A notícia que o director do Toledo Museum of Art, Alan
Levine, quis "re-enfatizar" nesta altura que o museu não tem uma posição
política soou-me estranha e anacrónica. Não apenas porque me juntei há muito
tempo ao grupo de profissionais da cultura que defendem que a cultura não é
neutra ou apolítica, mas, principalmente, porque no contexto actual dos EUA, e
de outros lugares, as coisas efectivamente mudaram.
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Tuesday, 9 June 2020
Tuesday, 2 June 2020
Não consigo respirar
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| Joe Raedle / Getty Images, retirado de NPR |
O ano de 2014 foi marcado
nos EUA pela morte de negros desarmados nas mãos de polícias nas cidades de
Ferguson, Cleveland e Nova Iorque. Foi o ano em que Eric Garner morreu,
repetindo "Não consigo respirar" ...
Nesse mesmo ano, na sua
declaração conjunta sobre Ferguson e eventos relacionados (que ficou conhecida
como “Museums Respond to Ferguson”), profissionais dos museus posicionaram-se
sobre o papel dos museus perante essas mortes trágicas. Há três pontos dessa
declaração que destaquei num post que escrevi na altura.
Sunday, 23 February 2020
A beleza há-de vencer
“Hoje o nosso tempo requer leveza, humor, encantamento e
poesia. Não é mais a luta do bem contra o mal, representada por Guerra nas
Estrelas, mas a utopia da vida bela. Descobrir o instante de beleza que a
poesia nos dá, a inspiração que nos lembra que estamos na vida não só para
trabalhar, lutar, brigar, mas também para amar, sorrir, dançar, abraçar, sonhar.
Vivemos um tempo em que o mais revolucionário é ser poeta.”
Sunday, 9 February 2020
À procura da felicidade: o Trump em nós
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| Foto: Tasos Katopodis / Getty Images |
No verão passado, li o artigo Why science needs the humanities to solve climate change (Porque é que a ciência precisa das
humanidades para resolver as mudanças climáticas).
Observando o (habitual) ataque às humanidades da parte de vários líderes
autoritários e democraticamente eleitos, este artigo lembrava-nos o motivo pelo
qual o fazem:
“Os estudiosos das humanidades interpretam a história, a
literatura e as imagens humanas para descobrir como as pessoas entendem o seu
mundo. Os humanistas desafiam outros a considerar o que faz uma vida boa e
colocam perguntas desconfortáveis - por exemplo, 'Boa para quem?' e 'À custa
de quem?'”.
Os autores - Steven D. Allison, professor de Ecology &
Evolutionary Biology and Earth System Science, e Tyrus Miller, reitor da School
of Humanities, ambos da Universidade de Califórnia - afirmavam que “Estudiosos
e filósofos culturais podem injectar princípios éticos na formulação de
políticas" e que "Os humanistas também podem ajudar os decisores a
ver como a história e a cultura afectam as opções políticas ".
Monday, 3 February 2020
Onde estão as oportunidades? A propósito da nova estratégia do Arts Council England
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| Imagem retirada do website do Arts Council England. |
Há uns dias, li no Guardian um artigo sobre
o jovem violoncelista Sheku Kanneh-Mason. Kanneh-Mason tem 20 anos, ficou
conhecido quando tocou no casamento de Harry e Meghan e, há alguns dias, tornou-se
no primeiro violoncelista a chegar ao top 10 de música no Reino Unido. Ele sem
dúvida (e felizmente) teve as oportunidades certas, assim como cada jovem deveria
ter. Aproveitou-as e fez maravilhas com elas.
Kanneh-Mason está consciente da importância de ter a
oportunidade, de ter acesso. "Eu beneficiei de muita educação musical. Pensar
que muitas pessoas não terão nem a mais pequena hipótese de algo com o mesmo
nível é uma vergonha. A diversidade tem de começar muito antes das pessoas irem
às audições. Se a educação não tiver investimento e não for apoiada, nada
mudará.”
Monday, 27 January 2020
Sete dias em Nova Iorque
| Entrada do MoMA (Foto: Maria Vlachou) |
No início deste mês, a caminho do Congresso do ISPA,
tinha algumas expectativas concretas: a oportunidade de uma intensa reflexão
política sobre o sector cultural em todo o mundo; a visita ao novo MoMA e ao seu People's Studio; o festival “Under the Radar” do Public Theatre e assistir a “Not I” de Beckett com Jess
Thom,
bem como a “Feos” de Guillermo Calderon. Tive tudo isso e muito mais (oh ... muito mais ...). E ainda assim, voltei
com um sentimento agridoce em relação ao nosso sector e à imagem que temos de
nós próprios.
Sunday, 1 December 2019
Peace, Justice, Strong Institutions
Aqui está a minha introdução ao painel “Peace, justice, strong institutions: How can and should museums play a role in an increasingly unbalanced, politically challenged age?” na conferência anual do NEMO em Tartu. Inclui referências a outras apresentações feitas durante a conferência. Ler aqui
Wednesday, 28 August 2019
O desconforto da mudança: será a “fragilidade branca” a nossa principal preocupação?
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| Imagem reirada de Cyprus Mail. |
Num post no ano passado, Nathan “Mudyi” Sentence (Australian
Museum) escreveu sobre o seu envolvimento num programa do seu museu para
estudantes universitários que discutiu as Gerações Roubadas (a remoção, ao
longo do século 20, de crianças de descendência aborígine pelo governo
australiano e missões da igreja) e o trauma
intergeracional. “Após o programa, um dos alunos comentou anonimamente no
formulário de avaliação que sentiu que estava a ser repreendido e que se sentiu
mal por ser branco. Achei que essa era uma resposta estranha, quando o assunto
era uma realidade e um problema que afecta muitas pessoas das Primeiras Nações,
mas ele optou por se afastar porque isso o deixava desconfortável. Achei
preocupante, porque a fragilidade dos brancos acabará sempre por se meter no
caminho do envolvimento dos colonos em programas que desafiam as estruturas
coloniais que os beneficiam. Fiquei preocupado com o facto da fragilidade
branca ser mais preocupante para algumas pessoas do que a verdade.”
Wednesday, 7 August 2019
Por nós e pelos nossos amigos
A notícia da demissão de Warren Kanders do Conselho Directivo
do Whitney Museum deixou-me muito satisfeita. Depois de
meses de protestos, o proprietário da Safariland (uma empresa que fabrica
“produtos para a aplicação da lei" - noutras palavras, armas, incluindo o gás
lacrimogéneo usado contra os imigrantes na fronteira dos EUA) foi forçado a
sair, já que muitas pessoas sentiam que ganhar dinheiro com a produção de armas
e depois investi-lo filantropicamente na cultura e nas artes é, no mínimo, um
oxímoro.
Tuesday, 23 July 2019
Memória que resiste
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| Uma cena do documentário O Silêncio dos Outros |
Há algumas semanas, li num artigo que o impasse nas negociações do Brexit
é considerado humilhante para a Grã-Bretanha, tanto por quem votou a favor como
por quem votou contra. De acordo com uma pesquisa, 90% dos entrevistados
concordaram que a forma como o Reino Unido está a lidar com o Brexit é uma
humilhação nacional. O autor do artigo, o Professor de Psicologia Política
Barry Richards, referiu-se a uma investigação cada vez mais influente na teoria
da psicologia que enfatiza que “a necessidade de dignidade é básica para a nossa
constituição psicológica. Sentir que nos foi retirada é muito ameaçador e
desestabilizador”. Richards faz a distinção entre o sentimento de humilhação e o
sentimento de traição e o seu conselho é evitar endossar e ampliar o sentimento
de humilhação. Sugere também que a palavra "humilhação" e outras
(como "traidor" ou "traição") não sejam usadas no debate.
Saturday, 22 June 2019
Primeiros pensamentos sobre o Plano Nacional das Artes
Houve dois momentos para uma primeira apreciação do Plano
Nacional das Artes (PNA): a sua apresentação pública, no passado dia 18 de
Junho e a leitura do documento. Começarei por partilhar os meus pensamentos sobre
o primeiro.
Sessão esgotada nos estúdios Victor Córdon para ouvir a apresentação
do PNA. Muitos colegas, jornalistas, pessoas que representavam instituições privadas
que apoiam o sector cultural e as artes. Sentia-se a boa disposição e a
expectativa, misturada com alguma desconfiança (“Será desta?). Penso que aquele
momento de encontro e tudo o que se sentia no ar foi um bom sinal de que “o
sector” é constituído por profissionais que continuam interessados e prontos
para se envolver num esforço comum que possa valorizar, apoiar e fortalecer o seu
trabalho e contributo para a sociedade.
Saturday, 23 March 2019
O grande privilégio da vida pública
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| Imagem do cartaz da peça "O casaco", apresentada em 2018 pelo Grupo de Teatro da Nova. |
O recente episódio de blackface numa escola de Matosinhos e a forma como foi comentado são mais um indicador da falta preocupante de espaços de encontro (não virtuais) para o diálogo. Muitos não perceberam o porquê das críticas de racismo a propósito de uma iniciativa que pretendia celebrar a diversidade cultural (de “países” como África, China e Brasil) e acusaram os próprios críticos de racismo e promoção do ódio. A troca de comentários na página de Facebook Blackface Portugal é reveladora da incompreensão, e mesmo da ignorância, em torno desta matéria. Mas, podemos dizer que ficámos chocados ou surpreendidos? Não será essa uma realidade conhecida que, por muito que nos apeteça dizer “já deviam saber”, não lhe podemos virar as costas? Não podemos mesmo, porque continua a influenciar a educação, o pensamento e as noções que grande parte da nossa sociedade tem sobre esta matéria e várias outras. São estas noções que acabam por condicionar a liberdade de vários cidadãos e de perpetuar todos os tipos de racismo e, em certos casos, também a violência.
Sunday, 2 September 2018
Quem é bem-vindo à sua casa e à sua mesa?
À Lambrina e ao Sam, à Eleni e ao Nikos
Aos bons amigos e às boas discussões
Aos bons amigos e às boas discussões
Em Junho passado, Sarah Huckabee Sanders, a secretária de
imprensa da Casa Branca, foi convidada a sair do restaurante Red Hen. O pedido
foi da dona do restaurante.
Em meados de Agosto, a notícia que Marine Le Pen,
ex-candidata à presidência de França e líder do partido político Rassemblement Nacional,
tinha sido convidada para participar no Web Summit em Lisboa provocou vários protestos
públicos. O convite acabou por ser retirado.
Ambos os incidentes levantaram questões relativas à
liberdade de expressão; se é possível combater visões políticas extremistas e
abordar as raízes da subida da extrema-direita proibindo ou ignorando certos
pontos de vista; e se, ao excluirmos algumas pessoas, não nos tornamos como elas.
Monday, 11 June 2018
Discutindo a descolonização dos museus em Portugal
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| Foto: Maria Vlachou |
Adoro museus. Adoro-os pelo que são; adoro-os pelo que não são, mas podem ser; adoro-os pelo seu potencial. Adoro-os especialmente devido ao trabalho desenvolvido por vários colegas em todo o mundo para que os museus se adaptem a novas realidades, permaneçam ou se tornem relevantes para as pessoas e até se reinventem. Ultimamente, adoro-os particularmente pelas controvérsias que causam ou enfrentam, empurrando o nosso pensamento e prática para a frente.
Sunday, 20 May 2018
Apropriação cultural: menos guardiões, mais pensadores críticos
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| "La Japonaise" de Claude Monet, Museum of Fine Arts Boston. (Imagem retirada de http://japaneseamericaninboston.blogspot.com) |
Para a Nandia
O meu primeiro contacto com o conceito de apropriação cultural aconteceu em Julho de 2015 devido às “Kimono Wednesdays” no Museum of Fine Arts Boston (MFA). Por ocasião da exibição de “La Japonaise” de Claude Monet (uma pintura da esposa do artista, rodeada de leques, usando uma peruca loira e um quimono vermelho), os visitantes eram convidados a vestir um quimono semelhante ao mostrado no quadro e a partilhar as suas fotos nas redes sociais. Segundo o museu, essa era uma maneira para os visitantes se envolverem com a pintura. Para algumas pessoas, no entanto, a actividade carecia de qualquer contexto em relação ao quimono, tornando-se apenas “divertida”; outros criticaram a iniciativa por estar a reforçar estereótipos e exotizar os asiáticos-americanos; para outros, era racismo flagrante (leiam o artigo de Seph Rodney).
Wednesday, 25 April 2018
O Museu das (minhas) Descobertas
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| Exposição "Retornar - Traços de Memória", Padrão dos Descobrimentos, 2015 (Foto: Maria Vlahou) |
Sou portuguesa por adopção. Quando cheguei a Portugal, em 1995, a única coisa que sabia sobre a história do país tinha a ver com os Descobrimentos (dos caminhos marítimos e das especiarias, ensinada no meu país no 7º ou 8º ano). O resto fui/vou “descobrindo” ao longo dos anos (mesmo no que diz respeito aos Descobrimentos e para além dos caminhos marítimos e das especiarias). A história que me ensinaram na escola era, como é habitual, apenas uma parte.
Thursday, 15 February 2018
Libertemos o Mark Deputter
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| Imagem retirada do jornal Público. Foto: Nuno Ferreira Santos |
Foi um bom exercício para todos nós a conversa com a
Vereadora da Cultura, Catarina Vaz Pinto (CVP), ontem no Teatro Maria Matos (MM).
Como tem sido um bom exercício toda a conversa gerada após o anúncio da sua
decisão de arrendar o MM e de o tornar num espaço para o grande público, que
possa ser rentável.
Sunday, 28 January 2018
TS Elliot, um terrível artista hip-hop
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| Uma imagem do projecto Contratempo no programa do Isto é PARTIS. |
O jornal inglês The Guardian deu recentemente a notícia de uma crítica da poetisa Rebecca Watts, intitulada “O culto do nobre amador”, ao trabalho de um grupo de jovens poetisas que Watts considera que constitui "O óbvio denegrir do envolvimento intelectual e a rejeição do ofício”. A crítica gerou uma discussão muito interessante, e bem-vinda, em relação ao valor da poesia erudita e da poesia popular, sendo que a resposta de Don Paterson (poeta escocês, vencedor do prémio TS Elliot e editor de duas das jovens poetisas) foi cativante: "Não precisa de gostar do que as pessoas fazem, mas penso que deve avaliá-lo em função das suas próprias ambições. Caso contrário, é como dizer que TS Elliot foi um terrível artista de hip-hop. É verdade, e então?”.
Saturday, 13 January 2018
O que o Maria Matos significa para mim (ou: porque é que assinei o abaixo assinado)
No dia 17 de Dezembro de 2017, o jornal Público
publicava uma entrevista da Vereadora da Cultura de Lisboa, Catarina Vaz Pinto, onde se anunciava que “o [Teatro] Maria Matos (MM) terá um
modelo de programação bastante diferente, com carreiras mais longas e uma maior
preocupação de captação de público, para ser rentável”. A notícia foi, no mínimo,
surpreendente para mim. Diria mais, lembro-me que, ao ler, senti uma espécie de
dor física.
Wednesday, 15 November 2017
I am a native foreigner
Foi esta a minha apresentação ontem na conferência anual do ICOM Europa, que teve lugar em Bolonha. O tema da conferência era "The role of local and regional museums in the building of a People's Europe". Ler mais
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