Monday, 16 May 2011

O museu de história que faz toda a diferença

No meu último post comentei sobre a história contada (ou não contada) pelos museus nacionais de história que tenho visitado. Lembro-me, por alto, de ter visitado museus deste tipo em Atenas, Barcelona, Helsínquia, Berlim, Washington e, mais recentemente, em Buenos Aires (este não tem site próprio).

Há aqueles que se limitam a contar a história da luta pela independência (Atenas, Buenos Aires); que, na verdade, não contam, porque a mera exposição de armas, quadros, documentos não é suficiente para contar essa história. Normalmente, os visitantes nacionais, e mais concretamente, os visitantes nacionais com alguns conhecimentos de história, têm uma certa vantagem nestes museus relativamente aos visitantes nacionais e internacionais que entram no museu com a esperança de adquirir esses conhecimentos básicos.

Há também aqueles museus nacionais de história que avançam mais um pouco (Barcelona, Helsínquia, Berlim), em primeiro lugar no tempo, para contarem também episódios mais recentes, mas também em termos de profundidade e diversidade na abordagem, indo além da história política/militar para tocar em questões de natureza cultural e social (educação, saúde, religião, vida familiar/profissional/social, artes, etc.).

Quando comentei no meu post sobre a incapacidade da muitos destes museus em contar a história da nação, referia-me concretamente à exposição permanente, que é aquela à qual todos os visitantes têm acesso em qualquer altura. Saí da maioria dos museus que referi sentindo ou que não tinha aprendido quase nada ou que a abordagem tinha sido muito limitada, insuficiente para a minha curiosidade, para aquilo que esperava aprender sobre o país ou a região (estou-me a referir à Catalúnia) que estava a visitar.

A tarefa não é fácil, é certo. A história da nação é uma história extensa, multifacetada, sensível, controversa. Exige espaço e meios. Mas exige também visão, porque não é uma história encerrada, mas sim uma história em produção contínua e este facto tem implicações na política de aquisição de objectos para as colecções.

Destaquei no último post o Museu Nacional da História Americana de Washington como uma ilustre excepção. Deveria dizer em primeiro lugar que os meios materiais e humanos que este museu (um dos museus da Smithsonian Institution) tem à sua disposição não se podem comparar aos de outros museus. É verdade que a escala é infinitamente maior. No entanto, passando por cima da questão dos meios, o que distingue, na minha opinião, este museu de história nacional é a sua visão. Uma visão nova, inovadora no meio dos museus, fresca, inspirada sobre o que constitui a história da nação americana. Uma visão que se torna óbvia quando olhamos para os objectos em exposição e quando lemos os textos que os acompanham.

Neste museu encontramos a bandeira que inspirou o hino nacional; o manuscrito do discurso de Abraham Lincoln em Gettysbourg em 1863, um dos mais conhecidos discursos da história americana; a bancada onde em 1960 quatro estudantes negros se sentaram para almoçar na cidade de Greensboro, desafiando a regra “white only”. Encontramos ainda os sapatos vermelhos que Judy Garland usou no filme The Wizard of Oz; o sapo Kermit do Muppet Show; as luvas de box de Muhammad Ali; uma série de cartazes de várias épocas que incentivam a população a votar. Seguem-se imagens de alguns objectos e textos que ilustram a visão deste museu relativamente ao que constitui a história da nação americana (basta clicar nas imagens para as ver em tamanho real e poder ler os textos).


Em Fevereiro passado, Brent Glass, o director do Museu Nacional de História Americana, esteve em Portugal e deu uma palestra no Museu Nacional de Arte Antiga. Ficámos a saber um pouco mais sobre a gestão do museu e, entre outras coisas, sobre a sua política de aquisição. A colecção inclui e é constantemente enriquecida com objectos como carros e instrumentos musicais, materiais das campanhas presidenciais e móveis, fotografias e cartazes, objectos relacionados com áreas como a agricultura, a religião, a ciência, a cultura popular, as várias comunidades que compõe a nação americana, entre muitas outras coisas. Brent Glass esteve em Portugal porque em 2015 o museu vai apresentar uma exposição sobre o património multicultural e multinacional do seu país, onde será também feita referência à presença portuguesa.

Os objectos que noutros países fazem parte de colecções de museus distintos (museus nacionais de história, arqueologia, arte antiga, arte moderna, arte contemporânea, música, cinema, teatro, desporto, ciência, história natural, etc.), estão aqui reunidos por baixo do mesmo ‘tecto’, considerando que todos contribuem para contar a história da nação (o que não impede a existência de museus de ‘especialidade’; aliás a Smithsonian Institution gere vários deles). Conforme já disse, nem todos os museus dispõem dos recursos materiais e humanos do Museu Nacional de História Americana. Mas se partilhassem a sua visão, poderiam talvez procurar articular as suas exposições permanentes, com o objectivo de contar a visitantes nacionais e internacionais os vários capítulos de uma história única. Esta seria também uma forma de dar a entender ao público porque são ‘nacionais’.

Monday, 9 May 2011

A viagem ao 'fim do mundo'

Argentina é um país imenso e diverso. Um país muito rico e muito pobre. Um país que nos surpreende, nos emociona, nos entusiasma, nos impressiona, nos entristece e nos assusta.

Argentina é um país muito orgulhoso do seu passado, com particular referência às lutas que conduziram à sua independência no início do século XIX. Os seus militares, primeiros presidentes e governadores (San Martín, Belgrano, Sarmiento, Mitre, Dorrega), assim como as datas mais marcantes dessa história (25 de Mayo, 9 de Julio, 3 de Febrero), dão o nome a ruas e avenidas em todas as suas cidades e vilas (breve história da Argentina aqui). A bandeira nacional é uma presença quase permanente. Os políticos continuam a ser venerados. Este ano é ano de eleições a vários níveis, incluindo presidenciais. Espera-se que a ‘Presidenta’ Cristina Kirchner seja reeleita.

Cartaz do casal Kirchner entre as fotografias de Perón e Evita na Avª de Mayo.
Argentina é ainda um país determinado em lidar com o seu passado mais recente; um passado de violência, tortura, desaparecimentos. Um país (neste caso concreto, uma cidade-metrópole, Buenos Aires) que se manifesta na rua por uma ou outra causa quase diariamente.

Todas as quintas, às 15h30 em ponto, tem lugar na Plaza de Mayo a manifestação da associação Madres de Plaza de Mayo. A primeira teve lugar em 1977.
O povo Qom tinha acampado na Avª 9 de Julio revendicando os seus direitos às suas terras ancestrais e denunciando perseguições e maus tratos. Houve encontros com os dirigentes da Nação, mas no dia 6 de Maio foram colocados em autocarros e mandados para trás. A despedida dos seus apoiantes foi muito emocionante.
Ao chegarmos ao aeroporto de Buenos Aires, deparamo-nos com uma extensa campanha que pretende sensibilizar relativamente à protecção do património cultural e contra o tráfego ilícito de antiguidades. Algo que se repete em muitos outros aeroportos. Uma série de cartazes chama a atenção dos residentes e dos turistas relativamente a esta causa. Já passei por vários países que sofrem do tráfego ilícito de antiguidades e nunca tinha visto uma campanha destas. E está bem feita, do ponto de vista do impacto visual e da passagem da mensagem. Falta saber se resulta.


Visitei museus de todos os tipos e tamanhos, antigos e muito recentemente inaugurados. Nos séculos XIX e XX, os museus tiveram neste país um papel fundamental, juntamente com as escolas, na ‘formação’ do cidadão argentino, incluindo os milhares de imigrantes que aqui chegaram, no que diz respeito aos valores da recém-nascida nação, ao respeito pelas personalidades que realizaram a revolução e travaram a guerra pela independência (os chamados ‘próceres’) e ao conhecimento do passado nacional. É o que se lê num dos dois painéis na entrada do Museu Histórico Nacional, aquele que pretende partilhar com o visitante a visão por trás da (re)interpretação das colecções, algo que aconteceu muito recentemente, a propósito do bicentenário da revolução (1810 – 2010). O segundo painel da entrada coloca a questão “Que museu queremos?”, explicando que reabrir o museu ao público não significou apenas re-interpretar e ampliar as suas colecções, mas também dar lugar aos interesses e às vozes dos visitantes. É raro um museu procurar ‘posicionar-se’ no início de uma visita e partilhar esta visão com o visitante. Portanto, criou-se-me uma certa expectativa, que acabou por ser defraudada. Este museu nacional de história, tal como a grande maioria de outros que tenho visitado (ilustre excepção o de Washington), acaba por não contar a história. Uma série de quadros, documentos originais e outros objectos são simplesmente identificados, mas não contam a história da construção da nação, que se iniciou no século XIX e continua, como é natural, até hoje.

De um ponto de vista geral, a interpretação é um grande ponto fraco dos museus argentinos, algo que os estrangeiros curiosos sentem sempre mais que os locais. Em muitos casos, a escassez de meios é óbvia e explica, até um certo ponto, a falha. Um outro ponto fraco, no caso específico dos museus de Buenos Aires, é o horário. A grande maioria abre apenas às 12.00.

Mas, houve pequenas surpresas e descobertas que ficarão na minha memória:

Museo de Arqueología de Alta Montaña, Salta (noroeste argentino)


Um pequeno tesouro, muito bem-feito. Neste museu encontramos a história do culto pré-colombiano da natureza e dos rituais realizados pelos Inca em pontos altos dos Andes, que envolviam o ‘casamento’ e o sacrifício de crianças aos deuses. A colecção (objectos em miniatura que acompanhavam as crianças, roupa e sapatos) é lindíssima e o nosso encontro com ‘el niño’, a múmia do rapaz de 7 anos que foi encontrada intacta na montanha, particularmente emocionante. Neste museu aprendemos ainda sobre o impressionante sistema de estradas pré-hispánicas, que tanto impressionou os conquistadores, e o esforço conjunto de Argentina, Bolívia, Chile, Perú, Colómbia e Equador em designá-lo junto da UNESCO como Património Mundial.


Museu Provincial de Bellas Artes Rosa Galisteo de Rodriguez, Santa Fe (centro)
Visitei a exposição temporária do pintor santa-fesino Lucero Hagelstange Mito: Ángeles en el Paraiso. Um estilo que faz lembrar Gauguin, pinturas de anjos que têm a cara de mulheres indígenas. Cores fortes que contrastam com as caras cinzentas, mas igualmente expressivas, dos anjos. Estes anjos ‘crioulos’ fizeram-me logo pensar noutros, que tinha visto três dias antes, na igreja da pequena localidade Uquía, no noroeste argentino. A igreja contem as pinturas de anjos executadas pelos Índios em Cuzco, Perú, no século XVII. Quando os Índios perguntaram aos Espanhóis como eram os anjos, eles responderam “São como nós, mas têm asas”.


Museo de Arte Popular José Hernández, Buenos Aires
Um museu pequeno, com uma colecção também pequena (pelo menos, a parte em exposição), mas muito interessante, e com óbvia falta de meios. No entanto, numa das duas exposições temporárias descobri a história de Hermógenes Cayo, o artesão e músico que participou em 1946 na marcha que levou de Jujuy, no noroeste, à capital 174 indígenas que reclamavam os títulos de propriedade das suas terras ancestrais. Depois de serem recebidos pelo Governo e de terem começado as conversações, um dia foram colocados todos num comboio e mandados para trás. A história repete-se… Hermógenes Cayo foi o cronista dessa marcha.



Museo Etnográfico, Santa Fe (centro)


O único museu dos que visitei neste país ‘híbrido’ que procurou abordar a questão dos escravos / imigrantes. Uma pequena e interessantíssima exposição sobre a presença africana em Santa Fe, que questiona desde o princípio as ideias dos visitantes locais, cuja maioria pensa que não houve pretos em Santa Fe. Um relato directo e aparentemente, para quem não sabe muito, objectivo, que aborda todas as vertentes da vida dessas pessoas na cidade de Santa Fe e que oferece possíveis explicações pela sua ‘invisibilidade’.

Por último, uma nota sobre a minha visita ao Teatro Cólon, o teatro que foi construído para mostrar que Buenos Aires poderia competir com Paris (uma comparação que os Argentinos continuam a fazer quando querem falar da intensa oferta cultural da sua capital). Este era o teatro da elite de Buenos Aires, que tinha pago pela sua construção. Juan Perón abriu-o ao povo, não só para assistir a ópera, mas também para reuniões sindicais, enfurecendo os seus ‘guardiões’. O teatro é gerido pelo governo nacional e voltou a ser um espaço reservado às elites. A guia disse-nos que não há muitas pessoas em Buenos Aires a ver ópera e bailado. Ela própria, que mostrou sentir um grande carinho pelo edifício (falou sempre na primeira pessoa enquanto nos contou a sua história), não assiste a espectáculos. Também parece não existir um interesse por parte dos dirigentes em dar a conhecer estas artes a mais pessoas. O teatro não tem serviço educativo, não existem descontos ou outras ofertas de última hora e as transmissões pela rádio, que outrora se fizeram, também acabaram.

Argentina é um país imenso e diverso. E as suas ‘diversidades’ estão bem separadas, tal como acontece em muitos outros países em todo o mundo. Uma viagem que começou pelos parques nacionais da Terra do Fogo - Fim do Mundo e da Patagónia, seguiu-se no noroeste ‘dos Índios’, passou por um casamento na Santa Fe, para acabar em Buenos Aires, que parece reunir todos estes mundos: da Plaza de Mayo a La Boca, dos bairros ricos da Recoleta e de Puerto Madero à estação do Retiro e à Villa 31 (nesta última não entrei, mas vi as suas cores intensas – um claro indicador, parece, de pobreza - da autopista que nos leva ao aeroporto).

Monday, 18 April 2011

Uma pausa...

... há muito sonhada. Até 9 de Maio.

Até lá, e se vos faltarem as leituras, conheçam a 'minha' cubana. Há aproximadamente um ano, juntei-me ao grupo de pessoas que traduzem para várias línguas o blog Generación Y, de Yoani Sánchez. Yoani é uma mulher inteligente, sensível, dinâmica, corajosa. A tradução dos seus posts é uma janela que se abre e traz conhecimento, prazer, às vezes muita alegria e outras lágrimas aos olhos.

Um dos momentos mais especiais ao longo deste último ano foi no dia 12 de Fevereiro, quando Yoani escreveu Egipto 2.0. Nesse mesmo dia, uma outra mulher no Egipto escrevia Fin du régime.

Espero pelo dia em que deixarei de traduzir o blog de Yoani. Será um dia feliz.

Monday, 11 April 2011

Palavras, imagens, sentimentos, percepções: tudo conta

Mausoléu de Halicarnasso (Imagem tirada de Ten books on Architecture de Vitrúvio)
Augusto M. Seabra escreve na Arte Capital sobre A obra de arte na era da sua reprodutibilidade digital. É um texto interessantíssimo, que apresenta e reflecte sobre uma série de antíteses na forma como vários autores vêem as obras de arte na sua relação com os museus e a relação do público com elas por meio dos museus e, hoje em dia, por meio da sua presença online.

As considerações dos referidos autores (Valéry, Proust, Malraux, Benjamin) e as questões levantadas pelo próprio Augusto M. Seabra motivam uma reflexão tanto do ponto de vista do profissional de museus como do visitante. No entanto, o texto faz-me querer sobretudo comentar sobre questões de terminologia e percepção.

Diz-nos Seabra que Theodor Adorno, na introdução do seu livro Prismas, enuncia: “A palavra alemã ‘museal’ (museulike) tem acentos desagradáveis. Refere-se a objectos com os quais o observador já não tem uma relação vital e que estão em processo de morte, devendo a sua preservação mais ao respeito histórico que à necessidade do presente. Museus e mausoléus estão ligados por mais que a associação fonética. Os museus são como o sepulcro familiar das obras de arte.”

O texto de Adorno data de 1967. Vinte e quatro anos mais tarde, em 1991, Nick Merriman publicava Beyond the Glass Case: The past, the heritage and the public. Merriman fez um estudo de públicos procurando perceber melhor a percepção que as pessoas tinham dos museus. Uma das perguntas era: “Em qual destas coisas os museus vos fazem pensar mais?”. A maioria dos inquiridos (35%) respondeu ‘biblioteca’ (44% dos visitantes frequentes e 24% dos não-visitantes) e 34% disse ‘monumento aos mortos’ (a grande maioria dos não-visitantes e visitantes raros, mas, também, 17% dos visitantes frequentes e 28% dos regulares).

Passados mais vinte anos, vários estudos de público apontam para uma viragem na relação das pessoas com os museus. Se bem que nem de todas as pessoas e nem com todos os museus… A percepção do espaço silencioso, morto, irrelevante, intelectualmente inacessível, persiste. O que faz a diferença? Sem dúvida, a postura escolhida pelos próprios museus. A relação e as percepções mudam quando os museus procuram cumprir a sua missão assumindo todas as suas cinco funções (coleccionar, preservar, estudar, expor e interpretar) como igualmente importantes; quando não olham apenas para dentro e não procuram impor necessidades e interesses; quando se interessam em conhecer melhor as comunidades em que estão inseridos e que deverão servir; quando trabalham no sentido de serem relevantes para elas; quando sabem pôr as pessoas à vontade, do ponto de vista físico, psicológico e intelectual; quando reconhecem, e não menosprezam, o contexto social da visita ao museu; quando procuram ser espaços de descoberta, de desafios, de fruição; quando abandonam o monólogo e promovem o diálogo; quando sabem adaptar a sua linguagem conforme o seu interlocutor, ou seja, quando estão empenhados em comunicar (abordei anteriormente estas questões nos posts Convite para a festaE afinal, qual é a minha visão?Por falar em novos públicosMuseus: as novas igrejas?  e Livres de visitar um museu de arte).

A referência de Adorno à palavra ‘museu’, e ao que ela representa, fez-me pensar em tudo isto e em particular na terminologia hoje usada pelos profissionais portugueses. A definição de museu do ICOM abrange vários tipos de instituições e de espaços que partilham a mesma missão e desempenham as mesmas funções que os museus. Mais concretamente, são considerados museus: os sítios e monumentos naturais, arqueológicos, etnográficos e históricos; os jardins botânicos e zoológicos, os aquários e viveiros; os centros de ciência e os planetários; as galerias de arte e galerias de exposição de bibliotecas e arquivos; as reservas naturais; as instituições ou organizações que desenvolvem actividades de conservação, investigação, educação, formação, documentação e outras relacionadas com museus e museologia; os centos culturais e outras instituições que promovem a preservação, continuidade e gestão dos recursos patrimoniais materiais e imateriais.

Com uma definição tão abrangente, pergunto-me, então, porque é que em Portugal sentimos a necessidade de usar expressões como ‘espaços musealizados’ e ‘objectos musealizados’. É que a mim sempre me soaram respectivamente a ‘espaços mortos e silenciosos’ e ‘objectos embalsamados’. Sei que não deve ser o mesmo para todos, mas a mim é a isto que me soam. Nunca usei estas expressões. Nunca precisei delas para me exprimir com precisão. Nunca gostei delas. Acho que só servem, por um lado, para complicar (porque não dizer as coisas com o seu nome?), e, por outro, para reforçar as percepções negativas que algumas, muitas, pessoas têm dos museus. As palavras ‘musealizar’ e ‘musealizado’ apontam, na minha opinião, para um processo. O processo de ‘dignificar’ um espaço ou de retirar um objecto do seu contexto natural e de lhe dar um ‘tratamento’ que o torne ‘digno’ de pertencer a uma colecção, de se tornar ‘objecto de museu’. Penso que esta terminologia, o sentimento – muito subjectivo, sim – que me provoca, não faz justiça ao esforço de muitos profissionais de museus que estão empenhados, exactamente, em criar ou preservar contextos, contar histórias, criar condições de conforto, tornar a visita numa experiência estimulante, surpreendente, divertida, permitindo às pessoas apropriarem-se do espaço. Uma vez que as percepções negativas do público são do nosso conhecimento, parece-me preferível evitar o uso de uma linguagem que as possa reforçar. Parece-me preferível acarinharmos a palavra ‘museu’ e continuarmos a trabalhar para que a mesma passe a adquirir acentos positivos para cada vez mais pessoas.

Monday, 4 April 2011

Porque é que as coisas não acontecem?

Apesar do montão de livros, artigos, revistas e relatórios que está na minha mesa, esta semana não li nada. Foi uma longa pausa. Mas pensei em muitas coisas. Pensei em particular em porque é que as coisas não acontecem. Não acontecem como as enunciamos, não acontecem como as planeamos, não acontecem como as queremos, não acontecem como deviam, não acontecem como seria correcto acontecerem.

Nestes últimos dias ouvi discursos, assisti a comunicações, conversei com amigos, colegas, conhecidos. Parece que quando falamos dizemos as coisas certas, acreditamos nelas com convicção, parece que estamos a apenas um passo de as concretizar.

Mas não acontecem. A distância entre o pensar/dizer e o fazer parece ser enorme. Porquê? Somos melhores nas palavras do que nas acções? Estamos apenas a proferi-las, a repeti-las até à exaustão, porque soam bem, porque são as coisas certas de dizer, mas não temos capacidade de passar da teoria à prática? Ou será que não temos um interesse real em que aconteçam? Que não estamos suficientemente empenhados? Que não sabemos planear, estabelecer prioridades, avançar passo a passo? Mas… avançar.

Ideias e práticas já velhas são apresentadas como uma novidade, como a última descoberta. Não o são. São uma realidade noutros países, noutros meios, há muito. Porque é que demoramos tanto a aceitá-las e a pô-las em prática? Resistência ao novo? Ritmos diferentes? Condições diferentes? Ou simplesmente conformismo?

Algo falta, é certo. Conhecimentos, capacidade, determinação, profissionalismo, organização, planeamento, sinceridade? Ou simplesmente visão?

Monday, 28 March 2011

A cauda longa

Na semana passada estive em Guimarães, numa Jornada organizada pelo Paço dos Duques sobre a importância do marketing na promoção dos museus. As inscrições superaram as expectativas da organização - e também a capacidade da sala -, algo que, no meu ver, prova o interesse dos profissionais dos museus nesta temática, mas também a necessidade em aprofundar a mesma, uma vez que, de uma forma ou doutra, todos os museus desenvolvem acções de marketing, mas poucos têm profissionais com formação adequada que as possam integrar numa estratégia.

A minha comunicação intitulava-se “A necessidade de definição de estratégias de comunicação e marketing para os museus” e uma das perguntas que me foram colocadas no fim foi até que ponto a criação de marcas para museus pequenos e grandes poderá constituir um impedimento no desenvolvimento de parcerias entre eles, uma vez que a marca implica concorrência.

Cada museu tem uma oferta única, começando, obviamente, pela sua colecção. Os museus podem competir a outros níveis - como os serviços, por exemplo -, mas ao mesmo tempo podem criar parcerias, juntar esforços e os ‘pequenos’ podem aproveitar a visibilidade e popularidade dos ‘grandes’. Estava a responder à pergunta e a imagem que tinha na minha cabeça era do site da Amazon, que quando compramos um livro, nos informa: “Pessoas que compraram este livro, compraram ainda…”. O que poderia ser traduzido para: “Se gostou de visitar este museu, talvez tenha interesse em visitar também…”.


Esta questão dos ‘pequenos’ e dos ‘grandes’, dos mais e menos populares, dos mais e menos conhecidos, levou-me a ler novamente o livro The Long Tail (A cauda longa), de Chris Anderson, que tem o subtítulo: “Why the future of business is selling less of more” (porque é que o futuro do negócio é vender menos de mais). Neste livro realmente inspirador Anderson analisa a transformação do mercado de massa numa massa de nichos. Graças às novas tecnologias, e especialmente à Internet, o mercado hoje em dia consome não apenas os grandes êxitos, mas também inúmeros produtos de nicho, cujo total de vendas torna-os no novo grande (enorme) mercado. Isto acontece sobretudo porque, como se vê no caso da Amazon, a falta de necessidade de armazenar produtos e de os expor em prateleiras, baixou radicalmente os custos de os colocar no mercado. E uma vez colocados no mercado, começam a vender. Ao mesmo tempo, os consumidores, que sempre gostaram de poder ter escolha, são hoje os novos cosmopolitas que apreciam e consomem tanto o mainstream como o underground. O resultado não é apenas quantitativo (maior oferta, maior escolha), mas também qualitativo, uma vez que se tornou óbvia a procura de conteúdos não comerciais.

São três as forças da ‘cauda longa’, diz Anderson: a democratização das ferramentas de produção, que abriu o caminho a novos produtores e definiu uma nova ‘Pro-Am era’ (profissionais – amadores), tornando a ‘cauda’ mais longa; a democratização da distribuição, que incentivou a criação de promotores agregadores (Amazon, eBay, iTunes, Google, Wikipedia), que tornam a cauda mais grossa; e a ligação entre oferta e procura, através daquelas pessoas que determinam os gostos e as opções de outras, ou seja… todos nós e os nossos ciclos de amigos e conhecidos, que, através de blogs, críticas, comentários e recomendações partilhados online conduzimos a procura da ‘cabeça’ para a ‘cauda’.

Todos estes desenvolvimentos afectam directamente o sector cultural, a nível de produção, distribuição e de consumo. No que diz especificamente respeito à Comunicação, quem trabalha nesta área sabe que o passar-a-palavra tem sido a melhor forma de promoção, aquela em que os consumidores mais confiam. “A internet”, diz Anderson, “é o maior amplificador do passar-a-palavra” e as implicações, ou as oportunidades, que nos apresenta afectam e influenciam a forma como desenvolvemos o nosso trabalho. Muitas instituições culturais criam hoje em dia os seus próprios conteúdos para a Internet e as redes sociais, não querendo depender apenas dos meios de comunicação para a divulgação da sua oferta. Esta é, realmente, uma parte fundamental do trabalho que devemos desenvolver. Mas é igualmente importante ‘ouvirmos’ o que se diz sobre nós no ciberespaço. Quem são as pessoas que influenciam outras? Temos que as identificar e temos que saber o que dizem sobre nós. Como, onde? Usando ferramentas como o Google Alerts, Google Trends, identificando menções à nossa marca no Facebook, etc. É essencial estarmos atentos e sabermos usar estes novos canais e ferramentas de comunicação. E na gestão deste trabalho, como de todos os outros, a eficiência só pode ser garantida com a criação de planos concretos, a elaboração de formas de avaliação e a integração de tudo isto numa estratégia de Comunicação.

E para voltar à pergunta que me foi feita em Guimarães e que acabou por me levar tão longe, há museus pequenos que poderiam surpreender-nos e encantar-nos… se soubéssemos que existem. Todos juntos constituem uma espécie de ‘cauda longa’, não propriamente ameaçadora para a ‘cabeça’, os museus grandes, populares e visíveis. A parceria com eles parece natural, é desejável, não constitui concorrência da forma como acontece noutros negócios. No entanto, não resultará se os ‘pequenos’ não investirem na qualidade da sua oferta. Para a maioria das pessoas, a visita a um museu é uma opção de ocupação dos tempos livres. O museu que não souber garantir a qualidade da experiência, facilmente será apagado da lista das opções. E, na verdade, isto é válido para pequenos e grandes.

Monday, 21 March 2011

É possível medir o impacto?

Pororoca, da coreógrafa brasileira Lia Rodrigues,
apresentado na Culturgest em Abril 2010. (Foto: Sammi Landween)
Quando falamos no valor intrínseco da cultura em geral e das artes em particular, consideramos que não há forma de o avaliar. Defendemo-lo por intuição, por experiência própria, recorrendo a provas empíricas, mas não nos parece possível investigá-lo cientificamente. Este tema interessa-me em particular e assim fiquei muito curiosa quando encontrei uma referência a um estudo que se intitulava Assessing the intrinsic impacts of a live performance. O que encontrei na Internet foi este sumário dos resultados do estudo, que comecei a ler com enorme interesse.

O estudo foi desenvolvido pela WolfBrown, uma empresa americana que se dedica ao estudo das artes e da cultura. Em particular, Alan Brown tem desenvolvido vários trabalhos relacionados com o impacto intrínseco e o envolvimento da comunidade. Juntamente com a co-autora do estudo, Jennifer Novak, Brown explica que através desta investigação procuraram definir e medir a forma como um espectáculo ao vivo transforma os espectadores. Mais concretamente, basearam-se em três hipóteses: 1) Que os impactos intrínsecos pelo facto de assistir a um espectáculo ao vivo podem ser medidos; 2) que diferentes tipos de espectáculos criam diferentes grupos de impactos intrínsecos; e 3) que a abertura de uma pessoa para viver a experiência de um espectáculo ao vivo influencia a natureza e extensão dos impactos. Entre Janeiro e Maio de 2006 entrevistaram espectadores de um total de 19 espectáculos de vários géneros de música, dança e teatro. Foram aplicados dois questionários, um antes do espectáculo, para avaliar a preparação mental e emocional para o mesmo, e outro depois, preenchido em casa e enviado pelos inquiridos, que pretendia investigar uma série de reacções àquele espectáculo específico.

Através do primeiro questionário, os investigadores pretendiam avaliar: o índice de contexto (o nível de experiência e conhecimentos prévios dos inquiridos relativamente ao espectáculo e aos intérpretes); o índice de relevância (o nível de conforto da pessoa, ou seja, se se encontrava numa situação familiar, do ponto de vista social e cultural); o índice de antecipação (o estado psicológico dos inquiridos imediatamente antes do espectáculo, as suas expectativas). Através do segundo questionário, Brown e Novak procuraram, então, identificar e medir os impactos dos espectáculos nos inquiridos. Os índices definidos foram: cativação, estímulo intelectual, ressonância emocional, valor espiritual, crescimento estético e ligação social.

Neva, pela companhia chilena Teatro en el Blanco, apresentado na Fundação Calouste Gulbenkian em Junho 2010, no âmbito do programa Próximo Futuro.
(Foto: Taina Azeredo)
Tudo isto soava fascinante. Mas não conseguia imaginar o tipo de perguntas que teriam sido feitas a fim de avaliar e chegar a conclusões relativamente a estes factores. Por isso, escrevi a Alan Brown, que teve a amabilidade de me enviar rapidamente o relatório completo, incluindo os questionários e os quadros com os resultados.

A primeira parte do estudo procurava identificar a abertura / preparação das pessoas para viverem a experiência do espectáculo. As perguntas neste questionário, que procuram explorar os três índices acima referidos, parecem bastante óbvias e directas: conhecimento prévio do trabalho dos intérpretes e familiaridade com o respectivo género de arte; frequência com que assiste a espectáculos deste e doutros géneros; fontes de informação sobre o espectáculo; pormenores sobre a organização da ida ao espectáculo; constituição do grupo; principais razões para assistir; estado de espírito, entusiasmo e expectativa de vir a gostar da experiência. Muito sucintamente, os resultados desta primeira parte indicam que as pessoas com maior índice de contexto podem beneficiar mais dos espectáculos; a maioria das pessoas compra bilhetes para espectáculos que se inserem na sua zona cultural de conforto; a expectativa de uma experiência agradável é o melhor indicador de que a mesma irá trazer satisfação.

No que diz respeito à segunda parte, o tipo de perguntas para cada índice de impacto era:

Cativação: até que ponto os inquiridos se sentiram absorvidos, perderam a noção do tempo e se esqueceram de tudo o resto?

Estímulo intelectual: sentiram-se provocados, desafiados, intelectualmente envolvidos, reflectiram sobre as suas próprias opiniões e ideias, há coisas que gostariam de perguntar aos artistas, falaram sobre o significado do espectáculo com as pessoas que os acompanhavam?

Ressonância emocional: a reacção emocional foi forte, quais as emoções mais intensas, sentiram-se ligados aos intérpretes, o espectáculo foi de alguma forma ‘terapêutico’?

Valor espiritual: sentiram-se inspirados, com mais poder, passaram para um estado de consciência diferente?

Crescimento estético: sentiram-se expostos a um estilo ou tipo de arte com o qual não estavam familiarizados, mudaram de ideias relativamente ao mesmo, sentem-se mais preparados para o apreciar, acompanharão mais no futuro?

Ligação social: sentiram-se ligados ao resto dos espectadores, tiveram um sentimento de pertença, o espectáculo serviu para celebrar o seu património cultural, foram expostos a uma nova cultura, adquiriram uma perspectiva nova sobre as relações humanas e os assuntos sócias?

Muito sucintamente, mais uma vez, e destacando apenas alguns resultados que chamaram a minha atenção, o estudo revelou que o índice cativação está relacionado com altos níveis de satisfação e influencia outros impactos; a maioria dos inquiridos teria perguntas a colocar aos artistas e conversou sobre o significado do espectáculo com os seus acompanhantes; existe uma forte ligação entre o índice emocional e a memória da experiência; sentir-se inspirado não é necessariamente um impacto procurado pelos espectadores; a maioria dos inquiridos sente-se melhor preparada para apreciar o género de arte a que foi exposta; a ligação social acontece quando as pessoas são expostas a novas culturas e também quando assistem a espectáculos ligados ao seu património cultural.

No sumário dos resultados acima referido podem-se encontrar muitos mais pormenores sobre o estudo e também sobre os níveis de satisfação das pessoas. Este inquérito não pretende avaliar a qualidade dos espectáculos, apesar de alguns dos impactos poderem estar relacionados a ela. Tenho dúvidas quanto ao entendimento que os inquiridos poderão ter tido de algumas perguntas no segundo questionário, ainda por cima sendo ele um questionário auto-administrado, ou seja, as pessoas preencheram-no sozinhas em casa sem poderem colocar questões em caso de dúvida. No entanto, posso dizer que a leitura do relatório satisfez a minha curiosidade. Parece mesmo que sim, que é possível avaliar e chegar a conclusões relativamente ao impacto de um espectáculo ao vivo. A minha curiosidade agora estende-se aos impactos que persistem, meses ou anos depois; àquilo que fica; e ao como e porque é que fica. Registos na nossa memória e na nossa alma que não se dissipam.

Sonia, pelo New Riga Theatre, apresentado no Teatro Maria Matos em Junho 2009, no âmbito do programa Dias das histórias (im)prováveis. (Foto: Ginta Maldera)