Monday, 6 August 2012
Monday, 30 July 2012
Guest post: "Brindemos à diplomacia cultural", por Caroline Miller (Reino Unido)
Caroline Miller é a dinâmica e visionária directora de Dance UK. É uma daquelas pessoas que têm a capacidade de pensar em grande e trabalha muito para que as coisas realmente aconteçam, inspirando outras pessoas a juntar-se e a trabalhar com ela. Uma das maiores conquistas de Dance UK foi a inauguração, em Abril passado, da primeira clínica para bailarinos lesionados, integrada no Sistema Nacional de Saúde britânico. Este ano, durante o fellowship em gestão cultural no Kennedy Center, Caroline apercebeu-se que tem mais um papel: o de diplomata cultural. Neste post, partilha connosco as suas reflexões sobre o verdadeiro papel que a diplomacia cultural pode ter na promoção do entendimento mútuo. Não poderia ter desejado um texto mais bonito para a celebração da conclusão do nosso segundo ano no Kennedy Center. mv
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| DESH, por Akram Khan Company. Coreógrafo/Performer: Akram Khan. (Foto: © Richard Haughton) |
Tenho estado a pensar muito na diplomacia cultural nesta última semana. Como Directora de Dance UK, a principal organização para apoiar o sector da dança profissional no Reino Unido, estou empenhada na promoção da dança na sociedade, ao mesmo tempo que luto pela sua valorização. Passo muito menos tempo a pensar sobre o papel da dança na promoção e representação da cultura e da sociedade britânicas.
Isto mudou quando me encontrei com um grupo de adidos culturais no âmbito do Summer International Arts Management Fellowship no Kennedy Center em Washington. Sendo todos funcionários públicos americanos com experiência, estavam a preparar-se para assumir novos postos em todo o mundo e queriam muito encontrar-se com os gestores culturais internacionais que aqui se encontram. Apesar de ter trabalhado com vários adidos culturais em Londres e de ter beneficiado do seu apoio em projectos artísticos específicos, esta foi a primeira vez que parei para, realmente, pensar no propósito estratégico desses postos governamentais e naquilo que procuram fazer no âmbito de um plano maior.
De acordo com o Institute of Cultural Diplomacy, Dr. Milton C. Cummings, especialista americano em ciências políticas e escritor, define a diplomacia cultural como “o intercâmbio de ideias, informações, valores, sistemas, tradições, crenças e outros aspectos culturais, com a intenção de promover o entendimento mútuo”. Esta definição poderia ter sido usada para descrever a minha experiência como fellow no Kennedy Center. Isto significa que sou um diplomata cultural?
Aquilo que pensava ser uma excelente oportunidade pessoal para o meu desenvolvimento profissional e para levar novas competências e ideias de gestão para a minha organização, ia igualmente fazer de mim, na verdade, uma embaixadora na promoção de ideias, de valores e da cultura britânica.
Após a conclusão do meu primeiro ano como fellow em 2011, tinha falado aos meus amigos da minha surpresa em descobrir que a globalização e homogeneização da cultura não era tão comum como pensava. Tinha passado um mês intenso convivendo e trabalhando com gestores culturais de 28 países, que tinham falado dos seus mundos de trabalho muito diversos, em países como Zimbabwe, Egipto, Paquistão, Moldávia e Cambodja, entre outros. Ao longo do tempo, íamos trocando ideias, tradições e sistemas de valores dos nossos países. “No meu país” tornou-se no nosso slogan colectivo.
As nossas experiências eram muito diferentes. Desde as regiões onde não existe uma cultura de compra de bilhetes para eventos culturais aos países onde a corrupção política e as revoluções eram o cenário e influenciavam a produção artística.
Ao trabalhar ao lado de gestores culturais dos cinco continentes, tinha sido promovida de gestora de uma organização de dança a “a bife”, a representante de uma história colonial inteira! Apesar de ser uma brincadeira, o estereótipo do Império Britânico Colonial era real e ainda vigente.
No entanto, aquilo que não estava estereotipado era o interesse e entusiasmo à volta da cultura britânica – teatro, musicais, artes visuais, museus, música ou dança. Esta era a área da ‘condição de ser britânico’ que captava o interesse e a imaginação dos meus colegas internacionais. Era através das artes que as pessoas tinham obtido um entendimento mais sofisticado da sociedade, dos valores e das crenças britânicas. Isto era para mim suficiente para provar o valor da diplomacia cultural e o papel das artes como comunicador eficaz dos melhores atributos de cada nação.
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| Entity, by Wayne McGregor/Random Dance, 2008. (Foto: © Ravi Deepres) |
Tive que pensar novamente na forma como falo sobre o valor da dança no Reino Unido, por exemplo, sobre Akram Khan – de nacionalidade britânica/bangladeshi -, cujo espectáculo Desh explora uma relação ficcionada com o seu pai (ver aqui; sobre a dança contemporânea abstracta de Wayne McGregor/Random Dance, misturada com novas tecnologias (ver aqui); sobre a dança/performance de Rosie Kay Five Soldiers, que fez a sua pesquisa treinando com o exército e passando tempo no hospital de Birmingham, que cuida dos soldados lesionados que regressam do Afeganistão (ver aqui); ou sobre a peça dos DV8 Can We Talk About This, que explorava temas como a liberdade de expressão, a censura e a ofensa na sociedade britânica (ver aqui). Todos juntos, dizem mais sobre o verdadeiro Reino Unido de hoje - rico em tensões entre a tradição e a modernidade, a religião e a espiritualidade – do que qualquer ensaio.
Na altura que estarão a ler este post, terão começado os Jogos Olímpicos de Londres e mais de um bilião de pessoas em todo o mundo terão visto a espectacular cerimónia de abertura. Neste momento que estou a escrever, não tenho a mais pequena ideia sobre os detalhes deste evento. Sabemos que vai incluir alguns dos melhores artistas e talentos britânicos e que o seu tema são “As ilhas das maravilhas”. A equipa criativa, que inclui Danny Boyle (conhecido mundialmente como realizador do filme Slumdog Millionaire), prometeu um espectáculo singularmente britânico. O jornal Daily Telegraph diz que o espectáculo começa numa “terra verde e agradável”, passa pela revolução industrial e uma celebração do direito de protestar, o serviço público das enfermeiras do Sistema Nacional de Saúde britânico e talvez ainda por um outro elemento-chave da vida britânica… as saídas no Sábado à noite. Promete ainda ser aquela coisa rara numa cerimónia de abertura – divertido! A seguir ao ensaio geral, um participante escreveu no Tweeter que a cerimónia é “Esplendidamente britânica e magnificamente louca“!
Seja o que for que esteja incluído na cerimónia de abertura do Jogos Olímpicos de Londres, tenho a certeza que irá comunicar eficazmente mais, num único espectáculo para uma audiência enorme, sobre o Reino Unido moderno do que os políticos têm conseguido em décadas. E uma última coisa: não devemos esquecer que, quaisquer que sejam (ou não) as dificuldades financeiras dos nossos países, as artes têm um papel em desafiar a ideia do que é e do que representa um país… Por isso, brindemos à diplomacia cultural.
Caroline Miller é directora de Dance UK, a voz nacional para o sector profissional da dança no reino Unido. Começou a sua carreira como assistente de bilheteira e continuou como marketing manager e assessora de imprensa em grandes instituições culturais de Londres, incluindo o Institute of Contemporary Arts, Southbank Centre e Sadler’s Wells Theatre. Foi Responsável de Publicidade para a editora internacional de arte Phaidon Press. Ganhou uma bolsa da União Europeia que distingue líderes culturais emergentes femininos, a qual lhe deu a oportunidade de participar no primeiro mestrado em Liderança Cultural da City University (2007). No Dance UK criou o Manifesto para a Dança, que foi apresentado ao governo britânico e inspirou documentos similares em todo o mundo, e estabeleceu e dirige o All Party Parliamentary Dance Group, um grupo de políticos que defende a dança junto do governo.
Monday, 23 July 2012
Conforto e perturbação - Parte II
Tive curiosidade em
saber de onde veio a citação do meu último post: “As artes devem confortar o perturbado e
perturbar quem se sente confortável”. Procurei no Google e o nome que apareceu
com maior frequência (apesar de haver mais dois concorrentes) era o de Cesar A.Cruz, poeta mexicano, educador e activista de direitos humanos. Suponho que qualquer que seja o
sector que deseje honestamente ter um impacto na vida das pessoas – seja ele o
social, o da educação, o da política, o dos media, o das artes/cultura –
procure o mesmo: confortar os perturbados e perturbar quem se sente
confortável.
É exactamente isto que
Washington tem sido para mim nas últimas semanas. Estou sempre algures entre os
dois, às vezes mais inclinada para o conforto, outras para a perturbação. Pelas
melhores razões, suponho.
Poderia
falar de muitas coisas, mas vou apenas falar de duas: duas pessoas, que tivemos
o privilégio de conhecer. Aqui estão as suas histórias:
Yvette Campbell, ex-bailarina da companhia Alvin Ailey, é
Presidente e CEO de Harlem School of the Arts (HSA). Em Janeiro 2011, aceitou o convite para liderar
a HSA, numa altura em que a escola tinha uma dívida enorme e estava prestes a
fechar. Para além da existência da dívida, que era do conhecimento de todos,
Yvette diagnosticou ainda os seguintes problemas: a escola era conhecida
sobretudo entre pessoas mais velhas, que se lembravam dela do seu tempo de auge
nos anos 60; o edifício era bastante proibitivo, visualmente inacessível,
escondendo os ‘tesouros’ que guardava (Yvette, ela própria uma bailarina, nunca
antes tinha lá entrado); havia uma necessidade de re-contar a história, tanto à
comunidade mais próxima como àquela mais alargada, e de construir uma ‘família’
que pudesse contribuir (também e sobretudo financeiramente) para a
sustentabilidade da escola. Foi à volta destes problemas e necessidades que Yvette
Campbell construiu a sua estratégia, concentrando-se fortemente no marketing
institucional e estando aberta a qualquer oportunidade que permitisse à escola
dar que falar, fazendo-a presente na mente e nos corações das pessoas.
Entre as muitas coisas
que Yvette partilhou connosco, gostaria de destacar duas. Primeiro, a sua
relação com a equipa da HSA. Yvette não trouxe com ela uma ‘equipa-maravilha’ que iria
fazer acontecer um ‘milagre’. Quando assumiu o seu posto, começou por querer
saber o que é que cada membro da equipa fazia. A seguir, partilhou com eles a
sua visão e objectivos, explicou qual era a meta a atingir e disse-lhes o que é
que esperava de cada um deles. As pessoas que não conseguiram corresponder às
expectativas, foram convidadas a sair. Tal como Yvette pensa que ela própria
deverá ser convidada a sair se não atingir os objectivos. Pretende ter uma
equipa concentrada, motivada e empenhada e quer ter à sua volta pessoas mais
inteligentes do que ela nas suas respectivas áreas. O segundo ponto que gostaria
de destacar é a sua relação com a ‘família’. Yvette assumiu desde o primeiro
momento a obrigação de ser accountable*
junto de todas as partes interessadas e daquelas pessoas que poderiam ter a
capacidade e o interesse em ajudar a escola a cumprir a sua missão
(especialmente ao nível financeiro). Por isso, tem estado a partilhar com elas toda a informação sobre a evolução do
projecto, enviando pessoalmente relatórios detalhados a algumas dezenas de
pessoas (inicialmente todos os dias, depois semanalmente e agora mensalmente).
Chama-os “os relatórios da CEO”. Esta é a sua forma de os manter todos
informados sobre os progressos que a escola (e ela própria como CEO) está a
fazer no sentido de atingir os objectivos estabelecidos e também de os manter
todos envolvidos neste esforço colectivo, lembrando-lhes da importância do seu
apoio. Quando ouvimos e olhamos para a Yvette Campbell, temos aquele sentimento
distinto de que estamos perante um líder nato. A sua energia, entusiasmo,
determinação, o seu pensamento estruturado, fazem-nos sentir que ela é a pessoa
certa no lugar certo. Graças a ela e à equipa da HSA, ano e meio depois da sua
entrada, a escola voltou a estar no bom caminho e a saldar a dívida,
tornando-se numa instituição cultural financeiramente saudável.
O segundo encontro marcante foi com Taro Alexander. Taro, actor e professor, gagueja desde os três anos de idade. Passou anos e anos a tentar ser apenas mais um rapaz ‘fixe’ e a não ser visto como uma aberração; a procurar esconder, com vários truques, que gaguejava (a guaguez que não tinha quando estava no palco). Conhece pessoalmente a luta que está a ser travada por muitas crianças e jovens, que fazem parte de uma comunidade de 60 milhões de pessoas em todo o mundo. Assim, em 2001, fundou Our Time, uma organização que ajuda crianças a melhorar a sua auto-confiança e capacidades de comunicação através do teatro. Ao mesmo tempo, assiste pais e professores, inclusivamente terapeutas da fala em escolas, a maioria dos quais tem muito pouca preparação para lidar com a gaguez. Esta é uma pequena organização de 5 pessoas, que trabalha com aproximadamente 150 crianças, ou seja, dificilmente seria do interesse de potenciais patrocinadores e doadores, que procuram os grandes projectos que proporcionam visibilidade e reconhecimento. Assim, o financiamento tem sido uma preocupação desde o primeiro momento e uma das formas de lidar com ela tem sido a organização de um evento anual, uma gala, para a angariação de fundos. No início, as coisas não foram fáceis e a organização chegou a perder dinheiro. Mas Taro Alexander e a sua equipa mantiveram-se concentrados, continuaram a fazer o seu trabalho e continuaram a organizar um evento de qualidade e entusiasmante, conseguindo assim melhorar os resultados da angariação de fundos, se bem que modestamente. O seu melhor ano foi 2010, quando Carly Simon, uma cantora famosa – que também gagueja -, aceitou ser homenageada no evento desse ano, atraindo um grande número de pessoas e ajudando a angariar mais dinheiro.
O ano de 2010 foi o ponto de viragem por mais uma razão. Foi pedido a Taro Alexander para dar a sua opinião sobre o guião de uma nova peça de Broadway sobre o Rei George, o rei que gaguejava. Mais tarde, soube-se que o guião, afinal, se tornaria num filme de Hollywood, com Colin Firth, Helena Bonham Carter e Geoffrey Rush. Taro foi convidado para a estreia. Ficou profundamente impressionado com o filme e com a interpretação de Colin Firth. Assim que o filme acabou, e ultrapassando a sua timidez, foi dar os parabéns ao guionista, David Seidler (que também gagueja), e perguntou se aceitaria ser o homenageado da gala Our Time em 2011. Ele aceitou, no entanto, o facto de Seidler não ser muito conhecido preocupava algumas das pessoas envolvidas na organização da gala quanto ao impacto que o seu nome poderia ter no esforço para a angariação de fundos. Mas vejam o que aconteceu nos meses que se seguiram: as pessoas falavam cada vez mais sobre o filme; The King´s Speech ganhou variadíssimos prémios, incluindo o Óscar de Melhor Guião Original para David Seidler; Colin Firth não ia conseguir estar presente na gala, mas aceitou ser o Presidente da Comissão de Honra; Carly Simon também aceitou o convite para cantar na cerimónia daquela noite.
A gala de angariação de fundos foi um
grande sucesso, mas também um prémio para uma década de trabalho consistente e empenhado. Taro Alexander e a sua pequena equipa estão agora a tentar construir
prudentemente sobre este sucesso, considerando a missão e os recursos da
organização. Uma coisa que estão
certamente a fazer cada vez melhor é registar e partilhar o seu impacto, uma
das formas mais importantes na comunicação com a sua ‘família’, com doadores
existentes e potenciais.
O segundo encontro marcante foi com Taro Alexander. Taro, actor e professor, gagueja desde os três anos de idade. Passou anos e anos a tentar ser apenas mais um rapaz ‘fixe’ e a não ser visto como uma aberração; a procurar esconder, com vários truques, que gaguejava (a guaguez que não tinha quando estava no palco). Conhece pessoalmente a luta que está a ser travada por muitas crianças e jovens, que fazem parte de uma comunidade de 60 milhões de pessoas em todo o mundo. Assim, em 2001, fundou Our Time, uma organização que ajuda crianças a melhorar a sua auto-confiança e capacidades de comunicação através do teatro. Ao mesmo tempo, assiste pais e professores, inclusivamente terapeutas da fala em escolas, a maioria dos quais tem muito pouca preparação para lidar com a gaguez. Esta é uma pequena organização de 5 pessoas, que trabalha com aproximadamente 150 crianças, ou seja, dificilmente seria do interesse de potenciais patrocinadores e doadores, que procuram os grandes projectos que proporcionam visibilidade e reconhecimento. Assim, o financiamento tem sido uma preocupação desde o primeiro momento e uma das formas de lidar com ela tem sido a organização de um evento anual, uma gala, para a angariação de fundos. No início, as coisas não foram fáceis e a organização chegou a perder dinheiro. Mas Taro Alexander e a sua equipa mantiveram-se concentrados, continuaram a fazer o seu trabalho e continuaram a organizar um evento de qualidade e entusiasmante, conseguindo assim melhorar os resultados da angariação de fundos, se bem que modestamente. O seu melhor ano foi 2010, quando Carly Simon, uma cantora famosa – que também gagueja -, aceitou ser homenageada no evento desse ano, atraindo um grande número de pessoas e ajudando a angariar mais dinheiro.
O ano de 2010 foi o ponto de viragem por mais uma razão. Foi pedido a Taro Alexander para dar a sua opinião sobre o guião de uma nova peça de Broadway sobre o Rei George, o rei que gaguejava. Mais tarde, soube-se que o guião, afinal, se tornaria num filme de Hollywood, com Colin Firth, Helena Bonham Carter e Geoffrey Rush. Taro foi convidado para a estreia. Ficou profundamente impressionado com o filme e com a interpretação de Colin Firth. Assim que o filme acabou, e ultrapassando a sua timidez, foi dar os parabéns ao guionista, David Seidler (que também gagueja), e perguntou se aceitaria ser o homenageado da gala Our Time em 2011. Ele aceitou, no entanto, o facto de Seidler não ser muito conhecido preocupava algumas das pessoas envolvidas na organização da gala quanto ao impacto que o seu nome poderia ter no esforço para a angariação de fundos. Mas vejam o que aconteceu nos meses que se seguiram: as pessoas falavam cada vez mais sobre o filme; The King´s Speech ganhou variadíssimos prémios, incluindo o Óscar de Melhor Guião Original para David Seidler; Colin Firth não ia conseguir estar presente na gala, mas aceitou ser o Presidente da Comissão de Honra; Carly Simon também aceitou o convite para cantar na cerimónia daquela noite.
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Porque é que estes dois encontros foram marcantes? O que é que ficou connosco? Ficou o conforto: pelas coisas que podem ser feitas e estão a ser feitas. Ficou a perturbação: pelas coisas que podem e devem, mas não estão a ser feitas. E ficou ainda o lembrete que é preciso coragem, persistência e determinação: tanto para ultrapassar a timidez, como para lidar com equipas ou para trazer mudanças significativas. Porque bater contra a parede faz parte do processo.
*Accountability significa que quem desempenha funções
de importância na sociedade deve regularmente explicar o que anda a fazer, como
faz, por que faz, quanto gasta e o que vai fazer a seguir. Não se trata,
portanto, apenas de prestar contas em termos quantitativos, mas de auto-avaliar
a obra feita, de dar a conhecer o que se conseguiu e de justificar aquilo em
que se falhou. (Fonte: Wikipedia)
Monday, 16 July 2012
Blogger convidado: "Bayimba: um catalisador num sector cultural que enfrenta grandes desafios", por Faisal Kiwewa (Uganda)
Faisal Kiwewa é um homem calmo, mas cheio de energia e
determinação. Tem estado a trabalhar arduamente para colocar as artes e a
cultura no mapa do seu país natal, o Uganda, mas tem expandido o seu impacto em
toda a África de Leste e o resto do continente africano. Está constantemente a
pensar e a planear o próximo passo para levar a causa mais longe. Neste post conta-nos a história,
em forma de conto de fadas, da sua Bayimba Cultural Foundation. Mas a equipa de Bayimba trabalha para que o conto se torne e permaneça uma realidade. mv
Faisal Kiwewa é fundador e director de Bayimba Cultural Foundation e presidente da comissão oganizadora da Uganda Annual Conference on Arts and Culture (UACAC).
… um rapaz (eu) que se interessou por estudar e
observar o estado das artes e da cultura no seu país, o Uganda. Não foi difícil
notar que havia falta de boas e relevantes oportunidades de formação(informal)
e de instituições; falta de criatividade e das capacidades artísticas e
profissionais necessárias entre artistas, organizações culturais e outras
partes interessadas; falta de produção adequada e de instalações para a
realização de espectáculos; e falta de plataformas de exposição e interacção.
Ao cavar mais a fundo, apercebi-me que as principais causas eram três:
primeiro, a falta de reconhecimento e apreciação do papel das artes e da
cultura em moldar a sociedade; segundo, a falta de investimento nas artes e na
cultura; e, terceiro, a falta de interacção e colaboração entre as partes que
compõem o sector das artes e da cultura.
Como é o caso em muitos países em desenvolvimento,
a cultura não é uma prioridade para o governo. É vista como uma questão
subsidiária ao combate à pobreza. O apoio financeiro ao sector é, por isso,
mínimo e as políticas e estratégias culturais fazem uma abordagem algo estática
relativamente à cultura em vez de olharem para ela como uma força dinâmica,
inovadora e criativa na construção da sociedade. O apoio do sector privado tem
sido também limitado e necessariamente selectivo. Os investidores privados têm
focado sub-sectores onde o risco pode ser gerido e o lucro pode ser maximizado.
Ao mesmo tempo, outras partes interessadas no sector não se têm organizado no
sentido de mudarem o status quo, enquanto a maioria dos projectos e das
actividades é implementada em isolamento e sem uma visão a longo prazo, sem
falar da visão para o sector cultural e das artes no seu todo.
Cheguei à conclusão que o potencial das artes e
da cultura como contribuintes eficazes
ao desenvolvimento social e económico estava a ser altamente
negligenciado e subutilizado. Era altura de provocar alguma mudança! Foi,
assim, fundada a Bayimba Cultural Foundation, com o objectivo de se tornar num
catalisador para essa mudança!
… Bayimba começou a sua viagem …
Confrontado com estes múltiplos desafios e a enorme tabula rasa – a
todos os níveis, estava tudo por fazer -, Bayimba, com a experiência que tinha,
começou a desenvolver o seu primeiro programa. Apesar de vários obstáculos, o
primeiro Bayimba International Festival of the Arts foi organizado em
combinação com três workshops de formação para artistas, com o objectivo de
reforçar as capacidades e estimular colaborações artísticas. Isto aconteceu em
2008 e ali foram semeadas as primeiras sementes. Nos anos que se seguiram,
Bayimba cresceu e conseguiu desenvolver um programa abrangente e ambicioso que
procura dar resposta a muitos dos desafios identificados.
Para reforçar o perfil e a posição das artes e do sector cultural como um
todo, Bayimba decidiu envolver-se em actividades de lobbying, para além
das actividades de formação e da plataforma que criou para apresentar o talento
artístico. Em 2009, Bayimba começou com os primeiros debates sobre o papel das
artes e da cultura na sociedade e despertou o sector. Um ano depois, teve lugar
no Uganda a primeira Conferência sobre Artes e Cultura, como uma plataforma de
discussão e acção conjunta. Bayimba tem sido instrumental em juntar as partes
interessadas e organizar o sector das artes e da cultura, tudo isto com o
objectivo de nos juntarmos para trazermos a mudança.
Para fornecer mais plataformas de exposição do talento artístico, para
assegurar que um púbico mais amplo possa usufruir de uma variedade de
expressões culturais e para ajudar a desenvolver o sector das artes e da
cultura em todo o país, em 2010 acrescentou-se ao programa festivais de um dia,
juntamente com actividades de formação para ajudar a desenvolver o talento
local e um programa de intercâmbio de artistas entre as regiões. Os festivais
Bayimba realizam-se hoje em dia em cinco regiões, fornecendo uma plataforma aos
artistas locais e oportunidades de digressão a artistas já estabelecidos, o que
culmina no Bayimba International Festival of the Arts, que no próximo mês de
Setembro irá celebrar a sua 5ª edição.
Ao mesmo tempo, Bayimba tem continuado a investir no desenvolvimento de
talento artístico. Foram realizados workshops de formação para introduzir novas
disciplinas artísticas no Uganda, como
a fotografia, o teatro de rua, as instalações ou espectáculos de poesia. Alguns
dos seus programas, como a formação em música, estão a tornar-se num programa
de formação mais estruturado e duradouro. Paralelamente, Bayimba apercebeu-se
da necessidade de formar outros elementos do sector que não artistas e em 2011
começou a oferecer cursos para gestores culturais e jornalistas da cultura, uma
vez que eles são igualmente importantes para o sector crescer e prosperar.
Graças à sua crescente relevância e reputação no Uganda, Bayimba tornou-se
também num catalisador importante na região da África de Leste e no continente
africano. É um membro respeitado de várias redes regionais e continentais. Mais
recentemente, em Maio 2011, Bayimba tomou ainda a iniciativa de lançar DOADOA,
como uma plataforma profissional de trabalho em rede e de aprendizagem
conjunta, que junta as partes interessadas – pessoas, organizações, negócios,
conhecimento e tecnologia, com o objectivo de criar demanda e de desenvolver um
mercado para as artes performativas, desbloqueando o potencial das indústrias
criativas de África de Leste.
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| Programa de formação em Gestão Cultural que acolhe gestores culturais de todo o continente africano (Foto: Bayimba Cultural Foundation) |
Para ter um impacto duradouro no sector, Bayimba tem ainda procurado
desenvolver e estabelecer sistemas e estruturas duradouras. A
institucionalização do já mencionado programa de formação em música é apenas um
exemplo. Para aumentar o acesso ao financiamento para artistas e aumentar o investimento
no sector, Bayimba está ainda a criar uma plataforma inovadora de crowdfunding
para projectos artísticos na África de Leste e um pequeno esquema de
empréstimos para artistas no Uganda. Bayimba está ainda a planear o
estabelecimento de uma infraestrutura multi-funcional para as artes no Uganda
que seria um ponto de encontro significativo para as artes no Uganda, na África
de Leste e no continente e que viria a coroar tudo o que foi feito até agora.
…. e gradualmente mudou a paisagem….
Atrevo-me a dizer que as intervenções de Bayimba nos últimos 5 anos têm
resultado num desenvolvimento gradual do sector. Através da combinação
excepcional de programas e actividades, Bayimba tem conseguido dar resposta a
vários desafios e tem encorajado outros a fazerem o mesmo. Conseguiu-o sendo um
exemplo, com uma equipa jovem, activa e ambiciosa que não evitou tomar riscos
para iniciar projectos e programas igualmente ambiciosos; trabalhando com
parcerias e desenvolvendo uma ampla rede de parceiros; assegurando o
envolvimento de todos; e tornando Bayimba numa marca de propriedade local. Um
grupo interessante de empreendedores criativos nas artes – mais especificamente
em música, dança, cinema e teatro – tem entretanto surgido, trabalhando
arduamente para desenvolver e promover as artes. E Bayimba tem orgulho em ter
contribuído para esta nova era de empreendedorismo criativo no Uganda.
Continuaremos a servir os nossos artistas, as artes e os nossos públicos para
garantir o espaço da criatividade. Assim, não servimos apenas o sector das
artes e da cultura, mas a comunidade, a sociedade e o mundo…
...para que as artes e a cultura no Uganda possam viver felizes para
sempre.
Faisal Kiwewa é fundador e director de Bayimba Cultural Foundation e presidente da comissão oganizadora da Uganda Annual Conference on Arts and Culture (UACAC).
Monday, 9 July 2012
Conforto e perturbação
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| Foto: Lalla Essaydi |
O regresso a Washington; o
reencontro com os colegas do fellowship e com a equipa do Kennedy Center; os novos fellows que se juntam a nós este ano; a primeira semana
de seminários, trabalhos, apresentações; os primeiros museus e espectáculos; a
celebração do 4 de Julho; as conversas, as intermináveis conversas, sobre a
história que se está a escrever nos países de alguns dos nossos colegas… Uma
inundação de pensamentos e sentimentos.
Os primeiros seminários
lembraram-nos da clareza da missão do Kennedy Center e da forma disciplinada
como esta equipa funciona. Disciplinada no sentido de concentrada, focada,
organizada, esclarecida quanto ao caminho que está a seguir e o onde pretende
chegar. E não pude evitar de me sentir novamente surpreendida pelo facto de
todos os seus membros falarem ‘a mesma língua’, algo que nunca tinha visto
acontecer na prática antes de chegar ao Kennedy Center e não voltei a ver
depois. Não há ‘desvios’ (o que não significa que não haja discordâncias), a
missão é concreta e todos sabem o que têm que fazer para contribuir para o seu
cumprimento. Não é fácil isto acontecer, mas também não é impossível. É preciso
uma liderança forte, consciente e esclarecida sobre a sua visão; é preciso bons
técnicos à volta do líder; é preciso perseverança, rigor e disciplina; é
preciso trabalho, muito trabalho; e é preciso conversa, muita conversa, como
diria Michael Kaiser.
Este ano juntam-se a nós fellows
de Oman, Singapura, Austrália, Zimbabwe, Bósnia, Albânia. Irlanda, Inglaterra e
Colômbia. Cada um representa um caso particular dentro da área da gestão
cultural: instituições financiadas por governos, outras privadas, projectos
particulares, instituições que atribuem financiamento a projectos culturais.
Cada caso enfrenta desafios muito específicos, mas há outros, comuns quase a
todos: a preocupação relativamente ao financiamento e a sustentabilidade; a
falta de políticas culturais nos países de origem; a falta de planeamento; os
públicos e os seus gostos e necessidades; os desafios sociais e tecnológicos.
Ao mesmo tempo que vamos conhecendo estes novos colegas, é com muito prazer e
satisfação que descobrimos os progressos que alguns dos colegas antigos fizeram
no último ano; as pequenas ou grandes mudanças que conseguiram introduzir nas
suas instituições, resultado do que se aprende no Kennedy Center e, igualmente,
através dos colegas do fellowship, gestores culturais experientes,
empreendedores, inteligentes, informados, preocupados. É um enorme desafio
estar na companhia deles.
As preocupações dos nossos
colegas egípcios relativamente ao seu novo presidente (membro da Irmandade
Muçulmana) e a postura que vai adoptar perante a cultura e as artes têm sido
frequentemente objecto de conversas. Olho para estas pessoas: corajosas,
determinadas, sensíveis, cheias de sonhos e de vontade de criar e de ter um
impacto na sua sociedade (por via da cultura e das artes), pessoas que lutam
pela democracia, que valorizam a sua liberdade e que revelam, ao mesmo tempo,
alguma ansiedade relativamente ao que poderá vir a ser o resultado desta luta.
Penso novamente no texto de Marta Porto Imaginário, um espaço para pensar a democracia,
que foi aqui publicado na semana passada. Penso novamente no debate entre Pensadores do Norte de África (em francês) que o Programa Próximo Futuro organizou no fim do mês passado. E penso em todos nós, que assumimos, entre
outros, também o papel de guardião dos valores democráticos. E questiono-me: O
que aconteceu à nossa democracia? O que nos aconteceu a nós? Que uso damos à
nossa liberdade? O que significa o facto de termos abdicado do direito e da
obrigação de nos envolvermos nos assuntos do colectivo (os gregos antigos
chamavam a quem não se envolvia nos assuntos da cidade “idiota”, que na altura
tinha o significado de uma pessoa “privada”)? Ou o facto de lutarmos por ideais
e convicções, mas de nos remetermos a um silêncio estratégico quando esses
ideais são violados por gente de quem poderemos vir a precisar? Ou o facto de nos considerarmos intocáveis e unaccountable* quando
ocupamos lugares de chefia (a qualquer nível)? A cultura alimenta mentes
sensíveis e críticas, cultiva valores, mas pouco acontece se não houver um bom
fertilizador, ou seja, honestidade intelectual e consciência das
responsabilidades, pessoais e colectivas.
“As artes devem confortar o
perturbado e perturbar quem se sente confortável”, citou um fellow na
sua apresentação. E eu tive momentos lindíssimos de conforto e de perturbação
na semana que passou. No Domingo, visitei a exposição Revisions de Lalla Essaydi no National Museum of African Art. Essaydi projecta
no corpo feminino as suas reflexões sobre questões de género, cultura e
religião. A exposição inclui fotografias, pinturas e instalações; imagens
belas, refrescantes, provocadoras, sensuais. Na quinta-feira estreou no Kennedy
Center Giselle, com o Ballet de l´Opéra National de Paris, que está em
digressão nos EUA. Há muitos anos que não via este bailado. O segundo acto foi
de uma beleza indescritível.
*Accountability significa que quem desempenha funções
de importância na sociedade deve regularmente explicar o que anda a fazer, como
faz, por que faz, quanto gasta e o que vai fazer a seguir. Não se trata,
portanto, apenas de prestar contas em termos quantitativos, mas de auto-avaliar
a obra feita, de dar a conhecer o que se conseguiu e de justificar aquilo em
que se falhou. (Fonte: Wikipedia)
Monday, 2 July 2012
Blogger convidado: "Imaginário, um espaço para pensar a democracia", por Marta Porto (Brasil)
O meu primeiro ‘encontro’ com Marta Porto foi a nota que colocou no Facebook a propósito da sua demissão de Secretária de Cidadania e Diversidade Cultural do Ministério da Cultura do Brasil. Foi claro para mim naquela nota que o Ministério tinha acabado de perder uma excelente profissional, uma pessoa com sentido de missão e de responsabilidade, uma pessoa com ideias claras sobre o lugar da cultura na sociedade. A partir daí comecei a ‘seguí-la’ e tenho lido vários dos seus artigos e entrevistas. É um grande prazer poder publicar aqui um ensaio que vai integrar o novo livro desta “activista cultural”, sobre política cultural. mv
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| Foto: Bebeto Alves |
A democracia é um valor? Essa talvez seja a pergunta mais importante para começar a falar de cultura e democracia. Há na sociedade, a percepção de que igualdade, liberdade e participação no poder são valores válidos? Que definem direitos que devem ser batalhados? O que se entende por igualdade, liberdade e participação no poder em uma sociedade desigual e hierarquizada? Se partirmos do princípio que para sustentar a democracia, não só como regime de governo, mas como regime político reconhecido e legitimado por seus cidadãos, é necessário que ela se construa como valor, como cultura capaz de reconhecer e fazer cumprir os direitos de cidadania, podemos sugerir que a cultura, ou melhor, as políticas que lhe dão corpo, devem priorizar a construção de um imaginário social de entendimento, crítica e luta por fazer valer os ideias democráticos. Estimular mentalidades sensíveis e capazes de estruturar sociedades onde o cumprimento de direitos não é ato de misericórdia, mas ato consciente que responde a um imperativo democrático.
Entrar na rotina dos cidadãos que criam formas de se relacionar nas cidades a partir dos valores e crenças que legitimam. O que um comportamento violento no transito, nas ruas, entre homens, mulheres e crianças nos diz? Ou a falta de controle social que institui uma cidade que é mais a soma de individualidades, com toda a arrogância de impor desejos e necessidades imediatos - como o parar em fila dupla, passar o sinal vermelho porque “afinal eu estou com pressa”, tocar música no último volume ou falar no celular em altos brados quando se está em lugares fechados e cheio de estranhos, ou no sentido mais grave matar porque fomos abandonados por quem um dia nos amou, ou torturar por puro esporte, psicopatia ou desejo de humilhar- formas e jeitos de promover ou não a dita alteridade, essa qualidade necessária para se estabelecer o direito como pilar de uma sociedade. Quando os exemplos são exceções podemos falar de falta ou necessidade de educação, quando são maioria, de cultura social, de um imaginário de como nos manifestamos, percebemos e agimos como corpo social.
Aí entra um dos principais eixos do trabalho da cultura, e sublinho, não das artes em si, mas da política cultural pensada como eixo da democracia, da formação cidadã, da colaboração para fundar um imaginário social que legitime os pilares democráticos, pois sem eles há progresso econômico, melhorias urbanas, consumo maior, mas as cidades, espaço de encontros e convivência, permanece como território de disputas e de quem leva a melhor, a famosa lógica dos vencedores que ainda e infelizmente vigora há muito nesse país. É o campo dos valores de cidadania, onde se aposta que há crenças comuns - respeito a dignidade humana, a solidariedade, resistência pacífica, a não- discriminação - que valem a pena lutar, pois é onde a sociedade pode projetar o seu futuro ao mesmo tempo que ela constrói e tensiona o presente. Esses valores partem da ideia de senso comum, de ethos, algo que todos compartilham se reconhecemos o valor da democracia. Pois, não há democracia sem valores.
Nesse sentido, a cultura nos obriga a sair da lógica pura da vulnerabilidade, implicando o cidadão comum nos problemas do país e do planeta e ajudando a forjar uma mudança para a sociedade como um todo. E é justamente nesse ponto estratégico que está a especificidade do campo cultural: a política de cultura pode contribuir para o impulso a uma agenda de cidadania contemporânea que incorpore as mudanças em curso na sociedade e as exigências das novas gerações de brasileiros.
(escrito em português do Brasil)
Marta Porto é jornalista, especialista em políticas de comunicação, arte e cultura, curadora de espaços, exposições e projetos artísticos, conferencista e ensaísta da cultura com atuação internacional. Lidera, assessora e apoia políticas e programas de organizações internacionais, governos, empresas e instituições como escolas e espaços culturais para atender objetivos que vão da melhoria de processos de gestão, governança, aprendizado e apropriação de conhecimento até a disseminação de valores éticos e humanísticos. Em 2004, foi co-fundadora da primeira empresa brasileira especializada em “comunicação por causas”, a Xbrasil, onde a atualmente lidera o Núcleo de Estratégia. Esteve a frente de instituições e órgãos de governo, onde se destacam a Secretaria de Cidadania e Diversidade Cultural do Ministério da Cultura (2011), a Coordenação Regional da UNESCO no Rio de Janeiro (1999-2003), a Diretoria de Planejamento e Coordenação da Secretaria Municipal de Cultura de Belo Horizonte (1994-1996).
Marta Porto é jornalista, especialista em políticas de comunicação, arte e cultura, curadora de espaços, exposições e projetos artísticos, conferencista e ensaísta da cultura com atuação internacional. Lidera, assessora e apoia políticas e programas de organizações internacionais, governos, empresas e instituições como escolas e espaços culturais para atender objetivos que vão da melhoria de processos de gestão, governança, aprendizado e apropriação de conhecimento até a disseminação de valores éticos e humanísticos. Em 2004, foi co-fundadora da primeira empresa brasileira especializada em “comunicação por causas”, a Xbrasil, onde a atualmente lidera o Núcleo de Estratégia. Esteve a frente de instituições e órgãos de governo, onde se destacam a Secretaria de Cidadania e Diversidade Cultural do Ministério da Cultura (2011), a Coordenação Regional da UNESCO no Rio de Janeiro (1999-2003), a Diretoria de Planejamento e Coordenação da Secretaria Municipal de Cultura de Belo Horizonte (1994-1996).
Monday, 25 June 2012
Tal como no futebol
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| (Foto retirada de Page3Sportz) |
Não sou fã do futebol. Não porque acho que é o “ópio do povo” ou porque acho que está a tirar dinheiro à cultura… Simplesmente, não tenho paciência suficiente. E muito frequentemente as enormes quantias de dinheiro para a transferência de jogadores deixam-me profundamente indignada; acho um enorme exagero, uma provocação. Mesmo assim, confesso que em 2004 (e peço desculpa aos meus amigos portugueses por estar a lembrar-lhes desse momento difícil na nossa relação) vi todos os jogos a partir dos quartos de final. Era impossível resistir ao sentimento geral de expectativa e entusiasmo. E ainda me lembro do momento em que gritei “Golo!!!” na final, quando toda a vizinhança ficou de repente num silêncio de morte.
Penso frequentemente naquilo que faz as pessoas em todo o mundo, de diferentes backgrounds, vibrarem com o futebol; naquilo que, em certos momentos, faz com que, até aqueles moderadamente interessados ou totalmente desinteressados, sejam incapazes de o ignorar. Penso que sejam vários factores – tanto intrínsecos como desenvolvidos pelos clubes e as federações – e que o sector cultural poderia descobrir aqui algumas lições.
O futebol é emoção, excitação, entusiasmo, expectativa, prazer, alegria, orgulho, dor, satisfação, desilusão.
O futebol é também identidade, um sentimento de pertença, de fazer parte de uma comunidade que apoia os mesmos objectivos, onde todos os membros juntos celebram vitórias e sofrem pelas derrotas.
O futebol é ainda partilha e tolerância. Não se
convive apenas dentro da comunidade, mas o gosto, a alegria e o prazer são
celebrados juntamente com membros de outras comunidades, “adversárias”.
Estas são algumas das características e dos valores intrínsecos do futebol que o tornam importante na vida das pessoas (existem igualmente outras características,
totalmente contrárias a estas, mas aqui interessam-nos as boas lições). É precisamente sobre estas características e valores que os clubes e as federações constroem a sua ‘oferta colateral’, procurando fortalecê-los e criar uma extensa família de fãs, um dos pilares da sua sustentabilidade, tanto pelo seu apoio financeiro directo, como porque atraem patrocínios. Gostaria de me concentrar aqui em dois pontos que me parecem relevantes para esta discussão:
- Os clubes de futebol envolvem as pessoas partilhando extensivamente e permanentemente, através dos seus próprios canais e também dos media oficiais, notícias sobre a sua vida do dia-a-dia: treinos e jogos, análises de decisões estratégicas, objectivos, transferências, lesões, questões de gestão, eventos sociais, trabalho comunitário, etc. Partilham ainda os seus sentimentos, medos, esperanças, preocupações, expectativas, desejos e sonhos.
- Os clubes de futebol envolvem ainda as pessoas através das assinaturas, oferecendo benefícios (em geral, alguns descontos), mas também concedendo-lhes o direito de voto, partilhando, assim, com elas a responsabilidade pela gestão e o futuro do clube. Assim, os sócios desenvolvem um sentimento de propriedade, as direcções dos clubes tornam-se accountable (explicam o que andam a fazer, como o fazem, porquê, quanto gastam e o que vão fazer a seguir, dão a conhecer o que se conseguiu e justificam aquilo em que se falhou) e os sócios esperam que o sejam, exercendo frequentemente o seu direito de as questionar e sendo até capazes de forçar demissões.
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| (Photo taken from FanIQ) |
Poderia agora recomeçar e dizer:
A cultura é emoção, excitação, entusiasmo, expectativa, prazer, alegria, orgulho, dor, satisfação, desilusão.
A cultura é também identidade, um sentimento de pertença, de fazer parte de uma comunidade que apoia os mesmos objectivos, onde todos os membros juntos celebram vitórias e sofrem pelas derrotas.
A cultura é ainda
partilha e tolerância. Não se convive apenas dentro da comunidade, mas o gosto,
a alegria e o prazer são celebrados juntamente com membros de outras
comunidades.
A cultura é tudo isto e muito mais. Estes e muitos
outros são os seus valores intrínsecos. Nós sabemo-lo. Outras pessoas (o
chamado “público em geral”) também o sabem. Sobretudo quando falamos com todos
sobre a cultura em termos que cada um entenda. Porque nesse caso quase todos se
apercebem que, de uma forma ou de outra, cada um de nós, quase todos, ou produz
ou consome um género de produto cultural, um produto que lhes faria falta se
não tivessem mais acesso a ele.
Não pretendo ser simplista, nem ignorar a diferença de escala, nem é minha intenção analisar aqui o lado negro do futebol (que todos conhecemos). Acredito, no entanto, que alguns dos meios usados pelos clubes de futebol para envolver as pessoas e garantir o seu apoio (assim como a sua própria relevância na vida delas) poderiam também ser usados pelas instituições culturais. Imaginemos:
Uma instituição cultural que anuncia publicamente a sua missão e objectivos específicos a curto, médio e longo prazo; que permite aos membros da sua ‘família’ de apoiantes terem uma palavra a dizer; que partilha com todos os interessados momentos da sua vida diária (montagem de exposições, ensaios, momentos do trabalho do dia-a-dia dos seus funcionários ou dos artistas – alegria pelas coisas conseguidas, desilusões pelas coisas que não correram bem, incidentes que tenham piada, pequenos segredos, desejos e esperanças -, as impressões dos visitantes e espectadores sobre a experiência, gestores ou directores ou curadores ou programadores a partilhar as suas ideias sobre futuros projectos, visitas de VIPs, parcerias com outras entidades, etc.); uma instituição cultural que procura formas de tornar a sua oferta de alguma forma acessível também para aqueles que não chegam a ela, fisicamente ou financeiramente. Em suma, imaginemos uma instituição cultural que não tem medo de se desmistificar perante pessoas de todos os backgrounds; e que não tem medo de se tornar mais accountable.
Na verdade, se pensarmos bem, tudo isto não é exactamente novo para todas as instituições culturais. Existem museus, galerias, teatros, companhias, orquestras em todo o mundo, pequenos e grandes, que, cada um de acordo com os seus recursos e à sua escala, implementam algumas destas técnicas. Talvez o impacto não seja comparável ao do futebol (talvez nunca o pudesse ser; estamos, na verdade, a falar de duas áreas diferentes). Mas há um impacto. E torna-se realmente considerável quando esta atitude faz parte do nosso planeamento estratégico; quando entendemos que a partilha (de planos, pensamentos, sentimentos, responsabilidade) é uma forma de construir uma ‘família’ mais forte e conquistar o seu apoio; quando somos sinceros no nosso desejo de comunicar e de envolver. Tal como acontece no futebol.
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(Foto retirada de The Hindu)
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