Saturday, 7 March 2020

E se alguém gostar de brócolos?



Algumas semanas atrás, encontrei uma campanha publicitária da Folkoperan (Estocolmo, Suécia) chamada “Broccoli vs. Opera”. A ideia por trás é que a única coisa que as crianças detestam mais do que a ópera são os brócolos. Assim, quando tiverem que escolher entre os dois... irão optar pelo mal menor.

A campanha irritou-me. As suas suposições preconceituosas irritaram-me. O modo como vários profissionais no mundo da música clássica evitam abordar as barreiras reais, muitas das quais criadas pelos próprios, incomoda-me. Lembram-se de “Classical Cannabis: the high note series”, promovida pela Colorado Symphony Orchestra em 2014? Esse tipo de coisa... Tudo, menos tentar compreender melhor o que mantém as pessoas, de todas as idades, afastadas. Talvez porque uma melhor compreensão exija acção; e mudança.

Sunday, 23 February 2020

A beleza há-de vencer



“Hoje o nosso tempo requer leveza, humor, encantamento e poesia. Não é mais a luta do bem contra o mal, representada por Guerra nas Estrelas, mas a utopia da vida bela. Descobrir o instante de beleza que a poesia nos dá, a inspiração que nos lembra que estamos na vida não só para trabalhar, lutar, brigar, mas também para amar, sorrir, dançar, abraçar, sonhar. Vivemos um tempo em que o mais revolucionário é ser poeta.”

Sunday, 9 February 2020

À procura da felicidade: o Trump em nós

Foto: Tasos Katopodis / Getty Images


No verão passado, li o artigo Why science needs the humanities to solve climate change (Porque é que a ciência precisa das humanidades para resolver as mudanças climáticas). Observando o (habitual) ataque às humanidades da parte de vários líderes autoritários e democraticamente eleitos, este artigo lembrava-nos o motivo pelo qual o fazem:

“Os estudiosos das humanidades interpretam a história, a literatura e as imagens humanas para descobrir como as pessoas entendem o seu mundo. Os humanistas desafiam outros a considerar o que faz uma vida boa e colocam perguntas desconfortáveis ​​- por exemplo, 'Boa para quem?' e 'À custa de quem?'”.

Os autores - Steven D. Allison, professor de Ecology & Evolutionary Biology and Earth System Science, e Tyrus Miller, reitor da School of Humanities, ambos da Universidade de Califórnia - afirmavam que “Estudiosos e filósofos culturais podem injectar princípios éticos na formulação de políticas" e que "Os humanistas também podem ajudar os decisores a ver como a história e a cultura afectam as opções políticas ".

Monday, 3 February 2020

Onde estão as oportunidades? A propósito da nova estratégia do Arts Council England

Imagem retirada do website do Arts Council England.

Há uns dias, li no Guardian um artigo sobre o jovem violoncelista Sheku Kanneh-Mason. Kanneh-Mason tem 20 anos, ficou conhecido quando tocou no casamento de Harry e Meghan e, há alguns dias, tornou-se no primeiro violoncelista a chegar ao top 10 de música no Reino Unido. Ele sem dúvida (e felizmente) teve as oportunidades certas, assim como cada jovem deveria ter. Aproveitou-as e fez maravilhas com elas.

Kanneh-Mason está consciente da importância de ter a oportunidade, de ter acesso. "Eu beneficiei de muita educação musical. Pensar que muitas pessoas não terão nem a mais pequena hipótese de algo com o mesmo nível é uma vergonha. A diversidade tem de começar muito antes das pessoas irem às audições. Se a educação não tiver investimento e não for apoiada, nada mudará.”

Monday, 27 January 2020

Sete dias em Nova Iorque

Entrada do MoMA (Foto: Maria Vlachou)


No início deste mês, a caminho do Congresso do ISPA, tinha algumas expectativas concretas: a oportunidade de uma intensa reflexão política sobre o sector cultural em todo o mundo; a visita ao novo MoMA e ao seu People's Studio; o festival “Under the Radar” do Public Theatre e assistir a “Not I” de Beckett com Jess Thom, bem como a “Feos” de Guillermo Calderon. Tive tudo isso e muito mais (oh ... muito mais ...). E ainda assim, voltei com um sentimento agridoce em relação ao nosso sector e à imagem que temos de nós próprios.

Saturday, 4 January 2020

CONFIANÇA radical

The People's Studio: Collective Imagination, no novo MoMA (imagem retirada do website).

Hospitalidade. Coragem. Humildade. CONFIANÇA.

No último encontro do nosso grupo RESHAPE, que reflecte sobre arte e cidadania, escrevi estas quatro palavras, que surgiam com frequência nos nossos debates. Em especial a palavra “CONFIANÇA”, que trazia também de outros encontros e conversas. Surgiu em tantas ocasiões nos últimos meses, que, finalmente, chamou a minha atenção.

A 13 de Dezembro, último dia da reunião do RESHAPE, acordámos com as notícias das eleições britânicas. Um dos primeiros artigos que li naquela manhã intitulava-se Why people vote for politicians they know are liars” (Porque é que as pessoas votam em políticos que sabem que são mentirosos), a pergunta premente na mente de muitas pessoas.

Thursday, 26 December 2019

Resistência: à mudança, mas também à tradição

Patrice Jackson a actuar em 2002 (Foto: Andrew Sacks para o The New York Times)

O meu primeiro post sobre música clássica, escrito em 2012, intitulava-se "Qual o problema com a música clássica? Aparentemente, nenhum... ”. Sete anos depois, ainda acredito que não há problema nenhum com o género em si, mas há vários problemas com o modo como está a ser gerido.

Há poucos dias, soube através de um artigo no New York Times que as mulheres não eram "admitidas" na Vienna Philharmonic até 1997. Ainda hoje, apenas 15 de seus 145 membros permanentes são mulheres. E elas representam no máximo 30% das orquestras clássicas da Europa continental.