Wednesday, 29 July 2015

Praticante, não católico

Fotografia retirada do website do jornal Expresso

Para mim, uma pessoa culta não é alguém com um conhecimento profundo sobre várias matérias, que lê muitos livros, que vai muitas vezes a museus e ao teatro, que viaja e conhece o mundo. Uma pessoa culta para mim é alguém que faz tudo isso e mais coisas ainda e que tenta colocar o seu conhecimento e experiências em prática procurando reconstruir o mundo, um mundo melhor. Ser uma pessoa culta não é algo inato para nós, seres humanos. É um exercício mental e prático diário contra a nossa barbárie interior, contra a nossa ignorância.

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Na noite de 15 de Julho, o parlamento grego votou num novo pacote de resgate proposto / imposto pela União Europeia. Apenas dez dias depois do histórico (e, para mim, surpreendentemente forte) "não" no referendo grego, as coisas tomaram um rumo diferente e a resistência orgulhosa e desesperada dos cidadãos deu lugar a um golpe de estado.

Depois de uma discussão decepcionante, quando começou a votação e os nomes dos deputados foram sendo chamados, não pude conter as minhas lágrimas. Depois de cada nome, depois de cada "sim" e de cada "não", parecia que o buraco negro ia ficando maior. O buraco para enterrar o orgulho de um povo, as esperanças de muitas pessoas, a nossa tormentada democracia, a nossa ideia de uma "união" - de uma União Europeia.

Passei horas e horas nos últimos meses lendo intensamente – a imprensa europeia, americana, africana e do Médio Oriente; blogs; tweets; posts no Facebook. Foi esclarecedor e confuso ao mesmo tempo. Poderíamos deparar-nos com argumentos muito lógicos e bem construídos que defendiam pontos de vista completamente contraditórios. Houve momentos em que a busca da "verdade" se tornava desesperante, mas tudo o que se podia obter era pontos de vista e tudo o que se podia fazer era tentar chegar a algum tipo de conclusão credível.

Foi entre esses pontos de vista que identifiquei aquilo que foi para mim uma das partes mais preocupantes e tristes de toda essa discussão. Fiquei surprendida com o quão fácil foi para cidadãos de todas as idades de diferentes países da "União Europeia" adoptarem e perpetuarem visões estereotipadas sobre as pessoas de um outro país da "união", generalizando-as e transformando-as em verdades absolutas em relação a indivíduos com os quais poderiam nunca se ter cruzado na vida. Visões baseadas em manchetes, em conversa fiada, assumidas sem qualquer questionamento. Verdades boas o suficiente.

De um momento para o outro ficámos vazios da nossa cultura. Europeus no nome, mas isso era tudo. Para onde foi a nossa União e tudo o que ela representa? Os nossos valores comuns? As lições que aprendemos no passado? O desejo de construirmos juntos algo melhor? O que aconteceu ao nosso pensamento crítico e à nossa capacidade de procurar mais, de procurar respostas para além do que se vê na superfície? Como pode ser difícil a prática de nossa cultura...

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A reacção do Papa Francisco em relação ao mais recente capítulo da crise grega apanhou-me de surpresa. Ele encorajou os fiéis antes do referendo a rezar pela Grécia e disse que "A dignidade da pessoa humana deve permanecer no centro de qualquer debate político e técnico, bem como na tomada de decisões responsáveis."

Poucos meses antes, na conferência O Lugar da Cultura, Álvaro Laborinho Lúcio, no seu brilhante comentário da sessão "Cultura, para além da religião", questionou se "(...) esta dimensão do Papa Francisco vem de sua compreensão teológica do mundo e da vida ou se vem da sua origem, da América Latina". Laborinho Lúcio continuou e perguntou: "Não estaremos a criar uma figura nova, para colocar ao lado da velha e desconceptualizada figura do 'católico, não praticante'? Não será que nós estamos hoje a ter que ser confrontados com uma figura nova do 'praticante, não-católico' ?".

Estamos? Que mundo maravilhoso este seria...




Agradecimento:
Mike Santos

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