Monday, 14 February 2011

Por falar em 'novos' públicos...

Muito frequentemente ouvimos os responsáveis por instituições culturais falarem de ‘novos públicos’, da sua ‘criação’ ou ‘formação’, de ‘portas abertas a todos’. Tenho estado a pensar no que isso significa na prática. ‘Novos’ na idade ou ‘novos’ por virem pela primeira vez? ‘Criam-se’ porque não existiam antes? Abrimos as portas e esperamos que eles venham?

Sinto que em muitos casos ‘novos’ significa sobretudo ‘mais’. Mais dos mesmos. Um esforço de trazer mais pessoas às nossas exposições, aos nossos espectáculos, às nossas actividades, pessoas essas, no entanto, cujo perfil sócio-demográfico não foge muito ao habitual. Porque se quiséssemos que fugisse, o trabalho que teríamos que desenvolver não se traduziria simplesmente num reforço na publicidade/ promoção da nossa oferta, mas num trabalho conjunto e concertado em várias frentes.

A participação cultural, chamemos-lhe assim, toma várias formas e desenvolve-se em diferentes níveis de envolvimento:

1º nível - através dos media, como televisão, rádio, DVDs, CDs, Internet.

2º nível - assistindo ao vivo a peças de teatro ou de ópera, a concertos, visitando exposições e participando a actividades complementares destas experiências, como conferências, debates, programas educativos, etc.

3º nível - através de um maior envolvimento pessoal naquilo que é a prática cultural / artística, como é o caso de artistas amadores, voluntários em instituições culturais, membros de conselhos consultivos etc.

Dito isto, podemos concluir que a grande maioria das pessoas participa, de uma forma ou de outra, da experiência cultural. Não se trata, portanto, de não-públicos da cultura. Ao mesmo tempo, também a grande maioria opta por -ou é obrigada a- participar a distância. Um dos desafios para os profissionais da cultura é conseguirem que cada vez mais pessoas queiram considerar ‘subir de nível’ e que tenham a oportunidade, se assim o desejarem, de o fazer. ‘Subir de nível’ não porque uma forma de participação é mais válida que outra, mas porque a experiência, ao atravessarmos do nível 1 para o 2 ou o 3, pode tornar-se mais profunda, enriquecedora, libertadora. Mas também porque poderá criar um outro entendimento, melhor, entre os profissionais e o público.

Não faltam hoje em dia estudos e relatórios sobre a participação cultural, as motivações e expectativas das pessoas ao optarem por uma forma de participação ou outra. Ou nenhuma. (Os links para algumas das minhas leituras mais recentes encontram-se no fim deste post). Com respeito para as opções de participação de cada pessoa, mas querendo promover e facilitar esta ‘passagem de nível’, pensei, então, o que poderá, realmente, significar, ‘novos’ públicos e o que é que isto implica para o nosso trabalho.

O alargamento de públicos existentes é uma das vertentes do nosso trabalho. ‘Novos’ neste caso significaria ‘mais’; mais pessoas entre aquelas que manifestam uma pré-disposição para o ‘consumo’ cultural, mas que muitas vezes se mantém longe por razões práticas: falta de informação, problemas no acesso/estacionamento, horário/dias de abertura, presença de crianças pequenas na família, etc. Questões que se relacionam com o estilo de vida, as quais precisamos de entender melhor, de forma a procurarmos dar respostas, facilitando a vinda e participação dos interessados. Trata-se, na verdade, de eliminar barreiras práticas.

‘Novos’, no entanto, pode e deve também significar ‘diferentes’. Uma outra vertente do nosso trabalho deveria ser a diversificação de públicos, o esforço de chegar àquelas que pessoas cujo perfil sócio-demográfico e hábitos de participação cultural (ou a falta deles) as mantém afastadas dos nossos espaços. Neste caso, as barreiras não são de natureza prática, mas, sim, barreiras mentais e psicológicas, resultado da falta de experiências, conhecimento e práticas prévias. É costume nestes casos falar da ‘criação’ de novos públicos. No entanto, se olharmos para as variadas formas de participação cultural, não podemos propriamente dizer que estes não existiam antes. Não são, é, ‘nossos´ públicos, não são consumidores da nossa oferta. O que pretendemos é criar as condições para que a possam degustar: despertando curiosidade, demonstrando a sua relevância, tornando-a de alguma forma tangível, criando conforto (essencialmente psicológico), enfim, construindo pontes, como diria Donna Walker-Kuhne. Em muitos casos, teremos, sim, que abrir as portas; não só para eles entrarem, mas também para nós sairmos, deixarmos a nossa zona de conforto e irmos ao encontro delas.

Uma outra, ainda, vertente do nosso trabalho é o aprofundamento da experiência, no sentido de um envolvimento maior, com aspectos não só culturais, mas também sociais: envolvimento ou formação de artistas amadores, integração de voluntários nas equipas, envolvimento de membros do público no desenhar das linhas de programação, criação de conselhos consultivos que integrem não profissionais da cultura, atracção de mecenas, etc. ‘Novos’ neste caso significaria… ‘num papel novo’? Parece-me que poderíamos dizer isso, sim.

O trabalho da ‘criação’ ou ‘formação’ de novos públicos na cultura associa-se sobretudo às áreas de educação e comunicação. (Isto é, quando por ‘novos’ não se entende apenas ‘crianças e jovens’ e quando a responsabilidade não se remete para a escola…). No entanto, se nos afastarmos da ideia da ‘criação’ e nos concentrarmos na ‘construção de pontes’, penso que se torne evidente que este é um trabalho que envolve a instituição inteira, exigindo, no entanto, em particular o esforço conjunto e concertado das áreas de programação, educação e comunicação.

Estes três objectivos – alargar, diversificar, aprofundar – fazem sentido no nosso trabalho; de alguma forma, são uma obrigação que devemos assumir. Fazem, mas também dão sentido. Entre as três, aquela que mais me atrai, que mais me motiva e me toca, é a segunda. Quando há quatro anos atrás o São Luiz teve a primeira sessão de teatro com interpretação em língua gestual portuguesa, a televisão entrevistou à saída do espectáculo uma senhora surda, visivelmente emocionada. Tinha acabado de assistir ao Moby Dick. “Tenho 74 anos”, disse ela. “É a primeira vez que venho ao teatro. Porquê?”.

É isso.


Leituras

Holden, J. (2010). Culture and Class. Counterpoint

McCarthy, K.F. and Jinnett, K. (2007). A new framework for building participation in the arts. RAND

National Endowment for the Arts (2009). 2008 survey of public participation in the arts.


Walker, C., Scott-Melnyk, S. and Sherwood, K. (2002). From Reggae to Rachmaninoff, How and why people participate in arts and culture. Urban Institute

Walker-Kuhne, D. (2005). Invitation to the party: building bridges to the arts, culture and community. Theatre Communications Group

Wallace Foundation, The (2009). Engaging audiences.

Monday, 7 February 2011

Onde é que todos se meteram?

Rocco Landesman (Foto: Arts Marketing blog)
Tenho estado a acompanhar com muito interesse a discussão provocada nos EUA por Rocco Landesman, Presidente do National Endowment for the Arts (NEA). Landesman participou no passado dia 26 de Janeiro na apresentação dos sete projectos seleccionados no âmbito da iniciativa New Play Development Program. No seu discurso (que pode ser visto aqui), referiu-se à diminuição do número de espectadores (5%) e o aumento do número de organizações artísticas sem fins lucrativos (23%), e defendeu: “Devemos considerar seriamente esta falta de ligação. (…) Podemos ou aumentar a procura ou diminuir a oferta. A procura não vai aumentar, pelo que é tempo de considerar diminuir a oferta”.

Foram estas as palavras que despoletaram uma discussão imediata e intensa nos social media e nos jornais americanos. Poucos dias mais tarde, e com a polémica no seu pico, Landesman voltou a abordar este assunto no blog do NEA, aproveitando para explicar melhor as suas ideias (ler aqui). Esclareceu que a diminuição na oferta é uma possibilidade, mas que não deveria ser a única proposta em cima da mesa. Outras questões que poderiam ser consideradas:

1. Aumentar a educação para a arte, porque esta é a principal garantia na construção dos futuros públicos;

2. Considerar o que os públicos procuram, de forma a tornar a oferta mais relevante;

3. Oferecer amostras grátis, através, por exemplo, da transmissão em directo dos espectáculos para o exterior dos edifícios;

4. Aproveitar as novas tecnologias, uma vez que há estudos que mostram que as pessoas que ‘consomem’ arte através da internet e de meios electrónicos participam três vezes mais em eventos ao vivo, assistem a mais e mais variados eventos;

5. Examinar a infra-estrutura existente e procurar torná-la menos institucionalizada, de forma a levar mais criatividade a mais públicos com maior frequência e até poder pagar melhor aos artistas.

Rocco Landesman afirma que deveria ser assegurada a sobrevivência não dos maiores, mas dos mais criativos e dinâmicos.

No fim deste post, encontra-se uma série de artigos e posts que foram publicados em resposta às afirmações de Landesman, palavras de apoio e também de total e feroz discordância. A minha intenção não é comentar sobre elas, mas sim, sobre toda esta discussão em si.

Poderíamos dizer que Rocco Landesman é o equivalente do Director-Geral das Artes em Portugal. Acho de extrema importância o facto de ser ele, através das suas palavras provocadoras e controversas, quem despoleta, encoraja e alimenta uma discussão destas, querendo mesmo que o NEA tenha um papel nestas conversações.

Por outro lado, admiro e invejo o empenho dos vários profissionais da cultura, mais e menos conhecidos, nesta discussão e a intensidade da mesma. Faz-me pensar na nossa realidade. No facto de não haver um debater permanente de questões também elas permanentes, mas de haver apenas reacções - às vezes intensas, mas quase sempre de curta duração - a anúncios do Ministério da Cultura.

Quem está neste momento a debater activamente e construtivamente o financiamento da cultura? A estudar modelos estrangeiros e possíveis adaptações ou a avançar com propostas concretas pensadas localmente? A quem compete provocar o debate, criar equipas de trabalho, juntar e analisar ideias e opiniões, formular propostas? De que forma estão a ser aproveitadas opiniões e sugestões já publicadas e/ou partilhadas publicamente? Porque é que as vozes se silenciam quase tão repentinamente quanto se fazem ouvir? E o que é que isto significa: resignação, esquecimento, conformismo, cansaço, falta de esperança? A crise, dizia num outro post, pode e deve ser uma oportunidade. Mas se ficarmos à espera pela intervenção de um Deus ex machina, estou certa que daqui a vinte anos estaremos exactamente onde estamos hoje.

O debate nos EUA
Landesman Comments on Theater, The New York Times
On Rocco Landesman, Theatre Ideas
The fewer, the thinner, The Artful Manager
Which demand is which, Mission Paradox


E ainda

Monday, 31 January 2011

De todos e para todos?

No nosso sector, não são poucos aqueles que acreditam que trabalhar na área da Comunicação é uma questão de ‘jeito’. A Comunicação é essencialmente entendida como Relações Públicas, cujos principais requisitos são uma atitude simpática e um sorriso bonito.

No que diz respeito à produção de materiais de divulgação - outra tarefa na qual, no entender de alguns, se resume a Comunicação -, o critério que prevalece é o da estética, pelo que quase toda a gente se sente no direito de opinar, deixando questões de funcionalidade e eficácia em segundo lugar. Não poucas vezes, é a estética que ganha a batalha.

Podemos, igualmente, considerar aqui as parcerias e os apoios, a forma como são procurados e negociados. As instituições culturais colocam-se normalmente no lugar do parente pobre, parecendo ignorar o valor do seu ‘produto’ e oferecendo tudo e mais alguma coisa (e, em geral, sempre o mesmo) em troca de apoios necessários ou desnecessários, pequenos ou grandes.

Existem pessoas com e sem formação profissional a trabalhar na área da Comunicação no sector cultural: nos museus, nas galerias, nos centros culturais, nos teatros, nas orquestras; mas também nas editoras de livros, nas editoras discográficas, nas produtoras / agências artísticas, na rádio, na televisão. Como consequência, fala-se em muitos casos línguas diferentes. Perde-se demasiado tempo a discutir práticas que deveriam ser comuns, entendidas por todos. Pior, questões importantes são vistas como ‘pormenores’, esquisitices ou até má vontade e teimosia por parte de quem as defenda. Até agora não consegui encontrar uma resposta suficientemente convincente quando sou confrontada com a afirmação “Porque fazer assim, se todos os outros fazem o contrário?” (aprendi, no entanto, a desconfiar quando me dizem ”todos os outros”).

A Comunicação é uma área de trabalho que exige conhecimentos técnicos, tal como todas as outras. São necessários profissionais com formação adequada para desenvolver um plano que possa ajudar uma instituição cultural a atingir os seus objectivos no que diz respeito ao reconhecimento e à notoriedade, à formação de novos públicos, ao aumento dos existentes, ao acesso à sua oferta em geral - acesso este cognitivo, físico e financeiro. Estes objectivos são atingidos através do branding, do marketing, das relações públicas.

Num contexto de crise, num ambiente que sempre foi de grande concorrência, directa e indirecta, as instituições culturais não podem continuar a ser pouco exigentes com a sua comunicação. Não se pode ignorar a necessidade e a importância da criação e gestão de uma marca. Não se pode apenas produzir e esperar que o público venha. Não se pode esperar que as pessoas voltem se não forem criados e mantidos serviços de qualidade. Não basta pôr letras em cima de uma foto para se ter um cartaz. Não basta mandar um comunicado de imprensa para se criar uma relação com os meios de comunicação. Não basta uma atitude simpática, um sorriso bonito e bom gosto para que a Comunicação aconteça (se bem que contribuam muito para o resultado final).

Todas as acções e tarefas aqui mencionadas como exemplo, e muitas outras, necessitam de ser pensadas e executadas por pessoas com conhecimentos técnicos específicos. Mas diria mais. Ainda que uma equipa se pretenda a funcionar com partilha e análise da sua actividade, há decisões que não podem nem devem ser tomadas por maioria. Há decisões que devem ser confiadas a quem tem os conhecimentos necessários para as tomar.

O que é Comunicação, na verdade? É a forma como nos relacionamos internamente e com o mundo exterior, é um diálogo que se estabelece, é uma forma de ser, de estar e de se projectar. A Comunicação procura dar voz e imagem à missão e à visão da nossa instituição. A criação artística e a produção cultural não são hobbies. Porque é que a sua comunicação há-de sê-lo?

Thursday, 27 January 2011

Monday, 24 January 2011

Nós, os híbridos culturais

Quando decidi assistir em Novembro passado ao colóquio “Migrações, minorias e diversidade cultural”, organizado pela Fundação Calouste Gulbenkian, foi porque tinha muito interesse em ouvir falar dos ‘outros’. Acho que nunca tinha pensado em mim como ‘migrante’ ou ‘minoria’, nem nos anos que vivi na Inglaterra nem aqui em Portugal. Talvez devido às razões que me levaram a estes países e porque, se bem que de formas diferentes, rapidamente senti ‘fazer parte’ deles. Ao ouvir no colóquio da Gulbenkian os testemunhos de Portugueses que decidiram viver e trabalhar fora do seu país, ou de outros que optaram por voltar depois de muitos anos passados no estrangeiro, percebi que a minha posição era diferente daquela que tinha pretendido ocupar. O colóquio era sobre mim também.

Vivemos hoje num período de intensa interacção cultural. Nascemos num país, viajamos para outros, às vezes ficamos, voltamos atrás, partimos novamente. Encontramos e misturamos com pessoas de vários cantos do mundo. Damos e recebemos. Alguns anseiam por estes encontros, procuram-nos. A outros causam receio e criam a necessidade de defender a todo o custo algo que pretendem preservar. No entanto, duma forma ou doutra, somos todos ‘tocados’. Como é que nos definimos, então, no meio de tudo isto? Quem somos? O que será das nossas culturas num mundo globalizado? Iremos todos abraçar uma cultura global ou conseguiremos preservar a nossa cultura local? Ou, então, aprenderemos a ser ‘bilingues’? O livro Cultural Hybridity, do professor de História e Teoria Cultural Peter Burke, procura dar respostas a estas perguntas através da análise dos processos de encontro, interacção, intercâmbio e ‘hibridização’ cultural ao longo dos séculos. Procura colocar o debate sobre a globalização da cultura numa perspectiva histórica. Ao contrário do que se possa pensar, nada do que está hoje a acontecer é inédito.

O livro está dividido em cinco capítulos. No primeiro capítulo, Varieties of objects, Burke apresenta a variedade de ‘objectos hibridizados’. Exemplos de hibridismo cultural encontram-se na maioria dos domínios da cultura. Existem objectos híbridos (arquitectura, belas-artes, géneros literários, traduções), práticas híbridas (religião, música, língua, desportos, festivais, gastronomia, tipos de governação) e, finalmente, pessoas e grupos híbridos (filhos de pais de culturas diferentes, pessoas que se converteram – voluntária ou involuntariamente –, grupos que, por razões religiosas, políticas ou económicas, mudaram-se de uma cultura para outra).

O segundo capítulo, Varieties of terminology, foi para mim o mais interessante. O autor analisa a grande variedade de termos e teorias para falar sobre interacção cultural, ou seja sobre processos muito diversos nas suas especificidades, determinados por um maior ou menor envolvimento do agente humano. Os principais termos usados são metáforas tiradas da economia, zoologia, metalurgia, culinária e linguística. Respectivamente: empréstimo, hibridismo, cadinho, ensopado e, finalmente, tradução e crioulização. Burke vê fraquezas em todos eles, mas dá preferência ao termo linguístico, que considera ser o mais útil e menos enganador para explicar o processo de emergência de novas formas culturais através da mistura de antigas.

Estes encontros culturais ocorrem em diferentes situações, contextos e locais, analisados no terceiro capítulo, Varieties of situation. Para além da geografia e cronologia da ‘hibridização’, existe também uma sociologia. Quando há um encontro de culturas, há indivíduos ou grupos que participam mais que outros. Burke faz a distinção entre encontros de iguais e desiguais (por exemplo, os encontros dos missionários católicos com os povos da China ou da América Latina tiveram contornos muito diferentes); entre tradições de apropriação (Japão, Brasil) e resistência (Islão); e entre locais de encontro (as metrópoles e as fronteiras são particularmente favoráveis a intercâmbios culturais).

Há várias formas de reagir ao encontro com o ‘estranho’, como se vê no quarto capítulo, Varieties of responses. Desde a aceitação, que o autor chama “fashion for the foreign” (italofilia na Renascença; francofilia no século XVII; anglomania nos séculos XVIII e XIX), à resistência, que procura defender uma cultura fechando-a, isolando-a (a Espanha no século XVI ou o Japão no século XVII); desde a segregação cultural, que procura manter uma parte da cultura livre de contaminação estrangeira e leva as pessoas a viver uma espécie de vida dupla, à adaptação, um movimento duplo de descontextualização e recontextualização, que tira um elemento do seu contexto original e modifica-o para o ajustar a um ambiente novo.

No último capítulo, Varieties of outcomes, Burke considera as consequências da ‘hibridização’ a longo prazo e apresenta quatro possíveis cenários relativamente ao que possa vir a acontecer às culturas do mundo na era da globalização. Existe o cenário da homogeneização cultural. No entanto, e apesar dos sinais de uma cultura cada vez mais global, o autor acha que não se deve subestimar a criatividade da recepção e a renegociação dos significados. Os historiadores hoje em dia estão menos convencidos que movimentos semelhantes no passado, como helenização ou a romanização, tenham tido sucesso. Um outro cenário é o da resistência à globalização, o da revolta das regiões. Os resistentes não podem, como pretendem, fazer parar a história, mas Burke acredita que irão afectar as culturas do futuro. Uma outra possibilidade é a do bilinguismo cultural, a possibilidade de ficarmos todos bi-culturais, vivendo uma vida dupla. A fronteira está agora em todo o lado, disse o antropólogo Néstor García Canclini, tornar-nos-emos todos imigrantes. Por último, temos o cenário da crioulização do mundo, o nascimento de uma nova ordem, a formação de novos ecotipos, a cristalização de novas formas, a reconfiguração das culturas. Este á para Burke o cenário mais convincente.

Onde é que toda esta reflexão me deixa a mim? Sai da Grécia aos 23 anos e fui para Londres, onde o mundo se me abriu. Vivi a euforia do encontro com pessoas de todos os cantos da terra, da descoberta de outros modos de ser e de estar e de se manifestar, e volto a vivê-la sempre que lá regresso. Vim para Portugal, adoptei um segundo país e fui adoptada por ele. Tenho vivido quase tantos anos no estrangeiro quantos no meu país natal. Sou Grega, apesar de ter sempre sido uma Grega ‘atípica’, muito mais depois de viver no estrangeiro, o que me permitiu olhar para a minha cultura não só com orgulho mas também com um espírito mais crítico. Uma Grega ‘crioula’? Talvez. Sei que hoje em dia sou considerada tão ‘estrangeira’ lá como cá. Já não me incomoda. Considero que tenho sorte e sinto-me uma pessoa mais rica, por poder conviver e saber apreciar tantas ‘linguagens’ diferentes, dando e recebendo. Mas sou Grega, duma forma que se sente e não se pode explicar. Estou muito curiosa em ver o que vai ser o meu filho. Que, quando lhe disse que íamos ao Porto, me perguntou: “Que língua vamos lá falar?”.

Nota a 31 de Janeiro
Black? White? Asian? More Young Americans choose all of the above, um artigo no The New York Times.

Monday, 17 January 2011

A julgar pela capa

Um dos grandes prazeres na vida é estar numa livraria sem razão especial, ou seja, não com a intenção de comprar um determinado livro, mas com o desejo de olhar para títulos, nomes e capas, ler sinopses, descobrir, ser tentada, não resistir, comprar, sair com uma série deles ansiosa para começar.

Em Maio passado tinha lido um artigo no jornal Guardian sobre as diferentes capas que o mesmo livro pode ter em países diferentes (ler o artigo aqui e ver imagens de capas aqui). “Porque é que os editores não replicam capas que tenham sido um sucesso noutros países?”, questionava o autor do artigo. Há designers e editores que pensam que leitores em países diferentes não precisam de capas diferentes. Outros profissionais destas áreas acreditam que se deve começar do zero e quando trabalham na capa de um livro já publicado, até evitam olhar para as capas existentes. Em defesa da criação de capas distintas, invocam-se no artigo razões culturais (“É uma coisa cultural, tão conduzida pelo gosto como o facto de se comerem coisas diferentes ao pequeno almoço em países diferentes”), de marketing (“A ficção literária é mais fácil de vender na Europa continental do que no Reino Unido ou nos EUA, por isso os editores podem ser menos óbvios na sua tentativa de chamar a atenção dos clientes” ou “O mercado de livros no Reino Unido é mais competitivo, todas as capas nas lojas gritam: 'Compra-me!'”) ou até de orgulho.

Foto: Observer
Pensei no que determina as minhas escolhas aquando das minhas ‘expedições ao desconhecido’. Não negarei que é a combinação de título e capa que faz com que pegue no livro de um autor que não conheço. É importante que a capa seja, para o meu gosto, elegante, atraente (muitas vezes elas não têm nenhuma imagem ou desenho; apenas letras e excelente design). A seguir leio a sinopse. E a decisão está tomada.
 
Acho que nunca questionei se a capa e a sinopse transmitem a mesma ‘essência’. Aliás, acho que nunca esperei que a capa fosse uma espécie de resumo do que vou descobrir dentro, ao contrário da sinopse, que é suposto despertar a minha curiosidade. Como também não me lembro de alguma vez me ter sentido enganada por ter detestado um livro cuja capa me tivesse atraído instantaneamente. Mas lembro-me do contrário: do desgosto que tive em dois casos em que estava a ler livros muito bons mas que, na minha opinião, tinham capas pirosas. Acho que até tentava escondê-los quando os lia em locais públicos. O primeiro tinha-me sido recomendado; sobre o segundo tinha lido no jornal. Doutra forma, estou certa que nunca os teria comprado se os tivesse simplesmente visto numa bancada juntamente com outros. Uma questão de estética, de gosto. E de branding também. Porque em muitos casos o design da capa identifica uma editora, que sendo considerada de qualidade e instantaneamente identificada visualmente, pode ganhar a batalha no meio da intensa concorrência.

Um dos assuntos mais discutidos no nosso meio profissional é o do cartaz de um espectáculo. O que é e o que não é. Para que serve ou não deve servir. Lembro-me que, quando li o artigo do Guardian, reencaminhei-o para alguns colegas, porque via muitas analogias entre capas de livros e cartazes de espectáculos.

O que é o cartaz? É um instrumento de promoção, de divulgação. Tem um carácter funcional. Serve para informar (o quê, quando, onde); serve para reforçar a imagem e identidade da entidade proponente; serve para atrair público. Ao contrário do que acontece noutros países, os suplementos culturais de certos jornais portugueses estão cheios de publicidade de espectáculos. Às vezes temos quatro anúncios a partilhar a mesma página. Assim como na rua encontramos uma série de cartazes de diferentes espectáculos colados uns ao lado dos outros. A concorrência é grande. Quem vai sobressair e atrair a atenção do público para ganhar clientes? Aquele que se destacar pelo bom design, ou seja, aquele que permitirá identificar rapidamente quem propõe, o quê e onde.


O que não é um cartaz? Não é uma extensão do espectáculo. Não deverá procurar transmitir a essência do mesmo em detrimento de outras funções, prioritárias, como o informar (acho, aliás, que só as pessoas que estão muito por dentro da criação de um espectáculo conseguem identificar ou sentir esta essência num cartaz). Não deverá servir para apresentar os nomes de todos os intervenientes, enchendo a imagem com manchas de letras e ajudando a enterrar a informação que é essencial para a promoção do espectáculo; na verdade, não se produz um cartaz para memória futura. Não deverá servir para a colocação dos logos de todas, sem excepção, as entidades que apoiam a produção. Quando prevalecem estas preocupações, não poucas vezes o resultado é um mau cartaz, um cartaz não funcional.

O processo de criação e aprovação de um cartaz pode tornar-se tenso, sobretudo quando a entidade proponente não é uma 'barriga de aluguer', mas sim, uma instituição com forte identidade (e forte identidade visual). O desafio para o designer é criar uma proposta que se enquadre na linha de comunicação da instituição, mas que seja ao mesmo tempo distinta para cada projecto. O desafio para os profissionais de Comunicação é defenderem a instituição e o projecto, tornarem o processo o mais flúido possível, procurando definir desde o início, em articulação com os intervenientes no espectáculo, os objectivos que se procura alcançar através do cartaz. A avaliação da qualidade e eficiência da proposta não pode nem deve ficar reduzida a apreciações estéticas (é bonito, não é bonito) ou de justiça (ou todos os nomes ou nenhum). A verdadeira questão é: Cumpre as suas funções? Informa? Identifica? Atrai? O resto deveria ser uma descoberta. E independentemente do que se descobrir, duvido que o público culpe o cartaz por não ter contado tudo…

Sugestão de leitura
Navigating the design minefield

Nota a 20 de Janeiro
A propósito das capas dos livros, um novo artigo no Guardian de hoje, Can you judge a book by its cover?  Muito relevante, mais uma vez, para a discussão dos cartazes dos espectáculos.

Monday, 10 January 2011

A iniciativa privada em tempo de crise

O livro de Sir Peter Hall Cities in Civilization aborda as seguintes questões: como é que acontecem as idades de ouro de certas cidades? Porque é que a chama criativa arde de forma tão especial, tão única, em cidades e não no campo? O que é que faz com que uma determinada cidade, num determinado momento, se torne de repente imensamente criativa, excepcionalmente inovadora? Porque é que este espírito floresce durante alguns anos, em geral uma ou duas décadas, e depois desaparece tão repentinamente como apareceu?

Na primeira parte do seu livro, The city as cultural crucible (A cidade como cadinho cultural), Hall analisa as idades de ouro de Atenas, Florença, Londres, Viena, Paris e Berlim. Ao todo, o livro tem quase 1000 páginas. Levarei algum tempo para o acabar, mas já li o capítulo sobre Atenas. É sobre ela que quero escrever.

Foto: GNTO

Atenas, diz o autor, foi a primeira. A primeira em tantas das coisas que, desde aí, se tornaram importantes para a cultura ocidental: democracia, filosofia, escrita sistematizada da história, conhecimento científico, poesia lírica, tragédia, comédia, arte naturalista, arquitectura. Mas porquê ali? E porquê naquela altura? Haverá factores como a geografia, o clima, o crescimento económico, a abundância, a democracia, o pensamento livre, o facto de ter sido provavelmente a primeira cidade global. No entanto, nenhum desses factores constitui explicação suficiente para Peter Hall, sobretudo porque todos eles existiram, duma forma ou doutra, também noutras cidades, noutros territórios, que tiveram os ingredientes, mas esses não se juntaram com a ordem certa, da forma certa.

Para perceber o milagre que foi Atenas, diz o autor, é preciso ser historicamente mais específico. Atenas teve uma localização única, como centro comercial. Foi o comércio que trouxe a exposição às altas culturas do Oriente e também pessoas com muita energia e talento, provenientes de todo o mundo grego e do Mediterrâneo oriental, produzindo um cadinho étnico e cultural único. Depois, foram as invasões do norte que trouxeram novas influências e interromperam o contacto com o Oriente, obrigando a cidade a viver dos seus próprios recursos. A seguir, foi o desenvolvimento de um grande império comercial, que trouxe todos os bens do mundo civilizado aos mercados de Atenas e também dinheiro de impostos e escravos, fornecendo a base para uma muito particular democracia aristocrática. A sociedade e cultura atenienses baseavam-se na exploração: primeiro, existiam graças aos impostos que afluíam do império; segundo, Atenas mantinha aspectos críticos de uma sociedade aristocrática; terceiro, dependia significativamente do trabalho de estrangeiros ali residentes, que alimentavam a economia e foram responsáveis por muitos dos avanços ocorridos. Hall conclui que do conflito entre a ordem antiga e os pregadores da inovação gerou-se uma criatividade única: surgiu uma sociedade que combinava a fina discriminação e padrões críticos da velha sociedade com o cepticismo e inventividade de uma nova ordem.

Enquanto lia a análise de Peter Hall sobre o milagre de Atenas, procurava (inevitavelmente?) identificar ‘o que resta’. No entanto, encontrava mais semelhanças com os factores que levaram a cidade antiga à crise: o colapso económico provocado essencialmente pela guerra com Sparta, o individualismo (tão encorajado pelos Sofistas), o abandono da assembleia, a procura da riqueza pessoal, a perda de fé na e preocupação pela ‘polis’.

Nos últimos meses houve algumas iniciativas na capital grega que indicam que os Atenienses (mas também os Gregos em geral e pessoas de todos os lados do mundo) procuram no legado deixado pelos Gregos antigos respostas que os possam guiar no futuro, que os possam ajudar a redefinir valores e prioridades. No fim de Outubro foi organizada no novo Museu de Acrópolis uma maratona cultural sobre a relação da Grécia moderna e do mundo em geral com o mundo antigo. Um evento que juntou especialistas, intelectuais e artistas de todo o mundo e que durou 12 horas. Semanas depois, o novo Centro Cultural da Fundação Onassis abriu as suas portas com os “Diálogos de Atenas”, uma iniciativa que contou com a colaboração de oito instituições académicas internacionais e colocou a civilização grega no centro de uma reflexão sobre o seu papel na sociedade moderna. Foram organizados seis painéis sobre as temáticas “Identidade e alteridade”, “História e histórias”, “Razão e arte”, “Democracia e estado”, “Ciência e ética”, “Qualidade de vida”.

Foto: Centro Cultural Onassis
Foi na abertura deste novo Centro Cultural da Fundação Onassis que encontrei algo que liga a cidade moderna à antiga: a entrega livre e voluntária de parte da riqueza pessoal à cidade (na Grécia antiga os impostos eram considerados indignos de um cidadão livre, mas esta entrega voluntária era esperada e honorífica). Chamava-se leitourgia (serviço) e financiava a construção de edifícios públicos, eventos desportivos, banquetes, etc. No entanto, a leitourgia mais importante era a khoregia (palavra que podemos traduzir por ‘patrocínio’), que servia para pagar os membros do coro das tragédias e comédias.

A Fundação Onassis tem abraçado este espírito, tal como muitas outras fundações privadas, e a abertura do centro cultural é disso prova. Nas palavras do seu presidente, Antonis Papadimitriou: “A perda global de confiança das pessoas precisa de respostas de apoio. Mais que nunca, o teatro, a dança ou as artes plásticas podem providenciar este espaço necessário para a reflexão. O Centro Cultural Onassis, ao escolher apoiar a criação contemporânea num país virado sobretudo para o seu património, tem um papel determinante a desempenhar para dar sentido aos debates actuais” (jornal Le Monde de 23.12.2010).

O Estado Grego moderno, criado em 1830, beneficiou nas primeiras décadas da sua vida do apoio financeiro de muitos Gregos abastados da diáspora. Hoje em dia, o país continua a contar muito com a iniciativa privada em várias áreas da vida pública, inclusivamente na cultura. Nessa mesma avenida onde abriu agora o Centro Cultural Onassis, a Fundação Niarchos (que tinha sido o grande rival de Onassis) está a construir o novo edifício da Biblioteca Nacional e do Teatro Nacional de Ópera.

Em tempo de crise, económica e sobretudo social, encontra-se ‘refúgio’ na cultura. A iniciativa privada assume também responsabilidades, contribui, ‘devolve’ à sociedade. Uma ‘devolução’ voluntária e honorífica, que não se concretiza procurando fazer negócio com o estado. Afinal, parece que resta algo.