Monday, 27 May 2013

Pôr a mesa


Netherlands Architecture Institute (Foto: Maria Vlachou)
Quanto complicado poder ser pôr a mesa para uma refeição? Provavelmente mais do que podemos pensar e não pelas razões que estamos a pensar. Há uns anos, visitei o Netherlands Architecture Institute em Roterdão, onde uma das ‘instalações’ chamou em particular a minha atenção. Uma mesa estava posta para uma refeição e os visitantes eram informados que o presidente da câmara tinha convidado para o almoço pessoas que viviam na cidade, mas que tinham nascido noutros países (metade da população de Roterdão pertence a comunidades de imigrantes). Pôr a mesa significou que uma série de questões culturais tinha que ser levada em consideração. “Partilhar comida com desconhecidos”, lia-se num painel, “pode ser tão complicado como viver numa cidade multicultural.” O próprio acto de se sentar à volta de uma mesa; homens e mulheres juntos; partilhar comida com pessoas de outras religiões; cozinhar para pessoas com diferentes requisitos dietéticos; estas foram questões que os anfitriões tiveram que considerar. Fiquei a pensar o quanto esta simples experiência de partilhar uma refeição teria sido rica, e possivelmente transformadora, para as pessoas directamente envolvidas, mas também para as que acompanhavam o evento. Quantas coisas uma pessoa pode saber sobre o ‘outro’ apenas por aceitar este convite, por estar com o ‘outro’, por lhe ser apresentado. Quantas coisas uma pessoa pode aprender quando é dada (e aceite) a oportunidade.

Netherlands Architecture Institute (Foto: Maria Vlachou)
Género, cor, etnia, religião, orientação sexual, capacidades físicas e mentais ou financeiras, são algumas das características que tornam um ser humano no ‘outro’. Primeiro vemos a característica, depois (e nem sempre) o ser humano. Constituem barreiras que, aliadas à ignorância, podem causar afastamento, incompreensão, medo, desconforto, raiva, levando à discriminação ou ao racismo.

No verão passado, vi com o meu filho várias transmissões dos Jogos Paralímpicos. Não queria influenciá-lo relativamente à forma como deveria olhar para os atletas, o que deveria pensar ou sentir. Gritámos, aplaudimos, celebrámos com os vencedores. Mesmo assim, sentia que ele não estava completamente à vontade. Um dia veio ao pé de mim e disse: “Sinto-me um pouco triste por eles.” Finalmente, tinha-o dito. Disse-lhe que sabia, que eu também me sentia triste às vezes, mas que depois olhava para eles e via como estavam felizes e orgulhosos com os seus resultados e a tristeza desaparecia. Disse-lhe que viviam a sua vida de uma forma diferente, mas que não era uma vida triste por causa disto, apenas diferente em alguns aspectos.

Houve muita discussão naquela altura, nos meios de comunicação e noutros fóruns informais, quanto ao efeito que a transmissão dos Jogos Paralímpicos teria na percepção das pessoas relativamente à deficiência. Jornalistas em diferentes países referiam-se aos atletas como heróis, ao seu esforço como sobre-humano. Fiquei a pensar se esta seria a melhor forma de retratar os atletas com deficiência ou se devíamos olhar para eles como pessoas com capacidades diferentes que fazem o mesmo enorme esforço para conseguir bons resultados como qualquer outro atleta; à sua maneira. Penso que este deveria ser o resultado a desejar da transmissão dos Jogos Paralímpicos no que respeita às percepções do público. Olhar para as pessoas por trás da deficiência e não destacá-la e fazer com que os defina.

Paralympic Games, London 2012 (Imagem retirada do jornal The Telegraph; Foto Lefteris Pitarakis/AP)
E depois, li um artigo intitulado Disabled people are not your inspiration (as pessoas com deficiência não são a vossa inspiração). Escrito por S.E. Smith, fez-me sentir que a minha forma de pensar não estava muito longe da forma de pensar de (pelo menos algumas) pessoas com deficiência. Escrevia sobre a emoção que sentiu ao ver a cerimónia de abertura e como aquilo – ver os atletas com deficiência a desfilar, artistas com deficiência a actuar, ouvir pedir a “quem puder pôr-se de pé” para se levantar para o hino nacional – fê-la sentir-se ‘normal’ por uma vez. Ao mesmo tempo, expressou a sua frustração relativamente ao facto dos atletas com deficiência serem vistos como “surpreendentes”, “comoventes”, uma “inspiração” para os outros. Citando uma outra pessoa com deficiência, afirmou: “Toda esta ideia de que somos inspiradores baseia-se no pressuposto que as pessoas [com deficiência] têm vidas terríveis e é preciso uma espécie de coragem extra para as viver.”

Quando comecei a trabalhar com pessoas com deficiência no sector cultural, o meu objectivo quando promovia certos eventos era destacar a deficiência. Acreditava que era isto que realmente diferenciava a oferta, que chamaria a atenção das pessoas e suscitaria a sua curiosidade, que as faria sentirem-se surpreendidas e impressionadas e com vontade de assistir. Entretanto, aprendi duas coisas: que as pessoas sentem-se realmente impressionadas e maravilhadas, mas têm a tendência de considerar a oferta de qualidade menor e não querem necessariamente assistir; e que os artistas com deficiência não querem ser vistos em primeiro lugar como deficientes, mas sim como artistas.

Fui recentemente convidada a participar num debate sobre deficiência e os media, organizada pela Fundação AFID Diferença. As pessoas que representavam associações de deficientes queixaram-se do facto de haver pouco espaço para as suas histórias nos meios de comunicação social e que estes normalmente estão interessados em histórias tristes, trágicas, que chamam a atenção das pessoas e que as façam ter pena (e provavelmente também sentirem-se com sorte e aliviadas por não estarem a partilhar o ‘destino’ de uma pessoa com deficiência). Histórias felizes, positivas, optimistas que envolvem pessoas com deficiência raramente têm cobertura.

Isto é verdade. Mas, ao mesmo tempo, pergunto-me se isto é o que deveria preocupar-nos mais. Partilhar uma boa história através dos meios de comunicação pode, realmente, ajudar a mudar as percepções do público e combater certos preconceitos. Mas será tão eficaz como fornecer um espaço para as pessoas se juntarem, para verem e conhecer o ‘outro’, conversar, partilhar, coexistir, interagir, reconhecer a diferença e não a considerar um problema? Para mim, a cultura e os espaços culturais podem fazer exactamente isto. Podem criar um ‘espaço’ para encontrar o ‘outro’.

Quando trabalhei no Pavilhão do Conhecimento (na altura que tinha um serviço para as pessoas com necessidades especiais, único em Portugal e uma referência também no estrangeiro), sei que havia visitantes que pela primeira vez viam ou estavam próximo de pessoas com deficiência (visitantes ou funcionários). Um dos primeiros eventos nos quais estive envolvida foi a celebração do Dia Helen Keller em 2001, em que alunos que não viam, ou nem viam nem ouviam, mostraram a outros alunos, que viam e ouviam, que tinham as suas formas de comunicação e de aprendizagem na escola.

Desafinado, Grupo Dançando com a Diferença (Foto: Júlio Silva Castro)
Mais tarde, quando trabalhei no Teatro São Luiz, organizámos as primeiras sessões de peças de teatro com interpretação em Língua Gestual Portuguesa. Espectadores ouvintes e surdos estavam na mesma sala, assistindo ao mesmo espectáculo. Para alguns, assistir a uma peça com interpretação em LGP era uma experiência que nunca tinham tido antes; outros, apercebiam-se pela primeira vez que havia pessoas surdas e que podiam ir ao teatro; os surdos estavam contentes por poder estar no mesmo espectáculo que os ouvintes, por aquilo não ser uma sessão ‘especial’, só para eles. Algum tempo depois, quando apresentámos espectáculos da Vo´Arte e do Grupo Dançando com a Diferença ou o Inkomati (dis)cord de Boyzie Cekwana e Panaibra Canda no último alkantara festival, o  público não foi ‘avisado’ a priori que haveria bailarinos com deficiência em palco, veio e descobriu por ele próprio. Acredito que muitos deles viram a pessoa, o artista, em primeiro lugar e até ficaram agradavelmente surpreendidos pela qualidade do espectáculo. Ninguém precisava de contar uma história feliz, ela estava lá, à sua frente, poderiam vê-la e até falar com ela.

Quando perguntaram ao actor Morgan Freeman “Como é que podemos combater o racismo?”, a sua resposta foi curta e clara: “Parem de falar nele.” Quando perguntaram ao maestro Daniel Barenboim sobre o impacto que a West-Eastern Divan Orchestra poderia ter no processo de paz entre Israel e Palestina, apressou-se a clarificar: “A Divan não é uma história de amor e não é uma história de paz. Sentimo-nos muito lisonjeados quando foi descrita como um projecto de paz. Não é. Não vai trazer paz, quer se toque bem quer menos bem. A Divan foi concebida como um projecto contra a ignorância.” Uma forma de combater a ignorância é juntar as pessoas, dar-lhes a oportunidade de se conhecerem, de conhecerem as suas diferenças e as suas semelhanças. Quanto mais encontros houver, maior a confiança, maior a vontade de aprender e de compreender, maior o respeito, maior abertura para reconhecer a riqueza na diversidade. Maior a disposição para ver a pessoa e o desejo de partilhar uma refeição com ela; em algumas culturas, o derradeiro gesto de amizade e hospitalidade.


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