Sunday, 19 June 2022

Quem tem medo da descolonização?

Humboldt Forum, Berlin (Foto: Maria Vlachou)

“Quem tem medo da descolonização?” é o título de um curso de formação que será organizado em Setembro pela NEMO – Network of European Museum Organisations, e acolhido pela UK Museums Association, SS Great Britain e Bristol Museums. Para quem não se lembra, Bristol é a cidade onde em Junho de 2020 a estátua do traficante de escravos Edward Colston foi derrubada e depois colocada em exposição (mas deitada) no M Shed Museum, o museu da cidade. Em Janeiro de 2022, um júri considerou quatro das pessoas que ajudaram a derrubar a estátua – os chamados “Colston Four” – inocentes de danos criminais.

Wednesday, 18 May 2022

Vamos correr juntos? Os 40 anos do Teatro Art'Imagem

Foto: Nuno Ribeiro

Nos dias 10 a 12 de Maio participei nas Jornadas 40 Anos de Teatro: Como o teatro se desenvolveu nos últimos 40 anos em Portugal, celebrando o aniversário do Teatro Art’Imagem. No primeiro dia, assistimos ao espectáculo “Ai o Medo Que (Nós) Temos de Existir”, 117ª criação da companhia. Nos dias seguintes, tivemos a oportunidade de reflectir sobre quatro temas: 

Painel 1: Teatro e Intervenção
com Sara Barros Leitão, José Leitão, Rita Alves Miranda e José Soeiro

Painel 2: Teatro: Praxis e Academia
com Fernando Matos Oliveira (Universidade de Coimbra), António Capelo (ACE), Manuela Bronze (ESMAE), Francesca Rayner (Universidade do Minho) e Eugénia Vasques 

Painel 3: Descentralização Teatral
com Helena Santos, Jorge Baião (Centro Dramático de Évora), Rui Madeira (Companhia de Teatro de Braga), Magda Henriques (Comédias do Minho) e Américo Rodrigues (DGArtes)

Painel 4: As minorias e o Teatro
com Flávio Hamilton, Zia Soares, Marta Lança, Francesca Negro, Vanesa Sotelo e Maria João Vaz 

Coube-me a mim a responsabilidade de fazer o encerramento, partilhando as minhas reflexões no seguimento do que foi discutido ao longo dos dois dias. Partilho-as aqui:

Saturday, 7 May 2022

De quem é a história para contar?

National Museum of African-American History and Culture, Washington D.C. (Photo: Justin T. Gellerson / NYT)

A primeira vez que ouvi falar de Emmet Till foi em 2017, quando o quadro “Open Casket” de Dana Schutz, exposto na Biennal do Whitney Museum, provocou uma enorme controvérsia. Emmet Till foi brutalmente assassinado, linchado, em 1955, após ter sido acusado de ter ofendido uma mulher branca na sua mercearia. Este assassinato impulsionou o Movimento dos Direitos Civis nos EUA. A mãe de Emmet, Mamie Till, pediu que o caixão permanecesse aberto durante o funeral do seu filho para as pessoas verem. As suas palavras recebem os visitantes no National Museum of African American History and Culture: “Deixem as pessoas ver o que eu vi. Penso que todas as pessoas precisam de saber o que aconteceu a Emmet Till.”

Monday, 7 March 2022

Mais algumas reflexões sobre o boicote cultural

State Hermitage Museum.

Tenho estado a acompanhar intensamente as notícias sobre a invasão da Ucrânia, a pensar nas formas como poderemos contribuir e ser úteis, tanto como indivíduos, como como profissionais do sector cultural. O meu ponto de partida é que a Cultura é tudo menos apolítica e, neste contexto, um dos temas mais controversos é o do boicote cultural.

As coisas estão se movendo rapidamente. Há apenas três dias, escrevi que não tinha conhecimento de nenhuma acção formal no sentido de cancelar artistas russos apenas porque são russos ou de remover compositores russos dos programas de concertos. No entanto, no Sábado passado, li o artigo de Javier C. Hernández no The New York Times sobre a expectativa expressa por várias entidades culturais para que artistas russos “esclareçam a sua posição”; sobre o cancelamento do concerto do jovem pianista Alexander Malofeev em Vancouver “pela sua própria segurança”; ou sobre a Ópera Nacional da Polónia ter desistido de uma produção de “Boris Godunov” de Mussorgsky… Definitivamente, as coisas estão a ficar descontroladas. O próprio Malofeev escreveu no Facebook que “A verdade é que todos os russos se sentirão culpados durante décadas pela terrível e sangrenta decisão que nenhum de nós poderia influenciar e prever”. Pergunto-me se terá sido “satisfatório” o suficiente…

Friday, 4 March 2022

Boicote cultural

 

Elena Kovalskaya. Screenshot do Facebook.

Há alguns dias, milhares de artistas russos assinaram uma carta aberta denunciando a invasão na Ucrânia. “Em nome da nossa comunidade profissional, é importante dizer que uma maior escalada da guerra resultará em consequências irreversíveis para os trabalhadores da cultura e das artes. O envolvimento com a cultura e as artes será quase impossível nessas condições.”

É impossível, para pessoas de ambos os lados e para muitas outras, para todos nós. É impossível no sentido de que o show can’t simply go on e não pode ser business as usual. Simplesmente não pode.

Wednesday, 23 February 2022

Os hábitos culturais… das organizações culturais portuguesas

 


“Muitas pessoas sentem-se desconfortáveis ​​com o rótulo 'as artes' e associam-no apenas às artes visuais ou à 'alta cultura', como o bailado ou a ópera. (…) Ao mesmo tempo, a maioria das pessoas neste país tem vidas culturais activas e valoriza oportunidades para ser criativa.” As frases não foram retiradas da publicação do estudo da Fundação Gulbenkian sobre os hábitos culturais dos portugueses. Foram retiradas do documento do Arts Council England Let’s Create, que apresenta a sua estratégia para a década 2020-2030. No contexto português, a primeira frase soa muito familiar; o estudo português não confirma a segunda, mas poderia ser um desejo. Será…?

Thursday, 10 February 2022

Ter tempo, dar tempo

 

S. Miguel, Açores (Foto: Maria Vlachou)

Há dias, li uma entrevista do realizador grego Sotiris Tsafoulias, em que dizia: “Ser artista não é uma profissão. Uma mulher que tem cinco filhos, não tem marido, limpa escadas e ainda põe uma tigela com água para um cão vadio ou olha para nós e diz ‘bom dia’, para mim, ela é uma artista. Uma pessoa não se torna artista quando pega num microfone, num pincel ou numa caneta. A forma como uma pessoa lida com a feiura, a forma como a metaboliza e a devolve como bondade ou como luz, a forma como se posiciona nos momentos sombrios da sua vida, para mim, é isto que faz de uma pessoa artista, independentemente da profissão.”