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Saturday, 9 May 2020

Leituras da quarentena #2 e uma primeira versão da minha lista de desejos

Foto: Maria Vlachou

Desde o início do nosso confinamento, tive a oportunidade de ler muitos artigos instigantes e de participar em debates muito dinâmicos. Existe uma preocupação, frequentemente expressa, em relação à oportunidade que esta crise apresenta para repensarmos as nossas práticas, redefinirmos os nossos valores e sistemas de valorização do nosso trabalho, desenvolvermos relações de proximidade, respeito e solidariedade, tanto dentro das nossas organizações como com as nossas comunidades.

Vai acontecer? Conseguiremos desafiar as habituais (e conhecidas) barreiras e promover uma maneira nova e necessária de ser e agir? Seremos capazes de não propriamente ganhar a guerra (de mudar o mundo), mas pelo menos algumas batalhas decisivas? Franco “Bifo” Berardi avisou-nos em Março que, quando a quarentena terminar, os humanos “terão a oportunidade de reescrever as regras e quebrar qualquer automatismo. Mas é bom saber que isso não acontecerá pacificamente. Não podemos prever a forma que o conflito assumirá, mas devemos começar a imaginá-lo. Quem imaginar primeiro, ganha – é uma das leis universais da história.”

Friday, 10 April 2020

Será isto um reagendamento de "business as usual"?



"Acho que é responsabilidade de um director artístico, ou, digamos, do colectivo que é a instituição artística, dizer ‘aqui está a força que estou a sentir na nossa comunidade. Mas, afinal, não é nossa responsabilidade ter uma espécie de eloquência ou articulação em torno disto, que talvez a própria comunidade sinta, mas não manifesta como uma declaração específica de necessidade? Então, acho que ser sensível a isso é liderança, dizer ‘aqui está o que sentimos que está no ar e ao qual pensamos que deveremos dar voz.”

Wednesday, 21 June 2017

Uma tragédia nacional: o que é que "a Cultura" tem a ver com ela?


No Domingo de manhã as notícias ultrapassavam o pior pesadelo. O grande incêndio na zona de Pedrógão Grande tinha tirado a vida a 19 pessoas. Ao longo do dia, este número foi subindo. O país estava em estado de choque.

O Teatro Maria Matos em Lisboa foi dos primeiros a reagir. Não se limitou a anunciar o cancelamento do espectáculo naquele dia, no seguimento da decretação de luto nacional, mas informou os seus seguidores no Facebook sobre possíveis formas de ajudar e foi actualizando esta informação. Manteve-se solidário e envolvido.

Sunday, 13 December 2015

Conseguirá a cultura?


Um artigo submetido à Annual Conference on Cultural Diplomacy, que acaba hoje em Berlim. Uma compilação de posts antigos e alguns pensamentos novos. Ler

Sunday, 24 May 2015

Post scriptum

Na semana de 11 de Maio, a minha caixa de email encheu-se de convites para a celebração da Noite e do Dia dos Museus. No Facebook, a intensidade não foi menor, com os museus e as suas tutelas a lembrar que todos os caminhos iam levar a um museu. Um ambiente de grande festa, uma oferta enorme em todo o país, que foi também traduzida em números: de acordo com os meios de comunicação, houve 140 actividades por ocasião da Noite Europeia dos Museus (16 de Maio) e 430 actividades no Dia Internacional dos Museus (18 de Maio), em 70 museus diferentes. A verdade é que poucas das actividades propostas responderam ao desafio do ICOM para reflectir sobre "Museus para uma sociedade sustentável" (e fiquei a pensar qual será, realmente, a percepção que os museus têm deste desafio anual e se este tem qualquer impacto nas suas práticas - no Dia dos Museus e no resto do ano). Dito isto, a riqueza e a intensidade da programação apresentada, bem como o ambiente de festa, poderiam fazer pensar que o sector dos museus em Portugal mostra sinais claros de prosperidade. Assim, a notícia a 18 de Maio que alguns funcionários de museus estavam em greve, contestando a redução do pagamento de horas extraordinárias, bem como o facto de terem sido obrigados a trabalhar numa segunda-feira (o dia destinado ao descanso semanal), foi uma espécie de nota marginal (ver reportagem da TV)

Monday, 19 January 2015

Da lealdade

Soube recentemente da Chefe de um Serviço Regional de Antiguidades na Grécia, cujo trabalho foi positivamente avaliado por muitos dos seus colegas e membros do público, mas que foi ameaçada com processos disciplinares e mais tarde foi ainda transferida, algo que foi visto como uma espécie de "punição" discreta. Porque é que se tornou em “persona non grata”? Talvez porque, tendo repetidamente informado os seus superiores da vigilância inadequada de um dos sítios arqueológicos mais importantes da sua região, que se tornou realmente num pasto para rebanhos de ovelhas e cabras, e, não tendo recebido nenhuma resposta, informou o público em geral da situação e disponibilizou fotografias do sítio. Talvez porque, tendo também repetidamente informado os seus superiores da falta de vigilantes num determinado museu, alertando para a possibilidade de encerramento a partir de uma determinada data se nenhuma solução fosse encontrada, e tendo os seus relatórios sido recebidos com silêncio, avançou e fechou o museu, pedindo desculpa ao público e dando a conhecer as razões do encerramento.

Acredito que esta é precisamente a atitude que devemos esperar de uma pessoa que tem a responsabilidade de gerir uma instituição pública (e, neste caso, cultural): esforçar-se para uma gestão adequada; adoptar medidas necessárias, responsáveis, a fim de salvaguardar o que é um bem comum, público; manter os seus superiores informados sobre quaisquer questões que possam pôr em causa o bom funcionamento da instituição e impedi-la de cumprir a sua missão; e, quando necessário, partilhar essa responsabilidade, informando todas as partes interessadas, incluindo o público em geral, os cidadãos.

Não fiquei surpreendida, porém, ao saber das ameaças de processos disciplinares contra essa pessoa. O que, de facto, se espera dos gestores de instituições públicas - e isso não é apenas o caso da Grécia - é mostrarem-se leais aos seus superiores e à tutela. O que se entende por 'leal', no entanto, é abraçar todas e quaisquer decisões e práticas que vêm de cima e, em caso de desacordo, não as questionar em público ou, então, manter a discussão dentro da ‘família’, onde pode ser facilmente ignorada. Uma partilha mais ampla, com a sociedade, raramente é tolerada e o ‘castigo’ é visto por todos nós, mesmo que não se concorde, como algo esperado, inevitável, natural de acontecer. Não apoiamos os nossos colegas, não questionamos abertamente o castigo, não nos juntamos a eles, para nos tornarmos, juntos, mais fortes. Assim, somos hoje todos testemunhas de uma gestão das instituições culturais públicas que revela pouca transparência, onde os planos e acções não são discutidos, onde o diálogo público não é incentivado e onde os próprios profissionais do sector se mantém em silêncio ou criticam de forma muito cautelosa e discreta. Neste contexto, de medo e de auto-censura, não é fácil ser-se crítico, muito menos quando se age sozinho. Não é fácil nem é muito eficaz.

Quando se vive numa sociedade democrática, deve-se esperar que a lealdade dos gestores de serviços públicos esteja em primeiro lugar e acima de tudo com o seu serviço e com os cidadãos. Eles têm a obrigação de contestar ou opor-se a qualquer decisão ou omissão que ponha em causa esse serviço. Quando necessário, têm a obrigação de partilhar a informação e de ajudar a moldar a opinião pública sobre assuntos que são do interesse público. No Reino Unido, existe o Conselho de Directores de Museus Nacionais, que representa os directores das colecções nacionais do país e os principais museus regionais. O Conselho actua em prol dos seus membros; representa-os perante o governo e outras entidades; é pró-activo na definição e execução da agenda política dos museus; é um fórum onde os seus membros podem discutir questões de interesse comum. Embora esses membros sejam museus nacionais – ou seja, financiados pelo Estado -, o Conselho é uma organização independente. Como é que conseguem fazer isso? Teremos algo a aprender com eles?

Recentemente, David Fleming, Director dos National Museums Liverpool, partilhou no Twitter o desejo que os museus possam encontrar a sua voz em 2015 e alertar o público em relação ao impacto da austeridade sobre o que os museus são capazes hoje de fazer comparando com o passado. Fiquei a pensar: o que é que a sociedade grega ou portuguesa sabe, realmente, da situação vivida por várias instituições culturais públicas? Da falta de dinheiro para a realização de tarefas básicas e essenciais, do “multitasking”, das horas extraordinárias (não pagas), do trabalho aos fins-de-semana, para que o barco possa continuar a andar? E estarão interessadas em saber? Consideram essas instituições como suas? Faria alguma diferença se fechassem amanhã?

Qual é o nosso papel, como profissionais, neste contexto? Podemos esperar que os cidadãos sejam críticos e exigentes, se os próprios profissionais do sector não o são abertamente? De que forma ajudamos a formar cidadãos esclarecidos e responsáveis? Há democracia sem pensamento crítico e diálogo público? De que forma defendemos a transparência, a meritocracia, a honestidade intelectual? Onde está o nosso fórum público? Com quem está a nossa lealdade e porquê?


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Monday, 26 May 2014

É triste quando um museu fecha? Porquê?

Museu do Brinquedo, Sintra
Há um ano e meio, a minha colega australiana Rebecca Lamoin escreveu neste blog sobre os esforços do Queensland Performing Arts Centre para perceber qual o valor público da instituição. Foram colocadas questões cruciais: Qual é a coisa mais importante que a instituição dá à sua comunidade? Porque é que a comunidade gosta da instituição? De que é que as pessoas na cidade sentiriam falta se a instituição deixasse de existir?

Há uma série de instituições culturais em vários países que coleccionam dados (além de quantitativos) que as podem ajudar a definir e a provar a sua importância na vida das pessoas. Porquê? Porque poderá não ser óbvio para todos, sobretudo para os contribuintes e para os decisores políticos. Mas faria sentido recolher esta informação nem que fosse apenas um exercício mental interno. Vale a pena fazer uma pausa de vez em quando e avaliar os factores de sucesso dos nossos projectos e a relevância da nossa oferta para as pessoas que procuramos ou que deveríamos estar a servir.

Estes pensamentos voltam a surgir em face da notícia do eventual encerramento do Museu do Brinquedo em Sintra. Parece que o museu já não é sustentável, devido aos cortes do Estado e a um significativo decréscimo das visitas escolares e de famílias. Os profissionais da cultura foram rápidos a reagir: “É uma vergonha”; É triste”; “É uma tragédia”; “É uma miséria”; “O meu museu favorito”. E de todas as vezes que lia uma afirmação destas, pensava: “Porquê?”. Porque é que é uma vergonha? Porque é que é triste? Porque é que é uma tragédia? Porque é que este é o museu favorito de uma pessoa? O que está por trás deste género de afirmações? Qual a sua substância? Quem sabe? O museu e a fundação que o gere saberão?

Mas estas não são as únicas questões na minha cabeça. Gostaria também de saber o que é que os visitantes normais – não os profissionais da cultura – pensam sobre o eventual encerramento do museu. Quantas vezes o visitaram? Porque é que o valorizam? De que é que vão sentir falta se acabar por fechar? E para além dos visitantes do museu, o que é que a população de Sintra pensa e sente relativamente ao encerramento de um museu no centro da vila? Está preocupada? Está chateada? Está preparada para lutar por ele e exigir apoio ao município e ao Estado?

Tenho ainda algumas questões relativamente à gestão do museu. Há quanto tempo que a situação tem estado a piorar? Terá sido tomado em consideração pela Fundação que gere o museu o contexto – algo hostil - político e económico em que está a operar? Que medidas foram tomadas até agora? Qual o seu plano B?

Não encontrei até agora respostas a estas questões em fóruns públicos. Sei apenas que existe uma petição pública numa plataforma online, a qual, na altura que escrevo estas linhas, tem aproximadamente 2600 assinaturas. O texto da petição concentra-se na colecção e cita apenas o coleccionador, para quem, como é natural, os objectos têm grande importância. Na verdade, trata-se de uma afirmação na primeira pessoa do singular. A foto que ilustra a petição mostra um museu vazio, com uma série de objectos atrás do vidro a chegar até ao tecto. Fiquei a pensar como é que alguém pode ter pensado que esta abordagem – citar exclusivamente o coleccionador e mostrar um museu vazio - seria a abordagem certa num momento tão difícil. Uma abordagem que possa convencer os que conhecem e, sobretudo, os que não conhecem o museu do seu valor e importância.

O Museu do Brinquedo não é um caso isolado, infelizmente, num país cujo governo não considera a cultura como sendo uma prioridade. Há um par de anos, o caso do Museu da Cortiça em Silves foi gerido da mesma forma. Um museu vencedor do Prémio Micheletti do European Museum Forum (um prémio para museus inovadores na área da indústria, da ciência e da técnica), acabou por fechar e não sei qual o destino da sua colecção. Outros projectos, também no sector das artes performativas, estão a lutar pela sobrevivência ou a desaparecer mesmo. Suponho que a minha verdadeira questão é “O que é que os gestores culturais deste país estão a fazer?”. Deve haver mais do que afirmações como “Que vergonha” e “Que pena”, deve haver mais do que petições. Isto simplesmente não é suficiente, as nossas instituições merecem mais de nós. As pessoas deste país merecem mais de nós.    


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Monday, 12 May 2014

Notas de desespero



A canabis foi legalizada no estado de Colorado em 2012 e as primeiras lojas a comercializar o produto abriram no início deste ano. De acordo com o jornal The Independent, mais de metade dos eleitores acredita que a legalização da marijuana tem trazido benefícios ao estado. Ao mesmo tempo, o jornal relata que as autoridades têm sérias preocupações devido ao consumo de dosagens indevidas, devido à falta de experiência ou a confusão. Um estudante universitário morreu no mês passado após ter saltado da sua varanda e após consumido seis vezes mais do que a dose recomendada. 

No meio de tudo isto, a Colorado Symphony Orchestra (CSO) acaba de anunciar a sua nova série de concertos, “Classical Cannabis: the high note series”. Trata-se de concertos que serão realizados no Red Rocks Amphitheatre, onde será permitido ao público consumir canabis. Não nos seus lugares no anfiteatro e durante os concertos, no entanto, mas numa área separada. E o convite é BYOC (“Bring Your Own Cannabis” – Traz o Teu Próprio Canabis). E as pessoas são também aconselhadas a não conduzir, “devido à natureza do evento”, mas a usar meios alternativos de transporte. Na verdade, vale a pena ler o “disclaimer” no site da orquestra (tradução livre da autora): 

"Os participantes no evento devem ter pelo menos 21 anos de idade e devem ler e concordar com as normas aqui apresentadas. O comprador, titular e / ou usuário deste reserva entende que este evento está a ser realizado em propriedade privada e que apenas indivíduos com reservas pagas podem entrar . O participante entende que os restantes participantes podem usar marijuana neste evento, como é seu direito de acordo com a lei de Colorado. No entanto, não será vendido canabis no evento, e o preço da reserva é totalmente alheio ao facto da pessoa decidir consumir canabis ou não. Aqueles que optarem por usar canabis assumem todo e qualquer risco associado a esse uso. Informações sobre os efeitos da marijuana na saúde estão disponíveis no site do Estado de Colorado aqui. Os participantes são recordados que continua a ser ilegal de acordo com a lei de Colorado conduzir sob a influência de marijuana. O participante concorda em não reclamar junto da Colorado Symphony Orchestra e seus proprietários, parceiros, funcionários, directores, agentes, afiliados e entidades relacionadas todas e quaisquer reivindicações por ou em nome do Participante decorrentes directa ou indirectamente do uso por parte do Participante de THC e das instalações, incluindo reclamações e responsabilidades decorrentes de qualquer causa, incluindo, mas não limitado a, negligência por parte da CSO . Esta versão está em vigor na data em que o Participante adquire a reserva de evento". 


Red Rocks Amphitheater
Porque é que uma orquestra iria quer fazer isto, pensava enquanto lia tudo isto. Bom, de acordo com o seu director executivo, “Parte dos nossos objectivos é trazer um público mais novo e um público mais diverso, e diria que os clientes da indústria de canabis são ao mesmo tempo pessoas mais novas e mais diversas do que os públicos da orquestra sinfónica”. Bem... esse público mais novo e mais diverso não ia aos concertos da CSO porque não podia consumir marijuana? Adorava a música mas mantinha-se afastado porque não podia BTOC – Bring Their Own Cannabis (Trazer o Seu Próprio Canabis)? Teria sido esta a barreira? 

Os patrocinadores da série de concertos são – surpresa, surpresa – corporações relacionadas com a indústria de canabis. O jornal Huffington Post entrevistou dois deles: “Richard Yost da empresa Ideal 420 Soil, uma empresa de New Hampshire que vende terra e outros produtos de cultivo aos produtores de canabis, vê o patrocínio dos concertos como uma oportunidade para associar a sua empresa a uma das melhores orquestras do país e para mostrar que os consumidores de marijuana podem ser ‘limpos’ e sofisticados. ‘Uma pessoa pode ser inteligente e conhecedora e gostar de canabis também’, disse Yost, acrescentando que ouve Mozart enquanto trabalha nos seus planos de negócio. 

Um outro patrocinador, Jan Colem disse que a sua empresa The Farm tem ajudado a apoiar eventos artísticos na sua cidade e um concerto de Ziggy Marley em Denver. Disse que esperava que esta fosse uma associação a longo prazo com a orquestra, porque os seus públicos eram ‘a nossa malta… pessoas que gostam de arte e música e produtos alternativos.’” 

Acredito que ficamos a conhecer melhor uma pessoa (ou uma instituição) em momentos de crise. Olhando para os seus valores, as suas prioridades, a forma como toma decisões, o tipo de decisões que toma, a forma como se mantém (ou não) concentrada na sua missão. Vejo mais honestidade nas palavras dos patrocinadores do que naquelas do director executivo da CSO. Através da associação à orquestra, a indústria de canabis procura prestígio e alguma sofisticação. Através da sua associação à indústria, a orquestra procura… dinheiro desesperadamente necessário. Talvez consigam também aquele público mais jovem e diverso. Este é um evento bem capaz de o atrair, é um “happening”. Mas será mais que um “happening”? Irão voltar? A CSO irá conseguir mantê-los? Tenho sérias dúvidas quanto a isto, por duas razões: primeiro, porque os “happenings” como este não têm efeitos a longo prazo quando não existe paralelamente um plano a longo prazo com o objectivo de eliminar as barreiras, as verdadeiras, e estabelecer e alimentar uma relação com as pessoas; mas também, neste caso, porque a CSO não está a ser honesta em relação aos seus objectivos e “os públicos mais jovens e mais diversos” sabem disso. 


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Construindo a confiança

Ópera e a cidade  

A reconquista 

Qual o problema com a música clássica? Aparentemente nenhum....

As regras do amor 

Monday, 30 September 2013

Ópera e a Cidade

Percurso musical em 5 actos, homenagem à Maria Callas (Fonte: Lifo)
No início de 2011, a dívida da Ópera Nacional da Grécia (ONG) ultrapassava os 17 milhões de Euros e a organização corria um sério risco de ser encerrada. Quando há duas semanas o director artístico da ONG deu uma conferência de imprensa para apresentar a temporada 2013-2014, o quadro era bastante diferente:

- A dívida é neste momento 4.697.609 Euros (baixou 73%);

- O orçamento para a programação 2012-2013, inicialmente estimado em 3.890.000 Euros, teve que baixar para os 2.580.000; no entanto, a afluência subiu para 90.000 espectadores, e a receita da bilheteira somou 2.220.000 Euros (apenas 360.000 abaixo do valor investido nas produções);

- Todas as produções no teatro principal da ONG, o Olympia, assim como aquelas apresentadas na sala de concertos Megaron e no Teatro Herodes Atticus tiveram uma taxa de ocupação entre 80% e 100% - havendo sempre um número de bilhetes gratuitos para desempregados;

- A ONG chegou a mais 20.000 pessoas fora de portas, tanto em Atenas como na periferia, com o apoio da Fundação Stavros Niarchos, que lhe permitiu desenvolver uma série de actividades de outreach e fazer uma digressão em várias cidades gregas (a Fundação Niarchos está a construir um novo centro cultural, desenhado por Renzo Piano, que será a nova casa da ONG e da Biblioteca Nacional a partir de 2016).

Um milagre? Nem por isso. Decisões difíceis, um forte compromisso, um claro sentido de missão, muito trabalho e, consequentemente, apoio privado/individual. Não podemos ignorar o facto de tudo isto acontecer num momento em que a Grécia está a atravessar uma extrema crise económica e a sofrer severas medidas “correctivas”, que têm destruído a economia do país. O subsídio estatal para a ONG diminuiu 5 milhões de Euros nos últimos dois anos, o que tem causado sérios problemas nas operações da organização.

Gostaria muito de saber de que forma cortaram nos custos operacionais, o maior ‘peso’ na gestão de uma instituição como esta. Infelizmente, este tipo de dados não foi partilhado publicamente, por isso, só podemos imaginar o quanto deve ter sido difícil. Na falta destes dados, gostaria de me concentrar nas iniciativas tomadas – apesar das dificuldades ou, talvez, por causa delas – no sentido de pôr a ONG de volta no mapa e de criar uma ligação com a cidade e as pessoas.

Ter que cortar o orçamento das produções em casa não significou que a ONG tivesse cortado também no todo da sua actividade. Antes pelo contrário. Este momento de crise foi precisamente o momento em que a ONG decidiu ser extrovertida, original e inovadora. Através de uma série de iniciativas, conseguiu estar mais presente que nunca na vida dos Atenienses e, fisicamente ou virtualmente, na vida dos Gregos que vivem longe da capital.

Há dois anos, uma das suas primeiras iniciativas de outreach tinha sido o “autocarro lírico”, que percorria as ruas da capital grega apresentando destaques dos próximos espectáculos. Simples, informal, directo, conseguiu tocar os transeuntes.


Mais tarde, desenvolveu um projecto chamado “Ópera na Mala”. Esta é uma forma ‘flexível’ de apresentar ópera em espaços não-convencionais, apenas com o cenário que cabe numa mala e com um piano em vez de orquestra. A ONG foi a praças, mercados, átrios de museus e encontrou-se com pessoas que de outra forma talvez não tivesse tido contacto com esta arte. Alguns destes concertos reuniram perto de 4000 espectadores.


Concerto no Mercado Varvakios (Fonte: Lifo)
Os ensaios abertos em espaços públicos são uma outra forma de estar próximo das pessoas e partilhar com elas o que normalmente acontece de porta fechada. No verão passado, a ONG apresentou Madama Butterfly no Teatro Herodes Atticus no âmbito do Festival de Atenas. Alguns dias antes da estreia, houve um ensaio aberto próximo do teatro, na rua pedonal que circunda Acrópole e a antiga Ágora. Na passada quinta-feira, uma semana depois da apresentação da nova temporada, houve um ensaio aberto da orquestra no porto de Pireu – um programa de uma hora com destaques da temporada -, assim como um ensaio aberto da companhia de bailado da ONG no porto de Salónica – um ensaio da peça “Viagem à Eternidade”, homenagem ao realizador Theo Angelopoulos.



Por fim, mais de 5000 pessoas seguiram o percurso musical em cinco actos no dia 15 de Setembro, celebrando o 36º aniversário da morte de Maria Kallas. “Esta participação foi uma afirmação clara de todos nós”, disse uma pessoa à revista Lifo. “É necessário criar ligações entre a arte e a vida da cidade, o que se tornou absolutamente essencial nas actuais circunstâncias.”

Tudo isto faz recordar a carta aberta que Michael Boder, director musical do teatro Liceu de Barcelona, enviou à administração no ano passado, quando foi anunciado que, devido às dificuldades financeiras, o teatro ia encerrar por dois períodos de um mês. Tínhamos comentado na altura esta carta, considerando a resposta de Boder uma excelente lição de gestão (ler aqui). Aqui está um excerto: “Nesta situação difícil para Espanha e a sua população, podíamos dar concertos gratuitos para os desempregados. Afinal de contas, temos os recursos necessários! Podíamos organizar concertos e projectos para crianças, jovens e idosos. (…) Mas temos que tocar, ou iremos desaparecer! Devíamos ter que tocar mais, não menos. (...) Ao mesmo tempo, o Liceu podia também transmitir uma mensagem social: ‘Vejam, estamos a tocar para vós e estamos aqui, fazemos música e toda a gente está convidada para ouvir em vez de falar.’ (...) Que objectivo poderia fazer mais sentido numa altura de crise? Afinal de contas, a cultura traz conforto em tempos difíceis e dá também ideias.”


Ensaio aberto de Madama Butterfly (Fonte: página Facebook da ONG) 
Tocar mais, não menos. Mostrar às pessoas que estamos a tocar para elas, que estamos aqui. Esta tem sido a missão e mensagem da Ópera Nacional da Grécia nos últimos dois anos e meio. Julgando pela reacção das pessoas, podemos concluir que esta é mesmo a mensagem que queriam ouvir. Em retorno, mostram o seu afecto e dão o seu apoio.

Monday, 8 October 2012

Blogger convidado: "Servindo as artes - Sobrevivendo a crise", por Ira-Iliana Papadopoulou (Grécia)


Quando conhecemos Ira Papadopoulou dificilmente adivinhamos que, por trás de uma personalidade aparentemente calma, reservada e algo silenciosa, esconde-se tanta força e paixão. Ela é tão forte e apaixonada que, quando lhe foi dito que o seu orçamento anual ia ser reduzido a… 0, pensou: “OK, voltemos ao trabalho!”. Mas as coisas não têm sido fáceis. Ira e muitos outros profissionais da cultura na Grécia enfrentam condições extremamente duras, não só pelos cortes na cultura, mas devido a uma série de medidas que têm conduzido à destruição da economia do país. Ira faz aqui um breve relato sobre um sector que permanece vivo, que resiste e que tem ainda a capacidade de proporcionar um antídoto social à amarga realidade económica. mv 

Parte da instalação "OITO" (ΟΚΤΩ), Nº 6, de George Tserionis, 2011 (desenho sobre papel, 120x110). (Foto: George Tserionis)

“Sem a arte, a crueza da realidade tornaria o mundo insuportável.”
George Bernard Shaw


O tópico sugerido era claro: a cultura grega em tempos de crise. Não pude resistir. Era definitivamente algo sobre o qual poderia falar. Há alguma semanas, quando Maria Vlachou me dirigiu o amável convite de escrever para o seu blog, estava mais que disposta a partilhar as minhas opiniões como profissional e a minha sincera angústia pela actual situação das instituições culturais na Grécia. E depois, mesmo antes de começar a escrever, li um dos posts mais antigos da Maria sobre a crise grega e o sector cultural e apercebi-me que não mudou quase nada desde 2010… Ou talvez não? Talvez tenha havido algumas mudanças, mas deixo os leitores fazer o juízo final se se trata de mudanças para melhor ou para pior.

Começando pelo Ministério Grego da Cultura, que já não é um dos mais importantes do país (como tinha sido dito aos Gregos em 2004), mas um sub-ministério de uma combinação mágica: Ministério da Educação e dos Assuntos Religiosos, da Cultura e do Desporto. Sim! Um ultra-ministério onde tudo – educação, religião, cultura e desporto – pode ser combinado e gerido. Algo não muito diferente da famosa salada grega, um pouco de tomate, algumas azeitonas, um pouco de cebola, um pouco de queijo feta…

As pessoas que trabalham em instituições culturais públicas – ou instituições supervisionadas ou financiadas pelo Estado -  estão a fazer um apelo desesperado à ajuda. O dinheiro não é suficiente sequer para pagar as contas de electricidade. Sabem agora que devem procurar recursos alternativos, mas nunca ninguém tentou dar-lhes algumas directivas em como o fazer. Além disto, a estratégia do Estado de incentivos ao patrocínio privado é quase não-existente.

O cinema Attikon, o mais velho cinema no centro de Atenas, quase um ano depois de ter sido incendiado durante os protestos contra as medidas de austeridade. (Foto: Ira Papadopoulou)
Até as instituições culturais privadas se encontram agora no olho da tempestade. Como não existe um vácuo financeiro ou cultural, o sector privado luta para conseguir manter o seu pessoal, a qualidade dos seus serviços, os seus patrocinadores e, ao mesmo tempo, manter uma programação cultural de interesse. Esta é uma equação difícil de resolver. Alguns mantêm-se de pé, outros caem e outros ainda parecem determinados em avançar para um novo género de criatividade e mostrar abertura a “palavras desconhecidas”, como colaboração, voluntariado, esquemas de assinaturas, crowdfunding. Ninguém pode garantir que exista luz no fundo do túnel, mas se não tentarem, nunca o saberão.

E tudo isto está a acontecer numa altura em que os seguidores do partido neo-nazi Chrysi Avgi (Aurora Áurea) ameaçam publicamente encenadores, autores e artistas por estarem a apresentar trabalhos que, na sua opinião, são um insulto aos “ideais nacionais”. Parece que a arte é, mais uma vez, o alibi perfeito para a histeria nacionalista e teorias de conspiração de todo o género. Ao fim ao cabo, todas as crises económicas vão lado a lado com as qualidades básicas e fundamentais dos valores sociais…

No entanto, falar da “crise económica, social e moral dos nossos tempos” tem-se tornado numa repetição enfadonha e aqueles que trabalham para as artes tentaram dar um passo atrás e encontrar uma caminho longe deste discurso deprimente. Sem subestimar os efeitos psicológicos e outros da crise, os artistas parecem ter encontrado a coragem para resistir e reivindicar o seu direito de discutir, criar e sugerir alternativas para a apresentação do seu trabalho ao público. Novas iniciativas culturais, novas produções culturais, novos grupos artísticos (como o espaço cultural about:, o espaço Ommu, o Contemporary Art Meeting Point, a equipa artística Athens Art Network, para mencionar só alguns), mas, sobretudo, um novo espírito para juntar as pessoas e tentar desviar a atenção do público da miséria do dia-a-dia.

Celebração do festival anual de banda desenhada Comicdom Con Athens. Entrada principal da Hellenic American Union, Março 2012. (Foto: Antonia Houvarda) 
Não quero dizer com isto que a crise e a privação são benéficas para a arte. Não se trata de um florescimento das artes. Não há nada de mágico aqui. Mas se acreditarmos nas artes e continuarmos a servi-las da melhor forma que soubermos, talvez exista uma oportunidade de sobreviver e até florescer.

Devemos muito aos artistas Gregos. É graças à sua coragem e à persistência dos gestores culturais que o pulso cultural do país continua a bater. E por mais difícil que seja de acreditar, há mais de uma dúzia de exposições de artes visuais a inaugurar todos os meses, mais espectadores nos teatros do que nos anos anteriores e mais eventos públicos (e gratuitos) do que nunca. Conferências, concertos, festivais, espectáculos, happenings, etc. etc. Uma saída à noite em Atenas prova que há uma intensa vida cultural lá fora e que, no mínimo, a cultura pode ainda ser um antídoto social à nossa amarga realidade económica.


Ira – Iliana Papadopoulou estudou Sociologia, Políticas de Comunicação e Gestão Cultural no Reino Unido. Desde 2004, ela é Directora de Assuntos Culturais na Hellenic American Union, uma instituição cultural e de educação ao serviço da sociedade, com sede em Atenas, Grécia. Antes de chegar à HAU, trabalhou como Directora de Relações Públicas e Comunicação noutras organizações culturais e de educação na Grécia, como o British Hellenic College e o Centro de Estudos Neo-Helénicos (casa oficial do Arquivo Cavafy). Entre 2010 e 2012 foi International Fellow do DeVos Institute of Arts Management no Kennedy Center em Washington.

Monday, 3 September 2012

Choque de culturas

Aung San Suu Kyi no parlamento birmanês no dia 2 de Maio de 2012. (Foto retirada de  http://photoblog.nbcnews.com)

Tenho estado a pensar sobre o medo e a forma como nos aprisiona, como nos limita, como nos leva a aceitar constantes compromissos, como nos impede de sonhar, como nos mantém no lugar onde estamos, tornando-nos medíocres, pequenos; a forma como e as razões porque se cultiva. A cultura do medo.

Li recentemente o livro Freedom from Fear, uma compilação de textos e discursos públicos de Aung San Suu Kyi, a activista birmanesa, Prémio Nobel da Paz, que passou vários anos em prisão domiciliária, mas que, há poucos meses, entrou no parlamento do seu país como deputada. Isto significou muito para mim. A primeira petição que alguma vez assinei, tinha uns 19-20 anos, era da Amnistia Internacional e pedia a libertação de Suu. Um dos discursos que agora li no livro começava assim: “Não é o poder que corrompe, mas o medo. O medo de perder o poder corrompe aqueles que o detém e o medo de serem castigados por ele corrompe aqueles que lhe estão sujeitos.”

Com esta frase, o meu pensamento voou da Birmânia novamente para os países da Primavera Árabe. Confesso que, desde que tudo isto começou, nunca olhei para eles como países que vêm agora, ‘finalmente’, juntar-se a nós - os ‘países-guardiões da democracia’, o ocidente ‘livre’. Pelo contrário, ao acompanhar o desenvolvimento da Primavera Árabe e o que se lhe seguiu, senti que teríamos que estar muito atentos porque há aqui várias lições para nós. O que eu vi nesta revolução foram povos que se juntaram para vencer o medo, que agiram como um corpo pelo bem de todos, que lutaram pela democracia - pelos direitos que ela traz, mas assumindo igualmente as obrigações. Tenho lido artigos em jornais, textos em blogs, tenho trocado opiniões com algumas pessoas provenientes desses países, e o que encontro são cidadãos que se sentem responsáveis pela manutenção dos ideais que guiaram esta acção, que têm perfeita noção que a luta não acabou e que terão que estar em alerta permanente para não voltarem atrás. Conhecendo o nosso percurso, será uma utopia desejar que eles possam permanecer assim? E que isto funcione mesmo? Porque confesso que houve momentos em que me senti envergonhada: pelas coisas que nós tomamos por certas; por fazermos parte do ciclo vicioso da cultura do medo - ora no lugar de quem detém o poder ora no lugar de quem lhe é sujeito -, inconscientes dos ideais e dos valores que sacrificámos pelo caminho ou, então, conscientes, mas absolvendo-nos a nós próprios com desculpas como “são as regras do jogo”, “é algo que me ultrapassa” ou “estou a seguir ordens”. As palavras de Wassyla Tamzali, escritora e activista argelina que participou num debate em Lisboa sobre a Primavera Árabe, tornam-se extremamente relevantes, para todos nós. Tamzali citou Michel Foucault, que tinha dito que “Revolução é dizer ‘não’ ao rei”, e acrescentou: “Na Argélia não houve essa junção mágica [como na Tunísia] entre todos os elementos da sociedade. [Na Tunísia] tinha sempre havido resistência, a resistência ao poder existiu desde sempre e dentro de várias categorias sociais (os artistas, os intelectuais, as mulheres, os juizes, os mineiros…), mas nunca tinha havido esta junção de todas as categorias. Apenas há revolução quando todas as categorias sociais se encontram e se posicionam.”

Neste contexto, a entrevista do Secretário de Estado da Cultura ao jornal Le Monde no mês passado causou-me alguma consternação. Apesar da mesma não ter sido dada na qualidade de SEC, não é possível separar o homem do cargo, sobretudo porque as suas declarações estão intimamente relacionadas com questões que têm a ver com a cultura de um povo.

Francisco José Viegas disse: “(…) Pertenço a uma geração que a um determinado momento deve responder ‘sim’. E aceitar compromissos. Quando o nosso país atravessa uma crise terrível, escrever em jornais ou em blogues o que deve ser a cultura ou a sociedade, como fazer o cinema sair do marasmo ou salvar as bibliotecas, já não basta..(…).”  E disse ainda: “Vivemos numa sociedade que perdeu os seus sonhos. Os portugueses têm medo do futuro, de falar. E isto acontece depois da Inquisição, que foi há 300 anos, e de 50 anos de regime fascista de Salazar. Hoje, com a crise, continua. É terrível.” (ler aqui um resumo no jornal Público e aqui a entrevista na íntegra no Le Monde).

É verdade, a Inquisição foi há 300 anos e o país viveu ainda 50 anos de regime fascista. Mas têm sido também quase 40 de regime ‘democrático’. O que têm produzido? Uma cultura de medo; uma cultura de yes men; uma cultura de compromisso, que faz até algumas cabeças mais erguidas baixarem-se, alinharem com a mediocridade, para sobreviverem (vale muito a pena ler a crónica do jornalista grego Nikos Demou The alliance of the lesser; o regime ‘democrático’ tem alimentado comportamentos semelhantes em países como a Grécia, com um percurso histórico e político diferente do de Portugal, o que leva a pensar que provavelmente nem a Inquisição nem o Salazar serão os únicos responsáveis).

Talvez não baste escrever em jornais e blogs sobre o que deve ser a cultura e a sociedade. Mas basta, sem dúvida, sermos governados ou manipulados, a todos os níveis e em vários meios, por quem pertence à ‘geração’ do SEC, a ‘geração’ (que, na verdade, abrange várias gerações, inclusivamente as mais novas) que alimenta a cultura do medo, que acha que deve dizer ‘sim’ e aceitar compromissos. Não terá chegado também aqui, nos nossos ‘países-guardiões da democracia’, o momento de entrarmos em confronto com a cultura do medo recuperando a nossa cultura de pensamento e de prática democrática? Não terá chegado o momento de dizermos ‘não’ aos reis e às suas cortes e de declararmos que há compromissos que são inaceitáveis, intoleráveis? Não terá chegado o momento de sonharmos com algo mais do que a mediocridade? De formarmos cidadãos atentos, sensíveis, tolerantes, exigentes e críticos, envolvidos nos assuntos da polis, que possam exprimir a sua opinião livremente e com sentido de responsabilidade, sem medo de serem castigados por isso? De alimentarmos a imaginação, de apoiarmos a criatividade, de premiarmos o empenho e o mérito? De esperarmos de quem confiamos com um poder executivo a obrigação de accountability* e de assumirmos todos, como cidadãos, o direito e o dever de a exigir? Sobretudo porque, como lembra o SEC, este país (como outros) atravessa uma crise terrível, uma crise que não apenas financeira. E esta é também uma questão de Cultura.

*Accountability significa que quem desempenha funções de importância na sociedade deve regularmente explicar o que anda a fazer, como faz, por que faz, quanto gasta e o que vai fazer a seguir. Não se trata, portanto, apenas de prestar contas em termos quantitativos, mas de auto-avaliar a obra feita, de dar a conhecer o que se conseguiu e de justificar aquilo em que se falhou. (Fonte: Wikipedia)

Monday, 11 June 2012

Então, qual é o plano?

À Mónica Calle e à Alexandra Gaspar, e também ao Luís Tinoco; que poderão não partilhar estes pontos de vista, mas que, mesmo assim, os inspiram.


Todos os encontros, seminários e conferências a que assisti nos últimos meses tinham as palavras ‘crise’ e ‘desafios’ algures incluídas: no tema, num painel, em algumas comunicações. Poderia ser um sinal positivo. Poderia significar que estamos conscientes da situação crítica com a qual estamos a ser confrontados e queremos lidar com ela, enfrentá-la. Queremos reagir e tomar o futuro nas nossas mãos.

Mas pode também significar… nada. Simplesmente nada. Em todas essas ocasiões foram raras as vezes em que ouvi ideias e propostas concretas. Ouvi críticas (normalmente a decisões do governo); ouvi exigências (normalmente dirigidas ao governo); ouvi as mesmas coisas que temos andado a dizer há anos (normalmente sobre as responsabilidades e obrigações do governo, sobre o quanto somos importantes, quão subfinanciados e negligenciados e subvalorizados pelo governo e pela sociedade, quando ambos deveriam saber melhor…).

O maior desafio não será, afinal, pôr um fim a tudo isto? Às repetições, à nossa miopia, à nossa autocomiseração, à nossa inércia? Porque estamos enganados se pensamos que estamos a agir quando exigimos apenas aos outros, quando nos concentramos apenas nas responsabilidades dos outros, quando procuramos apenas não deixar que as coisas piorem (isto é, que piorem ainda mais, porque, na verdade, nunca estiveram muito bem). Quais as nossas responsabilidades? Qual o nosso papel em tudo isto? Quais as nossas ideias, as nossas prioridades? Em suma, qual o nosso plano?

É nossa responsabilidade, faz parte do nosso papel, controlarmos e criticarmos o governo. Exigir que cumpra as suas obrigações perante os cidadãos (apesar de às vezes parecer que nos esquecemos deles e exigimos apenas por nós e pelas ‘nossas’ instituições). Mas também é fácil, se pretendemos fazer apenas isso. E não leva a lado nenhum. Os governos, os políticos, os ministros poderão não ter necessariamente um plano… Mas nós temos que ter. Não só deveríamos assumir isto como parte do nosso trabalho, como deveria ser esperado de nós.

Em primeiro lugar - de tudo o que vi e ouvi e li nos últimos tempos -, diria que uma das coisas mais preocupantes em que devemos pensar é que estamos ainda muito afastados da sociedade. Confortáveis e altivos e seguros de nós próprios no nosso papel de guardiões, temos ainda dificuldade em entender que as pessoas para as quais é suposto trabalharmos - estou-me a referir aos cidadãos, muitos dos quais, convém que não nos esqueçamos, votaram no partido  que formou o actual governo e que anunciou durante a campanha o fim do Ministério da Cultura -,  essas pessoas, portanto, procuram o diálogo e não sermões; desejam ser nossos parceiros e não receber ordens; querem sentir-se em casa e não em transgressão; querem entender e não lidar com um clube de elites. Ignorar tudo isto significa assinar a nossa sentença de irrelevância.

Um segundo ponto que queria referir é que existe uma necessidade urgente de considerar e começar a trabalhar em fontes alternativas de financiamento. Estarmos dependentes apenas de uma fonte não provou ser boa ideia. Insistirmos que essa fonte continue a fluir sem ao mesmo tempo procurarmos alternativas demonstra, no mínimo, alguma teimosia, pouco produtiva. Ultrapassar a nossa alergia em falar da geração de dinheiro é algo essencial neste processo. As instituições culturais não têm fins lucrativos, mas isto não significa que não devem ter lucro. É esse lucro que poderiam reinvestir na sua actividade e conseguir progredir, fazer mais.

O primeiro e o segundo ponto, intimamente relacionados (isto é, os alicerces da sustentabilidade financeira das instituições culturais têm a sua base também na relação com a sociedade), levam a um terceiro: a necessidade de estes processos serem conduzidos por profissionais adequadamente preparados. Confiaríamos alguma vez a nossa defesa em tribunal a um advogado não-profissional? A nossa saúde a um médico não-profissional? A construção da nossa casa a um engenheiro não-profissional? Com todo o respeito pelos amadores e entusiastas, que são absolutamente fundamentais na nossa área, como é que o sector cultural continua a não procurar os profissionais mais apropriados para cada função? Como é que vamos poder construir confiança e fé nas nossas transacções com outros sectores, essenciais para a nossa sustentabilidade, se não formos adequadamente preparados?

E um último ponto, indispensável: falar a verdade ao poder. O facto de muitos líderes (a maioria?) preferirem ser rodeados de ‘yes-men’ não é um fenómeno exclusivamente português. Há algumas semanas, por ocasião da destituição da Presidente do Arts Council England, Liz Forgan, pelo Secretário de Estado da Cultura, Jeremy Hunt, Dany Louise escrevia no seu blog: “O princípio básico é que se queremos uma boa – ou até excelente – governança, não nos rodeamos de ‘yes-men’ e ‘yes-women’, mas de profissionais capazes e inteligentes e de um ambiente que valoriza e activa estas capacidades. Encorajamo-los a dizer-nos quando estamos equivocados ou quando estamos a tomar uma decisão errada e esperamos que nos apresentem alternativas viáveis. Fazemo-lo porque este é um factor crítico para nos tornarmos em verdadeiramente bons líderes, líderes que tomam as melhores decisões.” (vale a pena ler o texto na íntegra aqui).

“Crise” em grego significa, em primeiro lugar, um ponto decisivo, um ponto crucial, um ponto de viragem. A crise apresenta-nos com desafios e também oportunidades de mudança. Este é o momento de avaliarmos a situação, definir objectivos, estabelecer prioridades. Muito frequentemente, a distância entre as declarações de intenções e o pôr estas intenções em prática é demasiado grande e raramente percorrida. Este sector precisa de identificar aqueles capazes de cobrir esta distância, de levar as coisas para a frente. Este sector precisa também de identificar aqueles que entendem o significado da palavra accountability*. Os bons líderes deverão procurar os melhores consultores. E aos melhores consultores deverá ser dado espaço para darem a sua opinião. Livremente, objectivamente, responsavelmente.


*Accountability significa que quem desempenha funções de importância na sociedade deve regularmente explicar o que anda a fazer, como faz, por que faz, quanto gasta e o que vai fazer a seguir. Não se trata, portanto, apenas de prestar contas em termos quantitativos, mas de auto-avaliar a obra feita, de dar a conhecer o que se conseguiu e de justificar aquilo em que se falhou. (Fonte: Wikipedia)

Ainda neste blog
Ministério da Cultura: Conseguimos manter o debate vivo por uma segunda semana?

A John Hopkins International Fellows in Philanthropy Conference terá lugar nos dias 4 e 5 de Julho em Lisboa, na Fundação Calouste Gulbenkian. O tema da conferência é As artes e a crise económica – Uma oportunidade para o terceiro sector? O programa pode ser consultado aqui.

Monday, 30 April 2012

Barcelona: 1 conferência, 2 museus a pô-la à prova

Na semana passada estive em Barcelona e assisti à conferência Glocal Audiences in Culture: Global Cities, Local Audiences, uma iniciativa da Audiences Europe Network. No programa constavam tanto museus como instituições ligadas às artes performativas, dois mundos que raramente se cruzam e discutem em conjunto questões que lhes são comuns.

Não poucas vezes, nestas conferências tomamos conhecimento de projectos que parecem conseguir dar resposta a todos os nossos desejos e preocupações, mas cuja apresentação resta algo superficial. Ficamos sem saber
como é que foram desenvolvidos e de que forma tem sido avaliado o seu sucesso. Esta conferência não foi excepção, mas, mesmo assim, houve alguns momentos e discussões de particular interesse. O programa era composto por uma sessão introdutória e cinco painéis, dos quais procurarei fazer aqui um brevíssimo resumo.


Sessão introdutória: Tourism vs. local audiences
Foram aqui apresentados os resultados de estudos de público que indicam que a grande maioria dos espanhóis não visita museus no seu país, mas não deixa de o fazer quando viaja no estrangeiro; que mais de metade dos visitantes dos museus de Barcelona são estrangeiros e 27% residentes nesta cidade. A percepção dos visitantes é que “museu” significa “aprender”, “curiosidade”, “paz”, “admiração”, “descoberta”; para os não-visitantes ou visitantes ocasionais significa “aborrecimento”, “esforço”, “incompreensão”, “descoberta”. Os oradores falaram da necessidade de criar um sentimento de pertença nas comunidades locais, de estabelecer ligações emocionais, de criar espaços de encontro. Devemos admitir que nada disto é novo. Fiquei, por isso, a pensar se necessitamos mesmo de continuar a investir neste género de estudos (pontuais e que dizem respeito à relação dos públicos com os museus em geral), em vez de trabalharmos no sentido de mudar estes indicadores. Por outro lado, no caso de museus que têm os meios de fazer estudos de público continuados (ficámos aqui a conhecer o caso do Louvre), que lhes permitem avaliar o seu trabalho ao longo do tempo e registar alterações e novas tendências, encontramos, com certeza, indicadores muito relevantes de mudança.


Painel 1: Big museums for local audiences
Foi aqui reiterada a necessidade de concentrar no indivíduo, de adaptar a oferta às necessidades de cada um. Será mesmo que museus como o Prado e o Louvre, que recebem milhões de visitantes por ano, consigam cumprir este objectivo? É isso que não ficámos a saber neste painel. A simples apresentação de iniciativas não chega para percebermos se o objectivo está a ser atingido. Entretanto, foram aqui referidos alguns pontos que merecem ser reflectidos: a importância de recolher, usar e partilhar dados; de procurar novas parcerias, também com museus mais pequenos, localizados na área de acção dos ‘grandes’; de sair dos limites do próprio museu e ir ao encontro das pessoas; por fim, de considerar como indicador de desempenho não apenas o número de visitantes, mas também o facto do museu ter conseguido (ou não) satisfazer as expectativas dos visitantes.


Painel 2: Pricing strategies in time of crisis

Eis um painel que não satisfez as expectativas. Foram apresentadas políticas de descontos - as habituais, as que sempre existiram - sem a reflexão esperada sobre os desafios colocados pela actual crise económica. Desafios estes que têm essencialmente a ver, na minha opinião, com as pessoas que costumam frequentar espaços culturais (com maior ou menor frequência) e que poderão ter agora um poder de compra mais limitado. Como fazer para continuar a providenciar acesso a quem deseja visitar / assistir, garantindo ao mesmo tempo alguma receita para as nossas instituições? Quanto às entradas gratuitas e à ilusão que trazem, só por si, pessoas que não têm o hábito de visitar / assistir, pareceu-me haver consenso (pelo menos não se ouviram vozes contrárias): esta é mesmo uma ilusão.


Painel 3: From user to client
Foram aqui levantadas questões muito pertinentes sobre a necessidade de colocar a pessoa (visitante / espectador) no centro dos nossos planos estratégicos, de criar novos públicos (eu deixei de usar esta expressão, mas é isto que foi dito) através do marketing relacional, de criar proximidade e um atendimento personalizado, de aproveitar as ferramentas de Customer Relationship Management (em Portugal, parece-me que apenas o CCB tem recorrido a estas ferramentas). Falou-se ainda da importância de saber manter um equilíbrio entre os desejos do público e as necessidades da programação (o que me fez pensar no interessantíssimo debate Lead or Follow, que teve lugar em Janeiro e cuja leitura recomendo).


Painel 4: Tourist cities for local audiences
Este foi para mim o painel mais interessante, onde foram realmente partilhadas e discutidas reflexões e preocupações sobre a tensão criada, em cidades de várias dimensões, entre a comunidade local e os turistas. Há uma necessidade real de se manter relevante para públicos muito diferentes, o que obriga a pensar estratégias muito concretas para nutrir e manter a relação com o público local (desde a programação específica à oferta de café). O caso que mais me chamou a atenção foi o do Hermitage Amsterdam, que ‘teima’ em se posicionar como um destino internacional, quando os turistas não o vêem como tal e a comunidade local, com a qual estabeleceu já uma relação muito forte, aprecia em particular o facto deste museu não atrair os numerosos turistas que invadem outros museus dessa cidade.


Painel 5: Cultural institutions take the street
E foi este último painel que nos reservou uma bonita surpresa. Um projecto inspirador e de grande impacto: The Grand Tour foi uma iniciativa da National Gallery de Londres, em parceria com a Hewlett Packard (HP), que espalhou pelo centro da cidade, em lugares às vezes muito inesperados e escolhidos com muito sentido de humor, cópias (impressões) de alta qualidade dos seus mais conhecidos quadros. Os objectivos eram: tornar o museu mais conhecido; informar o grande público que algumas das pinturas mais conhecidas se encontram nele; informar ainda que a entrada ao mesmo era gratuita; motivar as pessoas para falar de arte. Ao lado de cada cópia, uma legenda dava informações básicas sobre a obra original e um número de telefone para mais informações. Informações podiam também ser lidas ou retiradas do microsite da iniciativa. O museu considera que a missão foi cumprida: o número de visitantes aumentou significativamente, sendo que muitos chegavam ao museu com o mapa criado para esta iniciativa em mão, à procura das obras originais. As fotos falam em muitos casos por si, no entanto, foi também publicado um livro sobre esta experiência e as reacções do público.


Foto retirada do blog The Crossed Cow

Foto retirada do blog The Crossed Cow

Foto retirada do blog The Crossed Cow

Aproveitei os meus dois dias em Barcelona para visitar dois dos meus museus favoritos. Ao chegar ao Museu Marítimo, fiquei a saber que a exposição permanente estava encerrada devido a obras. Não me lembrava de ter visto um aviso no site do museu (que está apenas em catalão e castelhano), mas quis verificar quando regressei ao hotel: não existe aviso. Assim, visitei uma exposição temporária sobre o Titanic. Antes, procurei o bengaleiro para deixar a minha mala que pesava, mas não havia. Ao entrar, recebi um audioguia (este, sim, em mais que duas línguas), que obrigava o visitante a seguir um determinado percurso, sem poder escolher sobre que objectos ou secções gostaria de ouvir mais informações. No caso de vitrines pequenas, acumulavam-se tantas pessoas à frente das mesmas, que era impossível ver os objectos sobre os quais estávamos a receber informação. Desliguei o audioguia e limitei-me à leitura de algumas legendas. Ao atravessar as várias secções da exposição, em vários momentos fiquei sem saber se os objectos à minha frente eram originais ou reproduções (um museu tem a obrigação de assinalar esta diferença). Dirigi-me a três funcionários para obter informações sobre isto, todos muito simpáticos, mas nenhum deles falava inglês.


Museu Marítim de Barcelona, exposição "Titanic" (Foto: mv)
No dia seguinte era a vez do Museu de História da Catalúnia, um dos melhores museus de história que conheço. Fiquei contente por encontrar legendas em inglês desta vez. No passado, não conseguia perceber como é que no museu de história de um povo que reclama a sua diferença e autonomia esta mesma história não era contada aos visitantes estrangeiros, pelo menos em inglês. Por outro lado, o amigo francês que me acompanhou nesta visita, professor de história no Liceu Francês de Barcelona há quatro anos, nunca tinha ouvido falar deste museu, entrava pela primeira vez (e ficou maravilhado). Não seria de esperar que entre os públicos-alvo prioritários deste museu estariam os professores de história da cidade e da região?


Museu d´Història de Catalunia (Foto: mv)
Estes são, sim, dois dos meus museus favoritos nesta cidade, porque sabem contar uma boa história. No entanto, ambos puseram as reflexões e conclusões da conferência à prova e lembraram-me que, em muitos casos e mesmo em situações que poderíamos considerar óbvias e ou de simples resolução, a teoria continua ainda muito distante da prática. Porque será?


Ainda neste blog