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Tuesday, 4 April 2017

Cobrar ou não cobrar: os dados



Tanto quanto sei, as decisões de cobrar ou não cobrar entrada nos museus nacionais nunca se baseiam em estudos. Aqueles que defendem a entrada livre fazem-no em nome da "democratização" e da "acessibilidade" e afirmam que a perda de receita não é significativa (nunca mencionando, no entanto, valores concretos). Aqueles que defendem a entrada paga geralmente falam da necessidade de gerar alguma receita.

Embora a pesquisa prévia e a avaliação sumativa não façam parte da nossa prática em Portugal, tal não é o caso noutros países. E mesmo que não tenhamos os nossos dados específicos sobre estas matérias, podemos sempre aprender com a experiência e o conhecimento partilhado dos outros.

Saturday, 4 February 2017

À procura de terreno arenoso


“Menores de 30 têm acesso gratuito aos museus”, lê-se nos jornais portugueses. A medida foi ontem votada no parlamento.

Alguém me explica qual é a lógica dos 30 anos?”, questiona uma colega brasileira.

“Será para estimular jovens famílias, tipo casais com filhos pequenos?”, responde outra colega. “Será porque se constatou que o desemprego é maior até aos 30 anos?”

Valerá a pena procurarmos a lógica? Terá havido lógica? Será que a medida se baseou em qualquer relatório de gestão? Será que se baseou em algum estudo de públicos? Os profissionais do sector foram consultados? Existem objectivos concretos que daqui a um ou dois anos poderão ser avaliados?

Sunday, 24 July 2016

Gerir museus

Imagem retirada do Facebook do Museu Nacional de Arte Antiga

A reclamação de um novo estatuto jurídico, de um estatuto especial, por parte do Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA) tem resultado num debate muito saudável no meio dos museus, sobretudo (e infelizmente) depois do anúncio do Ministro da Cultura que este estatuto irá mesmo ser atribuído. Independentemente das críticas, positivas ou negativas, que temos a fazer sobre este caso e sobre este processo, não há dúvida que devemos este debate, muito necessário, ao MNAA, ao seu director, António Filipe Pimentel, e a toda a equipa do museu*.

Monday, 2 February 2015

O que sabemos e o que não fazemos


Nas últimas semanas, tive a oportunidade de conversar com alguns colegas em relação a certas questões de acessibilidade nas suas exposições. Coisas como legendas mal iluminadas, mau contraste entre letras e fundo, legendas colocadas demasiado baixo, objectos expostos a um nível elevado e sem inclinação, textos longos e complicados. Acredito que estas são questões que podem ser facilmente resolvidas, sem qualquer investimento adicional, apenas com um algum planeamento prévio e a preocupação de não excluir. Na verdade, quando as exposições são projectadas para ser inclusivas, não só não custam mais, como podem, realmente, trazer mais receita, uma vez que mais pessoas terão acesso às mesmas.

Senti-me um pouco confusa quando as pessoas que abordei me disseram que sabiam tudo sobre as questões que levantei. Porque é que as coisas aconteceram dessa maneira, então? É possível que nós estejamos a criar conscientemente barreiras ao conteúdo das nossas exposições? Porque é que as fazemos, então, se não para as pessoas as poderem apreciar?

Sinto a mesma perplexidade em conferências ou cursos de formação, quando discutimos questões de gestão, comunicação, marketing, serviços ao visitante, educação, etc. Às vezes, alguns colegas aproximam-se e dizem: "Temos estado a dizer aos nossos superiores o que acabaste de dizer há anos e anos. "

Assim, parece que não faltam profissionais de museus (incluindo os vigilantes) que estão conscientes de uma série de pequenos e grandes problemas de gestão ou de comunicação. Temos ainda feedback dos próprios visitantes, através de livros de visitas, cartões de comentários, estudos de público, etc. Por fim, existe ainda o contributo de académicos, pensadores, bloggers, como Maria Isabel Roque - que recentemente nos lembrou algumas das coisas que ainda estão por acontecer, no seu post Acerca do que (ainda) falta ao património - ou Luís Raposo - um dos poucos profissionais de museus em Portugal que partilha regularmente e publicamente as suas opiniões, sendo o seu mais recente artigo de opinião sobre a abertura do novo Museu dos Coches e os planos para o eixo Belém - Ajuda em Lisboa.

Assim, não podemos reclamar que não temos já feedback realmente valioso - tanto de “insiders” como de “outsiders” - que pode ajudar a construir estratégias, corrigir erros, tomar decisões, registar tendências, compreender mudanças e desenvolvimentos. Porque é que os decisores e os responsáveis directos pela gestão dos museus não agem sobre isso? O que é que nos impede de avançar, com que tipo de barreiras estamos a lidar? Porque é que procuramos mais estudos, estudos novos, se não fizemos nada ainda sobre as coisas que já sabemos? Porque é que o conhecimento existente parece não ter qualquer impacto sobre práticas de gestão?

Aqui está a minha tentativa de identificar algumas razões:

Talvez seja porque, apesar das declarações politicamente correctas que os museus estão ao serviço da sociedade, eles estão sobretudo ao serviço de quem as gere. As pessoas - aquelas que vêm e as que não vêm - e os seus interesses e necessidades não são, na verdade, a nossa principal preocupação. Os objectos é que o são e basta que fiquem bonitos para aqueles que sabem apreciá-los.

Talvez seja porque neste sector trabalhamos com planos de curto prazo, que seguem os ciclos eleitorais e que podem facilmente ser abandonados, sem explicações de maior e sem assumir responsabilidades. Assim, grandes e pequenas questões permanecem e a sua discussão perpetua-se, sem trazer desenvolvimentos.

Por fim, talvez seja porque temos a tendência de ficar pelo que é “bom o suficiente”. Sabemos quais são os problemas, mas chega um momento em que não podemos insistir mais: ou porque não conseguimos convencer com os nossos argumentos ou porque sentimos que não podemos esperar ou exigir mais dos outros. Só que “bom o suficiente” não é bom o suficiente e o argumento “um passo de cada vez” não nos leva tão longe quanto devia. Na verdade, muito frequentemente nos mantém no mesmo lugar.


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Monday, 11 November 2013

Auto-barómetro

Todas as imagens retiradas do Facebook da Accion Poetica.
O Eurobarómetro realizou um estudo sobre Acesso e Participação Cultural (relatório completo e sumário). O último estudo tinha sido realizado em 2007, antes da crise atingir a Europa, por isso, este estudo mais recente pode ajudar-nos a compreender os efeitos da crise nos hábitos e práticas culturais das pessoas.

Falando em termos muito-muito gerais, e no que diz respeito a Portugal, os resultados mostram que a participação dos portugueses está abaixo da média europeia em todas as actividades consideradas no estudo, tanto em termos de visitação / assistência como em termos de envolvimento em actividades culturais. As maiores diferenças registam-se na leitura de livros (UE: 68%; PT: 40%), visitas a monumentos e sítios históricos (UE: 52%; PT: 27%) e idas ao cinema (UE: 52%; PT: 29%).



A principal barreira ao acesso referida pelos europeus foi a falta de interesse e a falta de tempo. Para os portugueses, a falta de interesse foi a principal razão de não participação, registando uma percentagem mais alta que a da média europeia em todas as actividades consideradas no estudo. As actividades que menos interessam aos portugueses em relação aos restantes europeus são a leitura de livros (PT: 49%; UE: 25%), a visita a museus e galerias (PT: 51%; UE: 35%) e a visita a monumentos e sítios históricos (PT: 44%; EU: 28%).

A razão porque queria escrever hoje sobre o estudo do Eurobarómetro não é analisar gráficos e resultados. É questionar como é que vamos interpretá-los e o que vamos fazer a partir daqui, sendo profissionais da cultura. Os resultados foram sobretudo recebidos com pessimismo ou algum fatalismo; com afirmações como “Somos um país de incultos” ou “Os portugueses não querem saber, não se interessam, acham que não vale a pena” – com uma certa acusação implícita, pensei, do género “Vale a pena fazer qualquer coisa que seja para esses ignorantes e ingratos?”.


Confesso que fiquei cheia de perguntas, algumas permanentes, frequentemente discutidas neste blog, independentemente da existência de estudos formais. Tentando agrupá-las, penso que se resumem em duas grandes questões:

1ª Questão: Quão larga terá sido a definição de “participação cultural” no estudo? Terão sido apenas considerados a visitação / assistência e o envolvimento com o que podemos chamar “instituições culturais formais”?

Depois de ter acesso ao relatório completo e ao questionário, fiquei contente em ver que a definição não tinha sido estreita (considerou a participação através da Internet e actividades como a dança ou a fotografia ou os trabalhos manuais). No entanto, não tenho a certeza se, da forma como foi feita a pergunta, ajudou os inquiridos a considerar as suas actividades numa perspectiva mais ampla (quantas pessoas, por exemplo, terão pensado que o facto de terem dançado num casamento ou num club constitui uma forma de participação cultural?). Os estudos “Public Participation in the Arts” do National Endowment for the Arts, realizados de quatro em quatro anos nos EUA, disponibilizam-nos este género de detalhes relativamente a “o que exactamente; onde exactamente; como exactamente” – todos os relatórios estão disponíveis online, mas vejam, por exemplo, o último relatório completo de 2008 (alguns destaques aqui), ou os destaques do estudo de 2012, sendo que o relatório completo será disponibilizado em 2014.


No que diz concretamente respeito à participação na Internet, deveríamos destacar o facto dos portugueses usarem este meio numa percentagem acima da média europeia para jogar jogos no computador (+11%), para colocar os seus próprios conteúdos culturais online (+3%), para ouvir música e rádio / fazer o download de música / ler e consultar blogs culturais (+1%).

2ª Questão: Estarão as pessoas pouco interessadas na cultura em geral ou no género de cultura que as “instituições culturais formais” lhes oferecem? Estaremos a programar tomando em consideração as pessoas - os seus interesses, preocupações, conhecimentos prévios, perguntas, necessidades, barreiras práticas e psicológicas que as possam manter afastadas? Iremos alguma vez questionar a forma como fazemos as coisas e a sinceridade da nossas afirmação “Somos para as pessoas”?


Alguns factos pessoais: por vezes, consulto a agenda de exposições em museus e, a julgar pelos títulos, nada soa suficientemente emocionante ou interessante para visitar; um grande número de concertos e intérpretes, de todos os géneros musicais, é promovido como “o melhor do mundo”, mas isto simplesmente não chega para tomar a decisão de comprar um bilhete, uma vez que o mundo está tão cheio de “os melhores” artistas; no que diz respeito a artistas menos conhecidos, a grande maioria das instituições que os apresentam comportam-se como se devêssemos todos conhecê-los já, não acrescentando absolutamente nada ao título e/ou nome.

Portanto, isto pode ser um problema meu como consumidora. Mas pode também ser um problema das instituições culturais que desejam comunicar comigo (pelo menos, dizem que o desejam): o problema de escolher títulos interessantes e inspiradores; o problema de escolher temas (quero dizer, histórias) que possam atrair um público mais diversificado, menos especializado; o problema de tentar atrair mais pessoas usando a informação básica compreendida apenas por poucos; mas também a necessidade (diria, a obrigação) de perceber o que é que as pessoas optam por fazer nos seus tempos livres e porquê. Porque, quando eu, como pessoa / consumidora, não vou aos vossos concertos / exposições / peças de teatro / festivais, não é “simplesmente” porque sou inculta, desinteressada, ignorante ou ingrata (e, francamente, não gosto de vos ouvir dizer isso sobre mim…). Pode ser porque outros tenham sido mais sinceros no seu desejo em comunicar comigo e tenham feito um trabalho melhor em chamar a minha atenção e ganhar o meu interesse e tempo precioso.  

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Em 1996, os mexicanos não liam, em média, mais que um livro por ano. O escritor Armando Alanis Pulido, preocupado com o declínio da literatura e da poesia, e ainda com o preconceito de que a poesia era opaca, difícil de ler e de entender, virou-se para as paredes das cidades, numa tentativa de tornar a poesia parte do dia-a-dia das pessoas. Iniciou um movimento chamado Accion Poetica. Desde aquela altura, a iniciativa espalhou-se em mais 20 países da América Latina e até atravessou o Oceano Atlântico. No outro dia, o jornal Le Monde apresentava este título: As paredes da América Latina falam de amor. A assinatura uma, única: Accion Poetica.

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Monday, 30 April 2012

Barcelona: 1 conferência, 2 museus a pô-la à prova

Na semana passada estive em Barcelona e assisti à conferência Glocal Audiences in Culture: Global Cities, Local Audiences, uma iniciativa da Audiences Europe Network. No programa constavam tanto museus como instituições ligadas às artes performativas, dois mundos que raramente se cruzam e discutem em conjunto questões que lhes são comuns.

Não poucas vezes, nestas conferências tomamos conhecimento de projectos que parecem conseguir dar resposta a todos os nossos desejos e preocupações, mas cuja apresentação resta algo superficial. Ficamos sem saber
como é que foram desenvolvidos e de que forma tem sido avaliado o seu sucesso. Esta conferência não foi excepção, mas, mesmo assim, houve alguns momentos e discussões de particular interesse. O programa era composto por uma sessão introdutória e cinco painéis, dos quais procurarei fazer aqui um brevíssimo resumo.


Sessão introdutória: Tourism vs. local audiences
Foram aqui apresentados os resultados de estudos de público que indicam que a grande maioria dos espanhóis não visita museus no seu país, mas não deixa de o fazer quando viaja no estrangeiro; que mais de metade dos visitantes dos museus de Barcelona são estrangeiros e 27% residentes nesta cidade. A percepção dos visitantes é que “museu” significa “aprender”, “curiosidade”, “paz”, “admiração”, “descoberta”; para os não-visitantes ou visitantes ocasionais significa “aborrecimento”, “esforço”, “incompreensão”, “descoberta”. Os oradores falaram da necessidade de criar um sentimento de pertença nas comunidades locais, de estabelecer ligações emocionais, de criar espaços de encontro. Devemos admitir que nada disto é novo. Fiquei, por isso, a pensar se necessitamos mesmo de continuar a investir neste género de estudos (pontuais e que dizem respeito à relação dos públicos com os museus em geral), em vez de trabalharmos no sentido de mudar estes indicadores. Por outro lado, no caso de museus que têm os meios de fazer estudos de público continuados (ficámos aqui a conhecer o caso do Louvre), que lhes permitem avaliar o seu trabalho ao longo do tempo e registar alterações e novas tendências, encontramos, com certeza, indicadores muito relevantes de mudança.


Painel 1: Big museums for local audiences
Foi aqui reiterada a necessidade de concentrar no indivíduo, de adaptar a oferta às necessidades de cada um. Será mesmo que museus como o Prado e o Louvre, que recebem milhões de visitantes por ano, consigam cumprir este objectivo? É isso que não ficámos a saber neste painel. A simples apresentação de iniciativas não chega para percebermos se o objectivo está a ser atingido. Entretanto, foram aqui referidos alguns pontos que merecem ser reflectidos: a importância de recolher, usar e partilhar dados; de procurar novas parcerias, também com museus mais pequenos, localizados na área de acção dos ‘grandes’; de sair dos limites do próprio museu e ir ao encontro das pessoas; por fim, de considerar como indicador de desempenho não apenas o número de visitantes, mas também o facto do museu ter conseguido (ou não) satisfazer as expectativas dos visitantes.


Painel 2: Pricing strategies in time of crisis

Eis um painel que não satisfez as expectativas. Foram apresentadas políticas de descontos - as habituais, as que sempre existiram - sem a reflexão esperada sobre os desafios colocados pela actual crise económica. Desafios estes que têm essencialmente a ver, na minha opinião, com as pessoas que costumam frequentar espaços culturais (com maior ou menor frequência) e que poderão ter agora um poder de compra mais limitado. Como fazer para continuar a providenciar acesso a quem deseja visitar / assistir, garantindo ao mesmo tempo alguma receita para as nossas instituições? Quanto às entradas gratuitas e à ilusão que trazem, só por si, pessoas que não têm o hábito de visitar / assistir, pareceu-me haver consenso (pelo menos não se ouviram vozes contrárias): esta é mesmo uma ilusão.


Painel 3: From user to client
Foram aqui levantadas questões muito pertinentes sobre a necessidade de colocar a pessoa (visitante / espectador) no centro dos nossos planos estratégicos, de criar novos públicos (eu deixei de usar esta expressão, mas é isto que foi dito) através do marketing relacional, de criar proximidade e um atendimento personalizado, de aproveitar as ferramentas de Customer Relationship Management (em Portugal, parece-me que apenas o CCB tem recorrido a estas ferramentas). Falou-se ainda da importância de saber manter um equilíbrio entre os desejos do público e as necessidades da programação (o que me fez pensar no interessantíssimo debate Lead or Follow, que teve lugar em Janeiro e cuja leitura recomendo).


Painel 4: Tourist cities for local audiences
Este foi para mim o painel mais interessante, onde foram realmente partilhadas e discutidas reflexões e preocupações sobre a tensão criada, em cidades de várias dimensões, entre a comunidade local e os turistas. Há uma necessidade real de se manter relevante para públicos muito diferentes, o que obriga a pensar estratégias muito concretas para nutrir e manter a relação com o público local (desde a programação específica à oferta de café). O caso que mais me chamou a atenção foi o do Hermitage Amsterdam, que ‘teima’ em se posicionar como um destino internacional, quando os turistas não o vêem como tal e a comunidade local, com a qual estabeleceu já uma relação muito forte, aprecia em particular o facto deste museu não atrair os numerosos turistas que invadem outros museus dessa cidade.


Painel 5: Cultural institutions take the street
E foi este último painel que nos reservou uma bonita surpresa. Um projecto inspirador e de grande impacto: The Grand Tour foi uma iniciativa da National Gallery de Londres, em parceria com a Hewlett Packard (HP), que espalhou pelo centro da cidade, em lugares às vezes muito inesperados e escolhidos com muito sentido de humor, cópias (impressões) de alta qualidade dos seus mais conhecidos quadros. Os objectivos eram: tornar o museu mais conhecido; informar o grande público que algumas das pinturas mais conhecidas se encontram nele; informar ainda que a entrada ao mesmo era gratuita; motivar as pessoas para falar de arte. Ao lado de cada cópia, uma legenda dava informações básicas sobre a obra original e um número de telefone para mais informações. Informações podiam também ser lidas ou retiradas do microsite da iniciativa. O museu considera que a missão foi cumprida: o número de visitantes aumentou significativamente, sendo que muitos chegavam ao museu com o mapa criado para esta iniciativa em mão, à procura das obras originais. As fotos falam em muitos casos por si, no entanto, foi também publicado um livro sobre esta experiência e as reacções do público.


Foto retirada do blog The Crossed Cow

Foto retirada do blog The Crossed Cow

Foto retirada do blog The Crossed Cow

Aproveitei os meus dois dias em Barcelona para visitar dois dos meus museus favoritos. Ao chegar ao Museu Marítimo, fiquei a saber que a exposição permanente estava encerrada devido a obras. Não me lembrava de ter visto um aviso no site do museu (que está apenas em catalão e castelhano), mas quis verificar quando regressei ao hotel: não existe aviso. Assim, visitei uma exposição temporária sobre o Titanic. Antes, procurei o bengaleiro para deixar a minha mala que pesava, mas não havia. Ao entrar, recebi um audioguia (este, sim, em mais que duas línguas), que obrigava o visitante a seguir um determinado percurso, sem poder escolher sobre que objectos ou secções gostaria de ouvir mais informações. No caso de vitrines pequenas, acumulavam-se tantas pessoas à frente das mesmas, que era impossível ver os objectos sobre os quais estávamos a receber informação. Desliguei o audioguia e limitei-me à leitura de algumas legendas. Ao atravessar as várias secções da exposição, em vários momentos fiquei sem saber se os objectos à minha frente eram originais ou reproduções (um museu tem a obrigação de assinalar esta diferença). Dirigi-me a três funcionários para obter informações sobre isto, todos muito simpáticos, mas nenhum deles falava inglês.


Museu Marítim de Barcelona, exposição "Titanic" (Foto: mv)
No dia seguinte era a vez do Museu de História da Catalúnia, um dos melhores museus de história que conheço. Fiquei contente por encontrar legendas em inglês desta vez. No passado, não conseguia perceber como é que no museu de história de um povo que reclama a sua diferença e autonomia esta mesma história não era contada aos visitantes estrangeiros, pelo menos em inglês. Por outro lado, o amigo francês que me acompanhou nesta visita, professor de história no Liceu Francês de Barcelona há quatro anos, nunca tinha ouvido falar deste museu, entrava pela primeira vez (e ficou maravilhado). Não seria de esperar que entre os públicos-alvo prioritários deste museu estariam os professores de história da cidade e da região?


Museu d´Història de Catalunia (Foto: mv)
Estes são, sim, dois dos meus museus favoritos nesta cidade, porque sabem contar uma boa história. No entanto, ambos puseram as reflexões e conclusões da conferência à prova e lembraram-me que, em muitos casos e mesmo em situações que poderíamos considerar óbvias e ou de simples resolução, a teoria continua ainda muito distante da prática. Porque será?


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Monday, 12 December 2011

La crise oblige? (ii) Desafios da programação

"A relevância para a comunidade é o primeiro e principal elemento de sustentabilidade."  WolfBrown In Is Sustainability Sustainable?

Perguntava-me há uns meses se estaríamos suficientemente atentos às mudanças que estão a ocorrer no meio sociocultural onde estamos a actuar. Tinha acabado de ler dois textos que me mostraram novos caminhos e que me ajudaram a estruturar as minhas ideias sobre a relação das instituições culturais com os públicos: Culture and Class de John Holden e The Excellence Barrier de Diane Ragsdale. Ambos defendiam a urgência, a importância e a necessidade de olharmos para fora; de tentarmos perceber os hábitos, gostos e expectativas das comunidades que pretendemos servir; de procurarmos relacionar-nos com elas, tornando a nossa oferta relevante para as suas vidas, criando a procura juntamente com elas. Envolvendo-as.

Fotografia da exposição In Your Face (Art Gallery of Ontario, 2007). Uma exposição de retratos coleccionados do público em geral para celebrar a individualidade e diversidade do Canadá.
Li agora um terceiro texto, o relatório de uma pesquisa desenvolvida nos EUA, no Reino Unido e na Austrália, intitulado Getting in on the Act: How arts groups are creating opportunities for active participation. Apresenta as várias formas de envolver os públicos (desde o espectador que é apenas receptor ao membro do público que se envolve como artista) e traz uma série de casos de estudo das mais variadas instituições e iniciativas. Traz ainda conclusões que vêm reforçar algumas das minhas ideias e confirmar algumas intuições sobre aquele que provavelmente será o caminho a seguir também para nós aqui:

- Acredita-se que, agora mais que nunca, as instituições culturais que irão prosperar no actual ambiente serão aquelas que irão criar novas e significativas oportunidades para as pessoas se envolverem (pág. 2);

- Não é ‘alguém’ ou ‘algo’ que dá forma à cultura. Todos nós estamos a dar forma à nossa cultura. Todos nós estamos a criar aquilo que é significativo, vibrante e real – os amadores e os peritos, as instituições e os indivíduos, os privilegiados e os carenciados, o mainstream e o alternativo (pág. 4);

- A tecnologia tem alterado fundamentalmente a forma como as pessoas interagem, aprendem e pensam sobre a cultura. O que é diferente agora é a capacidade sem precedente de uma pessoa média ter acesso, fazer e partilhar a arte e as suas ideias numa escala global (pág. 6);

- É importante reconhecer que os jovens que estão hoje a entrar na cena cultural não são esteticamente falidos. Muito frequentemente, os seus interesses criativos encontram-se noutro lugar- além da frequentação [de salas de espectáculo, museus, etc.] (pág. 11);

- Está-se a tornar cada vez mais difícil satisfazer toda a gente com uma mesma experiência. Por isso, o desenvolvimento de públicos não é apenas um problema de marketing. Em primeiro lugar, é uma questão de programação. Atrair a próxima geração de públicos e visitantes requer uma transformação na forma como se programa e não apenas melhor marketing (pág.11).

No meu último post colocava algumas questões sobre o impacto que a crise poderá ter na forma como são programadas as instituições culturais. Mesmo em períodos que não de crise, qualquer instituição, qualquer negócio, qualquer sector sabe que existem factores que afectam a sua actividade e que obrigam a reavaliações e adaptações. São factores externos - sociais, políticos, económicos, tecnológicos - que não controlamos, mas aos quais não podemos fugir e que nos colocam perante oportunidades e ameaças. São realidades às quais devemos estar sempre atentos. Diria, portanto, que a crise vem reforçar a urgência em despertarmos, em reagirmos, em não continuarmos a fazer tudo como sempre o fizemos.

Não acho que a crise vá fazer com que as pessoas percam a vontade de participar e de se envolver em actividades culturais. Antes pelo contrário, a procura poderá ser ainda maior. Não há dúvida que o público é muito mais cauteloso na forma como investe o seu, pouco, dinheiro. Mas continua a investir naquilo que considera essencial, imperdível, relevante, divertido, inspirador. Nos últimos tempos - e, sem dúvida, devido à crise – tem havido um decréscimo de espectadores em várias salas de espectáculos, mas continua a haver espectáculos que esgotam ou que, mesmo sem esgotarem, apresentam uma percentagem significativa em termos de ocupação. E é também neste momento de crise que se forma uma fila extensíssima para se visitar a exposição dos dinossauros na Cordoaria, apesar do preço alto do bilhete (e da fraca qualidade da exposição).

A questão que se coloca aqui é: sabemos o que é essencial, imperdível, relevante, divertido, inspirador para as pessoas que pretendemos servir para podermos, através das nossas propostas, continuar a manter viva a relação com elas? Talvez não… Penso que a maioria de nós pertence ao grupo que John Holden chama de ‘novos mandarins’: lutamos pelo acesso das pessoas à cultura, mas àquela cultura que nós consideramos válida; lutamos pela ‘democratização da cultura’ e não nos apercebemos que este conceito desenvolveu-se e transformou-se num outro, o da ‘democracia cultural’. Será que a crise conseguirá obrigar-nos a tomar consciência do que está a acontecer, há já algum tempo, à nossa volta; a abandonar o nosso lugar de ‘guardião’ para considerarmos também aquilo que os nossos vários públicos anseiam para experienciar, discutir, debater, criar, partilhar? Será que a crise nos pode levar a partilhar a responsabilidade da programação? Estaríamos a comprometer a qualidade da mesma?

A ideia da partilha da responsabilidade não é totalmente nova para as instituições culturais. Em todo o mundo há museus que escolhem os temas das suas exposições e criam os conteúdos das mesmas recorrendo às opiniões, conhecimentos, memórias e objectos de membros das comunidades que servem; quando visitei a Tate Britain há uns anos, encontrei ao lado das legendas escritas pelos conservadores do museu legendas escritas pelos visitantes – igualmente interessantes e, algumas delas, mais compreensíveis e mais tocantes; e, para dar mais um exemplo, o Concord Museum nos EUA celebra o seu 125º aniversário com uma exposição temporária - que tem o título muito sugestivo Crowdsourcing a Collection -, onde membros do público foram convidados a escolher e a falar de peças da colecção deste museu que têm um significado particular para eles. Também na área das artes performativas, existem experiências deste género. Por exemplo, em 2009, o Theatre Royal Statford East (conhecido como theatre of the people) iniciou um projecto de consulta junto do público para a preparação da programação do primeiro semestre de 2012 (ler aqui).

No entanto, apesar destas iniciativas mostrarem grande abertura por parte das instituições para um envolvimento mais activo do público, não deixam de ser decididas e ‘dirigidas’ por elas. Não se trata propriamente de uma partilha da responsabilidade de programar. A mudança que está a acontecer neste momento evidencia uma abertura no sentido da co-curadoria. Tal como os membros do público estão dispostos a financiar projectos culturais (multiplicam-se em todo o mundo as iniciativas de crowdfunding), há muita gente conhecedora e interessada, disposta a contribuir com os seus conhecimentos na escolha ou criação de um produto cultural. É o chamado crowdsourcing. Ian David Moss e Daniel Reid, autores de um dos mais inspiradores textos que li nos últimos tempos, Audiences at the Gate: Reinventing Arts Philanthropy Through Guided Crowdsourcing, exploram esta ideia e propõem um sistema do género da Wikipedia para a descoberta e financiamento de novos projectos artísticos. Neste contexto, pareceu-me de extrema relevância para o futuro das nossas instituições uma notícia que li há poucos dias sobre a rede Slowbizz, que pretende promover encontros entre amantes de música, dispostos a organizar pequenos concertos nas suas casas, e músicos talentosos, interessados em actuar nesse género de cenários (ler aqui).

Join the Slowbizz.com artists community from slowbizz on Vimeo.

Faz sentido para as nossas instituições culturais este caminho de partilha da responsabilidade da programação? Provavelmente mais do que nunca, sobretudo no caso daquelas que são públicas. Porque as mudanças na forma como se cria, se distribui e se consome a arte e a cultura (e o lugar onde isto acontece) são uma realidade; porque o volume de produção é tão grande que não seríamos capazes de conhecer e acompanhar tudo para nos mantermos actualizados e relevantes; porque existem, realmente, pessoas, que não profissionais, mas com excelentes conhecimentos e experiências e dispostas a partilhá-los. E porque, num momento em que as pessoas são obrigadas a fazer opções, as instituições culturais que sairão ‘vencedoras’ serão aquelas que melhor souberem envolver os seus públicos na sua actividade e manterem-se relevantes. Não sabemos tudo, mas penso que sabemos bastante para podermos gerir com honestidade, inteligência, criatividade e qualidade (com humildade também) a partilha de uma responsabilidade como a da programação de um espaço cultural com aqueles que pretendemos servir.


Mais leituras
Gripsrud, J., Hovden, J.F., Moe, Hallvard, Changing relations: Class, education and cultural capital (relatório sobre Noruega)

Monday, 11 July 2011

Da família - Segunda semana no Kennedy Center

Sk(in), de A.Balasubramaniam. Phillips Collection. (Foto: mv)
É muito frequente ouvir as pessoas no Kennedy Center falarem da ‘família’. É assim que se referem a todas aquelas pessoas que apoiam a actividade do Centro, contribuindo com o seu tempo, conhecimentos, perícia e dinheiro.

O núcleo da família do Kennedy Center são os membros do Conselho Consultivo (board). Um grupo de pessoas influentes, bem relacionadas, que acreditam na missão do Centro e que querem contribuir activamente para o seu sucesso e crescimento, usando todos os meios que têm à sua disposição, também os financeiros. Uma outra parte da família é composta pelas centenas de voluntários, que sentem o Centro como sua casa e colocam ao seu serviço o seu tempo, qualificações e experiência. Fazem igualmente parte desta família todas aquelas pessoas que compram bilhetes para assistir a espectáculos ou que se tornam membros e financiadores do Centro (são eles indivíduos, empresas ou fundações), contribuindo com quantias que vão desde os $60 aos milhares de dólares por ano.

O que motiva estas pessoas? O que é que as faz contribuir tão generosamente? As razões são várias, entre elas, prestígio, estatuto, visibilidade, benefícios fiscais, acesso privilegiado a certas ofertas do Kennedy Center, oportunidade de conhecer ou de estar com outras pessoas com interesses comuns. Mas penso que a principal força que faz com que toda esta gente se junte em torno do Centro é a arte que aí se produz e se apresenta: arte que entusiasma, que surpreende, que toca, que inspira. É sobre esta base que tudo se constrói, inclusivamente a família.

O Kennedy Center tem plena consciência da importância que esta família tem para a sua sustentabilidade (o facto do Centro ser o memorial do Presidente John Kennedy faz com que o governo federal assuma as despesas de manutenção e segurança do edifício, mas só isso). Apostando permanentemente na qualidade da experiência que oferece (uma experiência total, que vai além da apresentação do espectáculo em si e engloba todos os serviços prestados ao publico), procura não só manter a família que tem, mas também fazê-la crescer de ano para ano. Como dizia num post anterior, esta relação não pode ser uma relação entre um edifício e as pessoas que o frequentam. Deve ser uma relação entre as pessoas que nele trabalham e as pessoas que o frequentam ou possam vir a frequentá-lo. No Kennedy Center tornamo-nos testemunhas deste empenho que envolve toda a gente, desde o Presidente até ao segurança e o voluntário assistente de sala. Mas tornamo-nos igualmente testemunhas da vontade recíproca dessas pessoas de fazerem parte desta família.

Millenium Stage, The Kennedy Center.
Foi com particular interesse que, entre todos os seminários da semana passada, assisti à apresentação do projecto do Kennedy Center Millennium Stage, que oferece 365 espectáculos de entrada gratuita por ano, ou seja, um por dia, sempre às 18h. Falando de família e de sustentabilidade, e porque considero que a sustentabilidade das instituições culturais passa necessariamente pela diversificação dos públicos, queria perceber melhor se o programa faz justiça ao seu motto, “Performing Arts for Everyone” (Artes Performativas para Todos). Fico sempre um pouco desconfiada quando oiço os responsáveis usar a expressão ‘para todos’, sobretudo quando parece que o ‘para todos’ está principalmente associado ao ‘gratuito’. Foi com alguma surpresa que percebi que o Kennedy Center não tem dados sobre as pessoas que assistem aos espectáculos que fazem parte deste programa. Assim, não se pode saber se são pessoas que vêm pela primeira vez ou se assistem frequentemente; se assistem apenas a espectáculos gratuitos (e porquê) ou se também compram bilhetes para espectáculos pagos (graças à oportunidade de acesso que este programa criou, ou não); se são pessoas com as quais foi estabelecido um contacto graças aos programas de parceria com as comunidades que o Kennedy Center desenvolve ou se não existe ligação. Independentemente do entendimento que o Kennedy Center tem da expressão ‘para todos’ e com base nos objectivos traçados para o programa, penso que este género de dados é fundamental para se poder avaliar o sucesso do mesmo.

Na semana passada houve mais apresentações de projectos nos quais os fellows estão envolvidos nos seus países. Projectos muitos diversos, desde instituições culturais com estatuto nacional a pequenas iniciativas privadas:

Gateway Arts Society (Nigéria)
Agora (Egipto)

Wolf Trap: "Lawn people" à espera que o concerto comece. (Foto: mv)
No Sábado à noite os fellows do primeiro ano tiveram a oportunidade de participar numa experiência realmente americana. Fomos ao Wolf Trap National Park for the Performing Arts e assistimos a um concerto ao ar livre de Debbie Gravitt, Christiane Noll e Jan Hovarth, três ‘divas’ da Broadway, com a National Symphony Orchestra. Pessoas de todas as idades reúnem-se com alguma antecedência, tiram cobertores, cadeirinhas, comida e bebidas e, sentadas na relva, podem assistir aos mais variados espectáculos. O recinto estava cheio. Mesmo para quem não gosta de musicais, a experiência foi muito-muito especial.

Fora do Kennedy Center, um dos planos para o fim-de-semana era visitar o Fondo del Sol Visual Arts Center. Publicitado como o segundo mais velho 'museu de comunidade' latino nos EUA (a seguir ao Museo del Barrio em Nova Iorque), empenhado em representar as diversas culturas das Américas e das Caraíbas, não passa de um casa que cheira a mofo e que contém um aglomerado de obras, mal expostas, mal ou nada interpretadas. Felizmente, ao virar a esquina temos The Phillips Collection, onde podemos respirar e deixarmo-nos maravilhar com o trabalho Sk(in) do artista indiano A. Balasubramaniam; com as fotografias The World Series (2010-11) que Allan deSouza (de origem indiana, nascido no Quénia e criado na Inglaterra) criou em reposta a The Migration Series (1940-41) do artista americano Jacob Lourence, ambos trabalhos que lidam com a migração; com a exposição Kandinsky and the Harmony of Silence, que explora e analisa o processo que levou à criação do quadro Painting with White Border.

Intérprete cultural em Mount Vernon. (Foto: mv)
Outra experiência surpreendente e inesquecível foi a visita a Mount Vernon, a propriedade de George Washington, primeiro Presidente dos EUA. Para além da beleza da casa e dos espaços que a rodeiam, o que, sem dúvida, enriquece esta visita são os relatos dos intérpretes culturais (cultural interpreters), alguns dos quais, vestidos com trajes de época, assumem um papel que interpretam na primeira pessoa. Todos muito-muito bem preparados para responder as mais variadas perguntas que o público lhes coloca. Um outro complemento importante desta visita é o Donald W. Reynolds Museum and Education Center, que através de objectos originais, experiências interactivas e filmes apresenta a história riquíssima que foi a vida de George Washington e da sua mulher Martha.

Foi uma semana cheia. Outra se segue.

Monday, 21 March 2011

É possível medir o impacto?

Pororoca, da coreógrafa brasileira Lia Rodrigues,
apresentado na Culturgest em Abril 2010. (Foto: Sammi Landween)
Quando falamos no valor intrínseco da cultura em geral e das artes em particular, consideramos que não há forma de o avaliar. Defendemo-lo por intuição, por experiência própria, recorrendo a provas empíricas, mas não nos parece possível investigá-lo cientificamente. Este tema interessa-me em particular e assim fiquei muito curiosa quando encontrei uma referência a um estudo que se intitulava Assessing the intrinsic impacts of a live performance. O que encontrei na Internet foi este sumário dos resultados do estudo, que comecei a ler com enorme interesse.

O estudo foi desenvolvido pela WolfBrown, uma empresa americana que se dedica ao estudo das artes e da cultura. Em particular, Alan Brown tem desenvolvido vários trabalhos relacionados com o impacto intrínseco e o envolvimento da comunidade. Juntamente com a co-autora do estudo, Jennifer Novak, Brown explica que através desta investigação procuraram definir e medir a forma como um espectáculo ao vivo transforma os espectadores. Mais concretamente, basearam-se em três hipóteses: 1) Que os impactos intrínsecos pelo facto de assistir a um espectáculo ao vivo podem ser medidos; 2) que diferentes tipos de espectáculos criam diferentes grupos de impactos intrínsecos; e 3) que a abertura de uma pessoa para viver a experiência de um espectáculo ao vivo influencia a natureza e extensão dos impactos. Entre Janeiro e Maio de 2006 entrevistaram espectadores de um total de 19 espectáculos de vários géneros de música, dança e teatro. Foram aplicados dois questionários, um antes do espectáculo, para avaliar a preparação mental e emocional para o mesmo, e outro depois, preenchido em casa e enviado pelos inquiridos, que pretendia investigar uma série de reacções àquele espectáculo específico.

Através do primeiro questionário, os investigadores pretendiam avaliar: o índice de contexto (o nível de experiência e conhecimentos prévios dos inquiridos relativamente ao espectáculo e aos intérpretes); o índice de relevância (o nível de conforto da pessoa, ou seja, se se encontrava numa situação familiar, do ponto de vista social e cultural); o índice de antecipação (o estado psicológico dos inquiridos imediatamente antes do espectáculo, as suas expectativas). Através do segundo questionário, Brown e Novak procuraram, então, identificar e medir os impactos dos espectáculos nos inquiridos. Os índices definidos foram: cativação, estímulo intelectual, ressonância emocional, valor espiritual, crescimento estético e ligação social.

Neva, pela companhia chilena Teatro en el Blanco, apresentado na Fundação Calouste Gulbenkian em Junho 2010, no âmbito do programa Próximo Futuro.
(Foto: Taina Azeredo)
Tudo isto soava fascinante. Mas não conseguia imaginar o tipo de perguntas que teriam sido feitas a fim de avaliar e chegar a conclusões relativamente a estes factores. Por isso, escrevi a Alan Brown, que teve a amabilidade de me enviar rapidamente o relatório completo, incluindo os questionários e os quadros com os resultados.

A primeira parte do estudo procurava identificar a abertura / preparação das pessoas para viverem a experiência do espectáculo. As perguntas neste questionário, que procuram explorar os três índices acima referidos, parecem bastante óbvias e directas: conhecimento prévio do trabalho dos intérpretes e familiaridade com o respectivo género de arte; frequência com que assiste a espectáculos deste e doutros géneros; fontes de informação sobre o espectáculo; pormenores sobre a organização da ida ao espectáculo; constituição do grupo; principais razões para assistir; estado de espírito, entusiasmo e expectativa de vir a gostar da experiência. Muito sucintamente, os resultados desta primeira parte indicam que as pessoas com maior índice de contexto podem beneficiar mais dos espectáculos; a maioria das pessoas compra bilhetes para espectáculos que se inserem na sua zona cultural de conforto; a expectativa de uma experiência agradável é o melhor indicador de que a mesma irá trazer satisfação.

No que diz respeito à segunda parte, o tipo de perguntas para cada índice de impacto era:

Cativação: até que ponto os inquiridos se sentiram absorvidos, perderam a noção do tempo e se esqueceram de tudo o resto?

Estímulo intelectual: sentiram-se provocados, desafiados, intelectualmente envolvidos, reflectiram sobre as suas próprias opiniões e ideias, há coisas que gostariam de perguntar aos artistas, falaram sobre o significado do espectáculo com as pessoas que os acompanhavam?

Ressonância emocional: a reacção emocional foi forte, quais as emoções mais intensas, sentiram-se ligados aos intérpretes, o espectáculo foi de alguma forma ‘terapêutico’?

Valor espiritual: sentiram-se inspirados, com mais poder, passaram para um estado de consciência diferente?

Crescimento estético: sentiram-se expostos a um estilo ou tipo de arte com o qual não estavam familiarizados, mudaram de ideias relativamente ao mesmo, sentem-se mais preparados para o apreciar, acompanharão mais no futuro?

Ligação social: sentiram-se ligados ao resto dos espectadores, tiveram um sentimento de pertença, o espectáculo serviu para celebrar o seu património cultural, foram expostos a uma nova cultura, adquiriram uma perspectiva nova sobre as relações humanas e os assuntos sócias?

Muito sucintamente, mais uma vez, e destacando apenas alguns resultados que chamaram a minha atenção, o estudo revelou que o índice cativação está relacionado com altos níveis de satisfação e influencia outros impactos; a maioria dos inquiridos teria perguntas a colocar aos artistas e conversou sobre o significado do espectáculo com os seus acompanhantes; existe uma forte ligação entre o índice emocional e a memória da experiência; sentir-se inspirado não é necessariamente um impacto procurado pelos espectadores; a maioria dos inquiridos sente-se melhor preparada para apreciar o género de arte a que foi exposta; a ligação social acontece quando as pessoas são expostas a novas culturas e também quando assistem a espectáculos ligados ao seu património cultural.

No sumário dos resultados acima referido podem-se encontrar muitos mais pormenores sobre o estudo e também sobre os níveis de satisfação das pessoas. Este inquérito não pretende avaliar a qualidade dos espectáculos, apesar de alguns dos impactos poderem estar relacionados a ela. Tenho dúvidas quanto ao entendimento que os inquiridos poderão ter tido de algumas perguntas no segundo questionário, ainda por cima sendo ele um questionário auto-administrado, ou seja, as pessoas preencheram-no sozinhas em casa sem poderem colocar questões em caso de dúvida. No entanto, posso dizer que a leitura do relatório satisfez a minha curiosidade. Parece mesmo que sim, que é possível avaliar e chegar a conclusões relativamente ao impacto de um espectáculo ao vivo. A minha curiosidade agora estende-se aos impactos que persistem, meses ou anos depois; àquilo que fica; e ao como e porque é que fica. Registos na nossa memória e na nossa alma que não se dissipam.

Sonia, pelo New Riga Theatre, apresentado no Teatro Maria Matos em Junho 2009, no âmbito do programa Dias das histórias (im)prováveis. (Foto: Ginta Maldera)

Monday, 14 February 2011

Por falar em 'novos' públicos...

Muito frequentemente ouvimos os responsáveis por instituições culturais falarem de ‘novos públicos’, da sua ‘criação’ ou ‘formação’, de ‘portas abertas a todos’. Tenho estado a pensar no que isso significa na prática. ‘Novos’ na idade ou ‘novos’ por virem pela primeira vez? ‘Criam-se’ porque não existiam antes? Abrimos as portas e esperamos que eles venham?

Sinto que em muitos casos ‘novos’ significa sobretudo ‘mais’. Mais dos mesmos. Um esforço de trazer mais pessoas às nossas exposições, aos nossos espectáculos, às nossas actividades, pessoas essas, no entanto, cujo perfil sócio-demográfico não foge muito ao habitual. Porque se quiséssemos que fugisse, o trabalho que teríamos que desenvolver não se traduziria simplesmente num reforço na publicidade/ promoção da nossa oferta, mas num trabalho conjunto e concertado em várias frentes.

A participação cultural, chamemos-lhe assim, toma várias formas e desenvolve-se em diferentes níveis de envolvimento:

1º nível - através dos media, como televisão, rádio, DVDs, CDs, Internet.

2º nível - assistindo ao vivo a peças de teatro ou de ópera, a concertos, visitando exposições e participando a actividades complementares destas experiências, como conferências, debates, programas educativos, etc.

3º nível - através de um maior envolvimento pessoal naquilo que é a prática cultural / artística, como é o caso de artistas amadores, voluntários em instituições culturais, membros de conselhos consultivos etc.

Dito isto, podemos concluir que a grande maioria das pessoas participa, de uma forma ou de outra, da experiência cultural. Não se trata, portanto, de não-públicos da cultura. Ao mesmo tempo, também a grande maioria opta por -ou é obrigada a- participar a distância. Um dos desafios para os profissionais da cultura é conseguirem que cada vez mais pessoas queiram considerar ‘subir de nível’ e que tenham a oportunidade, se assim o desejarem, de o fazer. ‘Subir de nível’ não porque uma forma de participação é mais válida que outra, mas porque a experiência, ao atravessarmos do nível 1 para o 2 ou o 3, pode tornar-se mais profunda, enriquecedora, libertadora. Mas também porque poderá criar um outro entendimento, melhor, entre os profissionais e o público.

Não faltam hoje em dia estudos e relatórios sobre a participação cultural, as motivações e expectativas das pessoas ao optarem por uma forma de participação ou outra. Ou nenhuma. (Os links para algumas das minhas leituras mais recentes encontram-se no fim deste post). Com respeito para as opções de participação de cada pessoa, mas querendo promover e facilitar esta ‘passagem de nível’, pensei, então, o que poderá, realmente, significar, ‘novos’ públicos e o que é que isto implica para o nosso trabalho.

O alargamento de públicos existentes é uma das vertentes do nosso trabalho. ‘Novos’ neste caso significaria ‘mais’; mais pessoas entre aquelas que manifestam uma pré-disposição para o ‘consumo’ cultural, mas que muitas vezes se mantém longe por razões práticas: falta de informação, problemas no acesso/estacionamento, horário/dias de abertura, presença de crianças pequenas na família, etc. Questões que se relacionam com o estilo de vida, as quais precisamos de entender melhor, de forma a procurarmos dar respostas, facilitando a vinda e participação dos interessados. Trata-se, na verdade, de eliminar barreiras práticas.

‘Novos’, no entanto, pode e deve também significar ‘diferentes’. Uma outra vertente do nosso trabalho deveria ser a diversificação de públicos, o esforço de chegar àquelas que pessoas cujo perfil sócio-demográfico e hábitos de participação cultural (ou a falta deles) as mantém afastadas dos nossos espaços. Neste caso, as barreiras não são de natureza prática, mas, sim, barreiras mentais e psicológicas, resultado da falta de experiências, conhecimento e práticas prévias. É costume nestes casos falar da ‘criação’ de novos públicos. No entanto, se olharmos para as variadas formas de participação cultural, não podemos propriamente dizer que estes não existiam antes. Não são, é, ‘nossos´ públicos, não são consumidores da nossa oferta. O que pretendemos é criar as condições para que a possam degustar: despertando curiosidade, demonstrando a sua relevância, tornando-a de alguma forma tangível, criando conforto (essencialmente psicológico), enfim, construindo pontes, como diria Donna Walker-Kuhne. Em muitos casos, teremos, sim, que abrir as portas; não só para eles entrarem, mas também para nós sairmos, deixarmos a nossa zona de conforto e irmos ao encontro delas.

Uma outra, ainda, vertente do nosso trabalho é o aprofundamento da experiência, no sentido de um envolvimento maior, com aspectos não só culturais, mas também sociais: envolvimento ou formação de artistas amadores, integração de voluntários nas equipas, envolvimento de membros do público no desenhar das linhas de programação, criação de conselhos consultivos que integrem não profissionais da cultura, atracção de mecenas, etc. ‘Novos’ neste caso significaria… ‘num papel novo’? Parece-me que poderíamos dizer isso, sim.

O trabalho da ‘criação’ ou ‘formação’ de novos públicos na cultura associa-se sobretudo às áreas de educação e comunicação. (Isto é, quando por ‘novos’ não se entende apenas ‘crianças e jovens’ e quando a responsabilidade não se remete para a escola…). No entanto, se nos afastarmos da ideia da ‘criação’ e nos concentrarmos na ‘construção de pontes’, penso que se torne evidente que este é um trabalho que envolve a instituição inteira, exigindo, no entanto, em particular o esforço conjunto e concertado das áreas de programação, educação e comunicação.

Estes três objectivos – alargar, diversificar, aprofundar – fazem sentido no nosso trabalho; de alguma forma, são uma obrigação que devemos assumir. Fazem, mas também dão sentido. Entre as três, aquela que mais me atrai, que mais me motiva e me toca, é a segunda. Quando há quatro anos atrás o São Luiz teve a primeira sessão de teatro com interpretação em língua gestual portuguesa, a televisão entrevistou à saída do espectáculo uma senhora surda, visivelmente emocionada. Tinha acabado de assistir ao Moby Dick. “Tenho 74 anos”, disse ela. “É a primeira vez que venho ao teatro. Porquê?”.

É isso.


Leituras

Holden, J. (2010). Culture and Class. Counterpoint

McCarthy, K.F. and Jinnett, K. (2007). A new framework for building participation in the arts. RAND

National Endowment for the Arts (2009). 2008 survey of public participation in the arts.


Walker, C., Scott-Melnyk, S. and Sherwood, K. (2002). From Reggae to Rachmaninoff, How and why people participate in arts and culture. Urban Institute

Walker-Kuhne, D. (2005). Invitation to the party: building bridges to the arts, culture and community. Theatre Communications Group

Wallace Foundation, The (2009). Engaging audiences.