O livro de Hélène Landemore, “Politics without politicians: The case for citizen rule” (2026), foi uma leitura fascinante, para a qual “Agaist elections” (2016), de David van Reybrouck, tinha aberto o caminho para mim. Ambos partilham experiências recentes (das últimas três décadas) em que, inspiradas pelos princípios da democracia ateniense, diferentes sociedades (na Islândia, Irlanda, França, Bélgica, Canadá e EUA) tentaram reinventar o sistema de governação democrática, envolvendo cidadãos comuns na tomada de decisões através de sorteio.
Saturday, 18 July 2026
Tuesday, 14 July 2026
Culturas e valores na Europa
No mês passado, dois eventos separados por um dia marcaram a agenda da UE.
A 17 de Junho, o Parlamento Europeu votou a favor do aumento das deportações de pessoas sem documentos. Nem queria acreditar no que via quando vários eurodeputados de direita festejaram o resultado da votação com os punhos erguidos e gritos de "Mandem-nos de volta". Segundo The Guardian, a Amnistia Internacional de França descreveu os planos como "absurdos, cruéis e discriminatórios" e 16 especialistas da ONU apontaram as formas como as regras poderiam infringir os direitos humanos internacionais. Os gritos ouvidos no Parlamento Europeu elevam a crueldade e a barbárie a um novo patamar. Isto não pode ser normalizado. [Só no início de Julho vi uma resposta de Roberta Metsola, Presidente do Parlamento Europeu.]
Saturday, 6 June 2026
É o "playbook", estúpido!
“Era, na verdade, um político oportunista, America-first, anti-imigrante, anti-trabalhista e racista, com poucos escrúpulos, para quem o poder e a popularidade importavam mais do que a ideologia.”
“Percebeu como era fácil fazer manchetes atacando iniciativas progressistas como ‘anti-americanas’.”
“Percebeu que assustar as pessoas (os seus filhos estão a ser doutrinados e os homens negros querem dormir com as filhas) era muito mais eficaz do que o árduo trabalho de construção de consensos através da legislação.”
Embora a menção aos Estados Unidos permita aos leitores perceber de que país se trata, tenho a certeza de duas coisas:
- Não adivinhariam o ano.
- Hoje, todos nós, vindos de diferentes países, podemos ver aqui a descrição de vários políticos populistas e também de extrema-direita.
É por isso que se chama “The Playbook” (manual de instruções).
Monday, 13 April 2026
Heróis silenciosos
Para a Andreia Cunha
Para o Manuel Sarmento Pizarro
Em Fevereiro deste ano, o escritor e activista norte-americano John Pavlovitz escreveu uma carta aberta à então Procuradora-Geral: “Cara Pam Bondi (A carta de um pai)”. Durante quase um ano, pessoas de todo o mundo testemunharam a forma mesquinha, pouco inteligente, perversa, arrogante e, ao mesmo tempo, submissa como Bondi defendeu o seu mestre, o presidente dos EUA – e não O Povo. Pavlovitz resumiu os sentimentos que estes repetidos espetáculos provocaram em muitos de nós numa pergunta bastante simples: “Como é que alguém se torna Pam Bondi?”.
Thursday, 18 December 2025
Desejando a paz
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| Nemo, vencedor do Festival Eurovisão da Canção 2024 (Direito de autor: AP Photo) |
Há uns dias, a propósito da reacção abominável de Donald Trump ao assassinato do cineasta Rob Reiner e da sua esposa, a jornalista Patrícia Fonseca comentava que, há poucos (não muitos) anos, uma reacção deste género teria dado início a um processo de impeachment. Desta vez, não foram poucas as pessoas que classificaram a atitude de Trump como indigna para o posto que ocupa. No entanto, a verdade é que foi criada uma espécie de anestesia ao que Trump diz ou faz, como se fosse algo natural ou inevitável, como se não fosse possível exigir decência. O mesmo se verifica com outros políticos e chamados “influencers”, normalizando, assim, discursos de ódio ou não contestando a desinformação. Com todos os estragos que isto traz, acredito que não é por falta de sensibilidade, mas por falta de sentido de agência, que a maioria das pessoas não reage. Não reagimos porque pensamos que não vale a pena, porque nada vai mudar.
É uma questão de escala. A consciência de que, não podendo mudar o mundo, temos ainda o poder - como indivíduos e, sobretudo, como colectivo - de sonhar, de trabalhar para o mundo ao qual desejamos pertencer e de fazer acontecer.
Saturday, 11 October 2025
Cuidar do futuro
A minha intervenção ontem no Fórum Esfera(s), organizado pela Universidade de Coimbra. Ler aqui
Wednesday, 17 September 2025
Οι ευρωπαϊκοί πολιτιστικοί οργανισμοί έχουν ανοσία στην πολιτική πίεση;
To 2024, όταν κουβεντιάσαμε, ομάδες πίεσης στις ΗΠΑ, όπως οι Moms for Liberty, είχαν προσπαθήσει να απομακρύνουν από σχολικές και δημόσιες βιβλιοθήκες 2452 βιβλία (σύμφωνα με την ALA, που ανέφερε επίσης ότι την εικοσαετία 2001-2020, ο μέσος όρος ήταν 273). Τα βιβλία αναφέρονται κυρίως σε χαρακτήρες ή θέματα ΛΟΑΤΚΙΑ+, καθώς και στο ρατσισμό, την ισότητα, την κοινωνική δικαιοσύνη, τον αμερικανικό εμφύλιο ή τη θρησκεία. Πάμπολλες ειδήσεις αναφέρονται σε απειλές προς βιβλιοθηκάριους και απολύσεις, καθώς και στα σοβαρά προβλήματα ψυχικής υγείας που αντιμετωπίζουν οι επαγγελματίες αυτοί. Ρώτησα τότε την Emily αν υπερβάλλουμε όταν αντιδρούμε στις χώρες μας στην παραμικρή ένδειξη λογοκρισίας, μισαλλοδοξίας, μη ανεκτικότητας, λεκτικής βίας στο χώρο του πολιτισμού. “Κάθε άλλο”, μου απάντησε. “Εμείς φτάσαμε εδώ που φτάσαμε γιατί αφήναμε συνέχεια περιθώρια.”
Tuesday, 19 August 2025
Está a Cultura a dar resposta...?
Os jornalistas do Público Daniel Dias e Mariana Duarte assinaram um artigo intitulado “Está a cultura em Portugal a dar resposta ao que acontece na Palestina?”. Não me lembro de alguma vez os meios de comunicação social em Portugal terem questionado a resposta que a Cultura estaria a dar a um assunto político da actualidade. Os jornalistas afirmam que a sua peça vem à boleia do novo trabalho de Joana Craveiro sobre a Palestina. No entanto, conhecendo o trabalho político de Joana Craveiro/Teatro do Vestido e de outros artistas, não me lembro de haver este tipo questionamento noutras ocasiões. Desconfio, por isso, que este é um dos resultados do comunicado do Teatro Nacional D. Maria II (TNDMII) sobre Gaza e das reacções que provocou.
Saturday, 26 April 2025
A liberdade quer virtude e ousadia
Deixe aqueles que sentem pesada
A mão cuprosa do medo
Viver sob o jugo da escravidão;
Coragem e virtude é o que
A liberdade quer.
“Quarta Ode, A Samos” por Andreas Kalvos
Li o livro de Lonnie Bunch “A Fool’s Errand” como se fosse um romance fascinante. Com a mesma urgência, com o mesmo prazer e emoção. Tive a honra de conhecer Lonnie Bunch em Lisboa, há pouco mais de dois anos. Para além da sua inteligência, outra coisa que me marcou foi a sua humildade. Encontrei a combinação destas duas qualidades no livro também. E senti admiração pela sua generosidade em partilhar connosco esta aventura de criar um museu, começando com uma equipa de dois e sem colecção: os sonhos e as ambições, os valores e os princípios, os erros de julgamento, os fracassos, os sucessos planeados e não planeados. E também a visão subjacente de “tornar a América melhor”. Como disse Lonnie Bunch, não se tratava apenas de “que tipo de museu eu queria, mas também em que tipo de América eu acreditava” (p.183). Tudo isto junto dá-nos um dos manuais mais essenciais sobre liderança na área dos museus ou da cultura.
Monday, 24 February 2025
A máquina de lavar roupa do Donald
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| Sophia Linospori e Konstantina Mauropoulou em "A máquina de lavar roupa" de Thanasis Triaridis |
No mês passado, tive a oportunidade de ver a peça de Thanasis Triaridis “A máquina de lavar roupa”. Duas mães encontram-se três vezes numa lavandaria pública. No primeiro encontro, a mãe A parece perturbada, chocada, profundamente triste: no dia anterior, o seu filho teve a “honra” de realizar a decapitação pública de uma rapariga. A mãe B parece feliz e satisfeita, felicita a mãe A pelo filho e responde à sua preocupação dizendo-lhe que o seu filho fez algo nobre, obedeceu à lei e a lei cuida de todos. A lei diz que as raparigas não são úteis e, por isso, têm de ser eliminadas.
Sunday, 6 October 2024
Das silenciosas maiorias. Do medo e da liberdade.
Em Julho, escrevi
um artigo para o jornal Público sobre o que se tornou numa
situação extrema de proibição de livros nas bibliotecas escolares e públicas
dos Estados Unidos. Escrevi na altura que os livros contestados tratam
normalmente de questões LGBTQI+, raça e racismo, escravatura, genocídio de
povos indígenas, religião. Existem também inúmeras exigências para que os
livros sobre a puberdade sejam transferidos da secção juvenil para a secção de
adultos... Situações semelhantes estão a ocorrer no Brasil e noutros países,
sendo mais ou menos noticiadas pelos meios de comunicação mainstream.
Um relatório recente sobre a situação nos EUA, publicado pela Knight Foundation, mostrou alguns resultados muito relevantes: 78% das pessoas confiam nas suas escolas públicas para selecionar materiais apropriados; revelou também que “a maioria dos americanos se sente informada sobre os esforços para proibir livros nas escolas, mas apenas 3% dos inquiridos disseram que se envolveram pessoalmente na questão - com 2% a envolverem-se no sentido de defender o acesso aos livros e 1% a procurar restringir o acesso.” (ler mais). O que é que isto nos diz? Muitas pessoas estão informadas sobre o assunto, algumas, poucas, envolvem-se na defesa da liberdade de ler num país democrático, enquanto uma minoria vocal, muitas vezes violenta, tem permissão para decidir o que os outros podem ler e onde. Soa familiar?
Monday, 10 June 2024
“Primeiro ignoram-te. Depois riem-se de ti. Depois lutam contra ti. No fim, tu vences.”
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| Sufragista a ser presa pela polícia em 1914. (Imagem retirada de The Independent. PA Wire/PA Images) |
O título deste post são palavras de Ghandi, citadas por Rebecca Solnit no seu livro “Hope in the dark”. Cada época tem as suas causas específicas, mas, ao mesmo tempo, podemos observar e sentir o desenvolvimento de outras, vindas de trás. Solnit lembra-nos que as fases identificadas por Ghandi desenrolam-se lentamente e também que “Os efeitos não são proporcionais às causas – não só porque causas enormes por vezes parecem ter pouco efeito, mas porque causas pequenas ocasionalmente têm consequências enormes”. (pág.61).
Tenho pensado na forma como os activistas de diferentes causas são actualmente vistos e tratados. Quando escrevi um capítulo para o livro “The activist museum” (editado por Robert Janes e Richard Sandell), lembro-me de ter optado pela definição de activismo tal como aparecia na Wikipédia, já que os dicionários que consultei na altura muitas vezes lhe davam uma nuance agressiva, violenta, que me deixava insatisfeita. A agressão ou a violência não estão ausentes, claro, mas não são a única forma de ser activista. Relembrando uma entrevista de John Berger, ouvir é um acto (e, na minha cabeça, é aqui que o activismo realmente começa, em sermos capazes de ouvir).
Friday, 3 November 2023
Aptos para a democracia: tão natural como a água?
Este ano, tive a oportunidade
de passar três dias no FOLIO – Festival Literário Internacional de Óbidos.
Assisti, entre outras coisas, ao lançamento de “Voltas e Reviravoltas - A Cidadania”, de Ana Maria Magalhães
e Isabel Alçada, com ilustrações de Mantraste. Este é o segundo de 12 livros da
colecção infantojuvenil “Missão: Democracia”,
uma iniciativa da Assembleia da
República, com curadoria da Dora Batalim SottoMayor.
Nesse evento, Isabel Alçada disse que, para os jovens hoje, a democracia é tão natural como abrir a torneira e sair água. Apontei esta afirmação no meu caderno. Criou um desconforto em mim naquele momento e, posteriormente, voltei a ela em diversas ocasiões. Porque, do ponto de vista empírico, não vejo nada disso à minha volta. Porque o oposto da repressão política não é necessariamente uma democracia de qualidade, uma democracia saudável, uma democracia tão natural como a água que sai da torneira.
Monday, 16 October 2023
A política e a música clássica
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| O logo da campanha pelo "Sim" no Voice Referendum. |
Ler que a Playlist da Oakland Symphony vai receber e celebrar a Angela Davies deu-me alguma esperança esta manhã, no meio das terríveis notícias que temos vindo a acompanhar na última semana. "Ativista. Educadora. Consciência de uma geração. Ela vai partilhar a música que inspirou a sua coragem e o seu compromisso”, lê-se no website da orquestra. “Coragem” e “compromisso” tornaram-se atributos essenciais para as organizações culturais dos EUA, tendo em conta os desafios enfrentados pela democracia naquele país. Há poucos dias, senti-me verdadeiramente deprimida ao ler sobre a recusa de uma estação de rádio da Carolina do Norte a transmitir óperas da Metropolitan Opera que considerava “inapropriadas”. A recusa, li num artigo, “ocorre num momento em que a Metropolitan Opera está ansiosa por mostrar o seu compromisso com óperas e obras escritas recentemente, fora do cânone tradicional da música escrita por homens brancos. Três das óperas que a WCPE considera rejeitar na temporada 2023-24 foram escritas por compositores negros ou mexicanos. Em Abril passado, a WCPE também se recusou a transmitir outra ópera produzida pelo Met, escrita por um compositor negro que incluía temas LGBTQ”. Considerando os esforços da Met para ir além do “cânone” e tornar-se mais relevante para mais cidadãos nos EUA, a gerente da estação de rádio expressou profundas preocupações morais, tais como “E se uma criança ouvir isto? Quando eu estiver diante de Jesus Cristo no Dia do Juízo, o que direi?”. No dia 5 de Outubro, chegou a notícia de que a estação de rádio tinha revertido a sua decisão devido a críticas generalizadas.
Sunday, 1 October 2023
A censura nem sempre nos incomoda, não é verdade?
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| Imagem retirada da página de Facebook do LUCA - Teatro Luís de Camões |
O Fitzwilliam Museum em Cambridge é um dos mais conhecidos museus universitários. A sua actual exposição Black Atlantic: Power, people, resistance questiona-nos: “Quais as histórias que são lembradas, e porquê?”. O museu afirma que esta exposição explora algumas histórias novas da História, questionando o papel de Cambridge no comércio transatlântico de pessoas escravizadas.
Em 1816, Richard Fitzwilliam doou muito dinheiro, literatura e arte à Universidade de Cambridge, que deu origem ao museu. As doações foram possíveis graças à enorme riqueza de seu avô, Sir Matthew Decker, um comerciante inglês nascido na Holanda que ajudou a estabelecer a South Sea Company em 1711, responsável pelo tráfico de pessoas escravizadas da África. Respondendo a uma necessidade e exigência de uma parte da sociedade – mas também sua, parece-me – o museu coloca o dedo na ferida, questionando-se a si próprio e o seu contributo na perpetuação de uma determinada história.
Saturday, 3 December 2022
É mesmo tão difícil de compreender?
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| Foto: Justo Stop Oil via The New York Times |
“Museus apertam vigilância preocupados com ações de ‘terrorismo’ ambientalista contra arte”. Não sei se foi a palavra “terrorismo” no título que me chocou mais ou as próprias respostas dadas ao jornalista por diferentes directores de museus portugueses. Respostas que revelam total distanciamento da questão da emergência climática e do papel e impacto que os museus têm sobre ela. Fiquei estupefacta quando o director de um museu nacional afirmou que tinha “alguma dificuldade em perceber o que os museus e as obras de arte têm a ver com este tipo de protesto ambientalista” e que “Está relacionado com a questão do petróleo e da poluição, mas as obras de arte não têm culpa nenhuma. São ações mediáticas, mas é difícil de perceber porque têm as obras de arte de pagar por isto.” Um outro director de um museu nacional disse que considera estas ações preocupantes porque os museus “guardam, restauram e exibem coleções únicas no mundo, [que] estes casos são ‘preocupantes’ para estes espaços culturais, porque "colocam em risco um património que é de todos" e que "deve ser protegido para as atuais e futuras gerações" (essas palavras não serviriam perfeitamente para discutir o nosso património natural e a nossa obrigação para com as gerações futuras?).
Monday, 18 July 2022
Solidariedade em acção
Nos últimos 18 meses, tenho tido o privilégio de fazer parte de uma rede internacional de profissionais de museus chamada “Solidarity in Action”. Há um ano, sou também membro do seu conselho consultivo. Juntamente com as lições ensinadas pela pandemia, esse incrível grupo de pessoas (liderado pela incansável e motivadora Bernadette Lynch) deu-me a oportunidade de aprofundar o meu pensamento e prática de solidariedade. Permitiu-me também compreender melhor a palavra na minha língua materna, a língua que mais “se sente”.
Saturday, 7 May 2022
De quem é a história para contar?
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| National Museum of African-American History and Culture, Washington D.C. (Photo: Justin T. Gellerson / NYT) |
A primeira vez que ouvi falar de Emmet Till foi em 2017, quando o quadro “Open Casket” de Dana Schutz, exposto na Biennal do Whitney Museum, provocou uma enorme controvérsia. Emmet Till foi brutalmente assassinado, linchado, em 1955, após ter sido acusado de ter ofendido uma mulher branca na sua mercearia. Este assassinato impulsionou o Movimento dos Direitos Civis nos EUA. A mãe de Emmet, Mamie Till, pediu que o caixão permanecesse aberto durante o funeral do seu filho para as pessoas verem. As suas palavras recebem os visitantes no National Museum of African American History and Culture: “Deixem as pessoas ver o que eu vi. Penso que todas as pessoas precisam de saber o que aconteceu a Emmet Till.”
Monday, 7 March 2022
Mais algumas reflexões sobre o boicote cultural
| State Hermitage Museum. |
Tenho estado a acompanhar intensamente as notícias sobre a invasão da Ucrânia, a pensar nas formas como poderemos contribuir e ser úteis, tanto como indivíduos, como como profissionais do sector cultural. O meu ponto de partida é que a Cultura é tudo menos apolítica e, neste contexto, um dos temas mais controversos é o do boicote cultural.
As coisas estão se movendo rapidamente. Há apenas três dias, escrevi que não tinha conhecimento de nenhuma acção formal no sentido de cancelar artistas russos apenas porque são russos ou de remover compositores russos dos programas de concertos. No entanto, no Sábado passado, li o artigo de Javier C. Hernández no The New York Times sobre a expectativa expressa por várias entidades culturais para que artistas russos “esclareçam a sua posição”; sobre o cancelamento do concerto do jovem pianista Alexander Malofeev em Vancouver “pela sua própria segurança”; ou sobre a Ópera Nacional da Polónia ter desistido de uma produção de “Boris Godunov” de Mussorgsky… Definitivamente, as coisas estão a ficar descontroladas. O próprio Malofeev escreveu no Facebook que “A verdade é que todos os russos se sentirão culpados durante décadas pela terrível e sangrenta decisão que nenhum de nós poderia influenciar e prever”. Pergunto-me se terá sido “satisfatório” o suficiente…
Friday, 4 March 2022
Boicote cultural
| Elena Kovalskaya. Screenshot do Facebook. |
Há alguns dias, milhares de artistas russos assinaram uma carta aberta denunciando a invasão na Ucrânia. “Em nome da nossa comunidade profissional, é importante dizer que uma maior escalada da guerra resultará em consequências irreversíveis para os trabalhadores da cultura e das artes. O envolvimento com a cultura e as artes será quase impossível nessas condições.”
É impossível, para pessoas de ambos os lados e para muitas outras, para todos nós. É impossível no sentido de que o show can’t simply go on e não pode ser business as usual. Simplesmente não pode.

















