimo do financiamento por parte do estado em 30%, estimulando o verdadeiro desenvolvimento. Sem fechar nenhum dos 16 teatros, propõe a sua fusão em 6 sociedades anónimas. Ninguém seria despedido, mas haveria menos directores artísticos. Afirma ainda que com um financiamento no valor de €370.000 as seis sociedades seriam capazes de cumprir as suas funções.

Ainda na área das artes performativas, numa tentativa de acabar com a atribuição de subsídios directamente do gabinete do ministro (uma prática que dura há muitos anos), foi criado o Registo online das Estruturas Culturais. Qualquer estrutura interessada em ser subsidiada poderá inscrever-se, sendo que todos os pedidos serão apresentados online, juntamente com o historial de cada estrutura subsidiada e dados sobre a sua situação financeira. Os pedidos serão analisados por comissões específicas para cada área.

Quanto aos proprietários das galerias de arte, conforme se lê num artigo de Elias Maglinis (Kathimerini, 02/05/2010), a maioria sente sobretudo o efeito psicológico da crise nos compradores médios e nos que entraram recentemente neste negócio. Não é tanto a falta de dinheiro, mas a incerteza sobre o futuro. Angeliki Antonopoulou, proprietária da galeria a.antonopoulou.art, chegou a um acordo com os artistas que representa para baixar os preços a 30%. “Temos que nos adaptar”, afirma. No entanto, Elisa Grigoraki, proprietária da Galeria de Arte de Atenas, acredita que seja muito possível que algumas pessoas invistam em obras de arte de forma a proteger o seu dinheiro. “Até durante a ocupação alemã [1941-44] havia movimentação no mercado das obras de arte”, afirma. Uma nota mais positiva vem da parte dos irmãos Kalfayan, proprietários das galerias homónimas. Consideram que a situação está sob controlo. Têm novos compradores, estiveram presentes em feiras em Colonha, Bolonha, Dubai, Los Angeles, Nova Iorque. “É uma pena que não tenha havido mais galerias gregas a marcar presença, porque com o florescer do mercado na Grécia, poderiam ter feito este investimento e ajudar-se a si próprias (…) A oportunidade para a promoção dos nossos artistas no estrangeiro é grande.” Neste ambiente de crise, os irmãos Kalfayan vão expandir um dos seus espaços em Atenas e abrir uma nova galeria numa cidade da periferia.
As afirmações do Presidente do Conselho de Administração do Megaron, a ‘Casa da Música’ de Atenas, trazem também uma nota menos alarmista, mais realista, pragmática, e ao mesmo tempo sensível: “Numa altura de crise económica, social e moral, a cultura é o antídoto”, diz Ioannis Manos (Kathimerini, 09/05/2010 - ler a entrevista em inglês aqui). Acredita em organismos que sabem combinar a dimensão visionária com a gestão correcta, a programação com a imaginação. O Megaron funciona sob a égide do Ministério da Cultura, cujo financiamento cobre 38% do orçamento, mesmo assim, registando um decréscimo de 35% relativamente ao ano anterior. O restante dinheiro vem das vendas de bilhetes, das conferências e alugueres de espaços e também dos patrocínios, que em 2010-2011 serão superiores aos do período passado. Prova que os patrocinadores confiam na instituição e acreditam nas suas perspectivas. Mesmo assim, e antes do governo anunciar as suas medidas de austeridade, a Direcção do Megaron tinha tomado a iniciativa de reduzir o seus ordenados a 10% e os membros da Kamerata, orquestra residente, a 20%. Ioannis Manos afirmou que o Megaron irá procurar uma estratégia mais agressiva para atrair conferências, assim como um sistema que garantirá patrocínios plurianuais.

Regressando à entrevista com o ex-Vice-Ministro da Cultura Petros Tatoulis (Kathimerini, 09/05/2010), vejamos quais considera que deveriam ser os principais objectivos: “Primeiro objectivo: uma nova organização, com abertura para a sociedade. Segundo: providenciar ferramentas institucionais para uma maior flexibilidade e descentralização. Terceiro: encontrar fontes alternativas de financiamento. Quarto: hierarquizar as prioridades. Quinto: seleccionar “máquinas a vapor” culturais que irão puxar pelos restantes.”
Coisas óbvias, parece… No entanto, são anos e anos de má gestão, falta de visão, falta de coragem, falta de disciplina, um orçamento e muitos organismos públicos ao serviço dos interesses dos partidos e das necessidades e exigências dos seus apoiantes. Um ciclo vicioso, do qual, realmente, o país em geral, e o sector da cultura em particular, poderão ser obrigados a sair. Vai acontecer? Será possível mudar a mentalidade grega, as formas de estar e de agir? Uma altura de crise, de pouco dinheiro, é, realmente, ideal para 'forçar' reformas e mudanças. É uma oportunidade que a Grécia, no meio de todos os seus problemas e por causa deles, não deveria perder.

Monday, 14 June 2010

Arte, política e boicotes

Às notícias sobre o ataque israelita contra os navios que pretendiam levar ajuda humanitária à faixa de Gaza, no passado dia 31 de Maio, seguiram-se sucessivas notícias sobre o cancelamento de vários concertos que iriam ser realizados em Israel por artistas internacionais (ler artigo no New York Times aqui). O grupo americano The Pixies, cujo primeiro concerto em Israel era muito esperado, pediu desculpa aos fãs, mas “eventos que nos são alheios conspiraram contra nós”. Por outro lado, Elvis Costello, que inicialmente pareceu que não ia voltar atrás com a sua decisão de actuar em Israel, justificou, através de um comunicado no seu website, a sua mudança de opinião e o cancelamento do seu concerto como “uma questão de instinto e consciência”.

Ao mesmo tempo, os jornais franceses davam a notícia do cancelamento da projecção do filme de um realizador israelita, uma comédia romântica, na rede de salas de cinema Utopia, uma decisão que mereceu a intervenção do Ministro da Cultura francês e que mais tarde foi revogada (ver artigo no Le Monde aqui).

Através destas leituras, descobri a Palestinian Campaign for the Academic and Cultural Boycott of Israel, que nasceu em 2004 por um grupo de académicos e intelectuais palestinianos que apelam ao boicote considerando que a grande maioria dos intelectuais e académicos israelitas tem contribuído directamente para a ocupação israelita ou, no mínimo, tem-se mostrado cúmplice através do seu silêncio. Por outro lado, li o editorial do Le Monde no dia 9 de Junho, intitulado Ne boycottons pas les artistes israéliens, que caracterizava este género de boicote como uma resposta perigosa e inaceitável, que contribuiria para fragilizar vozes e olhares israelitas que são entre os mais intransigentes no que diz respeito ao governo do seu país.

Em situações como esta, muitas vezes ouvimos dizer que não se deve misturar a arte com a política. Eu diria que o que não se deve fazer é colocar a arte ao serviço de interesses políticos, não se deve instrumentalizá-la. Mas a arte não é criada no vácuo. E por isso, respeito profundamente os artistas que não se mostram alheios ao que se passa à sua volta, que tomam posição. Ao ler as declarações dos Pixies ou de Elvis Costello, senti que faltava algo na sua argumentação, que na verdade era mais instinto do que consciência. No entanto, o cancelamento dos seus concertos, entre vários outros, chama, sem dúvida, a atenção para uma situação trágica, injusta, revoltante. Suponho que os sentimentos do público israelita face a estes desenvolvimentos variem. Aliás, o artigo no New York Times fala de pessoas que vêem neles um claro sinal que o seu país se torne cada vez mais isolado, assim como fala de pessoas que se sentem incompreendidas pelo resto do mundo. De qualquer modo, estes artistas famosos levaram o seu público e não só, mesmo que de forma aparentemente pouco consciente, ao debate e à reflexão. Nesse mesmo artigo, o agente que promoveu a ida dos Pixies a Israel falou ao New York Times de “terrorismo cultural”. Enfim, muitos israelitas têm uma forma muito particular de definir a palavra ‘terrorismo’ (mas não são os únicos).

No entanto, a decisão de um artista estrangeiro de não actuar em Israel e o boicote aos artistas ou intelectuais israelitas não são os dois lados da mesma moeda. A jornalista grega Katerina Voussoura passou uma semana em Israel em finais de Maio e acompanhou a cena cultural contemporânea do país, dando-nos a conhecer vários artistas num artigo publicado no jornal Kathimerini e intitulado Israeli artists challenge identity issues
. Nesse artigo apresenta-nos o trabalho daqueles que vivem a trabalham no terreno, pouco promovidos pelos media, pouco conhecidos, por isso, e pouco ouvidos, e que questionam constantemente a identidade israelita, desenvolvendo os seus processos de paz, numa escala infinitamente mais pequena, mas não por isso menos significativa.

Assim, ficámos a conhecer o Acco Theater Center
, situado na cidade de Acco no norte de Israel. Considerando que o teatro tem um papel fundamental em estimular uma catarse individual e colectiva, há mais de 20 anos que este grupo promove encontros entre artistas judeus e árabes, dá voz às histórias dos residentes locais, desafia a apatia, o medo e o isolamento e convida a comunidade local a abrir os seus corações e as suas mentes e a considerar alternativas. A co-fundadora e directora artística do grupo, Smadar Yaaron, apresentou recentemente a sua última criação, Wishuponastar, onde, através do casamento com a Estrela de David, apresenta e a seguir desconstrói uma série de estereótipos da identidade contemporânea israelo-judáica.



Outros casos apresentados no artigo do jornal grego são o do Arab-Hebrew Theater of Jaffa
, situado na cidade omónima, constituído por dois grupos que produzem peças em conjunto ou separadamente, com artistas Judeus e Árabes, em ambas as línguas; e ainda o Ruth Kanner Theater Group, em Tel Aviv, que através de textos hebráicos – trabalhos literários, produtos de investigação das tradições locais e material documentário -, procura re-examinar as narrativas oficiais e questionar a relatividade da verdade e a sua dependência do olhar do observador.



Idan Raichel é outro artista citado no artigo. O seu projecto musical Idan Raichel Project foi apresentado em 2002 e promove artistas de várias zonas produzindo canções em várias línguas. Este projecto levou pela primeira vez a música das minorias às rádios israelitas. “É importante que as pessoas conheçam as culturas da Síria e do Líbano, que saibam que do outro lado da fronteira existe um vizinho, não um inimigo”, diz Idan Raichel.

Nenhum destes artistas, e outros até mais conhecidos (por exemplo, o projecto East-western Divan Orchestra), tem ilusões quanto ao impacto do seu trabalho. Nem o teatro, nem a música, nem a literatura, nem o cinema, irão trazer a paz no Médio Oriente. De qualquer forma, não é com este objectivo que trabalham. Mas trabalham, existem, pensam, questionam, desafiam, tomam posição. Numa luta constante contra a ignorância. Boicotá-los, devido à sua nacionalidade, seria discriminá-los, eles que trabalham contra a discriminação. Seria censurá-los, eles que trabalham pela liberdade da expressão. Seria fragilizá-los, como se dizia no editorial do Le Monde, eles que são muitas vezes vistos como ‘traidores’.

Duas sugestões de leitura:
- O perfume da nossa terra: vozes da Palestina e de Israel, de Kenize Mourad (ed. ASA). Um trabalho jornalístico que dá voz às pessoas que se encontram nos dois lados do conflito.
- The attack, de Yasmina Khadra. Um romance sobre um médico israelita-árabe que descobre que a sua mulher, que tinha sido morta num ataque, tinha sido ela própria a bombista suicida.

Monday, 7 June 2010

Escritores e museus

A semana passada li na revista Intelligent Life um artigo da série Authors on Museums (Escritores sobre Museus). Tratava-se de um texto do escritor mexicano Carlos Fuentes sobre o Museu de Antropologia de Xalapa no México, intitulado Moving in Time and Space. Começava assim:

“Sempre tentei visitar os museus que gosto como se fosse a primeira vez. Às vezes a tentativa tem sucesso, outras vezes não. Quando o museu revisitado me faz sentir como se estivesse apenas a repetir uma experiência, fujo para o café mais próximo. Os museus, como os amantes, podem perder o seu charme. Mas a próxima vez pode sempre ser a primeira vez.”

Achei a introdução maravilhosa, esta forma de se falar da relação com um museu. Li o resto do artigo, um lindo relato sobre as terras por onde o escritor passou até chegar a Xalapa, na companhia de dois escritores sul-americanos, e depois sobre o reencontro com o museu. A seguir, não resisti e li os restantes textos da série Authors on Museums, que se iniciou em Setembro de 2008.

A escritora e jornalista britânica Allison Pearson
faz a seguinte introdução no seu artigo sobre o Museu Rodin, intitulado Rodin´s sonnets in stone:

“Nunca se esquece o primeiro beijo. O meu aconteceu numa viagem com a escola a Paris há mais de 30 anos e foi ou uma feliz coincidência ou uma piada divina que, nessa mesma Páscoa, encontrei um outro Beijo inesquecível. (…) O outro Beijo – por Auguste Rodin – deu início a uma ligação amorosa com um pequeno museu na Margem Esquerda no qual “Le Baiser” está entre as obras sublimes do escultor e várias peças bonitas criadas pela sua amante, Camille Claudel. Os beijos dados pela arte, ao contrário dos dos homens, ficam cravados na pedra. Foi no Museu Rodin que me apercebi pela primeira vez de que é que a Arte era capaz.”

Outro texto interessante foi o do escritor britânico William Boyd
sobre o seu museu favorito, o Leopold Museum em Viena, intitulado William Boyd´s debt to Rudolph Lepold:

“...Isto explica porque é que o Lepolod Museum é a minha galeria de arte favorita: não só detém a colecção mais notável do mundo de obras de Schiele – com muitas obras primas nas suas paredes – como também é, acidentalmente e totalmente inadvertidamente, um depósito das minhas próprias ambições juvenis de viver a vida de um artista. Ver as obras de Schiele funcionou para mim como um infalível gatilho proustiano, providenciando um rápido rebobinar para a minha adolescência e os seus sonhos fervorosos. Sempre que estou em Viena visito-o, nem que seja por dez minutos, e consegue sempre extasiar-me, deliciar-me, e, porque a apresentação da colecção de Rudolf Leopold está sempre a mudar subtilmente, há sempre uma nova revelação”.

Que relatos apaixonantes, envolventes, profundamente humanos da relação dessas pessoas com os museus. Como é bonito ver a forma como estes nos podem marcar para sempre e como a eles voltamos procurando abrigo, conforto, sentimentos passados mas não esquecidos, surpresas, novas descobertas. Um dos aumentos mais significativos do número de visitantes nos museus de Nova Iorque foi registado a seguir ao 11 de Setembro. E não se tratava de turistas.

Mas, voltando aos escritores e aos museus, ao ler os artigos da revista Intelligent Life lembrei-me de um projecto da National Portrait Gallery
de Londres. Em Março, tinha lido no jornal Guardian que a galeria tinha convidado sete escritores conhecidos a imaginar as vidas escondidas nos retratos de pessoas desconhecidas que faziam parte da colecção (ler o artigo aqui). Durante mais de 50 anos, esses retratos do século XVI e XVII encontravam-se nas reservas do museu e não eram vistos por ninguém. A iniciativa deu origem à uma exposição intitulada Imagined Lives: Mystery Portraits. Alguns desses retratos podem ser vistos aqui. Entre os autores convidados, encontravam-se John Banville, vencedor do prémio Booker, a popular Joanna Trollope e Tracy Chevallier, autora do livro “Rapariga com brinco de pérola”.

Confesso, gosto de museus com imaginação e com ideias originais. Que pensam constantemente as suas colecções e encontram novos ‘pretextos’ para as expor novamente, para as agrupar de uma maneira diferente, à procura de novas narrativas. Narrativas essas que não têm que ser necessariamente as dos conservadores.

Os nomes dos escritores convidados pela National Portrait Gallery devem ter ajudado bastante na promoção da exposição. No entanto, na altura que li a notícia lembro-me de ter pensado que esta poderia ter sido uma excelente oportunidade para envolver as pessoas. Algumas das legendas na exposição permanente da Tate Britain
são escritas pelo próprio público. Trazem um olhar diferente, mas igualmente interessante e, às vezes, surpreendente sobre as obras expostas. Pensei, então, que, no caso dos retratos, a National Portrait Gallery poderia ter promovido um concurso de escrita aberto ao público em geral. Escritores (ainda) anónimos sobre a vida dos retratados anónimos. À descoberta de novos talentos.

Monday, 31 May 2010

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Na semana passada foi revelada a nova obra de arte que irá ocupar o chamado ‘quarto plinto da Trafalgar Square em Londres. Chama-se “Nelson´s ship in a bottle” (O navio de Nelson numa grarrafa) e é obra do artista Yinka Shonibare. Li vários artigos no jornal Guardian a propósito desta nova obra, mas aquele que mais me chamou a atenção intitulava-se “Do black artists need special treatment?” (Os artistas negros precisam de tratamento especial?). A autora do artigo, Munira Mirza, questionava até que ponto hoje em dia faz sentido falar de “black art”, porque é que ainda assumimos que ser-se negro significa ser-se marginal, qual é a vantagem para a arte e os artistas (e o público, acrescentaria eu) continuarmos a falar de ‘diversidade’ procurando definir a cultura em categorias rígidas, privando-a de fluidez, de liberdade.

A procura da diversidade e da representatividade tem sido uma grande preocupação em países como o Reino Unido, e muito particularmente, mas não exclusivamente, na cidade de Londres. Uma cidade multi e intercultural, para onde cada um de nós leva o seu mundo e mistura-o com o dos outros. A procura da diversidade e da representatividade tem definido as políticas das últimas décadas em várias áreas. No entanto, Munira Mirza questiona se, depois de tantos anos e dado que o mundo entretanto mudou bastante, não fará mais sentido deixar de classificar a diversidade com base na cor. “As barreiras hoje em dia”, diz Munira Mirza, “têm como base sobretudo a classe – rendimento, redes, educação. E isto afecta muitos brancos também.”

Enquanto lia o artigo, pensava: agora, substitui a palavra ‘negros’ por ‘deficientes’. E pergunto: Os artistas deficientes precisam de tratamento especial? Por grande coincidência, nesse mesmo dia saiu um artigo no jornal Le Monde intitulado “Danse avec des béquilles” (Dança com canadianas
). “Qual é o lugar da dança na sua vida, da deficiência na sua dança”, perguntavam ao bailarino Ali Fekih. “Há vinte anos que danço”, respondeu, “e que sou confrontado com a estigmatização da deficiência. É sempre a mesma história e evidentemente um perigo de nos fecharmos na deficiência. É uma realidade, mas isto não nos impede de fazermos o nosso trabalho. Somos artistas antes de sermos deficientes, o que alguns por vezes esquecem”.

Muitos de nós olhamos para os artistas deficientes com um misto de admiração, pela luta que têm que travar para chegarem onde querem chegar, e de compaixão, pelas limitações que nos parece que a deficiência irá sempre impor, não lhes permitindo chegarem ao nível de outros artistas. Quem trabalha na área da Comunicação, raras vezes resiste à tentação de destacar a deficiência para chamar a atenção dos meios de comunicação e do público. Quais as expectativas deste último? Normalmente, não tão grandes como se se tratasse de artistas ‘normais’. A tendência é dar um desconto.

Quem beneficia desta abordagem? Provavelmente ninguém. Porque os artistas com deficiência, como já vimos, querem ser primeiro vistos como artistas. A sua luta é a luta de todos os que querem chegar algures. Com algumas diferenças, sem dúvida, mas nada a que não sejam habituados. Não são raras também as vezes que os programadores perdem a oportunidade de apresentar um excelente espectáculo porque tinham já programado um espectáculo com deficientes numa determinada temporada e, quotas preenchidas, não vão programar mais um. Por último, o público, pronto a manifestar a sua admiração/compaixão, pronto a dar o desconto, pouco interessado, de resto, em assistir a um espectáculo que espera que seja perturbador, de alguma forma, e de menor qualidade.

Mas às vezes, ganha-se. Ganha-se quando se assiste a um espectáculo maravilhoso, que nos abre uma janela para um novo mundo, que questiona subtilmente os nossos preconceitos e faz-nos voar, enche-nos de felicidade.

Os quatro vídeos que se seguem são os trabalhos de artistas estrangeiros e portugueses e poderão mostrar melhor de que é que estou a falar.

The cost of living, por DV8 Physical Theatre




Duo improvisé, por Brahem Aïache e Nicolas Fayol



Menina da lua, por Dançando com a Diferença




O Aqui, por CIM – Companhia Integrada Multidisciplinar (o espectáculo representará Portugal no International VSA Festival
, em Washington, em Junho 2010)

Monday, 24 May 2010

Cumplicidade

Na semana passada fui convidada para dar uma pequena palestra sobre públicos a alunos da Escola Superior de Teatro e Cinema. Comecei questionando: Porque é que falamos dos públicos? Porque é que nos preocupamos com eles? Porque são eles que dão sentido ao nosso trabalho. Pelo menos ao meu. Sem públicos não há museus. Sem públicos não há teatros. Praticamos, assistimos ou participamos em actividades culturais porque queremos todos comunicar, partilhar, descobrir, descontrair: profissionais de museus, profissionais do espectáculo, públicos. Esta comunicação e partilha não aconteceria se faltasse um dos elos.

Para quem trabalha na área da Comunicação, a relação com os públicos é fundamental. Conhecê-los bem, criar aos poucos relações pessoais, de amizade até, são formas de chegar cada vez mais longe nesta relação e conseguir alargá-la, aos poucos, aos não-públicos. Nos últimos 10 anos trabalhei em duas instituições relativamente grandes. ‘Grandes’ também considerado o volume de trabalho que se deseja desenvolver e os poucos recursos humanos. Não poucas vezes, senti alguma frustração por passar grande parte do meu tempo num gabinete e não poder estar mais próximo dos visitantes ou espectadores, nos locais de atendimento, durante a preparação da visita, na sala de exposições, nos vários espectáculos. É sobretudo nesses momentos que conseguimos avaliar, mesmo de forma empírica, o impacto do nosso trabalho, a forma como é aceite e julgado. E é desta forma que se criam também relações mais próximas, por vezes pessoais, duradouras, com os destinatários finais da nossa acção.

Várias vezes pensei que as instituições que lidam com públicos mais reduzidos têm a sorte de poder trabalhar com eles dessa forma mais personalizada. Cria-se assim um sentimento de partilha, de comunidade e também de pertença, que muito influencia a qualidade da experiência, a forma como as pessoas vivem o espaço e o que este lhes oferece. E é particularmente compensador e reconfortante para quem trabalha para que isto aconteça. As coisas assim ganham sentido.

Podemos ter esta experiência, ainda que com uma frequência menor, também nas grandes instituições. Acho que, apesar de já não me lembrar dos rostos, nunca me esquecerei da experiência que foi receber o primeiro grupo de crianças no lançamento da actividade Uma Noite no Museu no Pavilhão do Conhecimento. A forma como todos, funcionários do Pavilhão e crianças, partilhámos aquela aventura pela noite dentro, a forma como nos aproximámos, o difícil que foi separarmo-nos no dia seguinte, o prazer de nos reencontrarmos nas salas expositivas do Pavilhão noutras ocasiões.

Também no São Luiz, e nos quase quatro anos que lá estou, aquilo que destacaria como a vivência mais marcante e compensadora tem a ver com uma experiência partilhada com o público. Foi em 2008, quando se organizou em co-produção com o CCB o Festival Pina Bausch. Numa manhã assistimos num workshop do Centro de Pedagogia e Animação (CCB) sobre o Café Müller, a peça que a própria Pina Bausch ia dançar nessa noite no São Luiz. No workshop participava uma dezena de crianças provenientes de meios familiares desfavorecidos. Acabado o workshop e tendo presenciado o entusiasmo, interesse, prazer e criatividade das crianças, pensámos que elas deveriam ter a oportunidade de ver o espectáculo ao vivo. Assim, numa sala praticamente esgotada, conseguiu-se arranjar umas cadeiras e as crianças assistiram. Será impossível esquecer o brilho nos olhos delas, o fascínio, a alegria e também a admiração, misturada com medo, quando puderam entrar nos bastidores a seguir ao espectáculo e encontrar-se com a própria Pina, que assinou os seus programas.

Neste contexto, gostei particularmente do último post de Nina Sinom no seu blog Museum 2.0, intitulado Complicity, intimacy, community. Gostei da forma como gostamos quando algo está na nossa cabeça e finalmente alguém consegue estruturá-lo com palavras e torná-lo concreto. A Nina Simon lembra-nos neste seu texto que mesmo as instituições maiores têm formas de proporcionar experiências que criam cumplicidade entre o público e a instituição, criando igualmente um sentimento de intimidade e comunidade. Isto não passa necessariamente por um serviço personalizado, tal como nós o idealizamos, mas criando as condições para que o visitante / espectador / participante se sinta em primeiro lugar orientado (sabe onde está, o que pode ou não pode fazer) e para que possa viver e partilhar confortavelmente a experiência com os outros, conhecidos ou desconhecidos.

É tão bonita a troca de um sorriso de cumplicidade.

Nota à parte: Como disse, dá-me um prazer muito particular encontrar estruturadas em palavras coisas que tenho na minha cabeça, preocupações, ideias… E quando as encontro, é-me impensável deixar de citar o nome da pessoa que as estruturou, para eu as poder utilizar também. Neste blog não se encontram ideias originais. São opiniões e sentimentos, resultado das minhas leituras e experiências, que procuro aqui de alguma forma estruturar e partilhar. Mesmo assim, seria simpático se, quando reproduzidas na íntegra as minhas palavras, a fonte não deixasse de ser mencionada por quem as utilizou. Foi-me solicitado por um museu o link do meu post sobre as entradas gratuitas nos museus. Na semana passada, encontrei as minhas palavras num jornal, nas declarações do director desse museu. Pode ser que o director tenha referido a fonte mas o jornal não tenha incluído a referência no artigo. Ou não.