Wednesday, 28 October 2020

Saturday, 19 September 2020

Os sonhos de diversidade das nossas equipas homogéneas

Jemma Desai, autora de "This work isn't for us"

Em 2020, o tema do Dia Internacional dos Museus (DIM) foi “Museus pela Igualdade: Diversidade e Inclusão”. No campo da Cultura, normalmente reflectimos sobre estes conceitos considerando os chamados “públicos”. Expressamos o nosso desejo de atrair mais pessoas, pessoas diversas, e de nos tornarmos num lugar “para todos”.

O tema do DIM deste ano permitiu-me dar um passo à frente (ou terá sido atrás?) e considerar: podemos esperar ser mais relevantes e criar relações com pessoas diversas (o "público") se nós (as equipas) permanecemos teimosamente homogéneos? Tive a oportunidade de colocar esta pergunta pela primeira vez num pequeno vídeo para o Museu Municipal Carlos Reis no DIM e, mais recentemente, numa mini-conferência para o Museu da Cidade de Aveiro, intitulado “Museus, Educação e Diversidade”. Este foi também um dos pontos levantados pela associação Acesso Cultura, à qual pertenço, ao comentar o relatório preliminar do Grupo de Projecto Museus no Futuro.

Friday, 11 September 2020

Os nossos valores "chá e simpatia"


Em Novembro de 2016, uma foto da sorridente directora do Museu Bizantino e Cristão
 em Atenas, Aikaterini Dellaporta, ao lado do Ministro de Negócios Estrangeiros da Rússia, Sergey Lavrov, provocou em mim um profundo desconforto. Tratava-se da inauguração da exposição “Hermitage: Gate in History”. Expressei o meu desconforto partilhando as causas do mesmo na página de Facebook do museu:

O governo de Lavrov está a realizar ataques aéreos contra civis na Síria (incluindo as crianças que vemos na televisão e que partem os nossos corações), apoiando um ditador. Eles também invadiram um país vizinho e ocupam uma parte dele. Porque é que o governo grego e o Museu Bizantino deram uma oportunidade ao Ministro de Negócios Estrangeiros russo e ao seu governo de parecerem... civilizados?

Friday, 4 September 2020

Estamos com as abelhas ou com os lobos?


Tania Bruguera, Tenda da Escuela de Arte Útil, 2017 em curso.
Imagem da instalação, Yerba Buena Center for the Arts, Março de 2020.
Foto: Yerba Buena Center for the Arts.

O julgamento da Aurora Dourada começou em Abril de 2015. O partido de extrema direita, que na altura ocupava 17 assentos no parlamento grego, foi acusado de ser uma associação criminosa, tendo cometido o assassinato do músico Pavlos Fyssas e as tentativas de assassínio do pescador egípcio Abuzeid Ebarak e de vários membros comunistas do sindicato PAME. Em Janeiro de 2020, o advogado de Ebarak, Thanassis Kabagiannis, fez a sua alegação final dizendo: “Porque naquela noite selvagem, não foi só o mundo dos lobos que agiu, porque aqueles que atacaram Pavlos Fyssas eram uma manada de lobos. O mundo das abelhas também agiu, emergiu, o mundo da solidariedade, da humanidade, o mundo que vê um homem caído, coberto de sangue, em necessidade, e não diz 'olha, um estranho', mas diz 'olha, o meu irmão.'"

Saturday, 11 July 2020

A "ameaça" dos museólogos




No seu livro “The constructivist museum”, George Hein cita Edward Forbes (naturalista britânico) que, numa palestra em 1853, disse que os curadores/conservadores podem ser prodígios de conhecimento e, ainda assim, impróprios para o seu lugar, se não sabem nada sobre pedagogia, se não estão preparados para ensinar pessoas que não sabem nada.

Anos mais tarde, em 1909, uma das minhas maiores inspirações, o director do Newark Museum, John Cotton Dana, disse que “um bom museu atrai, entertém, desperta curiosidade, leva ao questionamento e, assim, promove o conhecimento. (...) O museu só pode ajudar as pessoas se elas o usarem; elas o usarão apenas se souberem da sua existência e somente se for dada atenção à interpretação das suas colecções de forma que elas, as pessoas, possam entender”. E em 1917 escreveu ainda: “Hoje, os museus de arte são construídos para guardar objectos de arte e os objectos de arte são comprados para serem guardados em museus. Como os objectos parecem fazer o seu trabalho se forem mantidos em segurança, e os museus parecem servir o seu propósito se mantiverem os objectos em segurança, tudo isso é tão útil no esplêndido isolamento de um parque distante quanto no centro da vida da comunidade que o possui. Amanhã, os objectos de arte serão comprados para dar prazer, fazer com que as maneiras pareçam mais importantes, promover capacidades, exaltar o trabalho manual e reforçar o prazer de viver, juntando-lhe novos interesses.” (ambas as citações vêm do livro “Reinventing the Museum: Historical and Contemporary Perspectives on the Paradigm Shift” de Gail Anderson).

Sunday, 14 June 2020

A minha responsabilidade por este vandalismo

A estátua de Padre António Vieira (Foot: Nuno Fox para o jornal Expresso)
O vandalismo, a destruição ou a remoção de estátuas não é uma "moda" de hoje. Já sabia disso, mas não sabia quão velha era esta história. Numa entrevista ao New York Times, a historiadora de arte Erin L. Thompson mencionou que há estátuas de reis assírios que trazem gravadas maldições ("Aquele que derrubar a minha estátua, que sofra pelo resto da vida") e que datam de 2700 a.C. Segundo o jornal, Thompson tem dedicado a sua carreira ao estudo do significado da destruição deliberada de ícones do património cultural. Colocar uma estátua no espaço público é uma decisão política, uma declaração pública, uma tentativa de solidificar o reconhecimento dos valores, carácter e contribuição de uma pessoa à sociedade. O espaço público é um lugar de afirmação política; mas também de contestação. Essas afirmações públicas de uma versão oficial da história não são necessariamente imortais e não fazem necessariamente sentido para sempre.

Tuesday, 9 June 2020

Do silêncio para a hashtag para a tomada de posição


A notícia que o director do Toledo Museum of Art, Alan Levine, quis "re-enfatizar" nesta altura que o museu não tem uma posição política soou-me estranha e anacrónica. Não apenas porque me juntei há muito tempo ao grupo de profissionais da cultura que defendem que a cultura não é neutra ou apolítica, mas, principalmente, porque no contexto actual dos EUA, e de outros lugares, as coisas efectivamente mudaram.